Perder Tudo (Parte 7 e final)

Já faziam 3 semanas desde que o Caniche recuperou a liberdade, e aos poucos eu ia me acostumando com a ausência dele. Quem assumiu a parada dentro do presídio foi o Matu, que cuidava dos assuntos da banda lá dentro enquanto o Caniche curtia a vida que ele merecia (na minha opinião, merecida — vocês com certeza vão discordar, principalmente pelo que vou contar mais pra frente).

Nesse tempo, o Caniche nem escrevia pra gente. Só mandava umas mensagens pro Matu, de vez em quando. O Matu não contava o teor das conversas, mas dizia que o Caniche tava bem, mandava lembranças, e tava aproveitando pra caralho o reencontro com a família, passando tempo com eles. Até levando eles pra tomar sorvete.

Depois daquela noite que contei na cela, em que a gente bateu um papo enorme com o Caniche e o Matu, ele contou o que pretendia fazer e a gente foi ajustando os detalhes de como ia rolar. Dali em diante, não se falou mais no assunto. Não precisou de uma ordem do Caniche; a gente sabia, tacitamente, que não se discutia trampo em voz alta à toa, com ele presente ou não. Nunca.

Lembro que foi uma segunda-feira de julho. Tava um frio do caralho naquele dia. Era a segunda depois de um feriadão de quatro dias que o governo tinha decretado, o que pros presos não significava muita coisa, mas pros profissionais como o Caniche era uma maravilha, porque o povo costumava aproveitar, viajar pra outros lugares, e deixar eles trabalharem mais sossegados. Tava tomando um mate na cela com um dos manos, os dois morrendo de frio, sentados nos catres e cobertos com os cobertores, quando chegou um agente do Serviço Penitenciário que a gente conhecia, com quem a gente tinha uma boa relação e que, às vezes, o Caniche dava uma grana pra ele olhar ou deixar de olhar alguma coisa.

Ele cumprimentou a gente numa boa e me entregou um envelope de papel pardo, com plástico bolha por dentro. O envelope, claro, já tava aberto. Na cadeia, se você não tiver muito, mas muito bem alinhado com o SPF, eles abrem absolutamente tudo e sempre levam alguma coisa. Olhei pro envelope e tirei o conteúdo. Só tinha um celular, um Samsung básico, junto com um papel escrito à mão. No papel só tinha um número de celular e depois dizia "SÓ PRA VOCÊ. 19 HORAS", e tava assinado com o símbolo que o Caniche usava pra marcar as coisas como oficiais e como ordens.

Era a cruz de Cristo, rodeada por um círculo simples. Nada mais. O Caniche tinha me falado há um tempo que significava "Deus dentro de tudo".

Enfiei o celular no bolso e esperei ansioso pela hora, que parecia não passar nunca. Às 19, pedi pros outros manos que me deixassem um tempo sozinho na cela, que o Caniche tinha pedido, liguei o celular e disquei o número. Atendeu uma voz que não reconheci. Falei "oi", mas ela só disse "Não, pera, liga por vídeo." E desligou. Coloquei o número como contato no WhatsApp e mandei uma videochamada. Depois de um tempo, sorri ao ver o rosto do Caniche, que eu sentia tanta falta. Verdade que ele tava segurando o celular que nem um otário, a imagem balançava muito e eu via ele de baixo pra cima. Ele soltou uma risada quando me viu.

"E aí, Hacker!", falou.
Me deu uma felicidade imensa ver ele de novo, "Cani! E aí, como é que tá?"
"Como cê tá, querido? Como é que vão as coisas?", perguntou.
"Tá indo, bem, sei lá", respondi, "eu, mano, senta aí que cê tá me deixando tonto...", ri.
"Pera aí, calma..." disse e procurou um lugar pra se firmar. Sentou e eu vi que ele tava dentro de algum lugar. Parecia o quarto de uma casa muito, muito humilde, com parede de tijolo furado e pouca luz, "Pronto, assim..."
Assenti. Começamos a conversar um pouco e ele começou a falar que tinha dado tudo certo. Eu tive sentimentos confusos. Não sabia os detalhes, mas sabia a ideia geral que a gente tinha bolado. Por um lado, me aliviou que as coisas tivessem dado certo e que, acima de tudo, não tivesse acontecido nada com o Caniche, mas por outro...

