O comprimido que mudou tudo (capítulo 1)

1- A pílula. Lucas, aos 17 anos, era o alvo perfeito. Magro, baixinho e com uma timidez que parecia um convite para certos tipos de gente. Ou, pra ser exato, pra uma pessoa: Fernando. Pro resto do colégio, Lucas era um zero à esquerda. Nem enchia o saco dele; simplesmente, ele não existia. Não era chamado pra grupos, não pediam caderno emprestado, o nome dele raramente era dito. Era um fantasma pro resto da escola. Mas pra Fernando, Lucas era o passatempo favorito dele. Naquele dia, o confronto foi no corredor, bem depois do sinal. "Bom dia, perdedor," disse Fernando, parando na frente dele com um sorrisão. O grupinho dele riu ao redor, formando um coro. Lucas tentou desviar, mas Fernando colocou um braço firme contra os armários, bloqueando o caminho. "Já vai com tanta pressa? Temos que conversar, fracote." O bafo dele cheirava a álcool. "Você me deve o dever de Química. E que seja bom, hein, não quero que esse cérebro patético seu me faça passar vergonha." Lucas, com o olho fixo no chão, concordou em silêncio e tirou o caderno. As mãos dele tremiam levemente. Não era medo físico, mas a raiva impotente de saber que não conseguia reagir, de mudar aquela dinâmica. A aula de Educação Física foi só a continuação da humilhação. O professor Gilberto, um cara de porte forte e obeso, mandou dar voltas na pista. "Os três últimos vão limpar os depósitos!" gritou. Fernando, ao passar correndo do lado dele, não perdeu a chance. "Não se apressa, patético," sussurrou com desprezo. "Já sabemos que esse vai ser o seu lugar." Lucas correu com toda a força, mas o corpo não aguentava mais. Não conseguiu cumprir as voltas, ofegante e com o rosto vermelho, sentindo o olhar do professor Gilberto que o examinava de cima a baixo com um tom de desaprovação. "Aiii, nem conseguiu cumprir as voltas! Por isso que só você vai limpar o depósito. Que patético você é!" Ao sair da escola, com o O eco dos insultos ainda ressoando nos ouvidos dele, Lucas foi pra casa de cabeça baixa. A raiva fervia por dentro, mas não tinha por onde escapar. E então ele viu ela. Alondra. Tava do outro lado da rua, rindo com uma amiga. O sol batia no cabelo dela, e a risada dela era o som mais puro que Lucas tinha ouvido o dia inteiro. Por um instante, os "perdedor", "fracote" e "patético" sumiram. Só existia ela. Aquele momento roubado, aquela espiada no sorriso dela, foi o único tesourinho do dia dele. A alegria durou pouco. Quando ele passou pela porta de casa, o silêncio bateu feito um soco. A casa tava vazia e escura, como quase sempre. Os pais dele, presos nos turnos intermináveis de trabalho, eram quase fantasmas. Desde que a irmã mais velha foi pra faculdade, a casa perdeu o último resto de aconchego. O quarto dela, agora sempre trancado, era um lembrete de tudo que já não tava mais ali. Lucas era o único na casa — um espaço que parecia ao mesmo tempo enorme e sufocante. A vida dele era isso: ser o saco de pancadas do Fernando, ser invisível pra todo mundo e voltar todo dia pra uma casa vazia. Naquela noite, na solidão do quarto dele, o desespero venceu. Ele ligou o computador e passou horas navegando sem rumo, procurando alguma saída pra miséria dele. Vasculhou fóruns, leu conselhos inúteis, anúncios vazios. Quando já ia desistir, alguma coisa chamou a atenção dele. Numa página pouco conhecida, apareceu um anúncio estranho que dizia: "Cansado de ser pisado? Força e confiança num comprimido. Entrega discreta." Era loucura. Golpe, com certeza. Mas ele olhou o próprio reflexo no monitor: um fracote, um perdedor, um patético. Qualquer coisa, qualquer risco, era melhor do que continuar sendo aquilo. Com um nó na garganta, Lucas clicou em "Comprar". *Uns dias depois* A rotina cinza do Lucas foi interrompida por um pacotinho retangular na entrada da casa dele. Não tinha remetente claro, só o nome dele. nome e endereço. O