Capítulo 5 - "Trago nos meus ouvidos a mais maravilhosa música...
Naqueles dias, lá por março, eu já a notava diferente da Valentina. Não estranha, diferente. Se vestia igual, falava igual, fazia as mesmas piadas. A rotina dela praticamente não tinha mudado em nada. Mas tinha algo diferente. Algo que fazia vibrar o sentido aranha do meu TOC. O mesmo que vibrava quando a Valentina mudava alguma coisa de lugar na sala, algum enfeite, alguma bobagem, não importava. Mas eu percebia mesmo sem ver.
Como se a Valentina fosse um quarto onde a gente morou a vida inteira, e de repente um dia percebe que os móveis foram trocados de lugar. O mesmo quarto, os mesmos móveis, não se jogou fora nem se acrescentou nada, mas arrumados diferente. O que a tornava outro quarto, por mais que fosse o mesmo. O quarto de Teseu, sei lá.
Eu a observava um pouco mais atentamente quando estávamos juntos. Talvez ela estivesse um pouco mais no celular. Talvez assistisse menos TV e lesse mais. Quem sabe na nossa dieta tivesse entrado um pouco mais de fruta e verdura. Talvez ela risse mais. Mudanças mínimas que apontavam para um padrão que eu estava começando a completar na cabeça.
Possibilidades, nessa data:
- Era tudo coisa da minha cabeça: mínimas. As anteninhas nunca vibravam por nada.
- Alguma coisa havia relacionando a Valentina, o gordo Tavo, o Fondo Liso e a verdureira: Muito provável, embora ainda não soubesse o quê. Não havia nada mais evidente do que apenas pequenezas facilmente explicáveis.
- Algo mais que ainda não tinha se manifestado: Possível. A gente nunca tem todos os detalhes até chegar a hora de tê-los. Às vezes essa hora nunca chega, às vezes chega.
Eu ainda não estava em condições de afirmar que a Valentina estava me colocando chifres com alguém. Ainda não. Não tinha provas, só a vaga sensação de que às vezes eu a via e via uma performance.
O gordo Tavo continuava indo ao apartamento uma ou duas vezes por semana. Pelas manhãs. E eu sabia simplesmente porque Valentina me contava. Que no dia seguinte ele ia, que tinham tido vendas e tinha pedidos pra entregar. Sempre, todas as vezes. Valentina montava as caixas e deixava na sala. Estavam ali, à vista. Nada disso era mentira. Quando eu a via por aí mexendo no celular mais do que o normal, também não tinha problema em me dizer se tinha sido com a Cecilia, com o Tavo pra acertar detalhes das entregas, ou com outra pessoa.
Valentina não parecia estar me escondendo nada.
Eu não sabia realmente o quão habilidosa a Valentina era até o final de março. Foi aí que eu comecei a perceber. Numa manhã como qualquer outra, era quarta-feira. A rotina de sempre pela manhã. Café da manhã rápido, conversa e um cumprimento carinhoso com a Valentina que já estava à vontade de jogging e com o celular na cozinha ou na sala, vendo Instagram, respondendo emails da Fondo Liso. O de sempre.
Saí como sempre e andei cinco quarteirões até o ponto do ônibus que me deixava perto do escritório. Parei num quiosque e comprei cigarros para ter durante o dia. Quando cheguei no quarteirão do ponto, quase morri — da noite para o dia, porque no dia anterior não estava lá, os caras da prefeitura tinham cortado a rua com aquelas placas amarelas que colocavam quando precisavam consertar o asfalto. E estava tudo interditado, não passava tráfego nenhum.
Puteando, voltei pelo mesmo caminho e fui correndo pegar o outro ônibus que mais ou menos me deixava. Tinha que passar de novo pela nossa rua. E foi aí que eu o vi.
Eu o vi de longe, tipo meia quadra, mas eu continuei me aproximando. O gordo Tavo, na porta do nosso prédio. Esperando. Com certeza já tinha tocado o interfone e estava esperando a Valentina descer pra abrir pra ele. Diminuí o ritmo da caminhada e observei. Ainda estava bem longe e se não estivessem prestando atenção, não teriam por que olhar pra cá e me ver.
Vi a porta da rua se abrir, era a Valentina. Se sorriram, se aproximaram e se beijaram. Não no rosto, na boca. E não foi um selinho. Também não foi um beijão romântico, mas um beijo gostoso. Eu fiquei meio paralisado. A cena não durou muito, logo o Tavo passou pro hall, a porta se fechou e pronto. Sumiram pra dentro.
