SETE NOITES EM BÚZIOS
Parte 5: As duas últimas noites
Acordei antes dela. Estava do outro lado da cama, de costas, com o lençol até o pescoço, embora estivesse calor. Em doze anos, tínhamos dormido brigados três ou quatro vezes, e sempre do mesmo jeito: cada um na sua beirada, o meio do colchão vazio como uma fronteira. Dessa vez o meio também estava vazio, mas não era raiva. Era outra coisa, e eu não sabia o quê.
Desci pra tomar café sozinho e subi um café pra ela. Quando entrei, estava sentada encostada na cabeceira, com os olhos inchados.
—Vamos caminhar —disse ela—. Longe. Onde ele não esteja.
Fomos até a praia do outro lado da península, a que tinha que atravessar a pé pela trilha de pedras. Meia hora sem uma palavra. Quando chegamos, a praia estava vazia e o mar era mais bravo do que do lado do hotel. Sentamos na areia, com um metro entre nós.
—Me fala o que você não disse ontem —pediu.
Pensei em mentir. Percebi que pensei nisso, e foi isso que me fez não mentir.
—Não foram os olhos —falei—. Ou não foi só isso. Foi que tudo que eu sei do Rafael foi você que me contou. Que você arrumou o jantar sem mim. Que à tarde, na cama, você me disse "ele me olhava assim" olhando pra varanda. E que quando você me perguntou se me incomodava eu disse que não, e era mentira, mas nem eu sabia que era mentira.
Ela ficou olhando pro mar.
—Eu pensei nele sem você —disse depois de um tempo—. Nas pedras. Um segundo. Pensei "que delícia seria se ele me beijasse aqui", e você não estava no pensamento. Me assustei tanto que vim correndo pela beira. E depois, à noite, quando fechei os olhos... não foi que esqueci de te olhar. Foi que eu não queria que você me visse pensando aquilo.
Cheguei mais perto, cobrindo o metro que faltava. Sem tocar nela ainda.
—Então os dois se assustaram com a mesma coisa.
—Com a mesma coisa —disse ela, me encarando fixo.
Conversamos duas horas. Não sobre o Rafael: sobre nós. Sobre o que era a fantasia, que acabou sendo mais simples do que parecia: ela queria se sentir desejada e olhada por mim enquanto outro a tocava, e eu queria vê-la ser desejada. O outro era um instrumento. No dia em que o outro deixou de ser instrumento e passou a ser Rafael, com um filho e uma ex-mulher e uma história, a fantasia tinha ficado sem lugar para mim. Nomeamos as regras. As de verdade, as que a gente vinha cumprindo sem saber que existiam até que uma se quebrou. —Nada sem o outro presente. Nem uma conversa nas pedras. —A gente se olha. Sempre. Essa é a regra que eu quebrei. —E "Montevidéu" continua —eu disse—. Mas muda uma coisa. Sem cobrança continua. Sem explicação não. A explicação é isso, o que a gente tá fazendo agora. Isso é o que nos salvou. Ela riu pela primeira vez no dia. —Que nada sexy —disse, e era a segunda vez que ela dizia essa palavra, e nas duas vezes teve razão. Voltamos pelo caminho de mãos dadas. Naquela tarde não fomos à praia do hotel. Ficamos no quarto com as cortinas fechadas e o ventilador ligado, e em algum momento ela sentou na beira da cama, me olhou e me pediu uma coisa que eu não esperava. —Me conta o que você viu anteontem. Do sofá. Tudo. Agora era eu que tinha que falar e ela que olhava. E entendi que era de propósito: ela estava me devolvendo o lugar. Sentei numa cadeira na frente dela, a um metro de distância. Comecei devagar, com a voz baixa, buscando as palavras exatas que eu não tinha me atrevido a montar nem na minha cabeça. Contei da luz na varanda, do momento em que ela parou na frente dele e apoiou a mão no peito dele, e o