O táxi deixou Emily na frente da entrada da mansão no campo quando o sol começava a dourar o horizonte. Ela desceu com cuidado, ajustando a saia curta preta que o vento da viagem tinha levantado mais do que devia. O top franzido deixava o umbigo de fora e uma linha de sombra percorria o início das costelas. Tinha escolhido esse conjunto pensando em causar uma boa impressão, em mostrar que era uma mulher — não uma menina —, embora as pernas tremessem por dentro.
Nunca tinha convidado ela pra nada. Nem pro sítio, nem pra pescar, nem pra tomar um sorvete quando ela era pequena.
Rodolfo Bauer era um fantasma que aparecia a cada dois meses, deixava um envelope com notas sobre a mesa da cozinha, olhava pra mãe com uma mistura de desprezo e dever cumprido, e ia embora sem abraçar ela. Quatro filhas. Quatro mulheres diferentes. Todas grávidas quase ao mesmo tempo, como se tivesse semeado campos distintos na mesma estação de chuva. Emily era a mais velha por uns meses só, a diferença era apenas um suspiro de calendário. As outras três tinham dezoito. Ele nunca as conheceu. Nunca quis.
Por isso, quando o telefone tocou e ela ouviu a voz grave do Rodolfo dizendo "Vem pra fazenda, quero que você passe dois dias comigo, vamos caçar", algo se partiu por dentro dela. Um mecanismo velho, enferrujado, que de repente começou a se mover sem que ela pudesse impedir.
—Caçar? —ela perguntou, com a voz um pouco estridente.
—Sim. Te explico quando você chegar.
E cortou. Como sempre.
Agora estava ali, com as mãos suando ao redor da alça da bolsinha preta, vendo o pai encostado no portão da mansão. Vestia roupa de camuflagem —verde e marrom, manchas irregulares que se misturavam com as árvores— e na cintura direita pendia uma pistola de paintball. O preto brilhante do cano, o carregador transparente que deixava ver as bolas de tinta.
O que vocês vão caçar com isso?" ela se perguntou, e a pergunta ficou flutuando na cabeça dela como uma bolha de sabão antes de estourar.
Rodolfo não sorriu quando a viu. Apertou os lábios — finos, igual aos dela, embora ela nunca tivesse notado isso até agora — e fez um sinal com os dedos para ela se aproximar. Ele caminhava com a segurança de quem sabe que o terreno é dele. Não era atraente. Nunca foi. Cara larga, nariz grande, barriga que começava a ganhar a batalha contra os zíperes. Mas tinha algo no jeito de se mover, no silêncio que deixava para trás como um rastro, que fazia Emily olhar pra ele diferente dessa vez.
Ela se aproximou com passos curtos. A saia subia um pouco a cada movimento e ela sentia o ar fresco entrando entre suas coxas.
—Oi, pai — ela disse, e a palavra soou estranha, como se tivesse ensaiado em outro idioma.
Rodolfo olhou ela de cima a baixo. Sem pressa. Degustando. Os olhos pararam na barra da saia, depois no vão que o top deixava sobre a barriga dela, depois na bunda dela. Emily sentiu o peso daquele olhar como uma mão invisível se apoiando onde não devia. "Sou filha dele", pensou, mas o pensamento não dava conta do arrepio que subia pela espinha.
—Você tá gostosa —disse ele, e não era um elogio. Era uma constatação. Um dono reconhecendo sua propriedade depois de anos deixando ela guardada.
Rodolfo esticou um braço e roçou a bochecha dela com os nós dos dedos. O gesto foi lento, quase terno, mas os dedos apertaram a mandíbula dela bem antes de soltar. Domínio disfarçado de carinho.
—Passa —disse, e girou em direção à porta de madeira escura.
Emily o seguiu.
Lá dentro, a mansão não era o que eu esperava. Cheirava a couro velho, a cigarro, a suor de vários corpos concentrado nos sofás de camurça. Mas o que a parou no seco foi a luz. Uma luz amarela, baixa, de luminárias de caça penduradas no teto como animais empalhados. E debaixo dessa luz, na sala principal, tinha homens.
Umas dez. Todos com a mesma roupa camuflada que o pai. Todos com pistolas de paintball penduradas nos cintos. Alguns tomavam cerveja direto da garrafa. Outros riam com uma risada rouca, molhada. Mas nenhum olhava pra ela.
Olhavam as jaulas.