Lembro que uma espécie de paz estranha me tomou. Como se de repente eu soubesse exatamente o que fazer. Alguns caras por aí teriam surtado ao ver aquilo. Eu não. Tinha sido só um beijo. É, eu sei, ‘só’... como se não significasse nada. Era um dado importante, mas não era um dado crucial. Um beijo era nada mais que isso.
Fiquei parado ali na calçada, perto da esquina em diagonal ao nosso prédio, que também era um perto da esquina do quarteirão. Me encostei numa árvore, acendi um cigarro e comecei a curtir. Tinha que ir trabalhar, sim, mas podia chegar atrasado um dia. Não teria problema. Isso era mais importante.
Pensei, fumando.
Tavo não pode demorar mais de dez minutos pra pegar as coisas, trocar uma ideia e vazar. Quinze, se pá, no máximo, se a Valentina pedisse pra ele tomar um mate com ela e conversarem um pouco. Vinte já seria ridículo. Não teria motivo pro cara ficar vinte minutos no apartamento. Olhei a hora e decidi esperar dez minutos. Vamos ver o que acontecia.
Enquanto fumava e só pra passar o tempo, olhava pra cima, pras nossas janelas e pro balcão, pra ver se via a Valentina abrir alguma, sair por qualquer motivo, o que fosse. Não rolou nada. A imagem da fachada lá fora continuava imutável. Nenhuma janela se abriu, nenhuma persiana se fechou, ninguém apareceu.
Quatro minutos. Peguei meu celular e mandei uma mensagem pra Marisol, uma mina que trabalha com a gente lá no escritório, pra dizer que eu tava pegando outro busão e que hoje ia chegar um pouco mais tarde.
Seis minutos. Marisol me mandou uma joia.
Oito minutos. Acendi outro cigarro.
Dez minutos. Doze. Quinze. Apaguei o cigarro e caminhei até o nosso prédio. Se eu tivesse sorte, ia esbarrar com a Valentina e o Tavo quando ela descesse pra abrir. Cumprimentaria educadamente, diria que esqueci a carteira ou algo assim e pronto. Desculpa fácil. Mas não tinha ninguém no hall quando abri o portão. Zero movimento. Devem estar lá em cima, pensei, quando apertei o elevador e vi os números descendo.
Ao chegar no nosso apartamento, eu já me sentia mal. Estranho. Não me peçam pra explicar. Não consigo. Colei o ouvido na porta do apê e ouvi. Estavam fazendo alguma coisa. Vozes. Em silêncio e medindo cada movimento, tirei a chave da porta de casa do chaveiro, pra não fazer barulho batendo nas outras. Introduzi ela devagar e abri a porta bem de leve.
Claro que logo vou ouvir vocês. Agora sem a porta no meio. As vozes deles vinham do quarto.
Aaaahh!!! Aahhhh isssso!!! AI! AHHHHH!!!", gemia Valentina.
“Mmmh… ahhhh”, senti a voz mais grave e rouca do Tavo.
Não me desesperei. Fechei a porta devagar, sem fazer barulho, escutando eles. Escutando eles transando no quarto. Na nossa cama. Fui me aproximando devagar pelo corredor. Valentina gemia e gemia seu prazer. Tavo também, e eu o escutei dizer o quanto a buceta dela apertava o pau dele.
Não precisava surpreendê-los nem armar uma cena. Fiquei ali no corredor, escutando eles transarem. Ali, a três metros. Escondido na minha própria casa. No corredorzinho que dava pra porta do quarto. Pensei em espiar, mas era arriscado. Eles não tinham percebido que eu tinha voltado e que estava ali. Não sabia em que posição estavam. Dava pra ouvir que estavam bem animados e perdidos no fuck, mas se eu colocasse a cabeça pra fora da moldura da porta, talvez me vissem. E eu não queria isso ainda.
Tirei o celular do bolso, desbloqueei, abri o aplicativo de gravação de voz e comecei a gravar, mantendo o celular no ar. Não queria uma foto ou um vídeo. Só queria ter essa prova. Não queria vê-la sendo fodida por outro. O celular gravou as vozes, bem nítidas por sinal:
Ahhh… sua filha da puta… como você me deixa!”, grunhia e bufava Tavo.
Valentina soava tomada de luxúria e êxtase, "Aaaaahhhssssiii ssi ssi! Me fode… me fode…", gemia, sem fôlego
“Mmh… gosta do meu pau, mamãe?”, perguntou ele.