meu estômago se apertou, entre a vontade e uma eletricidade dura que eu não conhecia. Contei como eu segui vocês até o quarto e fiquei parado contra a parede, a um metro da cama, sem conseguir sentar, o barulho do vestido caindo, as mãos dele rodeando a cintura dela e como ela tinha arqueado as costas. Falei exatamente em que segundo me queimou: quando ela abriu os olhos no meio do beijo e me procurou por cima do ombro dele. —Te ver assim me deixou louco —eu disse—. E aí entendi que todo o resto ia ser nosso. María não piscava. Estava com os joelhos juntos e uma mão apoiada na coxa. Enquanto eu contava os detalhes pra ela, a respiração dela foi ficando agitada, mas ela não desviou os olhos dos meus nem uma vez. Quando eu contei como ele mordia de leve o pescoço dela enquanto minhas mãos tremiam sobre os joelhos e eu ficava ainda mais duro, ela levou os dedos pra debaixo da calcinha. —Não fecha os olhos —eu disse, quase sem fôlego. —Tô te olhando —ela sussurrou, com a voz rouca—. Não vou fechar. Continua. Levantei da cadeira e me coloquei entre as pernas dela. Abri as coxas dela sem parar de falar no ouvido, contando como eu tinha desejado ela naquela noite enquanto outro a tinha, tocava e fazia dela sua puta. Uma mistura de fome e raiva. Falei tudo: cada detalhe, cada sombra, cada gemido que escutei dela naquela noite. María se agarrou nos meus ombros, cravando as unhas, procurando minha boca mas sem desviar o olhar nem um milímetro. Estava molhada. Enfiei direto e até o fundo; ela soltou um suspiro longo contra meu pescoço, mas no segundo seguinte jogou a cabeça pra trás só pra procurar meus olhos de novo. —Assim —ela me disse, pegando meu rosto com as duas mãos, me obrigando a ficar ali, cara a cara, colados—. Agora sim. Gozamos juntos. Enchi ela de porra de tão excitado que eu estava; foi rápido, e sem parar de nos olhar até que os dois ficamos sem ar e nos deixamos cair pra frente no colchão, nos esmagando, abraçados como se tivéssemos nos salvado de um naufrágio. Dormimos no meio da cama. No sétimo dia, o último, Rafael apareceu no café da manhã. Não sentou. Ficou parado do lado da mesa, com a mão no encosto de uma cadeira vazia. —Não venho pedir nada —ele disse—. Venho dizer que vou embora amanhã cedo e que não queria ir sem conversar. María apontou a cadeira pra ele. Ele sentou na beirada. —Eu vim pra Búzios pra ver se sabia ficar sozinho —ele disse, olhando pra nós dois, pros dois de verdade—. Vocês me fizeram ver que eu não quero. Isso não é um problema de vocês. É meu. O de anteontem à noite, o que quer que tenha acontecido, não sei o que foi, mas se foi algo meu, desculpa.
—Não foi teu —disse María—. Foi nosso. E já está resolvido.
Rafael assentiu e se levantou.
—Obrigado pelos jantares.
Aí María fez o que não tinha feito em sete dias: decidiu em voz alta, na frente dele e de mim, sem me olhar primeiro. Ou melhor dizendo: me olhou, mas depois de falar, não antes.
—Hoje é a última noite. Se quiser subir, sobe. Mas dessa vez as regras somos nós que dizemos, e você vai escutar antes de entrar.
Ele me procurou com os olhos, como sempre. E pela primeira vez respondi com a voz.
—Nove, no bar.
Naquela tarde não fomos às pedras.
À noite, na varanda, antes de servir o vinho, dissemos as regras. Deu vergonha e fiz mesmo assim: que ela e eu íamos ficar nos olhando, sempre, e que se ele visse que isso se cortava, parasse. Que se qualquer um dos três quisesse frear, dizia "Montevidéu" e parava, sem perguntas na hora. Que dessa vez eu não ia ficar no sofá.
