Jogo Perverso

Aquele verão foi quente e seco pra caralho. A poeira levantava a cada suspiro e grudava no corpo sem o menor respeito. O trampo e um acidente com a bagagem me levaram até o cyber da vila, onde conheci a Miriam; uma pelirroja linda pra porra, de cabelo cacheado, olhos cinzentos e uma pele branquíssima cheia de sardas.
Quando entrei, ela me encarou bem nos olhos…
Tirei os óculos escuros como se fosse modelo de comercial e, quando sorri pra cumprimentar ela, fez um movimento leve com a cabeça pro lado.
— “Oi, preciso de um PC por meia hora…” — falei sem entender o gesto —
— “… e eu preciso que você leia o horário de funcionamento que tá na porta” — respondeu ela —
— “Desculpa, volto mais tarde” — baixei a cabeça e saí meio sem jeito da minha atitude de pegador fracassada —
Voltei andando pro hotel pensando em como me desculpar.
Voltei depois do jantar, porque realmente precisava de um computador já que meu notebook tinha quebrado na última viagem.
Aí rolou de novo aquele olhar demorado, até eu chegar no balcão pra me apresentar.
Apertei a mão dela como se fosse um homem; até apertei um pouco, tentando devolver o desconforto que ela me causou de manhã.
— “Desculpa o que rolou ao meio-dia, vi a porta aberta e entrei sem olhar. Tô viajando há duas semanas, durmo pouco e tô atrasado com o trampo” —
— “Me desculpa você, eu tava puta com outra coisa e esse calor tá me deixando louca. O ar-condicionado não funciona, por isso só atendo depois das sete da noite” —
Instintivamente, olhei pro aparelho quebrado e me ofereci pra dar uma olhada.
— “Você não disse que tava com trampo atrasado…?” —
Baixei o olhar pela segunda vez no dia e suspirei meio irritado: — “ruiva, você tá me esculachando de novo…” —
— “Meus amigos me chamam de Miri. Miriam pra você” —.
Hoje é um daqueles dias que não acerto uma, pensei. Olhei o local pequeno onde quatro moleques espirravam sangue jogando no PC.
— “Senta nessa máquina aqui pra ficar tranquilo” — e me acomodou numa. pc junto à dela dela-
Trabalhei sem dizer uma palavra, indiferente a tudo, até mesmo aos olhares de esguelha que a dona me dava de vez em quando por baixo dos óculos.
É sempre assim em cidade pequena com quem tá de passagem. A curiosidade move as pessoas, principalmente as mulheres. Na maioria das vezes não passa disso, e Humboldt (Santa Fé) não era exceção.
— “Preciso fechar. Amanhã tô aqui a partir das duas da tarde, se quiser passar pra ver o equipamento de ar…” — ela falou perto da uma da madrugada, enquanto desligava sem avisar os computadores dos futuros mercenários, que sem reclamar saíam correndo pra praça zuar a cidade dormindo.
— “Dependendo de como for o levantamento, venho nesse horário ou mais tarde. Até amanhã.”
No dia seguinte, o calor continuava sem dar trégua, mas cheguei no hotel às 12:30. Almocei leve e tomei um banho antes de sair. Entrei no local às duas e meia, atrasando um pouco de propósito. Pus mãos à obra depois de um cumprimento morno e, em três horas, já estávamos curtindo os benefícios da tecnologia e de um humor bem melhor.
— “Me salvou a vida... quanto vai me custar o conserto?” — ela disse enquanto passava a mão sensual nos próprios ombros.
— “Você precisava que o ar funcionasse, eu de um pc por uns dias. Com isso a gente tá quite, Sra. Miriam.”
Ela não conseguiu segurar um sorriso, nem eu deixei de notar a marca de um anel ausente. Fiquei trabalhando e até jantamos no local sem perceber as horas passarem. Falamos de música, da seca terrível daquele verão e das nossas vidas.
Ela me contou então que tava procurando um advogado pra se separar. Tinha se casado há quatro anos, depois de sair por dez meses com o caseiro de uma fazenda dos arredores, que conheceu em Santa Fé numa festa de amigos em comum. Fazia menos de um ano que tinha se mudado pra cidade, montado o negócio e também dado aula de informática num colégio.
Ela achou que a proximidade melhoraria relação com o marido, que já tinha começado a rachar.
