Os Limites da Confiança 02

No domingo acordamos sem despertador. Ainda meio dormindo, por uns segundos não sabia bem onde estava. Depois abri os olhos, olhei ao redor e um sorriso escapou. Costa do Leste. Tinha algo especial em acordar sem saber que horas eram, sem ter que correr pra lugar nenhum nem pensar nas urgências que nos esperavam em Buenos Aires. Olhei pro Ignacio. Ele continuava dormindo de bruços, com um braço pendurado na lateral da cama e o cabelo todo bagunçado. Levantei devagar, desviando das coisas espalhadas pelo chão, liguei a chaleira elétrica e preparei uns mates. Saí pra frente do chalé com a caneca fumegante, sentei numa das cadeiras de madeira da varanda e fiquei ali, contemplando o silêncio. A rua de terra estava tranquila. Algumas pessoas caminhavam agasalhadas rumo à praia, outras passeavam com os cachorros e de vez em quando passava uma bicicleta fazendo estalar as folhas de pinheiro. Daí a pouco o Ignacio apareceu, morto de sono, com uma camiseta velha e os olhos semicerrados. — Bom dia — murmurou rouco. — Bom dia. Ele sentou na frente, esticando as mãos pra pegar o mate que ofereci. — Dormiu bem? — Dormi, é uma loucura como a gente descansa aqui. Olhei pra ele e não consegui segurar o sorriso. — O quê? — perguntou na hora, apertando os olhos. — Nada. — Eu te conheço. — O que foi? — Essa cara. A de quando você tá prestes a falar alguma besteira. Ele caiu na risada, esfregando o rosto com as mãos. — Tava pensando em ontem. — Na praia? — É. — Não me faz lembrar, que vergonha. — Você aceitou o desafio. — Porque você me provocou feio. — Mas você correu. E eu adorei te ver correr. Fiquei olhando pra ele enquanto preparava outro mate, sentindo o calor subindo por dentro. Ainda me dava graça lembrar do dia anterior: horas inteiras na praia, caminhando, entrando na água gelada e terminando naquela corrida idiota entre as dunas. Isso era bem a nossa cara. Não precisávamos de planos mirabolantes nem grandes luxos pra nos divertir; a gente conseguia transformar qualquer besteira do dia a dia num jogo cúmplice. —O que a gente faz hoje? —perguntou ele, mordendo uma bolachinha. —Sei lá. —A gente tem as bicicletas. —Podemos dar uma volta pela mata. —Bora. —Mas te aviso: sem competir. —Por quê? —Porque eu já sei como terminam nossas competições, Ignacio. —Nem sempre eu ganho. —Não, nem sempre. Mas sempre terminamos fazendo alguma maluquice quase sendo vistos por todo mundo. —Isso que é a graça. Sorri. E ele tinha toda a razão. Depois do café da manhã, pegamos as bicicletas. Costa del Este pedia isso: ruas de terra, pinheiros altos, chalés escondidos entre a vegetação e aquela sensação de cidade fantasma fora de temporada. Não tínhamos rumo fixo. Pedalávamos lado a lado, às vezes um se adiantando uns metros pra esperar o outro na esquina, brincando de nos perder entre os quarteirões idênticos. Num momento, freiamos numa esquina e cruzamos com um casal vindo de bike, bem certinhos, carregando bolsas térmicas. Olhei de canto e depois pro Ignacio. —Olha que organizados. —A gente não é? —A gente sai pra ver onde a gente termina. —Isso se chama flexibilidade estratégica. Caí na gargalhada. Mais tarde, paramos pra descansar. Sentei na borda de uma calçada alta, tomando água da cantil, enquanto o Ignacio ficava de pé ao lado da bike, respirando fundo com as mãos na cintura. —Imagina morar aqui? —soltou do nada. —Aqui? Sério? —Sim. Por que não? Fiquei pensando. —Por um tempo longo, talvez sim. Mas você ia se entediar em dois meses, amor. —Eu? Por quê? —Porque você precisa de tudo à mão, as corridas, o centro, a agitação da cidade. —Pode ser. E você? —Eu também. Preciso do caos de Buenos Aires. E você precisa ter um supermercado por perto pra comparar preços e se irritar com a inflação. Ele me olhou fingindo seriedade. —Isso é administração inteligente. —Viu? —falei, balançando a cabeça. —O quê? —Por isso que eu te amo. —Pela minha capacidade de achar ofertas no hipermercado? —Entre outras coisas. coisas maravilhosas, sim.
Ele se aproximou, me pegou pela nuca com a mão quente e me deu um beijo curto, daqueles que não precisam de explicação porque a gente já se sabe de cor.
Ao meio-dia voltamos pro chalé. Preparamos algo rápido e sentamos pra comer lá fora, na frente. Sem planejar, aquele pedacinho de varanda tinha virado nosso bunker favorito do fim de semana; a gente podia passar horas sentados ali, vendo o nada passar.
