Ropa Velha

Sabe em que se nota? Nos pequenos detalhes que passam despercebidos durante a convivência. Sem perceber, no casamento a gente instaura hábitos que repetimos como um mantra. Fazemos práticas que, com o tempo, viram regras. E tomamos liberdades quando o vínculo vira rotina. Exatamente o que entregou minha esposa.

Na nossa casa não tinha tranca. A gente tirou com medo de o menino ficar preso no banheiro. Nunca mais voltaram pro lugar, nem agora, que o garoto mora no campus da faculdade. Ele é esperto. Bom, tem memória; nisso puxou a mãe. E sobre intimidade no casamento, depois de dezenove anos já não existia pudor nem vergonha entre a gente.

No dia em questão, eu tava mijando sentado, porque era mais confortável enquanto mexia no celular. Aí minha esposa passou do meu lado, abriu o chuveiro e tirou o roupão na minha frente. A buceta dela ficou na altura dos meus olhos por uns segundos. Depois sumiu atrás do box.

Ela me disse alguma coisa, não lembro o quê. Fiquei parado, olhando as marcas do azulejo. Nelas sempre encontro padrões com caras. Levantei devagar e fui pra cozinha, pro poço de luz; naquele momento, o lugar mais longe da minha mulher.

Ela tinha depilado as pernas. Não da canela pra baixo, mas a parte que a saia cobre. Pelos pubianos aparados e desenhados. Não era verão. Não tinha casamento nem evento social importante. Não tínhamos nenhuma viagem de fim de semana planejada. Não existia razão aparente pra minha esposa limpar a própria xereca.

Atordoado, fiquei ausente durante boa parte da manhã. Ela me perguntou sobre meu silêncio e meu jeito estranho. Me justifiquei com uma dor de garganta. Precisava sair e pensar. Lembro que desci pra comprar pão, comprei uma coisa na loja que a gente não precisava e tentei evitar os conhecidos que me paravam na rua.

Muito barulho de fundo; precisava pensar com clareza. Me refugiei no depósito. Sentei na minha poltrona favorita, encostada num canto porque a cor dela não combinava com o estilo zen da sala. Fechei os olhos e, finalmente, sozinho, pude pensar…

Quem seria o sortudo? Porque existia alguém; o mistério era descobrir quem e desde quando. Não me referia ao sexo, isso não tinha importância. Mas sim ao nascimento da necessidade imperiosa de ser infiel.

Eu precisava seguir as pistas. Seis meses atrás ela ficou obcecada pela balança. Não foi um capricho: dieta rigorosa, mau humor e aquele olhar de canto pro espelho enquanto media as coxas com os dedos. Eu, na época, admirava a determinação dela. Agora entendia a motivação extra: não era saúde, era pressa pra usar os vestidos que estavam pendurados no armário há meses, esperando a nova silhueta. Ironicamente, no depósito, eu tinha os pés apoiados numa caixa de papelão que dizia "Roupa Velha". Me vi refletido.

Mais pistas… Não era do trabalho; ela tava há anos na mesma empresa e sempre ia de má vontade. Ele ou ela? Apostei num homem. Minha esposa era heterossexual de manual. Nosso filho nunca tinha trazido uma garota pra casa e ela tava muito preocupada. Não era gay, era feio, coitado.

Quando foi a última vez que ela se maquiou? O jantar anual do clube de leitura… Mas ela tava inscrita há anos, muito antes daquela repulsa repentina por comida. Devia ser um dos novatos. O professor? Acho que trocaram ele este ano, ela me disse. Será que ela tinha razão naquilo de que eu não a escuto quando ela fala comigo? Talvez ela fosse me largar por isso… Porque, ela ia me largar, ou era só uma aventura? Em casa ela mantinha um comportamento correto. Será que ainda não tinha alcançado o objetivo dela? Lembrava que, quando jovem, ela se arrumava todo dia. De namorados, depois de um mês ela me recebia de pijama e com o rosto lavado. Ela continuava se maquiando pra ir ao clube de leitura; isso significava que ainda não tinha consumado.

Minha dedução deveria me tranquilizar, mas algo tinha se quebrado por dentro. A confiança.

Perdi a perdi a noção do tempo e recebi a mensagem dela:

—Onde você está?

—Já tô indo. O Julio me prendeu na porrada.

Outra pista… Não houve resposta. Antes costumava ter um "boa sorte", "hahaha", "quer que eu mande reforço?" ou um simples emoji de incentivo. Agora, silêncio administrativo.

Me perguntei o que devia fazer. Armar um barraco, cobrar explicações, exigir o divórcio? Não era o caminho. Um grito fora de hora, uma resposta mal dada ou uma briga, e eu arriscava uma denúncia. Ficaria na rua e, ainda por cima, parte do meu salário iria pra continuar pagando as contas. Assim, ela e o desconhecido poderiam se esbaldar na minha antiga casa com tudo pago.