Rafael escutou tudo. Depois perguntou uma única coisa.
—E eu posso te olhar? —me disse, e riu do próprio "você"—. Anteontem te olhei e entendi. Prefiro continuar entendendo.
María riu, e eu também, e com a risada a noite se destravou.
Entramos no quarto os três, mas o ar já era outro. Espesso. Carregado de uma morbosidade crua, animal, que dessa vez não me deixava de fora nas sombras, mas me tinha no centro.
Na beira da cama, María não esperou. Me agarrou pela nuca e me deu um beijo voraz, metendo a língua, me saboreando antes de se virar para Rafael sem soltar minha mão. Ela puxou a camisa dele, desfazendo os botões, pedindo com a intensidade do corpo que ele não guardasse nada. Rafael captou a energia na hora. Tirou o vestido dela pela cabeça e a deitou de costas no colchão.
Já não havia coreografias nem pausas de cortesia. Tirei a roupa de uma vez. Rafael colocou a camisinha sem que ninguém pedisse e se ajoelhou entre as pernas de María, abrindo-as bem abertas, apoiou a cabeça do pau dele e entrou nela, firme e fundo. Ela soltou um grito de prazer, arqueando as costas, e no mesmo segundo eu me acomodei na cama ao lado dela. Peguei o rosto de María com as duas mãos. Seus olhos, pretos e dilatados pelo prazer, se cravaram nos meus na hora. Tinha acabado o olhar de fora. Era um caos de corpos suados, do barulho obsceno da carne molhada batendo contra carne. Enquanto Rafael metia tudo e sem parar, eu colei nela. Beijei ela abrindo sua boca, mordendo seus lábios, abafando seus gemidos contra minha garganta. Meu peito roçava o dela; minha perna, a cada sacudida, batia contra a perna de Rafael. Estávamos comendo minha mulher juntos, devorando ela ao mesmo tempo, compartilhando o suor, o cheiro de sexo pesado que inundava o quarto. —Mais —pediu María, se separando um milímetro da minha boca, com o cabelo colado na testa pelo suor, sem tirar os olhos de mim—. Os dois. Quero sentir os dois. Foi o ponto de virada. O antes e o depois de tudo. Rafael entendeu sem que ninguém traduzisse. Deitou de barriga pra cima sobre os lençóis desarrumados. María montou nele, dando a bunda e ficando de frente pra mim, enquanto eu me ajoelhava no colchão bem na frente dela. María me pegou pela cintura e me puxou pra si. Entrei nela por frente enquanto ela descia sobre Rafael. O impacto de nos sentir dentro do corpo dela ao mesmo tempo, o roçar bestial e antinatural, arrancou um grunhido dos três. Ali estava minha fantasia: suja, perversa, encharcada e completamente nossa. A gente metia juntos, coordenados num ritmo selvagem, quase violento. As pernas de María tremiam; ela tinha a boca aberta buscando ar, chorando de puro tesão, mas seus olhos estavam fixos em mim, ancorados nos meus pupilas como se meu olhar fosse a única coisa que evitava que ela desmaiasse de prazer. Rafael a segurou pelos quadris por baixo, grunhindo palavras em português que nenhum de nós entendia, enquanto eu acariciava o pescoço dela, a clavícula, reivindicando-a com cada estocada frontal. Era o limite da loucura. Quando a fricção ficou insuportável e o quarto inteiro parecia vibrar com nossos gemidos, María cravou as unhas nos meus braços. Ela se tensionou por completo, trouxe meu rosto a um centímetro do dela, e com a voz afogada em saliva e desejo, sussurrou no meu ouvido: —Não fecho os olhos. Te vejo. Te vejo a você. Essa frase fez a noite inteira explodir. Gozei dentro dela com uma força que me deixou cego, me esvaziando, enquanto as paredes dela pulsavam apertando nós dois. Vi como