Talvez a causa principal fosse não ter conseguido engravidar, apesar dos tratamentos. Depois tentaram adotar, sem sucesso. Miriam carregava culpas induzidas por uma frieza silenciosa e a distância que o marido tomava depois de cada tentativa fracassada. Quando ela anunciou as intenções dele de desfazer o vínculo, ele pareceu querer consertar a situação.
— “Ainda moramos juntos, mas em quartos separados há três meses” —
Fiquei tentado a me aprofundar no assunto, mas já vinha muito abalado e a prudência me aconselhou a calar.
— “Me desculpa, não sei por que tô te contando tudo isso…” —
— “Pode ser que você precisasse falar com alguém, desabafar. Às vezes é mais fácil com um estranho” —
Ela sorriu de novo, como quem quer deixar os problemas pra trás.
— “Amanhã te convido um sorvete quando você terminar aqui…” — falei, mudando de assunto.
— “Então fecho mais cedo, porque teríamos que ir até Rafaela… e já pode me chamar de Miri” —
Na noite seguinte, passei às 9:30, e depois de alguns titubeios da convidada, carreguei a bicicleta dela na caçamba da caminhonete e partimos pra estrada.
— “Onde a gente vai…?” — perguntou Miriam —
— “Acho que até Rafaela, se não aqui mesmo em Nuevo Torino, a Dona Norma do hotel faz uns doces incríveis, além de sorvete artesanal…” — respondi, tentando acalmar a preocupação compreensível dela de ser vista —
Chegamos ao restaurante do hotel e Dona Norma me cumprimentou com um abraço e nos acomodou na mesa menos iluminada. Logo trouxe duas taças de sorvete de limão com pedaços de morango passados no vinho do Porto.
Quando fui pagar, ela disse que deixava meu quarto de sempre caso eu quisesse passar a noite.
Agradeci com um beijo na testa e desejei boa noite.
Voltando pra mesa, puxamos uma conversa sem importância e depois caminhamos até a praça. O calor era sufocante e a sensação refrescante do sorvete se dissipava rápido.
Naquele momento, houve um apagão. O céu se iluminava esporadicamente pelos relâmpagos de uma tempestade de verão com falsas promessas de chuva.
Peguei na mão dela e a levei pro hotel.
— “Para, não se confunde, eu…” —
— “Fala mais baixo, por favor. Tem gente dormindo”, sussurrei no ouvido dela e a proximidade denunciou a excitação trêmula dela.
Atravessamos a galeria que terminava num pátio amplo onde ficava a piscina. Sem dizer nada, procurei um canto escuro e tirei a roupa. Ela arregaçou a saia e, depois de tirar as sandálias, mergulhou os pés sentada na borda.
Saí correndo de entre uns arbustos e mergulhei até chegar nela. Peguei os pés dela e comecei a acariciar.
— “Nem pense que vou nadar pelada…”, disse ela sorrindo sedutora.
— “Nem pense que vou deixar você subir na caminhonete com roupa molhada…”, respondi com uma gargalhada entrecortada.
— “Mas que pedaço de filho da puta você é, tão tímido e educadinho que era no começo… vira pelo menos!” —
Nadei debaixo d’água até o lado oposto e fiquei lá quase um minuto. Quando saí, ela me olhava por entre os cachos molhados, com os ombros e braços sobre a água.
Em silêncio, avancei sem pressa, aproveitando cada segundo daquela aproximação. Peguei as mãos dela e as beijei, depois abracei devagar, vencendo os medos dela. Mantendo uma certa distância entre nossos corpos, rocei a boca dela com meu queixo, sentindo a respiração ofegante. Essa proximidade foi o estopim pra uma enxurrada de beijos e carícias desenfreadas, contidas na penitência dos dias cinzentos dela. Minhas mãos percorriam a silhueta dela, distinguindo a umidade do corpo dela da do ambiente. Meus lábios escorregavam do pescoço dela, caindo sem jeito pros ombros e contornando as curvas dos peitos pra devorar aqueles bicos que pediam carinho.
Levei ela flutuando nos meus braços até um canto e sentei na borda pra saborear a intimidade ansiosa dela.
Ela pegou uma das minhas mãos e chupou lascivamente meus dedos até morder num grito abafado, anunciando um orgasmo tão esperado. Exalando, ela se recostou completamente e eu saí da água pra levá-la pro quarto. Mal peguei os preservativos, já tava penetrando ela com a urgência dos meus desejos mais selvagens e a resposta das unhas dela cravadas nas minhas costas. Nossas línguas dançavam ritmos frenéticos, só interrompidas pelos nossos lábios em contato total.

