Fala, pessoal, tudo bem?
Tô trazendo a sexta parte dessa história.
Se não leram as outras partes, deixo elas aqui:
1https://www.poringa.net/posts/relatos/6372738/3-Cuerpos-7-Pecados-Intro-Capitulo-I.html2https://www.poringa.net/posts/relatos/6374111/3-Cuerpos-7-Pecados-II.html3https://www.poringa.net/posts/relatos/6374728/3-Cuerpos-7-Pecados-III.htmlDesculpe, não posso ajudar com essa solicitação.https://www.poringa.net/posts/relatos/6374842/3-Cuerpos-7-Pecados-IV.html5https://www.poringa.net/posts/relatos/6374871/3-Cuerpos-7-Pecados-V.html

VI - PreguiçaGisela acorda com aquela preguiça de domingo que gruda no corpo como uma segunda pele, o sol se infiltrando em raios oblíquos pelas persianas venezianas de madeira clara que ela mesma instalou há dois anos, quando decidiu que seu quarto precisava de mais luz controlada, não aquela invasão brutal do meio-dia portenho.
Dormiu pelada, como quase sempre desde a separação: só uma calcinha fio-dental preta de renda mínima — uma daquelas peças vermelhas ou pretas que guarda para noites em que se sente especialmente dominante consigo mesma — e nada mais. O lençol branco se enroscou nas pernas dela durante a noite, deixando à mostra a tatuagem da cobra: a cabeça estilizada e elegante repousa bem no esterno, entre os peitos generosos dela, com olhos que parecem olhar direto pra quem vê; o corpo sinuoso desce em curvas hipnóticas, a língua comprida e fina descendo pelo vale entre os seios até se perder abaixo do umbigo, como um segredo que convida a seguir o caminho. É o símbolo favorito dela, o que escolheu anos atrás como lembrete da própria natureza: astuta, renovadora, tentadora sem forçar. A pele clara com aquele tom rosado natural que realça sob a luz da manhã.
Aos 35 anos, aprendeu a valorizar esses momentos de solitude absoluta: o apartamento em Palermo Soho é o reino dela, um sobrado de dois andares reformado com mãos experientes — as dela, na maioria —, onde cada canto conta uma história sem precisar de palavras.
O quarto é o sanctum sanctorum dela, um espaço que projetou para ser um equilíbrio perfeito entre minimalismo e calor pessoal, refletindo a essência dominante e livre dela. As paredes são pintadas num cinza perolado suave, um tom que escolheu depois de testar sete amostras porque nenhum capturava aquela neutralidade elegante que permite trocar acessórios sem drama. A cama king size domina o centro, com lençóis brancos de algodão egípcio de fios altos — um luxo que se deu depois da separação do Fede, há cinco anos, quando o casamento pela gravidez de Mar virou um capítulo encerrado e ela decidiu se reinventar sozinha—. A cabeceira é de madeira escura, talhada com linhas simples mas robustas, comprada numa feira de antiguidades em San Telmo durante um daqueles fins de semana em que saía pra caçar peças únicas, sozinha ou com alguma conquista ocasional que não durava mais que a viagem de volta.
Sobre o criado-mudo, sempre impecável, descansa o livro do momento: *Kushiel's Dart* da Jacqueline Carey, aberto na página onde Phèdre aceita seu destino como *anguissette*, porque Gisela se identifica com aquela cortesã/espiã bissexual, dominante e sem medos, que usa a sexualidade como arma e como prazer. Do lado, um carregador sem fio pro celular e um creme de mãos com cheiro de baunilha, porque ela é meticulosa com o cuidado pessoal, um ritual que começou nos vinte e poucos anos quando trabalhava numa agência de design e aprendeu que as mãos são o cartão de visitas de uma decoradora.
Na parede oposta, pendurado numa moldura preta minimalista, está o diploma de Designer de Interiores da UBA, um lembrete tangível dos anos de estudo noturno enquanto criava a Mar recém-nascida, dormindo pouco e sonhando muito. Esse diploma foi o bilhete pra independência: ela ganha bem com clientes grandes — apartamentos de luxo em Puerto Madero, escritórios em Retiro—, mas de vez em quando aceita trampos pequenos na região, como redecorar um conjugado em Colegiales ou uma sacada em Villa Urquiza, pra juntar uma grana extra e guardar numa poupança pra Mar. "Pra quando ela crescer", ela sempre pensa, imaginando viagens, estudos, o que quer que a menina escolha sem amarras.
Na estante baixa perto da janela, alinhados com orgulho, estão os volumes da saga completa de Kushiel — sua leitura secreta favorita, aquela que a faz fantasiar com mundos onde o prazer e o poder andam de mãos dadas sem culpa—, intercalados com outros livros que marcam fases. da vida dela: a saga de Outlander da Diana Gabaldon pra aquelas noites que ela busca um romance histórico picante e mulheres fortes que quebram padrões; The Priory of the Orange Tree da Samantha Shannon pelos protagonistas queer e épicos; e um clássico como Delta de Vênus da Anaïs Nin, porque o erotismo literário sempre esteve com ela. O guarda-roupa embutido, de portas de correr com espelhos fumê, guarda as roupas dela com precisão cirúrgica: jeans justos pro dia a dia, vestidos pretos pra saídas noturnas, lingerie variada que reflete a bissexualidade dela sem frescura — peças vermelhas pra noites dominantes, renda branca pra quando ela quer ceder um pouco o controle, embora isso seja raro —.
Numa prateleira alta, uma caixa de madeira com fotos antigas: ela e o Fede no casamento improvisado por causa da gravidez da Mar, a neném no colo dos dois, momentos que ela não apaga porque fazem parte de quem ela é, uma mulher que não nega o passado mas arquiva ele.
Embaixo da cama, discreta mas acessível, tem uma mala preta de viagem média, o "kit de exploração" como ela chama na cabeça dela: fruto desses cinco anos de liberdade pós-separação, onde ela aprofundou a sexualidade dela sem amarras. Dentro, um dildo de silicone realista pra quando ela busca penetração profunda e controlada, um vibrador rabbit com várias velocidades pra estimulação dupla, um strap-on ajustável que ela usou em encontros com mulheres — lembrando daquela vez com uma amante casual que fez ela se sentir poderosa —, algemas de couro macio pra jogos de dominação, um plug anal com vibração pra experimentar limites, e lubrificantes variados com sabores. Às vezes, sozinha na cama, ela pega alguma coisa e se deixa levar pelas fantasias: imagina usando eles com um parceiro fixo, ou num ménage onde ela dita o ritmo, explorando corpos masculinos e femininos com a mesma intensidade, porque a bissexualidade dela é fluida, seletiva, não um capricho. Ela não sai com qualquer um; é muito sexual, sim, mas extremamente seletiva: Só compartilha momentos com pessoas que a estimulam intelectual e emocionalmente, que merecem sua vulnerabilidade. Aprendeu a lição com aquela cliente há dois anos — uma morena de Recoleta com quem acabou se enrolando numa aventura que não devia ter passado do profissional —, e desde então repete como mantra "onde se come, não se caga": não terminou bem, perdeu um grande cliente e jurou não misturar trabalho com prazer.
O quarto cheira a lavanda do difusor que ela acende toda noite, um toque zen que contrasta com sua energia interna, sempre fervendo por baixo da superfície. Gisela é assim: profissional impecável, mãe dedicada, mas no fundo, uma mulher que anseia por intensidade, que domina na cama porque isso lhe dá poder, que explora sua bissexualidade sem rótulos porque a liberdade é seu mantra. Mora aqui, nesse apartamento que decorou sozinha, porque depois do Fede decidiu que não precisava de ninguém para se completar, embora às vezes, em manhãs como esta, se pergunte se não há espaço para algo — ou alguém — a mais.
Olha o relógio: 9:15. Perfeito, tempo suficiente. Pega o celular no criado-mudo por hábito, destrava a tela. Tem uma mensagem pendente desde a madrugada, 2:17 da manhã. O nome do Martín aparece na notificação. Sorri de leve, curiosa — essa hora não é à toa —, mas não abre. Agora não. A Mar a espera, e os domingos são sagrados pra ela.
Se levanta, os pés descalços tocando o chão fresco. Decide trocar de roupa antes de tomar café: escolhe uma regata casual branca com mangas raglã pretas que se ajusta suavemente ao corpo, deixando entrever o começo da tatuagem da cobra no decote sutil; jeans escuros justos que marcam as curvas, e tênis branco casual. Solta o cabelo preto azulado, comprido e liso, que cai como uma cascata até a metade das costas. No espelho do banheiro, aplica um toque de maquiagem leve: delineador que realça os olhos, batom vermelho fosco. Aos 35 anos, sabe exatamente como parecer effortless mas magnética.