o orgasmo desfigurava a cara dela de prazer, sempre olhando pra mim, sem piscar. Rafael terminou um segundo depois, cerrando os dentes; depois saiu dela devagar, com a camisinha cheia. Ninguém disse "Montevidéu". Ninguém queria parar absolutamente nada. Rafael se vestiu sem pressa. Na porta, María se levantou enrolada no lençol e o abraçou, um abraço de despedida, daqueles de aeroporto. Ele tirou um papel dobrado do bolso da camisa e entregou pra ela. —Meu número. Caso vocês voltem ao Brasil algum dia. María olhou pra ele, dobrou mais uma vez, e colocou na minha mão. —Guarda você. Rafael entendeu isso também. Me apertou a mão, disse "boa viagem", e foi pelo corredor. Nunca mais o vimos. Ficamos um tempo na varanda, com as taças pela metade. Dava pra ouvir o mar, como na primeira noite. Sete noites depois, o mesmo mar. —Foi só por hoje? —perguntou ela, e era a terceira vez na viagem que perguntava isso. —Não sei —falei—. E pra você? —Também não sei. —Ela apoiou a cabeça no meu ombro—. Mas sei com quem vou descobrir. Três semanas depois, numa sexta, saímos pra jantar num bar em Pocitos. María vestiu o vestido verde. Aquele que tinha comprado pro viagem e que em Montevidéu ela nunca teria se animado a usar. Fui pedir as bebidas. Quando me virei do balcão, vi. Um cara sozinho, duas mesas mais adiante, que a olhava sem pressa. María fingia que lia o cardápio. Sentei e passei a bebida pra ela. —Você tem um admirador —falei. —Já sei —respondeu sem levantar os olhos. E depois levantou os olhos, olhou pra mim, e não baixou—. Te incomoda? Dessa vez não esperei a fisgada do ciúme nem nenhuma outra coisa. Já sabia o que vinha. —Não —falei—. Mas dessa vez as regras a gente fala antes. Ela riu com a cabeça pra trás. Foi assim que tudo começou.
Parte 5: As duas últimas noites
Acordei antes dela. Estava do outro lado da cama, de costas, com o lençol até o pescoço, embora estivesse calor. Em doze anos, tínhamos dormido brigados três ou quatro vezes, e sempre do mesmo jeito: cada um na sua beirada, o meio do colchão vazio como uma fronteira. Dessa vez o meio também estava vazio, mas não era raiva. Era outra coisa, e eu não sabia o quê.
Desci pra tomar café sozinho e subi um café pra ela. Quando entrei, estava sentada encostada na cabeceira, com os olhos inchados.
—Vamos caminhar —disse ela—. Longe. Onde ele não esteja.
Fomos até a praia do outro lado da península, a que tinha que atravessar a pé pela trilha de pedras. Meia hora sem uma palavra. Quando chegamos, a praia estava vazia e o mar era mais bravo do que do lado do hotel. Sentamos na areia, com um metro entre nós.
—Me fala o que você não disse ontem —pediu.
Pensei em mentir. Percebi que pensei nisso, e foi isso que me fez não mentir.
—Não foram os olhos —falei—. Ou não foi só isso. Foi que tudo que eu sei do Rafael foi você que me contou. Que você arrumou o jantar sem mim. Que à tarde, na cama, você me disse "ele me olhava assim" olhando pra varanda. E que quando você me perguntou se me incomodava eu disse que não, e era mentira, mas nem eu sabia que era mentira.
Ela ficou olhando pro mar.
—Eu pensei nele sem você —disse depois de um tempo—. Nas pedras. Um segundo. Pensei "que delícia seria se ele me beijasse aqui", e você não estava no pensamento. Me assustei tanto que vim correndo pela beira. E depois, à noite, quando fechei os olhos... não foi que esqueci de te olhar. Foi que eu não queria que você me visse pensando aquilo.
Cheguei mais perto, cobrindo o metro que faltava. Sem tocar nela ainda.
