A vida continuou porque é isso que a vida faz. Nada mais além disso. Todos os nossos dramas, todas as nossas comédias e tragédias, não param o avanço dos dias. No dia seguinte, o sol nasce, como todo dia, e o sol não liga pra nada do que aconteceu ontem. Ninguém é o centro do universo, ninguém é tão importante a ponto de fazer as coisas que acontecem com ele pararem o tempo.
Betina tinha acordado e se levantado antes de mim. Já estava fazendo o café da manhã na cozinha. Em silêncio, me espreguicei um pouco, fui até a cozinha e, abraçando ela por trás, dei um beijo suave e demorado na bochecha dela. Ela esboçou o começo de um sorriso, mas não disse nada além de "bom dia".
O que a gente tinha conversado ontem à noite antes de dormir, na intimidade do nosso leito conjugal, vai ficar por lá. Principalmente porque foram coisas muito íntimas, dos dois, que vieram um pouco à tona. Se fossem só minhas, não teria problema em contar, mas como são dela e não posso relatar umas sem as outras, não vou fazer isso.
Posso dizer que Betina me falou, meio envergonhada entre sussurros, que queria continuar se vendo com o Mario. Que o que ela tinha experimentado com ele nesse tempo foi muito forte, sexualmente falando, que isso a deixava feliz e ela não queria perder. Como se o Mario fosse a próxima etapa na evolução sexual dela, ela me deu a entender. Que no começo da vida dela, por muitos anos, ela diretamente não tinha vida sexual. Ao me conhecer e casar, ela teve, subindo de nível, e agora apareceu isso que ninguém esperava, mas que a fez subir mais um degrau.
Ela também me disse algo bem dolorido, mas que eu já desconfiava, já via chegando, e valorizei a honestidade dela. Que no dia anterior, quando o Mario a levou pro nosso quarto e eu fiquei ali, duro sem fazer nada, algo quebrou por dentro dela. Em relação a mim. Que nunca antes ela tinha me visto tão fraco e tão pisado, que talvez o pai dela, no fim das contas, tivesse razão. Nunca antes ela tinha sentido isso, até ontem. Quando não fiz nada. Quando deixei. que o Mario a pegasse na minha frente.
Perguntei baixinho, sem me irritar, onde aquilo nos deixava como casal. Onde aquilo me deixava como marido dela. Ela disse que ainda não sabia. Que me amava, disso tinha certeza. Acreditei nela. Vi nos olhos dela, na penumbra. No tom da voz dela. Que não queria me perder ou que eu saísse da vida dela. Como a gente ia cair, como marido e mulher, depois de tudo isso ela não sabia. A gente ia vendo, ela disse. Era a única coisa que ela conseguia fazer naquele momento. A única coisa que via que podia fazer, porque se separar estava totalmente fora de questão.
Também perguntei na lata, sem anestesia, se ela amava o Mario. Ela disse que não. Ou pelo menos, que não sabia. Não naquele momento. Só me disse que sentia que o Mario e os filhos dele tinham sido muito fodidos pela vida. E que o Mario fazia ela se sentir mulher de verdade, do jeito que eu nunca tinha conseguido achar um jeito de fazer.
Quando chegou a vez dela de me perguntar por que eu não tinha reagido, por que não tinha resgatado ela, digamos assim, não falei nada. Dei uma resposta que nem ela nem eu acreditávamos, mas aceitamos. Falei aquilo porque eu sabia, bem lá no fundo, na minha mente de réptil, a resposta verdadeira. E não era algo que eu quisesse contar pra Betina, ainda mais naquele momento.
Agora, enquanto eu tomava café da manhã, ficava olhando pra ela, bebendo meu café. Como ela era gostosa, mesmo assim, acabando de acordar e de roupa de casa. Nossos olhares se cruzaram e ela me deu um sorriso suave. Não sabia como ia ser tudo daí pra frente. Como as coisas iam ficar.
Por sorte, fui sacando bem rápido.
O novo jeito de viver se acomodou bem rápido. Acho que ao longo de umas duas semanas foi rolando aos poucos, até se instalar de vez. Betina continuava se vendo com o Mario de vez em quando. Sim, de vez em quando mesmo, e eu acreditava nela. Se tivessem se visto mais vezes, ela teria me contado. Mas a cada dois ou três dias eles se encontravam e transavam. Sempre era quando eu estava lá fora, trabalhando no táxi, pra não causar problema. Às vezes o Mario vinha em casa e eles faziam ali, outras vezes o Mario chamava ela na casa dele, se desse que os filhos não estivessem naquele momento, e eles faziam lá.
Quando eu voltava pra casa à tarde, já umas cinco horas, tava tudo bem e normal. No começo de tudo, eu morria por dentro pensando no que eles estariam fazendo e como. Imagens, sequências imaginárias que me excitavam pra caralho só de pensar. Eu tinha que me aliviar direto. Mas com o tempo isso foi acalmando e eu não precisava tanto. O extraordinário, se é constante, sempre se transforma inevitavelmente em ordinário.
Meu vizinho comer minha mulher passou de ser um fato catastrófico, inevitável, a ser só mais um dado da minha vida. Não sei se no nível mundano do índice de inflação, das contas de luz e coisas assim, não, mas tava por ali. Era algo que minha mulher fazia, que deixava ela muito feliz e isso, em teoria pelo menos, me deixava feliz também. Pelo menos, eu dizia pra mim mesmo, eu sabia e já não vivia perseguido e paranoico como os outros maridos que morrem pra saber o que a mulher realmente faz quando diz que vai pra uma aula de zumba, visitar uma amiga ou no médico. Pelo menos eu tinha isso.
Umas três semanas depois, foi quando o Mario apressou as coisas e fez de um jeito que me desestabilizou tanto que, de novo, eu não soube como reagir. O pior é que tudo tinha começado tão inocente.
A Betina me mandou uma mensagem uma manhã, enquanto eu tava no táxi, morta de felicidade porque tinham feito um pedido enorme de empadas. Uma das fábricas ali perto ia ter uma reunião sindical ou algo assim em uns dias e encomendaram uma barbaridade de empadas. Umas trinta dúzias. Junto com outras coisinhas pra petiscar. Parece que de tanto levar comida gostosa pros trabalhadores de lá, a notícia se espalhou. Automaticamente ela disse que sim e saiu disparada pra comprar as coisas.
Ela ficou até depois do jantar naquela noite preparando tudo e, claro, não chegou, faltava muito. No outro dia à tarde, voltei pra casa depois de largar o táxi e, ao entrar, fui pra cozinha porque ouvia música e vozes. Um pequeno batalhão tinha se instalado na cozinha. A Betina estava lá, claro, paradinha ao lado da bancada preparando as coisas. Do lado dela, o Mateo, também ajudando. Ela explicava bastante porque o cara não sacava muito, mas tava se esforçando. Sentados na mesa estavam o outro Tonelli, o Diego, o mais novo, junto com duas minas da idade dele. Uma eu conhecia de ter visto várias vezes. Era uma adolescente gatinha, morena, chamada Ana, a namoradinha do Mateo. Eu sabia que ela existia, mas finalmente a conheci. A outra era outra jovem, amiga dela, uma menina da mesma idade chamada Rocío. E todo mundo tava preparando empanadas, fazendo os repulgos ou montando uma das picadas que tinham pedido.
Tavam todos ali ajudando, com música que uma das minas tinha colocado no celular, do YouTube. Batendo papo, rindo, se divertindo e ajudando. A Betina explicava tudo pro Mateo, já que ele tava do lado. Pareciam mãe e filho.
Assim que cheguei e cumprimentei, a Betina me recrutou também pra me juntar à tropa. Fui lavar as mãos e comecei a ajudar. Meia hora depois, mais ou menos, o Mario chegou. Mas não chegou como eu temia, se fazendo de machão ou de dono da casa na minha casa. Não entrou como o cara que comia a minha mulher. Entrou como amigo, normal. Como vizinho de confiança. Cumprimentou a galera, me deu uns tapinhas no ombro enquanto eu tava com as empanadas e deu um beijo na bochecha da Betina.
Até pediu licença pra pegar algo pra beber na geladeira. Quando a Betina tentou recrutar ele também, o Mario riu. Disse que era melhor deixar com quem sabia, que ele ia fazer merda. Todo mundo sorriu. Era uma cena bonita.
E foi, até eu me aproximar da Betina pra levar uma bandeja e ela falar comigo. Disse normal, nem sequer num tom baixinho.
"Ah, amor… vou te deixar pra tu curtir o fim de semana. O Mario me chamou pra ir com ele pra Bragado, sábado e domingo. Assim tu tem o que comer, sabe?"
Eu fiquei meio duro, "Que porra é essa?"
"Bife à milanesa e tortinhas…"
"Não. Tô falando o que cê disse? Como assim vai embora?", perguntei.
Betina olhou pro Mario, que tava voando por cima dos guris na mesa, vendo o que eles faziam. Mateo, do outro lado da Betina, olhou pra mim.
Com um sorriso, Mario falou pra gente, "É, pedi pra ela me acompanhar até Bragado. Assim trago umas ferramentas de lá. De quebra a gente passeia um pouco, se distrai."
"Desculpa, e ninguém vai me perguntar?", falei meio sério.
"Bom, tô te avisando, amor…", disse Betina suave, sem olhar, continuando o serviço.
"Falei perguntar, Betina", respondi.
Senti a risada do Mario e olhei pra ele, ainda de bom humor com os guris na mesa, "Bom, bom… já foi. Já tá avisado."
"Não é isso…", comecei, mas ele me interrompeu.
"... além de que tu reclama, vão te deixar comida e tudo. Tu fica com os guris, fazem companhia um pro outro. Vão se divertir, eu acho", me sorriu.
Eu franzi a testa e ficou um silêncio meio tenso, só quebrado pela música que tocava na cozinha. Os guris tavam na deles, sem se ligar no que rolava. Os únicos que se olhavam éramos eu, Betina, Mario… e o Mateo meio que de lado tinha sacado a parada.
De repente, Mario sorriu de novo e levantou, me chamando, "Haha… Vem cá um pouco, Nico. Vem que queria te falar uma parada."
Eu fui, me limpando as mãos num pano. Mario botou a mão no meu ombro, carinhoso, e me guiou pra fora da cozinha, me contando o que ia dizer. Fomos pro quartinho extra que a gente tinha e ele pediu pra eu fechar a porta.