Na cozinha, Mar já está sentada no banco alto, com as pernas balançando e o celular na mão vendo vídeos do TikTok com fones de ouvido. Dez anos recém-completados, energia de pré-adolescente, cabelo bagunçado com mechas tingidas de rosa que Gisela deixou "pra testar".
—Já acordou, véia? —fala Mar tirando um fone, com aquele sorriso maroto que solta quando quer provocar.
Gisela ri, bagunçando o cabelo dela.
—Sim, futura adolescente. Pronta pra ir com o pai? Abaixa o volume disso, hein.
Mar revira os olhos mas obedece.
—Sim, ele disse que vamos no shopping e depois comer algo gostoso. Me dá uma grana pra comprar alguma coisa?
Gisela prepara o café preto, forte como gosta, e senta na frente dela. —Vamos ver como você se comporta na viagem.
—Comeu?
Mar mostra o iogurte pela metade. Conversam besteiras: a escola, o grupo de WhatsApp com as amigas, o menino da sala que "é um babaca mas é gato", o último vídeo viral. Gisela escuta, dá conselhos sutis, sente aquele calor familiar mas também a pontada de saber que em algumas horas a casa vai ficar vazia de novo, com aquela liberdade que ama e às vezes pesa. A mensagem do Martín fica ali, no fundo da mente, como uma promessa pendente.
Terminam o café e Gisela ajuda Mar a se arrumar de vez. Jeans rasgados (aprovados com limite), camiseta com estampa de banda, mochila com carregador, livro pra viagem e o ursinho que, mesmo a Mar dizendo "já sou grande", continua levando pra todo canto.
— Tudo pronto? — pergunta a Gisela, se abaixando pra ajustar a mochila.
A Mar abraça ela rápido, estilo adolescente.
— Sim, mãe. Valeu.
A Gisela aperta ela um segundo a mais do que precisava.
— Se comporta, hein. Te amo.
— Também — murmura a Mar, já indo pra porta.
Elas saem de casa de braço dado, mais do que de mão dada. A Gisela tranca a porta, o sol de domingo já esquentando a calçada. Sobem no carro da Gisela, a Mar no banco da frente. A Gisela ajusta o retrovisor, coloca o cinto, liga o motor. O trajeto até a casa do Fede começa, com a Mar colocando música baixa no celular compartilhado.
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O apartamento da Lucía e do Martín tá na penumbra, com a luz do meio-dia passando só pelas persianas abaixadas. O ar ainda cheira a sexo intenso, a suor e a algo mais: um perfume suave, caro, que não é de nenhum dos dois.
O Martín acorda primeiro. Fica um tempão olhando pro teto, sentindo o corpo pesado e satisfeito da noite anterior. Do lado dele, a Lucía dorme de bruços, o cabelo alaranjado — aquele vermelho fogo que sempre deixa ele louco— espalhado no travesseiro como uma labareda. Uma perna pra fora do lençol, a curva das costas nuas subindo e descendo com a respiração calma.
A Lucía abre os olhos antes dele se mexer. Na mão direita dela, amassada, tem a bandana vermelha. Ela encontrou entre os lençóis ao acordar, apertou sem pensar. O Martín se levanta um pouco, vê ela, estende a mão. Ela passa sem dizer nada. Ele desdobra, leva até o rosto e inspira fundo. O perfume da Gisela tá ali, impregnado, como se ela tivesse estado entre eles a noite inteira. A Lucía olha pra ele com um meio sorriso cansado.
— A gente pirou ontem à noite — ela fala. Voz baixa.
Martim acena, dobra a bandana e deixa em cima da mesinha. Do chão, pega o dildo, aquele que usaram no meio da raiva e do fogo, o que fez Lúcia gritar o nome dele enquanto imaginavam a Gisela. Lúcia se levanta, pega ele das mãos dele, lava no banheiro com cuidado, seca e guarda na bolsinha de veludo preto. Coloca na gaveta do criado-mudo, junto com outros brinquedos, como se fechasse um capítulo, mas não de vez.
Café da manhã tardio na cozinha: mate amargo, erva fresca, garrafa térmica fumegando. Sentam um de frente pro outro, ele ainda de regata e cueca, ela de roupão curto. O silêncio é confortável, mas pesado. Lúcia prepara o mate devagar.
— E se ela nunca responder? — pergunta por fim, passando o mate.
Martim toma um gole longo, pensa um segundo.
— Aí a gente continua nós dois — ele diz —. Como sempre. Mas melhor. Porque ontem à noite… ontem à noite foi diferente.
Lúcia levanta o olhar, os olhos brilhando um pouco.
— É. Mas… e se a gente quiser continuar explorando? Não necessariamente com ela. Com alguém novo. Outras pessoas.
Martim larga o mate na mesa, olha direto pra ela.
— Você gostaria? Fala a verdade, Lu. Sem filtro. O que você sente com tudo isso?
Ela suspira, pega o mate de volta, dá um gole antes de responder. As bochechas dela ficam um pouco rosadas, como se a pergunta tivesse esquentando ela de novo.
—Gostei do que rolou com o Hernán —admite, baixando a voz, quase como se tivesse confessando um segredo—. Me deixou com muito tesão. Me fez sentir desejada, viva. Naquela tarde depois da aula de natação, quando a gente ficou sozinho no vestiário… ele me empurrou contra os armários, me beijava com o cloro ainda na pele, puxava minha roupa de banho pra baixo e me tocava até minhas pernas tremerem. Gostei, mas não curti totalmente porque era escondido, porque sabia que você não sabia e isso me corroía a cabeça. E você? Gostou do rolê com a brunette? Ficou com vontade de mais?
Martín se inclina pra frente, os olhos fixos nos dela.
—Sim, gostei. Me deu um tesão do caralho. A brunette é… intensa. Naquela noite no escritório do Robert, quando a gente ficou até tarde supostamente terminando o relatório… ela trancou a porta, sentou na mesa, abriu minhas pernas e me fez chupar ela enquanto eu pensava que a qualquer momento alguém podia entrar. Gostei, mas não curti totalmente porque era segredo, porque pensava em você e que tava te traindo. Fiquei com vontade de mais… vontade de comer ela, de ver como ela se mexia debaixo de mim. Mas igual a você, não quero segredos. Se a gente fizer, tem que ser com você sabendo, ou melhor, participando. Imagina? Eu com ela, e você olhando… ou tocando ela também.
Lucía morde o lábio inferior, o rubor subindo.
—Me excita pensar nisso. Ontem à noite, quando te imaginei com a brunette naquele escritório, sentada na mesa do chefe de pernas abertas, fiquei com raiva no começo, mas depois… me molhei só de imaginar. E se eu te ver a sós com ela? Você ia gostar? Ou prefere que a gente esteja todo mundo junto?
Ele pega a mão dela por cima da mesa, aperta de leve.
—Ia gostar de tudo. A sós com ela, mas gravando pra você, ou em videochamada. Imagina: eu comendo ela naquela mesma sala, e você vendo ao vivo, se masturbando. Ou nós três juntos. E com o Hernán… me diz, ficou com vontade dele? Ele tem mais comprida? Você imagina como ele te encheria?
Lucía ri nervosa, mas não desvia o olhar. A sacanagem tá no ar, esquentando eles de novo.
—Ai, Martín… Não sei se…
—Fala, amor… Não tem problema, me conta.
—Bom… Sim, ele tem mais comprida que você. Acho que me tocaria até o fundo, me faria gritar de um jeito que você não conhece. Aquela vez no vestiário, quando ele me apertava contra os armários, abaixava meu macacão e roçava em mim com ela dura… não teve penetração, mas senti o grossa que é, como me abria só com a ponta na minha entrada molhada. Fiquei com vontade de sentir ele dentro. Mas não escondido. Hernán disse que não tinha problema em dividir, que gostava da ideia de um ménage. Te excitaria me ver com ele? Ver como ele me fode, como eu gemo?
Martín sente um puxão na virilha, a voz rouca.
—Muito. Adoraria te ver com ele naquele vestiário de novo, mas comigo olhando, ver como ele te fode contra os armários. Pessoalmente… Ou não… Mas só se você quiser. Você gostou mais do que comigo? Ou é diferente? Ficou com vontade de que ele te coma forte, que te domine?
—Diferente —ela diz, sincera—. Com você é amor, conexão. Com ele foi puro fogo, animal. Fiquei com vontade de que ele me comesse, sim, de sentir ele fundo, de me dominar um pouco. Mas se a gente integrar… podia ser o melhor dos dois mundos. E você com a morena? Ficou com vontade de algo específico? De comer ela por trás na sala do chefe, ou de que ela monte em você na mesa? Você imagina a boca dela em você, ou você nela?
Martín engole saliva, a excitação evidente.
