Preso sem saída XXVI

Preso sem saída XXVIExistem 2 formas de um homem sentir o coração partido. A primeira forma: é a perda física da mãe, do pai, da esposa ou de algum dos filhos, e amigos íntimos. Mas esse tipo de perda, apesar de dolorosa, é natural e inevitável. Ninguém escapa da morte. A segunda forma: é a pior, é perder alguém amado ou querido, por culpa própria... Quando conheci a Melissa, fui subjugado pela beleza dela. Mas foi conhecê-la por dentro que acabou roubando minha alma... Em vinte anos de convivência, me senti tão seguro que me recusei a ver a figura dela longe de mim, por motivo nenhum. A pressão do trabalho, a marcha lenta dos negócios nos últimos anos me fez perder os detalhes com ela, e junto com isso comecei a perder a capacidade de ter ereções como antigamente, sem problema nenhum. Minha ex-esposa é tão gostosa, e mesmo assim meu amigo teve dificuldade em manter feliz aquela monumento de mulher. (Eu sei, coisas inexplicáveis, ou de maluco.) Minha confiança foi pro saco, e eu tomei a pior decisão. Decidi calar a boca... Me isolei na bebida, no trabalho e na penitência eterna de sentir que o que eu sofria era algo que ninguém poderia me ajudar. Erro crasso, que paguei mil vezes. Quando eu era jovem, as pessoas que eram estúpidas ou malucas eram chamadas de estúpidas ou malucas. Mas hoje em dia (agora que eu era um homem na casa dos quarenta), os estúpidos e os malucos ganhavam nomes especiais derivados daquilo que os afligia. E eu hoje era um deles. Era um estúpido ou um maluco, e também queria um: um nome especial derivado do que hoje me aflige. Observo que hoje até os transtornos das crianças têm nomes especiais. E lendo coisas sobre essas supostas neuroses e deficiências imaginárias com a ganância de um pai supostamente experiente e já cínico. Reconheço esta: também conhecida como Síndrome do Pequeno Merda. E também reconheço esta: também conhecida como Transtorno do Vagabundo Preguiçoso. Desses transtornos e síndromes, eu tinha a absoluta certeza. Não passavam de desculpas dos pais para rotular os filhos. Nessa idade da vida (quarenta e seis anos), a gente já se resignou a uma verdade simples: toda vez que olha no espelho, você se confronta, por definição, com o passar dos anos. É assim que a coisa funciona. Quando a quarentena começa, você tem sua primeira crise de mortalidade (a morte não vai me ignorar); e seis anos depois, tem sua primeira crise de idade (meu corpo sussurra que já estou chamando a atenção da morte). Mas no meio disso, acontece algo realmente interessante. Conforme o quinquagésimo aniversário se aproxima, a sensação de que sua vida está afinando se intensifica, e de que vai continuar ficando mais e mais fina até se dissolver no nada. E às vezes você diz pra si mesmo: Isso foi meio rápido. Aquilo foi meio rápido. Em certos estados de espírito, você pode querer expressar isso de forma bem mais enérgica. Tipo: PORRA!!! ISSO passou QUE NEM UM RELÂMPAGO!!! Depois vêm e passam os cinquenta, e os cinquenta e um, e os cinquenta e dois. E a vida volta a se manifestar. Porque agora tem uma presença enorme e inesperada dentro de você, como um continente desconhecido. É o passado... Na manhã de 31 de julho, meu coração quase explodiu. Minha filha mais nova, Nina, ligou pro meu celular pedindo ajuda. O homem da mãe dela, o infeliz que a roubou de mim, tinha morrido. Não vou mentir, senti uma alegria imensa em saber que aquele que eu considerava um filho da puta malvado, que enganou minha mulher e a perverteu, levando-a aos limites mais baixos, estava fora deste mundo. Acho que minha alegria foi tão evidente que minha filha teve que intervir e me trazer de volta à realidade. — Pai, minha mãe só quer ajuda pra tirar o companheiro dela do necrotério... E você conhece muita gente. 