...Me enrolei na cama pensando em tudo o que tinha acontecido. Do fundo do meu ser surgia uma dor de culpa por ter visto com outros olhos aquela que era pra ser uma simples e inocente amiga de anos atrás...
Antes de cortar contato com qualquer um que morasse no bairro, eu me juntava com os filhos dos vizinhos. Nossos pais muitas vezes forçavam interações pra fazer amizade (ou encher a cara sem se preocupar com a gente por um tempo). Foi assim que conheci a Vane.
Lembro dela mais novinha, animada e sem noção. Um pé no saco quando queria brincar de esconde-esconde ou correr pela casa dela. Muitas vezes vinham os amiguinhos ou primos dela pra passar o tempo; e eu era obrigado a cuidar deles por horas. Ela me seguia pra todo lado, bisbilhotando o que eu fazia ou interrompendo minhas tarefas como o mais velho daquela molecada toda. Recebia agradecimentos e elogios dos pais. Diziam que eu era um jovem exemplar, o irmão mais velho que eles queriam pros filhos deles. Eu só sorria por educação.
Mas agora tudo mudou. Eu cresci, e as expectativas que tinham sobre mim também cresceram. Notícia ruim voa entre gente fofoqueira, sabe? Ficaram sabendo que eu não consegui manter meus estudos fora da cidade, e o que eu ganhava deles eram olhares de pena e compaixão...
Gastei o resto dos meus dias trancado no meu quarto, afundado na frustração de não conseguir nada na vida. Me sentia um inútil, incapaz até de arrumar um emprego. E nunca tive iniciativa de sair daquele buraco. Com o tempo, pararam de falar comigo. Viam em mim um fracasso do qual afastar os filhos. Alguém que não valia nem pra si mesmo. E eles têm razão.
Essa noite, quando a vi de novo, foi o último golpe na minha miséria. Sei que não vi a menininha que brincava e me seguia pra todo lado. Eu tinha deixado minha imaginação passar dos limites, desejando algo indevido...
Na manhã seguinte, recebi a ordem de ir comprar algo pra beber pro almoço.
Não estava com vontade de sair do meu quarto, mas era o que precisava fazer para não levar bronca. Mal abri a porta, a luz cegadora do sol escorreu pela soleira, me fazendo gritar e tampar os olhos com uma mão. Esperei alguns segundos e caminhei rumo à loja da esquina.
A rua ensolarada estava vazia, todo mundo se refugiando em casa, como era de se esperar. Nem uma alma viva apareceu, até eu voltar com um refrigerante nos braços e reparar no quintal da Vane quando passei por ali.
Vi ela lá dentro, protegida atrás das grades pretas, sob o calor infernal do dia.
Estava em cima da mesinha baixa, apoiando os joelhos num travesseiro jogado no chão. Desenhava e coloria com capricho, vidrada na arte dela sem nem reparar em mim.
Estava de costas para a rua, então a cabeça dela mal dava pra ver; mas o que mais se destacava naquela posição eram as cadeiras levantadas, rebolando de um lado pro outro, igualzinho um cachorrinho feliz brincando; e a saia do vestido tinha comprimento suficiente pra cobrir até as panturrilhas. "Pena que não é mais curta..." pensei sem querer.
Perdi a noção do tempo e do lugar de tanto ficar olhando pra ela. De repente, ela se levantou da mesa e olhou ao redor. Tinha reparado na minha sombra projetada no quintal dela.
Ela virou o corpo só pra se deparar comigo. Nossos olhares se cruzaram, e os dois seguraram um meio sorriso cheio de vergonha.- O que você tá fazendo?Ele me perguntou de novo com o mesmo tom de ontem. Isso parece que deu força pra ele retomar a confiança e sentar sem vergonha nenhuma no chão.Me mandaram comprar isso.-Eu levantei a garrafa de 3 litros.-E você?
-Só tô desenhando uma coisa que vi na internet. Quer ver?Nos olhos dela apareceu um brilho.
Me aproximei timidamente das grades e a vi percorrer o lugar num instante.Seguro, me mostra...
-Ah... que paisagem linda. Sem dúvida você tem talento pra isso.Tentei dar meu melhor elogio, como uma espécie de desculpa pelo que aconteceu ontem.Sipiiii...O orgulho tomou conta do rosto dela, satisfeita com o trabalho dela e lisonjeada com as minhas palavras.Mas... não te faz mal ficar no sol..? Vai te machucar se continuar assim.-Despertou em mim uma dúvida genuína e protetora. No entanto...Nopi,, já estou acostumada, tá vendo? -Ela puxou uma alça do vestido para baixo, deixando-a abaixo da axila, expondo o ombro e parte do peito esquerdo.