coração dele bateu forte contra as costelas. Só podia ser uma coisa. Com a adrenalina bombando, ele levou rápido pro quarto, fechou a porta e abriu com as mãos tremendo. Dentro, tinha um pote de plástico opaco, liso e sem etiqueta. Não tinha nome, nem instruções, nem logotipo. Nada. Ao ver o pote, uma lembrança fraca veio à tona: na foto do anúncio, os comprimidos vinham num pote com um raio estampado. Isso era... diferente. Mas a empolgação e o desespero calaram aquela vozinha de alerta. "Deve ser a embalagem genérica," ele se enganou. Abriu o pote. Lá dentro, tinha um monte de pílulas brancas e rosa. Sem pensar duas vezes, engoliu uma com um gole d'água de uma garrafa que tava na mesa de cabeceira. No começo, não sentiu nada. Um minuto. Dois. Uma onda de decepção começou a crescer no estômago dele. Tinha sido um golpe, afinal. E aí, bateu. Uma dor surda e ardente nasceu na boca do estômago, como se ele tivesse engolido uma colherada de lava. Lucas ofegou, levando as mãos pra barriga. O calor se espalhou rápido, um fogo líquido correndo pelas veias, queimando ele por dentro. Os ouvidos zuniam, a visão ficou turva com pontos brancos. Ele gritou, mas o som morreu na garganta. O mundo girou violentamente e a escuridão o engoliu. Caiu de costas na cama, desmaiado. Não soube quanto tempo passou. Minutos, talvez. Voltou a si com um suspiro, a mente afundada numa confusão densa. O corpo ainda tava quente, como se tivesse febre, mas a dor insuportável tinha ido embora. No lugar, ele sentiu um peso estranho, uma densidade nos membros que não era dele. A roupa, um moletom folgado e uma calça jeans, apertava de um jeito desconfortável. Puxava nos ombros, comprimia o peito... O peito. Com um movimento desajeitado, Lucas olhou pra baixo. E viu duas curvas pronunciadas, macias e firmes, que enchiam e esticavam o tecido da moletom até formar duas protuberâncias enormes que não estavam ali antes. O pânico, frio e absoluto, o eletrocutou. Ele pulou da cama de um salto, e a nova distribuição do peso o fez cambalear. Correu para o espelho grudado na porta, seus passos estranhamente diferentes. A imagem que refletiu nele o deixou paralisado. Ele não era mais Lucas. A pessoa no reflexo era uma mulher. Jovem, talvez da mesma idade, mas de uma beleza de tirar o fôlego. Tinha o mesmo tom de pele e a cor dos olhos, mas agora eles pareciam maiores e mais expressivos. O cabelo preto era o mesmo, mas mais longo e brilhoso, caindo sobre os ombros. E o corpo... o corpo era uma versão exagerada e voluptuosa da feminilidade. Uns peitos generosos e durinhos erguiam o moletom. O quadril tinha alargado, arredondando numa bunda enorme que esticava o tecido da calça jeans, e as coxas, agora grossas e fortes, se roçavam ao andar. "Q-que...?" foi a única coisa que conseguiu balbuciar com uma voz que não reconheceu, um tom mais suave e melodioso que o dele. A mente, anestesiada pelo choque, só conseguiu se agarrar a uma ideia: o comprimido. Virou e, com a falta de jeito de habitar um corpo novo, se jogou no computador. Ligou o monitor e procurou feito louco no histórico, achando a página do anúncio. "Cansado de ser pisoteado? Força e confiança em um comprimido." A foto mostrava um pote profissional com cápsulas vermelhas e azuis. Embaixo, uma descrição falava de "aumento de massa muscular" e "testosterona sintética". Nada. Não falava nada sobre... isso. Lucas olhou para o pote anônimo e branco que estava em cima da cama. Depois, olhou de novo para o reflexo de mulher no espelho. Ele não tinha recebido os comprimidos da força. Tinha tomado algo completamente diferente. Algo que o tinha transformado nela. Andar de um lado para o outro no quarto não acalmou os nervos; só deixou mais evidente a realidade do novo corpo. A cada passo, um balanço involuntário e ondulante sacudia sua peitos, um movimento estranho e hipnótico que sentia em cada fibra do