Emily sentiu o chão amolecer sob seus sapatos. Quadradas. De metal pintado de preto. Com rodinhas. Cada uma media um metro e meio de altura, e lá dentro, peladas, tinham garotas. Jovens. Da idade dela. Algumas com o cabelo bagunçado na cara, outras preso com fitas coloridas. Todas estavam agachadas ou de joelhos porque em pé não cabiam. Os corpos delas brilhavam sob a luz amarela, a pele marcada pelo frio ou pela umidade ou pelo medo — mas não. Emily apertou os olhos.
Não pareciam assustadas.
Uma delas, morena, de peitos redondos e bicos escuros, ria com um homem que tinha se abaixado na altura dela. Ele falava baixinho, e ela inclinava a cabeça como uma gata que aceita um carinho na nuca. Outra, loira, com um quadril mais largo que o outro, estava com os braços enrolados nos próprios joelhos, mas os olhos dela tinham um brilho que Emily não soube interpretar. Não era medo. Era espera. Era fome.
—O que é isso? — perguntou, e a voz saiu rouca, quebrada em algum lugar.
Rodolfo não respondeu de imediato. Colocou uma mão na parte baixa das suas costas — bem onde começava a curva antes da bunda — e a guiou para um corredor lateral. A pressão era firme, inevitável.
—Passa no meu escritório — disse ele—. Te explico.
O escritório cheirava a uísque e papel velho. Tinha uma escrivaninha enorme de madeira, uma cadeira giratória de couro, e atrás, uma cabeça de veado empalhada que olhava com olhos de vidro para o nada. Rodolfo fechou a porta e o barulho da maçaneta foi como um tiro abafado.
Emily ficou parada no meio do tapete, as mãos apertando a bolsinha contra a barriga. As pernas estavam moles, como se os ossos tivessem virado gelatina.
—Este é o nosso território de caça —disse Rodolfo, e a voz era tão calma que Emily teve vontade de gritar. Não gritou. Ficou ouvindo, a respiração presa em algum lugar do peito—. A gente sai pra caçar garotas novas. Quem consegue marcá-la com a pistola e usar o corpo dela fica com ela o mês inteiro.
O silêncio depois daquelas palavras foi tão denso que Emily ouviu o próprio sangue correndo nos ouvidos.
—Um mês inteiro? —repetiu, e não era uma pergunta. Era um eco.
Rodolfo se aproximou. Agora estavam separados por menos de um metro. Emily podia sentir o cheiro dele — tabaco, couro, algo mais profundo que era só dele, algo másculo e quente — e o corpo dela não sabia se queria se aproximar ou sair correndo.
—Quero que você participe —disse ele, e a voz baixou um tom, ficou mais íntima—. Como uma das presas neste fim de semana.
—Não —disse Emily.
Foi automático. A palavra saltou da boca dela antes que o cérebro terminasse de processar o que tinha ouvido.
Rodolfo sorriu. Não era um sorriso feio. Era um sorriso de adulto que já sabe a resposta antes de fazer a pergunta.
—Você é uma mulher adulta —disse ele, e cada palavra caía como uma moeda sobre uma mesa de mármore—. Pode recusar, claro. Mas sua mãe não trabalha. Do que vocês pretendem viver, Emily? Você tem uma vida cara. Essa roupa. Essa bolsinha. Esse jeito de andar como se o mundo te devesse algo. Quem paga tudo isso?
Emily sentiu o tapete se abrindo debaixo dos seus pés.
—Você —sussurrou.
—Claro que eu. E posso parar de pagar quando quiser. Ainda esta noite. Amanhã. Já não preciso sustentar ninguém se não quiser.
A chantagem pairou no ar entre eles, tão clara quanto o cheiro de uísque. Emily pensou na mãe, na casa do condomínio fechado, no cartão de crédito que usava sem olhar os preços. Pensou nas aulas de pilates, nos jantares fora, nas roupas penduradas em armários cheios. Tudo isso tinha uma cor agora. Uma cor verde camuflada.
—São só dois dias —disse Rodolfo, e a voz ficou mais suave—. E eu sou seu pai. Você acha que eu vou deixar algo ruim acontecer com você? Eu tenho um plano. Só preciso que você confie em mim.
Emily olhou nos olhos dele. Eram castanhos, escuros, com pequenas veias vermelhas no branco. Por um segundo, pareceu-lhe ver algo parecido com carinho. Ou talvez fosse só a luz amarela do abajur da escrivaninha.
—E o que eu tenho que fazer? — perguntou, e odiou o jeito como a voz dela saiu tão pequena.