Mas essa não era a pergunta…

Será que eu realmente me importava que ela fosse embora? Não… Respondi rápido demais.

Voltei pra perto dela. A comida estava quase pronta. Fiquei observando ela, de costas, enquanto temperava a salada… Como eu pude deixar passar? Era digno de nota a perda de peso dela. Tava muito gostosa. Sete quilos a menos, um recorde. Ela tinha curvas de novo. E os peitos apontavam pro céu. Uma mentirinha: ela colocava os mamilos pra cima. Quando tirava o sutiã, a gravidade não perdoava. E, de repente, uma onda de ciúmes me sufocou ao sentir que eu não fazia parte do esforço dela.

Na mesa, muito olhar pro celular e pouca conversa, como sempre:

—O que o Julio te contou? —ela falava comigo bem ligada nas redes sociais. Nunca tinha se interessado por isso. Outra pista que eu tinha ignorado completamente.

—O de sempre, futebol. Não te falei que você tá muito gata ultimamente? —consegui roubar a atenção dela por um segundo. Em todo esse tempo, eu não tinha apoiado nem elogiado ela. Talvez minha falta de cuidado tenha dado motivos…

Eu tava lutando pelo amor dela? Não, tava sondando o terreno:

—Muito obrigada. Você também, fez bem pra nós dois parar de comer tanto açúcar.

Mentira, eu continuava do mesmo jeito. Ela voltou a atenção pro maldito celular. Será que eles trocavam mensagens, ou ainda não? Olhar o celular dela? Me deu vontade. anjinho bom. Não, era mais divertido assim, retrucou o anjinho mau. Ao terminar, recolheu os pratos e desceu pra tomar o café com a Charo, apelido que vinha de Rosário; um detalhe curioso que não vinha ao caso, mas com o nervosismo meus pensamentos se perdiam...

O que eu podia fazer? Não me ocorria nada. Só segui-la. Espiá-la. Conhecer meu inimigo. Saí atrás dela. Sentei no balcão do bar, no fundo, longe da entrada, de frente pra porta do salão social da prefeitura. Lá estavam elas, um grupinho de três mulheres conversando com um senhor alto, bonitão à distância. Sim, ele mais do que eu, e em tudo. De repente, duas mulheres deixaram o casal com certa cumplicidade. Minha esposa falava e falava, mostrando o nervosismo. Confirmado, ainda não tinha rolado sexo. Os dois estavam nos preliminares, sondando quem dava o primeiro passo. Era bonito de ver, se não fosse minha esposa. A consumação não ia demorar pra acontecer. Se despediram com dois beijos na bochecha e um abraço eterno...

Quando adolescente, aprendi uma verdade sobre as mulheres: se no segundo mês de conhecida você não tinha transado com ela, é porque ela não te curtia. Entre eles já tinham passado mais de seis meses; normal, eram mais velhos e com compromissos sociais. Mas ia rolar, não tinha dúvida. E bem rápido.

Ela chegou antes em casa. Mensagem de praxe: "Onde você tá?" Com o Júlio, sem mais diálogo. Pobre Júlio, cobria todas as minhas culpas. Ela não gostava dele e jamais ia interrogá-lo. Eu dava voltas sem rumo com o carro enquanto me perguntava de novo: "O que eu faço?". Na rádio tocava Cadillac Solitário, do Loquillo. Como na música, eu também me sentia sozinho. De repente, passei na frente do puteiro do bairro. Lá fora, uma garota oferecia seus serviços. Veio uma sequência de ideias absurdas que me levaram a uma solução, ainda mais absurda: entrar na festa e dividir minha mulher.

Por isso agora estamos você e eu aqui, neste quarto, enquanto seu marido e minha esposa se acham livres pra outro lado dessa porta:

—Não entendo nada. Por que você está me contando tudo isso?

Dou um gole na bebida de cortesia do motel. O gelo já derreteu. Ela espera, mas eu preciso de tempo.

—Deixa eu continuar. Acho que no final você vai entender tudo.

Minha esposa não reclamou do meu atraso ao chegar em casa. De jeito nenhum:

—Você está muito pálido, parece que viu um fantasma.

—Estive conversando com um amigo do Júlio. Bem estranho. Vim meio impressionado. Ele nos contou que ele e a mulher dele são swingeres, ou singerses, algo assim.

—Swingers! — se apressou em me corrigir, com atenção demais na minha história.

—Pois é: o amigo e a mulher dele estão de férias. Eles curtem essa coisa de se compartilhar e, pelo visto, por aqui tem um clube onde trocam de casais.