"Escuta aqui," ele falou finalmente, ficando um pouco sério, "Vou te mostrar uma parada. Vou te mostrar... Mostrando um pouquinho e nada mais, hein? Só um gostinho e pronto. Não me pede mais nada. Então presta atenção. Ah, e tô te deixando no viva-voz, então não fala nada. Nem um pio.", ele disse enquanto se levantava e começava a andar pela casa. Abriu a porta de um quartinho, virou o telefone pra me mostrar e lá estava, enquanto ele estabilizava o celular e focava.

Sentadas numa caminha de solteiro estavam Sara e Micaela, as duas coladinhas uma na outra. As duas estavam de olhos bem vendados, uma fita isolante grossa sobre a boca e as mãos pra trás das costas, como se estivessem amarradas, mesmo sem dar pra ver direito. Sara com a barriga de grávida, sem se mexer nadinha, e Micaela encostada na mãe de lado. Elas não se moviam muito, só viravam a cabeça de vez em quando, como se tentassem ouvir alguma coisa. Não pareciam machucadas, nada disso, dava pra ver que não tinham feito nada com elas e estavam vestidas normalmente. O Armando não estava em lugar nenhum. No quartinho tinha três caras, um que eu conhecia da gangue, sentado perto de uma mesinha, tomando alguma coisa num copo e com um ferro pesado em cima da mesa. Um dos outros dois, que eu não conhecia, tava mexendo no celular meio distraído, enquanto o outro olhava o Caniche filmando com o telefone.

Confesso pra vocês que ao ver aquilo eu devia ter sentido alguma coisa, mas a real é que não senti nada. Até hoje não sei se foi certo ou errado não sentir nada. O tempo na cadeia já tinha me calejado tanto e criado tantas cascas na alma que tinha coisa que eu nem registrava mais nem julgava. Além do bem e do mal.

O Caniche manteve o celular ali, me mostrando a Sara e a Micaela por mais alguns segundos em silêncio, e depois saiu do quartinho onde elas estavam, voltando pela casa pra algum outro canto. Vi ele abrir uma porta de metal e sair pra uma espécie de pátio que tinha, meio coberto. Parecia cheio de tralha, um monte de coisa jogada ou descartada, e muito material de construção. espalhado ou juntado em sacos grandes. Ele sentou numa cadeira que eu nem cheguei a ver e continuamos conversando.
"Já pode falar", ele me disse.
"Como é que vocês conseguiram entrar, no final?", perguntei.
"Com as suas chaves, seu burrão", ele riu alto, "Quando nos soltaram com o Chile, fingi de besta e passei pra polícia o número das suas chaves pra eles me darem. O otário nem conferiu. Tava viajando. As minhas ficaram lá, então quando te soltarem, traz elas pra mim."
Eu concordei e sorri. Caniche era muito rápido. Perguntei como tinha sido tudo e ele me contou, meio por cima, sem muitos detalhes.

Ele disse que quando saíram, depois de uns dias com a família, colocaram dois caras da banda se revezando pra vigiar o prédio onde eu morava por uns dias, de olho nos movimentos e na rotina. Com essa informação, montaram o plano bem rápido. Na sexta, que era feriado, o Armando saiu com elas pra ir pra casa de Tortuguitas, então o apartamento ficou vazio, e à noite, com as minhas chaves, dois caras entraram na boa pra revistar o apartamento, os corredores do prédio, a garagem, o que dava pra ver e o que não dava, e também as rotas de fuga.

Um desceu e forçou a porta do depósito do zelador, remexeu um pouco e achou uma cópia da chave que abria a garagem do prédio, e guardou ela. Depois subiu pro apartamento e ajudou o outro a encher umas malas, com toda a roupa da Sara e da Micaela, a maioria das coisas de banho delas e algumas outras coisas do apartamento que conseguiram pegar. Depois de um tempo, chegou um carro, um desceu pra abrir a garagem por dentro, carregaram o que tinham pegado, colocaram no carro e foram embora.

No sábado de manhã, já tinham clonado a chave da garagem e a chave magnética da entrada do prédio, só por precaução, junto com uma cópia da do apartamento. Deixaram um de vigia do lado de fora o dia inteiro, também por precaução, e não aconteceu nada. No sábado, já bem tarde da noite, quando ninguém viram, uma caminhonete e um carro entraram na garagem, deixando-os prontos pro dia seguinte. Quando chegou o domingo e Armando, Sara e Micaela voltaram lá pras 20h, entraram no apartamento de boa, normal, sem esperar nada, mas já tinha cinco da banda esperando eles lá dentro.