Assim que fiz, curioso sobre o que ele ia me falar, senti a mão dele, que ainda tava no meu ombro, de repente me agarrar forte e me empurrar com as costas na parede. Quase me fazendo quicar de tanta força e me segurando ali. ali pressionado. Eu olhei pra ele sem entender nada.
“Para! Que…”
Mario tava sério e se colocou na minha frente. Mas bem na minha frente. Não tirou a mão do meu ombro em nenhum momento e me olhava de cima, já que eu era meia cabeça mais baixo, nossas caras a centímetros, “Me escuta uma coisa, Nico.”
Eu reclamei e tentei me soltar, mas ele me segurou, “O que cê tá fazendo! Me solta…”
“Não, você vai me ouvir. Pra ver se você para de encher o saco, quer?”, ele falou sério. Meio puto.
“Que porra que cê tem?”, eu disse, encontrando os olhos dele.
“Que porra que cê tem você”, ele respondeu, “Não falei nada lá porque os meninos estavam, mas vamos ver se a gente se entende de uma vez…”
Eu já tava respirando ofegante. Com um pouco de raiva e um pouco de medo, pra ser sincero.
“No fim de semana vou levar sua mulher pra Bragado, beleza?”, ele me encarou, “Vai me ajudar a trazer umas ferramentas da oficina, vou trazer pra cá. E quando não tivermos fazendo isso, vou levá-la pra comer por aí, passear, pra ela conhecer. Bragado é muito bonito, ela vai gostar.”
“T-tá bom…”
Mario chegou mais perto e pressionou o corpo dele contra o meu. Me apertando completamente contra a parede. Chegou tão perto que tive que virar o rosto pro lado pra evitar que encostasse no dele. Dava até pra sentir a respiração dele na minha pele e alguns pelos da barba roçando meu pescoço. Ele ficou ali, me apertando forte e falando baixo no meu ouvido. Baixo, mas com a voz firme, “E quando não tivermos fazendo isso, quando estivermos no hotel, vou comer ela até não poder mais. Vou usar sua mulher. Vou meter nela gostoso, sem pressa. Beleza?”
“S-sim… tá bom…”, falei baixinho sem olhar pra ele.
“Tá bom, Nico?”, ele repetiu.
“Sim, já falei!”, gritei pra ele.
Mario ficou um tempo ali em silêncio, me pressionando com o corpo e respirando no meu ouvido. De repente senti ele me apertar bem, mas bem forte com o quadril, encostando a vara dele na minha. Foi uma sensação que eu não esperava. Engoli seco, sem saber o que fazer ou dizer. Ele deixou ali. Apertado. Pressionado. Pra ele sentir. Vi pelo canto do olho que ele olhou pra baixo, pro nada de espaço entre nossos corpos, e me perguntou baixinho: "Tá te endurecendo em você ou em mim?"
Nem fodendo que eu ia responder. Eu sabia a resposta. Ele pegou suave no meu queixo e virou meu rosto pra olhar pra ele. Nossos narizes quase colados, os olhos dele penetrando os meus sem desgrudar o corpo nem um milímetro.
"Você acha que eu tenho nojo?"
"N-não... 'tá de boa..."
"Sabe os putinhos que nem você que eu atendia quando tava na Marinha? Hã? Quer que eu conte?", ele sorriu suave.
"N-não..."
"Sabe como eles gritavam gostoso?", ele sussurrou, enfiando um pouco o rosto no meu pescoço. Senti que ele deixou um beijinho ali, bem debaixo da minha orelha, que me deu um arrepio. Meus pelos do braço ficaram em pé quando senti ele deslizar a ponta do nariz, fazendo eu sentir todo o curto trajeto até o meu. Com um sorrisinho e me olhando nos olhos, ele me deu um beijo esquimó, daqueles que se dão esfregando as pontas dos narizes.
"Para de reclamar, para de encher o saco e para de fazer cara feia, pussy.", ele disse suave, "Isso agora é assim e você sabe. Se liga."
"Ok... ok...", falei baixinho.
Mario sorriu suave. Ficamos nos olhando por uns segundos. Juro que pensei que ele ia me dar um beijo, sei lá por quê, mas no lugar ele me deu um empurrão fortíssimo com o quadril. Me fazendo sentir ainda mais o volume duro que ele carregava na calça, esfregando forte contra o meu. Naquele tom suave e baixo, íntimo só pra nós dois, ele disse: "Vê se não vou ter que pensar que a providência... em vez de colocar uma mulher nova no meu caminho, acabou me colocando duas..."
Ele sorriu e finalmente parou de me apertar, dando um passo pra trás. Sem dizer ou fazer mais nada, abriu a porta e eu vi ele voltar pra cozinha. Eu fui devagar pro banheiro, me tranquei lá por um tempo. Não fiz nada, claro. Tava nervoso e confuso. Não ia me masturbar ali com Todos os meninos em casa. Além disso, por sorte, minha ereção tinha baixado sozinha depois de um tempinho mais de boa ali.
Os dois dias que se seguiram, até que Betina e Mario foram de caminhonete pra Bragado, eu não passei nada bem. Minha mente estava em outro lugar. Tentando entender o que eu tinha sentido, o que tinha passado por dentro de mim naquele momento tão estranho. Não consegui. Eram coisas meio novas pra mim, que já tinha sentido antes na vida, mas nunca tão fortes assim, e ia ser difícil entender.
A gente tinha combinado que os meninos iam ficar em casa comigo naquele fim de semana, pra não ficarem sozinhos na casa ao lado. Betina tinha deixado uma montanha de comida pra gente nos dois dias. Mesmo que praticamente tinham me escolhido como babá voluntário, não foi ruim. A gente via os jogos de futebol na TV, levei eles pra tomar um sorvete por aí, eles se entretinham com o celular e o videogame que tinham trazido. Naquela sexta-feira não aconteceu nada. Montei o colchonete no quartinho extra e eles dormiram lá.
No sábado, porém, comecei a notar eles meio estranhos. Me olhavam diferente e estavam mais calados. E de relance, durante o dia, eu via eles conversando entre si. E me olhavam. Principalmente o Diego, o mais novo. O dia passou sem muito problema, mas tudo complicou à noite, enquanto a gente jantava na mesa da cozinha. Servi bife à milanesa com purê pra todo mundo, algo pra beber e sentamos pra comer, bem em silêncio. O Mateu tinha colocado uma música e a gente estava ali, de boa.
Até que num momento, do nada, o Diego começou a rir. Sozinho. Era como se ele estivesse mordendo a língua e se segurando, tentando aguentar uma risada que parecia não parar. Eu olhava pro menino sem entender. O Mateu tentou ignorar até não aguentar mais e deu um soco daqueles de irmão pra irmão, forte no braço dele.
"Para com isso, cara. Para de encher o saco.", falou pro irmão mais novo, sério, e voltou a comer. Diego se ajeitou um pouco e voltou a comer, dando umas risadinhas.
“Tá bem?”, perguntei olhando pra ele. Mas Diego não me olhava. Só balançava a cabeça em silêncio enquanto mastigava.
“É, deixa, não liga pra ele, Nico. É um idiota”, disse Mateo, sem interesse.
“O que foi? Aconteceu algo?”, perguntei pro Diego.
Mateo franziu a testa, “Sério, larga, Nico. Não dá bola, juro…”
“Mas o que houve, moleque?”, perguntei de novo pro Diego.
O garoto tomou um gole do refrigerante e me olhou, com um sorrisinho safado. O irmão olhava de canto pra ele enquanto comia. Com toda a naturalidade do mundo, Diego perguntou, “... é verdade que você é viado?”
Eu fiquei duro, olhando pra ele. Mateo fez cara de raiva e deu um empurrão no irmão mais novo, “Cara, você é um babaca! Cala a boca e come, pô. Para de encher o saco!”
“... o quê?”, foi a única coisa que consegui dizer, ainda olhando pro garoto.
Mateo me olhou sério, “Desculpa, Nico. Sério. Ele não quis falar na maldade, juro. É só um idiota. Não tá acostumado a ficar assim com gente gay. Desculpa…”
Eu olhei agora pro Mateo, “Como assim? Quem te disse que sou gay?”
Os dois se entreolharam um pouco e Mateo me observou, atento, como se medisse o que ia dizer, “Bom… é… meu pai falou pra gente”
“Ah, entendi”, franzi a testa.
“Mas com a gente tá tudo bem, hein?”, ele disse, “Sério. Não tem problema. Somos amigos e tal.”
“Ah, galera… bom. Pra deixar claro? Não, não sou gay. Ok?”, falei pra eles.
Os dois me olharam com aquela cara de quem não acreditava no que acabara de ouvir, mas ninguém falou nada. Continuaram comendo em silêncio. Um silêncio que agora tinha ficado estranho.
“O quê? O que foi?”, perguntei.
“Nada”
“E então?”
“Então o quê?”, Mateo me olhou.
Eu suspirei, meio frustrado, “Ah, galera, olha, se a gente vai ficar assim o fim de semana inteiro, vai ser chato. Uma merda total, na minha opinião. Se somos amigos, somos amigos. Perguntem o que quiserem.”, falei. Mas nenhum dos dois se animou a dizer algo, eu insisti, “A Veja, por que eles não acreditam em mim que não sou?"
Mateo deixou o copo na mesa e me olhou, "Nico, te... te posso falar como amigo?"
"Sim, claro. Óbvio, Mati.", eu concordei.
"Me desculpa, né? Mas como amigo...", o garoto suspirou um momento e finalmente se animou a soltar, "Meu pai tá em Bragado comendo sua mulher, mano. Como é que fica?"
Eu franzi a testa. Não curti nada a pergunta, mas não tinha como nem por que culpar o garoto. Era uma pergunta tão desconfortável quanto inevitável. Claro que eles sabiam. Porque o pai tinha contado ou porque não eram burros e tinham olhos.
"É complicado, galera..."
"Ah, tá", disse Diego e continuou comendo.
"Não, sério. Não tô fugindo da pergunta. De verdade", falei, "Mas é um assunto particular e acho que não é pra mesa"
"Ah, sim, talvez você tenha razão. É coisa de vocês dois", concordou Mateo.
"Claro", falei.
"Três", emendou Diego.
"Como?", perguntei.
