Sofía - Cap 1

E aí, galera, vou compartilhar um relato que não é meu, pertence ao famoso escritor Dantes; só vou ilustrar com imagens e adicionar meu toque pessoal; em alguns capítulos vou mudar um pouco as cenas.

Sofía - Cap 1


Dizem que, nos dias de hoje, quando a internet é indispensável na vida cotidiana, o melhor conselho que uma pessoa pode receber é: "Apaga teu histórico de navegação".


Como um homem moderno, Salvador seguia essa máxima à risca. Não importava se estava em casa ou no trabalho, ao terminar de usar o computador, sempre apagava todo rastro das páginas que tinha visitado.


E dá pra saber muita coisa sobre um homem só olhando os sites que ele frequenta na internet, e o Salvador tinha um grande segredo que o envergonhava e que ele não queria que ninguém descobrisse.


Não lembrava com exatidão em que momento da sua vida tudo começou. Talvez fosse desde a infância, quando sua amada mãe, geralmente sempre carinhosa com ele, defendia o antigo vizinho, um garoto um pouco mais velho que costumava implicar com ele. Não importava as provas que ele levasse, desde uma roupa rasgada até um roxo, ela sempre defendia aquele moleque, que às vezes até mimava mais do que a ele.


Claro, naquela época a mente infantil de Salvador não conseguia entender o que estava sentindo. Era ciúmes de ver a mãe tratar outro menino melhor do que ele, supôs. Mas com os anos tudo foi mudando de um jeito estranho. Cada vez que pensava naqueles tempos, sentia uma coisa bem diferente.


Bom, também é preciso levar em consideração que, quando Salvador tinha dez anos, seus pais se divorciaram por causa da infidelidade da mãe com o pai daquele menino que ela tanto mimava, e ela tinha ido embora com eles. O pequeno Salvador não entendia o que a palavra "infiel" significava; no entanto, não levou muitos anos para ele compreender. Quando compreendeu, odiou a mãe, mas também sentiu outra coisa, algo que, sem dúvida, foi a semente para a condição que ele teria por toda a vida.


Ele cresceu sendo um cara bonito, com bastante sorte com as mulheres. Aos dezesseis anos, já tinha tido mais namoradas do que muitos homens têm em toda a vida. No entanto, apesar disso, não se considerava uma pessoa feliz. Essas garotas não conseguiam fazê-lo se sentir bem, eram gostosas e ele se sentia atraído por todas, mas nada mais, sentia por elas apenas uma atração vazia que não o satisfazia.


Mas chegou o momento em que as coisas mudaram. Ele conheceu a pessoa certa, aquela com quem pensou que passaria o resto da vida. Isso aconteceu quando Salvador tinha dezenove anos. Numa aula da faculdade, ele conheceu Sofía.


Na mesma hora ficou caidinho por ela, pela sua beleza, por aquele sorriso capaz de derreter o mais antigo dos glaciares, pelos seus enormes olhos cor de canela, às vezes meigos, às vezes felinos, que o atraíam com a força de um feitiço abençoado. Apenas dez minutos depois de tê-la visto, Salvador se apaixonou pela primeira vez na vida, e entendeu que já não era dono do seu coração.


Não foi fácil conseguir isso. Sofía era uma garota tímida ao extremo, como Salvador nunca tinha visto antes. Toda vez que ele se aproximava e tentava falar com ela, ela ficava tão nervosa que era incapaz de responder, e tentava escapar o mais rápido possível.


Ela estava sempre sozinha; os meses passavam e ela não fazia amizades. Salvador sabia que ele não era o único cara que tinha sido conquistado pelos encantos dela, pois podia ver que muitos a rondavam, tentando, igual a ele, ganhar os favores dela.


Mesmo que ela nunca tivesse demonstrado interesse em nenhum de seus outros pretendentes, Salvador sentia algo estranho toda vez que a via trocar nem que fosse um cumprimento com outro homem. Ele ainda não entendia completamente o que estava acontecendo com ele, mas já começava a perceber que não era algo muito normal.


