Aulas de Teatro para Adultos - Capítulo V

E aí, beleza? Tô trazendo a quinta parte dessa história. Só um esclarecimento: nessa parte, os nomes dos atores e dos personagens da peça se misturam. As cenas narradas sem diálogo usam os nomes dos personagens, e as cenas com diálogo usam os nomes dos atores. É tipo pra destacar a diferença entre as cenas contadas e as vividas (pra dizer assim). Espero que dê pra entender. Como sempre, valeu a todo mundo. Curtam aí.Capítulo V — Troca de PapéisNa madrugada de quinta-feira, dormi muito pouco. Eu estava ansiosa pelo que aconteceria à tarde. Imaginei milhares de situações diferentes e como lidar com elas. Ensaiando os diálogos na minha cabeça, tentando acertar a entonação, a ênfase, a expressão que deveria acompanhar. Claro, meu marido nem percebeu. Eu não parei de me virar na cama e o imbecil roncou a noite toda.

À tarde, preparei tudo, coloquei uma roupa esportiva, nada chamativa, e fui para o instituto. Cheguei cedo, acho que por causa da ansiedade, e ao chegar vi que a Lili estava matando tempo sentada no capô do carro, fumando.

Ela estava vestida para arrasar. Tinha colocado uma calça branca justa que destacava o formato escandaloso das pernas dela e, especialmente, a bunda, que estava em perfeita forma graças à academia. Em cima, uma camiseta verde, também justa, com um decote bem pronunciado. Embora a Lili não tivesse o mesmo tamanho que eu na parte da frente, ela estava muito bem. Não sou lésbica, mas reconheço a beleza em uma mulher, e a Lili sabia como realçá-la. Para não ficar atrás, fez a mecha permanente e se maquiou mais do que o normal. Praticamente se produziu como se fosse para a balada.

—Caralho, que pintosa. Pra qual balada a gente vai? — Perguntei, elogiando.

—Não, não. É o figurino de uma estrela de Hollywood… Em potencial, pelo menos.

Ficamos na calçada do instituto esperando a hora de entrar. A Lili falava pelos cotovelos. Dava pra ver que ela estava tão ansiosa quanto eu. Ao ouvir alguns assovios vindos de várias direções, decidimos entrar antes da hora. A secretária nos indicou para passar atrás da mesa dela, onde ficava a cozinha original da casa. De lá, saímos para o pátio, e no fundo dele, tinha o galpão, por assim dizer, que servia de sala de ensaios.

Entramos e vimos um mini-teatro. À direita, havia duas fileiras de poltronas, no nível do chão. À esquerda, uma escadinha de madeira. levava ao palco, que já estava decorado de forma adequada. Uma cozinha com bancada e armário, que evidentemente foi construída como parte do que certamente havia sido uma churrasqueira. Em seguida vinha um conjunto de sala com um sofá, duas poltronas individuais e uma mesinha de centro. Atrás disso havia uma mesa de sinuca, na qual estavam jogando Jorge e Daniel. E no fundo do palco, havia uma cama de casal, ao lado de um cabideiro longo, abarrotado de ternos e vestidos de todos os tipos.

Cumprimentamos os rapazes, que ficaram babando olhando para nós. Especialmente para a Lili.

—Olha, Pato. Vamos fazer A Cor do Dinheiro… —Disse Lili, apontando para eles. —Espero que atuem bem, porque não se parecem em nada. Hahaha.

—Olha, garoto, o Ricardo tinha razão. —Disse Jorge, devolvendo a piada. —Você vai fazer de Olmedo, eu de Portales, e aí você tem a Silvia Perez e a Beatriz Salomon.

—Daqui a pouco aparece correndo gritando ‘Parem as rotativas…’ —Entrou Daniel, se juntando à zoeira.

Todos nós rimos das ideias, já que em algum momento Ricardo havia mencionado Não Toque no Botão. Fiquei tentada a rebater dizendo que eu tinha duas coisas que a Silvia Perez não tinha, mas fiquei quieta. Não tinha ido provocar homens aleatoriamente. Embora naquele momento não me importasse de fazer exatamente isso com o Profe.

Estávamos nisso quando apareceu Ricardo. Subiu pela escadinha vestido de paletó esporte, calça combinando, com o cabelo mais curto, e barbeado. Até parecia ter escurecido um pouco o cabelo. Honestamente, achei ele ainda mais gostoso naquele momento. Fiz um esforço para não olhá-lo dos pés à cabeça, mas não consegui. Lili não fez esforço nenhum, simplesmente olhou sem disfarce.

—Meu estimadíssimo elenco… Chegou a hora da verdade… Não, perdão, é ao contrário. Acabou a hora da verdade e chegou a hora da ficção. Se é que estão preparados, e com vontade…

—Como sempre, Profe. —Disse Lili, flertando.

—Muito bem. Então a Escolinha acabou, agora estamos trabalhando. Esqueçam essa coisa de Professor. Me chamem de Ricardo, ou Senhor Diretor, ou como preferirem, mas o professor não veio hoje. Hoje veio o diretor da peça. Entenderam?

Todos assentimos em silêncio, talvez um pouco assustados com a mudança de atitude dele.

—Bom. Primeiro o mais importante. Leram o roteiro? —Perguntou inquisitivamente. Assentimos de novo.

