O dia que eu dei pra ele

Acordei antes que o Tomi, fiquei olhando ele dormir, e pensei uma coisa bem clara: quero estar do outro lado. Quero saber o que ele sentiu.
Não falei pra ele naquela manhã. Não falei por uma semana. Fiquei pensando sozinha, do mesmo jeito que tinha pensado a outra coisa. Mas dessa vez foi diferente. Dessa vez não era medo que me segurava. Era não saber como ele ia reagir.

Tomi era um cara seguro. No trampo, com a família, comigo. Mas tinha um Tomi de homem, de brother, de futebol aos domingos com os caras do bairro, e eu não sabia como aquele Tomi ia receber o que eu queria propor. Queria colocar uma pica no meu namorado. Essa era a frase, assim mesmo, e eu precisava saber como ele ia digerir isso.

Perguntei numa terça à noite. Sem cerimônia. A gente tava comendo macarrão na cozinha, cada um na sua cadeira, falando de qualquer merda.
"Você já pensou em meterem alguma coisa em você?"
Ele levantou a cabeça do prato. Me olhou.
"Em que sentido?"
"No sentido óbvio."
Tomi largou o garfo. Engoliu. Tomou água. Eu fiquei vendo ele passar por todas as fases. Surpresa. Cálculo. Decisão.
"Sim."
"Sim o quê?"
"Sim, já pensei."
"Muito?"
"Às vezes."
"Por que nunca me falou?"
Ele riu. Uma risada curta, quase sem graça, a que ele dá quando eu pego ele em algo.
"Pelo mesmo motivo que eu não pedia o outro."

Aquela resposta fechou tudo pra mim. Porque ele não ia pedir, porque não queria que eu fizesse só pra agradar ele, porque ia esperar até eu propor. Como tinha feito com todo o resto. Tomi era esse tipo de cara.
"Beleza", falei. "Tô propondo eu."

Ele demorou dois dias pra me responder de verdade. Não me surpreendeu. Eu tinha demorado três semanas pra responder quando ele propôs a parada do Ivan. Na quinta à noite, na cama, com a luz apagada, ele pegou minha mão debaixo do lençol.
"Sim."
"Sim o quê?"
"O que você perguntou na terça."
"Fala."
Ele ficou um segundo calado.
"Quero que você coloque em mim."

Eu ri no escuro. Rir porque a frase era ridícula e porque eu tava feliz e porque me deu uma felicidade estranha saber que ele também tinha pensado nela aqueles dois dias, que ele também tinha tirado um tempo pra entender o que queria.
"Beleza", falei. "Vamos comprar."

Fomos num sábado à tarde num sex shop em Palermo. Não queria fazer online. Queria ver, tocar, pegar o arnês, experimentar as coisas. Tomi veio comigo. Caminhamos os dois como qualquer casal num sábado à tarde, mas os dois sabíamos pra onde íamos, e isso dava uma energia meio elétrica na caminhada.

A loja era mais limpa e mais acolhedora do que eu esperava. Uma moça de cabelo curtinho nos atendeu. Falamos o que procurávamos. Ela não se abalou, nos levou até uma parede no fundo e começou a explicar.

Eu pensei que ia ser eu a ficar desconfortável. Foi o contrário. Tomi ficou vermelho quando a moça começou a falar de tamanhos. Eu segurei a mão dele. Apertei.
"Escolhem os dois", disse a moça. "É pros dois."

Escolhemos um médio. Menor que ele. Isso decidimos os dois sem falar, só nos olhando. Eu não queria começar com um grande. Tomi também não. A moça explicou sobre o arnês, as tiras, como se ajustava. Me fez experimentar por cima da calça jeans. Senti o peso. Senti como ele ficava baixo, apoiado contra o púbis. Me olhei no espelho de corpo inteiro com um arnês vazio por cima da calça e ri. Ri porque me via ridícula e poderosa ao mesmo tempo.

Saímos com a sacola. Sacola preta, sem marca. Caminhamos até uma calçada, sentamos num bar pra tomar algo. Tomi tomou cerveja. Eu tomei vermute.
"Você tá quieto."
"Tô pensando."
"Muito?"
"Mais do que você há uma semana."
"Toma seu tempo."
"Já tomei. Tô bem. Tô nervoso, mas tô bem."
Brindamos. Copos batendo um no outro. Beijei ele em cima da mesa.