Levou um ano inteiro pra ele ganhar confiança suficiente da Sofia pra chamar ela pra sair. Mesmo ela tendo recusado no começo, no fim aceitou, e depois ficou super nervosa enquanto passeavam pela cidade. Era nítido que ela também sentia algo por ele, então não demorou muito pra eles ficarem namorados.


Salvador tinha certeza de que a amava, e que ela era a mulher destinada a ele. Estando com ela, sentia-se completo. Só de ver o rosto dela, sentia-se feliz, mesmo que estivesse com raiva, e ver o sorriso dela o derretia. Também estava convencido de que o que ela sentia por ele era comparável aos seus próprios sentimentos. Sem dúvida, estavam destinados a ficar juntos para sempre.


No entanto, com o namoro não veio só a felicidade, mas também algo mais. E é que agora que Sofia era sua namorada, os ciúmes que Salvador sentia antes, quando qualquer homem se aproximava dela, se intensificaram. Tentava por todos os meios contê-los, e nunca contou nada a ela, pois sabia perfeitamente que ela não tinha culpa de ser tão gostosa, nem de provocar o que provocava nos homens.


No entanto, no ciúme dela havia algo mais. Uma sensação estranha que fazia seu pulso acelerar toda vez que via Sofía falando com outro homem. Sentia sempre como se seu coração fosse explodir.


Foi então que, preocupado com sua situação, Salvador decidiu buscar na internet informações sobre o que estava acontecendo com ele. Levou o susto da sua vida quando sua busca o levou a um fórum estranho onde a palavra "cuck" era mencionada com muita frequência.


Aí ela descobriu o verdadeiro significado dessa palavra. Aprendeu sobre os homens que gostam de ver suas mulheres com outros. Pensou que estava enganada, ele não podia ser como esses homens, não podia ser tão… anormal.


Ele conseguiu se convencer de que havia um erro, que o que sentia ao ver Sofia se relacionando inocentemente com outros homens não tinha nada a ver com isso que os usuários do fórum chamavam de fetiche; para ele, parecia uma desvio, nada mais que um defeito psicológico.


No entanto, aquela sensação não desaparecia. Toda vez que um homem demonstrava o mínimo de interesse em Sofia, o alarme interno de Salvador disparava. Não importava se era outro aluno, um professor da escola que falava com ela de um jeito que ele achava inapropriado, ou qualquer um que encontrassem na rua e que olhasse pra ela por mais de dois segundos — o coração dele sempre começava a acelerar, e uma mistura de ciúmes e tesão rugia dentro dele.


Claro, manteve tudo isso em segredo. Não queria assustar a Sofia, a última coisa que ele queria era que ela pensasse que ele era um ciumento possessivo, ou pior, um maluco de pedra.


No entanto, com o passar dos meses, ela não conseguia tirar da cabeça o que tinha lido naquele estranho fórum da internet. Apesar de ter prometido a si mesma não voltar àquele site, não conseguiu segurar o impulso de entrar de novo. Dessa vez, até criou uma conta e tentou interagir com os outros usuários.


Ele viu os posts que outros tinham criado, suas experiências sendo cornos. Quanto mais lia, mais identificado se sentia. Ele era como aqueles homens, e de certa forma se sentiu confortável naquele lugar, compartilhando com outras pessoas que experimentavam o mesmo que ele.


Ele começou a frequentar cada vez mais o fórum e, aos poucos, entendeu o que estava acontecendo com ele. Depois de alguns meses, até se atreveu a fazer um post, comentando o que estava rolando, e todos os outros usuários o trataram com respeito, como uma matilha que acolhe um filhote novo.


Pouco a pouco, sem perceber, Salvador ficou viciado em visitar aquele fórum. Com o tempo, ficou muito melhor escondendo o ciúme que sentia quando Sofia conversava com outro homem. E finalmente conseguiu aceitar o que acontecia com ele: tinha esse fetiche, talvez sempre tivesse tido. No entanto, era vergonhoso demais admitir, então fez a si mesmo o juramento de que nunca contaria a ninguém, muito menos à Sofia.