—Bom. Vamos distribuir os papéis. Conseguem imaginar, pelo que leram, que papel cada um vai fazer?

—Acho que pela idade, eu deveria fazer o Rodrigo. —Disse Daniel. Rodrigo, na peça, era o estudante que precisava de uma professora particular para não repetir de ano.

—Bom. Quem segue?

—Pela mesma lógica, eu deveria fazer o Andrés. —Adivinhou Jorge. O personagem Andrés era o pai do Rodrigo, empresário que tinha dificuldade de se relacionar com a família por causa da rigidez do trabalho.

—Lili, Pato…

—O Pato faz de empregada. Hahaha. —Soltou a Lili, pra quebrar o gelo.

—Lili, você vai fazer a Mercedes. A esposa, também viciada em trabalho e calmantes, do Andrés, e mãe do Rodrigo. Pato, você é a protagonista, Alicia, a coitada que perde o marido e fica encarregada de destruir esses três.

—Que responsa…

—Eu vou fazer o velho Mario, que morre quase no começo. Vão nos faltar alguns personagens, como o marido morto, e a empregada. Mas a gente arruma algo. Ainda tem tempo. E nos ensaios, às vezes vamos ter que substituir algum personagem. Tá de acordo?

—Cem por cento de acordo… —Afirmou Jorge.

—Barra pesada. Vamos começar com algo simples. A cena onde a Alicia se apresenta pra família. A entrevista de emprego, por assim dizer. Vão um por um se trocar. Jorge: camisa, paletó e gravata. Daniel: bermuda e jaqueta. Não procura a vermelha e preta, que não tá. Lili: conjunto de escritório. Pato: vestido branco florido. Têm cinco minutos.

Olhei pra o lado do cabideiro e depois para o outro extremo, calculando quanto tempo eu levaria para encontrar o vestido e atravessar o pátio até a cozinha.

—Uma pergunta… —falei confusa. —Onde a gente troca de roupa?

—A cama e o cabideiro são a área dos vestiários. Não temos instalações apropriadas, então improvisamos aquele setor. —Respondeu Ricardo, sério.

—Assim mesmo? Tem que trocar na frente de todo mundo? —Perguntei, com desconforto. Ricardo me olhou como se quisesse me matar, mas se conteve.

—Entendam que não estamos no Teatro Astengo, que tem instalações para um batalhão. É um quiosque reciclado. Diretores pobres pegam o que podem. Por outro lado, de alguma forma vocês têm que perder a vergonha, pelo menos para esta peça. Podem começar trocando num ambiente aberto, para quebrar o gelo. Para não ter problemas, o normal nesses casos é que o diretor leve o resto do elenco para o outro lado e faça respeitar a regra número um: Quando um colega está trocando, ninguém fica espiando.

—Mas… —Hesitei por um segundo.

—Pato, não tem jeito. Se não conseguem trocar a dez metros de cinco colegas, menos ainda vão se despir na frente de um monte de, esperemos, desconhecidos.

—Vai, Pato. Para você ver que não dá nada, eu vou primeiro. Você faz eles cumprirem a regra número um. —Me garantiu Lili, um pouco.

Conhecendo ela, não acho que ela ficaria corada se qualquer um dos três homens quebrasse a regra número um. Mas de qualquer forma, me certifiquei de que o elenco não olhasse na direção do pseudo-vestiário. Parados os quatro em círculo, combinamos os diálogos, os movimentos, as posições, as expressões, etc.

—Pronto, Pato. Viu que não dá nada? —Disse Lili, agora vestida como se fosse administrar uma companhia aérea internacional.

—Vai Jorge, manda ver. —Apurou Ricardo.

Jorge foi, pegou um paletó e uma gravata e voltou na hora. Daniel o seguiu e trocou a roupa de civil pelo uniforme esportivo. Demorei um pouco para reagir, e isso irritou Ricardo.

—Vai, Pato. Anda logo. É só ir, trocar de roupa e voltar. Não vamos perder mais tempo. —Disse Ricardo, levemente irritado.

Fui até o outro lado do palco e procurei o tal vestido. Quando o encontrei, coloquei sobre a cama e, antes de tirar o que estava vestindo, olhei para o lado da entrada, para ver se estavam cumprindo a regra. Quando vi que estavam concentrados nos preparativos da cena, convenci-me de que não havia problema, então procedi a tirar a calça e a camiseta, ficando de calcinha e sutiã por alguns segundos. Imediatamente, vesti o vestido branco com flores azuis e voltei para o grupo.

—Muito bem. —Disse Ricardo. —Um problema a menos. Posicionem-se e vamos começar.

A cena exigia que Lili se sentasse no sofá, e Daniel e eu nas poltronas individuais, de frente para ela, do outro lado da mesinha de centro. Jorge entrava um pouco mais tarde. Ricardo aprovou e gritou "ação".