Apontaram as armas pros três, um par imobilizou Sara e Mica ali mesmo na sala, amarraram e amordaçaram elas, enquanto os outros três pularam em cima do Armando, enchendo ele de porrada e coronhadas até que a pouca resistência que o Caniche disse que ele conseguiu dar, sumiu. Também amordaçaram ele e, entre os três, tiraram ele do apartamento, levando pro porão do prédio. Carregaram mais umas coisas da casa em duas mochilas e malas, já os objetos de maior valor, esperaram um pouco até Sara e Micaela se acalmarem e também levaram elas pra baixo, jogando elas na caminhonete que tava esperando de boa na garagem. Carregaram elas, saíram do prédio na maciota e sumiram na noite.

Caniche me disse que os dois que ficaram com o Armando no porão amarraram ele numa cadeira e continuaram enchendo ele de murro, chute e coronhada, mas dessa vez mais pesado. Falando o tempo todo o que iam fazer com ele depois e como iam fazer ele cagar.
"Ele quebrou igual uma menininha!", ria o Caniche me contando, "O negão é daqueles que se faz de machão com as mulheres, sabe, mas sempre tem um mais macho. Sempre tem um peixe maior. Ninguém tem os ovos grandes quando apontam uma arma."
Eu sorri, "O que vocês fizeram com ele?"
"Nada. Enchemos ele de porrada por um bom tempo, umas duas horas. Demos pra ele, filho da puta.", respondeu Caniche, "Os caras me falaram que você não sabe como ele chorava e pedia pelo amor de Deus... que otário!", eu ri baixinho e ele continuou, "Um dos caras que tava lá com ele... bom, na real é meio doido, mas um cara legal. Meio pervertido. Parece que cansou um pouco de bater e fez ele chupar a rola dele por um tempo. “Você acha…”, ele fez uma careta, como se a imagem mental daquilo que ele não tinha presenciado não lhe agradasse nada. “Enfim, depois carregaram ele pro outro carro e levaram.”
“Pra onde?”, perguntei.
Caniche balançou a cabeça, “Não importa pra onde.”
“Qual é…”
“Não importa, Hacker. Além disso, é melhor você não saber. Esse aí não enche mais o saco.”, o jeito que ele falou isso me deu a impressão de que o negócio do Armando, se já não tinha acontecido, logo ia ser algo permanente.

Depois de um silêncio curto, onde Caniche respondeu algo por mensagem em outro celular, ele me disse, “Ah, eu, a gente levou umas paradas. De tudo, talvez tenha umas coisas suas. Pra ajudar com os custos, sabe? Pros caras, principalmente. Pra mim tanto faz.”
Fiz um gesto com a mão, “Nada que me importe, Cani.”, falei, e depois com um sorriso continuei, “Botando o peito em tudo que afanou e dividindo com a galera…”, disse, lembrando a letra de “Niño Jefe”.
Caniche se cagou de rir e respondeu, “É isso aí, pai. Enfim… a gente levou toda a roupa das gatinhas, e todas as merdas do banheiro e tal. Documentos, grana, tudo isso.”, eu concordei com a cabeça, “Vai parecer que elas deram o fora. E se tivermos sorte, que o preto também deu o fora com elas. Fica tranquilo que tá bem encaminhado. Deu certo.”
“Então… como fica? Sara?”, perguntei.
Caniche sorriu e desviou o assunto, “O homem é uma criatura presa entre o bem e o mal, Hacker”, ele disse. Caniche? Um zoroastrista? Eu me caguei de rir por dentro, “Melhor não perguntar, querido”, ele falou.

Mas eu insisti. Ele demorou um tempão, enquanto alguém passou algo pra ele beber.
“Olha, a sua mulher…”, ele começou, mas eu cortei.
“Não é minha mulher, Cani.”, falei seco.
Ele me olhou e concordou, “Tem razão. Bom… a coroa vou deixar por aqui. Pra limpar, cozinhar, entreter os caras de vez em quando. Ainda não fizeram nada com ela, viu, porque eu tô no meio. Mas assim que a gente começar a trampar e Vamos andando por aí... bom, com certeza quem manda aqui vai começar a cuidar delas."

"Onde é 'aqui'?", perguntei.

"Não importa.", ele disse, "Você vai se acostumar rápido. E se não se acostumar, vão te acostumar."

