Continuação de: http://www.poringa.net/posts/relatos/5730267/Esclava-rusa-7.html
A balsa se aproximava do cruzeiro, o som da costa já tinha sumido fazia tempo e agora só restavam os murmúrios do pessoal que vinha na balsa.
Lá longe, o sol mal era um pequeno feixe de luz alaranjado e tímido atrás da vila de Dzhubga.
Alina continuava de joelhos, abraçada na minha cintura, e minha mão ainda pousada na cabeça dela. Os poucos passageiros que estavam com a gente nos assentos da proa ficaram olhando pra ela por um instante, se perguntando o que tinha acontecido.
A balsa se aproximava pela lateral do cruzeiro e dava pra ver a entrada, marcada por um balcão no casco com uma rampa levadiça. Acordei Alina do transe dela e apontei pro cruzeiro; de boca aberta, ela tentou se levantar, mas minha mão no ombro dela segurou. Não era hora de ficar impressionada, alguns turistas na proa chegavam perto das grades pra tirar foto do cruzeiro imponente. Agora ficava claro o motivo de não estar perto da terra. Era impossível se sustentar numa profundidade menor.
A balsa minúscula ancorou a uns 5 metros do balcão e a rampa foi estendida pra alcançar o convés da balsa.
Os funcionários da balsa organizaram as filas e os funcionários do cruzeiro esperavam no balcão, conferindo os bilhetes e os papéis de forma superficial.
A gente se colocou na fila, Alina me segurou pelo braço esquerdo, onde eu levava a mala, enquanto continuava de boca aberta olhando pro cruzeiro. Eu sorri disfarçado enquanto segurava nossos papéis e bilhetes.
— Ahm... Marco...
— O que foi? — A fila andava devagar apesar dos quatro funcionários conferindo papéis na borda, e a segunda balsa com passageiros já dava pra ver lá longe.
— Quanto tempo a gente vai ficar nesse navio?
— Boa pergunta... De avião levaria menos de um dia, aqui não tenho certeza. Talvez um mês, no máximo.
— É tipo uma cidade... — Eu assenti, levantando o indicador na frente. nos lábios. Queria evitar olhares suspeitos, mesmo que uma escrava não fosse a primeira opção de todo mundo, ainda assim sobravam motivos pra garota ser tão ingênua e fácil de surpreender.
Aproximei meu rosto da bochecha dela e dei um beijo.
— Tenta agir como se isso não te surpreendesse, precisamos passar despercebidos, evitar as pessoas. No quarto você pode se impressionar à vontade, aqui é perigoso — sussurrei no ouvido dela, no que pareceu o abraço mais longo de uma fila de balsa. — Tô apaixonado por você — concluí depois de me afastar do rosto dela.
Uma sombra avermelhada iluminou as bochechas dela e fez ela desviar o olhar pro pouco de entardecer que restava. A cidade ia se perdendo na penumbra, e ainda assim suas luzes piscavam na costa.
A fila avançava quase no mesmo ritmo que o sol sumia atrás do Oeste, a fila diminuía, a segunda balsa se aproximava e Alina se recostava no meu ombro, esperando ansiosa pra ver o interior daquele colosso todo.
O funcionário nos observou e estendeu a mão, pegou os bilhetes e, ao ver o quarto, pareceu animado. Conferiu os passaportes e nos olhou de novo, desconfiado.
— Precisam do serviço especial?
— Posso consultar com o responsável e avisar vocês, ou essa é minha única chance?
— Pode consultar. O quarto de vocês fica no terceiro nível a partir do convés.
— Muito obrigado.
— O que é o serviço es...? — Alina nos lançou um olhar hesitante.
— Ah, é só acesso ao cassino, bar e essas coisas fora de hora, amor — interrompi, dando um empurrão discreto nela em direção às escadas. Enquanto subíamos, minha expressão foi se endurecendo.
— Fiz algo errado, meu senhor? — a voz dela começou a tremer.