Rodrigo (Daniel) entra na sala com a bola na mão. De costas para ele está Alicia (Eu), que se apresenta à família como professora particular, recomendada pela escola. Mercedes (Lili) se levanta e chama o filho para apresentá-la. Alicia também se levanta para cumprimentá-lo, e a expressão de Rodrigo muda ao vê-la com mais atenção. Em segundos, passou de irritação a luxúria. Mercedes estuda o currículo falsificado enquanto faz perguntas sobre suas qualificações, experiência, etc. Alicia mente descaradamente, convencendo-a de que é a pessoa certa para que seu filho não perca o ano. Rodrigo, embora incomodado com a situação, não tira os olhos de Alicia, imaginando todas as coisas que ela poderia lhe ensinar.

Andrés (Jorge) volta do trabalho com uma maleta e, da porta, dá uma olhada completa em Alicia, pensando mais ou menos a mesma coisa que seu filho. Depois de sentar ao lado da esposa, dá uma olhada rápida no currículo e concorda com ela. Alicia informa que não tem problema em começar a trabalhar o quanto antes, mas ela informa que está com um problema no prédio onde mora, então está procurando um lugar para se instalar. Rodrigo, vendo a oportunidade, lembra aos pais que a mansão onde eles vivem tem, a poucos metros, uma casa de hóspedes com quarto, cozinha e banheiro. Andrés avisa que precisa de algumas reformas, mas mesmo assim oferece o espaço. Rodrigo não consegue evitar um sorriso.

Do outro lado se aproxima Blanca (improvisada nesse caso por Ricardo), a empregada de sempre, trazendo café para os senhores, para o menino Rodrigo e para a convidada. Mercedes ordena que ela arrume a casa de hóspedes, dando a entender que Alicia está contratada. Blanca concorda com a cabeça e vai começar sua tarefa. Andrés sorri, agradecendo que tenham encontrado uma solução para o filho. Alicia sorri (falsamente), agradecendo por ter conseguido trabalho e moradia. Rodrigo sorri, planejando minuciosamente o que pretendia fazer com sua tutora.

—Corta! Excelente! —Gritou Ricardo, batendo palmas da cozinha. —Não podia sair melhor. E ainda é a primeira tentativa. Não me equivoquei com vocês.

Voltamos a nos reunir na cozinha, para ver como continuaríamos.

—Bom, agora vamos fazer a cena de Alicia com Andrés, na piscina. Lá vamos improvisar a cenografia, porque é nos sofás de jardim. Vamos usar estes. E depois fazemos a de Mercedes com Rodrigo, a do tapa. Então na mesma ordem de hoje, vão se trocar. Lili: roupão, e desmancha o cabelo. Daniel: não precisa se trocar. Jorge: roupa de ginástica. Pato: roupa de ginástica. Atenção para não confundir qual é a roupa de homem e de mulher. Não é esse tipo de peça. Vocês têm menos de cinco minutos. Mandem ver.

Em ordem fomos nos trocando, com uma rapidez notável, considerando a experiência anterior. Tive que colocar um conjunto de leggings pretas, camiseta branca e um top rosa, tudo de lycra, bem justo, mas bastante discreto. Nada que uma mulher da minha idade não usaria para ir à academia.

Ricardo ordenou a Jorge e a mim que nos posicionássemos para a cena, e a Lili e Daniel que ficassem ao lado dele, assim ele ia comentando.

—Jorge, é muito simples. Uma conversa normal, sem coisas estranhas. Pato, não tão simples. A ideia é que Alicia converse com Jorge, tente seduzi-lo, mas de maneira muito sutil. Nada óbvio. Uma conversa com sorrisos, amigável, com um mínimo indício de esquentá-lo. Não vai te custar nada.

—Por que você diz isso? —Perguntei, intuindo a resposta, buscando algum comentário elogioso, ou no pior dos casos, alguma indicação.

—Porque a única coisa que você tem que fazer é sorrir e falar com simpatia. O resto do trabalho o seu corpo faz. Não sei se fui claro.

—Sim. Já entendi. —Era um comentário elogioso, como esperava.

—Bom. Vamos começar?

A cena não era nem muito longa, nem muito complexa. Andrés voltava da academia e se jogava na espreguiçadeira da piscina para ler o jornal. Alicia se aproxima do outro lado e se senta na outra espreguiçadeira. Agradece a ele por ter emprestado a casa de hóspedes. Ele agradece a ela pelo trabalho que está fazendo com Rodrigo. Tudo muito cordial. Ela pergunta sobre a mesa de sinuca, e se ele joga sempre. Ele pergunta se ela joga, e logo em seguida se desafiam ao melhor de três, quem ganha paga uma rodada de cervejas. Levantam-se e vão jogar. Tudo isso à vista de Rodrigo, que já começa a suspeitar.

Fizemos a cena, sem problemas. Não era grande coisa, mas depois percebi que era uma desculpa para eu vestir a roupa de academia e tentar esquentar os três caras que me rodeavam.