—Primeiro, se despir.
Não foi uma ordem violenta. Rodolfo disse como quem pergunta as horas. Mas Emily sentiu o comando afundar nos ossos. Ficou parada, os dedos cravados na bolsinha, enquanto o tempo se esticava como chiclete derretendo no sol.
Ela respirou fundo. E se despilou.
Primeiro o top. Levantou-o acima da cabeça e sentiu o ar frio do ar-condicionado mordendo os peitos dela. Os bicos endureceram com o toque — ela não conseguia evitar — e viu os olhos do Rodolfo descerem até eles sem pressa nenhuma. Depois a saia. Baixou até os tornozelos e teve que se inclinar um pouco, mostrando a curva das costas, a sombra entre as nádegas mal coberta pela calcinha fio-dental preta. Por último, a calcinha. Isso custou mais. Fechou os olhos e deslizou ela perna abaixo, e quando os abriu de novo estava completamente pelada na frente do pai dela.
Rodolfo não disse nada. Olhou para ela como se olha uma obra de arte num museu: devagar, com atenção aos detalhes. A linha do pescoço, o vão das clavículas, a cintura que se afinava antes de explodir na curva perfeita dos quadris. Mas onde os olhos dele ficaram foi na bunda dela. Dura. Redonda. Empinada como uma maçã pronta pra ser mordida.
—Bem —disse ele, e a palavra soou como uma promessa.
Ele a levou de volta para a sala. Emily caminhou descalça sobre a madeira fria, sentindo os olhares dos homens cravados na pele dela. Quando chegou às jaulas, o pai dela abriu uma das portas de metal e fez sinal para ela entrar.
Era menor do que parecia por fora. Lá dentro, Emily não conseguia ficar em pé sem que o teto de metal raspasse a cabeça dela. As opções eram duas: agachar ou ficar de quatro. Ela escolheu a primeira, abraçando os joelhos contra o peito. O metal frio mordia a bunda nua dela.
Rodolfo fechou a porta com um cadeado. O barulho foi definitivo.
Os homens se aproximaram pra olhar ela. Não todos. Alguns continuaram tomando cerveja, indiferentes. Mas outros sim, quatro ou cinco, formando um semicírculo na frente da jaula dela. Emily sentiu os olhos deles como dedos, como línguas, como a promessa de algo que ela não tinha certeza se entendia. Um deles, um loiro com cicatriz na sobrancelha, sorriu mostrando os dentes e lambeu a borda da garrafa de cerveja enquanto olhava pra ela.
Ela apertou os joelhos com mais força.
Só aguenta duas noites", repetiu para si mesma. "Duas noites e isso acaba.
As gaiolas —dez no total— começaram a se mover. Homens com roupa camuflada as empurravam para trás da casa, e as rodas rangiam sobre as pedras do caminho. Emily viu o sol laranja prestes a se esconder atrás das árvores. Depois, o mato. Extenso. Infinito. Não dava pra ver o fim.
Na beira da mata, um velho esperava por elas. Também vestia camuflado, mas a roupa dele parecia mais velha, mais gasta, como se já tivesse feito aquilo centenas de vezes. Tinha barba branca e olhos de um azul tão claro que pareciam transparentes. Quando levantou a mão, todos os homens ficaram em silêncio.
—Escutem bem, corças —disse ele, e a voz rouca ecoava sem esforço no silêncio do entardecer—. Isso é uma caçada. Vocês correm. Eles caçam vocês. Se conseguirem atravessar a floresta sem que ninguém marque vocês com a tinta, são livres. Podem ir embora. Ninguém vai atrás de vocês.
Uma pausa. O vento mexeu nas folhas das árvores e Emily sentiu o frescor nos bicos dos peitos durinhos.
—Mas se forem marcadas com a tinta —continuou o velho, e agora sua voz ficou mais lenta, mais grave— e penetradas... devem obedecer a esse caçador por um mês inteiro. Um mês fazendo o que ele mandar. Todas de acordo?
Dentro das jaulas, as outras garotas responderam em uníssono:
—Sim.
A voz delas foi perfeita, ensaiada, como se tivessem dito aquela palavra muitas vezes antes. Emily olhou pra elas. A morena que ria com o homem agora estava de cabeça baixa e um sorrisinho nos lábios. A loira do quadril torto assentiu com os olhos fechados.
—Sim —disse Emily, e sua voz soou sozinha, quebrada.
Eu sou doida", pensou.
O velho assentiu. Tirou um cronômetro do bolso.