Eu tinha pesquisado tudo na internet cinco minutos antes. Não precisei puxar mais o assunto. Minha esposa cuidou do resto. Virou o jogo: ela insistia, eu duvidava. Meu papel era me deixar convencer sem que ela percebesse. Em uma semana, a rede de fofocas dela me forneceu toda a informação que precisávamos. Ela até ligou para a anfitriã do clube. "Tentações", era assim que se chamava. Pouco original, na minha opinião. "Segunda mão" eu teria chamado. De todo jeito, em duas semanas a gente cruzava a porta do lugar.

Lá tem dois tipos de cliente: homens sozinhos e casais. Mulher sozinha eu não vi nenhuma. Também tem duas áreas separadas: a comum, basicamente um pub com música e balcão, onde todo mundo pode ir; e a vip, de acesso exclusivo para casais, feita pra saciar um leque enorme de perversões. Depois têm as regras, baseadas em respeito e blá, blá, blá, que tentam botar ordem na bacanal.

Na primeira vez, minha mulher não fez nada. Na segunda, conhecemos um casal muito gente boa. O marido e minha esposa se beijaram e se apalparam. Era minha primeira vez como voyeur. A esposa do outro eu não consegui convencer e ela foi escolher um solteiro no pub. Como Sozinho, se uma parceira te escolhesse, você podia cruzar a fronteira VIP. Não liguei. Agora, com a experiência, é um gesto bem feio.

Não liguei. Só observava meu casamento de dezenove anos, com o vestido na cintura e sem sutiã, com uma boca alheia mordiscando o mamilo direito dela. É curioso como, em momentos de tensão, ficam gravados detalhes insignificantes.

Ela me convidava pra participar. Não. Só olhava. Doía. E talvez isso tenha evitado que a situação fosse além. Embora eu tivesse dado permissão pra ela fazer o que quisesse, ela se sentiu tensa, forçada. Preocupada se tinha sido rápido demais no meu treinamento como corno. No caminho de casa, só queria se reconciliar comigo. Me fazer sentir bem, dizer que estava muito feliz pelo passo que estávamos dando juntos. Até que a confiança a traiu:

—Esse cara me deixou muito puta. Paramos e você me dá uma foda daquelas suas, campeão?

Ela pegou no meu pacote e sacudiu como fazia meia hora antes com outro homem. Me pareceu tão vulgar... E ali mesmo algo quebrou por dentro. Pra sempre. Era oficial: meu casamento tinha acabado.

Essa foi nossa última transa como casal. Às vezes eu como ela ou ela me chupa quando estamos em clima de orgia. E, inacreditavelmente, agora a convivência é melhor. Basicamente deixamos de ser casal pra virarmos colegas de apartamento. E não me saí mal, pra ser sincero.

Ela insistiu que eu fizesse dieta e fosse com ela pra academia. Obedeci sem muito entusiasmo. Nunca fui obeso, e em semanas já dava pra ver a melhora. Minha primeira experiência sexual foi, claro, com o casal mais veterano do local. Mais velhos que a gente, mas adoráveis. Sem expectativas e sem pressão. Minha esposa não curtia o senhor, mas precisava me dar o empurrão final pra se libertar. A senhora parecia bem interessante.

Compartilhamos a banheira de hidromassagem. Ali começou o agarramento. Tem regras nessa coisa de emprestar a parceira: o uso de camisinha é obrigatório e uma higiene pessoal impecável é fundamental. Talvez por isso a maioria das trocas aconteça em piscinas ou jacuzzis. Os casais conversam, a sós, antes da ação para decidir o que é permitido: só olhar, massagens, sexo oral, penetração, etc. Nós quatro consensuamos minha primeira vez completa. Outra primeira vez pra mim. A quarta ou quinta da minha esposa. E acima de tudo, o mantra: "Busca-se o prazer sexual, não criar vínculos românticos com os outros..." — No meu caso, uma linha muito difícil de não cruzar.

A senhora tinha ficado de quatro, apoiando os braços na borda do jacuzzi, oferecendo a generosa rabeta. Entrei nela. Sexo com outra mulher, na frente da minha esposa. Surreal. Não minto: eu estava muito excitado. E muito duro, mesmo sendo uma mulher mais velha. No swing, respeita-se a idade, os fetiches, o físico e a vontade de todos. Você diz "Não" e tudo para. Ali ninguém disse não.

Eu focava em dar prazer a uma desconhecida. Sem carinho, sem love. Penetração pura e dura. Na hora, minha esposa adotou a mesma posição ao lado da senhora, e o marido fez o que pôde com ela. Juro que tinha esquecido deles; nem olhei pra minha esposa uma vez. Não me interessam paus e ela eu já conhecia de cor. Eu me concentrava em seguir o ritmo das minhas investidas no compasso dos gemidos da minha gostosa. Agarrei o cabelo grisalho dela como crina, volumoso e sedoso, e galopei com alegria na minha primeira vez no swing.