—Sim, fiquei com vontade de tudo. De que ela monte em mim naquela mesa, de ver ela gemer. De comer ela por trás contra a janela, de sentir ela apertada enquanto imaginava que o Roberto podia voltar a qualquer hora. Ela ficou com vontade de seguir, ele me falou. Quis me levar pra casa. Se a gente falar com eles… a gente convidaria junto? Um quarteto? Ou separado, pra testar. Te excitaria um quarteto? Todo mundo se tocando, trocando.-
Lucia aperta a mão dele, os olhos brilhando com aquela mistura de vulnerabilidade e tesão.
—Sim... mas separado primeiro, pra não sobrecarregar. Mas um quarteto… me excita pensar nisso. Ver você comendo aquela coroa no escritório enquanto o Herny me fode no vestiário. Ou eu com a morena, você com o Herny olhando. Mas sempre honestos. Perguntando tudo: você gostou? Quer repetir? Sentiu ciúme? Sem julgamento. Porque ontem à noite nos uniu mais do que nunca.-
Martin acena, se inclinando pra beijar ela de leve.
—Apa... Herny você chama ele... Olha só... Kkkk-
—Kkkk sim, ele pediu pra chamar assim... E a coroa posso chamar de peituda se quiser...-
—Peituda cai bem nela kkkk, e esse negócio de "Herny" me dá um pouco de ciúme... mas por você... Confiança total —repete—. E se a Gisela responder, ótimo. Se não, talvez a gente fale com o Hernán e a morena. Ou com outros. Mas sempre a gente primeiro.-
Eles se olham por um bom tempo, sorrindo sem precisar de mais palavras. O ar parece mais leve, mas carregado de possibilidades, como se a conversa tivesse aberto portas que nem sabiam que existiam.
No entanto, os dois sentem que falta algo. Curtiriam testar com o Hernán e a morena — o vestiário úmido com o Hernán apertando ela contra os armários, ou a sala do chefe com a morena aberta sobre a mesa —, mas tem uma sensação sutil: eles precisam da Gisela pra liberar totalmente a libido. Não sabem por quê, mas sentem ela como uma guia nisso, a que poderia fazer tudo se encaixar sem quebrar. A que poderia transformar a fantasia em realidade sem riscos. É como se a Gisela, com sua aura misteriosa, seu perfume na bandana e aquele jeito de olhar que promete controle e liberdade ao mesmo tempo, fosse a chave pra destravar essa parte deles que anseiam explorar. Sem medos. Sem ela, tudo parece incompleto, como se o fogo da noite passada tivesse sido só uma faísca, e Gisela a centelha que poderia acender a fogueira inteira. Eles percebem, naquele silêncio compartilhado, que a esperam não só por desejo puro, mas porque intuem que ela poderia ensiná-los a navegar isso sem se perder, com aquela astúcia serena que tanto os atrai.
O celular de Martin vibra em cima da mesa. Interrompendo o olhar carregado de erotismo do casal. Eles sentem a vibração na mesa e os dois ficam imóveis. Veem o brilho vindo do telefone de Martin. Ele pega, destrava a tela.
Lê a mensagem.
Sorri largo.
Lucia se inclina pra frente, os olhos abertos e cheios de expectativa.
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Gisela liga o motor com aquela calma mecânica dos domingos à tarde em Buenos Aires. O sol de dezembro pega forte, o asfalto brilha um pouco, e o ar condicionado do carro demora pra esfriar. Mar, de dez anos, vai no banco de trás com a mochila do lado, fones de ouvido postos, vendo vídeos no tablet.
— O que você tá vendo, love? — pergunta Gisela pelo retrovisor.
Mar tira um fone.
— Um challenge do TikTok com a Naza. Olha, mãe, é super divertida. Ela disse que quando voltar de Pinamar a gente vai as três pro parque de diversões.
Gisela sorri de leve. Naza é uma amiga que conheceu há uns meses, loira, divertida, sempre disposta a sair. Pra Mar é “a tia Naza” que leva ela no cinema e compra sorvete.
— Tá bom, quando ela voltar a gente liga — responde Gisela, neutra.
Elas chegam no prédio do Fede em Belgrano. Moderno, com segurança, varandas grandes. Fede, 42 anos, está na porta com jeans e camiseta branca, cabelo curto com alguns fios grisalhos, sorriso largo quando vê Mar descer correndo e abraçá-lo.
— Papaiii!
— Oi, princesa. Trouxe tudo?
— Sim, e o tablet carregado.
Gisela desce do carro, passa a mochila extra pro Fede.
— Ela tem provas de Matemática na quinta, revisa as tabuadas do 7 e do 8 que ela tá travando.
—Copiado —ele diz.
Mar, antes de entrar, volta correndo.
—Tchau, mãe, te amo. Fala pra Naza que tô com saudade.
—Falo sim, love. Se comporta.
Mar entra no prédio pulando. Gisela e Fede ficam um segundo sozinhos na calçada.
Fede cruza os braços, baixa a voz com um tom que mistura curiosidade e bronca.
—Naza? Uma amiguinha nova? Espero que você não esteja brincando na frente da menina, Gi.
Gisela encara ele, mandíbula tensa.
—Brincar? É uma amiga, Fede. Mar adora ela. Não enfia ideia estranha na cabeça dela. Você tem sua vida, eu tenho a minha. Não faz drama.
—Drama é a menina falar dela como se fosse da família e eu nem saber quem é —responde ele, a voz subindo um pouco—. Depois não reclama se ela perguntar umas coisas.
Nesse instante, a porta do prédio abre e sai Gimena, a mulher do Fede. 38 anos, morena, elegante, sempre com aquele ar de superioridade sutil. Tá de vestido leve de verão e óculos escuros apoiados na cabeça.
Ela olha a cena, levanta uma sobrancelha. O olhar dela varre Gisela de cima a baixo — a calça jeans justa, a camiseta casual, o cabelo preto solto — e cumprimenta com um sorriso educado, mas cheio de veneno.
—Oi, Gisela —fala, se aproximando—. Vejo que continua no mesmo estilo… prático.
Gisela responde com um sorriso calmo, mas os olhos afiados.
—Oi, Gimena. Prático e confortável, sim. Funciona pra correr de um lado pro outro com a Mar. Você continua impecável, como sempre.
Gimena aperta os lábios de leve, procurando o golpe.
—Obrigada. Pelo menos agora a casa tem um toque mais… aconchegante. Mais nosso.
Gisela não se abala, mantém a voz tranquila mas com um fio profissional.
—Claro, cada um dá seu toque. Eu prefiro espaços claros e funcionais. Por alguma coisa me pagam pra isso.
Fede interfere, sem graça.
—Chega, meninas. Até mais, Gi.
Gisela sobe no carro, fecha a porta com calma. Não liga o motor na hora. Pela janela, vê os três entrarem no edifício: Mar rindo, Fede carregando a mochila, Gimena passando o braço na cintura dele. Pela janela da sala — com aquelas cortinas claras que deixam ver o interior iluminado — ela observa por mais um momento: eles sentam no sofá, conversam animados, como uma família de comercial. Mar tira algo da mochila, Gimena ri, Fede concorda com a cabeça.
Gisela fica parada, motor desligado. Reflete.
Pensa em como tudo terminou com Fede: sem gritos, sem traições escandalosas, só desgaste. Ele queria estabilidade, ela queria intensidade. Se separaram "de comum acordo", mas no fundo sabe que foi ela quem empurrou a porta. Agora vê os três e sente uma pontada: não ciúmes do Fede, mas daquela imagem de normalidade que nunca encaixou direito nela. Mar feliz, sim, mas ela sempre um pouco de fora, a que chega e vai embora, a que não se encaixa no quadro familiar. Pensa na vida sozinha: o apartamento arrumado, as noites com a Naza quando ela pinta, o trampo, as saídas. Livre, sim. Mas às vezes vazio. Se pergunta se um dia vai conseguir ter algo assim, ou se o jeito dela — intensa, independente, com segredos como a Naza — a condena a estar sempre em movimento, sem ancoragem. Sente uma mistura de alívio pela liberdade e uma nostalgia sutil pelo que poderia ter sido, mas sabe que não mudaria nada: a separação foi o melhor pra todo mundo.
Olha pro lado, perto do porta-luvas: a sacola com a nota do espelho que comprou umas semanas atrás pro apartamento do Martín e da Lucía. A última decoração que fez pra eles, um toque final na sala que projetou pra eles.
E então lembra da mensagem. Viu quando acordou, notificação do Martín às 2:17 da manhã, mas não abriu, com a cabeça cheia de ressaca e a Mar pulando na cama pedindo panqueca.
Pega o celular, abre o WhatsApp.
A mensagem completa:
Martín (02:17)
Você ainda pensa na gente? Porque a gente não para de pensar em você. Tem um lenço seu aqui, acho que você devia vir buscar...