—Então os dois se assustaram com a mesma coisa.
—Com a mesma coisa —disse ela, me encarando fixo.
Conversamos duas horas. Não sobre o Rafael: sobre nós. Sobre o que era a fantasia, que acabou sendo mais simples do que parecia: ela queria se sentir desejada e olhada por mim enquanto outro a tocava, e eu queria vê-la ser desejada. O outro era um instrumento. No dia em que o outro deixou de ser instrumento e passou a ser Rafael, com um filho e uma ex-mulher e uma história, a fantasia tinha ficado sem lugar para mim. Nomeamos as regras. As de verdade, as que a gente vinha cumprindo sem saber que existiam até que uma se quebrou. —Nada sem o outro presente. Nem uma conversa nas pedras. —A gente se olha. Sempre. Essa é a regra que eu quebrei. —E "Montevidéu" continua —eu disse—. Mas muda uma coisa. Sem cobrança continua. Sem explicação não. A explicação é isso, o que a gente tá fazendo agora. Isso é o que nos salvou. Ela riu pela primeira vez no dia. —Que nada sexy —disse, e era a segunda vez que ela dizia essa palavra, e nas duas vezes teve razão. Voltamos pelo caminho de mãos dadas. Naquela tarde não fomos à praia do hotel. Ficamos no quarto com as cortinas fechadas e o ventilador ligado, e em algum momento ela sentou na beira da cama, me olhou e me pediu uma coisa que eu não esperava. —Me conta o que você viu anteontem. Do sofá. Tudo. Agora era eu que tinha que falar e ela que olhava. E entendi que era de propósito: ela estava me devolvendo o lugar. Sentei numa cadeira na frente dela, a um metro de distância. Comecei devagar, com a voz baixa, buscando as palavras exatas que eu não tinha me atrevido a montar nem na minha cabeça. Contei da luz na varanda, do momento em que ela parou na frente dele e apoiou a mão no peito dele, e o meu estômago se apertou, entre a vontade e uma eletricidade dura que eu não conhecia. Contei como eu segui vocês até o quarto e fiquei parado contra a parede, a um metro da cama, sem conseguir sentar, o barulho do vestido caindo, as mãos dele rodeando a cintura dela e como ela tinha arqueado as costas. Falei exatamente em que segundo me queimou: quando ela abriu os olhos no meio do beijo e me procurou por cima do ombro dele. —Te ver assim me deixou louco —eu disse—. E aí entendi que todo o resto ia ser nosso. María não piscava. Estava com os joelhos juntos e uma mão apoiada na coxa. Enquanto eu contava os detalhes pra ela, a respiração dela foi ficando agitada, mas ela não desviou os olhos dos meus nem uma vez. Quando eu contei como ele mordia de leve o pescoço dela enquanto minhas mãos tremiam sobre os joelhos e eu ficava ainda mais duro, ela levou os dedos pra debaixo da calcinha. —Não fecha os olhos —eu disse, quase sem fôlego. —Tô te olhando —ela sussurrou, com a voz rouca—. Não vou fechar. Continua. Levantei da cadeira e me coloquei entre as pernas dela. Abri as coxas dela sem parar de falar no ouvido, contando como eu tinha desejado ela naquela noite enquanto outro a tinha, tocava e fazia dela sua puta. Uma mistura de fome e raiva. Falei tudo: cada detalhe, cada sombra, cada gemido que escutei dela naquela noite. María se agarrou nos meus ombros, cravando as unhas, procurando minha boca mas sem desviar o olhar nem um milímetro. Estava molhada. Enfiei direto e até o fundo; ela soltou um suspiro longo contra meu pescoço, mas no segundo seguinte jogou a cabeça pra trás só pra procurar meus olhos de novo. —Assim —ela me disse, pegando meu rosto com as duas mãos, me obrigando a ficar ali, cara a cara, colados—. Agora sim. Gozamos juntos. Enchi ela de porra de tão excitado que eu estava; foi rápido, e sem parar de nos olhar até que os dois ficamos sem ar e nos deixamos cair pra frente no colchão, nos esmagando, abraçados como se tivéssemos nos salvado de um naufrágio. Dormimos no meio da cama. No sétimo dia, o último, Rafael apareceu no café da manhã. Não sentou. Ficou parado do lado da mesa, com a mão no encosto de uma cadeira vazia. —Não venho pedir nada —ele disse—. Venho dizer que vou embora amanhã cedo e que não queria ir sem conversar. María apontou a cadeira pra ele. Ele sentou na beirada. —Eu vim pra Búzios pra ver se sabia ficar sozinho —ele disse, olhando pra nós dois, pros dois de verdade—. Vocês me fizeram ver que eu não quero. Isso não é um problema de vocês. É meu. O de anteontem à noite, o que quer que tenha acontecido, não sei o que foi, mas se foi algo meu, desculpa.