Assim o tempo passou, e o relacionamento dele com Sofia foi se fortalecendo. O amor deles era cada vez maior, até que, cinco anos depois de se conhecerem, após se formarem na faculdade, eles se casaram.


A vida deles juntos era melhor do que ele podia imaginar. Sua esposa, com o passar dos anos, tinha ficado ainda mais bonita do que antes, também mais aberta e atenciosa, mais doce e gentil. Embora continuasse muito tímida com os outros, quando estavam sozinhos, ela se comportava com naturalidade, brincando e sendo muito carinhosa. Salvador se sentia o homem mais feliz do mundo ao estar com ela.


No entanto, apesar de tudo o quão feliz era o relacionamento deles e do quanto ele a amava, ele nunca teve coragem de contar seus segredos. Com o passar do tempo, Salvador começou a se sentir estranho, de um jeito muito parecido com como ele se sentia com aquelas namoradas da juventude… Insatisfeito.
 
Uma noite, uns dois meses antes do quinto aniversário de casamento, Salvador estava navegando na internet no computador, sentado no sofá da sala. A mulher dele dormia no quarto, então ele estava tentando fazer o menor barulho possível, como tantas outras noites antes daquela.


Eu estava visitando o fórum de cornos que tinha descoberto dez anos atrás. Já era um membro destacado, pois sempre comentava as histórias dos outros e participava de toda discussão sobre outras experiências.


Naquela noite, ela estava lendo uma história escrita por um dos seus usuários favoritos, um que sempre contava experiências dele e da esposa, misturando realidade e ficção com resultados dos mais excitantes. Na história daquela ocasião, ele explicava que a esposa tinha ficado com um homem mais velho enquanto ele observava tudo.


Esse tipo de relato deixava o Salvador muito excitado. Principalmente ao imaginar a Sofia se comportando como aquelas esposas amorosas que compartilhavam as fantasias dos maridos.
E o sexo com a esposa dele não era o melhor do mundo. A natureza tímida de Sofía fazia com que houvesse muitas coisas que ela não queria fazer. As relações deles não saíam do mais comum coito marital, e era só isso.


Por isso, quando ele lia sobre uma esposa tão gostosa que era capaz de engolir o pau inteiro de algum amante que tinha, ou de entregar até o cu na busca pelo prazer, Salvador não conseguia sentir outra coisa que não fosse inveja.


O sonho dele era que Sofía se entregasse desse jeito pra ele, que chupasse o pau dele com prazer, e que até um dia quisesse experimentar sexo anal. Embora, pra ser sincero, bem no fundo ele desejava que ela fizesse isso com outro, mais do que com ele. Antes ele odiava se sentir assim, mas com o tempo tinha aceitado sua natureza. Só que a cada nova fantasia que tinha, voltava a sentir culpa. Era como usar a mulher dele como puta e, mesmo sendo só na imaginação dele, parecia uma atrocidade.


Mesmo assim, estava prestes a desabotoar o short e se dar uma boa punheta, igual tinha feito tantas outras noites. Sabia que era o único jeito de acalmar um pouco o tesão, usar coisas que aconteciam com os outros, não com ele. Nunca se arriscaria a deixar Sofia saber a verdade, a enxergar dentro dele e sentir nojo do que encontrasse ali.


Mas antes que ele pudesse se satisfazer, um choro vindo do quarto o tirou de todos os seus pensamentos. Ele deixou o computador sobre a mesa da sala e foi ver a bebê.


Ele se aproximou do berço e pegou a pequena Alejandra no colo. Com seus seis meses, ela era a coisa mais linda que Salvador já tinha visto em toda a sua vida, o que ele mais amava no mundo, e também o mais desesperador que ele já tinha enfrentado.


Não é que ela chorasse o dia todo, mas quando chorava, o choro dela ecoava pelo apartamento inteiro e era impossível calar ela.


—Calma… calma… —ele disse, puxando-a para o seu peito—. Você vai acordar a sua mãe.
—Tarde demais —disse uma voz atrás dela—. Já estou acordada.


Salvador se virou e viu sua esposa com o cabelo bagunçado e vestindo apenas seu pijama folgado. Era incrível como ela era linda a qualquer hora, mesmo recém-acordada exibia uma beleza que qualquer outra mulher só conseguiria se esforçando muito na maquiagem.