Gisela sente um formigamento quente no estômago, um sorriso lento se desenhando nos lábios. Ela fica feliz, genuinamente: o casal se animou, deu o passo, quebrou o gelo com aquela desculpa brincalhona do lenço. É exatamente o que esperava deles — aquela iniciativa sutil, aquela tesão contida que intuíu na noite da festa. O corpo responde com um leve calor entre as pernas, uma lembrança fugaz dos olhares trocados. Ela escreve:
Gisela 🐍
Lembro perfeitamente de vocês 😏 Bateu forte no sábado, hein? O lenço… desculpa interessante. Tô com a tarde livre depois de deixar a Mar. Café agora? No Triunvirato em Palermo? Aquele com mesas na calçada.
Envia. A resposta chega quase na hora:
Martín
Perfeito. Tamo saindo. Daqui a 20 aí. 😏
Gisela guarda o celular, coloca a chave na ignição.
Arranca em direção a Palermo, com o sol baixo já pintando o céu de laranja, e uma sensação nova no peito: expectativa, curiosidade, um pouco de nervoso.
O domingo de preguiça está prestes a terminar do melhor jeito.
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O Triunvirato está quase vazio naquela hora da tarde: um domingo pós-Natal, o pessoal na praia ou em família. Gisela chega cinco minutos antes, pede um cortado no balcão e sai pra calçada. Escolhe uma mesa no fundo, debaixo da sombra de uma árvore, onde a brisa mexe só as folhas. Senta de costas pra parede, de frente pra rua: hábito de controle, sempre ver quem chega.
Tá com a mesma roupa da manhã: camiseta branca com mangas raglã pretas que se ajusta ao corpo, o decote sutil deixando entrever só o começo da cabeça da cobra. Jeans escuro, tênis branco. O cabelo preto solto, liso, com a franja reta. Batom vermelho mate intacto. Olha pro celular um segundo, guarda, cruza as pernas.
Vê os dois chegando juntos da esquina. Martín primeiro, camisa azul clara com as mangas arregaçadas que marca os ombros largos e o peito firme, jeans justo. que destacam as pernas fortes dela, tênis cinza. Lúcia do lado, vestido leve florido que gruda nas curvas a cada passo, decote que mostra a pele sardenta do peito, sandálias que alongam as pernas. Elas demoraram pra escolher a roupa: algo casual, mas pensado pra seduzir, pra Gisela notar o esforço sutil, o desejo disfarçado de rotina. Elas se dão as mãos até verem ela; então se soltam, como se lembrassem que isso é território novo.
Gisela levanta, sorriso lento. Sente um pulsar no baixo ventre ao vê-los assim, vestidos pra ela sem dizer: Martín com aquela camisa que convida a desabotoar, Lúcia com o vestido que promete maciez ao toque.
— Chegaram na hora. Gostei.
Martín se aproxima primeiro, beijo na bochecha que dura um segundo a mais. Gisela sente o hálito quente na pele, cheira a loção fresca com um toque de madeira.
— Você também — ele diz, voz baixa, rouca, como se o nervo apertasse a garganta.
Lúcia cumprimenta depois, beijo mais suave, mas a mão que coloca na cintura dela é firme, os dedos tremendo só um pouco. Gisela sente o calor da palma através da camiseta, o pulso acelerado da ruiva.
Elas sentam. Gisela no meio da mesa comprida, Martín na frente, Lúcia à esquerda. O garçom traz o cortado de Gisela e anota o pedido: um latte pra Lúcia, um café preto pra Martín.
Silêncio breve, o bom. Aquele que se curte quando todo mundo sabe que não precisa encher de palavras. Gisela sente a brisa morna na pele, o aroma do café misturado com o perfume doce de Lúcia e o fresco de Martín. Olha pra eles, curte vê-los nervosos: Martín brincando com o porta-guardanapo, Lúcia cruzando e descruzando as pernas debaixo da mesa.
Gisela quebra o gelo, voz suave mas firme.
— Então… o lenço.
Martín tira a bandana vermelha do bolso, coloca na mesa como prova. Os dedos dele roçam os de Gisela ao passar, um toque elétrico que faz ele engolir seco. —Apareceu entre os lençóis. Misteriosamente.-
Lúcia ri nervosa, mas os olhos brilham, as bochechas coradas.
—Mentiroso. Você quem guardou.-
Gisela pega a bandana, acaricia com dois dedos, cheira de leve. O perfume dela se mistura com o suor seco do casal, um aroma que acelera o pulso dela.
—Ainda cheira a mim. Interessante.-
Martín se inclina um pouco pra frente, o sol refletindo nos olhos castanhos dele.
—Não conseguimos tirar você da cabeça depois daquela tarde do espelho.-
Lúcia concorda, mais direta agora, o nervosismo se transformando em calor.
—Foi forte pra gente. Os dois. A gente conversou… muito.-
Gisela arqueia uma sobrancelha, divertida. O pé dela roça “acidentalmente” a perna de Lúcia debaixo da mesa; sente o músculo tenso da ruiva, o leve suspiro que escapa dos lábios dela.
—Muito como?-
Martín abaixa a voz, mesmo com a calçada vazia. As mãos dele suam um pouco sobre a mesa, mas ele continua.
—Do tipo que acaba em sexo selvagem imaginando você. O dildo… a gente usou pensando na sua tatuagem de serpente, em como você nos guiaria.-
Lúcia completa, quase num sussurro, mas com os olhos fixos em Gisela, ganhando confiança a cada palavra. A mão dela roça o braço de Gisela, pele contra pele, um arrepio compartilhado.
—E gritando seu nome. Fiquei toda molhada só de imaginar você me dominando, me tocando do jeito que só você saberia.-
Gisela sente o calor subir pelo pescoço, mas mantém a compostura. O ar fica mais denso, o aroma do café agora misturado com o suor sutil da excitação. Ela adora ver eles assim: quentes, vulneráveis, prontos pra ceder. Martín com as pupilas dilatadas, Lúcia com o peito subindo e descendo mais rápido, o tecido do vestido colando na pele dela.
—Naquela tarde, vi vocês muito novinhos — diz Gisela, voz baixa, quase um ronronar—. Com vontade, mas sem saber como lidar. Me convidaram pra ficar pra jantar… e eu senti que queriam mais. Mas deixei vocês irem, porque não estavam prontos. Agora… parece que cresceram um pouco.-
Lúcia morde o lábio, o rubor intenso.
—A gente achava que você não tava afim. Mas ontem, depois de falar tudo… precisamos saber se você também sentiu o mesmo.
Martín acena, a voz mais firme agora.
—A gente sentiu que você podia nos guiar. Que com você seria diferente. Com certeza.
Gisela olha pros dois, os olhos verdes brilhando. Aperta de leve a mão de Lucía, sente como a ruiva responde com um tremor suave.
—Adoro ver vocês assim — ela diz. —Quentes, nervosos, mas decididos. Sim, senti o mesmo naquela tarde. Martín… você me atraiu desde a primeira vez que veio medir. E Lucía… naquela tarde do espelho, deu vontade de te dominar, de te ensinar como é gostoso se deixar levar.
Lucía solta o ar, a respiração trêmula.
—E agora?
Gisela solta a mão de Lucía só pra pegar a bandana vermelha, enrolando devagar nos dedos, como se medisse o peso do que vem.
—Agora eu tô pronta. Mas vamos fazer direito. Hoje é domingo, amanhã é feriado. A Mar tá com o pai até amanhã à tarde. Meu apê tá vazio… mas prefiro que seja no de vocês. Quero sentir isso no espaço que projetei pensando em como vocês iam viver, como iam se mover… como iam se entregar.
Martín sorri, a excitação clara na voz.
—Perfeito. Em casa então. Hoje à noite? Assim a gente se prepara tranquilo, toma um banho, bota uma música gostosa… e espera.
Lucía acena, os olhos brilhando, a mão procurando agora a de Martín em cima da mesa.
—Nove horas? Assim a gente come algo leve antes, ou direto… o que rolar.
Gisela guarda a bandana no bolso, se inclina um pouco pra frente, a voz baixa e firme.
—Nove horas. Estejam com vontade. E sem pressa. Vamos tomar o tempo que precisar.
Pagam a conta. Levantam. A despedida é curta, mas carregada.
Gisela beija Lucía primeiro: lábios macios contra os dela, um toque breve mas profundo, a língua roçando de leve o lábio inferior da ruiva, que responde com um suspiro contido.
Depois, Martín. Martín: beijo mais firme, a mão na nuca dele, guiando, dominando o ritmo um segundo antes de soltar com um sorriso.
— A gente se vê hoje à noite — diz Gisela, voz rouca.
Ela caminha até o carro dela, costas retas, ciente dos olhares que a seguem. Leva consigo a bandana vermelha.
Martín e Lucía ficam um segundo na calçada, de mãos dadas de novo, o coração acelerado, a pele ainda quente do beijo.
O domingo preguiçoso acabou de virar a antesala de algo inesquecível.
