Calígula

O primeiro encontro verdadeiramente anônimo aconteceu no cinema, e até hoje me lembro dele com uma clareza suja, quase tátil.

Eu já tinha descoberto o prazer de insinuar sem olhar de frente. Andar devagar. Sentir um olhar cravado nas costas. Saber, sem confirmar, que algum homem estava observando o movimento do meu corpo com uma intenção que eu mesmo havia provocado. Mas até então tudo tinha sido tateio, fantasia, rodeio. No cinema aconteceu outra coisa: o passo real, irreversível, para um tipo de experiência da qual depois não consegui mais me desvencilhar totalmente.

Passavam um filme escandaloso, um daqueles que justificavam certa tensão na sala antes mesmo de começar. Entrei sozinho e me sentei num canto, com a mistura habitual de timidez e expectativa. Tinha pouca gente. O ar estava carregado daquele silêncio denso dos cinemas meio vazios, onde cada barulho parece ter intenção.

Depois de um tempo, um homem sentou a dois assentos de distância. Terno, boa aparência, idade imprecisa. Não tinha nada de sedutor no sentido amável. Pelo contrário: havia algo seco, executivo, quase impaciente no jeito dele se acomodar. Pouco depois, ele se aproximou e me perguntou se o filme tinha começado há muito tempo. Respondi em voz baixa. Esse foi todo o pretexto que ele precisou.

Primeiro, ele roçou a perna dele na minha, como se fosse sem querer. Não afastei a minha. Esse detalhe decidiu todo o resto.

Durante alguns minutos, ficamos assim, imóveis da cintura para cima, enquanto embaixo se desenrolava uma conversa muda e evidente. Eu estava com o coração disparado. Sabia que ainda dava tempo de levantar e ir embora. Exatamente por isso não fiz isso. Havia na minha quietude uma forma de consentimento covarde, ou de coragem torta: deixar que outro avançasse por mim.

Depois, ele pegou minha mão e a levou até o pau dele por cima do tecido. A dureza me impressionou. Também a naturalidade com que fez isso, como se não estivesse pedindo nada, mas sim dispondo de mim. Minha primeira reação foi ficar tenso, mas não me afastei. Acabei obedecendo aquele gesto e acariciando ele com jeito desajeitado, excitado mais pela situação do que por ele, pelo simples fato de ter ficado preso numa cena onde eu já ocupava o lugar submisso.

Pouco depois, a mão dele procurou minhas costas, desceu, parou onde só devia parar um segundo, e continuou. Aquele percurso me deixou gelado e ardendo ao mesmo tempo. Não teve ternura. Não teve hesitação. Só decisão.

Então ele me disse, quase sem me olhar, pra segui-lo até o banheiro.

Quando ele se levantou, tive um instante pra fugir. Bastava ficar na poltrona e deixar ele ir. Bastava sair do cinema por outra porta. Mas eu fui. Fui com vergonha, com medo, com tesão. Fui porque uma parte de mim queria exatamente aquilo: ser conduzida.

No banheiro, ele já estava me esperando dentro de um cubículo. Entrei e ele fechou. O espaço era mínimo, o cheiro azedo, a luz uma merda. Tudo era sórdido. Talvez por isso mesmo tenha sido tão potente: não tinha romantismo possível, nenhuma fantasia bonitinha. Só corpos, urgência e desigualdade.

Ele me fez agachar primeiro. Me usou a boca com uma brutalidade que me surpreendeu. Não tava buscando prazer compartilhado nem brincadeira. Tava buscando domínio. Me segurou pela nuca com firmeza e marcou o ritmo sozinho, sem se importar com meu desconforto, minhas lágrimas, minha dificuldade pra respirar. Eu tava assustado, sim, mas também ferozmente excitado pela humilhação daquela cena: reduzido ao silêncio, curvado, obrigado a seguir o ritmo de um desconhecido que nem fingia consideração.

Depois ele me virou. O que veio foi rápido, desajeitado e doloroso. Doloroso de verdade. Senti o corpo se fechar por reflexo e, ao mesmo tempo, uma descarga brutal de tesão naquela mesma resistência. Essa foi a revelação mais perturbadora: que a dor não anulava o prazer, mas às vezes acendia ele de um jeito mais escuro, mais profundo, mais vergonhoso. Que a submissão, a falta de delicadeza, até a sensação de estar sendo tratado como algo descartável, podiam se transformar em combustível erótico.

Acabou rápido. Mal terminou, mandou eu esperar e saiu como se nada tivesse acontecido. Lavou as mãos, se olhou no espelho, ajeitou o terno e foi embora. Aquela frieza no final foi quase tão intensa quanto o próprio encontro. Eu fiquei sozinho, atordoado, dolorido, com uma mistura de humilhação e tremor que percorria meu corpo inteiro.

Lembro de ter saído na rua com a sensação ridícula de que todo mundo podia perceber. Como se eu carregasse a cena escrita na cara. Como se meu jeito de andar denunciasse o que tinha acabado de rolar. Senti vergonha, sim, mas também uma excitação densa, persistente, impossível de negar. Naquela noite, já sozinho, entendi que algo tinha se fixado pra sempre: a união entre prazer e dor, entre desejo e submissão, entre humilhação e gozo.

Não foi uma descoberta limpa. Foi uma marca.

E desde então, toda vez que me vesti pra provocar, toda vez que calcei uns saltos, que ajustei uma fio dental entre as nádegas, que pintei a boca pra sair e tentar um olhar duro, soube que no fundo estava buscando tocar de novo aquela eletricidade. Não necessariamente o mesmo ato, nem o mesmo cenário, mas sim a mesma estrutura íntima: me oferecer, ficar por baixo, sentir medo, vergonha e excitação ao mesmo tempo.

Foi isso que o cinema acabou organizando dentro de mim. Ou desorganizando pra sempre.

1 comentários - Calígula

aleqp
Me encanto los detalles de tu relato, la atmosfera qe creaste, y me calenaste mal. Sin siquiera mencionar directamente el sexo