Ficamos em silêncio até subir no convés e, de lá, continuamos subindo até o terceiro andar, onde encontramos o quarto depois de vasculhar entre a simples divisão em cruz dos cômodos.
O interior do navio consistia, na maior parte, em paredes metálicas revestidas de drywall e piso, provavelmente, de imitação de madeira, para Aliviar o navio. Não tinha muitos móveis nos corredores, provavelmente pra evitar que caíssem em caso de tempestade, e os poucos que tinham eram leves e dava pra notar que estavam bem presos ao chão.
A porta de madeira com o número 56 numa placa de metal dourado nos convidava a entrar, e, depois de abrir a porta e deixar Alina passar, fechei com o máximo de cuidado que pude.
— Vamos ver. Você não fez nada tão ruim assim. Só uma bobagem, detalhes, claro.
— Desculpa, não vou fazer de novo. — Ela baixou a cabeça e segurou a mala na frente dela, não como um escudo, mas mais como uma bengala. Fui até o primeiro sofá que vi depois de largar minha mala perto da cama.
— Não. Vou te explicar o que aconteceu, pra você não cometer o mesmo erro de novo. Tá bem? — Alina assentiu — Pode ir arrumando nossas roupas enquanto eu explico, ou pode sentar; não fica aí parada, deve ser desconfortável. — Ela assentiu e encostou nossas malas juntas enquanto tirava as roupas e as organizava por tipo: calças, camisas, meias. — A pessoa que eu conheço costuma ajudar imigrantes ilegais, gente fugindo ou coisas assim a ir pra outros países. Depende da distância, é o que ela cobra. Ninguém, absolutamente ninguém sabe que você é uma escrava; a tripulação, pelo menos a que tá por dentro, acha que você é uma ilegal tentando finalmente ir morar com seu parceiro. Obviamente é uma história cheia de buracos porque claramente você já tem documentos. A ideia é que eu paguei por este quarto, mas não vamos estar registrados, só eu. Um membro da tripulação vai cuidar de registrar minha saída quando chegarmos no meu país.
— Então por que eu tenho documentos, senhor?
— Por precaução. — Alina não entendeu — Pensa que, se algo der errado e a gente tiver que passar pelo controle de imigração, pelo menos já temos um peso a menos. Pensa que, se alguém suspeitar que você é ilegal, a gente pode provar que você tem documentos e tem uma passagem do cruzeiro. Pensa que, no final, a gente não pode ficar no navio e temos que usar avião. Tudo tem um risco. Cometi muitos erros nessa viagem e o mínimo que espero é que por uma frase suspeita tudo desabe. Podíamos ter ido devagar e te transformar numa cidadã completa, com documentos de verdade, ainda assim você seria minha escrava na prática, e seguiríamos com a mesma história de que você é minha parceira, mas ainda assim deixaria dúvidas tipo: Como nos conhecemos? Pelo menos com essa via temos a opção de contar uma história mais elaborada e não vai precisar ser pro governo.
— Amo... — Alina se ajoelhou na minha frente. — Vou tomar cuidado. Como nos conhecemos...? E também... Como você ficou sabendo da minha existência?
— Como nos conhecemos... Internet? É algo que vamos ter que elaborar se perguntarem, não podemos deixar detalhes soltos. Sobre sua existência... Um dos migrantes que meu conhecido ajudou a passar mencionou a existência de povoados esquecidos por Deus, que vendiam escravos, citou Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Letônia. Decidi escolher a Rússia. Não foi fácil encontrar os vilarejos, tive que perguntar em outros lugares, me fiz passar por agente da ONU investigando os boatos pra conseguir informação dos moralistas e tive que revelar minhas intenções pros que não eram. Encontrei 3 povoados que vendiam escravos; mencionaram mais, pelo menos 14, mas já estavam a oeste de Moscou e nessa área era mais seguro ir de país em país. Vi umas 20 escravas em 2 dias. Alguns as colocavam em fila, outros as tinham individualmente.
— E por que você me escolheu? — perguntou, descansando a cabeça nas minhas pernas como um cachorrinho.