Consegui ver uma pequena fração da auréola rosada dela.
Fiquei paralisado, não só de medo, mas de expectativa. Tive vontade de me esticar um pouco mais para cima e ver o que tinha por baixo; mas antes mesmo de tentar, uns passos bruscos ecoaram com mais força, vindo de dentro.
A Vane se apressa a se cobrir, voltando para a mesa e retomando o que fazia. A mãe gorda dela apareceu pela porta que dava para o quintal e, na hora, fixou o olhar em mim.Boa tarde, dona Eva.Eu disse, antes que tudo saia do controle.
Só tive um leve grunhido como resposta e ele foi direto pra Vane.Já terminou, filhinha..? Anda logo pra você ir comer de uma vez. A comida vai esfriar.-Deu uns tapinhas nas costas da Vane e ela não teve escolha senão entrar, deixando todo o material espalhado pelo chão. Não ousou me olhar enquanto ia embora.Ela desenha muito bem, tenho que admitir. Faz pouco tempo ela me mostrou...
- Que ótimo.-Ela me cortou de uma vez só pra me deixar completamente mudo.Como é que tá? Tá cursando alguma faculdade ou curso técnico?Não esperou nem um segundo para atacar.Estou vendo se consigo entrar pra estudar Ciências da Educação.Soltou de improviso.
Era uma total mentira, e tinha brotado na hora da minha boca. Nunca pensei na possibilidade de ser professor.
Isso pareceu relaxá-la e me aprovar do que quer que ela estivesse julgando.Que bom. É uma carreira respeitável como qualquer outra. Você gosta de dar aula? Olha, você deve ter uma paciência danada...I need the Spanish text to translate. Please provide it.Haha... Isso não é problema pra mim. Lembra que me colocavam no comando dos pequenos Gremlins? É moleza, fica tranquila, senhorita.
- Até que vejo... Minha filha tem boa estima por você, devo dizer. Ter um bom apoio como o seu poderia fazer bem a ela... Sábado você tá livre?
- Pra quê?
- Vai ser o aniversário dela e vamos comemorar com todos os vizinhos.
- Ah, claro... Eu adoraria.Forcei um sorriso, e depois me retirei com um gesto respeitoso. Ela assentiu e voltou pra casa.
De volta à solidão do meu quarto, analisei o que tinha acontecido. Eu me sentia ansioso e com medo de ir pra festa, mas por outro lado... tava com vontade de ver a Vane mais uma vez...
Antes de cortar contato com qualquer um que morasse no bairro, eu me juntava com os filhos dos vizinhos. Nossos pais muitas vezes forçavam interações pra fazer amizade (ou encher a cara sem se preocupar com a gente por um tempo). Foi assim que conheci a Vane.
Lembro dela mais novinha, animada e sem noção. Um pé no saco quando queria brincar de esconde-esconde ou correr pela casa dela. Muitas vezes vinham os amiguinhos ou primos dela pra passar o tempo; e eu era obrigado a cuidar deles por horas. Ela me seguia pra todo lado, bisbilhotando o que eu fazia ou interrompendo minhas tarefas como o mais velho daquela molecada toda. Recebia agradecimentos e elogios dos pais. Diziam que eu era um jovem exemplar, o irmão mais velho que eles queriam pros filhos deles. Eu só sorria por educação.
Mas agora tudo mudou. Eu cresci, e as expectativas que tinham sobre mim também cresceram. Notícia ruim voa entre gente fofoqueira, sabe? Ficaram sabendo que eu não consegui manter meus estudos fora da cidade, e o que eu ganhava deles eram olhares de pena e compaixão...
Gastei o resto dos meus dias trancado no meu quarto, afundado na frustração de não conseguir nada na vida. Me sentia um inútil, incapaz até de arrumar um emprego. E nunca tive iniciativa de sair daquele buraco. Com o tempo, pararam de falar comigo. Viam em mim um fracasso do qual afastar os filhos. Alguém que não valia nem pra si mesmo. E eles têm razão.
Essa noite, quando a vi de novo, foi o último golpe na minha miséria. Sei que não vi a menininha que brincava e me seguia pra todo lado. Eu tinha deixado minha imaginação passar dos limites, desejando algo indevido...
Na manhã seguinte, recebi a ordem de ir comprar algo pra beber pro almoço.
Não estava com vontade de sair do meu quarto, mas era o que precisava fazer para não levar bronca. Mal abri a porta, a luz cegadora do sol escorreu pela soleira, me fazendo gritar e tampar os olhos com uma mão. Esperei alguns segundos e caminhei rumo à loja da esquina.
A rua ensolarada estava vazia, todo mundo se refugiando em casa, como era de se esperar. Nem uma alma viva apareceu, até eu voltar com um refrigerante nos braços e reparar no quintal da Vane quando passei por ali.