“Eu amoooo! AAAAH! A puta que pariu… filho da puta como você demora! AH!”
Tavo riu, "Assim você me deixa, sua puta…
Soou por um segundo como se tivessem se beijado, logo depois continuaram gemendo e ofegando.
“Ai, sim, porra, aí mesmo! AHHH!”, Valentina levantou a voz
Tavo riu, "Quer a porra... aaaahm...
“Ssssi, me dá ela, negão…”
“Eu encho sua buceta… toda toda toda…”
“ME DÁ! AHHH!”, gritou Valentina e começou a fazer aquele gemidinho que eu tão bem conhecia, quando começava a crista de um orgasmo.

Poucos segundos depois, Tavo gemeu, forte e profundo, bufando e grunhindo.
AI SI… me enche todaaaaa!!!!", disse Valentina
Mmh.. ahhh… aí tem… aí tem, linda… ahhhh
Os dois gemeram mais um pouco e eu os ouvi relaxar. Se beijar. Disseram algo um pro outro mais baixinho. Não consegui ouvir o que foi.
Parei a gravação, guardei o celular, me virei e fui pra porta. O mais rápido que dava sem fazer barulho. Não queria que o gordo ou a Valentina se levantassem, fossem no banheiro ou em algum outro lugar e me encontrassem. Saí do apartamento em silêncio, finalmente, e sem ser visto.
Quando voltei pra rua e fui na direção de onde parava o busão alternativo, foi aí que caiu a ficha do que eu tinha ouvido, do que tinha acontecido. Fiquei meio alterado, ali sozinho, andando pela calçada. Punhos cerrados. A respiração acelerou um pouco e o sistema nervoso tava me cobrando o controle que eu tinha mostrado um tempo atrás. Nada é de graça na biologia.
A última peça que me faltava, caiu. A peça que faltava. Tavo estava comendo a Valentina. Ou ela comendo ele. Ou os dois se pegando. Não importava. Pelo que eu tinha escutado, não me pareceu que era algo que surgiu agora, ali, naquele dia. Não. Soavam com familiaridade. Como se já tivessem feito outras vezes. Quantas vezes o gordo tinha ido ao apartamento, pensei? Várias. E essas eram as que eu sabia, porque agora tudo o que a Valentina tinha vindo me dizendo tinha que ser tomado com pinças.
Já era. O crédito dela comigo tinha acabado de uma vez. De um só golpe. Ri sozinho, como um otário na rua, andando. Sempre tinha pensado que se a gente algum dia terminasse, a merda ia ser eu que ia fazer, de algum jeito. Ou que ela ia cansar, ou sei lá o quê, e que ia me falar na cara. Que a gente terminava, que ela não queria mais continuar.
Mas não é isso. Não assim.
Quando cheguei no ponto do ônibus e comecei a esperar, mudei de ideia. Mandei outra mensagem pra Marisol, dizendo que hoje eu não ia, que tinha surgido uma emergência pessoal. O que era verdade. Na hora ela me respondeu com outro joinha. Evidentemente, se eu estava ou não no escritório parecia dar na mesma, assim como se eu estava ou não em casa, ou se eu estava ou não namorando a Valentina. Me senti invisível.
Liguei pra Carmen, minha psicóloga, e pedi se ela podia me atender hoje. Agora, já. Que abrisse um espaço pra mim. Ela disse que sim, mas só se fosse uma emergência. Falei que sim, que era, e ela me disse que emergência podia ter uma pessoa que sofre de TOC, mas enfim. Que fosse à tarde.
Fiquei vagando por aí até umas três da tarde. O consultório da Carmen ficava bem longe, mas eu não tinha nada melhor pra fazer além de andar e pensar. Fui andando até o consultório, umas cinquenta quadras. Não me importei. Parei pra almoçar num boteco que achei perto do consultório e esperei.
Finalmente, às três, Carmen me deixou entrar. Ela me perguntou o que tinha acontecido, porque não me notava alterado. E não ia me notar mesmo, pensei. A procissão era por dentro. Contei pra ela o que tinha rolado, com riqueza de detalhes. O que exigiu que eu explicasse quem era o Tavo, a parada do reencontro com a Valentina na quitanda um tempo atrás. Tudo isso.
Eu vi a Carmen escutando e, apesar de ela não ter me dito nada a respeito, notei ela meio que entre acreditar e não acreditar em mim. Ela escutava, assentia, me olhava. Em um momento, sem que ela me pedisse, peguei o celular e fiz ela escutar o que eu tinha gravado, com a intenção de que ela acreditasse em mim. De reforçar minha posição, se fosse preciso.