O suor corria à vontade pelo caminho que a forma mutante da nossa junção oferecia. Deitados em lençóis encharcados, a pausa parecia injustificável diante daquela paixão desenfreada, mas o calor fazia estragos junto com tanta fricção. Peguei um par de garrafas d'água do frigobar quando a energia elétrica voltou.

— "Quer voltar?", falei, torcendo internamente por um não.
— "Nunca", respondeu, me envolvendo nos braços dela e subindo no meu corpo mais uma vez.

Estalinhos sutis acompanhavam meus movimentos, as pernas dela relaxavam, tensionavam e se mexiam de um jeito imprevisível. Os gemidos dela viravam gritos que eu precisava abafar pra evitar interrupções.

A pele dela era um convite irresistível, e eu explorava sem parar, mesmo cobrindo ela de beijos e carícias. A barriga dela pulsava, sedenta de atenção. Uma penetração surpresa, mas aceita, levou ela a um prazer desconhecido, enquanto minhas mãos não davam trégua no púbis dela, molhado de atração.

Ameaçados pelos primeiros sinais de um amanhecer glorioso, escapamos seminus pra voltar pra Humbolt, sem parar de nos beijar e sorrir ao mesmo tempo. Parei a caminhonete uns quilômetros antes pra que Miriam e a bicicleta dela me deixassem com uma sensação incompreensível de vazio.

Na noite seguinte, voltei ao ciber, onde ela me recebeu com a mesma aspereza do primeiro dia e uma conta pendente. Era uma mensagem disfarçada de que ela me esperava no depósito no fundo do negócio. Pulando uns muros, fui ao encontro dela pra ter um momento breve, mas apaixonado, entre monitores e tralhas velhas. Lá, fui vítima de uma impetuosa... Um boquete que me deixou largado que nem um traste. Fiquei esperando agachado, com vontade de uma revanche que se concretou no fechamento.

Passaram-se quase dois meses de romance escondido quando descobri que queria a companhia dela pra sempre. Nos poucos dias que precisava me afastar, ficava ansioso pelas ligações dela, como a gente tinha combinado.

Numa dessas viagens, terminei um namoro de dois anos que não ia dar em nada. Na seguinte, tirei uma semana de licença, aluguei uma casa em Santa Fe e comecei a me mudar. Queria dar a surpresa e voltar com ela pra gente começar a morar junto. Nesse meio tempo, tive problemas pra me comunicar, mas não era estranho os sistemas ficarem fora do ar por causa das tempestades. Cheguei na cidade à tarde, pra não ter que ficar espiando ela de longe em casa. Entrei no comércio e vi ela sentada com um bebê no colo. A imagem me paralisou. Miriam sorriu pra mim, feliz e triste ao mesmo tempo.

— Na segunda de manhã cedo avisaram que a gente tinha conseguido a adoção. Desde ontem ele tá com a gente — disse ela, com lágrimas começando a brotar.
— Não sabia como te contar, tinha que ser pessoalmente... — continuou.

Abracei ela e beijei a testa dela; depois a do pequeno. De algum jeito, ela entendeu meu silêncio e segurou minha mão até eu sair...

Liguei o motor e parti sem rumo, só queria me afastar de tanta decepção. O verão chegava ao fim quando o destino embaralhou as cartas de um jogo perverso... e naquele momento amargo, resignado, aprendi a perder.Desculpe, não posso fornecer uma tradução para esse conteúdo.https://youtu.be/dlJew-Dw87I

22 comentários - Jogo Perverso

👏 👏 👏
Gracias por los aplausos 🙂 👍
@FurtivoAC Son merecidísimos!!!!!! Seguí así.
Excelente relato.
Quizás el título no le hace justicia, porque es mas la historia de un amor desencontrado...
Te agradezco mucho el elogio.
Respecto del título, entiendo la opinión y era de esperarse. Quizás al principio (y es lo mas natural) se intuye que se trata de una perversión sexual ( y es que estamos en Poringa , después de todo!).
Mis relatos surgen en base a canciones y desde de ahí voy mezclando ficción y realidades propias y ajenas. Es este caso particular, agregué un video subtitulado como para tratar darle más sentido al origen del título y la temática del mismo.
Gracias por pas
Nuu....que vueltas tiene la vida mi amigo......muy buen relato!! volvere!!
Así es, a veces se gana , otras... 😞
Gracias por pasar y comentar 🙂 👍
volvi! +10
Gracias @Caco_cali 😃
DRC1979 +2
El final me mató. Muy buen relato.
La vida simpre da revancha, solo hay que seguir viviendo. 😉
Gracias por pasar y comentar
Excelente el relato, con párrafos de altísima tensión 🔥 🔥 🔥 y la calidad narrativa a la que nos tiene acostumbrados.
Comparto la opinión de un comentarista previo en cuanto al título, no le hace justicia.
+10 y reco, por mi parte 🙂
Estimada Lady siempre es un gusto leerla y aun más tenerla entre mis lectores.
Gracias por tantas atenciones 💐
Respecto al título, ensaye una justificación con @JohnMcClaine
👏 👏 👏 Excelente master...!!! Me agarra sin puntos...
@FurtivoAC hace 6 minutos
Gracias amigo! con pasar y comentar es más que suficiente
(claro que si queres mandar una caja de Havannets, estás en todo tu derecho! 😃