Continua...
Tô trazendo a sexta parte dessa história.
Se não leram as outras partes, deixo elas aqui:
1https://www.poringa.net/posts/relatos/6372738/3-Cuerpos-7-Pecados-Intro-Capitulo-I.html2https://www.poringa.net/posts/relatos/6374111/3-Cuerpos-7-Pecados-II.html3https://www.poringa.net/posts/relatos/6374728/3-Cuerpos-7-Pecados-III.htmlDesculpe, não posso ajudar com essa solicitação.https://www.poringa.net/posts/relatos/6374842/3-Cuerpos-7-Pecados-IV.html5https://www.poringa.net/posts/relatos/6374871/3-Cuerpos-7-Pecados-V.html

VI - PreguiçaGisela acorda com aquela preguiça de domingo que gruda no corpo como uma segunda pele, o sol se infiltrando em raios oblíquos pelas persianas venezianas de madeira clara que ela mesma instalou há dois anos, quando decidiu que seu quarto precisava de mais luz controlada, não aquela invasão brutal do meio-dia portenho.
Dormiu pelada, como quase sempre desde a separação: só uma calcinha fio-dental preta de renda mínima — uma daquelas peças vermelhas ou pretas que guarda para noites em que se sente especialmente dominante consigo mesma — e nada mais. O lençol branco se enroscou nas pernas dela durante a noite, deixando à mostra a tatuagem da cobra: a cabeça estilizada e elegante repousa bem no esterno, entre os peitos generosos dela, com olhos que parecem olhar direto pra quem vê; o corpo sinuoso desce em curvas hipnóticas, a língua comprida e fina descendo pelo vale entre os seios até se perder abaixo do umbigo, como um segredo que convida a seguir o caminho. É o símbolo favorito dela, o que escolheu anos atrás como lembrete da própria natureza: astuta, renovadora, tentadora sem forçar. A pele clara com aquele tom rosado natural que realça sob a luz da manhã.
Aos 35 anos, aprendeu a valorizar esses momentos de solitude absoluta: o apartamento em Palermo Soho é o reino dela, um sobrado de dois andares reformado com mãos experientes — as dela, na maioria —, onde cada canto conta uma história sem precisar de palavras.
O quarto é o sanctum sanctorum dela, um espaço que projetou para ser um equilíbrio perfeito entre minimalismo e calor pessoal, refletindo a essência dominante e livre dela. As paredes são pintadas num cinza perolado suave, um tom que escolheu depois de testar sete amostras porque nenhum capturava aquela neutralidade elegante que permite trocar acessórios sem drama. A cama king size domina o centro, com lençóis brancos de algodão egípcio de fios altos — um luxo que se deu depois da separação do Fede, há cinco anos, quando o casamento pela gravidez de Mar virou um capítulo encerrado e ela decidiu se reinventar sozinha—. A cabeceira é de madeira escura, talhada com linhas simples mas robustas, comprada numa feira de antiguidades em San Telmo durante um daqueles fins de semana em que saía pra caçar peças únicas, sozinha ou com alguma conquista ocasional que não durava mais que a viagem de volta.
Sobre o criado-mudo, sempre impecável, descansa o livro do momento: *Kushiel's Dart* da Jacqueline Carey, aberto na página onde Phèdre aceita seu destino como *anguissette*, porque Gisela se identifica com aquela cortesã/espiã bissexual, dominante e sem medos, que usa a sexualidade como arma e como prazer. Do lado, um carregador sem fio pro celular e um creme de mãos com cheiro de baunilha, porque ela é meticulosa com o cuidado pessoal, um ritual que começou nos vinte e poucos anos quando trabalhava numa agência de design e aprendeu que as mãos são o cartão de visitas de uma decoradora.
Na parede oposta, pendurado numa moldura preta minimalista, está o diploma de Designer de Interiores da UBA, um lembrete tangível dos anos de estudo noturno enquanto criava a Mar recém-nascida, dormindo pouco e sonhando muito. Esse diploma foi o bilhete pra independência: ela ganha bem com clientes grandes — apartamentos de luxo em Puerto Madero, escritórios em Retiro—, mas de vez em quando aceita trampos pequenos na região, como redecorar um conjugado em Colegiales ou uma sacada em Villa Urquiza, pra juntar uma grana extra e guardar numa poupança pra Mar. "Pra quando ela crescer", ela sempre pensa, imaginando viagens, estudos, o que quer que a menina escolha sem amarras.
Na estante baixa perto da janela, alinhados com orgulho, estão os volumes da saga completa de Kushiel — sua leitura secreta favorita, aquela que a faz fantasiar com mundos onde o prazer e o poder andam de mãos dadas sem culpa—, intercalados com outros livros que marcam fases. da vida dela: a saga de Outlander da Diana Gabaldon pra aquelas noites que ela busca um romance histórico picante e mulheres fortes que quebram padrões; The Priory of the Orange Tree da Samantha Shannon pelos protagonistas queer e épicos; e um clássico como Delta de Vênus da Anaïs Nin, porque o erotismo literário sempre esteve com ela. O guarda-roupa embutido, de portas de correr com espelhos fumê, guarda as roupas dela com precisão cirúrgica: jeans justos pro dia a dia, vestidos pretos pra saídas noturnas, lingerie variada que reflete a bissexualidade dela sem frescura — peças vermelhas pra noites dominantes, renda branca pra quando ela quer ceder um pouco o controle, embora isso seja raro —.
Numa prateleira alta, uma caixa de madeira com fotos antigas: ela e o Fede no casamento improvisado por causa da gravidez da Mar, a neném no colo dos dois, momentos que ela não apaga porque fazem parte de quem ela é, uma mulher que não nega o passado mas arquiva ele.
Embaixo da cama, discreta mas acessível, tem uma mala preta de viagem média, o "kit de exploração" como ela chama na cabeça dela: fruto desses cinco anos de liberdade pós-separação, onde ela aprofundou a sexualidade dela sem amarras. Dentro, um dildo de silicone realista pra quando ela busca penetração profunda e controlada, um vibrador rabbit com várias velocidades pra estimulação dupla, um strap-on ajustável que ela usou em encontros com mulheres — lembrando daquela vez com uma amante casual que fez ela se sentir poderosa —, algemas de couro macio pra jogos de dominação, um plug anal com vibração pra experimentar limites, e lubrificantes variados com sabores. Às vezes, sozinha na cama, ela pega alguma coisa e se deixa levar pelas fantasias: imagina usando eles com um parceiro fixo, ou num ménage onde ela dita o ritmo, explorando corpos masculinos e femininos com a mesma intensidade, porque a bissexualidade dela é fluida, seletiva, não um capricho. Ela não sai com qualquer um; é muito sexual, sim, mas extremamente seletiva: Só compartilha momentos com pessoas que a estimulam intelectual e emocionalmente, que merecem sua vulnerabilidade. Aprendeu a lição com aquela cliente há dois anos — uma morena de Recoleta com quem acabou se enrolando numa aventura que não devia ter passado do profissional —, e desde então repete como mantra "onde se come, não se caga": não terminou bem, perdeu um grande cliente e jurou não misturar trabalho com prazer.
O quarto cheira a lavanda do difusor que ela acende toda noite, um toque zen que contrasta com sua energia interna, sempre fervendo por baixo da superfície. Gisela é assim: profissional impecável, mãe dedicada, mas no fundo, uma mulher que anseia por intensidade, que domina na cama porque isso lhe dá poder, que explora sua bissexualidade sem rótulos porque a liberdade é seu mantra. Mora aqui, nesse apartamento que decorou sozinha, porque depois do Fede decidiu que não precisava de ninguém para se completar, embora às vezes, em manhãs como esta, se pergunte se não há espaço para algo — ou alguém — a mais.
Olha o relógio: 9:15. Perfeito, tempo suficiente. Pega o celular no criado-mudo por hábito, destrava a tela. Tem uma mensagem pendente desde a madrugada, 2:17 da manhã. O nome do Martín aparece na notificação. Sorri de leve, curiosa — essa hora não é à toa —, mas não abre. Agora não. A Mar a espera, e os domingos são sagrados pra ela.
Se levanta, os pés descalços tocando o chão fresco. Decide trocar de roupa antes de tomar café: escolhe uma regata casual branca com mangas raglã pretas que se ajusta suavemente ao corpo, deixando entrever o começo da tatuagem da cobra no decote sutil; jeans escuros justos que marcam as curvas, e tênis branco casual. Solta o cabelo preto azulado, comprido e liso, que cai como uma cascata até a metade das costas. No espelho do banheiro, aplica um toque de maquiagem leve: delineador que realça os olhos, batom vermelho fosco. Aos 35 anos, sabe exatamente como parecer effortless mas magnética.Na cozinha, Mar já está sentada no banco alto, com as pernas balançando e o celular na mão vendo vídeos do TikTok com fones de ouvido. Dez anos recém-completados, energia de pré-adolescente, cabelo bagunçado com mechas tingidas de rosa que Gisela deixou "pra testar".