Carmen ficou horrorizada na hora.
Ai… Nicolás, pelo amor de Deus, desliga isso…", disse ela num suspiro.
“Para, para, escuta o que ela disse pra ele…”
Apaga isso, por favor!", ela se impôs. Eu pausei e olhei pra ela. Vi ela tomar um pouco de ar, "Isso é um absurdo
“Viu?”
Ela me olhou, "Não… não tô falando do áudio. Bom, não só do áudio. É um absurdo você ter gravado isso
Eu não entendia, "Por quê? Se eu precisar de provas em algum momento, bom... essa é uma.
Carmen me franziu um pouco as sobrancelhas, "Não. Seria bom que em algum momento a gente pudesse parar com essa compulsão de ter que guardar e arquivar todos os detalhes das coisas. Já falamos sobre isso...
“Mas Carmen, isso…”
Nico, isso é nada mais nada menos que outra coisa que te aconteceu. Nada mais. É duríssimo, sim, mas não é um 'projeto'. Não é um 'plano' no qual você tem que se enfiar. Essa compulsão que você tem de querer ser o detetive de todas as coisas, a gente tem que tentar frear.
Eu a olhei em silêncio. Por um lado, pensava que ela tinha um pouco de razão, que já tínhamos falado sobre essa parada de detetivismo. Por outro lado, pensava que uma coisa dessas realmente merecia. Ela continuou.
“Isso se resolve de outro jeito. Do jeito que o povo resolve.”
Fiz uma careta irônica pra ele, "Ah, tá, como as pessoas 'normais' resolvem, você ia dizer...
Ela negou com a cabeça, "A gente não usa essas palavras aqui, Nico. Não tem normalidade, não existe. Cada pessoa é diferente e é o seu mundo.
Bom, vamos ver", eu disse, "Como é que 'o pessoal' resolve isso?
Conversando", ela me respondeu, "Eu te diria pra você sentar com a Valentina e terem uma conversa como os adultos que vocês são.
Ah, é fácil falar assim", eu bufei.
Ela arqueou uma sobrancelha: "Sentar e conversar com seu parceiro é difícil?
“Não…”
Porque eu tenho a sensação de que, como quase sempre, você tem o curso de ação simples e direto ali, ao alcance da mão, mas já vejo que você tá pensando que isso se resolve com algum plano complicado ou alguma artimanha...
“Carmen…”
Não, me escuta", ela me disse, "Meu conselho como sua terapeuta é que hoje quando você voltar, quando for, à noite, sei lá... que você sente e conversem.
“Ok, se a gente vai sentar pra falar de como ela deu pra outro cara. Que bom, eu”, olhei de lado.
“Não, Nico. Fala a verdade pra ela. Que você voltou pro apartamento e escutou ela. Escutou vocês dois. Deixa ela te explicar.”
Eu fiquei um pouco irritada, "Não preciso de explicação! O que me importa o porquê?
“Não é só saber o porquê”, ele me disse, “É também dar a ela a oportunidade de se arrepender e resolver isso sozinha. Fazer ela sentir que é ela quem resolve o problema, não você.”
“Não me parece.”
“Não te parece? Prefere ficar como o cara que diz o que ela tem que fazer?”
“Alguém tem que dizer, né?”, eu falei.
Carmen suspirou: "Se pega mais mosca com mel do que com vinagre, Nico. Eu acho que, por tudo que você me contou sobre ela, pelo tipo de pessoa que ela é, ela seria mais receptiva se você desse a chance dela resolver isso. De terminar ela mesma.
“Não sei…”
Pensa nisso. Vocês sentam pra conversar e você tem duas opções", me disse Carmen, "Uma, você vai com autoridade. Fala que sabe o que aconteceu… te conhecendo, com certeza escapa algum xingamento contra ela… já deixa ela na defensiva. Fala que isso é intolerável..
É que é intolerável...", acrescentei.
Ela continuou: "...E que termine logo. Além disso, você até ameaça ir embora, terminar. Você a coloca entre a cruz e a espada.
“Opção dois?”, eu perguntei.
Carmen me disse: "Opção dois é que vocês sentam pra conversar igual. E você fala a verdade também. Que você descobriu eles, quando voltou pro apartamento. Que você não interrompeu na hora porque não sabia o que fazer, o que dizer. Que te deixou muito triste, muito abalado…
“Isso é mentira…”, retruquei de novo.