O mais novo me olhou com um leve sorriso, "Três. Coisa de vocês três, digo".
A gente já tinha quase terminado de comer e eu queria mesmo encerrar essa conversa. Levantei devagar, limpando a boca com um guardanapo, e comecei a juntar os pratos de todo mundo. Não sei se Mateo se sentiu mal por tudo ou o quê, mas ele disse que estava de boa, que eles lavavam, sem problema. Fui um tempo pro banheiro, pra fazer minhas necessidades e também espairecer um pouco. Então Mario tinha dito pra eles que eu era gay. Será que ele falou na maldade, pra me humilhar na frente deles? Ou inventou isso como explicação pra ele estar com Betina? Não sabia.
Saí do banheiro e fui devagar pra cozinha. Queria pegar um copo de refrigerante e sentar pra ver um pouco de TV. Mas antes de entrar na cozinha, ouvi os dois conversando enquanto lavavam a louça.
"... mas você come ela?", escutei a voz de Diego.
"Quem, a Betina?", respondeu o irmão, "Ufa. Óbvio, otário."
"Ela é mó gostosa, mano...", emendou o mais novo.
"Um Gil bárbaro, o velho, hein?", disse Mateo e arrancou uma risadinha do irmão. "E você?"
"Eu o quê?"
"Você também come ela?"
Ouvi o mais novo rir baixinho: "Sabe como eu como ela de quatro..."
"Deve ser uma gostosa essa mina, mano..."
"Eu já dediquei umas punhetas pra ela", disse Diego, e o irmão riu.
"Umas punhetas, otário! Acha que vou acreditar? Com esse teu jeito de punheteiro. Deve estar batendo uma o dia inteiro, trouxa."
Fiquei ali ouvindo, fora do campo de visão deles. Franzi a testa. Não gostava nada que falassem assim da Betina, mas por outro lado eram dois caras. Dois adolescentes que deviam estar de pau duro o dia todo. Se eu não culpava o Mario, que de fato tava comendo ela, como ia culpar esses dois que só fantasiavam? Esperei um pouco até eles mudarem de assunto e entrei na cozinha como se nada, servindo um copo de refrigerante e indo pro sofá da sala ver um pouco de TV.
Lá pelas onze, como o Mario tinha mandado, falei pra eles irem dormir no quartinho. Diego se despediu e foi, mas o Mateo pediu pra esperar, que tava terminando de ver um vídeo no celular. Quando acabou, vi ele ir no banheiro se higienizar, me cumprimentou e foi também. Fiquei sozinho no sofá vendo um filme baixinho pra não incomodar. Mas a verdade é que não tava prestando atenção. Meus olhos viam, mas minha cabeça tava em outro lugar. Em muitos outros lugares. Não queria nem pensar no que o Mario e a Betina deviam estar fazendo em Bragado naquele momento, embora soubesse. Não queria começar a me perder por esse beco que inevitavelmente terminava numa punheta triste. Então fiquei pensando em todo o resto, que também não era lá essas coisas e era uma porrada de outras questões.
Umas meia hora depois, vi o Mateo sair do quartinho, disse que tava com sede. Vi ele ir pra cozinha e voltar com um copo de refrigerante. Ficou parado na sala, olhando de canto a TV enquanto bebia. Notei ele meio estranho, não saberia dizer exatamente como. Não era nervosismo, era outra coisa. coisa.
Ele apoiou o copo quase vazio numa mesinha e me olhou, se aproximou e sentou do meu lado, "então, Nico... queria te... bom..."
"Hmm?", falei meio sem interesse, "O que foi, Mati?"
Ele me olhou e sorriu suave, calorosamente, "Sinceramente, queria te pedir desculpa pelo que o Diego falou. Foi muito errado. Ele é um mal-educado."
Eu sorri e balancei a cabeça, "Ah, não esquenta comigo. Mas valeu."
"De nada... eu... eh... Bom, só isso.", ele disse.
"Ok", sorri pra ele. Mas ele ficou me encarando.
"Nico, eh... agora que ele dormiu, queria falar com você também. Se puder."
Eu estranhei, "Hã? Claro, lindo. O que foi?", vi que ele meio mal de repente. Abaixei o volume da TV pra prestar atenção.
"Eu, tipo... juro que acho que somos amigos, né?", ele me olhou.
"Claro, Mati", sorri pra ele. Pensei que não importava o que tava rolando com tudo, nenhum dos guris tinha culpa de nada. Se eu tava tenso com o pai, não era culpa deles.
"Eeeeh... podemos conversar? Posso... sei lá, confessar uma coisa?", ele falou com uma vozinha que eu nunca tinha ouvido.
Aí eu já fiquei alerta, "Claro, Mati. O que você acha? Aconteceu algo? Teve algum problema?"
"Cara, a verdade é que... me senti muito mal quando o idiota do meu irmão falou aquilo pra você", ele disse, "Não tem cabimento. Não tem nada a ver. Ele é um idiota."
Sorri pra ele, "Ah, já foi, Mati. Já era, tá tudo bem. Ele ainda é pequeno, não esquenta."
"Se eu te contar uma coisa, não fala nada pro meu pai?", ele perguntou.
"Quer que fique entre nós?", perguntei e ele concordou, "Sim, isso mesmo. O que foi?"
Vi o garoto engolir saliva devagar e me olhou, "Não, não aconteceu nada. É que eu... bom... sei lá... acho que também sou meio gay, sabe."
Sinceramente, não esperava por essa, mas concordei com a cabeça. Se era verdade, e não tinha por que duvidar dele por enquanto, o cara tava buscando apoio. Poder falar sobre isso com alguém. Claro que eu ia ouvir.
"Por que você diz isso?", perguntei.
Ele deu de ombros, Não sei... coisas que penso às vezes, coisas que olho. Coisas que fiz, tudo isso."
"E o que você fez, posso saber? Digo, se não for ultra privado.", sorri suavemente pra ele.
Ele me olhou, "Por favor, não conta nada pro meu pai, tá? Por favor, tô falando sério."
"Pode deixar", concordei.
Mateu olhou um pouco pra baixo, meio envergonhado ou relutante em falar, "Nada, sei lá... quando eu era mais novo, que a gente ainda tava em Bragado... bom, uma vez com um amigo a gente se pegou um pouco."
"Vocês transaram?"
"É... sim...", ele me olhou, "A gente tava por lá, sabe. Pela cidade. Entramos num prédio todo cagado que tinha, que tavam construindo, mas não tinha ninguém. Ficamos lá zuando, sei lá, até que o assunto surgiu."
"Que assunto? Seu amigo era mais velho que você?"
Ele balançou a cabeça, "Não, a gente tinha a mesma idade. Ia junto pro colégio. Mas começamos a falar das gostosas e tal. E sei lá, ficamos tão tarados que como não tinha ninguém, bom..."
Eu sorri suavemente pra ele, pra acalmar se precisasse, "Tipo... ninguém tá vendo a gente, vamos fazer pra aliviar o tesão, né?"
Mateu riu meio nervoso, "É, algo assim."
Vi ele pegar o copo e terminar o que tinha de refrigerante, esperei pra falar, "E você gostou? Ou te deu nojo ou algo assim?"
Ele balançou a cabeça, "Não, gostei sim. E ele também, acho."
"Foi só aquela vez?", perguntei.
"É, só aquela vez. Depois nunca mais."
"E imagino que você continuou pensando nisso?"
Ele concordou devagar com a cabeça e me olhou, "Sim, nunca saiu da minha cabeça. Mas... bom, também gosto de mina, hein?"
"Sim, já sei, sua namorada tava lá outro dia", falei.
"Talvez eu seja bissexual?"
Eu sorri pra ele e tomei um gole do meu refrigerante, "Olha, Mati... não tem muito mistério. Se você gosta de homem e de mulher, quer dizer que é. E tá tudo bem, hein?"
"Sim, sei que tá tudo bem. Mas sei lá, sabe. Fiquei putasso quando aquele filho da puta do Diego falou aquilo."
Concordei, "Sim, entendo. Diego não sabe, né?"
"Ninguém sabe", ele me olhou, "Só você. Você sabe."
"Bom. Valeu pela confiança, Mati. Sério mesmo.", sorri pra ele, "Tô aqui pro que você precisar."
Mateo sorriu pra mim, "Valeu... sabe... não quero falar nada porque... cê viu como meu pai é..."
"Seria um problema que você realmente não precisa, entendo."
"Claro."
Ficamos um tempinho em silêncio até que ele me perguntou: "E você, como faz?"
Eu suspirei. Mateo achava mesmo que eu era gay. A realidade era muito, mas muito mais complicada do que essa palavra sozinha. Mas o moleque procurou alguém pra confiar e eu me ofereci pra ser isso, pra ajudar ele, mesmo que fosse só ouvindo. Não era justo que eu não pudesse confiar nele, na pessoa mais improvável, na real, e não pudesse falar das minhas paradas. O cara de dezessete anos teve mais culhão que eu, evidentemente.
Respirei fundo e suspirei, "A minha parada... a minha parada é bem mais complicada que a sua, Mati."
"Então me conta, vamos ver?", ele sorriu um pouquinho e se apoiou com o cotovelo no encosto pra prestar atenção em mim.
"Fica entre a gente também?", olhei pra ele e ele soltou uma risadinha alegre.
"Óbvio."
"Olha, eu amo a Betina, adoro ela, sabe?", ele concordou, "E a real é que, se for honesto, acho que sempre tive umas coisas e uns sentimentos assim. Desejos, talvez, por homens também."
"Que nem eu."
"Bom, não sei se que nem você", olhei pra ele, "Eu nunca cheguei a fazer nada com outro cara."
"Ê? Nunca?"
Dei de ombros, "É... não. Quando tinha sua idade, tinha namoradas. O normal. E depois casei com a Betina, então... Nunca rolou e também nunca procurei. Nunca foi algo que me desesperasse também. Era algo que tava ali dentro de mim, guardado, mas que nunca precisei tirar, entende?"
"Você segurou os desejos?", ele perguntou.
"Não. Não vejo assim", falei, "Nunca precisei segurar nada porque a real é que não sentia eles. Bom, até pouco tempo não sentia."
"A Betina sabe?", ele perguntou.
Eu concordei devagar, "Sim, ela sabe. Mas também faz pouco tempo que ela sabe, não pense que foi desde o começo."