—Eles têm trinta minutos de vantagem.
Emily sentiu uma explosão de adrenalina no peito. "Trinta minutos. Correndo. Sem roupa, mas correndo. Eles são velhos, pesados, não vão me alcançar. Sou jovem.
Nunca tinha convidado ela pra nada. Nem pro sítio, nem pra pescar, nem pra tomar um sorvete quando ela era pequena.
Rodolfo Bauer era um fantasma que aparecia a cada dois meses, deixava um envelope com notas sobre a mesa da cozinha, olhava pra mãe com uma mistura de desprezo e dever cumprido, e ia embora sem abraçar ela. Quatro filhas. Quatro mulheres diferentes. Todas grávidas quase ao mesmo tempo, como se tivesse semeado campos distintos na mesma estação de chuva. Emily era a mais velha por uns meses só, a diferença era apenas um suspiro de calendário. As outras três tinham dezoito. Ele nunca as conheceu. Nunca quis.
Por isso, quando o telefone tocou e ela ouviu a voz grave do Rodolfo dizendo "Vem pra fazenda, quero que você passe dois dias comigo, vamos caçar", algo se partiu por dentro dela. Um mecanismo velho, enferrujado, que de repente começou a se mover sem que ela pudesse impedir.
—Caçar? —ela perguntou, com a voz um pouco estridente.
—Sim. Te explico quando você chegar.
E cortou. Como sempre.
Agora estava ali, com as mãos suando ao redor da alça da bolsinha preta, vendo o pai encostado no portão da mansão. Vestia roupa de camuflagem —verde e marrom, manchas irregulares que se misturavam com as árvores— e na cintura direita pendia uma pistola de paintball. O preto brilhante do cano, o carregador transparente que deixava ver as bolas de tinta.
O que vocês vão caçar com isso?" ela se perguntou, e a pergunta ficou flutuando na cabeça dela como uma bolha de sabão antes de estourar.
Rodolfo não sorriu quando a viu. Apertou os lábios — finos, igual aos dela, embora ela nunca tivesse notado isso até agora — e fez um sinal com os dedos para ela se aproximar. Ele caminhava com a segurança de quem sabe que o terreno é dele. Não era atraente. Nunca foi. Cara larga, nariz grande, barriga que começava a ganhar a batalha contra os zíperes. Mas tinha algo no jeito de se mover, no silêncio que deixava para trás como um rastro, que fazia Emily olhar pra ele diferente dessa vez.
Ela se aproximou com passos curtos. A saia subia um pouco a cada movimento e ela sentia o ar fresco entrando entre suas coxas.
—Oi, pai — ela disse, e a palavra soou estranha, como se tivesse ensaiado em outro idioma.
Rodolfo olhou ela de cima a baixo. Sem pressa. Degustando. Os olhos pararam na barra da saia, depois no vão que o top deixava sobre a barriga dela, depois na bunda dela. Emily sentiu o peso daquele olhar como uma mão invisível se apoiando onde não devia. "Sou filha dele", pensou, mas o pensamento não dava conta do arrepio que subia pela espinha.
—Você tá gostosa —disse ele, e não era um elogio. Era uma constatação. Um dono reconhecendo sua propriedade depois de anos deixando ela guardada.
Rodolfo esticou um braço e roçou a bochecha dela com os nós dos dedos. O gesto foi lento, quase terno, mas os dedos apertaram a mandíbula dela bem antes de soltar. Domínio disfarçado de carinho.
—Passa —disse, e girou em direção à porta de madeira escura.
Emily o seguiu.
Lá dentro, a mansão não era o que eu esperava. Cheirava a couro velho, a cigarro, a suor de vários corpos concentrado nos sofás de camurça. Mas o que a parou no seco foi a luz. Uma luz amarela, baixa, de luminárias de caça penduradas no teto como animais empalhados. E debaixo dessa luz, na sala principal, tinha homens.
Umas dez. Todos com a mesma roupa camuflada que o pai. Todos com pistolas de paintball penduradas nos cintos. Alguns tomavam cerveja direto da garrafa. Outros riam com uma risada rouca, molhada. Mas nenhum olhava pra ela.
Olhavam as jaulas.
Emily sentiu o chão amolecer sob seus sapatos. Quadradas. De metal pintado de preto. Com rodinhas. Cada uma media um metro e meio de altura, e lá dentro, peladas, tinham garotas. Jovens. Da idade dela. Algumas com o cabelo bagunçado na cara, outras preso com fitas coloridas. Todas estavam agachadas ou de joelhos porque em pé não cabiam. Os corpos delas brilhavam sob a luz amarela, a pele marcada pelo frio ou pela umidade ou pelo medo — mas não. Emily apertou os olhos.