—Perfeito. Saiu muito bem. Jorge, um cavalheiro. Não babou, não vacilou. Pato, muito bem a entonação, mas faltou um pouquinho de expressão corporal. As poses, para ser mais preciso. Embora você tenha comunicado o que Alicia pretendia, seus movimentos pareciam tímidos. Mas na próxima vai dar certo. Não se preocupem. Mudança de turno. Venham para a cozinha, que a cena é com os dois de pé de frente. Fomos para a cozinha, Jorge e eu um pouco afastados. Ricardo deu as orientações a Daniel e Lili. —Como faço com o tapa? —Perguntou Lili, hesitante. —Você leva a mão pra trás, mira na bochecha, daí o termo, e coloca a palma por cima, com a mão aberta. Nunca bateu num homem? —Sim, isso eu sei. Mas como faço pra simular? —Retrucou, com mais dúvidas. —Não podemos nos dar ao luxo de simular tudo como se tivesse um coordenador de efeitos especiais. —Bufou Ricardo, evidentemente segurando a vontade de xingá-la. —Dá um tapa de verdade nele, que você não vai matá-lo. Aguenta aí, Daniel. —Se não tem outro jeito. —Disse Daniel. —Não será o primeiro nem o último. —Bom. Quero drama. Tensão. Não peço lágrimas, mas quase. Entenderam? Ação. A cena era bem simples. Mercedes saía do banho, se cobrindo com o roupão. Encontra Rodrigo, que anda com a cabeça nas nuvens porque viu o pai comendo sua nova aquisição, ou seja, Alicia. Ele recrimina que ela só fica na cama, dopada, e nem percebe o que acontece ao redor. Depois a insulta, e ela dá um tapa nele, do qual logo se arrepende. Ele foge pro quarto, e ela tenta se desculpar, sem sucesso. Lili fez toda a cena perfeita. O jeito de falar, o tapa, o choro iminente. —Corta! Es-pe-ta-cu-lar! Lili, ficou melhor que no filme. Você assiste muitas novelas à tarde? —Perguntou Ricardo. —Bom, sim… —Não tem do que ter vergonha. A observação te levou à perfeição. Fantástico. Vocês dois. É assim que se faz uma cena desse tipo. Os sentimentos à flor da pele. Daniel, você não ficou atrás. Muito bem o insulto. —Obrigado. Pra xingar não tenho muita dificuldade. Penso no Leão e já vem o xingamento sozinho. —Admitiu Daniel, melancolicamente. —Hehe. Você e uns vinte por cento de Rosário. Não é nenhum segredo. —E te digo Que a baixinha pega forte. — Respondeu Daniel, olhando para Lili. — Ainda bem que saiu de uma vez, porque se ela me dá outro tapa daqueles, me arranca a carreta.

— Gente, tem coisas que a gente pode simular, e outras que não. Um tapa não é tão grave. Um tiro na cabeça já é outra história. — Explicou Ricardo, se justificando.

— Pode nos dar um exemplo de simulação? — Perguntei, sem perceber no que estava me metendo.

— Pensei em deixar para mais pra frente, mas se você está tão preocupada, faço agora. Vamos ensaiar uma cena de sexo. Diálogos e coreografia…

Me pegou de surpresa. Pensei que isso seria mais adiante. Se eu não tivesse perguntado nada, talvez fizéssemos mais uma ou duas cenas comuns e iríamos embora. Agora já tinha aberto a boca, não tinha como voltar atrás.

— Vamos fazer a cena do Mario e da Alicia na cozinha, que envolve uma nudez mínima, quase nula. Neste caso do roteiro, a coreografia (ou seja, o ato sexual) não está detalhada. É bem simples. Mario encurrala a Alicia neste canto da cozinha, e a leva até o outro canto. Senta ela na bancada, tira a calcinha dela e aí começa o vai e vem. Alicia sofre em silêncio, chorando, e Mario acaba bem rápido. Mario não tira nenhuma peça de roupa, e Alicia só a calcinha, mas bem sutilmente, sem mostrar nada.

Para ser a primeira cena desse tipo que íamos ensaiar, não parecia tão escandalosa.

— Lili e Daniel, vocês vão observar de fora. Jorge, você vai fazer o Tomás, o marido da Alicia. Não precisa trocar de roupa. Pato, vai colocar o vestido preto, de festa, e faz um coque, ou algo parecido. Leve em conta que era um jantar mais ou menos formal. Em cinco minutos começamos no sofá.

Fui de novo ao cabideiro e procurei o vestido preto. Era um vestido bem justo, com bastante decote, e curto. Não chegava aos meus joelhos por vários centímetros. Coloquei e arrumei como pude. Fiz um coque rápido e fui para o sofá. Sentei-me ao lado do Ricardo, Ele olhou em volta, perguntou se estávamos prontos e, antes de dizer "ação", me pediu para manter o personagem. Depois eu percebi qual era a intenção dele.

—Ação!

A cena começava com Mario (Ricardo) segurando uma taça de vinho.

—Seu marido é um homem muito sortudo. —Disse com cara de tarado. —Vai ganhar uma fortuna trabalhando comigo.

—Que bom. —Falei, sorrindo sem graça.

Ricardo me ofereceu a outra taça e propôs um brinde.

—Pelos negócios de sucesso?

—Tá bom. —Aceitei a taça relutante. Brindamos, e quando eu ia tomar, Ricardo apoiou a mão na parte de cima da minha coxa.

—Você é uma mulher muito linda. —Disse de maneira sedutora. Parei a mão dele com a minha pra evitar que subisse.

—O que você está fazendo? —Perguntei ofendida, me afastando, com cara fechada.

—Desculpe. Só queria ser amigável.

—É, claro. —Tirei a mão dele, me levantei e fui pra cozinha irritada. Entrei batendo nos pratos e aí se aproximou Tomás (Jorge).