— Tá gostando? — ele me perguntou, servindo um copo d'água.
— Demais.
— O que você mais curtiu de tudo?
— Tudo.
— Essa resposta genérica não vale. Escolhe uma coisa só.
Fiquei pensativa por uns segundos, brincando com o guardanapo.
— A sensação de não ter horário.
— Isso não é uma coisa específica.
— Bom, então a praia.
— A praia ou como a gente terminou correndo nas dunas?
Olhei pra ele com cumplicidade.
— Não vou entrar nessa.
Ele começou a rir.
— Já sei a resposta, Nati. Te conheço de cor.
— Você não sabe nada.
— Te conheço.
De novo aquela frase. Sempre a mesma frase. E era verdade, ou pelo menos era o que a gente achava até aquele momento: que não sobrava nenhum cantinho pra descobrir.
A tarde passou lenta, preguiçosa. Saímos pra caminhar de novo e descemos um pouco pra praia, mas dessa vez sem correr nem fazer loucura. Sentamos na areia fria, de jaqueta porque o vento sul começava a morder. Apoiei a cabeça no ombro dele e ele me envolveu com o braço, me apertando contra o corpo.
A gente não falou por um bom tempo. Eu olhava o movimento ritmado das ondas e pensava em como a gente tava bem. Zero crise, zero problema real, um casal sólido como poucos. Eu sabia perfeitamente como o Ignacio pensava, o que deixava ele louco, quais assuntos davam medo e quais faziam ele rir. Mas, no meio daquela paz absoluta, uma parte boba de mim começou a se perguntar se a gente realmente se conhecia tanto ou se só se movia dentro de um roteiro super batido.
— No que você tá pensando? — ele perguntou baixinho, quebrando o silêncio.
— Em nada.
—Mentira.
—Por que seria mentira?
—Porque quando você fica assim, com esse olhar perdido, tá montando algum filme na cabeça.
Sorri, me endireitando.
—Tava pensando na gente.
—Na gente? Pra bem ou pra mal?
—Pra bem. Que a gente tá bem.
Ele ficou em silêncio por um instante. Depois me deu um beijo suave na cabeça.
—É —disse com a voz rouca—. A gente tá muito bem.
Ao voltar pro chalé, começou a parte mais densa de qualquer viagem: arrumar as malas.
As coisas que na sexta tinham entrado confortáveis no porta-malas da caminhonete agora pareciam ter se reproduzido por mitose.
—Isso não entra de jeito nenhum —falei, segurando a caixa térmica no ar.
—Entra sim, deixa comigo.
—Não, Ignacio, olha o tamanho da caixa, ainda faltam as bicicletas e as malas grandes.
—Eu já tive essa discussão com você.
—E você vai perder, porque não entra.
—Lembra que eu sempre ganho no Tetris do porta-malas.
—Você não ganhou da última vez, tirou metade das coisas e reorganizou tudo no tapa.
—Mas entrou.
—Isso não significa que você tinha razão no seu plano inicial.
Ele me sorriu com aquela carinha de metido que me dava vontade de jogar alguma coisa na cabeça dele. Cinco minutos depois, efetivamente, a caixa térmica não entrava.
Olhei pra ele de braços cruzados.
—Que foi? —perguntou ele, segurando o riso.
—Nada.
—Não fala nada.
—Não tô falando nada, Ignacio.
—Mas você tá com aquele sorriso de "eu tava certa".
—Porque literalmente você tinha travado a caixa do lado errado.
—Tá bom, chega, já foi, sai daí que eu ajeito direito.
Terminamos os dois morrendo de rir no meio da entrada da garagem, nos empurrando como dois bobos. Era uma besteira absoluta, mas aquelas brigas estúpidas e pequenas faziam parte do nosso código íntimo.
Ao cair da tarde, com tudo já quase pronto pra partir no dia seguinte, voltamos a sentar na frente. O sol ia se apagando entre os pinheiros e a rua ficava fresca.
—Você se imagina morando aqui? —ele jogou de novo, do nada.