—Deve estar com fome — disse Sofía, pegando a bebê dos braços de Salvador e sorrindo para os dois.


Salvador se dispôs a voltar para a sala, consciente de que não poderia fazer nada para aliviar aquela irritação específica da filha. O melhor era deixar a mulher dar peito pra bebê e voltar às suas coisas. Já não ia conseguir se masturbar, mas poderia ler mais alguma história antes de desligar o computador.


Mas, para sua surpresa, Sofía não ficou no quarto amamentando a Alejandrita, e sim o seguiu com a menina ainda chorando a plenos pulmões.


Salvador chegou na sala e pegou o notebook. Sofia estava grudada nele, então seria impossível fechar as abas do navegador sem que ela visse, por isso ele optou por simplesmente fechar a tela e pronto. Ele tinha consciência de que aquilo podia parecer estranho, mas preferia isso a ela perceber o site em que ele estava metido.


A menina continuava chorando quando Sofía se sentou ao lado dela no sofá. Sua esposa levantou a camisa do pijama, mostrando ambos os peitos, e aproximou a boca da pequena ao seu mamilo direito. A bebê, sem perder nem um minuto, começou a se alimentar da porra de sua mãe.


Passaram-se vários segundos e, ao contrário do que normalmente fazia, Sofía não cobriu o outro peito nem tentou se esconder. Geralmente ela era tímida até pra isso, mas naquela noite não fez.


—Tá tentando me seduzir? — perguntou Salvador, encarando os peitos inchados e lindos da sua esposa.


Ela sorriu timidamente para ele, e baixou o olhar até a virilha dele.


—Parece que tá funcionando —ela respondeu.
Salvador seguiu seu olhar e se deparou com o volume marcado nas calças dele; sem dúvida, os restos da ereção por ter ficado lendo aquela história excitante.
—Fica excitado assim vendo sua filha tomando porra? —perguntou Sofía com um tom evidente de brincadeira.
—Digamos que me dá água na boca —disse Salvador, sorrindo.
Sofía sorriu divertida e continuou amamentando sua filha por vários minutos, até que a pequena caiu profundamente adormecida.
Então, ela se levantou e estendeu a mão para Salvador.
—Vem comigo… — ela disse de um jeito tão carinhoso que ele não conseguiu recusar. Ele se levantou e seguiu a esposa até o quarto, esquecendo completamente o computador.
Sofía colocou a menina no berço com muito cuidado e, depois de se certificar de que ela não acordava, virou-se para ver o marido.
—Então… Ainda tá com fome? — perguntou ela, com um sorriso que, embora ainda demonstrasse timidez, deixava transparecer certa luxúria.
—Claro —respondeu Salvador—. Um monstro tá devorando minhas tripas.
Sofía sorriu e se aproximou até colar nele.
—Acho que posso te ajudar —disse ela, aproximando a boca da dele para dar um beijo com carinho—. Sua filha deixou um pouco da papinha dela… e não tem por que desperdiçar, né?
Salvador sorriu com as palavras da sua mulher, ele adorava quando ela ficava um pouco mais ousada do que o normal. Não que fosse grande coisa se comparado com outras mulheres com quem ele tinha estado antes dela, mas sim em relação ao dia a dia deles.
—Bom… —Salvador levou uma das mãos ao peito direito de Sofía e apertou, fazendo com que saísse porra e escorresse sobre sua mão —, seria um verdadeiro pecado deixar que se perdesse tal delícia. —Ele se inclinou e capturou com os lábios o mamilo. Sua língua deslizou pela superfície do peito perfeito, recolhendo os restos de porra que havia liberado.


—Ooooh —gemeu Sofía.
Salvador continuou chupando com doçura, sorvendo até a última gota de porra que saía daquele peito gostoso. Pulou de um mamilo pro outro, provocando tremores no corpo da esposa. Até que ela não aguentou mais e o obrigou a subir pra sua boca.