seu ser. Foi então, ao passar na frente do espelho de novo, que notou os detalhes que o pânico inicial tinha escondido: as costuras da calça jeans, bem nas coxas e na bunda, estavam esticadas no limite, com fios brancos aparecendo. O moletom, por sua vez, tinha virado uma roupa justa que marcava cada curva, sufocando ele. Não dava pra ficar assim. Precisava de roupa que não o estrangulasse. A lembrança do quarto da irmã veio como uma tábua de salvação. Com cuidado, abriu a porta do próprio quarto e deu uma olhada no corredor. O silêncio da casa era profundo. Os pais ainda não tinham voltado. Suspirou aliviado e deslizou até a porta fechada da irmã. Ao abri-la, o ar parado e meio empoeirado o recebeu. Tudo estava impecável, como um museu de uma vida que tinha pausado. A cama estava arrumada, os bichinhos de pelúcia organizados no travesseiro. Se sentiu um intruso, mas não tinha escolha. Sentou na beirada da cama, tentando lembrar da risada da irmã, da presença dela, mas a mente estava nublada demais pelo caos atual. Quando levantou os olhos, se deparou com ele: um espelho de corpo inteiro na porta do guarda-roupa. Lá estava ela, a estranha, encarando ele. Um nó se formou na garganta. Sabia o que tinha que fazer, mas a ideia apavorava ele. Nunca tinha visto o corpo nu de uma mulher, e a primeira vez... ia ser o meu. A ironia era tão absurda que quase quis rir. Com os olhos fechados, como uma criança num filme de terror, começou a se despir. Primeiro o moletom, que deixou os ombros e a realidade pesada do peito à mostra. Depois, com dedos atrapalhados, desabotoou a calça jeans e tirou junto com a cueca, sentindo o ar frio em peles que nunca tinham ficado expostas. Finalmente, ficou completamente pelado na frente do espelho, com as pálpebras ainda seladas pelo medo. Respirou fundo e as abriu. A realidade foi um baque. Ali não não restava nenhum traço de Lucas. Era uma mulher, por completo. A ausência do seu pau foi o detalhe que tornou tudo irrevogavelmente real. No lugar dele, estava a paisagem suave e estranha de uma buceta. Seus quadris, largos e generosos, emolduravam uma cintura que parecia fina por contraste. E seus peitos... eram duas montanhas firmes e pesadas que prendiam seu olhar. Ela girou devagar, com desejo. Sua bunda era redonda, grande e proeminente, uma curva poderosa que nunca imaginara possuir. A curiosidade, um impulso mais forte que a vergonha, venceu. Hesitante, ergueu uma mão e a colocou sobre uma das nádegas. Era macia, incrivelmente macia, e com uma firmeza elástica que a fascinava. Deslizou a mão para os peitos, sentindo o peso deles. Eram grandes, pesados, e a pele era como seda. Quando seus dedos roçaram acidentalmente o mamilo, uma descarga elétrica, aguda e profunda, percorreu seu corpo até o baixo-ventre. Foi uma excitação completamente nova, uma corrente quente e molhada que não se parecia em nada com o que sentira como homem. Queria mais. Queria explorar aquela sensação, segui-la até sua origem. Mas o medo a paralisou. Como é que as mulheres fazem? Não fazia ideia. O desconcerto foi maior que o desejo. Precisava se cobrir. Abriu a gaveta da cômoda onde a irmã guardava as roupas íntimas. Uma onda de vergonha a invadiu ao remexer entre as calcinhas e os sutiãs. Eram íntimos, pessoais. Mas não havia alternativa. Escolheu uma calcinha simples. Ao vesti-la, o tecido se ajustou aos seus novos quadris de um jeito estranho, mas não desagradável; era uma sensação nova, que demarcava sua nova forma. Depois, pegou um sutiã. Era um objeto complexo e cheio de mistério. Virou-o nas mãos, tentando decifrar sua mecânica. Vestiu-o como pôde, tentando acomodar seus peitos grandes nas taças, mas elas pareciam insuficientes. Virou-se para tentar abotoá-lo pelas costas, mas seus movimentos eram Desajeitados, seus dedos não obedeciam. Depois de várias tentativas frustradas, ofegante, ele desistiu. O sutiã