Colecionador (Partes 7, 8 e 9)

VII. O elevador
O prédio onde moravam tinha nove andares e um elevador velho, daqueles com porta de grade de metal que precisa fechar com um tranco seco. Os vizinhos mais frequentes eram o casal do quarto andar, um estudante de arquitetura do sétimo, e o Gustavo, do quinto, que trabalhava na construção civil e sempre chegava em casa perto das sete da noite com as mãos ainda marcadas pelo serviço.
Gustavo tinha quarenta anos, era calado, respeitoso e olhava pra Valéria com a discrição de quem sabe que tem limites. Ela gostava disso nele. A convivência com ele era fácil pra ela.
O que Valéria não sabia era que Marcos e Gustavo tinham começado a tomar umas cervejas às quartas-feiras. Que nesses encontros, Marcos falava. Não de forma direta, nunca direta, mas com aquela habilidade dele de abrir portas sem parecer que as abria. Comentários sobre Valéria, sobre o corpo dela, sobre o quanto ela custava a relaxar, sobre o quão fechada era pra certas coisas. Palavras que pintavam um quadro sem nomeá-lo, que faziam Gustavo chegar em casa às quartas-feiras com algo aceso e sem forma clara na cabeça.
Numa quinta-feira de novembro, a Valéria saiu pra correr. Eram sete e quinze da manhã, ainda com o frescor da noite no ar. Ela tava de legging preta de corrida e um top esportivo, cabelo preso, os fones no pescoço. No elevador, o Gustavo esperava pra descer.
—Bom dia —disse ela, entrando.
—Bom dia —disse ele.
O elevador era pequeno. Cabiam duas pessoas com o conforto justo de estranhos num espaço apertado. Gustavo olhava a porta de grade. Valeria procurou o celular no bolso da legging.
O que nenhum dos dois sabia ainda era que o elevador ia parar entre o terceiro e o segundo andar, como acontecia às vezes, e que ia ficar assim por onze minutos enquanto o zelador do prédio, que naquele dia estava atrasado, encontrava as chaves do quadro elétrico.
Onze minutos num espaço do tamanho de um armário. Com a luz fraca da lampadinha do elevador. Com o calor que já começava a se acumular.
Valéria tinha o top esportivo justo, feito pra segurar, pra comprimir, pra se mexer. Era uma peça de academia, funcional e honesta. Mas no calor parado do elevador travado, com a imobilidade forçada e a consciência súbita de dividir aquele ar com alguém, virou outra coisa. O top apertava cada curva do torso dela com uma precisão que a roupa de rua nunca tem, moldava a linha dos peitos com aquela franqueza atlética que é ao mesmo tempo mais casta e mais provocante do que qualquer decote.
Gustavo olhava pra porta. Mas onze minutos são onze minutos.
Valéria percebeu. Não o momento exato em que os olhos dele se mexeram, mas o resultado, aquela mudança de temperatura num espaço que já era quente, aquela qualidade diferente do silêncio. Ela cruzou os braços sem pensar, um gesto velho e automático, e logo desfez porque era óbvio demais, claramente uma resposta a alguma coisa, e ela não queria que ele soubesse que ela tinha notado que ele tinha olhado.
Foi naquele momento, naquela fração de segundo de confusão tática, que o corpo dela fez algo que a mente não autorizou: um calor leve, localizado, que não era o calor do elevador. Ela registrou aquilo com uma espécie de indignação interna imediata, classificou como irrelevante, descartou. Não significava nada. Era biologia. Era o corpo respondendo a ser olhado, que é o que os corpos fazem, às vezes, sem pedir permissão nem dar explicações.
Quando o elevador voltou a se mover, a Valéria soltou um suspiro de um jeito que esperava que soasse como tédio.
VIII. A janelaFoi em julho, no auge do inverno portenho, que Marcos preparou o que ele considerava sua obra mais delicada.
Gustavo, o vizinho do quinto andar, tinha virado uma espécie de amigo. As cervejas de quarta-feira já eram um ritual estabelecido. Marcos tinha construído essa amizade com a mesma paciência com que construía tudo: devagar, sem que parecesse construção. Ele falava de Valéria de um jeito que não era descrição, mas convite, sem que Gustavo pudesse apontar o momento exato em que uma coisa virou a outra.