😬 A decepção foi terrível, mas agradeci o aviso. Recuperado do comentário, confirmei minha volta pra casa o mais rápido possível. Fiz isso logo depois, pegando o caminho mais curto e seguindo direto. Ver a Melissa, com o coração batendo que nem um cavalo desembestado. Ao meio-dia, a Nana me recebeu; atrás dela, estavam as meninas. Na frente, a porta do quarto onde a Melissa estava. Entrei e fui rápido. Respirei fundo e me deparei de cara com ela. Tava sentada na beira da cama. Tava tão diferente da última vez que vi ela. Tinha crescido tanto que o vestido de grávida parecia que ia rasgar de tanto tentar segurar aquela barrigona. Ela, com a carinha inchada de tanto chorar, agradeceu por eu ter ido vê-la, depois de tanto mal que me fez. Me disse: — Tomás, você vai pensar que sou uma grande sem-vergonha, mas preciso da sua ajuda, preciso que me ajude a recuperar o corpo do Gerson e dar um enterro cristão pra ele... Falou tão triste, arrastando as últimas palavras, que não pude deixar de sentir pena. "Quem dera fosse eu de quem ela falasse assim", pensei, idiota. Mas pelo menos assim seria o jeito de voltar a ter o amor dela. Que paradoxo da vida: minha ex-mulher, de quem ainda não tinha oficializado o divórcio, pedindo minha ajuda. E o pior, pra ajudar no resgate do meu pior inimigo. "Vai tomar no cu, Gerson Moncada, tomara que apodreça no inferno, filho da puta!😠" Pensei puto da vida. Enquanto tô parado na frente dela, não consigo evitar de olhar a barriga enorme da minha ex-mulher. Vi ela crescer até esse tamanhão.gostosaEm menos de 2 meses. Observo a barriga dela subindo e descendo enquanto a criatura lá dentro se afasta. Minha ex-mulher reage a cada chute, cheia de energia. Por causa do que tá crescendo dentro dela. Eu tô cheio de raiva por causa disso. Não transo com minha mulher há mais de 4 anos e 5 meses e meio. Não toco nela há quase esse tempo todo. Ela tá tirando uma onda com a minha cara e eu sei. Expulsar uma mulher grávida de casa não é politicamente correto. É algo do qual eu teria reclamado no passado. Mas nunca pensei que isso fosse acontecer na vida real. Sento e finjo me acalmar. Mas, na real, só fico olhando com a visão periférica a barriga monstruosa da minha ex-mulher. Ela me olha. "Ah, merda, esse foi forte", ela fala, se assustando de repente com um dos chutes do bebê. "É, vi", respondi friamente. Ela tenta não demonstrar nada. Mas dá pra ver que eu machuquei ela quando olho fundo nos olhos dela. Ela não sabe que tem essa notícia. "AIIIIII MERDA!" ela grita. Olho na direção dela. Ela tá segurando a barriga e se debatendo. "Ah, merda. Acho que ele tá muito agitado". Ela fala sem fôlego. Olho pra ela e falo: — "Me diz como você sabe que ele tá agitado. Ouviu a voz dele reclamar?" Ela me olha séria. Só vejo ela com a visão periférica, mas posso afirmar. — Ele e eu somos ligados, é algo difícil de explicar. Mas por favor, me ajuda, Tomás! Ela fala de novo, e dessa vez com os olhos marejados. Relutantemente, aceito, levanto e saio dali. — Te vejo lá fora, não demora... Ela me agradece com o olhar e, segurando a barriga, ouço ela falar pro bebê. — Calma, coração! Lá fora, fico fumando, um cigarro atrás do outro. Pouco depois, Melissa sai. Vou até meu carro, e ela atrás de mim. Abro a porta pra ela, e ela entra. Faz isso tão devagar, igual uma baleia encalhada. Não consigo evitar ficar de mau humor. Volto pro volante e ligo o motor. Nosso destino: o SEMEFO de Lagos de Moreno, lugar. Onde é que aquele nojento tá mais seguro. -Porra, eu não sei em que momento tudo ficou tão patético. Penso enquanto acelero a caminho do lugar...

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