—Não foi teu —disse María—. Foi nosso. E já está resolvido.
Rafael assentiu e se levantou.
—Obrigado pelos jantares.
Aí María fez o que não tinha feito em sete dias: decidiu em voz alta, na frente dele e de mim, sem me olhar primeiro. Ou melhor dizendo: me olhou, mas depois de falar, não antes.
—Hoje é a última noite. Se quiser subir, sobe. Mas dessa vez as regras somos nós que dizemos, e você vai escutar antes de entrar.
Ele me procurou com os olhos, como sempre. E pela primeira vez respondi com a voz.
—Nove, no bar.
Naquela tarde não fomos às pedras.
À noite, na varanda, antes de servir o vinho, dissemos as regras. Deu vergonha e fiz mesmo assim: que ela e eu íamos ficar nos olhando, sempre, e que se ele visse que isso se cortava, parasse. Que se qualquer um dos três quisesse frear, dizia "Montevidéu" e parava, sem perguntas na hora. Que dessa vez eu não ia ficar no sofá.
Rafael escutou tudo. Depois perguntou uma única coisa.
—E eu posso te olhar? —me disse, e riu do próprio "você"—. Anteontem te olhei e entendi. Prefiro continuar entendendo.
María riu, e eu também, e com a risada a noite se destravou.
Entramos no quarto os três, mas o ar já era outro. Espesso. Carregado de uma morbosidade crua, animal, que dessa vez não me deixava de fora nas sombras, mas me tinha no centro.
Na beira da cama, María não esperou. Me agarrou pela nuca e me deu um beijo voraz, metendo a língua, me saboreando antes de se virar para Rafael sem soltar minha mão. Ela puxou a camisa dele, desfazendo os botões, pedindo com a intensidade do corpo que ele não guardasse nada. Rafael captou a energia na hora. Tirou o vestido dela pela cabeça e a deitou de costas no colchão.