Eles se jogaram na cama, se beijando do jeitinho carinhoso que sempre faziam. Salvador se afastou um pouco do beijo e olhou para a sua mulher.


—Ei… —começou a dizer, nervoso—, você acha que hoje à noite você poderia…?
Sofía levou um minuto para entender a que ele estava se referindo. Quando entendeu, a expressão de paixão em seu rosto desapareceu.
—amor —disse com seriedade—. Sei o quanto você o ama, mas não posso… Só de pensar em colocar um… um pau na boca, ou lamber…, me dá… medo.
Salvador sentiu que sua ereção estava sumindo. No entanto, não podia culpá-la. Ele a amava demais.
—Já sei —disse Salvador, tranquilizando-a com a mão no rosto dela. Ele tinha pedido aquilo tantas vezes e, embora não perdesse a esperança, começava a achar que nunca ia acontecer; sem falar do sexo anal—. Não se preocupa, amor.
—É que… —por um momento, Salvador pensou que Sofía ia começar a chorar—. Me dá pena não poder te dar o que você quer. Eu quero te satisfazer…
—Você já me satisfaz — disse Salvador com ternura —. Você me dá muito mais do que eu mereço.
—Sério mesmo? —perguntou Sofía.
—Claro —respondeu Salvador—. Com você ao meu lado, me sinto o homem mais feliz do mundo.
—Mas… na cama… Eu sei que você quer mais… e eu adoraria te dar isso, mas não posso…
—Psiu. Sexo não é tão importante quanto o amor. Que você me ame já é mais que suficiente pra mim.


Sofía voltou a beijá-lo. Seus olhos brilhavam por causa das lágrimas que nunca caíram.


Naquela noite, Salvador e Sofía fizeram amor. Ela se esforçou para agradar o marido, e ele recuperou a paixão; foi o sexo mais intenso que tiveram em muito tempo. No entanto, com o ato já consumado, quando Sofía já dormia abraçada ao seu peito, Salvador não pôde evitar suspirar e pensar que suas relações não eram melhores que as de dois adolescentes de primeira viagem. Ele adoraria que Sofía fosse mais fogosa na cama, que demonstrasse mais luxúria. Embora a amasse de todo o coração, não conseguia deixar de se sentir cada vez mais insatisfeito.


Fechou os olhos, repetindo para si mesmo o que tinha acabado de dizer para a sua mulher, que sexo não era o mais importante, e que não importava nada, eles iam se amar a vida toda.
Quando ele adormeceu, um monte de fantasias invadiu sua mente. Sofía dando o boquete mais incrível, pra depois entregar o cu pra ele curtir. No meio do sonho as imagens mudaram; agora quem estava curtindo o sexo da esposa não era ele, mas um estranho sem rosto, um que sua mente criou pra alimentar seu fetiche.
 
No dia seguinte, Salvador acordou com uma dor de cabeça insuportável, que só piorou quando ouviu a filha chorando. Saiu do quarto e foi para a sala, onde Sofía andava de um lado para o outro com a pequena, tentando acalmá-la. Ela sorriu assim que o viu entrar, e depois fez uma careta de irritação.
Salvador se aproximou e pegou a menina dos braços da mulher. Na hora parou de chorar, fazendo com que os dois pais se olhassem com alívio.


—Parece que ela estava com saudade do papai — disse Sofía, se jogando no sofá. Salvador notou que em cima do sofá estava a bolsa onde sua esposa levava a roupa de academia.
—É dia de academia? —perguntou Salvador, apontando com a cabeça para a bolsa.
—Sim —respondeu Sofía—. Não vou há duas semanas. É hora de voltar.


Depois de dar à luz a Alejandra, Sofía se dedicou completamente a cuidar dela. Parou de ir à academia e até pediu demissão do trabalho, dizendo que queria tirar um ano sabático para cuidar da sua bebê. Como Salvador ganhava dinheiro suficiente para viver bem, eles não tinham tido problemas com isso; na verdade, ele estava feliz por sempre, ao voltar para casa, sua esposa estar lá, esperando por ele.


