Minhas experiências como acompanhante (XXVI)

Dizer que eu pulei de susto, me agarrando no corrimão que tava preso na parede, gritei mais alto que a Janet Leigh no clássico "Psicose", e olha, perdi um pouco o controle da bexiga teria sido um eufemismo do que realmente rolou. Tenta se colocar no meu lugar, ou no lugar de qualquer mulher de romance ou filme de Hollywood, sendo aquela pobre, indefesa e frágil mulher – o clichê batido em filmes de suspense/medo/terror – onde tão tomando banho, na casa delas, morando sozinhas, as portas tão trancadas e do nada ouvem batidas na porta do banheiro. É, me diz que todo mundo agiria com tanta coragem quanto tão pensando, eu desafio.

Enfim, de volta ao meu momento de orgulho, olhei apavorada, através da cortina do chuveiro, pro lugar onde imaginei que minha porta estivesse. Falando sério, não devem ter passado mais de trinta segundos, mas na hora pareceu uma eternidade. Aí uma voz apareceu.

– Que cheiro é esse, garota, pelo amor de Deus, que merda você fez? – a Delfina falou, e eu reconheci na hora.

– O que você tá fazendo aqui? Como é que entrou no meu banheiro? – foi a segunda coisa que saiu da minha boca, a primeira foi uma lista enorme de xingamentos que assustaria qualquer pessoa sã.

– Pulei a sacada, sua tonta, de repente senti um fedor horrível e achei que você tinha chegado.

– Bom... Não faz isso de novo, tá? – pedi, lembrando da pequena incontinência que o susto me causou segundos antes – no máximo vou te dar uma cópia da minha chave se quiser vir, mas aparece de um jeito menos violento.

– Eu, te assustei tanto assim? – ela disse, enquanto puxava a cortina de leve pra enfiar a cabeça e me olhar nos olhos.

– Sim, sua idiota! Sai! – gritei, apoiando a mão e empurrando o rosto dela pra fora do chuveiro. Depois disso, ela se desculpou e, depois de darmos umas risadas quando a situação acalmou, ela saiu do banheiro.

Vendo que não era um assassino ou um estuprador, Me acalmei, embora minha vontade de continuar no banho tivesse acabado. Fechei a água e procurei atrás da cortina a toalha, que estava pendurada num pequeno cabideiro. Me enxuguei bem, passei perfume, desodorante e antitranspirante, o normal. Pensei em cremes, mas a verdade é que hoje não tava a fim, me trariam lembranças do que aconteceu há algumas horas, e isso por enquanto eu queria esquecer. Deixei a toalha em cima da cortina do banheiro e saí pelada. Instintivamente fui até meu pequeno móvel onde guardava minhas bebidas alcoólicas pra me servir um gole de uísque. Eu tinha me acalmado, mas não ia fazer mal.

Ainda tava acompanhada, a Delfina não tinha ido embora. Dessa vez não me assustei, e até olhei pra ela com um sorriso enquanto me servia a bebida. Ela tava com alguns fios de cabelo molhados, e toda a maquiagem borrada; batom, sombra, e até os cílios postiços tinham escorrido.

— Sabe que já tive parceiros que não paravam de me comer, até me ver assim, e talvez com uns hematomas aqui — ela apontava pro pescoço e ria — meio sado, né?

— Um pouquinho bastante... Mas o que você tem agora também não te cai tão mal — falei, e não era mentira. Durante esse tempo, descobri a "beleza" na imagem destruída da mulher, e cada vez mais me acostumava com uma visão assim.

Depois de falar besteiras, ela me pediu pra contar sobre o cheiro. E claro que contei, e mostrei como tinha ficado a roupa que usei. Ela dizia rindo que nem pra retalhos velhos serviria, toda cortada, e me pedia por favor que não me ocorresse doar de jeito nenhum. Dizia que era pra jogar fora, ou enterrar em algum terreno baldio.

— Por que você me cuidou tanto naquele dia que eu fiquei podre de bêbada? — perguntei do nada, não sei por que lembrei daquele dia. A gente tava sentada no sofá se olhando, ela de roupa de casa, e eu ainda pelada tomando minha bebida.

— Porque você me pediu... — ela respondeu. disse simplesmente, me encarando esperando que eu aceitasse aquela resposta, algo que obviamente não encontrou na minha cara.
— Fala... Não vou engolir esse papo, tem mais coisa — falei acariciando um dos joelhos dela, olhando pra ela — Não é?
— Eu estive naquele mesmo lugar, e não tive ninguém pra cuidar de mim, e foi assim que eu acabei no pronto-socorro, com uma intoxicação forte, sozinha... Quando você me pediu pra cuidar de você, coloquei aquele lá de cima — ela disse apontando pro céu — como minha testemunha, e prometi e jurei cuidar de você.
— Valeu — olhei pra ela chocada, parecia que eu tinha tocado num assunto sensível pra ela.
Nisso, mantendo nossos olhares uma na outra, fomos nos aproximando bem devagar. Eu deixei o copinho na mesa de cabeceira e apoiei minhas mãos de cada lado da cintura dela, e ela fez o mesmo. Continuamos nos aproximando até agora trocar beijinhos suaves e carinhosos. Não tinha palavras, gemidos, nem olhares cúmplices tentando dizer algo, só beijos. Dava pra ouvir o mínimo roçar dos nossos lábios e o contato ocasional das nossas línguas.
Seguimos assim pelo que imaginei serem uns dez ou quinze minutos, e quando paramos, foi só porque, mesmo sendo uma sessão de beijos românticos, as duas tínhamos ficado um pouco sem ar. Abri meus olhos — que mantive fechados o tempo todo enquanto beijava ela — pra ver nos olhos dela um traço de nojo e repulsa.
— Beijo tão mal assim? — na hora, toda aquela felicidade que esse contato tinha me dado desabou mais rápido que as Torres Gêmeas.
— Não foi você... — ela acariciava minhas pernas e me olhava nos olhos — foi aquilo — e apontou pro copo de uísque — é nojento... Não aguento.
Voltamos a rir juntas e depois continuamos conversando por mais alguns minutos, até que ela disse que precisava ir pra continuar estudando e fazendo roupas.
Antes de acompanhá-la até a porta, entreguei o jogo de chaves que tinha feito antes. reforçando a necessidade que eu tinha de que, se ela quisesse me visitar, fizesse a presença dela um pouco mais óbvia. Voltei pro meu sofá e continuei tomando minha bebida, aprendi com meu pai que a gente tem que aproveitar, como se fosse um charuto, que não se fuma com pressa, mas se aprecia cada tragada. Olhei pro celular, dentro do aplicativo da Netflix, uma série nova pra começar a assistir. Fiquei um tempão até encontrar "Altered Carbon", uma de ficção científica, com uma pegada futurista. Comecei a ver o primeiro episódio, parecia boa, mas eu já tava cansada. Um tempo depois, devia ter dormido, não tinha clientes no dia seguinte, e a Laura ainda não tinha me confirmado quando seria o encontro simultâneo com aqueles dois amigos, e a consequente reunião dos ex-colegas de colégio dela.

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