"E ela continua com você?"
"Sim, continua porque... bom, ela é Religiosa, sabe?", ele me olhou e concordou com a cabeça, "Pra ela, divórcio não é uma opção. Nem dá pra considerar. Eu sei que ela me ama e quer ficar comigo. Isso eu sei bem. A gente se ama pra caralho, os dois, mas é foda. Falei que era complicado.", eu sorri pra ele.
"E com a parada do meu velho?", ele perguntou, "Não te incomoda ela ficar com ele?"
Eu parei um momento pra responder. Não porque não sabia a resposta. Parei porque finalmente tinha chegado a hora, talvez, de ser sincero. Comigo mesmo. E poder falar aquilo em voz alta, mesmo que fosse pra esse garoto lindo que confiou em mim o suficiente pra se abrir e buscar entendimento.
"No começo incomodava, vou te falar a verdade. Mas depois... sei lá. Pra ser sincero, me excita mais do que me incomoda."
"Ver sua mulher com outro?", ele perguntou.
"Claro. Mas é foda, se ela é feliz, eu sou feliz. Separar a gente não vai se separar, sei que não vou perdê-la nem ela vai sair da minha vida. E, se ela encontrou no seu pai o cara com quem quer ficar, digo... sexualmente, então.", falei baixinho.
"Meu velho não é um cara ruim, Nico", ele disse com segurança, "Tô falando sério"
"Sim, eu sei. Sempre gostei dele", sorri pra ele.
"Você tá meio mal, mesmo assim", ele disse, "Te vejo e percebo. Pô, tô te falando, você me entende. Como seu amigo."
Eu sorri docemente pro Mateo. Ele era um cara muito bom, de coração puro, e mais maduro do que aparentava, "Sim, claro, Mati. E pode ser. A real é que agora tô com tanta merda na cabeça..."
"Imagino, sim."
"Talvez você me pergunte semana que vem, ou mês que vem, e já esteja tudo resolvido e organizado. Mas agora? Agora tô no meio de toda essa bagunça mental. Mesmo que ninguém queira de propósito, me sinto meio deslocado, sabe? Distante da Betina. Procurando meu lugar. E, bem, também lidando um pouco com meus sentimentos."
"Com seus sentimentos por homens?", ele perguntou.
Eu ri, "Pô, não, tava falando dos meus sentimentos pela Betina. Mas a parada de Os homens também. Era uma parte minha que eu achava que estava enterrada, mas agora tá vindo à tona. Preciso aprender a entender ela, igual você fez com a sua. Só que no meu caso pegou bem mais tarde do que com você.”
“É, te entendo. Eu tenho minha namorada, sabe?”, eu concordei com a cabeça, “E tá tudo bem com ela. Mas é… tem essa outra parte também, né? Acontece que a Ana também vai na igreja e tal, igual a Betina. E mano, ela tem mó dificuldade de deixar eu fazer umas coisas… De casal, tô falando.”
“Você ainda não comeu ela”, fiz uma caretinha que fez ele rir feliz.
“Não, nem fudendo!”
“Comigo foi a mesma coisa com a Betina. Tive que esperar casar pra poder dar pra ela.”, ri junto com ele.
“Nah… para de encher o saco!”
“Sério”, sorri pra ele, “Sabe como eu também sofri? Te entendo pra caralho. Tomara que se resolva logo pra você.”
“Nem ferrando que espero casar!”, ele riu alto. A gente riu junto.
E a gente se olhou bem docemente, por um tempo que pareceu longo. Eu sentia que era incrível, em toda essa situação tão incomum, ter encontrado um amigo na figura do Mateo. Inesperado, incomum, imprevisível, mas eu precisava tanto disso. Poder falar com alguém sobre isso. Me abrir. Escutar o outro. Conversar.
“Eu… é… vou dormir, eu…”, ele me olhou e se mexeu um pouco no sofá.
“Beleza, então. Até amanhã”, sorri pra ele, “Valeu pela conversa e por confiar”
“Valeu por escutar…”
A gente sorriu um pro outro e se abraçou, longo e quente, que os dois com certeza precisavam. Me deu uma paz danada ter conseguido escutar ele e talvez ajudar um pouco. Apertei ele num abraço, dei umas palmadinhas nas costas dele devagar e antes de separar, deixei um beijão na bochecha dele, “Tô aqui pro que você precisar, Mati. Quando quiser conversar, tô aqui”
Mateo me olhou com olhinhos doces e sorriu, “Bom… valeu. Mas olha que vou te encher o saco, hein?”
Eu ri, “Não incomoda, neném. Fica tranquilo. Quando quiser.”
Vi ele ir embora mais feliz, mais relaxado, e ele entrou no quartinho, fechando a porta pra dormir com o irmão. Pouco depois, fui me deitar também.
Não tenho vergonha de admitir, a essa altura, com tudo que já rolou, nada mais me envergonha, mas a verdade é que, deitado ali, sozinho na cama, no escuro, pensei no Mateo. Pensei no Mateo como homem, como um carinha. Sexualmente. Na privacidade da minha cabeça, aquilo valia, pensei. Não tava fazendo nada. Com o quanto vulnerável eu tava, mais a lapada que o Mario tinha me dado no outro dia, mais tudo que a gente conversou sobre nossos sentimentos pelo mesmo sexo, eu já tava bem excitado com esse assunto todo. E contar pro Mateo sobre meus sentimentos, meus desejos, ouvir os dele… não ajudou em nada.
E parece que ele também tava passando por algo parecido. Lá pelas duas e meia da manhã, senti ele entrar na minha quarto na ponta dos pés. Eu tava acordado e meio que levei um susto. Olhei pra ele quando se aproximou da cama, na penumbra.
“Mati?”, falei baixinho. Vi ele caminhar devagar até a cama e se enfiar debaixo dos lençóis sem fazer barulho, só de cueca, “Mati, para… o que cê tá fazendo?”, sussurrei.
“Tá tudo bem”, ouvi a voz dele. Ele deslizou debaixo dos lençóis até colar em mim. Eu tava tão pelado quanto ele, “Só queria ficar um tempo com você, nada mais.”
“Mateo, para, sério…”, falei, sentindo o coração batendo que nem um tambor no peito, “A gente não pode transar, cê tá louco…”, sussurrei.
Vi ele me olhar e me abraçar devagar, passando a mão nas minhas costas, se encostando mais em mim, “Eu sei. Não quero transar. Sei que não dá.”, ele disse.
Abracei ele também, suave. A gente se acariciou nas costas, nos rostos, nos braços. E os dois perceberam rápido a tesão que a gente tava carregando debaixo das cuecas. “Fica entre a gente…”, ouvi ele falar baixinho, o nariz dele roçando no meu.
Mateo precisava de afeto e carinho. E eu também.
Começamos a nos beijar devagar, tímidos no começo, nos dando amor e prazer assim. Suave e gostoso. Como duas pessoas que precisavam ser um pouco amadas e só. Por acaso, os dois eram homens. Ficamos nos beijando assim por um bom tempo. Um tempo longo e gostoso, enquanto nossas mãos encontraram as picas que procuravam e também as agradaram. A do Mateo era bonita e grande. Macia na minha mão e ao mesmo tempo dura por baixo da pele. Não queria pensar no que a minha devia estar sentindo na mão dele, na putaria que eu tava. Mas ele também me tocou lindo. Apesar da idade, sabia como agradar bem uma pica, fosse a dele ou de outro.
Ficamos um bom tempo, que me pareceu prazerosamente eterno assim, nos curtindo na calma do meu quarto escuro. Até que não aguentamos mais. Nós dois gozamos nossas picas com nossas bocas amantes. Nós dois demos o prazer que procurávamos assim, cuidando das nossas picas duras, colocando elas nas nossas bocas, saboreando tão gostoso. Pensei se a Betina não estaria fazendo o mesmo com o Mario naquele instante, ou se já tinham dormido, exaustos. Eu não ia comer um moleque como o Mateo, não dessa idade, mas bem que queria. Na real, assim que levei a pica dele na boca, a primeira coisa que pensei, entre ondas de prazer, era como devia ser gostoso sentir aquela pica dura e babada no meu cu. Bem, bem dentro de mim.
Nós nos agarramos assim, um no outro, e entre gemidos abafados e desesperados pra não fazer barulho, nos agradamos oralmente ao mesmo tempo. Quando o Mateo se tensionou na minha boca, meu coração deu um pulo de ansiedade, e logo provei todo o sêmen salgado dele. Me pareceu delicioso, tão delicioso quanto os gemidos de prazer dele gozando, ele com a boca cheia de mim. Engoli tudo com amor, com desejo, sentindo o calor do esperma dele descendo até meu estômago. E quando um pouco depois chegou minha vez de dar todo o amor que eu carregava, ele também tomou de bom grado, degustando e engolindo toda a porra que minha pica deu pra ele.
Terminamos e ficamos abraçados, com as cabeças nos travesseiros, nos acariciando depois do prazer que demos um ao outro. Jurando um pro outro uma E mais uma vez, ficaria só entre nós. Não íamos ser namorados, nem sequer repetiríamos aquilo. A gente tinha feito aquilo pra aliviar aquele tesão todo que os dois tavam sentindo, e só. Dei uns beijinhos carinhosos, sorrindo leve, e falei que tava tudo bem. Que tinha gostado dele ter vindo me visitar. Que adorei e que ficava por ali. Ele sorriu e concordou, me deu outro beijo, vestiu a cueca boxer de novo e se despediu num silêncio total, indo dormir de novo com o irmão. Que gato lindo que era o Mateo. Por baixo daquela pele de adolescente folgado, ele era um cara doce e sensível, só aprendendo a se sentir do jeito que vinha naturalmente, tentando equilibrar os gostos por laranjas e maçãs. Como eu também precisava começar a fazer, já grandão e otário. Mateo, com seus dezessete, se animou. Não tinha motivo pra eu não conseguir. Não tinha desculpa.
Dormi um tempo depois, me recuperando um pouco e batendo uma boa punheta. Pra exorcizar de vez os poucos demônios que ainda sobravam. Foi uma punheta bonita porque foi honesta. E foi honesta porque gozei tudo em cima da minha barriga nua, uma bagunça gostosa, imaginando como era linda a imagem do Mario me pegando e me fazendo sentir bem, mas bem mulher, do jeito que ele fazia a Betina sentir.