simplesmente não fechava. Tirou-o e deixou cair na cama. "Essa coisa... deve ser de outro tamanho," murmurou para si mesmo, se convencendo de que o problema era a roupa da irmã, não o volume avassalador dos seus novos peitos. Ainda sem entender a função real do sutiã, decidiu que por enquanto podia passar sem ele. Vestiu uma camiseta folgada da irmã que, no corpo dele, ficava justa, e uma calça que, embora apertada, era mil vezes melhor que a roupa rasgada. Pela primeira vez desde a transformação, ele não estava desconfortável. E aquela simples sensação era um luxo estranho e assustador. Lucas se sentiu menos exposto. O tecido, macio e feminino, se ajustava às suas curvas sem apertar. Ficou parado na frente do espelho, estudando a estranha que o encarava fixamente. Mulheres com um corpo assim... sempre chamam atenção, pensou, e uma curiosidade aguda, misturada com um pouco de culpa, começou a brotar dentro dele. Ele, que era um zero à esquerda, alguém invisível. Como seria, nem que fosse por um momento, ser o centro das atenções em vez do alvo do desprezo? Sabia que não era certo, que aquilo era loucura, mas a necessidade de experimentar algo, qualquer coisa, que não fosse a vida de sempre, era mais forte. — Só vou dar uma volta — disse em voz baixa, como se precisasse se convencer —. Só pra sentir o vento. Nada mais. Enquanto procurava um tênis no quarto da irmã, encontrou um par de tênis esportivos. Ao se sentar na cama para calçá-los, parou por um momento. Seus pés... pareciam diferentes. Mais finos, com tornozelos mais delicados e um formato que achou... bonito. Era um detalhe absurdo no meio do caos, mas ele notou. Amarrou os cadarços, se levantou e se olhou de novo no espelho. A camiseta, sem a contenção de um sutiã, se agarrava ao seu peito, delineando sem pudor o volume e a Forma dos peitos dela. Se sentiu instantaneamente vulnerável. Procurou algo pra se cobrir e achou uma jaqueta jeans pendurada no armário. Ao vesti-la, o tecido duro deu uma armadura pra ela. A silhueta ainda era voluptuosa, mas já não se sentia tão exposta. Respirou um pouco mais tranquila.O comprimido que mudou tudo (capítulo 1)Com o coração batendo forte no peito — nesse peito novo e enorme —, ele abriu a porta de casa e saiu na rua. Os olhos examinando a vizinhança, nervoso, esperando que a qualquer momento alguém o descobrisse. Enquanto isso, Fernando caminhava com passo firme em direção à casa de Lucas. Era o dia do trabalho de Física, e o "nerd" tinha a obrigação de entregá-lo. Ele virou a esquina, e bem quando a fachada da casa entrou no seu campo de visão, a porta se abriu. E ela saiu. Fernando parou no meio do caminho, como se tivesse batido numa parede de vidro. Era uma mulher com um corpo... espetacular. Uma calça jeans que se ajustava nuns quadris generosos e numa bunda que era impossível ignorar, e uma jaqueta que não conseguia esconder a fartura dos peitos. Ela tinha cabelo curto, um estilo que dava um ar moderno e ousado. O cérebro dele se recusou a processar a cena. O que uma mulher daquelas tava fazendo saindo da casa do perdedor do Lucas? O impacto foi tão grande que, por instinto, ele deu um passo pra trás e se escondeu atrás da esquina, pressionando as costas contra a parede. Do seu esconderijo, ele ficou observando. Viu ela olhar em volta com uma cautela que pra ele pareceu timidez. A mente dele começou a ferver de perguntas. Quem é? É parente? Uma prima? Uma amiga? Impossível! O Lucas não tem amigos, muito menos amigas que parecem ter saído de um filme. Lucas, da sua nova pele, não viu ninguém. Respirou aliviado e, com uma determinação trêmula, começou a andar em direção ao shopping, tentando controlar o novo balanço dos seus quadris. Fernando esperou uns segundos e depois espiou com cuidado, pronto pra segui-la, pra descobrir mais. Mas a rua tava vazia. A mulher tinha sumido. Frustrado, ele olhou pra casa do