Já não havia coreografias nem pausas de cortesia. Tirei a roupa de uma vez. Rafael colocou a camisinha sem que ninguém pedisse e se ajoelhou entre as pernas de María, abrindo-as bem abertas, apoiou a cabeça do pau dele e entrou nela, firme e fundo. Ela soltou um grito de prazer, arqueando as costas, e no mesmo segundo eu me acomodei na cama ao lado dela. Peguei o rosto de María com as duas mãos. Seus olhos, pretos e dilatados pelo prazer, se cravaram nos meus na hora. Tinha acabado o olhar de fora. Era um caos de corpos suados, do barulho obsceno da carne molhada batendo contra carne. Enquanto Rafael metia tudo e sem parar, eu colei nela. Beijei ela abrindo sua boca, mordendo seus lábios, abafando seus gemidos contra minha garganta. Meu peito roçava o dela; minha perna, a cada sacudida, batia contra a perna de Rafael. Estávamos comendo minha mulher juntos, devorando ela ao mesmo tempo, compartilhando o suor, o cheiro de sexo pesado que inundava o quarto. —Mais —pediu María, se separando um milímetro da minha boca, com o cabelo colado na testa pelo suor, sem tirar os olhos de mim—. Os dois. Quero sentir os dois. Foi o ponto de virada. O antes e o depois de tudo. Rafael entendeu sem que ninguém traduzisse. Deitou de barriga pra cima sobre os lençóis desarrumados. María montou nele, dando a bunda e ficando de frente pra mim, enquanto eu me ajoelhava no colchão bem na frente dela. María me pegou pela cintura e me puxou pra si. Entrei nela por frente enquanto ela descia sobre Rafael. O impacto de nos sentir dentro do corpo dela ao mesmo tempo, o roçar bestial e antinatural, arrancou um grunhido dos três. Ali estava minha fantasia: suja, perversa, encharcada e completamente nossa. A gente metia juntos, coordenados num ritmo selvagem, quase violento. As pernas de María tremiam; ela tinha a boca aberta buscando ar, chorando de puro tesão, mas seus olhos estavam fixos em mim, ancorados nos meus pupilas como se meu olhar fosse a única coisa que evitava que ela desmaiasse de prazer. Rafael a segurou pelos quadris por baixo, grunhindo palavras em português que nenhum de nós entendia, enquanto eu acariciava o pescoço dela, a clavícula, reivindicando-a com cada estocada frontal. Era o limite da loucura. Quando a fricção ficou insuportável e o quarto inteiro parecia vibrar com nossos gemidos, María cravou as unhas nos meus braços. Ela se tensionou por completo, trouxe meu rosto a um centímetro do dela, e com a voz afogada em saliva e desejo, sussurrou no meu ouvido: —Não fecho os olhos. Te vejo. Te vejo a você. Essa frase fez a noite inteira explodir. Gozei dentro dela com uma força que me deixou cego, me esvaziando, enquanto as paredes dela pulsavam apertando nós dois. Vi como o orgasmo desfigurava a cara dela de prazer, sempre olhando pra mim, sem piscar. Rafael terminou um segundo depois, cerrando os dentes; depois saiu dela devagar, com a camisinha cheia. Ninguém disse "Montevidéu". Ninguém queria parar absolutamente nada. Rafael se vestiu sem pressa. Na porta, María se levantou enrolada no lençol e o abraçou, um abraço de despedida, daqueles de aeroporto. Ele tirou um papel dobrado do bolso da camisa e entregou pra ela. —Meu número. Caso vocês voltem ao Brasil algum dia. María olhou pra ele, dobrou mais uma vez, e colocou na minha mão. —Guarda você. Rafael entendeu isso também. Me apertou a mão, disse "boa viagem", e foi pelo corredor. Nunca mais o vimos. Ficamos um tempo na varanda, com as taças pela metade. Dava pra ouvir o mar, como na primeira noite. Sete noites depois, o mesmo mar. —Foi só por hoje? —perguntou ela, e era a terceira vez na viagem que perguntava isso. —Não sei —falei—. E pra você? —Também não sei. —Ela apoiou a cabeça no meu ombro—. Mas sei com quem vou descobrir. Três semanas depois, numa sexta, saímos pra jantar num bar em Pocitos. María vestiu o vestido verde. Aquele que tinha comprado pro viagem e que em Montevidéu ela nunca teria se animado a usar. Fui pedir as bebidas. Quando me virei do balcão, vi. Um cara sozinho, duas mesas mais adiante, que a olhava sem pressa. María fingia que lia o cardápio. Sentei e passei a bebida pra ela. —Você tem um admirador —falei. —Já sei —respondeu sem levantar os olhos. E depois levantou os olhos, olhou pra mim, e não baixou—. Te incomoda? Dessa vez não esperei a fisgada do ciúme nem nenhuma outra coisa. Já sabia o que vinha. —Não —falei—. Mas dessa vez as regras a gente fala antes. Ela riu com a cabeça pra trás. Foi assim que tudo começou.
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