Vi ela lá dentro, protegida atrás das grades pretas, sob o calor infernal do dia.
Estava em cima da mesinha baixa, apoiando os joelhos num travesseiro jogado no chão. Desenhava e coloria com capricho, vidrada na arte dela sem nem reparar em mim.
Estava de costas para a rua, então a cabeça dela mal dava pra ver; mas o que mais se destacava naquela posição eram as cadeiras levantadas, rebolando de um lado pro outro, igualzinho um cachorrinho feliz brincando; e a saia do vestido tinha comprimento suficiente pra cobrir até as panturrilhas. "Pena que não é mais curta..." pensei sem querer.
Perdi a noção do tempo e do lugar de tanto ficar olhando pra ela. De repente, ela se levantou da mesa e olhou ao redor. Tinha reparado na minha sombra projetada no quintal dela.
Ela virou o corpo só pra se deparar comigo. Nossos olhares se cruzaram, e os dois seguraram um meio sorriso cheio de vergonha.- O que você tá fazendo?Ele me perguntou de novo com o mesmo tom de ontem. Isso parece que deu força pra ele retomar a confiança e sentar sem vergonha nenhuma no chão.Me mandaram comprar isso.-Eu levantei a garrafa de 3 litros.-E você?
-Só tô desenhando uma coisa que vi na internet. Quer ver?Nos olhos dela apareceu um brilho.
Me aproximei timidamente das grades e a vi percorrer o lugar num instante.Seguro, me mostra...
-Ah... que paisagem linda. Sem dúvida você tem talento pra isso.Tentei dar meu melhor elogio, como uma espécie de desculpa pelo que aconteceu ontem.Sipiiii...O orgulho tomou conta do rosto dela, satisfeita com o trabalho dela e lisonjeada com as minhas palavras.Mas... não te faz mal ficar no sol..? Vai te machucar se continuar assim.-Despertou em mim uma dúvida genuína e protetora. No entanto...Nopi,, já estou acostumada, tá vendo? -Ela puxou uma alça do vestido para baixo, deixando-a abaixo da axila, expondo o ombro e parte do peito esquerdo.
Consegui ver uma pequena fração da auréola rosada dela.
Fiquei paralisado, não só de medo, mas de expectativa. Tive vontade de me esticar um pouco mais para cima e ver o que tinha por baixo; mas antes mesmo de tentar, uns passos bruscos ecoaram com mais força, vindo de dentro.
A Vane se apressa a se cobrir, voltando para a mesa e retomando o que fazia. A mãe gorda dela apareceu pela porta que dava para o quintal e, na hora, fixou o olhar em mim.Boa tarde, dona Eva.Eu disse, antes que tudo saia do controle.
Só tive um leve grunhido como resposta e ele foi direto pra Vane.Já terminou, filhinha..? Anda logo pra você ir comer de uma vez. A comida vai esfriar.-Deu uns tapinhas nas costas da Vane e ela não teve escolha senão entrar, deixando todo o material espalhado pelo chão. Não ousou me olhar enquanto ia embora.Ela desenha muito bem, tenho que admitir. Faz pouco tempo ela me mostrou...
- Que ótimo.-Ela me cortou de uma vez só pra me deixar completamente mudo.Como é que tá? Tá cursando alguma faculdade ou curso técnico?Não esperou nem um segundo para atacar.Estou vendo se consigo entrar pra estudar Ciências da Educação.Soltou de improviso.
Era uma total mentira, e tinha brotado na hora da minha boca. Nunca pensei na possibilidade de ser professor.
Isso pareceu relaxá-la e me aprovar do que quer que ela estivesse julgando.Que bom. É uma carreira respeitável como qualquer outra. Você gosta de dar aula? Olha, você deve ter uma paciência danada...I need the Spanish text to translate. Please provide it.Haha... Isso não é problema pra mim. Lembra que me colocavam no comando dos pequenos Gremlins? É moleza, fica tranquila, senhorita.
- Até que vejo... Minha filha tem boa estima por você, devo dizer. Ter um bom apoio como o seu poderia fazer bem a ela... Sábado você tá livre?
- Pra quê?
- Vai ser o aniversário dela e vamos comemorar com todos os vizinhos.
- Ah, claro... Eu adoraria.Forcei um sorriso, e depois me retirei com um gesto respeitoso. Ela assentiu e voltou pra casa.
De volta à solidão do meu quarto, analisei o que tinha acontecido. Eu me sentia ansioso e com medo de ir pra festa, mas por outro lado... tava com vontade de ver a Vane mais uma vez...
2 comentários - A única amizade é a filhinha do vizinho. ep2