Naquela hora eu não sabia, mas as consequências do que a gente tinha acabado de fazer, eu e o Mateo, ia sentir na pele. Num futuro não muito distante.
Betina tinha acordado e se levantado antes de mim. Já estava fazendo o café da manhã na cozinha. Em silêncio, me espreguicei um pouco, fui até a cozinha e, abraçando ela por trás, dei um beijo suave e demorado na bochecha dela. Ela esboçou o começo de um sorriso, mas não disse nada além de "bom dia".
O que a gente tinha conversado ontem à noite antes de dormir, na intimidade do nosso leito conjugal, vai ficar por lá. Principalmente porque foram coisas muito íntimas, dos dois, que vieram um pouco à tona. Se fossem só minhas, não teria problema em contar, mas como são dela e não posso relatar umas sem as outras, não vou fazer isso.
Posso dizer que Betina me falou, meio envergonhada entre sussurros, que queria continuar se vendo com o Mario. Que o que ela tinha experimentado com ele nesse tempo foi muito forte, sexualmente falando, que isso a deixava feliz e ela não queria perder. Como se o Mario fosse a próxima etapa na evolução sexual dela, ela me deu a entender. Que no começo da vida dela, por muitos anos, ela diretamente não tinha vida sexual. Ao me conhecer e casar, ela teve, subindo de nível, e agora apareceu isso que ninguém esperava, mas que a fez subir mais um degrau.
Ela também me disse algo bem dolorido, mas que eu já desconfiava, já via chegando, e valorizei a honestidade dela. Que no dia anterior, quando o Mario a levou pro nosso quarto e eu fiquei ali, duro sem fazer nada, algo quebrou por dentro dela. Em relação a mim. Que nunca antes ela tinha me visto tão fraco e tão pisado, que talvez o pai dela, no fim das contas, tivesse razão. Nunca antes ela tinha sentido isso, até ontem. Quando não fiz nada. Quando deixei. que o Mario a pegasse na minha frente.
Perguntei baixinho, sem me irritar, onde aquilo nos deixava como casal. Onde aquilo me deixava como marido dela. Ela disse que ainda não sabia. Que me amava, disso tinha certeza. Acreditei nela. Vi nos olhos dela, na penumbra. No tom da voz dela. Que não queria me perder ou que eu saísse da vida dela. Como a gente ia cair, como marido e mulher, depois de tudo isso ela não sabia. A gente ia vendo, ela disse. Era a única coisa que ela conseguia fazer naquele momento. A única coisa que via que podia fazer, porque se separar estava totalmente fora de questão.
Também perguntei na lata, sem anestesia, se ela amava o Mario. Ela disse que não. Ou pelo menos, que não sabia. Não naquele momento. Só me disse que sentia que o Mario e os filhos dele tinham sido muito fodidos pela vida. E que o Mario fazia ela se sentir mulher de verdade, do jeito que eu nunca tinha conseguido achar um jeito de fazer.
Quando chegou a vez dela de me perguntar por que eu não tinha reagido, por que não tinha resgatado ela, digamos assim, não falei nada. Dei uma resposta que nem ela nem eu acreditávamos, mas aceitamos. Falei aquilo porque eu sabia, bem lá no fundo, na minha mente de réptil, a resposta verdadeira. E não era algo que eu quisesse contar pra Betina, ainda mais naquele momento.
Agora, enquanto eu tomava café da manhã, ficava olhando pra ela, bebendo meu café. Como ela era gostosa, mesmo assim, acabando de acordar e de roupa de casa. Nossos olhares se cruzaram e ela me deu um sorriso suave. Não sabia como ia ser tudo daí pra frente. Como as coisas iam ficar.
Por sorte, fui sacando bem rápido.
O novo jeito de viver se acomodou bem rápido. Acho que ao longo de umas duas semanas foi rolando aos poucos, até se instalar de vez. Betina continuava se vendo com o Mario de vez em quando. Sim, de vez em quando mesmo, e eu acreditava nela. Se tivessem se visto mais vezes, ela teria me contado. Mas a cada dois ou três dias eles se encontravam e transavam. Sempre era quando eu estava lá fora, trabalhando no táxi, pra não causar problema. Às vezes o Mario vinha em casa e eles faziam ali, outras vezes o Mario chamava ela na casa dele, se desse que os filhos não estivessem naquele momento, e eles faziam lá.
Quando eu voltava pra casa à tarde, já umas cinco horas, tava tudo bem e normal. No começo de tudo, eu morria por dentro pensando no que eles estariam fazendo e como. Imagens, sequências imaginárias que me excitavam pra caralho só de pensar. Eu tinha que me aliviar direto. Mas com o tempo isso foi acalmando e eu não precisava tanto. O extraordinário, se é constante, sempre se transforma inevitavelmente em ordinário.
Meu vizinho comer minha mulher passou de ser um fato catastrófico, inevitável, a ser só mais um dado da minha vida. Não sei se no nível mundano do índice de inflação, das contas de luz e coisas assim, não, mas tava por ali. Era algo que minha mulher fazia, que deixava ela muito feliz e isso, em teoria pelo menos, me deixava feliz também. Pelo menos, eu dizia pra mim mesmo, eu sabia e já não vivia perseguido e paranoico como os outros maridos que morrem pra saber o que a mulher realmente faz quando diz que vai pra uma aula de zumba, visitar uma amiga ou no médico. Pelo menos eu tinha isso.
Umas três semanas depois, foi quando o Mario apressou as coisas e fez de um jeito que me desestabilizou tanto que, de novo, eu não soube como reagir. O pior é que tudo tinha começado tão inocente.
A Betina me mandou uma mensagem uma manhã, enquanto eu tava no táxi, morta de felicidade porque tinham feito um pedido enorme de empadas. Uma das fábricas ali perto ia ter uma reunião sindical ou algo assim em uns dias e encomendaram uma barbaridade de empadas. Umas trinta dúzias. Junto com outras coisinhas pra petiscar. Parece que de tanto levar comida gostosa pros trabalhadores de lá, a notícia se espalhou. Automaticamente ela disse que sim e saiu disparada pra comprar as coisas.
Ela ficou até depois do jantar naquela noite preparando tudo e, claro, não chegou, faltava muito. No outro dia à tarde, voltei pra casa depois de largar o táxi e, ao entrar, fui pra cozinha porque ouvia música e vozes. Um pequeno batalhão tinha se instalado na cozinha. A Betina estava lá, claro, paradinha ao lado da bancada preparando as coisas. Do lado dela, o Mateo, também ajudando. Ela explicava bastante porque o cara não sacava muito, mas tava se esforçando. Sentados na mesa estavam o outro Tonelli, o Diego, o mais novo, junto com duas minas da idade dele. Uma eu conhecia de ter visto várias vezes. Era uma adolescente gatinha, morena, chamada Ana, a namoradinha do Mateo. Eu sabia que ela existia, mas finalmente a conheci. A outra era outra jovem, amiga dela, uma menina da mesma idade chamada Rocío. E todo mundo tava preparando empanadas, fazendo os repulgos ou montando uma das picadas que tinham pedido.
Tavam todos ali ajudando, com música que uma das minas tinha colocado no celular, do YouTube. Batendo papo, rindo, se divertindo e ajudando. A Betina explicava tudo pro Mateo, já que ele tava do lado. Pareciam mãe e filho.
Assim que cheguei e cumprimentei, a Betina me recrutou também pra me juntar à tropa. Fui lavar as mãos e comecei a ajudar. Meia hora depois, mais ou menos, o Mario chegou. Mas não chegou como eu temia, se fazendo de machão ou de dono da casa na minha casa. Não entrou como o cara que comia a minha mulher. Entrou como amigo, normal. Como vizinho de confiança. Cumprimentou a galera, me deu uns tapinhas no ombro enquanto eu tava com as empanadas e deu um beijo na bochecha da Betina.
Até pediu licença pra pegar algo pra beber na geladeira. Quando a Betina tentou recrutar ele também, o Mario riu. Disse que era melhor deixar com quem sabia, que ele ia fazer merda. Todo mundo sorriu. Era uma cena bonita.
E foi, até eu me aproximar da Betina pra levar uma bandeja e ela falar comigo. Disse normal, nem sequer num tom baixinho.
"Ah, amor… vou te deixar pra tu curtir o fim de semana. O Mario me chamou pra ir com ele pra Bragado, sábado e domingo. Assim tu tem o que comer, sabe?"
Eu fiquei meio duro, "Que porra é essa?"
"Bife à milanesa e tortinhas…"
"Não. Tô falando o que cê disse? Como assim vai embora?", perguntei.
Betina olhou pro Mario, que tava voando por cima dos guris na mesa, vendo o que eles faziam. Mateo, do outro lado da Betina, olhou pra mim.
Com um sorriso, Mario falou pra gente, "É, pedi pra ela me acompanhar até Bragado. Assim trago umas ferramentas de lá. De quebra a gente passeia um pouco, se distrai."
"Desculpa, e ninguém vai me perguntar?", falei meio sério.
"Bom, tô te avisando, amor…", disse Betina suave, sem olhar, continuando o serviço.
"Falei perguntar, Betina", respondi.
Senti a risada do Mario e olhei pra ele, ainda de bom humor com os guris na mesa, "Bom, bom… já foi. Já tá avisado."
"Não é isso…", comecei, mas ele me interrompeu.
"... além de que tu reclama, vão te deixar comida e tudo. Tu fica com os guris, fazem companhia um pro outro. Vão se divertir, eu acho", me sorriu.
Eu franzi a testa e ficou um silêncio meio tenso, só quebrado pela música que tocava na cozinha. Os guris tavam na deles, sem se ligar no que rolava. Os únicos que se olhavam éramos eu, Betina, Mario… e o Mateo meio que de lado tinha sacado a parada.
De repente, Mario sorriu de novo e levantou, me chamando, "Haha… Vem cá um pouco, Nico. Vem que queria te falar uma parada."
Eu fui, me limpando as mãos num pano. Mario botou a mão no meu ombro, carinhoso, e me guiou pra fora da cozinha, me contando o que ia dizer. Fomos pro quartinho extra que a gente tinha e ele pediu pra eu fechar a porta.