"Cuidado que a Sara é muito rápida e muito esperta. Não deixa ela ficar falando e falando que te enrosca...", avisei.

"É, bom, também vão acostumar ela a calar a boca, imagino."

"E o bebê?", perguntei, "Porque parece que ela tá prestes a ter..."

"Nah, uma das donas daqui examinou ela quando trouxeram e disse que falta uns meses. Então dá tempo. Quando nascer, vou levar ele comigo.", ele disse.

"Ê?", perguntei com um pouco de apreensão.

"É...", ele respondeu depois de uma pausa, "minha esposa já tá meio velha, sabe? Igual eu. Não pode mais ter filhos, mas sempre me disse que queria mais um. A verdade, Hacker, é que fiquei muito tempo preso e ela merece essa alegria. Sei que vai cuidar e amar muito, como se fosse dela. Ela é uma gostosa doce e merece, depois de tudo que fiz ela passar, coitada...", ele riu baixinho, "Sério, amigo, vai ser bem criado. Te prometo. Vamos ficar meio apertados em casa, mas sempre dá pra arrumar um cantinho."

Eu dei de ombros, "Não sei pra que você tá me falando isso, se não é meu."

"Não, sim, eu sei, mas é isso. Só tô te falando."

"E a Micaela?", perguntei.

Caniche me despachou assim, na maior naturalidade de quem passou a vida nesse meio. Não vi ele hesitar muito, então pelo que conhecia dele, sabia que já tinha pensado nisso antes.

"A menina vou dar pro meu sócio, Benitez. Lembra? O que trabalha no norte.", ele disse com frieza.

Claro que lembrava do Benitez. Era um dos vários sócios que Caniche tinha espalhados por aí. Ele operava no norte, como Caniche disse, por Formosa, Misiones e Chaco. Várias vezes tinham trabalhado juntos, quando Caniche precisava mover algum carro roubado ou qualquer coisa pro Paraguai. No Brasil, o Benitez facilitava as coisas e ficava com uma parte. Sempre trabalharam assim juntos quando surgia algum esquema e tinham bastante confiança um no outro. Durante muitos anos, tiveram um acordo com televisões grandes que o Caniche roubava, o Benitez passava pro Paraguai e eles revendiam pros trouxas daqui da Capital que voavam pra Assunção comprar mais barato, achando que eram os fodões. O ciclo da vida.

Mas o Benitez também tava em paradas muito mais pesadas. Tava metido até o pescoço no tráfico, roubo e prostituição, claro que protegido e de acordo com a polícia e os governos estaduais, porque lá não dá pra trabalhar de outro jeito. Ele controlava uma parte do tráfico na Tríplice Fronteira e era dono de vários puteiros podres e pontos de venda nessas regiões. Esteve envolvido em umas paradas que, com o passar dos anos, tenho certeza que vocês viram no jornal, embora ele sempre tentasse manter um perfil baixo e se fazer de invisível. Era tão esperto quanto o Caniche.

Eu fiquei meio gelado, olhando pra ele quando me falou da Micaela. Ele falou primeiro.

"Não fica puto, Hacker. É assim.", ele disse.

"Como assim, é assim?"

"É assim, meu velho", continuou, "Eu fiquei com uma dívida grande com o Benitez de uns rolos de uns anos atrás, ele é gente boa e tal, mas preciso pagar. Já falei com ele. Vou vender a mina por 20 mil verdinhas e fico quito pra caralho."

"Para, Cani...", comecei, mas ele me interrompeu.

"Ele vai botar ela pra trabalhar, com certeza. Ou talvez revenda, sei lá, mas com certeza fica com ela. Quito a dívida toda com a garota."

"Cani, me escuta...", falei, mas ele continuou.

"Sabe quanto o maluco vai faturar? Com essa mina? Nada a ver com o material que eles têm lá. Pff.", ele disse enquanto bebericava algo do copo, "Sabe como é quando chega o fim de semana e os peão descem do corte e da colheita? Os poucos reais que ganham queimam na mão e a única coisa que querem é encher a cara e comer uma buceta. Ele fez uma pausa em que eu não consegui dizer nada, sem conseguir evitar que as imagens do que ele estava me dizendo invadissem minha cabeça. Ele continuou, talvez nem percebendo o que dizia: "E os que estão no mato, os que trabalham por temporada e nem saem de lá? Sabe como é quando finalmente soltam eles e eles descem? Nem te conto. São animais, Hacker. Bestas. Alguns nem conseguem falar, te juro. Ela vai ser uma estrela, a garota... Vão transformar ela numa fábrica de trouxas...", ele riu, mas eu o interrompi com força.