Lucas. A porta tava fechada. O mistério tinha acabado de ficar pessoal. Algo muito estranho tava rolando, e ele tava decidido a descobrir o quê. O ar da tarde era fresco, mas a pele de Lucas ardia por baixo da jaqueta de jeans. Cada passo que dava pelo bairro enchia ele de uma ansiedade cortante. Ia olhando pro chão, rezando pra nenhum vizinho notar, quando uma voz o tirou do devaneio. —Com licença, mocinha —disse um cara de uns trinta anos, com um sorriso que queria ser amigável mas que Lucas achou cheio de segundas intenções—. Tá perdida? Nunca te vi por aqui antes. Era o vizinho do número 42, com quem Lucas já tinha esbarrado tirando o lixo, sem trocar mais que um leve aceno. Mas agora, aquele homem olhava ele de cima a baixo, com uma curiosidade que o fez se sentir pelado. —Não, não tô perdida —conseguiu falar Lucas, forçando a voz pra soar mais suave—. Tudo bem. —Pô, com essa carinha e esse corpanzil, não pode ser que ande sozinha por aqui —insistiu o vizinho, se aproximando um pouco—. Quer que eu te acompanhe? Podemos tomar um café lá em casa, é perto. Lucas sentiu o pânico fechar sua garganta. Não sabia como reagir. Como Lucas, teria passado despercebido; como mulher, era o centro de um tipo de atenção que não sabia lidar. —Preciso ir… Tô atrasada —gaguejou, e sem esperar resposta, saiu correndo. Foi uma decisão instintiva, mas ruim. Ao correr, sentiu pela primeira vez o incômodo e doloroso balanço dos peitos. Cada pulo era um tranco chato que puxava o torso, uma sensação tão nova quanto desagradável. Diminuiu o ritmo, ofegante, e só parou quando virou a esquina e se certificou de que o vizinho não o seguia. Uns minutos depois, chegou ao shopping. Ao entrar, os olhares grudaram nele como ímãs. Sussurros, sorrisos cúmplices entre grupos de amigos, homens que disfarçadamente acompanhavam ele com a vista. No começo, se sentiu estranho, como se estivesse no olho de um furacão de atenção que não tava acostumado. Mas, pra sua própria surpresa, notou que uma parte dele… curtia aquilo. Depois de anos sendo invisível, se sentir desejado era algo que o gostava. Continuou andando, tentando agir naturalmente, se perguntando o que deveria fazer agora que era mulher. Mas então, algo mudou. Um calor repentino começou a se espalhar pelo corpo, subindo do ventre até o rosto. As pernas fraquejaram e um formigamento insistente, quase elétrico, nasceu na sua entreperna. A sensação era avassaladora, desconhecida e… molhada. Não conseguia se concentrar em mais nada. Com as bochechas ardendo e a respiração ofegante, procurou um banheiro. Ao ver o símbolo feminino na porta, hesitou por um segundo. *Agora sou uma mulher*, repetiu para si mesma, e entrou. Felizmente, estava quase vazio. Se trancou em um cubículo, fechou o ferrolho com dedos trêmulos e se sentou. Ao baixar as calças, notou que a calcinha estava levemente molhada. O calor e o formigamento aumentavam, se tornando quase insuportáveis. Nervoso, deslizou a mão e se tocou por cima do tecido. Foi um contato leve, mas a descarga de prazer que percorreu seu corpo foi instantânea e tão intensa que quase o fez gemer. Por alguns segundos, o formigamento cedeu, substituído por uma calma deliciosa. Ali entendeu: seu corpo estava pedindo algo, e aquele simples toque tinha lhe dado a resposta. Mas como se fazia? Não fazia ideia. A anatomia feminina era um mistério para ele. A frustração se misturou com a urgência física. Então, teve uma ideia. Se levantou rapidamente, subiu as calças e saiu do banheiro de cabeça baixa, decidido. Precisava voltar para casa. Lá, na privacidade do seu quarto, com o computador como única guia, tentaria decifrar os segredos desse corpo que lhe pertencia. O caminho de volta para casa foi uma luta constante entre a vontade de correr e a necessidade de passar despercebido. Lucas andava com a respiração ofegante, sentindo que cada olhar casual de um