Tanto faz. O que te deixou triste foi descobrir isso sobre ela. Você achava que ela te amava. E aí você dá a chance pra ela mesma perceber o quanto machucou a pessoa que ela ama, e que ela resolva isso.", terminou Carmen.
“Que ela resolva?”
Sim", assentiu Carmen.
Que ele resolva isso", repeti pra ela, "Não que ela termine com o cara. São coisas diferentes, né?
Carmen suspirou, "Olha, Nico, seria bom você já ir se acostumando com a ideia de que talvez, é possível, que a Valentina tenha se apaixonado por outro e que não queira mais ficar com você. Não sei, mas é uma possibilidade que você não pode descartar, né?
Se eu puder", eu disse olhando pra ela.
“Nicolás…”, ela começou, mas eu a interrompi.
A solução é ela terminar com esse gordo", eu disse pra Carmen, "Não tem outra. Não vou falar nada que dê margem pra ela decidir outra coisa.
“Não é possível que ela já não queira mais nada com você?”, ele me perguntou.
Pensei um instante e respondi pra ela: "Possível, sim. Aceitável, não.
Carmen suspirou e balançou um pouquinho a cabeça, "Olha, Nicolas, eu não faço terapia de casal. Isso é outra especialidade. E também não sou a doutora do amor. Posso te aconselhar nisso, mas como mulher, não como profissional.
Eu dei de ombros, "Vamos ver…
Carmen me olhou, "Vamos deixar de lado por enquanto esse assunto de você se recusar a aceitar a possibilidade de que ela já não te quer, ok? Vamos deixar isso pra lá. Dito isso, você obrigaria a Valentina a ficar numa relação que já não serve pra ela, que não faz bem emocionalmente pra ela?
“Não, não se joga nessa, Carmen”, eu disse, “Isso é qualquer coisa. Como assim? Até ontem a gente tava bem e de um dia pro outro ela tem outro cara porque tá insatisfeita? Não fode.”
Carmen cruzou as pernas, "Não sei. Também é possível que a Valentina estivesse insatisfeita… emocionalmente, digo. Não sexualmente nem nada disso. É possível que ela estivesse meses assim até que surgiu a oportunidade da satisfação que esse cara dava pra ela. Não sei, Nicolas, mas é possível.
“Eu teria percebido uma coisa”, eu disse.
“Você não é o Sherlock Holmes, Nicolas”, ela me respondeu, “Ou seja, também não é possível, pra você, que ela não estivesse completamente feliz ou satisfeita com o relacionamento de vocês, por muito tempo, e que não te disse nada vai saber por quê? Isso também não é possível?”
Eu fiquei quieto, pensando. Ela continuou: "Sabe, chega um ponto em que, quando você olha em volta e vê que tá cheio de coisas que a princípio parecem 'impossíveis', mas que mesmo assim acontecem, talvez o fator que falha não seja a realidade, mas sim a gente mesmo.
Hm." Foi só o que eu disse, olhando pro chão e pensando.
Tipo aquela foto do cara que tá dirigindo na contramão, você viu?", ele me perguntou, "O cara vê cem carros na contramão e xinga esses cem que tão na contramão, em vez de aceitar que quem tá na contramão é ele
“É uma questão de perspectiva”, eu disse pra ela.
Carmen concordou com a cabeça, “Exatamente. É por aí que você tem que mudar a sua.”
Eu me estranhei, "O que você acha? Deixar ela ficar com outro?
Carmen sorriu e balançou a cabeça, "Não, não estou te dizendo isso. Estou te dizendo pra ficar aberto a outras possibilidades, além da que você já escolheu na sua cabeça. Considera que ela pode ter sentido falta de satisfação emocional por meses, por mais que você não tivesse visto. Considera que o que você presenciou hoje pode ter sido coisa de uma vez só, que surgiu… que eles estavam com tesão, sei lá, e que não tem um grande plano por trás de tudo isso. Não tô dizendo que não seja importante ou feio o que aconteceu. Tô te dizendo que podem existir outras explicações além da sua.
Então o que você quer que eu faça?", eu perguntei.
Por enquanto? Que vocês se sentem, conversem, e que você tente entender o que ela te disser. Você não sabe o que ela vai falar. Vai que ela mesma diz que quer terminar com você, é uma possibilidade. Vai que ela estava esperando que você tocasse no assunto, ela não tinha coragem. Vai que ela percebe o que fez e se arrepende, e para de se encontrar com esse cara. Mas você está dando espaço e iniciativa pra que seja ela quem resolva o problema. A gente se apega muito mais às nossas próprias soluções do que às dos outros.