"Mas para aí, Cani, sua puta mãe!", quase gritei com ele.

Ele me olhou meio surpreso e se recompôs: "Uh... você tem razão. Me desculpa, falei demais."

"Ela não vai aguentar, pensa bem...", falei, tentando fazê-lo cair na real um pouco.

Caniche deu de ombros: "Ela vai aguentar porque vai ter que aguentar. Se ela reclamar, vai ser pior.", ele só disse e ficou em silêncio por um instante.

Fiquei pensando junto com ele, também em silêncio. Ele tinha razão. Todo o tempo na cadeia já tinha me dado a casca necessária pra perceber na hora que ele tinha razão. A Mica iam cuidar e manter o melhor possível porque era do interesse deles que ela ficasse bem. Pensei imediatamente no que Caniche não me disse, e deixou pra nosso entendimento mútuo. Que se a Micaela reclamasse, ou pior, se tentasse fugir, iam dar uma surra nela. E se isso não bastasse, os noias e os traficantes iam meter alguma das merdas que eles vendiam (ou todas), pra deixar ela bem mansa e bem viciada.

Comecei a discutir com Caniche. Supliquei, implorei pra ele não fazer isso. Dei mil opções... que cuidasse dela até eu sair, que ficasse com ele mesmo, jurei que de algum jeito ia pagar a dívida que ele tinha com o Benitez quando saísse, trabalhando pra ele ou não. Mas não teve jeito. Finalmente, já meio exasperado, ele falou comigo num tom muito sério.

"Marquitos, para com isso...", ele só me chamava pelo meu nome quando eu passava dos limites. alguma cagada, ou ele achava que era assim, "Te falei que já era. Não fica enrolando mais. Esquece e para de encher o saco. Te entendo, parceiro. Juro que te entendo, mas já era."
"Mas pera aí...", eu continuei, mas ele me interrompeu.
"Mas pera aí, nada. Te falei que já era. Aceita. Já é fato, já resolvi, não tem volta.", ele disse enquanto eu olhava pra ele em silêncio, "Entendo que é uma puta merda tudo que você passou, não pense que não sei, mas é assim que a bola rola. Ponto. Você vai esquecer. Vai esquecer da mina. Vai esquecer onde ela tá. Tudo. A garota morreu, Marcos. Pra você, no que te diz respeito, a garota morreu. Não existe. Ponto. Aceita assim."

Ele me viu esfregar um pouco os olhos e continuou, "Você tem que entender... tomara que com o tempo você entenda, acho que sim porque você é um cara maneiro. Mas tem que entender que a garota morreu no primeiro dia que ficou com aquele filho da puta. A que você queria deixou de existir ali, e apareceu essa outra que seguiu em frente. Era outra pessoa, Marcos. A que você queria não existe mais, tem essa outra, que não é a sua. E desde aquele dia nunca quis ser."

Eu olhei pra ele em silêncio e ele continuou, "O que São Agostinho dizia? Que a paciência é a companheira da sabedoria. Se dá tempo, moleque. Se dá tempo e você vai ver que é assim."

Em alguns segundos de silêncio eu pensei, enquanto o Caniche me olhava. Ele me olhava e bebia algo do copo dele, me observando em silêncio. Naqueles segundos, senti de novo por dentro a superfície de couro em que parecia ter virado minha alma, em vez do veludo macio que sempre tive, por causa de todo o tempo que passei na cadeia. Eu assenti em silêncio, enquanto o Caniche fez o mesmo.

Quando alguém faz um pacto com o diabo, sabendo ou não, acha que pode ganhar. Alguns outros acham que podem perder. Mas a verdade é muito mais terrível e, se forçar a barra, até maravilhosa. A verdade é que quando se pactua com o diabo, se ganha e se perde ao mesmo tempo, e isso é algo que só se entende, só se entende de verdade, depois que já botou a assinatura no pacto. Não antes.

"Sem rancor, Marquitos.", ele me disse.
Eu respondi seco depois de um momento, "... só business."
"Te amo pra caralho, amigo", finalmente o Caniche falou, "Se cuida, hein? Já já a gente se vê."
Eu concordei, "Também te amo.", e vi ele desligar a chamada.

