O Tributo Capítulo 1

O rádio nunca desligava. Desde que o Decreto de Reparação Íntima entrou em vigor, cada lar era obrigado a manter pelo menos um alto-falante ligado vinte e quatro horas por dia. O volume mínimo era de quarenta decibéis. O suficiente para que ninguém pudesse fingir que não estava ouvindo. Claire estava sentada na beira da cama, com os joelhos juntos e as mãos apertadas entre as coxas. Tinha dezenove anos havia exatamente seis dias, sete horas e vinte e três minutos. O relógio digital da mesinha confirmava isso com uma lucidez cruel. No quarto ao lado, o do Ethan, dava pra ouvir movimento. Ainda não tem gritos. Só o som surdo de passos pesados, o roçar de tecido, uma voz masculina baixa que dizia algo que ela não conseguia distinguir. Depois, ela vai ouvir o barulho metálico de uma fivela. O manifesto começou de novo. A voz era a mesma de sempre: calma, quase maternal, com aquele tom de quem fala com crianças que ainda não entendem. «Eu acredito na mudança e tenho a esperança de que podemos criar consciência. Ser racista é a maior demonstração de inveja. Devemos nos unir desde casa, ensinando que eles são muito grandes, na verdade maiores que qualquer pessoa, mas sem sentir vergonha…» Claire fechou os olhos. Já tinha ouvido essas palavras milhares de vezes. Na escola. No supermercado. Nos alto-falantes da rua. Na voz da própria mãe quando tentava se convencer de que tudo estava bem. Mas naquela noite soavam diferentes. Porque Ethan tinha dezenove anos e três meses. Porque a família dele só tinha filhos homens. E porque, segundo o Decreto, quando não havia mulher disponível, o tributo recaía sobre o filho mais velho. A porta do quarto do Ethan se abriu com um rangido longo. Claire se levantou sem fazer barulho e se aproximou da parede que compartilhavam. Encostou a testa contra o gesso frio. Do outro lado dava pra ouvir respiração agitada. Depois, a voz da mãe do Ethan, trêmula: —Por favor… ele é só um garoto… Uma risada grave. Depois, o som inconfundível de um zíper. Claire recuou. Na própria casa, o silêncio era quase pior. A mãe estava na sala, sentada na mesma poltrona havia horas, com as mãos sobre o quadril lesionado. A lesão que tinha comprado um mês de atraso. Um mês que acabava naquela mesma noite. O Decreto era claro: Se a mulher do lar não pudesse "cumprir com a função de aperto adequado", o tributo passava para o próximo corpo disponível. Claire se olhou no espelho do armário. Cabelo loiro preso num rabo de cavalo imperfeito. Olhos claros. Lábios que ainda não tinham aprendido a não tremer. O mesmo rosto que, segundo as revistas velhas que ainda circulavam de contrabando, parecia uma atriz de antes do Grande Conflito. Uma atriz que, em outro mundo, tinha escrito algo sobre esperança e consciência. Agora essa esperança tinha virado propaganda. A coleira preta ainda não estava no seu pescoço. Mas ela já podia sentir seu peso. Do quarto de Ethan veio o primeiro gemido. Não era de prazer. Era de surpresa dolorosa, abafado, como se alguém tivesse tapado a boca dele ao mesmo tempo em que o penetravam. Claire se sentou de novo na cama. O manifesto continuava, imperturbável: "Eles só querem nos fazer gritar hoje, amanhã e, se for necessário, todos os dias… Espero que a forma de movimento de cada um dos afro-americanos toque o mais profundo de cada mulher nesta nação…" Ela fechou os olhos com mais força. Em menos de uma hora, esses mesmos homens terminariam com Ethan. E depois atravessariam o corredor. O relógio digital mudava de minuto. Dezenove anos. Seis dias. Sete horas. Vinte e quatro minutos. O tempo do atraso tinha se cumprido.

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