—E aí? O que tá acontecendo?

—Termina de fazer seus negócios e manda aquele nojento embora da minha casa. —Respondi exaltada, quase chorando.

—Mas qual é o problema?

—Ele botou a mão em cima de mim. Esse é o problema.

—Ele não estaria aqui se não fosse tão importante. Você tem que ser mais cordial.

—Você não ouviu o que eu disse? Ele meteu a mão por baixo do vestido.

—Alicia, eu preciso urgentemente do acordo com esse cara. —Disse Jorge com violência, agarrando meus ombros, me sacudindo. —POR FAVOR, seja gentil com ele.

—O que você tá querendo dizer? —Perguntei assustada, imaginando o que ele queria dizer.

—Faz isso por nós. —Respondeu desesperado. Me deu um beijo, bem rápido, e foi embora.

—Tomás… —Chamei, sem resposta. Ao ver que ele não voltava, bati na porta do armário com a palma da mão. —Merda!

Jorge pegou a garrafa de vinho e se aproximou de Ricardo, que tinha ficado no meio do caminho entre o sofá e a cozinha, tentando ouvir a conversa.

—Mario, tome mais um vinho.

—Estou deslumbrado, Tomás. Devo dizer que fiquei agradavelmente impressionado.

—Então temos um acordo?

—Na verdade, estava procurando algo extra… Algo… Como posso dizer?… Algo para tornar a oferta mais apetitosa —disse Ricardo, cúmplice.

—Mario, estudei seu histórico de cabo a rabo. Acredite, você está em boas mãos.

—Ahhh… Isso é o que eu estava esperando ouvir, Tomás. É o que esperei ouvir a noite toda.

Ricardo caminhou devagar até onde eu estava, num canto da cozinha, encostada num armário. Ficou atrás de mim, envolveu-me com o braço para me dar a taça de vinho e aproximou a boca do meu ouvido.

—Esqueceu sua taça, linda.

Tomei um gole curto, e Ricardo tentou beijar meu pescoço. Avancei para frente, evitando, mas ele não conseguiu se conter mais e agarrou meus ombros para me virar. Empurrou-me até a bancada, no outro lado da cozinha, e tirou a taça da minha mão. Na segunda tentativa, beijou meu pescoço e apertou um dos meus peitos. Sentei na bancada, e ele apertou o outro peito, enquanto continuava no pescoço, desta vez lambendo.

Devo dizer que estava me excitando um pouco. Quer dizer, eu, Patricia, estava ficando excitada, independentemente da cena e do personagem. Apesar de estar na frente de outras pessoas, e de quem estava fazendo aquilo não ser meu marido, uma não é de ferro, e acho que Ricardo percebeu ao sentir minha respiração ofegante e as pulsações através dos meus peitos. A cena estava me esquentando demais, e o contato com Ricardo, também.

Em seguida, Ricardo agachou-se lentamente para enfiar as mãos por baixo do vestido e puxar o elástico da calcinha, enquanto sua língua descia do pescoço até a base dos meus peitos, tudo isso sem tirá-los da cobertura (já estavam bem salientes pelo decote). Baixou a calcinha sem levantar o vestido, deixou-a cair no chão e se levantou, continuando com sua lambida no peito.

Foi aí que começou o descontrole. Mesmo que eu já estivesse dando corda, o que veio a seguir foi, na minha opinião, demais. Ricardo baixou o zíper e soltou o pau. Na fração de segundo que levei para processar o que tinha visto, decidi cortar a cena. Empurrei-o pelos ombros para afastá-lo de mim e me levantei.

— Para, para. O que você tá fazendo? Você pirou de vez. — Falei, como um desafio. Ricardo ficou surpreso, mas por instinto cobriu a virilha com as mãos e subiu o zíper, pra ninguém ver, suponho.

— Como assim o que eu tô fazendo? Você que tá fazendo o quê? Como é que você corta a cena assim? Quem é o diretor aqui? — Perguntou, mostrando bastante frustração.

— Mas você não pode…

— O que eu não posso? VOCÊ é que não pode interromper uma cena por uma coisa dessas. É uma cena de sexo. Como você acha que se faz?

— É que achei demais você tirar ele assim… Era pra ser uma simulação.

— VOCÊ vai dizer pra MIM? — Perguntou retoricamente, com um ar de soberba. — Me diz uma coisa, você que sabe tanto… Com esse critério, é melhor, na hora, baixar a cortina e um locutor vir pro centro do palco e falar “Agora eles transam”. Não acha?

— Achei demais. Desculpa a ignorância.

Ricardo reuniu todo mundo em círculo pra dar uma lição. Antes de me aproximar, peguei a calcinha do chão e coloquei, torcendo pra ninguém me ver.

— Regra número dois, embora devesse ser a número um. Se alguém que não é o diretor corta a cena, tem que ser por uma emergência, uma lesão grave, ou porque o teatro tá pegando fogo. NUNCA… Repito: Nunca cortem a cena por questões de roteiro, ou qualquer outra bobagem. Vale pra todos. Entenderam?

— Entendi. Peço desculpas, não sabia. — Disse, envergonhada.

— Tudo bem, Pato. Vamos tentar de novo. Tá bom pra todo mundo?