— Você era a melhor de todas. — Ela sorriu com carinho e pegou minha mão pra beijar os nós dos dedos.
— Obrigada, amo. — Sorria segurando minha mão contra a bochecha.
— Tá bem, vai tomar um banho, tenho que fazer uma ligação.
— Sim! — levantou rápido e começou a se despir na minha frente, o convite era óbvio, mas ainda não era hora.
A ligação durou pouco, Meu contato se mostrava aberto a ideias. Só confirmou o necessário. Faríamos paradas em Istambul, Çanakkale, Atenas, Cagliari e Gibraltar; daí tem que ter cuidado porque o barco termina em Miami e repete o trajeto de Cancún pra Europa.
Quando Alina saiu do banheiro, com a toalha enrolada na cintura e secando o cabelo com outra toalha, só viu escuridão. Atrás dela, a porta do banheiro deslizou e o estalo do alumínio fez ela se virar depressa. A mão no pescoço e os empurrões seguidos faziam ela querer gritar, mas era inútil. Em cima da cama, as toalhas mal cobriam a figura dela. Ela empurrava com pés e mãos com a mesma força que um mendigo teria e, de olhos fechados, mal sabia o que tava rolando.
— Não me incomoda que sua defesa seja tão fraca comigo, mas me preocupa pro futuro.
— Amo! — parou de empurrar e espernear, aceitando a proximidade dos nossos corpos. — Por quê?
— Tenho muita coisa pra te ensinar nesse mês. — parei de pressionar o peito dela e me deitei ao lado. O cabelo solto dela sobre o edredom branco de penas quebrava e dançava a cada movimento que fazia até ela terminar deitada no meu peito.
— Tipo o quê? — a voz dela soava ansiosa.
— Espanhol, pra começar. A se defender, a ler, a escrever, a não cometer erros sobre sua posição.
— Minha posição?
— Não entregar que você é uma escrava.
— Ah. Desculpa.
— Vamos passar muito tempo trancados no quarto ou saindo de madrugada, tem que evitar gente o máximo possível e não parecer suspeitos quando não tivermos escolha a não ser falar com alguém.
— Vou ser cuidadosa, amo.
— É o que espero. — comecei a acariciar o cabelo dela, ela acariciava o meu.
— Não é tão ruim... — murmurou.
— O quê?
— Ter vindo com o senhor. É um lugar confortável. Quero chegar em... casa. Com o senhor. — tinha um tom duvidoso na voz dela, tava insegura.
O refeitório em frente à proa ocupava quase todo o primeiro andar, aquelas luzes amareladas davam um calor. No meio do tumulto, algumas mesas daquele As cadeiras de madeira envernizada estavam vazias. Entre gente de terno e roupas mais de praia, dava pra sentir o desconforto de estar vestindo algo totalmente casual. Alina vestia umas leggings pretas, um moletom laranja e o cabelo preso num rabo de cavalo; enquanto eu só tinha um jeans, uma camiseta cinza e um suéter preto já quase todo gasto.
Quando o garçom trouxe o cardápio, Alina folheou e largou de lado pra olhar pra mim.
— Já sabe o que vai pedir? — perguntei, espiando por cima do menu. O susto dela me fez sorrir. — Tá bom, já parei. Só fala pro garçom que vai pedir a mesma coisa que eu. Hoje à noite eu te ensino. — Ela concordou, meio envergonhada.
Estendi a mão pra pegar a dela. Às vezes me fazia mal o quão fácil era fingir que a gente tinha um relacionamento.
A noite não foi ruim. O Kulibiak não me agradou, mas a Alina gostou. Depois de terminar a comida, a gente ia pro camarote começar as lições da Alina, mas fomos interrompidos por um casal jovem: um cara loiro e uma mina ruiva.
Eles sentaram nas cadeiras na nossa frente.
— Hey there... — começou o cara de olhos verdes, com um sorriso amigável. Ele falava inglês, e a Alina tava perdida. — Do you mind if we just...?