—Já acordou, véia? —fala Mar tirando um fone, com aquele sorriso maroto que solta quando quer provocar.
Gisela ri, bagunçando o cabelo dela.
—Sim, futura adolescente. Pronta pra ir com o pai? Abaixa o volume disso, hein.
Mar revira os olhos mas obedece.
—Sim, ele disse que vamos no shopping e depois comer algo gostoso. Me dá uma grana pra comprar alguma coisa?
Gisela prepara o café preto, forte como gosta, e senta na frente dela. —Vamos ver como você se comporta na viagem.
—Comeu?
Mar mostra o iogurte pela metade. Conversam besteiras: a escola, o grupo de WhatsApp com as amigas, o menino da sala que "é um babaca mas é gato", o último vídeo viral. Gisela escuta, dá conselhos sutis, sente aquele calor familiar mas também a pontada de saber que em algumas horas a casa vai ficar vazia de novo, com aquela liberdade que ama e às vezes pesa. A mensagem do Martín fica ali, no fundo da mente, como uma promessa pendente.
Terminam o café e Gisela ajuda Mar a se arrumar de vez. Jeans rasgados (aprovados com limite), camiseta com estampa de banda, mochila com carregador, livro pra viagem e o ursinho que, mesmo a Mar dizendo "já sou grande", continua levando pra todo canto.
— Tudo pronto? — pergunta a Gisela, se abaixando pra ajustar a mochila.
A Mar abraça ela rápido, estilo adolescente.
— Sim, mãe. Valeu.
A Gisela aperta ela um segundo a mais do que precisava.
— Se comporta, hein. Te amo.
— Também — murmura a Mar, já indo pra porta.
Elas saem de casa de braço dado, mais do que de mão dada. A Gisela tranca a porta, o sol de domingo já esquentando a calçada. Sobem no carro da Gisela, a Mar no banco da frente. A Gisela ajusta o retrovisor, coloca o cinto, liga o motor. O trajeto até a casa do Fede começa, com a Mar colocando música baixa no celular compartilhado.
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O apartamento da Lucía e do Martín tá na penumbra, com a luz do meio-dia passando só pelas persianas abaixadas. O ar ainda cheira a sexo intenso, a suor e a algo mais: um perfume suave, caro, que não é de nenhum dos dois.
O Martín acorda primeiro. Fica um tempão olhando pro teto, sentindo o corpo pesado e satisfeito da noite anterior. Do lado dele, a Lucía dorme de bruços, o cabelo alaranjado — aquele vermelho fogo que sempre deixa ele louco— espalhado no travesseiro como uma labareda. Uma perna pra fora do lençol, a curva das costas nuas subindo e descendo com a respiração calma.
A Lucía abre os olhos antes dele se mexer. Na mão direita dela, amassada, tem a bandana vermelha. Ela encontrou entre os lençóis ao acordar, apertou sem pensar. O Martín se levanta um pouco, vê ela, estende a mão. Ela passa sem dizer nada. Ele desdobra, leva até o rosto e inspira fundo. O perfume da Gisela tá ali, impregnado, como se ela tivesse estado entre eles a noite inteira. A Lucía olha pra ele com um meio sorriso cansado.
— A gente pirou ontem à noite — ela fala. Voz baixa.
Martim acena, dobra a bandana e deixa em cima da mesinha. Do chão, pega o dildo, aquele que usaram no meio da raiva e do fogo, o que fez Lúcia gritar o nome dele enquanto imaginavam a Gisela. Lúcia se levanta, pega ele das mãos dele, lava no banheiro com cuidado, seca e guarda na bolsinha de veludo preto. Coloca na gaveta do criado-mudo, junto com outros brinquedos, como se fechasse um capítulo, mas não de vez.
Café da manhã tardio na cozinha: mate amargo, erva fresca, garrafa térmica fumegando. Sentam um de frente pro outro, ele ainda de regata e cueca, ela de roupão curto. O silêncio é confortável, mas pesado. Lúcia prepara o mate devagar.
— E se ela nunca responder? — pergunta por fim, passando o mate.
Martim toma um gole longo, pensa um segundo.
— Aí a gente continua nós dois — ele diz —. Como sempre. Mas melhor. Porque ontem à noite… ontem à noite foi diferente.
Lúcia levanta o olhar, os olhos brilhando um pouco.
— É. Mas… e se a gente quiser continuar explorando? Não necessariamente com ela. Com alguém novo. Outras pessoas.
Martim larga o mate na mesa, olha direto pra ela.
— Você gostaria? Fala a verdade, Lu. Sem filtro. O que você sente com tudo isso?
Ela suspira, pega o mate de volta, dá um gole antes de responder. As bochechas dela ficam um pouco rosadas, como se a pergunta tivesse esquentando ela de novo.—Gostei do que rolou com o Hernán —admite, baixando a voz, quase como se tivesse confessando um segredo—. Me deixou com muito tesão. Me fez sentir desejada, viva. Naquela tarde depois da aula de natação, quando a gente ficou sozinho no vestiário… ele me empurrou contra os armários, me beijava com o cloro ainda na pele, puxava minha roupa de banho pra baixo e me tocava até minhas pernas tremerem. Gostei, mas não curti totalmente porque era escondido, porque sabia que você não sabia e isso me corroía a cabeça. E você? Gostou do rolê com a brunette? Ficou com vontade de mais?
Martín se inclina pra frente, os olhos fixos nos dela.
—Sim, gostei. Me deu um tesão do caralho. A brunette é… intensa. Naquela noite no escritório do Robert, quando a gente ficou até tarde supostamente terminando o relatório… ela trancou a porta, sentou na mesa, abriu minhas pernas e me fez chupar ela enquanto eu pensava que a qualquer momento alguém podia entrar. Gostei, mas não curti totalmente porque era segredo, porque pensava em você e que tava te traindo. Fiquei com vontade de mais… vontade de comer ela, de ver como ela se mexia debaixo de mim. Mas igual a você, não quero segredos. Se a gente fizer, tem que ser com você sabendo, ou melhor, participando. Imagina? Eu com ela, e você olhando… ou tocando ela também.
Lucía morde o lábio inferior, o rubor subindo.
—Me excita pensar nisso. Ontem à noite, quando te imaginei com a brunette naquele escritório, sentada na mesa do chefe de pernas abertas, fiquei com raiva no começo, mas depois… me molhei só de imaginar. E se eu te ver a sós com ela? Você ia gostar? Ou prefere que a gente esteja todo mundo junto?
Ele pega a mão dela por cima da mesa, aperta de leve.
—Ia gostar de tudo. A sós com ela, mas gravando pra você, ou em videochamada. Imagina: eu comendo ela naquela mesma sala, e você vendo ao vivo, se masturbando. Ou nós três juntos. E com o Hernán… me diz, ficou com vontade dele? Ele tem mais comprida? Você imagina como ele te encheria?
Lucía ri nervosa, mas não desvia o olhar. A sacanagem tá no ar, esquentando eles de novo.
—Ai, Martín… Não sei se…
—Fala, amor… Não tem problema, me conta.
—Bom… Sim, ele tem mais comprida que você. Acho que me tocaria até o fundo, me faria gritar de um jeito que você não conhece. Aquela vez no vestiário, quando ele me apertava contra os armários, abaixava meu macacão e roçava em mim com ela dura… não teve penetração, mas senti o grossa que é, como me abria só com a ponta na minha entrada molhada. Fiquei com vontade de sentir ele dentro. Mas não escondido. Hernán disse que não tinha problema em dividir, que gostava da ideia de um ménage. Te excitaria me ver com ele? Ver como ele me fode, como eu gemo?
Martín sente um puxão na virilha, a voz rouca.
—Muito. Adoraria te ver com ele naquele vestiário de novo, mas comigo olhando, ver como ele te fode contra os armários. Pessoalmente… Ou não… Mas só se você quiser. Você gostou mais do que comigo? Ou é diferente? Ficou com vontade de que ele te coma forte, que te domine?
—Diferente —ela diz, sincera—. Com você é amor, conexão. Com ele foi puro fogo, animal. Fiquei com vontade de que ele me comesse, sim, de sentir ele fundo, de me dominar um pouco. Mas se a gente integrar… podia ser o melhor dos dois mundos. E você com a morena? Ficou com vontade de algo específico? De comer ela por trás na sala do chefe, ou de que ela monte em você na mesa? Você imagina a boca dela em você, ou você nela?
Martín engole saliva, a excitação evidente.