Agora, pelo visto, Sofía tinha decidido voltar à academia. Desde que Salvador a conheceu, ela frequentava uma. Em boa parte, isso explicava o corpo maravilhoso que ela tinha, digno não de uma modelo, mas de uma verdadeira estrela pornô. Se ao menos ela estivesse disposta a aproveitar tudo o que aquele corpo podia oferecer…
—Vou deixar a Janita com a dona Dolores — disse Sofía. A julgar pela sua expressão contida, era evidente que ela sabia que essa ideia não agradava muito a Salvador.
—Por que não com outra pessoa? — perguntou ele, meio irritado.
—Não conheço mais ninguém o suficiente nesse prédio —respondeu Sofía, dando de ombros—. A dona Dolores é uma pessoa muito boa, e gosta muito da Alejandrita.
—Não tô dizendo que ela é má pessoa —respondeu Salvador—. Eu gosto dela, o problema…
—Dom Porfirio —terminou Sofia por ele, suspirando, mas não irritada. Ela já estava acostumada com o pouco apreço que o marido demonstrava pelo porteiro do prédio.
—Esse homem me dá um mau pressentimento —disse Salvador—. Ele não tem muita educação, e está sempre…
Ia dizer que sempre estava olhando pra Sofia com maus olhos, mas se segurou, pois não era necessário que sua esposa soubesse.
—Seja como for, não gosto que você ande com ele — disse Salvador.
—E eu não falo com ele — disse Sofía —. A verdade é que ele também não me cai muito bem. A única coisa que eu faço é levar a Janita até a porta, entregar as coisas pra dona Dolores e depois ir embora. Na volta, a mesma coisa.


Salvador fez um gesto de desdém, se dando por vencido. Sabia que não adiantava discutir, não ia proibir a esposa de ir à academia por ciúmes. Não é como se ela precisasse ir à academia, com aquele corpo, mesmo que não se exercitasse pelo resto da vida, continuaria sendo uma deusa, mas ela gostava de ir, e se isso a fazia parecer ainda mais gostosa, melhor ainda.


—Tá bom —disse Salvador, e entregou a menina para Sofía —. Preciso tomar um banho.
Alguns minutos depois, Salvador saía do seu apartamento após ter se despedido de suas duas mulheres. Desceu no elevador. Quando chegou ao térreo, deu de cara com quem menos queria encontrar.
—Bom dia, seu Martínez —disse Porfirio, o zelador que também fazia as vezes de síndico, com aquela voz tão irritante que ele tinha —. Indo pro trampo?
—É isso mesmo —respondeu Salvador, tentando manter a calma —. Tem que levar o pão pra mesa.
—Claro —respondeu o senhor Porfirio.
Era o oposto total de Salvador. Um baixinho gordo com cara de bandido e, embora tivesse pouco mais de cinquenta anos, parecia bem mais velho. Salvador não entendia como alguém como ele, um cara com um nível de instrução quase nulo, tinha acabado como zelador do prédio. Quando perguntou a um vizinho, descobriu que o dono devia algum tipo de favor a ele, por isso deixava que morasse ali, segundo os boatos, de graça.
—Aliás, minha velha me disse que a gente vai cuidar da filhinha dela — disse o senhor Porfirio, mostrando os dentes numa careta que podia se confundir com um sorriso.
—É isso mesmo —respondeu Salvador, com seriedade—. Minha esposa tem que sair.
—Soube que ela vai à academia —comentou o senhor Porfirio. Salvador não teve outra opção a não ser concordar. Não gostava da ideia daquele homem saber o que sua mulher fazia. Desejou que Sofía não tivesse contado para a dona Dolores. — Não entendo pra quê. A verdade é que ela já está muito bem assim.
—Com licença? —perguntou Salvador, indignado.
—Vamos, vamos, cara, não leve a mal —disse Porfirio—. Só tô dizendo que sua mulher tá em ótima forma, só isso.
O sorriso do homem era claramente provocativo, mas Salvador decidiu que não ia dar a ele o prazer de discutir, não de novo; então simplesmente se despediu com um gesto desdenhoso e foi embora.
—Não se preocupe, vamos cuidar muito bem dela, do seu bebê. Dolores adora ela —disse o velho Porfirio quando Salvador já estava quase saindo do prédio. Pensou em voltar e gritar alguma coisa, pois tinha certeza de que naquele momento o homem estava zombando dele, mas se conteve e seguiu seu caminho, pensando no quanto gostaria de cair fora e ir viver em outro lugar.
 