Assim que fiz, curioso sobre o que ele ia me falar, senti a mão dele, que ainda tava no meu ombro, de repente me agarrar forte e me empurrar com as costas na parede. Quase me fazendo quicar de tanta força e me segurando ali. ali pressionado. Eu olhei pra ele sem entender nada.
“Para! Que…”
Mario tava sério e se colocou na minha frente. Mas bem na minha frente. Não tirou a mão do meu ombro em nenhum momento e me olhava de cima, já que eu era meia cabeça mais baixo, nossas caras a centímetros, “Me escuta uma coisa, Nico.”
Eu reclamei e tentei me soltar, mas ele me segurou, “O que cê tá fazendo! Me solta…”
“Não, você vai me ouvir. Pra ver se você para de encher o saco, quer?”, ele falou sério. Meio puto.
“Que porra que cê tem?”, eu disse, encontrando os olhos dele.
“Que porra que cê tem você”, ele respondeu, “Não falei nada lá porque os meninos estavam, mas vamos ver se a gente se entende de uma vez…”
Eu já tava respirando ofegante. Com um pouco de raiva e um pouco de medo, pra ser sincero.
“No fim de semana vou levar sua mulher pra Bragado, beleza?”, ele me encarou, “Vai me ajudar a trazer umas ferramentas da oficina, vou trazer pra cá. E quando não tivermos fazendo isso, vou levá-la pra comer por aí, passear, pra ela conhecer. Bragado é muito bonito, ela vai gostar.”
“T-tá bom…”
Mario chegou mais perto e pressionou o corpo dele contra o meu. Me apertando completamente contra a parede. Chegou tão perto que tive que virar o rosto pro lado pra evitar que encostasse no dele. Dava até pra sentir a respiração dele na minha pele e alguns pelos da barba roçando meu pescoço. Ele ficou ali, me apertando forte e falando baixo no meu ouvido. Baixo, mas com a voz firme, “E quando não tivermos fazendo isso, quando estivermos no hotel, vou comer ela até não poder mais. Vou usar sua mulher. Vou meter nela gostoso, sem pressa. Beleza?”
“S-sim… tá bom…”, falei baixinho sem olhar pra ele.
“Tá bom, Nico?”, ele repetiu.
“Sim, já falei!”, gritei pra ele.
Mario ficou um tempo ali em silêncio, me pressionando com o corpo e respirando no meu ouvido. De repente senti ele me apertar bem, mas bem forte com o quadril, encostando a vara dele na minha. Foi uma sensação que eu não esperava. Engoli seco, sem saber o que fazer ou dizer. Ele deixou ali. Apertado. Pressionado. Pra ele sentir. Vi pelo canto do olho que ele olhou pra baixo, pro nada de espaço entre nossos corpos, e me perguntou baixinho: "Tá te endurecendo em você ou em mim?"
Nem fodendo que eu ia responder. Eu sabia a resposta. Ele pegou suave no meu queixo e virou meu rosto pra olhar pra ele. Nossos narizes quase colados, os olhos dele penetrando os meus sem desgrudar o corpo nem um milímetro.
"Você acha que eu tenho nojo?"
"N-não... 'tá de boa..."
"Sabe os putinhos que nem você que eu atendia quando tava na Marinha? Hã? Quer que eu conte?", ele sorriu suave.
"N-não..."
"Sabe como eles gritavam gostoso?", ele sussurrou, enfiando um pouco o rosto no meu pescoço. Senti que ele deixou um beijinho ali, bem debaixo da minha orelha, que me deu um arrepio. Meus pelos do braço ficaram em pé quando senti ele deslizar a ponta do nariz, fazendo eu sentir todo o curto trajeto até o meu. Com um sorrisinho e me olhando nos olhos, ele me deu um beijo esquimó, daqueles que se dão esfregando as pontas dos narizes.
"Para de reclamar, para de encher o saco e para de fazer cara feia, pussy.", ele disse suave, "Isso agora é assim e você sabe. Se liga."
"Ok... ok...", falei baixinho.
Mario sorriu suave. Ficamos nos olhando por uns segundos. Juro que pensei que ele ia me dar um beijo, sei lá por quê, mas no lugar ele me deu um empurrão fortíssimo com o quadril. Me fazendo sentir ainda mais o volume duro que ele carregava na calça, esfregando forte contra o meu. Naquele tom suave e baixo, íntimo só pra nós dois, ele disse: "Vê se não vou ter que pensar que a providência... em vez de colocar uma mulher nova no meu caminho, acabou me colocando duas..."
Ele sorriu e finalmente parou de me apertar, dando um passo pra trás. Sem dizer ou fazer mais nada, abriu a porta e eu vi ele voltar pra cozinha. Eu fui devagar pro banheiro, me tranquei lá por um tempo. Não fiz nada, claro. Tava nervoso e confuso. Não ia me masturbar ali com Todos os meninos em casa. Além disso, por sorte, minha ereção tinha baixado sozinha depois de um tempinho mais de boa ali.
Os dois dias que se seguiram, até que Betina e Mario foram de caminhonete pra Bragado, eu não passei nada bem. Minha mente estava em outro lugar. Tentando entender o que eu tinha sentido, o que tinha passado por dentro de mim naquele momento tão estranho. Não consegui. Eram coisas meio novas pra mim, que já tinha sentido antes na vida, mas nunca tão fortes assim, e ia ser difícil entender.
A gente tinha combinado que os meninos iam ficar em casa comigo naquele fim de semana, pra não ficarem sozinhos na casa ao lado. Betina tinha deixado uma montanha de comida pra gente nos dois dias. Mesmo que praticamente tinham me escolhido como babá voluntário, não foi ruim. A gente via os jogos de futebol na TV, levei eles pra tomar um sorvete por aí, eles se entretinham com o celular e o videogame que tinham trazido. Naquela sexta-feira não aconteceu nada. Montei o colchonete no quartinho extra e eles dormiram lá.
No sábado, porém, comecei a notar eles meio estranhos. Me olhavam diferente e estavam mais calados. E de relance, durante o dia, eu via eles conversando entre si. E me olhavam. Principalmente o Diego, o mais novo. O dia passou sem muito problema, mas tudo complicou à noite, enquanto a gente jantava na mesa da cozinha. Servi bife à milanesa com purê pra todo mundo, algo pra beber e sentamos pra comer, bem em silêncio. O Mateu tinha colocado uma música e a gente estava ali, de boa.
Até que num momento, do nada, o Diego começou a rir. Sozinho. Era como se ele estivesse mordendo a língua e se segurando, tentando aguentar uma risada que parecia não parar. Eu olhava pro menino sem entender. O Mateu tentou ignorar até não aguentar mais e deu um soco daqueles de irmão pra irmão, forte no braço dele.
"Para com isso, cara. Para de encher o saco.", falou pro irmão mais novo, sério, e voltou a comer. Diego se ajeitou um pouco e voltou a comer, dando umas risadinhas.
“Tá bem?”, perguntei olhando pra ele. Mas Diego não me olhava. Só balançava a cabeça em silêncio enquanto mastigava.
“É, deixa, não liga pra ele, Nico. É um idiota”, disse Mateo, sem interesse.
“O que foi? Aconteceu algo?”, perguntei pro Diego.
Mateo franziu a testa, “Sério, larga, Nico. Não dá bola, juro…”
“Mas o que houve, moleque?”, perguntei de novo pro Diego.
O garoto tomou um gole do refrigerante e me olhou, com um sorrisinho safado. O irmão olhava de canto pra ele enquanto comia. Com toda a naturalidade do mundo, Diego perguntou, “... é verdade que você é viado?”
Eu fiquei duro, olhando pra ele. Mateo fez cara de raiva e deu um empurrão no irmão mais novo, “Cara, você é um babaca! Cala a boca e come, pô. Para de encher o saco!”
“... o quê?”, foi a única coisa que consegui dizer, ainda olhando pro garoto.
Mateo me olhou sério, “Desculpa, Nico. Sério. Ele não quis falar na maldade, juro. É só um idiota. Não tá acostumado a ficar assim com gente gay. Desculpa…”
Eu olhei agora pro Mateo, “Como assim? Quem te disse que sou gay?”
Os dois se entreolharam um pouco e Mateo me observou, atento, como se medisse o que ia dizer, “Bom… é… meu pai falou pra gente”
“Ah, entendi”, franzi a testa.
“Mas com a gente tá tudo bem, hein?”, ele disse, “Sério. Não tem problema. Somos amigos e tal.”
“Ah, galera… bom. Pra deixar claro? Não, não sou gay. Ok?”, falei pra eles.
Os dois me olharam com aquela cara de quem não acreditava no que acabara de ouvir, mas ninguém falou nada. Continuaram comendo em silêncio. Um silêncio que agora tinha ficado estranho.
“O quê? O que foi?”, perguntei.
“Nada”
“E então?”
“Então o quê?”, Mateo me olhou.
Eu suspirei, meio frustrado, “Ah, galera, olha, se a gente vai ficar assim o fim de semana inteiro, vai ser chato. Uma merda total, na minha opinião. Se somos amigos, somos amigos. Perguntem o que quiserem.”, falei. Mas nenhum dos dois se animou a dizer algo, eu insisti, “A Veja, por que eles não acreditam em mim que não sou?"
Mateo deixou o copo na mesa e me olhou, "Nico, te... te posso falar como amigo?"
"Sim, claro. Óbvio, Mati.", eu concordei.
"Me desculpa, né? Mas como amigo...", o garoto suspirou um momento e finalmente se animou a soltar, "Meu pai tá em Bragado comendo sua mulher, mano. Como é que fica?"
Eu franzi a testa. Não curti nada a pergunta, mas não tinha como nem por que culpar o garoto. Era uma pergunta tão desconfortável quanto inevitável. Claro que eles sabiam. Porque o pai tinha contado ou porque não eram burros e tinham olhos.
"É complicado, galera..."
"Ah, tá", disse Diego e continuou comendo.
"Não, sério. Não tô fugindo da pergunta. De verdade", falei, "Mas é um assunto particular e acho que não é pra mesa"
"Ah, sim, talvez você tenha razão. É coisa de vocês dois", concordou Mateo.
"Claro", falei.
"Três", emendou Diego.
"Como?", perguntei.
O mais novo me olhou com um leve sorriso, "Três. Coisa de vocês três, digo".