“Isso quer dizer o quê?”, eu perguntei.
Se ela resolver isso, por iniciativa própria, do jeito dela, vai enxergar como 'a' solução dela. Que foi ela que fez. E vai gostar mais dessa solução do que de qualquer coisa que você proponha", terminou Carmen.
—
Quando terminei com a Carmen, fui pra lá, pelo bairro dela. Fiquei num café lanchando umas duas horas, pensando no que ia falar pra Valentina quando voltasse pra casa. Alguma coisa ia me surgir.
Voltei na hora de sempre, pra fingir que tinha estado no escritório, como qualquer outro dia. Valentina estava esparramada em uma das poltronas da sala, com a TV ligada, mas dando mais atenção pro celular. Tinha papéis da Fondo Liso espalhados pela mesinha de centro, o que já tinha me deixado puto da cara. Ela sorriu pra mim do sofá.
Oi, amor, o que você tá fazendo? Como foi seu dia?", me disse a filha da puta. Como se de manhã ela não tivesse dado pra outro cara.
Bem. O que você tá fazendo.", respondi meio seco. Fui pra cozinha, com toda a intenção de me servir um copo de algo pra beber, mas foi aí que eu vi e fiquei duro. O sangue começou a ferver e num dia como aquele, eu só precisava de uma merda dessas pra acabar de explodir.
Valentina tinha deixado a chaleira que usava pra esquentar o mate sobre a boca do fogão que não funcionava. Na de trás. A gente sempre deixa na da frente. Nunca nas de trás.
Fiquei olhando aquela bagunça quando a ouvi vindo por trás, passando por mim e abrindo a geladeira, "Parece que você tá com fome...", disse sem me olhar, "Você sempre vai direto pro banheiro ou pro quarto se trocar", sorriu.
Eu não disse nada. Ela continuou: "Eu ia fazer aquele arroz com pedacinhos de presunto, quer? Ou a gente faz amanhã?
Quando não respondi, a vi virar de rabo de olho e me olhar, "amor, que foi?", me perguntou. Perdi a cabeça. Não me fode admitir isso, é verdade. Ninguém é perfeito. Rosnei algo em protesto, peguei aquela porra daquela chaleira que eu odiava, me virei e joguei contra uma das paredes da cozinha. Tava cagando se tava cheia de água fria ou quente ou vazia. Um barulhão de lata, água espirrando pra todo lado com o impacto. Valentina gritando, "Ai, que que você tá fazendo!? Que que te deu!?", quase gritou de susto e raiva, "Que que te mordeu?! Você é burro, moleque?!
Eu tinha um plano. Vinha detalhando ele desde que saí do consultório da Carmen. Falar tudo o que eu tinha pra falar pra Valentina. Sentar ela, conversar. Dizer que eu sabia do Tavo. Que ela fosse honesta comigo e me contasse tudo, que era a única forma de eu continuar com ela. Que não visse ele mais, que aquilo ia acabar. Chega de entregas do Fondo Liso, chega de verdureiro, que deixasse de ser tão otária e comprasse no supermercado como todo mundo. Tudo isso e mais coisas que eu vinha guardando.
Mas virei a cabeça e a vi. Olhei pra ela. Estava linda, como sempre, agitada e sem entender a porrada. Me olhando com aqueles olhinhos, com raiva, com perguntas. E foi aí, em um segundo, que decidi que o problema não ia ser resolvido por ela. Ia ser por mim. As "soluções" da Valentina eu já conhecia, e depois do que aconteceu naquela manhã, tava claro que eu não podia confiar no que ela me dizia que ia fazer ou deixar de fazer.
Também não podia deixá-la. Sou honesto. Não estava em mim querer deixá-la. Deixar algo tão lindo, que me fazia tão feliz. Pelo menos até aquela manhã tinha sido. Era linda demais, ela demais. Ia encontrar alguma outra forma de fazer isso, mas ia fazer eu mesmo. Era o que me cabia.
Fiquei olhando pra ela em silêncio por alguns segundos. "Você deixou a chaleira mal colocada", eu disse, virei de costas e fui pro banheiro. Ela ficou na cozinha me vendo ir embora. Não dei bola pra ela pelo resto da noite, nem jantei com ela. Me tranquei no quarto e me joguei na cama com o celular e o fone de ouvido.
O áudio daquele dia de manhã me encheu os ouvidos. Valentina e Tavo. Um minuto e treze segundos. Coloquei no repeat e fechei os olhos.
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