Gustavo sabia, sem que ninguém tivesse dito diretamente, que havia algo que Marcos queria que acontecesse. Ele não tinha aceitado nem recusado. Simplesmente deixou a possibilidade existir no ar entre eles, como existe a fumaça de um cigarro: sem forma fixa, sem compromisso.

O apartamento de Marcos e Valéria era um sexto andar com janelas que davam para o pátio interno do prédio. O apartamento de Gustavo, um andar abaixo, tinha o mesmo eixo visual. Da janela dele, com as luzes acesas no andar de cima e as de baixo apagadas, a visão era perfeita.
Marcos sabia disso porque tinha verificado.



Era um domingo à tarde. Valéria tinha passado o dia inteiro trabalhando em correções, trancada no escritório, e perto das seis decidiu tomar um banho longo antes que o frio da noite começasse. Marcos ouviu ela entrar no banheiro, ouviu a água, esperou.

Foi para a sala. Afastou as cortinas da janela que dava para o pátio interno. Não abriu tudo: afastou o suficiente para que o cômodo ficasse iluminado de fora, visível de baixo, sem parecer intencional. Depois mandou uma mensagem para Gustavo. Três palavras.
Agora. Sexta janela.

Voltou para o sofá. Abriu um livro. Esperou.

Valéria saiu do banho com o cabelo molhado e uma toalha enrolada no corpo, procurando o hidratante que sempre deixava na mesinha da sala. Entrou descalça, deixando pegadas molhadas no chão. parquet, com aquela despreocupação de quem está na própria casa e sabe que está em casa.
A toalha ia dos peitos até a metade da coxa. Era uma toalha grande, mas não infinita, e quando ela se abaixou para pegar o creme na gaveta de baixo da mesinha, a borda inferior subiu, deixando ver a parte de cima das coxas, a curva onde começavam as nádegas. Quando se endireitou e se inclinou sobre a mesinha para alcançar algo mais longe, a toalha cedeu um centímetro no nó do peito, e a curva superior dos seios ficou visível por cima da borda branca do algodão.
Marcos lia o livro sem ler.
Lá embaixo, no quinto andar com as luzes apagadas, Gustavo olhava.
Valeria soltou o cabelo na frente do espelhinho da sala, penteou com os dedos, passou o creme nos braços com movimentos largos. A toalha se ajustava e se desajustava a cada gesto, revelando o ombro, a parte de cima da coxa, a linha do lado quando ela levantou o braço para alcançar a nuca. Num momento, quando virou para a janela para pegar algo da prateleira, a toalha se abriu um instante na lateral, o suficiente para quem olhasse de baixo ver a curva completa do quadril nu, o começo da coxa, antes que ela a ajustasse de novo sem ter notado nada.
Ela não estava nua. Mas estava naquele território impreciso entre a intimidade e a exposição que é, de muitas maneiras, mais perturbador do que a nudez completa. Era uma mulher em casa, achando que estava sozinha com o marido e seus pensamentos de domingo, e essa crença era exatamente o que Marcos estava entregando a outro homem como se fosse dele para dar.
Até que aconteceu o que tinha que acontecer. Uma mulher se achando sozinha na intimidade do quarto. Segura na rotina das suas ações, soltou a toalha por uns segundos. Uns peitos bem grandes apareceram na vista de Gustavo, que não podia acreditar na sorte de domingo. Os pelinhos pretos da buceta perfeitamente visíveis, mas o prêmio principal era aquelas tetonas com bicos pontudos.
Quando Valéria voltou pro quarto, Marcos largou o livro.
Olhou pra janela. As cortinas paradas.
Esperou um pouco e depois as puxou de volta pro lugar, devagar, com cuidado.
Chegou uma mensagem do Gustavo. Sem palavras. Só um emoji.
Marcos guardou o celular no bolso e foi preparar o jantar como se nada tivesse acontecido, porque pra ele, de certa forma, era assim: o que tinha rolado existia numa dimensão separada da vida cotidiana, uma dimensão que só ele podia ver, que era exatamente o tipo de poder que ele precisava.
O que ele não tinha calculado era que Valéria, naquela noite, enquanto jantavam, olhava pra ele de um jeito levemente diferente. Não o suficiente pra ele perceber. Mas diferente.
Ela tinha visto as cortinas puxadas quando entrou na sala. Lembrava delas fechadas naquela manhã.Ainda não tinha o quadro completo. Mas tinha outro pedaço. E os pedaços, pra quem sabe ler, sempre acabam formando uma imagem.X. O jantarDezembro chegou com a desculpa perfeita.
Marcos anunciou uma semana antes, com aquela leveza calculada que usava para coisas importantes: um jantar de fim de ano com três casais do trabalho. Gente que ela não conhecia, o que fazia parte do plano, embora ela não soubesse. Terreno neutro. Caras novas. Olhares sem história.