transeunte era um interrogatório silencioso. A umidade na sua calcinha era um lembrete constante do que acabara de experimentar, um segredo molhada e envergonhada, com medo de que todos pudessem ver. Ao chegar em casa, parou na frente da porta, o coração batendo forte. Olhou para os dois lados da rua, certificando-se de que não havia testemunhas. O vizinho, felizmente, não estava. Com um movimento rápido, abriu a porta e entrou, fechando-a imediatamente. Lá dentro, encostou-se na madeira, ofegante. A familiaridade da casa a envolveu, mas já não parecia a mesma. Tudo parecia menor, mais opressivo. Sem perder tempo, correu para o quarto, fechou a porta e girou a chave com um clique definitivo. Só então, na segurança do seu espaço, permitiu que o tremor a tomasse por completo. Deixou-se cair na cadeira em frente ao computador, ligando-o com mãos que ainda tremiam. Não pensou duas vezes. Na barra de pesquisa, digitou o que o corpo dela vinha pedindo aos gritos. Enquanto a tela carregava, tirou a calça com movimentos desajeitados. A calcinha, molhada e grudenta, enroscou nos tornozelos e ficou pendurada num dos pés. Levantou a camisa, liberando os peitos, que agora pendiam pesados e sensíveis. Selecionou o primeiro vídeo que apareceu. Uma mulher qualquer, segura de si, se exibia na tela. Lucas, com os olhos fixos nela, abriu as pernas e imitou cada movimento, cada carícia. No começo foi desajeitado, mecânico, mas logo o prazer tomou conta, guiando seus dedos, ditando seu ritmo. Era uma sensação avassaladora, um tsunami de sensações que a varreu por completo. Quando a mulher no vídeo levou as mãos aos peitos, Lucas fez o mesmo. O contato com os mamilos mandou uma nova onda de eletricidade direto pro meio das pernas, intensificando o prazer até um ponto que ela achou que não aguentaria. Não queria que acabasse nunca. Era uma libertação, uma exploração, uma conquista. E então, veio. Um orgasmo que a sacudiu até os ossos, mais longo, mais profundo e mais intenso do que qualquer coisa que tivesse experimentado antes. Um grito abafado escapou dos seus lábios enquanto seu corpo se arqueava, se entregando completamente à onda. Quando terminou, ficou deitado na cadeira, exausto, coberto de um suor frio e uma paz profunda. O formigamento tinha desaparecido, substituído por um peso gostoso nos seus membros. As pálpebras pesavam, a respiração ficava mais calma. Sem querer, sem planejar, o cansaço venceu e ele apagou ali mesmo. *Horas depois* Acordou assustado. O quarto estava escuro. Passou a mão no peito, liso e familiar. Tocou entre as pernas, encontrando a familiaridade confortável do próprio corpo. Por um breve instante, achou que tudo tinha sido um sonho vívido, uma fuga da imaginação. Mas então, o olhar caiu no chão. Ali, numa pilha bagunçada, estavam a calça da irmã e a calcinha. A realidade bateu com toda a força. Tinha sido real. Com um suspiro trêmulo, pegou a roupa e escondeu no fundo do armário. Depois, pegou o pote de comprimidos da escrivaninha. Segurou na palma da mão, sentindo o peso. "Isso... isso pode viciar", murmurou para si mesmo, assustado com a intensidade do que viveu, com o quanto tinha gostado de ser mulher. Com determinação, guardou o pote na gaveta do criado-mudo, decidido a nunca mais tocar nele. No dia seguinte, na escola, tentava mergulhar na normalidade, no seu papel de fantasma. Estava no corredor, tirando um livro do armário, quando de repente um braço pesado caiu sobre seus ombros, envolvendo-o numa falsa camaradagem que o fez congelar. Era o Fernando. — Ei, Lucas — disse o valentão, com uma voz que tentava ser amigável mas que destilava uma intenção que gelou o sangue de Lucas —. A gente precisa conversar. E o mundo de Lucas, que por um breve momento tinha sido tão vasto e cheio de sensações, encolheu de novo ao tamanho da sombra do seu algoz.

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