— Not a problem. We were just leaving. Good evening. — cortei seco, pegando Alina pelo braço. Tanto o casal quanto a Alina pareceram surpresos, não só pela grosseria, mas pela rapidez com que saímos.
— Am... arco...? — começou Alina. A gente caminhou até a entrada e seguiu pros camarotes. — Por que você reagiu assim? — O interior do camarote ainda tava escuro. — Aconteceu algo com aquelas pessoas? — Sentei no sofá perto da porta do banheiro. Alina se ajoelhou na minha frente. Provavelmente era algo que ensinaram ela a fazer.
— Só me irrita gente assim. — Alina parecia não entender. — A gente nem tinha levantado e eles já sentaram.
— Provavelmente queriam conversar. — concluiu Alina.
— Exatamente: num idioma que você não conhece, sem... Nenhuma história planejada pra nossa relação, que com certeza o assunto ia acabar surgindo... Além disso, um casal num cruzeiro querendo puxar papo com outro do nada logo no primeiro dia? Ou é golpe, um casal de swingers sondando o terreno ou um convite pra uma seita religiosa. Não, valeu.
—Você realmente pensa em tudo. — Murmurou.
—Não pode nem deve confiar em ninguém. Demos sorte de evitar esses contatos. Talvez eu seja paranoico, mas não vou me arriscar de um jeito tão idiota.
Ficamos em silêncio, o barulho do pessoal conseguia se infiltrar surdo pela porta, só um ruído leve, sem importância. Olhei nos olhos dela, ela piscou e se apoiou nas minhas pernas.
—Por que você senta aos meus pés?
—Gosto de ver você de baixo pra cima... — Minha mão foi sozinha pra cabeça dela. Talvez já fosse um vício.
O balanço do cruzeiro nos fez perder o equilíbrio, Alina se debruçou na varanda que dava pro sul, eu segui andando com passos trôpegos. A costa se afastava e o mar parecia ondular com mais frequência.
—Pra dentro, é hora de começar. — Peguei ela pelo ombro e puxei pra dentro do camarote.Fim parte 8Próxima parte:Espero que vocês gostem!
A balsa se aproximava do cruzeiro, o som da costa já tinha sumido fazia tempo e agora só restavam os murmúrios do pessoal que vinha na balsa.
Lá longe, o sol mal era um pequeno feixe de luz alaranjado e tímido atrás da vila de Dzhubga.
Alina continuava de joelhos, abraçada na minha cintura, e minha mão ainda pousada na cabeça dela. Os poucos passageiros que estavam com a gente nos assentos da proa ficaram olhando pra ela por um instante, se perguntando o que tinha acontecido.
A balsa se aproximava pela lateral do cruzeiro e dava pra ver a entrada, marcada por um balcão no casco com uma rampa levadiça. Acordei Alina do transe dela e apontei pro cruzeiro; de boca aberta, ela tentou se levantar, mas minha mão no ombro dela segurou. Não era hora de ficar impressionada, alguns turistas na proa chegavam perto das grades pra tirar foto do cruzeiro imponente. Agora ficava claro o motivo de não estar perto da terra. Era impossível se sustentar numa profundidade menor.
A balsa minúscula ancorou a uns 5 metros do balcão e a rampa foi estendida pra alcançar o convés da balsa.
Os funcionários da balsa organizaram as filas e os funcionários do cruzeiro esperavam no balcão, conferindo os bilhetes e os papéis de forma superficial.
A gente se colocou na fila, Alina me segurou pelo braço esquerdo, onde eu levava a mala, enquanto continuava de boca aberta olhando pro cruzeiro. Eu sorri disfarçado enquanto segurava nossos papéis e bilhetes.
— Ahm... Marco...
— O que foi? — A fila andava devagar apesar dos quatro funcionários conferindo papéis na borda, e a segunda balsa com passageiros já dava pra ver lá longe.
— Quanto tempo a gente vai ficar nesse navio?
— Boa pergunta... De avião levaria menos de um dia, aqui não tenho certeza. Talvez um mês, no máximo.