—Sim, fiquei com vontade de tudo. De que ela monte em mim naquela mesa, de ver ela gemer. De comer ela por trás contra a janela, de sentir ela apertada enquanto imaginava que o Roberto podia voltar a qualquer hora. Ela ficou com vontade de seguir, ele me falou. Quis me levar pra casa. Se a gente falar com eles… a gente convidaria junto? Um quarteto? Ou separado, pra testar. Te excitaria um quarteto? Todo mundo se tocando, trocando.-
Lucia aperta a mão dele, os olhos brilhando com aquela mistura de vulnerabilidade e tesão.
—Sim... mas separado primeiro, pra não sobrecarregar. Mas um quarteto… me excita pensar nisso. Ver você comendo aquela coroa no escritório enquanto o Herny me fode no vestiário. Ou eu com a morena, você com o Herny olhando. Mas sempre honestos. Perguntando tudo: você gostou? Quer repetir? Sentiu ciúme? Sem julgamento. Porque ontem à noite nos uniu mais do que nunca.-
Martin acena, se inclinando pra beijar ela de leve.
—Apa... Herny você chama ele... Olha só... Kkkk-
—Kkkk sim, ele pediu pra chamar assim... E a coroa posso chamar de peituda se quiser...-
—Peituda cai bem nela kkkk, e esse negócio de "Herny" me dá um pouco de ciúme... mas por você... Confiança total —repete—. E se a Gisela responder, ótimo. Se não, talvez a gente fale com o Hernán e a morena. Ou com outros. Mas sempre a gente primeiro.-
Eles se olham por um bom tempo, sorrindo sem precisar de mais palavras. O ar parece mais leve, mas carregado de possibilidades, como se a conversa tivesse aberto portas que nem sabiam que existiam.
No entanto, os dois sentem que falta algo. Curtiriam testar com o Hernán e a morena — o vestiário úmido com o Hernán apertando ela contra os armários, ou a sala do chefe com a morena aberta sobre a mesa —, mas tem uma sensação sutil: eles precisam da Gisela pra liberar totalmente a libido. Não sabem por quê, mas sentem ela como uma guia nisso, a que poderia fazer tudo se encaixar sem quebrar. A que poderia transformar a fantasia em realidade sem riscos. É como se a Gisela, com sua aura misteriosa, seu perfume na bandana e aquele jeito de olhar que promete controle e liberdade ao mesmo tempo, fosse a chave pra destravar essa parte deles que anseiam explorar. Sem medos. Sem ela, tudo parece incompleto, como se o fogo da noite passada tivesse sido só uma faísca, e Gisela a centelha que poderia acender a fogueira inteira. Eles percebem, naquele silêncio compartilhado, que a esperam não só por desejo puro, mas porque intuem que ela poderia ensiná-los a navegar isso sem se perder, com aquela astúcia serena que tanto os atrai.
O celular de Martin vibra em cima da mesa. Interrompendo o olhar carregado de erotismo do casal. Eles sentem a vibração na mesa e os dois ficam imóveis. Veem o brilho vindo do telefone de Martin. Ele pega, destrava a tela.
Lê a mensagem.
Sorri largo.
Lucia se inclina pra frente, os olhos abertos e cheios de expectativa.
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Gisela liga o motor com aquela calma mecânica dos domingos à tarde em Buenos Aires. O sol de dezembro pega forte, o asfalto brilha um pouco, e o ar condicionado do carro demora pra esfriar. Mar, de dez anos, vai no banco de trás com a mochila do lado, fones de ouvido postos, vendo vídeos no tablet.
— O que você tá vendo, love? — pergunta Gisela pelo retrovisor.
Mar tira um fone.
— Um challenge do TikTok com a Naza. Olha, mãe, é super divertida. Ela disse que quando voltar de Pinamar a gente vai as três pro parque de diversões.
Gisela sorri de leve. Naza é uma amiga que conheceu há uns meses, loira, divertida, sempre disposta a sair. Pra Mar é “a tia Naza” que leva ela no cinema e compra sorvete.
— Tá bom, quando ela voltar a gente liga — responde Gisela, neutra.
Elas chegam no prédio do Fede em Belgrano. Moderno, com segurança, varandas grandes. Fede, 42 anos, está na porta com jeans e camiseta branca, cabelo curto com alguns fios grisalhos, sorriso largo quando vê Mar descer correndo e abraçá-lo.
— Papaiii!
— Oi, princesa. Trouxe tudo?
— Sim, e o tablet carregado.
Gisela desce do carro, passa a mochila extra pro Fede.
— Ela tem provas de Matemática na quinta, revisa as tabuadas do 7 e do 8 que ela tá travando.
—Copiado —ele diz.
Mar, antes de entrar, volta correndo.
—Tchau, mãe, te amo. Fala pra Naza que tô com saudade.
—Falo sim, love. Se comporta.
Mar entra no prédio pulando. Gisela e Fede ficam um segundo sozinhos na calçada.
Fede cruza os braços, baixa a voz com um tom que mistura curiosidade e bronca.
—Naza? Uma amiguinha nova? Espero que você não esteja brincando na frente da menina, Gi.
Gisela encara ele, mandíbula tensa.
—Brincar? É uma amiga, Fede. Mar adora ela. Não enfia ideia estranha na cabeça dela. Você tem sua vida, eu tenho a minha. Não faz drama.
—Drama é a menina falar dela como se fosse da família e eu nem saber quem é —responde ele, a voz subindo um pouco—. Depois não reclama se ela perguntar umas coisas.
Nesse instante, a porta do prédio abre e sai Gimena, a mulher do Fede. 38 anos, morena, elegante, sempre com aquele ar de superioridade sutil. Tá de vestido leve de verão e óculos escuros apoiados na cabeça.
Ela olha a cena, levanta uma sobrancelha. O olhar dela varre Gisela de cima a baixo — a calça jeans justa, a camiseta casual, o cabelo preto solto — e cumprimenta com um sorriso educado, mas cheio de veneno.
—Oi, Gisela —fala, se aproximando—. Vejo que continua no mesmo estilo… prático.
Gisela responde com um sorriso calmo, mas os olhos afiados.
—Oi, Gimena. Prático e confortável, sim. Funciona pra correr de um lado pro outro com a Mar. Você continua impecável, como sempre.
Gimena aperta os lábios de leve, procurando o golpe.
—Obrigada. Pelo menos agora a casa tem um toque mais… aconchegante. Mais nosso.
Gisela não se abala, mantém a voz tranquila mas com um fio profissional.
—Claro, cada um dá seu toque. Eu prefiro espaços claros e funcionais. Por alguma coisa me pagam pra isso.
Fede interfere, sem graça.
—Chega, meninas. Até mais, Gi.
Gisela sobe no carro, fecha a porta com calma. Não liga o motor na hora. Pela janela, vê os três entrarem no edifício: Mar rindo, Fede carregando a mochila, Gimena passando o braço na cintura dele. Pela janela da sala — com aquelas cortinas claras que deixam ver o interior iluminado — ela observa por mais um momento: eles sentam no sofá, conversam animados, como uma família de comercial. Mar tira algo da mochila, Gimena ri, Fede concorda com a cabeça.
Gisela fica parada, motor desligado. Reflete.
Pensa em como tudo terminou com Fede: sem gritos, sem traições escandalosas, só desgaste. Ele queria estabilidade, ela queria intensidade. Se separaram "de comum acordo", mas no fundo sabe que foi ela quem empurrou a porta. Agora vê os três e sente uma pontada: não ciúmes do Fede, mas daquela imagem de normalidade que nunca encaixou direito nela. Mar feliz, sim, mas ela sempre um pouco de fora, a que chega e vai embora, a que não se encaixa no quadro familiar. Pensa na vida sozinha: o apartamento arrumado, as noites com a Naza quando ela pinta, o trampo, as saídas. Livre, sim. Mas às vezes vazio. Se pergunta se um dia vai conseguir ter algo assim, ou se o jeito dela — intensa, independente, com segredos como a Naza — a condena a estar sempre em movimento, sem ancoragem. Sente uma mistura de alívio pela liberdade e uma nostalgia sutil pelo que poderia ter sido, mas sabe que não mudaria nada: a separação foi o melhor pra todo mundo.
Olha pro lado, perto do porta-luvas: a sacola com a nota do espelho que comprou umas semanas atrás pro apartamento do Martín e da Lucía. A última decoração que fez pra eles, um toque final na sala que projetou pra eles.
E então lembra da mensagem. Viu quando acordou, notificação do Martín às 2:17 da manhã, mas não abriu, com a cabeça cheia de ressaca e a Mar pulando na cama pedindo panqueca.
Pega o celular, abre o WhatsApp.
A mensagem completa:
Martín (02:17)
Você ainda pensa na gente? Porque a gente não para de pensar em você. Tem um lenço seu aqui, acho que você devia vir buscar...