Uns meses depois, um dia vieram me buscar dois do SPF na cela e me levaram pra outra ala da cadeia. Me fizeram entrar no que parecia um escritório, onde tinha mais dois policiais e uma mesa. Sentados atrás da mesa, uma gatinha jovem e muito gostosa, junto com outro cara mais velho, de terno. Me mandaram sentar na frente deles do outro lado da mesa e começaram a falar comigo, enquanto os tiras ficaram por perto de guarda. Diziam que eram de uma promotoria e que estavam investigando o possível sumiço da Sara e da Micaela. Também do Armando, mas que isso tava com outra galera. Me perguntaram se eu sabia de algo, por causa da minha história como ex da Sara e o motivo de eu estar preso.

Falei que não. Que não sabia de nada. Que eu tava preso sem contato com nenhum deles e que ia saber. A mina anotava e o cara continuava me perguntando. Pediu pra eu entregar meu celular pra um dos policiais e eu passei um telefone fantasma que tava comigo, sem nada incriminador, só merda e coisa de cadeia que com certeza não iam se interessar. O outro celular, que eu usava de verdade, tava bem escondido na cela. O cara pareceu satisfeito que eu tava cooperando.

"Me diga, você conhece o Darío Adrián Peña?", o cara perguntou.
Fiz de besta como se tivesse pensado um segundo, "Darío... ah, Caniche, cê diz?". Ele concordou com a cabeça, "Sim, claro. Era meu parceiro de cela. Todo mundo conhece. Mas já soltaram ele faz tempo."
"Sim, claro. Você manteve contato com ele depois que ele recuperou a liberdade?"
Balancei a cabeça, Não. Ela foi embora e não nos falamos mais. Talvez algum dos outros caras que eu tinha mais intimidade saiba."
A garota anotou e de repente me perguntou: "Então você, Marcos, não tem nenhuma informação sobre o paradeiro ou o desaparecimento da Sara..."
Eu a interrompi: "Não, senhorita, olha... Saber, não sei de nada, tô sabendo agora com o que vocês tão me falando. Eu tava aqui e já faz muito tempo desde que vi ela." Ela anotou algo e eu continuei: "Será que não se mudaram, né? Ou foram com o novo parceiro pra algum lugar?"
"Com o Armando Espinoza?", ela me perguntou. Eu concordei com a cabeça. "... é uma das hipóteses fortes que a gente tá considerando", ela disse.
"Sabe, Marcos, que você pode ter redução de pena se souber de algo e colaborar com a gente, né?", disse o cara. "Seja informação sobre sua ex-parceira, ou sobre o Darío Peña. Olha, sua colaboração entra no regime que a gente pode considerar pra reduzir sua pena, sem problema nenhum."
Eu coloquei meu melhor sorriso falso e falei: "Bom. Ótimo. É o que eu tô fazendo, né? Colaborando. Já falei."

A garota anotou mais coisas, me fizeram umas perguntas bestas sobre coisas que não tinham nada a ver com isso, coisas da cadeia, e o SPF me levou de volta pra minha cela. No fim, nunca consegui redução de pena. Ficou em nada. E por sorte nunca me passou pela cabeça tentar descobrir como tava o assunto do possível desaparecimento, porque isso teria levantado suspeitas.

No fim, o tempo passou e eu consegui sair em liberdade. Foi difícil me acostumar. Às vezes eu me encontrava com o Caniche e com algum outro da gangue, que me ajudaram a achar um lugar pra ficar e começar a reconstruir minha vida. Depois fui dividir um apê com um dos meus antigos colegas de trabalho, com quem eu me dava bem, e fiquei um tempo com ele. Através dos contatos que ainda tinha do trampo, de clientes, comecei a trabalhar fazendo umas paradas de programação freelance pra alguns deles e consegui juntar uma grana em dólares e junto com mais uns dólares que o Caniche me emprestou e empréstimos de outros amigos, juntei o suficiente pra vazar do país e recomeçar em outro lugar, que foi minha ideia desde que saí da cadeia.