—Lá vem você de novo com essa. —Pergunto sério. Você se vê? | —Não sei, talvez quando a gente for velho. Agora a gente se entediaria em dez dias. Fez-se um silêncio denso, daqueles que pesam um pouco mais do que deviam. Lembrei então da conversa do dia anterior, a que tinha ficado flutuando pela metade durante o jantar. —Eu... —falei, olhando de lado pra ele. —O quê? —Lembrei do que você disse ontem no boteco. Das fantasias. Ignacio não perguntou a que eu me referia; ficou olhando fixo pro caminho de terra batida por onde já não passava ninguém. —Eu também lembrei —respondeu com voz baixa. —E? —Nada. —Não me vem com esse "nada", Ignacio. Eu te conheço. Ele riu devagar, passando a mão na nuca. —Você nunca tem curiosidade? —soltou, virando-se pra cravar os olhos claros em mim. —Curiosidade com o quê? —Não se faz de sonsa. —Fala direito. Ele respirou fundo, como se custasse a fechar a ideia. —Curiosidade por outras pessoas. Por saber como é ficar com alguém, mas com a gente estando bem, entende? Tipo um jogo mental, ou algo a mais. A frase ficou suspensa no ar fresco da tarde, flutuando entre nós como um tapa suave. Não teve drama, nem gritos, nem cara feia. Simplesmente jogou na mesa. Olhei fixo pra ele, sentindo um batimento estranho, um formigamento no estômago que me tirou completamente do eixo. —E você tem curiosidade sobre isso? —perguntei, medindo cada palavra. Ele deu de ombros, com uma sinceridade que me desmontou. —Pode ser. Tenho curiosidade de saber o que você sentiria, e o que aconteceria com a gente se, em vez de só nos olharmos um pro outro, a gente abrisse um pouquinho o jogo. Não respondi na hora. Até aquele momento, as fantasias tinham sido sempre aquilo: coisas abstratas, filmes mentais que a gente faz no chuveiro ou no escuro pra se esquentar um pouco. Mas isso era outra coisa. Era uma pergunta direta, uma porta aberta que já não dava pra fechar soprando. —E o que você sentiria se me visse com outro? —rebati, desafiando ele com o olhar, sentindo o sangue correndo num ritmo diferente. velocidade.
Ignacio me olhou por um segundo longo, com uma intensidade escura que raramente via nele.
— Não sei — admitiu com a voz mais rouca —. Acho que me daria uma mistura de loucura e fogo que explodiria minha cabeça. Ou talvez me matasse de ciúmes. Por isso te pergunto... porque não sei.
Fiquei paralisada por um segundo, e depois soltei uma risada nervosa.
— A gente é louco, Ignacio.
— Um pouco sim — concedeu ele, sorrindo de lado, embora os olhos dele continuassem presos nos meus, analisando cada reação.
Conversamos mais um pouco, beirando o precipício do assunto com jeito atrapalhado, até que deu vertigem e decidimos mudar de rumo. Voltamos para as besteiras de sempre: que horas a gente saía no dia seguinte, que freios a gente fazia na estrada, quem dirigia na primeira hora. Mas aquela conversa já tinha entrado pra dentro de casa.
Naquela noite, a tensão com que a gente se meteu na cama foi completamente diferente das noites anteriores. Não tinha cansaço físico que valesse; tinha uma corrente elétrica atravessando o colchão.
Apagamos a luz e nos olhamos no escuro. Não precisou de uma única palavra.
Ignacio veio pra cima de mim com uma urgência nova, quase desesperada, como se precisasse marcar território, me lembrar com cada músculo do corpo dele que eu era dele e que ninguém mais entrava naquele quarto. Me virou com uma firmeza que fez minhas costas arquearem contra os lençóis, respirando pesado na minha nuca enquanto abria minhas pernas sem suavidade.
— Me olha — exigiu com voz rouca no meu ouvido.
Virei a cabeça no escuro e o encontrei me olhando com os olhos injetados de desejo, com aquela cara de homem possessivo e fogoso que me fazia perder a razão.
— De quem você é? — sussurrou apertando minha cintura com os dedos marcados, tão forte que quase doeu.
— Sua, idiota — respondi com um fio de voz que se quebrou quando percebi o que ele estava fazendo.
Senti o peso quente dele por cima, o pau duríssimo buscando o centro do meu desejo sem preâmbulos, empurrando pra dentro de uma só vez. seco, profundo, que me arrancou um gemido longuíssimo contra o travesseiro. Os lençóis começaram a sussurrar bagunçados, encharcados de suor, enquanto ele se movia num ritmo febril, áspero, com uma intensidade que beirava a raiva e a adoração ao mesmo tempo. Me agarrava pelo cabelo, puxava minha cabeça pra trás pra me beijar a boca com desespero, e eu cravava as unhas nas costas dele, me deixando levar por aquela fricção selvagem, pela vertigem quente de saber que a gente tinha cruzado uma linha invisível. Terminamos os dois ofegantes, com o peito subindo e descendo no mesmo compasso, colados um no outro na escuridão, suados e tremendo levemente. Antes que o sono nos vencesse, o Ignacio me apertou contra o peito dele e me beijou a testa. — Você curtiu esse fim de semana, Nati? — murmurou contra o meu cabelo. — Curti pra caralho — respondi fechando os olhos, sentindo o pulso ainda acelerado. — A gente voltaria? — Óbvio que sim. Me acomodei melhor contra o corpo dele, respirando o cheiro de tabaco, vinho e pele. Naquele momento, eu ainda achava que conhecia perfeitamente os limites da nossa relação, que aquelas conversas eram só fogos de artifício de fim de semana. Muito tempo depois, entendi que naquele fim de semana a gente não tinha descoberto limite nenhum. A gente tinha começado a quebrá-los.

0 comentários - Os Limites da Confiança 02