A gente já tinha quase terminado de comer e eu queria mesmo encerrar essa conversa. Levantei devagar, limpando a boca com um guardanapo, e comecei a juntar os pratos de todo mundo. Não sei se Mateo se sentiu mal por tudo ou o quê, mas ele disse que estava de boa, que eles lavavam, sem problema. Fui um tempo pro banheiro, pra fazer minhas necessidades e também espairecer um pouco. Então Mario tinha dito pra eles que eu era gay. Será que ele falou na maldade, pra me humilhar na frente deles? Ou inventou isso como explicação pra ele estar com Betina? Não sabia.
Saí do banheiro e fui devagar pra cozinha. Queria pegar um copo de refrigerante e sentar pra ver um pouco de TV. Mas antes de entrar na cozinha, ouvi os dois conversando enquanto lavavam a louça.
"... mas você come ela?", escutei a voz de Diego.
"Quem, a Betina?", respondeu o irmão, "Ufa. Óbvio, otário."
"Ela é mó gostosa, mano...", emendou o mais novo.
"Um Gil bárbaro, o velho, hein?", disse Mateo e arrancou uma risadinha do irmão. "E você?"
"Eu o quê?"
"Você também come ela?"
Ouvi o mais novo rir baixinho: "Sabe como eu como ela de quatro..."
"Deve ser uma gostosa essa mina, mano..."
"Eu já dediquei umas punhetas pra ela", disse Diego, e o irmão riu.
"Umas punhetas, otário! Acha que vou acreditar? Com esse teu jeito de punheteiro. Deve estar batendo uma o dia inteiro, trouxa."
Fiquei ali ouvindo, fora do campo de visão deles. Franzi a testa. Não gostava nada que falassem assim da Betina, mas por outro lado eram dois caras. Dois adolescentes que deviam estar de pau duro o dia todo. Se eu não culpava o Mario, que de fato tava comendo ela, como ia culpar esses dois que só fantasiavam? Esperei um pouco até eles mudarem de assunto e entrei na cozinha como se nada, servindo um copo de refrigerante e indo pro sofá da sala ver um pouco de TV.
Lá pelas onze, como o Mario tinha mandado, falei pra eles irem dormir no quartinho. Diego se despediu e foi, mas o Mateo pediu pra esperar, que tava terminando de ver um vídeo no celular. Quando acabou, vi ele ir no banheiro se higienizar, me cumprimentou e foi também. Fiquei sozinho no sofá vendo um filme baixinho pra não incomodar. Mas a verdade é que não tava prestando atenção. Meus olhos viam, mas minha cabeça tava em outro lugar. Em muitos outros lugares. Não queria nem pensar no que o Mario e a Betina deviam estar fazendo em Bragado naquele momento, embora soubesse. Não queria começar a me perder por esse beco que inevitavelmente terminava numa punheta triste. Então fiquei pensando em todo o resto, que também não era lá essas coisas e era uma porrada de outras questões.
Umas meia hora depois, vi o Mateo sair do quartinho, disse que tava com sede. Vi ele ir pra cozinha e voltar com um copo de refrigerante. Ficou parado na sala, olhando de canto a TV enquanto bebia. Notei ele meio estranho, não saberia dizer exatamente como. Não era nervosismo, era outra coisa. coisa.
Ele apoiou o copo quase vazio numa mesinha e me olhou, se aproximou e sentou do meu lado, "então, Nico... queria te... bom..."
"Hmm?", falei meio sem interesse, "O que foi, Mati?"
Ele me olhou e sorriu suave, calorosamente, "Sinceramente, queria te pedir desculpa pelo que o Diego falou. Foi muito errado. Ele é um mal-educado."
Eu sorri e balancei a cabeça, "Ah, não esquenta comigo. Mas valeu."
"De nada... eu... eh... Bom, só isso.", ele disse.
"Ok", sorri pra ele. Mas ele ficou me encarando.
"Nico, eh... agora que ele dormiu, queria falar com você também. Se puder."
Eu estranhei, "Hã? Claro, lindo. O que foi?", vi que ele meio mal de repente. Abaixei o volume da TV pra prestar atenção.
"Eu, tipo... juro que acho que somos amigos, né?", ele me olhou.
"Claro, Mati", sorri pra ele. Pensei que não importava o que tava rolando com tudo, nenhum dos guris tinha culpa de nada. Se eu tava tenso com o pai, não era culpa deles.
"Eeeeh... podemos conversar? Posso... sei lá, confessar uma coisa?", ele falou com uma vozinha que eu nunca tinha ouvido.
Aí eu já fiquei alerta, "Claro, Mati. O que você acha? Aconteceu algo? Teve algum problema?"
"Cara, a verdade é que... me senti muito mal quando o idiota do meu irmão falou aquilo pra você", ele disse, "Não tem cabimento. Não tem nada a ver. Ele é um idiota."
Sorri pra ele, "Ah, já foi, Mati. Já era, tá tudo bem. Ele ainda é pequeno, não esquenta."
"Se eu te contar uma coisa, não fala nada pro meu pai?", ele perguntou.
"Quer que fique entre nós?", perguntei e ele concordou, "Sim, isso mesmo. O que foi?"
Vi o garoto engolir saliva devagar e me olhou, "Não, não aconteceu nada. É que eu... bom... sei lá... acho que também sou meio gay, sabe."
Sinceramente, não esperava por essa, mas concordei com a cabeça. Se era verdade, e não tinha por que duvidar dele por enquanto, o cara tava buscando apoio. Poder falar sobre isso com alguém. Claro que eu ia ouvir.
"Por que você diz isso?", perguntei.
Ele deu de ombros, Não sei... coisas que penso às vezes, coisas que olho. Coisas que fiz, tudo isso."
"E o que você fez, posso saber? Digo, se não for ultra privado.", sorri suavemente pra ele.
Ele me olhou, "Por favor, não conta nada pro meu pai, tá? Por favor, tô falando sério."
"Pode deixar", concordei.
Mateu olhou um pouco pra baixo, meio envergonhado ou relutante em falar, "Nada, sei lá... quando eu era mais novo, que a gente ainda tava em Bragado... bom, uma vez com um amigo a gente se pegou um pouco."
"Vocês transaram?"
"É... sim...", ele me olhou, "A gente tava por lá, sabe. Pela cidade. Entramos num prédio todo cagado que tinha, que tavam construindo, mas não tinha ninguém. Ficamos lá zuando, sei lá, até que o assunto surgiu."
"Que assunto? Seu amigo era mais velho que você?"
Ele balançou a cabeça, "Não, a gente tinha a mesma idade. Ia junto pro colégio. Mas começamos a falar das gostosas e tal. E sei lá, ficamos tão tarados que como não tinha ninguém, bom..."
Eu sorri suavemente pra ele, pra acalmar se precisasse, "Tipo... ninguém tá vendo a gente, vamos fazer pra aliviar o tesão, né?"
Mateu riu meio nervoso, "É, algo assim."
Vi ele pegar o copo e terminar o que tinha de refrigerante, esperei pra falar, "E você gostou? Ou te deu nojo ou algo assim?"
Ele balançou a cabeça, "Não, gostei sim. E ele também, acho."
"Foi só aquela vez?", perguntei.
"É, só aquela vez. Depois nunca mais."
"E imagino que você continuou pensando nisso?"
Ele concordou devagar com a cabeça e me olhou, "Sim, nunca saiu da minha cabeça. Mas... bom, também gosto de mina, hein?"
"Sim, já sei, sua namorada tava lá outro dia", falei.
"Talvez eu seja bissexual?"
Eu sorri pra ele e tomei um gole do meu refrigerante, "Olha, Mati... não tem muito mistério. Se você gosta de homem e de mulher, quer dizer que é. E tá tudo bem, hein?"
"Sim, sei que tá tudo bem. Mas sei lá, sabe. Fiquei putasso quando aquele filho da puta do Diego falou aquilo."
Concordei, "Sim, entendo. Diego não sabe, né?"
"Ninguém sabe", ele me olhou, "Só você. Você sabe."
"Bom. Valeu pela confiança, Mati. Sério mesmo.", sorri pra ele, "Tô aqui pro que você precisar."
Mateo sorriu pra mim, "Valeu... sabe... não quero falar nada porque... cê viu como meu pai é..."
"Seria um problema que você realmente não precisa, entendo."
"Claro."
Ficamos um tempinho em silêncio até que ele me perguntou: "E você, como faz?"
Eu suspirei. Mateo achava mesmo que eu era gay. A realidade era muito, mas muito mais complicada do que essa palavra sozinha. Mas o moleque procurou alguém pra confiar e eu me ofereci pra ser isso, pra ajudar ele, mesmo que fosse só ouvindo. Não era justo que eu não pudesse confiar nele, na pessoa mais improvável, na real, e não pudesse falar das minhas paradas. O cara de dezessete anos teve mais culhão que eu, evidentemente.
Respirei fundo e suspirei, "A minha parada... a minha parada é bem mais complicada que a sua, Mati."
"Então me conta, vamos ver?", ele sorriu um pouquinho e se apoiou com o cotovelo no encosto pra prestar atenção em mim.
"Fica entre a gente também?", olhei pra ele e ele soltou uma risadinha alegre.
"Óbvio."
"Olha, eu amo a Betina, adoro ela, sabe?", ele concordou, "E a real é que, se for honesto, acho que sempre tive umas coisas e uns sentimentos assim. Desejos, talvez, por homens também."
"Que nem eu."
"Bom, não sei se que nem você", olhei pra ele, "Eu nunca cheguei a fazer nada com outro cara."
"Ê? Nunca?"
Dei de ombros, "É... não. Quando tinha sua idade, tinha namoradas. O normal. E depois casei com a Betina, então... Nunca rolou e também nunca procurei. Nunca foi algo que me desesperasse também. Era algo que tava ali dentro de mim, guardado, mas que nunca precisei tirar, entende?"
"Você segurou os desejos?", ele perguntou.
"Não. Não vejo assim", falei, "Nunca precisei segurar nada porque a real é que não sentia eles. Bom, até pouco tempo não sentia."
"A Betina sabe?", ele perguntou.
Eu concordei devagar, "Sim, ela sabe. Mas também faz pouco tempo que ela sabe, não pense que foi desde o começo."
"E ela continua com você?"