Não pareciam assustadas.
Uma delas, morena, de peitos redondos e bicos escuros, ria com um homem que tinha se abaixado na altura dela. Ele falava baixinho, e ela inclinava a cabeça como uma gata que aceita um carinho na nuca. Outra, loira, com um quadril mais largo que o outro, estava com os braços enrolados nos próprios joelhos, mas os olhos dela tinham um brilho que Emily não soube interpretar. Não era medo. Era espera. Era fome.
—O que é isso? — perguntou, e a voz saiu rouca, quebrada em algum lugar.
Rodolfo não respondeu de imediato. Colocou uma mão na parte baixa das suas costas — bem onde começava a curva antes da bunda — e a guiou para um corredor lateral. A pressão era firme, inevitável.
—Passa no meu escritório — disse ele—. Te explico.
O escritório cheirava a uísque e papel velho. Tinha uma escrivaninha enorme de madeira, uma cadeira giratória de couro, e atrás, uma cabeça de veado empalhada que olhava com olhos de vidro para o nada. Rodolfo fechou a porta e o barulho da maçaneta foi como um tiro abafado.
Emily ficou parada no meio do tapete, as mãos apertando a bolsinha contra a barriga. As pernas estavam moles, como se os ossos tivessem virado gelatina.
—Este é o nosso território de caça —disse Rodolfo, e a voz era tão calma que Emily teve vontade de gritar. Não gritou. Ficou ouvindo, a respiração presa em algum lugar do peito—. A gente sai pra caçar garotas novas. Quem consegue marcá-la com a pistola e usar o corpo dela fica com ela o mês inteiro.
O silêncio depois daquelas palavras foi tão denso que Emily ouviu o próprio sangue correndo nos ouvidos.
—Um mês inteiro? —repetiu, e não era uma pergunta. Era um eco.
Rodolfo se aproximou. Agora estavam separados por menos de um metro. Emily podia sentir o cheiro dele — tabaco, couro, algo mais profundo que era só dele, algo másculo e quente — e o corpo dela não sabia se queria se aproximar ou sair correndo.
—Quero que você participe —disse ele, e a voz baixou um tom, ficou mais íntima—. Como uma das presas neste fim de semana.
—Não —disse Emily.
Foi automático. A palavra saltou da boca dela antes que o cérebro terminasse de processar o que tinha ouvido.
Rodolfo sorriu. Não era um sorriso feio. Era um sorriso de adulto que já sabe a resposta antes de fazer a pergunta.
—Você é uma mulher adulta —disse ele, e cada palavra caía como uma moeda sobre uma mesa de mármore—. Pode recusar, claro. Mas sua mãe não trabalha. Do que vocês pretendem viver, Emily? Você tem uma vida cara. Essa roupa. Essa bolsinha. Esse jeito de andar como se o mundo te devesse algo. Quem paga tudo isso?
Emily sentiu o tapete se abrindo debaixo dos seus pés.
—Você —sussurrou.
—Claro que eu. E posso parar de pagar quando quiser. Ainda esta noite. Amanhã. Já não preciso sustentar ninguém se não quiser.
A chantagem pairou no ar entre eles, tão clara quanto o cheiro de uísque. Emily pensou na mãe, na casa do condomínio fechado, no cartão de crédito que usava sem olhar os preços. Pensou nas aulas de pilates, nos jantares fora, nas roupas penduradas em armários cheios. Tudo isso tinha uma cor agora. Uma cor verde camuflada.
—São só dois dias —disse Rodolfo, e a voz ficou mais suave—. E eu sou seu pai. Você acha que eu vou deixar algo ruim acontecer com você? Eu tenho um plano. Só preciso que você confie em mim.
Emily olhou nos olhos dele. Eram castanhos, escuros, com pequenas veias vermelhas no branco. Por um segundo, pareceu-lhe ver algo parecido com carinho. Ou talvez fosse só a luz amarela do abajur da escrivaninha.
—E o que eu tenho que fazer? — perguntou, e odiou o jeito como a voz dela saiu tão pequena.
—Primeiro, se despir.
Não foi uma ordem violenta. Rodolfo disse como quem pergunta as horas. Mas Emily sentiu o comando afundar nos ossos. Ficou parada, os dedos cravados na bolsinha, enquanto o tempo se esticava como chiclete derretendo no sol.