Sim, quando saí da cadeia e comecei a me reerguer, mais de uma vez pensei em procurar a Micaela. Mas o Caniche não ia ajudar em nada, e eu não sabia outro jeito. Além disso, como é que eu faria? Tinha passado o que parecia uma eternidade e quantas coisas deviam ter mudado. Ia pro norte? Pra quê? Pra visitar buraco atrás de buraco procurando ela? A cadeia, como eu disse, me endureceu, mas admito que não tanto pra isso. E se eu achasse ela, e daí? Se acontecesse o milagre absoluto ou o acaso de encontrar ela em algum lugar desses, o quê? Ia brigar com 20 caras? Ia resgatar ela na base do tiro, igual nos filmes? E além disso, o mais triste: com o que eu ia me deparar? Com quem? Decidi simplesmente vazar. Ir o mais longe que pudesse.

Faz uns meses que tô morando em outro país, não importa qual. Arranjei um lugar pra morar que divido com uma mina, também imigrante, e com o passar dos meses de convivência a gente foi criando uma química e agora ela é minha mina. Ela me ama e eu amo ela. A gente se dá superbem. Ela é designer gráfica freelancer, enquanto eu trampo na informalidade numa lanchonete, como gerente do local, e ao mesmo tempo continuo fazendo uns trampos de programação por conta. Tudo ajuda.

Escrevi tudo isso porque senti necessidade de contar pra alguém, e pra minha mina não posso contar, e nunca vou. Nem penso no Armando, nem me interessa. E pra ser sincero, às vezes nas minhas noites solitárias fico pensando na Sara, mas tô percebendo que, com o tempo, cada vez lembro menos do rosto dela. Tá ficando cada vez mais borrado, tipo uma imagem que vai se afastando a cada instante. Um dia, eu sei bem, vai se dissipar até sumir por completo.

O rosto da Micaela, no entanto, em Essas noites solitárias me atormentam. E sei que jamais vou esquecer aquela. Talvez essa seja minha condenação perpétua em tudo isso, além dos anos que passei na cadeia.

Quando comecei a contar essa história pra vocês, falei que era uma história de baixezas. E acho que já provei isso. Contei as baixezas do Armando. As da Sara. As da Micaela, e até as do Caniche. O que nunca contei até agora é que também tinham as minhas, e são essas. Quais são melhores ou piores, deixo pra vocês julgarem.

Só agora me toquei que, como falei umas vezes antes, por acaso ou por providência, tô escrevendo o capítulo final dessa história justamente hoje, Sexta-Feira 13, um dia depois de também ter sido comemorado o Dia do Programador na Argentina. Então vai meu abraço pros meus colegas de profissão.

E se um dia vocês passarem pelo norte do país, pelo Paraguai, ou pela Tríplice Fronteira, e se, embora duvide, algum dia der na telha de vocês darem um rolê e cair num buraco de merda qualquer, daqueles perdidos em estradas de terra esquecidas, ou escondidos em algum porão... se virem uma mina trabalhando, de olhos verdes brilhantes e boca larga, paguem um drink pra ela e perguntem se ela se chama ou se chamava Micaela. E se ela se surpreender e disser que sim, tratem ela bem, lembrem de mim e lembrem dessa história.

Deus, no fim das contas.

9 comentários - Perder Tudo (Parte 7 e final)

Buen final. Y Caniche tiene razón: la Mica que conocías no volverá a ser la que recuerdas. Te traicionó y te olvidó y ni siquiera pensó en ti. Por lo mismo, lo más justo es devolver la mano.
Impecable, perfecto. Es duro el final, pero a la hora de la verdad, te cambiaron por una pija. Y ahí eligieron su destino.
Muy triste amigo...muchas maldad te hicieron esos tres...es tiempo de mirar para delante y pensar en vos...un gran abrazo y éxitos...
Redacción impecable, buena trama y dura, muy dura historia, te saludo y no esperaba el giro que tomaron los hechos.
yo sabia que caniche lo iba hacer cagar pa dentro al viejo ese, felicitaciones amigo por recomponerte en la vida, exitos!
La venganza no es buena pero con lo que te hicieron se lo merecen. Tenes amigos como caniche que son de fierro. Van puntos
Es una novela más que otra cosa, no se no creo que existan esos lugares tendría que ver para creer. Entretenido
Probablemente una de las mejores historias que he leído. Impecable redacción y ortografía. Si es real, es terrible, pero el tiempo lo cura todo aunque sea un alma dañada por el daño que te hicieron otros y que terminaron con consecuencias horribles para ambas partes. Si lo que te pasó es real, te pasó porque gente que se supone que te quería actuó de mala fe contra ti y eso se devuelve y con creces, te lo digo porque me pasó y también terminé en la cárcel por lo mismo y a esas personas la misma vida les devolvió la mano.