Naquela semana me preparei. Não o corpo, dessa vez. A cabeça. E a cinturonga.
Coloquei sozinha, em casa, numa tarde que ele não estava. Pelada. Na frente do espelho do banheiro. Levei um tempo pra entender como as tiras se ajustavam, como Ficava firme, como não se mexia. Coloquei, olhei ela apontando pra frente, segurei a pica com a mão. Senti a base apertada contra mim. A moça do sex shop tinha explicado isso, que o modelo que a gente escolheu tinha uma parte interna que apertava contra o clitóris quando a gente empurrava. Eu não tinha acreditado totalmente nela. Agora entendia.
Me mexi um pouco. Empurrei o quadril pra frente. Senti a base me apertar. Senti alguma coisa, não muito, mas alguma coisa. E senti outra coisa mais interessante, que era como o corpo se organizava diferente com algo apontando pra frente. Os quadris pra trás. O centro de gravidade mudado. Os ombros diferentes.
Ri sozinha na frente do espelho. Fiz umas poses. Depois sentei na tampa do vaso com a pica apontando pra cima e me toquei um pouco nos peitos me olhando, e deu um calor que eu não esperava.
Me sequei. Guardei tudo numa caixa no armário.

A gente fez numa sexta. Foi ideia do Tomi. Ele falou na segunda que preferia uma sexta e não um sábado, porque queria ter o sábado inteiro do meu lado sem ter que pensar em nada. Achei de boa.
Tomi se preparou sozinho. Essa foi a outra parte que me deu uma ternura, ver como ele se dedicava com a mesma seriedade que eu tinha me visto preparar meses antes. Leu umas paradas. Me fez perguntas, porque eu tinha lido tudo aquilo um ano atrás e ele só agora. Comprou o lubrificante caro ele. Me pediu pra não entrar no banheiro na sexta à tarde, que precisava de um tempo. Falei óbvio. Dei um beijo na cabeça dele ao passar.

Jantamos leve. Uma taça de vinho cada um. A mesma coisa que eu tinha feito daquela vez. Percebi que a gente tava repetindo a coreografia, só que com os papéis trocados, e isso me dava uma emoção estranha, como se a gente tivesse fazendo uma dança que já conhecíamos os dois.
Deitamos perto das onze. Lençóis limpos. Toalhas do lado. Lubrificante na mesa de cabeceira. A cintaralha em cima da cama, ainda na caixa, porque achei melhor tirar ela na hora de deixar ela ali esperando como um objeto.
A gente se beijou um tempão, vestidos. Fui tirando a roupa dele devagar. Beijei descendo, parando nos lugares que eu sabia que ele gostava. Quando cheguei entre as pernas dele, chupei ele. Devagar. Sem pressa. Fiz exatamente o que ele tinha feito comigo naquela noite, porque eu lembrava muito bem do que ele tinha dito depois, aquela parada de que queria que a primeira coisa que eu sentisse fosse aquilo. Eu queria o mesmo pra ele. Queria que ele começasse de um lugar conhecido, do prazer fácil, de algo que não exigisse nada novo dele.

Chupei ele até ele arquear as costas. Quando vi que tava perto, parei. Subi. Beijei ele.
"Vira."

Ele virou. Coloquei um travesseiro debaixo do quadril dele, igual ele tinha feito comigo. Encostei meu peito nas costas dele por um segundo. Beijei a nuca dele. Senti a respiração dele contra o travesseiro, mais curta que o normal.
"Tomi."
"Sim."
"Se quiser parar, a gente para. Não importa em que ponto."
"Já sei."
"Me fala."
"Vou falar."

Ri contra a nuca dele. Mordi o ombro dele, de leve.
"Idiota."
"Idiota você."

Comecei com um dedo. Muito lubrificante. Mais do que eu achava que ia usar. Passei nos meus dedos primeiro, esquentei um segundo na mão como tinha lido. Toquei a entrada dele. Devagar. Senti ele fechar, o corpo recuando sozinho, aquele reflexo que eu conhecia bem por já ter tido. Passei a mão nas costas dele.
"Respira."
"Tô respirando."
"Respira mais."

Ele riu contra o travesseiro. Aquela risada soltou ele. Empurrei o dedo. A ponta. Depois um pouco mais. Senti como era diferente estar fazendo aquilo. Sentir o corpo do outro por fora, sentir o músculo cedendo, sentir o calor lá dentro. Era isso que ele tinha sentido comigo, era isso que ele tinha calibrado naquela noite.