Gisela sente um formigamento quente no estômago, um sorriso lento se desenhando nos lábios. Ela fica feliz, genuinamente: o casal se animou, deu o passo, quebrou o gelo com aquela desculpa brincalhona do lenço. É exatamente o que esperava deles — aquela iniciativa sutil, aquela tesão contida que intuíu na noite da festa. O corpo responde com um leve calor entre as pernas, uma lembrança fugaz dos olhares trocados. Ela escreve:Gisela 🐍
Lembro perfeitamente de vocês 😏 Bateu forte no sábado, hein? O lenço… desculpa interessante. Tô com a tarde livre depois de deixar a Mar. Café agora? No Triunvirato em Palermo? Aquele com mesas na calçada.
Envia. A resposta chega quase na hora:
Martín
Perfeito. Tamo saindo. Daqui a 20 aí. 😏
Gisela guarda o celular, coloca a chave na ignição.
Arranca em direção a Palermo, com o sol baixo já pintando o céu de laranja, e uma sensação nova no peito: expectativa, curiosidade, um pouco de nervoso.
O domingo de preguiça está prestes a terminar do melhor jeito.
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O Triunvirato está quase vazio naquela hora da tarde: um domingo pós-Natal, o pessoal na praia ou em família. Gisela chega cinco minutos antes, pede um cortado no balcão e sai pra calçada. Escolhe uma mesa no fundo, debaixo da sombra de uma árvore, onde a brisa mexe só as folhas. Senta de costas pra parede, de frente pra rua: hábito de controle, sempre ver quem chega.
Tá com a mesma roupa da manhã: camiseta branca com mangas raglã pretas que se ajusta ao corpo, o decote sutil deixando entrever só o começo da cabeça da cobra. Jeans escuro, tênis branco. O cabelo preto solto, liso, com a franja reta. Batom vermelho mate intacto. Olha pro celular um segundo, guarda, cruza as pernas.
Vê os dois chegando juntos da esquina. Martín primeiro, camisa azul clara com as mangas arregaçadas que marca os ombros largos e o peito firme, jeans justo. que destacam as pernas fortes dela, tênis cinza. Lúcia do lado, vestido leve florido que gruda nas curvas a cada passo, decote que mostra a pele sardenta do peito, sandálias que alongam as pernas. Elas demoraram pra escolher a roupa: algo casual, mas pensado pra seduzir, pra Gisela notar o esforço sutil, o desejo disfarçado de rotina. Elas se dão as mãos até verem ela; então se soltam, como se lembrassem que isso é território novo.
Gisela levanta, sorriso lento. Sente um pulsar no baixo ventre ao vê-los assim, vestidos pra ela sem dizer: Martín com aquela camisa que convida a desabotoar, Lúcia com o vestido que promete maciez ao toque.
— Chegaram na hora. Gostei.
Martín se aproxima primeiro, beijo na bochecha que dura um segundo a mais. Gisela sente o hálito quente na pele, cheira a loção fresca com um toque de madeira.
— Você também — ele diz, voz baixa, rouca, como se o nervo apertasse a garganta.
Lúcia cumprimenta depois, beijo mais suave, mas a mão que coloca na cintura dela é firme, os dedos tremendo só um pouco. Gisela sente o calor da palma através da camiseta, o pulso acelerado da ruiva.
Elas sentam. Gisela no meio da mesa comprida, Martín na frente, Lúcia à esquerda. O garçom traz o cortado de Gisela e anota o pedido: um latte pra Lúcia, um café preto pra Martín.
Silêncio breve, o bom. Aquele que se curte quando todo mundo sabe que não precisa encher de palavras. Gisela sente a brisa morna na pele, o aroma do café misturado com o perfume doce de Lúcia e o fresco de Martín. Olha pra eles, curte vê-los nervosos: Martín brincando com o porta-guardanapo, Lúcia cruzando e descruzando as pernas debaixo da mesa.
Gisela quebra o gelo, voz suave mas firme.
— Então… o lenço.
Martín tira a bandana vermelha do bolso, coloca na mesa como prova. Os dedos dele roçam os de Gisela ao passar, um toque elétrico que faz ele engolir seco. —Apareceu entre os lençóis. Misteriosamente.-
Lúcia ri nervosa, mas os olhos brilham, as bochechas coradas.
—Mentiroso. Você quem guardou.-
Gisela pega a bandana, acaricia com dois dedos, cheira de leve. O perfume dela se mistura com o suor seco do casal, um aroma que acelera o pulso dela.
—Ainda cheira a mim. Interessante.-
Martín se inclina um pouco pra frente, o sol refletindo nos olhos castanhos dele.
—Não conseguimos tirar você da cabeça depois daquela tarde do espelho.-
Lúcia concorda, mais direta agora, o nervosismo se transformando em calor.
—Foi forte pra gente. Os dois. A gente conversou… muito.-
Gisela arqueia uma sobrancelha, divertida. O pé dela roça “acidentalmente” a perna de Lúcia debaixo da mesa; sente o músculo tenso da ruiva, o leve suspiro que escapa dos lábios dela.
—Muito como?-
Martín abaixa a voz, mesmo com a calçada vazia. As mãos dele suam um pouco sobre a mesa, mas ele continua.
—Do tipo que acaba em sexo selvagem imaginando você. O dildo… a gente usou pensando na sua tatuagem de serpente, em como você nos guiaria.-
Lúcia completa, quase num sussurro, mas com os olhos fixos em Gisela, ganhando confiança a cada palavra. A mão dela roça o braço de Gisela, pele contra pele, um arrepio compartilhado.
—E gritando seu nome. Fiquei toda molhada só de imaginar você me dominando, me tocando do jeito que só você saberia.-
Gisela sente o calor subir pelo pescoço, mas mantém a compostura. O ar fica mais denso, o aroma do café agora misturado com o suor sutil da excitação. Ela adora ver eles assim: quentes, vulneráveis, prontos pra ceder. Martín com as pupilas dilatadas, Lúcia com o peito subindo e descendo mais rápido, o tecido do vestido colando na pele dela.
—Naquela tarde, vi vocês muito novinhos — diz Gisela, voz baixa, quase um ronronar—. Com vontade, mas sem saber como lidar. Me convidaram pra ficar pra jantar… e eu senti que queriam mais. Mas deixei vocês irem, porque não estavam prontos. Agora… parece que cresceram um pouco.-
Lúcia morde o lábio, o rubor intenso.
—A gente achava que você não tava afim. Mas ontem, depois de falar tudo… precisamos saber se você também sentiu o mesmo.
Martín acena, a voz mais firme agora.
—A gente sentiu que você podia nos guiar. Que com você seria diferente. Com certeza.
Gisela olha pros dois, os olhos verdes brilhando. Aperta de leve a mão de Lucía, sente como a ruiva responde com um tremor suave.
—Adoro ver vocês assim — ela diz. —Quentes, nervosos, mas decididos. Sim, senti o mesmo naquela tarde. Martín… você me atraiu desde a primeira vez que veio medir. E Lucía… naquela tarde do espelho, deu vontade de te dominar, de te ensinar como é gostoso se deixar levar.
Lucía solta o ar, a respiração trêmula.
—E agora?
Gisela solta a mão de Lucía só pra pegar a bandana vermelha, enrolando devagar nos dedos, como se medisse o peso do que vem.
—Agora eu tô pronta. Mas vamos fazer direito. Hoje é domingo, amanhã é feriado. A Mar tá com o pai até amanhã à tarde. Meu apê tá vazio… mas prefiro que seja no de vocês. Quero sentir isso no espaço que projetei pensando em como vocês iam viver, como iam se mover… como iam se entregar.
Martín sorri, a excitação clara na voz.
—Perfeito. Em casa então. Hoje à noite? Assim a gente se prepara tranquilo, toma um banho, bota uma música gostosa… e espera.
Lucía acena, os olhos brilhando, a mão procurando agora a de Martín em cima da mesa.
—Nove horas? Assim a gente come algo leve antes, ou direto… o que rolar.
Gisela guarda a bandana no bolso, se inclina um pouco pra frente, a voz baixa e firme.
—Nove horas. Estejam com vontade. E sem pressa. Vamos tomar o tempo que precisar.
Pagam a conta. Levantam. A despedida é curta, mas carregada.
Gisela beija Lucía primeiro: lábios macios contra os dela, um toque breve mas profundo, a língua roçando de leve o lábio inferior da ruiva, que responde com um suspiro contido.
Depois, Martín. Martín: beijo mais firme, a mão na nuca dele, guiando, dominando o ritmo um segundo antes de soltar com um sorriso.
— A gente se vê hoje à noite — diz Gisela, voz rouca.
Ela caminha até o carro dela, costas retas, ciente dos olhares que a seguem. Leva consigo a bandana vermelha.
Martín e Lucía ficam um segundo na calçada, de mãos dadas de novo, o coração acelerado, a pele ainda quente do beijo.
O domingo preguiçoso acabou de virar a antesala de algo inesquecível.

Continua...
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