O dia de trabalho dele não teve maiores complicações. Salvador era subgerente de uma concessionária de carros. O cargo exigia ser astuto e dinâmico, mas não era pesado e recompensava com um salário muito bom.
Ao sair, foi direto para casa. Como de costume, subiu no elevador e caminhou pelo corredor até a porta do seu apartamento. Abriu e se deparou com sua esposa sentada no sofá, com o computador que ele tinha usado na noite anterior — e que havia esquecido completamente — aberto sobre a mesa de centro. Na tela brilhava o site que na noite anterior, e em muitas outras, ele havia visitado em segredo.


Nos olhos de Sofia havia lágrimas de tristeza e raiva.
—A gente precisa conversar —disse Sofía, apontando para o computador.
Salvador sentiu que seu coração era apertado por uma mão gigantesca. Teve o impulso de sair correndo, mas as lágrimas de sua esposa o cravaram no chão. Sofía merecia uma explicação.
Ela percebeu que tinha cometido um grande vacilo, e que seu casamento estava em perigo.
Ele se sentou na poltrona em frente à sua esposa. Estava metido numa grande encrenca. Não podia acreditar que tinha sido tão estúpido. Sempre tomava cuidado de apagar os dados de navegação do seu computador. Tinha sido um idiota ao esquecer o que havia acontecido na noite, quando se viu obrigado a deixá-la aberta bem na página do fórum.


—Quando voltei da academia… —começou a dizer Sofia. Parecia que tinha chorado um bom tempo, mas já estava calma—. Precisava procurar uma coisa na internet, mas quando peguei o computador…
—amor… — começou Salvador, mas ela o interrompeu imediatamente.
—Quando vi isso, não conseguia acreditar — disse ela, apontando repetidamente para a tela —. Essa história tão estranha…
—Você leu? —perguntou Salvador, com o coração na mão.
Sofía assentiu.
—Fiquei curioso —disse, como se estivesse se desculpando —. Não esperava que fosse uma história assim. Alguém contava que a mulher dele tinha transado com outro… E fazia isso com tanta naturalidade. Parecia orgulhoso disso… Será que realmente tem homens que gostam disso?
Salvador não disse nada. Engoliu em seco. Entendeu que qualquer coisa que dissesse só ia piorar as coisas.
—No começo eu achei que você não podia ter ficado navegando nesses sites. Pensei que era uma dessas páginas que abrem sozinhas, por causa de anúncio. —Olhou nos olhos dele—. Mas eu olhei seu perfil… Nove anos? Você criou faz nove anos. E não é só entrar pra ler essas… coisas… Eu li seus comentários. —O rosto de Sofía se contraiu, mas ela conseguiu segurar o choro.
Salvador estava mudo. Sabia que estava agindo como um covarde ao não falar, mas é que não conseguia. Não suportava a possibilidade de Sofia o desprezar pelo que ele era.
—Você não me ama? —perguntou Sofía. Essas três palavras transformadas em pergunta o atingiram como um martelo sobre uma bigorna.
—Te amo mais que a minha vida — disse Salvador de imediato —. Você e a nossa filha são a melhor coisa que já me aconteceu. O mais importante da minha vida.
—Então, por que você escreveu tudo aquilo sobre mim? —perguntou Sofía—. Por que você postou naquele fórum que gostaria que eu desse pra outro cara?
—Eu…
Diante da indecisão de Salvador, Sofia se levantou. Dava pra ver que ela estava mais magoada do que puta da vida. Ele levantou rápido da cadeira e foi atrás dela. Abraçou ela por trás com toda a força que tinha.
—Escuta, meu amor. Não vou negar nada do que você viu, não faria sentido. — Ela tentou se soltar do abraço dele, mas ele não deixou —. É verdade que há muitos anos eu sou assim. Tenho esse fetiche. Entendo que você ache estranho, mas acredite, são só fantasias, imaginações minhas que nunca vão se tornar realidade.
Dessa vez Sofía ficou em silêncio.
—Eu te amo. É a maior verdade que eu já disse em toda a minha vida. Sem você, eu não seria nada.
—Por que você não me contou? — perguntou Sofia.
—Eu tava com medo. Medo de você pensar mal de mim —disse Salvador.
—Tô pensando nisso agora —disse Sofia, e Salvador sentiu como se a alma dele caísse no chão. Ele não queria que ela deixasse de amá-lo. Não queria perdê-la—. Não pelo… seu fetiche, ou como você quiser chamar. —Ela se virou sem escapar do abraço dele—. Isso é estranho pra mim, mas o que mais me machuca é que você não me contou. —Salvador tentou dizer algo, mas ela o interrompeu—. Sim, eu teria ficado escandalizada, teria ficado puta com você por vários dias se você tivesse ousado me sugerir… Bom, você sabe. Mas agora que descobri sozinha, não consigo parar de pensar em que outras coisas você tem escondido de mim, talvez há quanto tempo.