Coloquei o dedo inteiro. Fiquei parada. Esperei ele se acostumar. Depois comecei a mexer devagar, em círculos, pra frente. Eu tinha lido tudo. Sabia onde ficava. Demorei um Pouco tempo depois de encontrá-lo. Quando toquei a próstata do Tomi, ele soltou um som contra o travesseiro que eu nunca tinha ouvido antes. Um gemido grave, surpreso, como se o corpo dele tivesse falado numa língua que ele não conhecia.
"Ai", ele disse. "Ai, porra."
"Tá bom?"
"Sim. Sim. Sim."
Eu sorri contra as costas dele. Dei um beijo entre os ombros. Continuei ali. Devagar. Repeti o movimento. Cada vez que eu tocava aquele lugar, ele soltava o mesmo som, e eu ia gravando na memória o barulho novo do meu namorado.
Depois de um bom tempo, adicionei o segundo dedo. Tomi respirou fundo. Relaxou. Aguentou. Eu parei. Esperei. Voltei a me mover quando senti ele ceder de novo. Essa paciência eu tinha aprendido com ele, naquela noite, e agora estava devolvendo.
Quando os dois dedos entravam e saíam sem resistência, quando ele gemia baixinho contra o travesseiro a cada movimento, eu perguntei.
"Vou?"
"Vai."
"Fala direito."
"Quero que você meta."

Desci da cama. Tirei a roupa íntima, a única coisa que eu estava usando. Abri a caixa. Peguei a cintaralha. Eu tinha experimentado o arnês mais duas vezes naquela semana, então já sabia. Ajustei rápido. As tiras. A fivela do lado. Encaixei a pica na base.
Fiquei ao lado da cama. Tomi virou a cabeça para me olhar. Ele ainda estava com o rosto contra o travesseiro, mas virou para me ver. Quando me viu parada ao lado da cama com a cintaralha, fez uma cara que eu nunca tinha visto. Uma mistura de risada e desejo e algo mais, algo novo, algo que eu conhecia porque era a cara que eu tinha feito na primeira vez que entendi de verdade o que ia rolar.
"Oi", eu falei.
"Oi."
Eu ri. Subi na cama. Me ajoelhei atrás dele. Passei as mãos pelas costas, pela bunda, pelo lado. Toquei ele um tempo sem pressa. Queria que ele sentisse minhas mãos antes de sentir a outra coisa.
Apoiei a base da pica contra ele. Muito lubrificante. A moça da sex shop tinha falado bem mais do que parece necessário, e eu tinha seguido caso. Apoiei. Não empurrei. Fiquei parada, igual ele tinha ficado comigo naquela noite, deixando ele no controle.
"Empurra você."
Tomi virou a cabeça de novo.
"Eu?"
"Você. Eu não vou empurrar. Se você quer que entre, empurra você."
Ele ficou calado. Eu vi ele entender. Vi como o rosto dele se ajustou quando percebeu que eu tava dando pra ele a mesma coisa que ele tinha me dado. A coisa mais importante. A que muda tudo.
Ele empurrou pra trás. Devagar. Senti a cabeça da piroca abrindo ele. Senti também o empurrão contra a base, contra mim. Aquela parada que a mina tinha descrito e que eu tinha praticado no espelho. Senti agora, com peso, com um corpo do outro lado.
Tomi fez um barulho longo contra o travesseiro.
"Para."
Parei. Fiquei imóvel. Passei a mão nas costas dele, toquei o cabelo da nuca, falei baixo.
"Tô aqui. Vai no teu tempo."
"Me dá um segundo."

Dei um minuto. Dois. Ele respirando, eu quieta, com a cabeça da piroca só na entrada. Eu olhava as costas dele subindo e descendo e pensava nele fazendo o mesmo comigo, na paciência infinita que ele teve comigo naquela noite, e entendia melhor do que antes o que era estar do outro lado. Querer empurrar e não empurrar. Querer terminar o que começou e segurar pra deixar o outro controlar o tempo. Isso é o amor numa cama. Isso, e pouco mais.
"Já", ele disse.
"Tem certeza?"
"Vem."
Ele empurrou pra trás de novo. Eu segurei firme. Senti a piroca entrando, devagar, mais um centímetro, outro, outro. Quando a base bateu nele, soube que tava toda dentro. Fiquei parada. Apoiei o peito nas costas dele, igual ele tinha feito comigo. Passei os braços pela frente. Abracei ele por trás.
"Te amo", falei no ouvido dele. "Te amo, te amo, te amo."
Senti ele rir contra o travesseiro. Uma risada com um soluço por baixo. Mordi a orelha dele devagar.

Comecei a me mexer quando ele pediu. Devagar. Saía um pouco, voltava a entrar. Cada vez que empurrava, sentia a base apertar contra meu clitóris. E sentia o Tomi gemer debaixo de mim, e os dois gemidos iam se misturando na minha cabeça. O dele e o meu. Eu não tinha conexão nervosa com a pica que estava movendo. Mas tinha conexão com o corpo do Tomi através dela, sentia o peso, sentia a resistência, sentia quando ele relaxava e quando se tensionava. Era um órgão novo. Um órgão que sentia através do outro.