— É tipo uma cidade... — Eu assenti, levantando o indicador na frente. nos lábios. Queria evitar olhares suspeitos, mesmo que uma escrava não fosse a primeira opção de todo mundo, ainda assim sobravam motivos pra garota ser tão ingênua e fácil de surpreender.
Aproximei meu rosto da bochecha dela e dei um beijo.
— Tenta agir como se isso não te surpreendesse, precisamos passar despercebidos, evitar as pessoas. No quarto você pode se impressionar à vontade, aqui é perigoso — sussurrei no ouvido dela, no que pareceu o abraço mais longo de uma fila de balsa. — Tô apaixonado por você — concluí depois de me afastar do rosto dela.
Uma sombra avermelhada iluminou as bochechas dela e fez ela desviar o olhar pro pouco de entardecer que restava. A cidade ia se perdendo na penumbra, e ainda assim suas luzes piscavam na costa.
A fila avançava quase no mesmo ritmo que o sol sumia atrás do Oeste, a fila diminuía, a segunda balsa se aproximava e Alina se recostava no meu ombro, esperando ansiosa pra ver o interior daquele colosso todo.
O funcionário nos observou e estendeu a mão, pegou os bilhetes e, ao ver o quarto, pareceu animado. Conferiu os passaportes e nos olhou de novo, desconfiado.
— Precisam do serviço especial?
— Posso consultar com o responsável e avisar vocês, ou essa é minha única chance?
— Pode consultar. O quarto de vocês fica no terceiro nível a partir do convés.
— Muito obrigado.
— O que é o serviço es...? — Alina nos lançou um olhar hesitante.
— Ah, é só acesso ao cassino, bar e essas coisas fora de hora, amor — interrompi, dando um empurrão discreto nela em direção às escadas. Enquanto subíamos, minha expressão foi se endurecendo.
— Fiz algo errado, meu senhor? — a voz dela começou a tremer.
Ficamos em silêncio até subir no convés e, de lá, continuamos subindo até o terceiro andar, onde encontramos o quarto depois de vasculhar entre a simples divisão em cruz dos cômodos.
O interior do navio consistia, na maior parte, em paredes metálicas revestidas de drywall e piso, provavelmente, de imitação de madeira, para Aliviar o navio. Não tinha muitos móveis nos corredores, provavelmente pra evitar que caíssem em caso de tempestade, e os poucos que tinham eram leves e dava pra notar que estavam bem presos ao chão.
A porta de madeira com o número 56 numa placa de metal dourado nos convidava a entrar, e, depois de abrir a porta e deixar Alina passar, fechei com o máximo de cuidado que pude.
— Vamos ver. Você não fez nada tão ruim assim. Só uma bobagem, detalhes, claro.
— Desculpa, não vou fazer de novo. — Ela baixou a cabeça e segurou a mala na frente dela, não como um escudo, mas mais como uma bengala. Fui até o primeiro sofá que vi depois de largar minha mala perto da cama.
— Não. Vou te explicar o que aconteceu, pra você não cometer o mesmo erro de novo. Tá bem? — Alina assentiu — Pode ir arrumando nossas roupas enquanto eu explico, ou pode sentar; não fica aí parada, deve ser desconfortável. — Ela assentiu e encostou nossas malas juntas enquanto tirava as roupas e as organizava por tipo: calças, camisas, meias. — A pessoa que eu conheço costuma ajudar imigrantes ilegais, gente fugindo ou coisas assim a ir pra outros países. Depende da distância, é o que ela cobra. Ninguém, absolutamente ninguém sabe que você é uma escrava; a tripulação, pelo menos a que tá por dentro, acha que você é uma ilegal tentando finalmente ir morar com seu parceiro. Obviamente é uma história cheia de buracos porque claramente você já tem documentos. A ideia é que eu paguei por este quarto, mas não vamos estar registrados, só eu. Um membro da tripulação vai cuidar de registrar minha saída quando chegarmos no meu país.
— Então por que eu tenho documentos, senhor?