"Sim, continua porque... bom, ela é Religiosa, sabe?", ele me olhou e concordou com a cabeça, "Pra ela, divórcio não é uma opção. Nem dá pra considerar. Eu sei que ela me ama e quer ficar comigo. Isso eu sei bem. A gente se ama pra caralho, os dois, mas é foda. Falei que era complicado.", eu sorri pra ele.
"E com a parada do meu velho?", ele perguntou, "Não te incomoda ela ficar com ele?"
Eu parei um momento pra responder. Não porque não sabia a resposta. Parei porque finalmente tinha chegado a hora, talvez, de ser sincero. Comigo mesmo. E poder falar aquilo em voz alta, mesmo que fosse pra esse garoto lindo que confiou em mim o suficiente pra se abrir e buscar entendimento.
"No começo incomodava, vou te falar a verdade. Mas depois... sei lá. Pra ser sincero, me excita mais do que me incomoda."
"Ver sua mulher com outro?", ele perguntou.
"Claro. Mas é foda, se ela é feliz, eu sou feliz. Separar a gente não vai se separar, sei que não vou perdê-la nem ela vai sair da minha vida. E, se ela encontrou no seu pai o cara com quem quer ficar, digo... sexualmente, então.", falei baixinho.
"Meu velho não é um cara ruim, Nico", ele disse com segurança, "Tô falando sério"
"Sim, eu sei. Sempre gostei dele", sorri pra ele.
"Você tá meio mal, mesmo assim", ele disse, "Te vejo e percebo. Pô, tô te falando, você me entende. Como seu amigo."
Eu sorri docemente pro Mateo. Ele era um cara muito bom, de coração puro, e mais maduro do que aparentava, "Sim, claro, Mati. E pode ser. A real é que agora tô com tanta merda na cabeça..."
"Imagino, sim."
"Talvez você me pergunte semana que vem, ou mês que vem, e já esteja tudo resolvido e organizado. Mas agora? Agora tô no meio de toda essa bagunça mental. Mesmo que ninguém queira de propósito, me sinto meio deslocado, sabe? Distante da Betina. Procurando meu lugar. E, bem, também lidando um pouco com meus sentimentos."
"Com seus sentimentos por homens?", ele perguntou.
Eu ri, "Pô, não, tava falando dos meus sentimentos pela Betina. Mas a parada de Os homens também. Era uma parte minha que eu achava que estava enterrada, mas agora tá vindo à tona. Preciso aprender a entender ela, igual você fez com a sua. Só que no meu caso pegou bem mais tarde do que com você.”
“É, te entendo. Eu tenho minha namorada, sabe?”, eu concordei com a cabeça, “E tá tudo bem com ela. Mas é… tem essa outra parte também, né? Acontece que a Ana também vai na igreja e tal, igual a Betina. E mano, ela tem mó dificuldade de deixar eu fazer umas coisas… De casal, tô falando.”
“Você ainda não comeu ela”, fiz uma caretinha que fez ele rir feliz.
“Não, nem fudendo!”
“Comigo foi a mesma coisa com a Betina. Tive que esperar casar pra poder dar pra ela.”, ri junto com ele.
“Nah… para de encher o saco!”
“Sério”, sorri pra ele, “Sabe como eu também sofri? Te entendo pra caralho. Tomara que se resolva logo pra você.”
“Nem ferrando que espero casar!”, ele riu alto. A gente riu junto.
E a gente se olhou bem docemente, por um tempo que pareceu longo. Eu sentia que era incrível, em toda essa situação tão incomum, ter encontrado um amigo na figura do Mateo. Inesperado, incomum, imprevisível, mas eu precisava tanto disso. Poder falar com alguém sobre isso. Me abrir. Escutar o outro. Conversar.
“Eu… é… vou dormir, eu…”, ele me olhou e se mexeu um pouco no sofá.
“Beleza, então. Até amanhã”, sorri pra ele, “Valeu pela conversa e por confiar”
“Valeu por escutar…”
A gente sorriu um pro outro e se abraçou, longo e quente, que os dois com certeza precisavam. Me deu uma paz danada ter conseguido escutar ele e talvez ajudar um pouco. Apertei ele num abraço, dei umas palmadinhas nas costas dele devagar e antes de separar, deixei um beijão na bochecha dele, “Tô aqui pro que você precisar, Mati. Quando quiser conversar, tô aqui”
Mateo me olhou com olhinhos doces e sorriu, “Bom… valeu. Mas olha que vou te encher o saco, hein?”
Eu ri, “Não incomoda, neném. Fica tranquilo. Quando quiser.”
Vi ele ir embora mais feliz, mais relaxado, e ele entrou no quartinho, fechando a porta pra dormir com o irmão. Pouco depois, fui me deitar também.
Não tenho vergonha de admitir, a essa altura, com tudo que já rolou, nada mais me envergonha, mas a verdade é que, deitado ali, sozinho na cama, no escuro, pensei no Mateo. Pensei no Mateo como homem, como um carinha. Sexualmente. Na privacidade da minha cabeça, aquilo valia, pensei. Não tava fazendo nada. Com o quanto vulnerável eu tava, mais a lapada que o Mario tinha me dado no outro dia, mais tudo que a gente conversou sobre nossos sentimentos pelo mesmo sexo, eu já tava bem excitado com esse assunto todo. E contar pro Mateo sobre meus sentimentos, meus desejos, ouvir os dele… não ajudou em nada.
E parece que ele também tava passando por algo parecido. Lá pelas duas e meia da manhã, senti ele entrar na minha quarto na ponta dos pés. Eu tava acordado e meio que levei um susto. Olhei pra ele quando se aproximou da cama, na penumbra.
“Mati?”, falei baixinho. Vi ele caminhar devagar até a cama e se enfiar debaixo dos lençóis sem fazer barulho, só de cueca, “Mati, para… o que cê tá fazendo?”, sussurrei.
“Tá tudo bem”, ouvi a voz dele. Ele deslizou debaixo dos lençóis até colar em mim. Eu tava tão pelado quanto ele, “Só queria ficar um tempo com você, nada mais.”
“Mateo, para, sério…”, falei, sentindo o coração batendo que nem um tambor no peito, “A gente não pode transar, cê tá louco…”, sussurrei.
Vi ele me olhar e me abraçar devagar, passando a mão nas minhas costas, se encostando mais em mim, “Eu sei. Não quero transar. Sei que não dá.”, ele disse.
Abracei ele também, suave. A gente se acariciou nas costas, nos rostos, nos braços. E os dois perceberam rápido a tesão que a gente tava carregando debaixo das cuecas. “Fica entre a gente…”, ouvi ele falar baixinho, o nariz dele roçando no meu.
Mateo precisava de afeto e carinho. E eu também.
Começamos a nos beijar devagar, tímidos no começo, nos dando amor e prazer assim. Suave e gostoso. Como duas pessoas que precisavam ser um pouco amadas e só. Por acaso, os dois eram homens. Ficamos nos beijando assim por um bom tempo. Um tempo longo e gostoso, enquanto nossas mãos encontraram as picas que procuravam e também as agradaram. A do Mateo era bonita e grande. Macia na minha mão e ao mesmo tempo dura por baixo da pele. Não queria pensar no que a minha devia estar sentindo na mão dele, na putaria que eu tava. Mas ele também me tocou lindo. Apesar da idade, sabia como agradar bem uma pica, fosse a dele ou de outro.
Ficamos um bom tempo, que me pareceu prazerosamente eterno assim, nos curtindo na calma do meu quarto escuro. Até que não aguentamos mais. Nós dois gozamos nossas picas com nossas bocas amantes. Nós dois demos o prazer que procurávamos assim, cuidando das nossas picas duras, colocando elas nas nossas bocas, saboreando tão gostoso. Pensei se a Betina não estaria fazendo o mesmo com o Mario naquele instante, ou se já tinham dormido, exaustos. Eu não ia comer um moleque como o Mateo, não dessa idade, mas bem que queria. Na real, assim que levei a pica dele na boca, a primeira coisa que pensei, entre ondas de prazer, era como devia ser gostoso sentir aquela pica dura e babada no meu cu. Bem, bem dentro de mim.
Nós nos agarramos assim, um no outro, e entre gemidos abafados e desesperados pra não fazer barulho, nos agradamos oralmente ao mesmo tempo. Quando o Mateo se tensionou na minha boca, meu coração deu um pulo de ansiedade, e logo provei todo o sêmen salgado dele. Me pareceu delicioso, tão delicioso quanto os gemidos de prazer dele gozando, ele com a boca cheia de mim. Engoli tudo com amor, com desejo, sentindo o calor do esperma dele descendo até meu estômago. E quando um pouco depois chegou minha vez de dar todo o amor que eu carregava, ele também tomou de bom grado, degustando e engolindo toda a porra que minha pica deu pra ele.
Terminamos e ficamos abraçados, com as cabeças nos travesseiros, nos acariciando depois do prazer que demos um ao outro. Jurando um pro outro uma E mais uma vez, ficaria só entre nós. Não íamos ser namorados, nem sequer repetiríamos aquilo. A gente tinha feito aquilo pra aliviar aquele tesão todo que os dois tavam sentindo, e só. Dei uns beijinhos carinhosos, sorrindo leve, e falei que tava tudo bem. Que tinha gostado dele ter vindo me visitar. Que adorei e que ficava por ali. Ele sorriu e concordou, me deu outro beijo, vestiu a cueca boxer de novo e se despediu num silêncio total, indo dormir de novo com o irmão. Que gato lindo que era o Mateo. Por baixo daquela pele de adolescente folgado, ele era um cara doce e sensível, só aprendendo a se sentir do jeito que vinha naturalmente, tentando equilibrar os gostos por laranjas e maçãs. Como eu também precisava começar a fazer, já grandão e otário. Mateo, com seus dezessete, se animou. Não tinha motivo pra eu não conseguir. Não tinha desculpa.
Dormi um tempo depois, me recuperando um pouco e batendo uma boa punheta. Pra exorcizar de vez os poucos demônios que ainda sobravam. Foi uma punheta bonita porque foi honesta. E foi honesta porque gozei tudo em cima da minha barriga nua, uma bagunça gostosa, imaginando como era linda a imagem do Mario me pegando e me fazendo sentir bem, mas bem mulher, do jeito que ele fazia a Betina sentir.
Naquela hora eu não sabia, mas as consequências do que a gente tinha acabado de fazer, eu e o Mateo, ia sentir na pele. Num futuro não muito distante.
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