— Já tá meio tarde, Ricardo. — Disse Jorge. —Amanhã tem que trampar. —Começamos depois da conversa entre Tomás e Mario, pra encurtar. Depois deixo vocês livres. —Bom, nesse caso não tem problema. —Beleza, cada um no seu posto. Me posicionei na ponta da cozinha, encostada na despensa. Jorge ficou no meio do caminho. Lili e Daniel voltaram pra posição de observação. Ricardo se aproximou e me deu algumas orientações. —Pato, não era minha intenção te esculachar, mas é uma coisa que não gosto que aconteça. De qualquer forma, vamos tentar de novo. Se quiser, no momento que eu me levanto e tiro, você pode olhar pra cima. No filme acontece isso. Como se a Alicia não quisesse olhar quando o inevitável acontece. —Tudo bem. Sem problema. Peço desculpas. —Já era. Virou a página. Pronta? —Sim. Voltamos a fazer a cena. Ricardo veio até onde eu estava e me deu a taça. Tomei um gole, e aí começou a investida. A coreografia rolou da mesma forma: Empurrões, sentada na bancada, chupões no pescoço, apertada nos peitos. Ele desceu pra tirar minha calcinha, e essa foi a deixa pra eu olhar pra cima, com cara de nojo e impotência. Sem ver o que ele estava fazendo, notei que levantou minha saia quase até a cintura. Supus que ele teria uma vista parcial da minha buceta. Ouvi o barulho do zíper da calça e aí percebi que ele tinha soltado o pau de novo. Mas me mantive firme. Não queria cometer o mesmo erro. Quando baixei o olhar, devagar, vi que Ricardo também tinha baixado o olhar, pra minha buceta, que, devo admitir, já estava meio molhada. Com a mão direita segurava a saia, e com a esquerda, bem devagar, guiou a rola até os lábios. Chegou a apoiar neles e fez força pra enfiar. Conseguiu entrar meia cabeça quando eu cortei, com um empurrão mais forte. —Ei, para, deslocado. Agora sim você passou dos limites. —Disse, ofendida. —De novo? DE NOVO? Vai tomar no meio do seu cu, seu filho da Me fudi. Quem me mandou trabalhar com esses inúteis? —Ricardo se xingou enquanto cobria de novo a virilha.

—Se eu não te paro, você enfiava até o fundo. É assim todas as suas simulações?

—Gata, você tá me enchendo o saco. Não te aguento mais. Tá enchendo o saco desde que chegou. Quer dirigir você? Eu vou comer uma pizza, não vou complicar mais minha vida…

—Me escuta…

—Não, nem bêbado eu te escuto. Tô te escutando faz duas horas. Você vai me deixar surdo. Queria fazer uma peça de teatro? Conseguiu. Te avisei mais de uma vez que era pesada. Você topou mesmo assim. Agora vem se lembrar da moral e dos bons costumes. Não me enche mais…

—Eita, velho… O que foi? —Tentou interceder Jorge. —Por que tanto escândalo?

—É o seguinte, Jorginho, sua coleguinha é meio rebelde. Até ontem não sabia a diferença entre uma cortina e uma bilheteria, e hoje já quer dirigir uma peça de teatro. Subiu a cabeça dela.

—Não, não é assim… —Tentei me defender, fazendo um esforço enorme pra segurar as lágrimas de humilhação. —Entende que não é uma coisa que acontece comigo todo dia.

—Aaaahhhh, olha só. Sério mesmo que você me diz isso? —Ironizou Ricardo. —Então você não consegue atuar em nada que não seja estritamente o que acontece com você todo dia? Quer fazer uma peça onde só cozinha, lava a louça, assiste novela?

O filho da puta tocou no meu orgulho. De alguma forma ele intuiu que eu era uma dona de casa insatisfeita e me jogou isso na cara. Acertou tanto que não consegui responder.

—Querem que a gente pare por aqui? Suspende e foda-se. Continuem trabalhando no que é de vocês e eu no que é meu. Não é a primeira vez que me acontece uma coisa dessas.

—Ricardo… —Disse Lili, tentando apaziguar. —Não se irrita. Entende que a gente não tem sua experiência nem sua capacidade. Eu de lá não vi o que aconteceu, então não posso dizer se foi certo ou errado. Só te peço que tenha paciência com a gente. É o primeiro ensaio.

—Lili, vou demonstrar pra vocês que nem Nem por ser o primeiro ensaio isso é aceitável. Se vocês realmente querem que a gente continue, vamos refazer a cena, mas dessa vez você faz a Alicia. E você, Patricia, vai ficar olhando e tomando nota.

— Já está ficando tarde, Ricardo. Por que a gente não continua amanhã, quando estivermos todos mais tranquilos? — Pediu Daniel, demonstrando uma maturidade notável.

— Peço desculpas, a culpa não é de vocês. — Disse a Jorge e Daniel. — Podem ir, se quiserem, e a gente continua amanhã. Lili, preciso imperiosamente que você fique e me siga. Patricia, se você não quer se foder completamente com seus colegas, vai ficar e vai observar.

— Tá bom, eu te peço desculpas de novo. Fico e tomo nota. — Disse, resignada.

— A gente se vê amanhã. Boa sorte. — Despediu-se Jorge. Daniel acenou com a mão, e foram embora.