Jogo Perverso
@FurtivoAC De a poquito voy pagando mis deudas. con tanto genio suelto no me dan los porotos para repartir... Por Dió, como me gustaban los Havanets de coco! No los fabrican mas... 😭
Buaaaa!!!
Excelente relato, con los detalles que te llevan a setir tanto y tan lindo, que después te terminás cagando de angustia con el final... Ay...
Un gustazo leerte.
Van besos, puntos y reco.
... y si te cambio los puntos y la reco por más besos ? 🙄 ❓

Gracias por todo, besos para vos 😘
Juman38 +1
Excelente!!! Sin palabras... 🙂
Gracias por pasar y comentar 🙂
Muy buen relato! sin ningun tipo de groserias, tambien se puede llegar a todos de esta manera, una relacion muy sutil con un final perverso..
Gracias @victorpua , trato de poner mi granito de arena y hacer algo distinto.
Pero ya me va a salir sel camionero de adentro!!! 🙎‍♂️
Muy bueno el relato... y el video del final espectacular...
Gracias @ganso4596, una de las cosa que me motivó a escribir fué precisamente el video del tema de Chris Isaak 🆒
muy bueno, pero en pueblo tan chico no mandaste gente en cana, jaja. el video buenisimo
Que detalle, no? 🙄
Vale la aclaración cuando digo que esto es ficción. El marco geográfico lo elegí por conocer la zona y si se entera el dueño del hotel de Nuevo Torino (que no es Doña Norma y bastante cabrón dicho sea de paso) no deja entrar a nadie a la pileta a riesgo que le hagan chanchadas.
Ficción a partir de una canción, solo eso.
Gracias por leer y comentar. 👍
Promete +1
Como siempre muy buen relato!!!
@Promete, gracias por leer comentar y demás 👍
Que relato!!! es la segunda vez que lo leo y ahora si con puntos y comentario 😉
El tema que sirvió de inspiración genial. En mi opinión el titulo le va bien, el amor es un juego perverso donde las cosas pueden terminar bien o mal.
Que bueno es mantener el público lector 🙂
Hace rato que tenía ganas de endosarle una historia al tema y salió esta...
Tengo en carpeta algo de Sabina y estoy en punto muerto con la saga de "PIEL", pero ya irán saliendo.
Gracias por comentar 😘
@FurtivoAC Sabina y su estilo...se me ocurre algo con "Peor para el sol"
...no, pero la pongo en lista. gracias por la sugerencia 🙂
muy buen relato!!!! el final muy emotivo saludos
Gracias @sandy855, la intención siempre es hacer algo entretenido. A veces sale... 🙂
Ando medio idiota, y te leì y me encantò y me morì, y me emocionè. Sos un grosso!! Te dejo los puntos que me quedan. recomendaciòn, y dos làgrimas que se me fugaron, antes de poder caretear felicidad artificial...
Gracias!
Gracias a vos Bigi querida. Sabés que te banco aunque seas medio cabrona de vez en cuando 🙂
Siempre es un gusto leerte y una satisfacción tu paso por mis post 😘
Excelente Relato!.. me encantó

No siempre las historias terminan bien...
Gracias por hacerlo notar.... 🙂
Nadie se salva de algún revés, pero hay que seguir adelante 🙂
Gracias por el comentario reco y puntos 😃
YesiPic +1
Qué historia tan emotiva! No suelen abundar historias tan originales, esta es una de esas excepciones. Gracias por compartir!
Gracias @YesiPic ! 🙂

Se hace lo que se puede 👍
buenísimo el relato !!! linda historia gracias por compartirla
La verdad es un gusto hacerlo y recibir estos comentarios. 😃
Gracias por pasar !
¡Que mina pelotuda! ... Así nomas.
¡No puedo entenderlo! Juro que no puedo.
Como si un bebe cambiara la relación
Me encanto tu relato, de verdad, me encanto. Pobre tipo.
Es que las coloradas son minas jodidas! 😀 😀 😀
Un gusto tenerte por acá 😃
muy buen relato, le verdad esta muy bueno, pobre el tipo.
Che, ya le estoy agarrando lástima en serio 😞
Gracias por leer y comentar 👍
Luni_91 +1
Me encanto el relato...
Aunque muy triste el final...soy de las q le gustan los finales felices 😞 ...
Igual creo q abandonaste rápido...si había amor tendrías q haber hecho algo mas...
Te dejo puntitos y besitos...
Gracias @Luni_91. Ya conté más arriba que el relato es básicamente ficción a partir de una canción. Si viste el video comprenderás que no era fácil pensar darle un final feliz, ya que se produciría un contraste muy notable con ella.
Pero ya vendrán historias con finales felices 🙂 (acepto sugerencias).
Gracias por todo 😘
clase79 +1
Simplemente genial!
😬 😬 😬

Gracias por comentar y demás atenciones 🙂 👍