Ela respirou fundo. E se despilou.
Primeiro o top. Levantou-o acima da cabeça e sentiu o ar frio do ar-condicionado mordendo os peitos dela. Os bicos endureceram com o toque — ela não conseguia evitar — e viu os olhos do Rodolfo descerem até eles sem pressa nenhuma. Depois a saia. Baixou até os tornozelos e teve que se inclinar um pouco, mostrando a curva das costas, a sombra entre as nádegas mal coberta pela calcinha fio-dental preta. Por último, a calcinha. Isso custou mais. Fechou os olhos e deslizou ela perna abaixo, e quando os abriu de novo estava completamente pelada na frente do pai dela.
Rodolfo não disse nada. Olhou para ela como se olha uma obra de arte num museu: devagar, com atenção aos detalhes. A linha do pescoço, o vão das clavículas, a cintura que se afinava antes de explodir na curva perfeita dos quadris. Mas onde os olhos dele ficaram foi na bunda dela. Dura. Redonda. Empinada como uma maçã pronta pra ser mordida.
—Bem —disse ele, e a palavra soou como uma promessa.
Ele a levou de volta para a sala. Emily caminhou descalça sobre a madeira fria, sentindo os olhares dos homens cravados na pele dela. Quando chegou às jaulas, o pai dela abriu uma das portas de metal e fez sinal para ela entrar.
Era menor do que parecia por fora. Lá dentro, Emily não conseguia ficar em pé sem que o teto de metal raspasse a cabeça dela. As opções eram duas: agachar ou ficar de quatro. Ela escolheu a primeira, abraçando os joelhos contra o peito. O metal frio mordia a bunda nua dela.
Rodolfo fechou a porta com um cadeado. O barulho foi definitivo.
Os homens se aproximaram pra olhar ela. Não todos. Alguns continuaram tomando cerveja, indiferentes. Mas outros sim, quatro ou cinco, formando um semicírculo na frente da jaula dela. Emily sentiu os olhos deles como dedos, como línguas, como a promessa de algo que ela não tinha certeza se entendia. Um deles, um loiro com cicatriz na sobrancelha, sorriu mostrando os dentes e lambeu a borda da garrafa de cerveja enquanto olhava pra ela.
Ela apertou os joelhos com mais força.
Só aguenta duas noites", repetiu para si mesma. "Duas noites e isso acaba.
As gaiolas —dez no total— começaram a se mover. Homens com roupa camuflada as empurravam para trás da casa, e as rodas rangiam sobre as pedras do caminho. Emily viu o sol laranja prestes a se esconder atrás das árvores. Depois, o mato. Extenso. Infinito. Não dava pra ver o fim.
Na beira da mata, um velho esperava por elas. Também vestia camuflado, mas a roupa dele parecia mais velha, mais gasta, como se já tivesse feito aquilo centenas de vezes. Tinha barba branca e olhos de um azul tão claro que pareciam transparentes. Quando levantou a mão, todos os homens ficaram em silêncio.
—Escutem bem, corças —disse ele, e a voz rouca ecoava sem esforço no silêncio do entardecer—. Isso é uma caçada. Vocês correm. Eles caçam vocês. Se conseguirem atravessar a floresta sem que ninguém marque vocês com a tinta, são livres. Podem ir embora. Ninguém vai atrás de vocês.
Uma pausa. O vento mexeu nas folhas das árvores e Emily sentiu o frescor nos bicos dos peitos durinhos.
—Mas se forem marcadas com a tinta —continuou o velho, e agora sua voz ficou mais lenta, mais grave— e penetradas... devem obedecer a esse caçador por um mês inteiro. Um mês fazendo o que ele mandar. Todas de acordo?
Dentro das jaulas, as outras garotas responderam em uníssono:
—Sim.
A voz delas foi perfeita, ensaiada, como se tivessem dito aquela palavra muitas vezes antes. Emily olhou pra elas. A morena que ria com o homem agora estava de cabeça baixa e um sorrisinho nos lábios. A loira do quadril torto assentiu com os olhos fechados.
—Sim —disse Emily, e sua voz soou sozinha, quebrada.
Eu sou doida", pensou.
O velho assentiu. Tirou um cronômetro do bolso.
—Eles têm trinta minutos de vantagem.
Emily sentiu uma explosão de adrenalina no peito. "Trinta minutos. Correndo. Sem roupa, mas correndo. Eles são velhos, pesados, não vão me alcançar. Sou jovem.
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