— Reservei naquele restaurante do porto que você gosta — disse, e ela concordou porque era verdade que gostava, e porque ainda, apesar de tudo que sua mente começara a juntar nas noites olhando o teto, havia uma parte dela que queria estar errada.

Naquela semana, sobre a cama, apareceu um vestido.
Era preto, longo até o joelho, com um decote amplo nas costas que descia quase até a cintura. No cabide parecia elegante. Conservador, até, pela frente.

Valéria pegou. Examinou. O tamanho era o dela, dessa vez. O tecido era bom, pesado, uma mistura de viscose e elastano que caía bem. O zíper invisível na lateral parecia firme.

O que ela não descobriu até vestir foi que o corpete interno havia sido cuidadosamente removido. Aquela pequena estrutura de tecido entretelado que vestidos com decote nas costas costumam ter costurada por dentro para dar suporte tinha sido extraída com paciência cirúrgica, deixando o forro intacto, sem rastro visível por fora.

Sem o corpete, o vestido era uma armadilha de engenharia têxtil. Pela frente, perfeito. Por trás, a cada passo, a cada vez que ela se inclinasse ou virasse, o tecido se abria naquele decote profundo e deixava ver não só suas costas nuas até a cintura, mas os lados, a curva completa dos peitos pressionando contra o tecido sem nada que os segurasse por dentro, se movendo com ela com uma liberdade que não era dela para dar.

Valéria se olhou de frente no espelho. Viu uma mulher elegante num vestido preto.
Não tinha espelho que mostrasse suas costas.

Marcos, da porta, a observava com uma expressão que ela aprendera a ler tarde demais: aquela calma satisfeita, levemente tensa, de quem está prestes a receber algo.
—Você está perfeita —ele disse.


O restaurante era exatamente como ela lembrava: luz quente e baixa, mesas separadas, o som do rio entrando pelas janelas abertas no calor de dezembro. Os três casais já estavam sentados quando chegaram. Homens na casa dos quarenta e tantos, mulheres de idades variadas, todos com aquela cordialidade de quem se conhece do trabalho e aprendeu a se dar bem por conveniência.

Marcos tinha escolhido os lugares com o pretexto da acústica: Valeria ficou de costas para o centro do salão, visível da maioria das mesas.

Diego, o da firma de arquitetura, estava sentado na diagonal dela. Quarenta e oito anos, mandíbula marcada, a segurança tranquila de quem aprendeu que pode olhar sem pedir permissão. Prestou atenção em Valeria desde o primeiro momento, com aquela cortesia que é a forma sofisticada do desejo: perguntas inteligentes, escuta ativa, sorrisos nos momentos certos.

Valeria respondia com genuinidade, como sempre. Falava dos alunos, dos livros, de por que se importava com o que fazia. Inclinava-se para frente quando queria enfatizar algo. Virava-se para incluir os outros na conversa.

Cada vez que se inclinava para frente, o decote traseiro do vestido se abria. O tecido sem suporte cedia para os lados e deixava visível, para quem estivesse atrás ou na diagonal, a curva lateral dos peitos nus por baixo do vestido. Não uma insinuação: uma realidade, clara e sustentada, para olhos que soubessem onde olhar.

Diego sabia onde olhar.

Marcos observava ele observando ela. Bebia o vinho devagar, participava da conversa com a parte da atenção que não estava contando os segundos em que os olhos de Diego desciam, paravam, voltavam.

Foi durante o segundo prato. Valeria se inclinou para a esquerda para pegar o guardanapo que tinha caído, um movimento Rápido e natural. O vestido cedeu completamente naquele lado. Diego, que olhava naquele exato instante, viu a curva inteira do seio esquerdo de Valéria, branco e pesado, pressionando contra o tecido lateral sem nada entre a pele e o ar do restaurante.
Um segundo. Talvez dois.
Diego desviou os olhos. Pegou seu copo. Bebeu com a concentração de quem precisa fazer algo com as mãos.
Marcos tinha visto tudo.
Sentiu algo subindo do estômago, quente e escuro, que ele chamava de satisfação e que era outra coisa, algo que não tinha nome honesto.

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