A Vaca Humana

Greta estava há bastante tempo atrás daquela exclusiva. Desde que começou sua carreira como jornalista, tentava conseguir uma entrevista com Julián Álvarez, um dos empresários mais importantes do país e, ao mesmo tempo, um dos mais difíceis de encontrar. Ele quase não concedia entrevistas, raramente aparecia em público e parecia ter um cuidado especial em manter sua vida longe da mídia. Justamente por isso, as últimas notícias tinham despertado ainda mais o interesse de Greta: ele havia comprado uma enorme extensão de terra no campo e, desde então, vários vizinhos juravam ter visto mulheres entrando na propriedade, embora fossem poucas as que pareciam sair de lá. Muitas mulheres. Demais para que ninguém fizesse perguntas. Nos meios de comunicação já se falava em tráfico de mulheres, prostituição e todo tipo de negócios ilegais; circulavam rumores de um lado para o outro e, como sempre, havia mil teorias, mas nenhuma prova que as sustentasse. E, finalmente, Julián havia concedido uma entrevista a ela. A notícia havia deixado sua chefe extremamente feliz, que até a liberou mais cedo da redação naquele dia para que pudesse ir para casa se preparar. Tinham pedido que ela estivesse lá por volta das sete da noite, justo quando Julián terminava seu expediente, e Greta não pretendia desperdiçar nem um minuto daquela oportunidade. Ela estava há tempo demais tentando consegui-la para se apresentar sem estar preparada. Quando chegou em casa, tomou banho, lavou o cabelo e começou a se arrumar com mais cuidado do que de costume. Queria causar uma boa impressão, sim, mas acima de tudo queria que Julián a levasse a sério. Queria mostrar que era uma boa jornalista e que, embora aquela fosse sua primeira oportunidade com alguém como ele, sabia perfeitamente o que estava fazendo. Vestiu uma blusa branca, abotoada deixando os dois primeiros botões abertos, e uma saia preta que lhe chegava à metade da coxa. Para completar o conjunto Escolheu umas botas de cowboy, talvez um pouco menos formais do que usaria para outra entrevista, mas de que gostava demais para descartá-las. Postou-se diante do espelho enquanto terminava de ondular o cabelo e passou os dedos entre os cachos para que ficassem soltos, caindo quase até a metade das costas. Não se considerava excessivamente bonita, pelo menos não daquelas mulheres que entravam num ambiente e faziam todo mundo virar a cabeça para olhar, mas sabia que era chamativa. Seu corpo tinha curvas marcadas e um peito generoso que se encaixava na sua figura sem parecer fora de lugar. A pele muito branca fazia as sardas do rosto se destacarem ainda mais, e o cabelo loiro e cacheado terminava de lhe dar um visual difícil de ignorar. Olhou-se mais alguns segundos, inclinou levemente a cabeça e acabou fixando o olhar nos seus olhos castanhos, claros. Muito claros.
—Bom —murmurou para si, antes de se afastar do espelho—. Vamos nessa.
Aqui faria uma edição similar à anterior, mantendo a tensão sutil de Greta e sem adiantar nada que o texto ainda não quer revelar. Também corrigi algumas construções que soavam meio mecânicas e integrei melhor as observações de Greta na narração.
Saiu de casa e chamou um táxi. Seu carro estava na oficina e, àquela hora, ninguém podia levá-la, então não tinha muitas opções. Enquanto esperava na rua, pegou o celular e mandou uma mensagem para a chefe avisando que já estava a caminho e que, assim que terminasse a entrevista, contaria como tinha sido.
O trajeto durou menos de meia hora.
Quando o táxi parou em frente à propriedade, Greta pagou e desceu, ficando alguns segundos parada enquanto erguia o olhar para o portão que tinha à frente. Era enorme, alto e completamente opaco; de fora não havia como ver o que tinha do outro lado. Engoliu em seco, ajustou a bolsa no ombro e se aproximou da campainha tentando ignorar o pequeno formigamento que percorria o estômago. Tinha entrevistado políticos, empresários e gente muito mais acostumada a falar com jornalistas do que ela a conseguir uma exclusiva, mas aquela vez era diferente. Talvez porque fazia tempo demais que tentava chegar até aquele homem.
Sim. Aqui convém cortar bastante: a entrevista não precisa de tantas perguntas sobre a empresa antes de chegar ao assunto central. Manteria uma breve entrada profissional, uma ou duas perguntas sobre os terrenos e depois iria direto aos rumores. Assim a cena avança e a tensão não se dilui.
Deixaria assim:
Apertou a campainha.
Durante alguns segundos só ouviu um leve ruído de interferência antes que uma voz masculina soasse do outro lado do interfone.
—Greta?
A pergunta a pegou desprevenida. Piscou e se inclinou levemente em direção ao aparelho.
—Sim —respondeu, odiando um pouco o tom agudo que sua voz havia adquirido.