— Vou me trocar. Tem outro vestido igual a esse? — Perguntou Lili.

— Deve ter algum parecido. Se for de outra cor, não importa. Mas que seja parecido no corte. — Respondeu Ricardo.

Lili foi se trocar. Eu aproveitei para colocar a calcinha de volta, sob o olhar estrito de Ricardo. Seus olhos pareciam injetados de sangue. A cara que ele fazia era a de um inquisidor diante da vítima. Mas o silêncio reinou.

Lili voltou com um vestido bem parecido, cor bordô. Ficou muito bem nela.

Aulas de Teatro para Adultos - Capítulo V
—Vamos começar pelo sofá, e vamos pular a parte da Alicia e Tomás, e Mario e Tomás. Ou seja, do sofá, a Lili vai pra cozinha, eu espero um pouco, e depois me aproximo, tipo pulando as cenas.

—Beleza. —Responde a Lili com firmeza.

—Você, Pato, fica não muito longe dos sofás, de frente pra gente. Quando eu vou pra cozinha, você me segue, e quando eu me aproximo da Lili, passa reto e fica no meio do caminho, entre o armário e a bancada, olhando pra gente de lado. Quero que você pegue um close de tudo.

—Entendido. —Respondo, com segurança.

—Lili: Uma coisa só. NÃO. CORTA. A. CENA. POR. NADA. —Enfatiza o Ricardo, palavra por palavra, quase como uma ameaça.

—Entendido. —Responde a Lili, também com segurança.

Me posiciono a poucos metros do sofá. Lili se senta no lugar, e Ricardo faz o mesmo.

—Presta atenção, pelo amor de Deus. —Me diz, como último aviso.

A cena começou normal, com os diálogos já conhecidos. Ricardo aumentou um pouco a intensidade. Apoiou a mão na parte interna da coxa da Lili, e subiu alguns centímetros. Continuou com o corte pro rosto, e a Lili indo pra cozinha. Ricardo fez uma pausa, saboreou o vinho e se levantou. Me fez um sinal bem sutil pra segui-lo enquanto ia pra cozinha. Segui ele a um metro, mais ou menos, e quando ele fez contato com a Lili, passei pelo lado e me posicionei entre o armário e a bancada.

Ricardo empurrou a Lili até a bancada, pros chupões. Fez ela sentar, e, sem tirar a língua do pescoço dela, puxou as alças do vestido pra baixo, deixando os peitos dela à mostra. Isso não tava no roteiro, mas a Lili não quebrou. E eu não tive coragem de interromper.

Devo reconhecer que os peitos da Lili eram muito bonitos, maiores do que pareciam com roupa. Ela tinha os mamilos escuros, bem duros. Ricardo chupou eles enquanto enfiava as mãos por baixo da saia, pra tirar a calcinha. Se agachou, tirou a peça, e jogou pra lado, suspeitosamente na minha direção. Ao se levantar, puxou a saia quase até o umbigo de Lili, que olhava para cima, respeitando a orientação da tentativa anterior. Pude ver que Lili tinha a região íntima totalmente depilada.

O que veio depois foi estremecedor. Ricardo tirou o pau para fora da braguilha de novo. De onde eu estava, me pareceu que era enorme. Fez o mesmo que comigo, mirou para o centro da buceta de Lili. Só que dessa vez, sem que Lili o impedisse, ele enfiou até o fundo. Lili soltou um grito abafado, de prazer. Não podia gritar como acho que queria, porque sairia do personagem.

Ricardo começou a se mover dentro de Lili com bastante ritmo. Amassava os peitos dela enquanto a fodia, e de vez em quando enfiava a língua na boca dela. Lili respirava ofegante bem baixinho, e mordia o lábio para evitar gemer de prazer. Eu olhava admirada. Ricardo passou de todos os limites. Quis me fazer acreditar que íamos simular, mas se eu não tivesse cortado, ele me comeria sem hesitar.

Para ser sincera, a indignação e o tesão estavam me deixando excitada. Estava vendo um pornô ao vivo. O ar cheirava a sexo, o barulho das metidas me ensurdecia, os grunhidos de macho do Ricardo me excitavam, e a imagem era terrivelmente erótica. Parecia que a cada enfiada Lili ia bater a cabeça no teto, de tão forte que eram as cacetadas. Fiz um esforço para não me tocar, mas mesmo assim notei que minha calcinha estava molhada.

Ricardo ficou metendo por cerca de dez minutos. Era para ser só dois minutos na peça. Mas claro, isso já não era um ensaio, por mais que Ricardo justificasse dessa forma. Não perdi um segundo da ação, por medo de levar outra bronca, mas principalmente por causa do tesão infernal que sentia.

Ricardo acelerou o ritmo da foda e, em vez de avisar a Lili que ia gozar, virou a cabeça para onde eu estava. Olhou para mim com cara de possuído pelo demônio, e Ele sorriu. Deu as últimas enfiadas com bastante intensidade e gozou dentro dela com um rugido ensurdecedor. Lili também chegou ao clímax e não conseguiu conter o grito de prazer. Foi um concerto perfeito de gemidos graves e agudos.