— Por precaução. — Alina não entendeu — Pensa que, se algo der errado e a gente tiver que passar pelo controle de imigração, pelo menos já temos um peso a menos. Pensa que, se alguém suspeitar que você é ilegal, a gente pode provar que você tem documentos e tem uma passagem do cruzeiro. Pensa que, no final, a gente não pode ficar no navio e temos que usar avião. Tudo tem um risco. Cometi muitos erros nessa viagem e o mínimo que espero é que por uma frase suspeita tudo desabe. Podíamos ter ido devagar e te transformar numa cidadã completa, com documentos de verdade, ainda assim você seria minha escrava na prática, e seguiríamos com a mesma história de que você é minha parceira, mas ainda assim deixaria dúvidas tipo: Como nos conhecemos? Pelo menos com essa via temos a opção de contar uma história mais elaborada e não vai precisar ser pro governo.
— Amo... — Alina se ajoelhou na minha frente. — Vou tomar cuidado. Como nos conhecemos...? E também... Como você ficou sabendo da minha existência?
— Como nos conhecemos... Internet? É algo que vamos ter que elaborar se perguntarem, não podemos deixar detalhes soltos. Sobre sua existência... Um dos migrantes que meu conhecido ajudou a passar mencionou a existência de povoados esquecidos por Deus, que vendiam escravos, citou Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Letônia. Decidi escolher a Rússia. Não foi fácil encontrar os vilarejos, tive que perguntar em outros lugares, me fiz passar por agente da ONU investigando os boatos pra conseguir informação dos moralistas e tive que revelar minhas intenções pros que não eram. Encontrei 3 povoados que vendiam escravos; mencionaram mais, pelo menos 14, mas já estavam a oeste de Moscou e nessa área era mais seguro ir de país em país. Vi umas 20 escravas em 2 dias. Alguns as colocavam em fila, outros as tinham individualmente.
— E por que você me escolheu? — perguntou, descansando a cabeça nas minhas pernas como um cachorrinho.
— Você era a melhor de todas. — Ela sorriu com carinho e pegou minha mão pra beijar os nós dos dedos.
— Obrigada, amo. — Sorria segurando minha mão contra a bochecha.
— Tá bem, vai tomar um banho, tenho que fazer uma ligação.
— Sim! — levantou rápido e começou a se despir na minha frente, o convite era óbvio, mas ainda não era hora.
A ligação durou pouco, Meu contato se mostrava aberto a ideias. Só confirmou o necessário. Faríamos paradas em Istambul, Çanakkale, Atenas, Cagliari e Gibraltar; daí tem que ter cuidado porque o barco termina em Miami e repete o trajeto de Cancún pra Europa.
Quando Alina saiu do banheiro, com a toalha enrolada na cintura e secando o cabelo com outra toalha, só viu escuridão. Atrás dela, a porta do banheiro deslizou e o estalo do alumínio fez ela se virar depressa. A mão no pescoço e os empurrões seguidos faziam ela querer gritar, mas era inútil. Em cima da cama, as toalhas mal cobriam a figura dela. Ela empurrava com pés e mãos com a mesma força que um mendigo teria e, de olhos fechados, mal sabia o que tava rolando.
— Não me incomoda que sua defesa seja tão fraca comigo, mas me preocupa pro futuro.
— Amo! — parou de empurrar e espernear, aceitando a proximidade dos nossos corpos. — Por quê?
— Tenho muita coisa pra te ensinar nesse mês. — parei de pressionar o peito dela e me deitei ao lado. O cabelo solto dela sobre o edredom branco de penas quebrava e dançava a cada movimento que fazia até ela terminar deitada no meu peito.
— Tipo o quê? — a voz dela soava ansiosa.
— Espanhol, pra começar. A se defender, a ler, a escrever, a não cometer erros sobre sua posição.
— Minha posição?
— Não entregar que você é uma escrava.
— Ah. Desculpa.
— Vamos passar muito tempo trancados no quarto ou saindo de madrugada, tem que evitar gente o máximo possível e não parecer suspeitos quando não tivermos escolha a não ser falar com alguém.