Um clique precedeu a abertura dos enormes portões. Greta deu um passo para trás enquanto observava o terreno que se estendia do outro lado. Era muito maior do que imaginara, com um caminho que levava até uma casa bem afastada da entrada e vários campos que se perdiam dos dois lados.
Julián avançava em direção a ela desde a casa. Greta o reconheceu na hora pelas fotografias que tinha visto nos últimos dias, embora pessoalmente fosse diferente. Usava um terno perfeitamente passado, o cabelo cuidadosamente penteado e alguns fios grisalhos começavam a aparecer nas têmporas. Não era um homem especialmente bonito, mas havia algo no seu jeito de andar e na segurança com que parecia se mover por aquele lugar que conseguiu deixá-la ligeiramente nervosa.
—Bem-vinda, Greta! Como você é pontual. Vamos, vamos começar.
Se afastou para que ela passasse e depois começou a andar em direção à casa, indicando com um gesto que o seguisse.
—Você tem uma fazenda? —perguntou ela enquanto caminhavam.
—Tenho. Depois, se quiser, te mostro o terreno.
—Gostaria. Greta olhou ao redor com discrição. Tinha imaginado encontrar mais movimento depois de tudo o que havia lido, mas não viu nenhuma mulher nem nenhum trabalhador. Só estavam os dois. Julián abriu a porta da casa e a conduziu por um corredor até um escritório amplo, decorado com móveis escuros e várias estantes cheias de livros e arquivos. Apontou uma das poltronas enquanto se aproximava de uma mesinha. —Quer beber alguma coisa? —Um refrigerante, se tiver. —Claro. Enquanto ele saía do escritório, Greta tirou o gravador e o colocou sobre a mesa junto ao seu bloco de notas. Quando Julián voltou com duas latas, entregou uma a ela e se sentou à sua frente. —Se importa que eu grave? —De jeito nenhum. Greta apertou o botão e esperou a luz vermelha acender. —Pra começar, muito obrigada por me receber. Sei que você não costuma dar entrevistas. —Não gosto muito da mídia. —Foi o que ouvi dizer. Julián sorriu de leve. —Então você sabe que teve sorte. Greta retribuiu o sorriso e baixou o olhar para suas anotações. —Sua empresa cresceu muito nos últimos anos. A que você atribui esse crescimento? Durante os minutos seguintes falaram dos negócios dele, dos investimentos que havia feito e da expansão da empresa. Julián respondia com tranquilidade e Greta tomava algumas notas, até que finalmente chegou ao assunto que realmente lhe interessava. —Um desses investimentos foi a compra desses terrenos. Por que você decidiu fazer isso? Julián levou alguns segundos antes de responder. —Eu queria ampliar minhas propriedades e aqui encontrei uma boa oportunidade. —E o que exatamente você faz com elas? —Agricultura, principalmente. Tenho algumas plantações e uma fazenda. Greta assentiu, mas não tirou os olhos dele. —Também se falou muito sobre o que acontece aqui. A expressão de Julián mal mudou, mas ele deixou a lata sobre a mesa. —Ah, é? —Tem vizinhos que garantem ter visto muitas mulheres entrando na propriedade e que algumas não parecem voltar a sair. Também circulam rumores sobre prostituição e tráfico de mulheres.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada. Julián apoiou os antebraços nos descansos de braço e olhou diretamente para ela.
—As pessoas falam muito.
—Sim, mas tem gente que diz ter visto elas.
—Pessoas que entraram aqui?
—Não.
—Então viram o que acontece de fora. Não é exatamente a mesma coisa.
Greta assentiu devagar.
—Então você nega que tem mulheres aqui?
—Não disse isso.
Ela levantou levemente as sobrancelhas e esperou.
Julián sustentou o olhar dela por mais alguns segundos antes de continuar.
—Nunca obriguei uma mulher a fazer algo que não quisesse.
Greta deixou a caneta sobre o caderno.
—Nunca?
—Nunca.
—E o que elas fazem aqui?
Julián se recostou na poltrona.
—Trabalham. Algumas vêm por temporadas. Outras ficam mais tempo. Depende.
—E por que tantas?
Ele sorriu de um jeito difícil de interpretar.
—Você é bem insistente.
—É meu trabalho.
—É.
Greta baixou o olhar para suas anotações, mas voltou a sentir os olhos de Julián sobre ela. Tentou continuar escrevendo como se nada fosse, mas acabou errando uma palavra e teve que riscá-la.
—Eu não sou assim, Greta —disse ele então, com um tom mais baixo—. Não obrigaria uma mulher a fazer algo que ela não quer.
Greta levantou os olhos. Julián continuava olhando fixamente para ela e, por um instante, foi difícil sustentar o olhar dele. Baixou o dela para o caderno e virou uma página, mesmo sem ter terminado de escrever o anterior.
—Então suponho que vou ter que te perguntar o que realmente acontece aqui.
O sorriso de Julián ficou só um pouco mais evidente.
—Suponho que sim.
Greta levantou o olhar de novo, mas ele já tinha pegado a lata de refrigerante outra vez.
—Mais alguma coisa?