A senhora era encantadora e grata. Ela gozou e a gente parou. Minha esposa arrumou uma desculpa e fugiu. Eu fiquei no jacuzzi, conversando. Eles tinham ficado com quase todos os casais swingers da região. Me falaram dos filhos, de como ajudavam financeiramente; por isso não podiam comprar um trailer e se aposentar viajando pelo norte da Europa, onde o swing é mais tolerante com a idade.

Então, sem eu perceber o gesto, a senhora e eu ficamos sozinhos. Voltamos a brincar. Dessa vez ela me levou a um reservado. Ali trapaceamos:
—Antes fingi o orgasmo pra ficar a sós com você. Se importa?
Eu queria muito. Fodemos de frente, como dois amantes que finalmente se encontram. Adorei me deitar sobre ela, mordiscar seus mamilos de mãe, saborear o interior das coxas dela. Perdi a noção do tempo. Teve paixão, beijos, carícias, posições diferentes. Até o anal, a segunda bunda da minha vida. Ela me jurou que só tinha dado pro marido, e que eu nunca contasse isso. Enquanto isso, uma manada de camisinhas deformadas pastava na pradaria da cama.
Dessa vez ela não fingiu. Gozou várias vezes. E eu, finalmente, me soltei livre, por dentro, já não tinha mais preservativo, com todas as minhas forças. Ela também me pediu pra guardar segredo. Abraçado nela, senti uma libertação incompreensível, o calor de uma mãe que alivia. Como se as tensões, as mágoas, as vergonhas e o sentimento de culpa fossem absorvidos pelo campo gravitacional da buceta dela, que se agarrava no meu pau sugando com força, espremendo até a última gota do meu leite. Talvez a última ejaculação interna dela, afogando até o último resquício da minha angústia.
—Meu marido é um grande homem — ela me disse, e assim a gente criou uma intimidade que ainda dura—. Pai excelente, marido cumpridor. Me ama até o extremo. Só tem uma pequena particularidade… Ele adora me ver com outros homens. Diz: "Você é tão perfeita que seria um crime não te compartilhar". No começo assusta. E te consola saber que, pelo menos, ele não curte criança nem tortura. Com a mala na porta, você repensa: "O pecado dele me favorece mais do que a ele". Agora eu gosto disso. Eu procuro. Eu curto. Ele respeita meus gostos, meus tempos, meus silêncios. Às vezes me deixa aproveitar a sós com alguém especial. Mas tudo acaba. Somos mais velhos; o fole dele já não responde nem com química. E minhas cadeiras já não aguentam o tranco de um garanhão. Daqui a pouco vamos ter que parar. Foi bonito, e teve seus momentos. Nem tudo foi alegria… Você não é desse mundo, dá pra perceber. Pela minha experiência, nesses jogos sempre um cede. Você vai se adaptando a ele, como eu. Mas a verdade é que você não pertence a esse clube.

Sinto falta dela. Não pelo sexo, mas pelas conversas. Agora a gente quase não pisa no clube; minha parceira se interessa por outros jogos, outros casais. Como vocês. Não quero mentir pra você: eu me divirto. Nunca imaginei uma vida sexual tão plena. Além disso, ela, a hetero-radical preocupada com o filho ser gay, começou a comer buceta. Você não imagina como isso atrai outros casais.

Cheguei à minha própria conclusão. Você entra nisso quando o relacionamento morreu, mas em vez de se divorciar e virar mais um solitário, usa sua parceira como a chave que abre a porta da área vip. Como numa troca, você a intercambia pra alugar uma xereca nova. Igual carro: recém-comprado, você aspira todo dia. Aos dezenove anos, deixa jogado em qualquer vala.

Mas de todas as rolas, bucetas e rabetas que se esfregaram no nosso colchão, é a primeira vez que ela me trai. E sinto que todo o caminho que percorremos até agora era só pra chegar a esse instante, ao verdadeiro interesse dela: seu marido, por quem ela está completamente apaixonada.

Acho que te devo uma desculpa. Minha fuga pra frente respingou em você. Meu medo de perder meus investimentos te arrastou até aqui. Por isso estamos sentados nesse hotel, enquanto eles transam apaixonados no quarto ao lado. Te peço perdão por te tornar vítima desse triângulo bizarro...

— No fundo, não me surpreende — a voz dela soou estranhamente calma, sem emoção —. Na verdade, eu vim com muita raiva, pronta pra fazer uma cena. Até trouxe um discurso preparado. Também contatei um bom advogado.

Com a mesma compostura, ela se levantou da poltrona e se aproximou de mim. FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO

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