Tomi enfiou a mão pra baixo. Começou a se tocar. Eu deixei. Me pareceu exatamente certo. Eu tinha feito a mesma coisa naquela noite. Aquela pinça, aquele sentir pra frente e pra trás ao mesmo tempo, aquela parada que ele tinha me ensinado, agora ele estava fazendo sozinho, sentindo a mesma coisa, encontrando o lugar no meio onde tudo se junta.

"Mais rápido."

Eu acelerei. Agarrei as cadeiras dele com as duas mãos. Empurrei. Lembrei dele fazendo aquilo comigo, copiei o movimento exato, aquela parada de empurrar e ficar dentro um segundo antes de sair. Tomi gemia contra o travesseiro. Eu gemia atrás. Sentia a base me apertando cada vez com mais força, e sentia as cadeiras dele se mexerem pra me encontrar, e sentia algo se formando bem lá dentro, uma onda diferente das que eu conhecia.

"Vou gozar", disse Tomi contra o travesseiro.

"Goza."

"Você."

"Eu também."

Empurrei forte. Uma vez. Duas. Três. Tomi gozou contra o lençol, com um gemido longo que saiu do estômago dele, e eu senti o corpo dele tremer inteiro contra mim, e isso, essa parada de sentir ele gozar por dentro e por fora ao mesmo tempo, me quebrou. Gozei eu também, apertada contra ele, com a base da cinturonga cravada no clitóris e com o corpo dele tremendo debaixo de mim. Caí em cima das costas dele. Mordi o ombro dele sem querer. Senti ele respirar ofegante embaixo.

Fiquei em cima dele por um tempão. Sem sair. Sem me mexer. Os dois respirando. Eu com a cara contra a nuca dele. Ele com a cara contra o travesseiro. Sentia a pulsação. A minha e a dele, de novo como naquela noite, mas invertidas. Dessa vez a pulsação externa era a minha. Desta vez o corpo mudado era o dele.
Saí devagar. Muito devagar. Desci da cama. Desabotoei o arnês, deixei cair no chão. Voltei pra cama. Deitei de barriga pra cima do lado dele. Tomi virou. Ficamos cara a cara.
"Oi", ele disse.
"Oi."
"Como você tá."
Eu ri. Aquela pergunta de novo. Aquela pergunta que ele sempre me fazia depois e que dessa vez era a vez dele.
"Tô bem. E você."
Tomi ficou um segundo calado. Procurando as palavras.
"Tô com corpo novo."
Eu ri. Beijei ele. Beijei ele demorado, de boca aberta, porque ele tinha usado minha frase e isso me deu uma felicidade imensa.
"Bem-vindo."
"Valeu."
"De nada."

Me abracei nele. Passei a perna por cima. Passei o braço pelo peito dele. Fiquei eu do lado de fora, abraçando ele, ele menorzinho contra mim. E aí, nessa posição, com ele feito um bolinha contra meu corpo e eu abraçando ele por trás, entendi uma coisa que não tinha me ocorrido durante toda a semana de preparação.

Não era que eu queria colocar uma pica nele. Era que eu queria dar pra ele o que ele tinha me dado. A paciência. O cuidado. A parada de ficar parado esperando o outro empurrar. A parada de dizer te amo quando o outro tá no momento mais aberto dele.

Ele tinha feito isso comigo. Eu tinha feito isso com ele. E agora nós dois tínhamos aquilo, nós dois sabíamos o que era estar do outro lado, nós dois tínhamos passado pela mesma porta, uma vez de cada lado.

Antes de dormir, pensei na noite com Iván. No que eu tinha pensado naquela noite, aquela parada de "isso eu decidi, isso foi meu". E pensei que agora a frase era outra. Essa noite não tinha sido só minha. Eu tinha decidido a proposta, sim. Mas Tomi tinha decidido aceitar. Tomi tinha decidido empurrar. Tomi tinha decidido gozar.

Isso nós decidimos juntos. Isso foi nosso.

Beijei a nuca do Tomi. Apertei ele contra mim. Senti ele dormir antes de mim. E antes de cair no sono de vez, pensei uma última coisa, quase em voz alta, contra o cabelo dele:
Quem diria.

2 comentários - O dia que eu dei pra ele

Jajaja
Dios que sos tremenda agos
Que bueno que sigas en la página tus relatos, el punto de vista, la reflexión que das al final
Que es toda una historia la que nos das