Ficaram por alguns segundos intermináveis ainda grudados, respirando ofegantes. Ricardo, em dado momento, lembrou de gritar "Corta!" e puxou o pau, já meio mole, guardando dentro da calça. Lili tocou a própria buceta, e pude ver que tirou os dedos melados. Imaginei que ela ia reclamar da cagada que ele fez, mas ela não disse nada e procurou um lenço de papel para se limpar.

— O que você achou, Ricardo? Ficou bom? Pra mim ficou perfeito — disse Lili, ainda achando que o que fizeram foi um ensaio e não uma foda completa.

— Muito bem, Lili. Impecável. Você mostrou que não era só falta de experiência. Agradeço — respondeu Ricardo, fingindo que acreditávamos que ele ainda falava como diretor e não como um cachorro no cio aproveitando a oportunidade.

— Bom, não precisa agradecer. Não foi tão complicado.

— Bom, por hoje terminamos — concluiu Ricardo, bem frio. — Troquem de roupa e nos vemos na próxima.

Dito isso, ele saiu pro pátio e acendeu um cigarro. Lili pegou a calcinha, que estava do meu lado, e atravessou o pátio para ir ao banheiro, sem me dizer nada. Aproveitei o momento para vestir minha roupa normal de novo. Tirei o vestido e pendurei no cabide. Ao colocar a calça, percebi que minha calcinha estava mais molhada do que imaginava. E ao vestir a camiseta, notei que meus mamilos estavam duros, mesmo depois do fim da "cena".

Voltei como se fosse sair e me encontrei com Ricardo, que vinha de fora com uma garrafa térmica, uma cuia e um pacote de erva-mate. Ele me olhou de novo com cara de sátiro.

— Viu como a Lili trabalha bem? Vou extrair o melhor dela, sim — disse ele em tom debochado.

— Você é um sem-vergonha. Já imaginava que tinha coisa estranha aqui.

— Mesmo assim você não falou nada… nada. Lili também não disse nada. Pra mim, parece que ela adorou. E acho que você também. Se tivesse respeitado minhas orientações, no lugar da Lili seria você.

—Degenerado…

—Olha, gata, a coisa é bem simples. — Disse Ricardo, agora num tom autoritário. — Se você quer pular fora, sem problema. A Lili vai se dar super bem como Alice. Ela já provou. Mas tenha a dignidade de falar na cara dos seus colegas e do diretor amanhã, no começo do ensaio. Você vem, diz o que pensa e vai embora. Nem pense em aparecer e querer continuar como se nada tivesse acontecido. Ou sumir de vez, sem explicações. Agora, se quer outra chance pra seguir como havíamos planejado, vem amanhã, uma hora antes do combinado, e ensaiamos essa cena até você decorar.

—Mas você é um…

—É muito simples. Quer provar que não é uma mal-amada histérica que não tem nada melhor pra fazer? Fuck you a oportunidade de vir amanhã se redimir pelo que fez hoje. Ou, se não tem coragem, pelo menos admita, na frente de todos, que não tem estômago pra isso.

De novo ele me deixou sem palavras, mexendo com essa questão da insatisfação. Não soube o que responder, e o silêncio reinou. Foi quando a Lili entrou. Sem dizer nada, foi até o cabideiro pra pegar a roupa dela. Ricardo sentou na poltrona e começou a escrever no caderno, absorto nos pensamentos. Lili voltou com a roupa e a chave do carro na mão.

—Vamos, Pato?

—Vamos.

—Tchau, Ricardo, nos vemos amanhã. — Lili se despediu, como se nada tivesse acontecido, como se tivéssemos tido mais uma aula teórica na sala.

—Nos vemos. Lembrem do que conversamos hoje. — Disse distraído, mas quando a Lili terminou de sair, pude ver que ele apontou pra mim, me encarando fixamente, como se destacasse que a sugestão era especialmente pra mim.

Uma vez lá fora, antes de entrar no carro, me arrisquei a perguntar pra Lili.

—Lili, o que aconteceu? Como você não falou nada? Olha, se… Ensaio. Nada demais. — Respondeu com displicência.

Não consegui determinar se ela estava estupidamente convencida de que era um ensaio, ou se tinha percebido e queria me convencer para que eu não reclamasse de nada.

— Mas você não percebe que não precisava... — Não sabia como dizer de forma pacífica. — ... dos quinze minutos finais?

— Pato, não aconteceu nada grave. Não é nada que eu já não tenha feito. Para de pensar como uma freira e se acostuma. Segundo o roteiro, são algumas cenas de sexo, e vamos ter que fazer todas, sem reclamar.

— Mas...

— Pato, está tarde. Vou dormir, porque tenho que viajar. Amanhã a gente continua.

Ela me deixou com a palavra na boca. Voltei para casa dirigindo sem prestar atenção. O pó que o Ricardo tinha dado para a Liliana ficava me rondando na cabeça e eu não tinha como descartar esse pensamento. Ao entrar em casa, fui direto para o chuveiro. Mais do que tudo, me sentia suja pelo que tinha acontecido, e queria remover essa sujeira, mesmo que simbolicamente. Fiz um esforço para não me tocar, apesar da tesão persistir. Deitei nua, inconscientemente. Achei que no dia seguinte, mais calma, a situação se estabilizaria e eu poderia seguir como sempre. Não fazia ideia de quão longe isso estava da realidade.

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