Ela hesitou um segundo.
—Por enquanto, não.
Julián assentiu e se levantou.
—Então acho que terminamos.
Greta quase insistiu, mas ele já tinha se levantado. Ela fechou o caderno e desligou o gravador antes de guardá-lo com cuidado na bolsa. Não estava completamente satisfeita com a entrevista. Tinha conseguido declarações que podia usar, mas continuava com a sensação de ter passado perto demais de algo sem chegar a vê-lo de verdade. Julián tinha respondido a tudo sem terminar de explicar nada e, quanto mais pensava nas respostas dele, menos segura ficava do que podia tirar de concreto dali.
—Eu te disse que podia te mostrar os terrenos —comentou ele enquanto se dirigia para a porta—. Se você ainda tiver tempo.
Greta se levantou e pendurou a bolsa no ombro.
—Sim, claro.
Saíram do escritório e atravessaram de novo o interior da casa. Quando Julián abriu a porta principal, o ar fresco da tarde bateu no rosto dela, e Greta agradeceu poder sair daquela sala, onde as paredes pareciam ter absorvido a respiração dela por horas. O caminho se estendia à frente deles e, visto dali, o terreno parecia ainda maior, uma extensão de terra que se perdia além do que os olhos dela conseguiam medir.
Julián começou a andar sem pressa, enfiando uma mão no bolso da calça enquanto apontava com a outra algumas áreas da propriedade.
—Ali são os campos de cultivo —disse, e a voz dele soava diferente sob o céu aberto, mais relaxada, como se o ar de fora permitisse que ele respirasse mais fundo—. Este ano plantamos trigo e algumas hortaliças. Mais ao fundo temos as estufas.
Greta seguiu a direção da mão dele e distinguiu várias extensões perfeitamente delimitadas, linhas retas que cortavam a terra com precisão quase cirúrgica. Ao se aproximar, pôde ver que, de fato, havia trabalhadores espalhados pelos campos. Alguns estavam agachados entre as fileiras de cultivo, as costas curvadas em ângulos que pareciam dolorosos de sustentar por horas, e outros se deslocavam de um lado para o outro com ferramentas e pequenas caixas de madeira que batiam contra as coxas ao caminhar. A cena era muito muito mais normal do que ela tinha esperado, depois de tudo o que tinha ouvido antes de ir para lá, aqueles rumores que agora lhe pareciam ridículos sob a luz do sol da tarde.
—Então você realmente tem trabalhadores —comentou, e notou que sua voz saiu mais alta do que o necessário, como se o silêncio do campo a obrigasse a competir com ele.
Julián virou a cabeça na direção dela, e naquele movimento houve algo que ela não soube definir, uma pausa breve demais no giro do seu pescoço.
—Nunca disse que não os tinha.
—Não. Mas durante a entrevista parecia que aqui não trabalhava ninguém.
Ele continuou caminhando, e ela teve que apressar o passo para se manter ao lado dele. Quando falou, não a olhou.
—Você perguntava por mulheres.
Greta o olhou de esguelha, mas ele continuava avançando com o olhar fixo em algum ponto do horizonte, como se não tivesse dito nada que merecesse uma resposta. Ela deixou escapar uma respiração curta, sentindo como o ar ficava preso em algum lugar entre a garganta e o peito, e voltou o olhar para os campos. Um dos trabalhadores levantou a cabeça ao vê-los passar e cumprimentou Julián com um gesto de mão que deixou suspenso no ar por um segundo longo demais. Ele respondeu com um movimento breve de cabeça antes de continuar avançando, e Greta percebeu que não tinha trocado uma única palavra com aquele homem, que a comunicação entre eles tinha se limitado àquele gesto mecânico, quase de autômatos.
Caminharam alguns metros em silêncio, o som dos seus passos sobre a terra compacta marcando um ritmo que nenhum dos dois tentava quebrar. Foi ela quem finalmente falou, quando a distância entre eles e a casa já era suficiente para que a pergunta não pudesse viajar de volta.
—E a fazenda? —disse, e sua voz soou estranha aos seus próprios ouvidos, como se pertencesse a outra pessoa—. Antes você disse que tinha uma.
Julián parou.
Pela primeira vez desde que tinham saído da casa, não respondeu imediatamente. Se ficou parado, com as mãos ao lado do corpo, olhando para uma área mais afastada da propriedade, onde várias árvores de folha perene escondiam parte do terreno sob uma sombra densa que parecia mais escura do que a hora do dia justificava. Mal se podia distinguir uma construção ao fundo, uma massa retangular que se confundia com o tronco das árvores. Depois virou a cabeça para Greta, e em seu rosto apareceu algo que ela demorou para identificar como um sorriso.
Não foi um sorriso aberto nem especialmente amigável. Apenas uma pequena curva nos lábios, o canto esquerdo levantado um milímetro a mais que o direito, como se aquela pergunta tivesse lhe causado graça por algum motivo que ela desconhecia e que, intuía, também não iriam lhe explicar. fim do primeiro capítulo

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