—Nenhuma —disse Salvador, alarmado—. Eu não queria que você soubesse das minhas fantasias porque eu tinha vergonha, mas te prometo que não escondi mais nada de você. Juro pela minha vida.
Sofía olhou nos olhos dele por vários segundos, como se estivesse tentando ler a alma dele.
—Sério mesmo? —ela perguntou.
—Sério mesmo — garantiu Salvador.
Sofía então tentou de novo se livrar do abraço dele. Dessa vez Salvador a deixou ir. O marido atormentado viu sua esposa caminhar pela sala do apartamento até se sentar no sofá de novo.
—Vem —disse ela, indicando com um gesto que queria que ele se sentasse ao seu lado —. A gente precisa falar sobre isso.


Salvador fez o que a esposa pedia. Sentou-se ao lado dela e, por mais de uma hora, respondeu a todas as perguntas de Sofia. Contou como tudo começou, da estranha emoção que sentia quando outros caras se aproximavam dele na faculdade, e como escondeu seu fetiche por anos.


Ela escutava, às vezes com o olhar baixo, de vez em quando olhando pra ele com espanto, sempre com os olhos brilhando. Depois de ouvir uma resposta, ficava meditando calada por vários minutos antes de voltar a falar. Salvador notava que ela estava fazendo um grande esforço pra entender.


—Você pode me perdoar? —perguntou Salvador, quando pensou que não havia mais perguntas para responder.
Sofía não respondeu na hora. Ficou calada, olhando pro nada por um tempo, até que finalmente suspirou.
—Eu te perdoo por não ter me contado — disse ela —. Entendo que uma coisa dessas… não deve ser fácil de confessar.
—Não é —respondeu Salvador.
—Não há mais nada pra perdoar — comentou Sofia, surpreendendo Salvador —. Não entendo o que tá acontecendo com você, mas não te julgo, mesmo que tudo isso me pareça imoral e antinatural. Quando me casei com você, fiz um juramento de fidelidade, e essas coisas que acabei de descobrir sobre você são… demais pra mim.
Salvador assentiu, magoado.


—Mas eu não estou chateada com você por isso —continuou sua linda esposa, sorrindo, embora fosse evidente que ela só fazia aquilo para acalmá-lo. Ela ainda estava chocada—. Sua mente é sua. Você pode ter todas as fantasias que quiser, desde que entenda que elas vão ficar lá… E você não precisa se esconder de mim. —Ela olhou para o computador—. Você pode visitar esses sites quando quiser. Mas… não me fale sobre eles, por favor.
—Eu te prometo — disse Salvador, consciente de que tinha saído melhor do que esperava.
Bem nessa hora, a bebê começou a chorar no quarto. Sofía se levantou e foi em direção ao quarto. Mas antes, ela se virou e olhou para Salvador.
—Você tinha razão em uma coisa. Isso… —disse Sofía, apontando para o computador—, com a gente…, nunca vai acontecer.
 
FIM CAPÍTULO 1.

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