— Vou ser cuidadosa, amo.
— É o que espero. — comecei a acariciar o cabelo dela, ela acariciava o meu.
— Não é tão ruim... — murmurou.
— O quê?
— Ter vindo com o senhor. É um lugar confortável. Quero chegar em... casa. Com o senhor. — tinha um tom duvidoso na voz dela, tava insegura.
O refeitório em frente à proa ocupava quase todo o primeiro andar, aquelas luzes amareladas davam um calor. No meio do tumulto, algumas mesas daquele As cadeiras de madeira envernizada estavam vazias. Entre gente de terno e roupas mais de praia, dava pra sentir o desconforto de estar vestindo algo totalmente casual. Alina vestia umas leggings pretas, um moletom laranja e o cabelo preso num rabo de cavalo; enquanto eu só tinha um jeans, uma camiseta cinza e um suéter preto já quase todo gasto.
Quando o garçom trouxe o cardápio, Alina folheou e largou de lado pra olhar pra mim.
— Já sabe o que vai pedir? — perguntei, espiando por cima do menu. O susto dela me fez sorrir. — Tá bom, já parei. Só fala pro garçom que vai pedir a mesma coisa que eu. Hoje à noite eu te ensino. — Ela concordou, meio envergonhada.
Estendi a mão pra pegar a dela. Às vezes me fazia mal o quão fácil era fingir que a gente tinha um relacionamento.
A noite não foi ruim. O Kulibiak não me agradou, mas a Alina gostou. Depois de terminar a comida, a gente ia pro camarote começar as lições da Alina, mas fomos interrompidos por um casal jovem: um cara loiro e uma mina ruiva.
Eles sentaram nas cadeiras na nossa frente.
— Hey there... — começou o cara de olhos verdes, com um sorriso amigável. Ele falava inglês, e a Alina tava perdida. — Do you mind if we just...?
— Not a problem. We were just leaving. Good evening. — cortei seco, pegando Alina pelo braço. Tanto o casal quanto a Alina pareceram surpresos, não só pela grosseria, mas pela rapidez com que saímos.
— Am... arco...? — começou Alina. A gente caminhou até a entrada e seguiu pros camarotes. — Por que você reagiu assim? — O interior do camarote ainda tava escuro. — Aconteceu algo com aquelas pessoas? — Sentei no sofá perto da porta do banheiro. Alina se ajoelhou na minha frente. Provavelmente era algo que ensinaram ela a fazer.
— Só me irrita gente assim. — Alina parecia não entender. — A gente nem tinha levantado e eles já sentaram.
— Provavelmente queriam conversar. — concluiu Alina.
— Exatamente: num idioma que você não conhece, sem... Nenhuma história planejada pra nossa relação, que com certeza o assunto ia acabar surgindo... Além disso, um casal num cruzeiro querendo puxar papo com outro do nada logo no primeiro dia? Ou é golpe, um casal de swingers sondando o terreno ou um convite pra uma seita religiosa. Não, valeu.
—Você realmente pensa em tudo. — Murmurou.
—Não pode nem deve confiar em ninguém. Demos sorte de evitar esses contatos. Talvez eu seja paranoico, mas não vou me arriscar de um jeito tão idiota.
Ficamos em silêncio, o barulho do pessoal conseguia se infiltrar surdo pela porta, só um ruído leve, sem importância. Olhei nos olhos dela, ela piscou e se apoiou nas minhas pernas.
—Por que você senta aos meus pés?
—Gosto de ver você de baixo pra cima... — Minha mão foi sozinha pra cabeça dela. Talvez já fosse um vício.
O balanço do cruzeiro nos fez perder o equilíbrio, Alina se debruçou na varanda que dava pro sul, eu segui andando com passos trôpegos. A costa se afastava e o mar parecia ondular com mais frequência.
—Pra dentro, é hora de começar. — Peguei ela pelo ombro e puxei pra dentro do camarote.Fim parte 8Próxima parte:Espero que vocês gostem!
3 comentários - Escrava Russa 8