Capítulo 30
Na terça de manhã, a Ana tinha a consulta de revisão. Depois, me mandou uma mensagem no celular:
“Por enquanto, tá tudo bem, só esperando os resultados dos exames. Depois a gente conversa”, seguido de vários emoticons de beijo.
Eu respondi com um OK e os mesmos emoticons.
Depois do almoço, liguei pra minha mina, como todo dia.
— Oi, amor, já comeu?
— Sim, agora mesmo. Me conta como foi sua consulta com a médica.
— Então, olha, não enrolei e falei que perdi a consciência depois de um orgasmo foda — ela respondeu dando umas risadinhas —, que nunca tinha me acontecido e que a gente tava preocupado. Depois ela mediu minha pressão, auscultou meu peito e minhas costas. Examinou as duas orelhas e os olhos. Também me fez um monte de perguntas, e no fim disse que, a princípio, não tinha nada, mas que ia pedir exames de sangue e um eletrocardiograma, mais pra confirmar o que já suspeitava, ou seja, que tô mais saudável que uma maçã. Daqui a dois dias faço o eletro e os exames de sangue e urina.
— Porra, Ana, você não sabe como meu corpo se animou agora, me sinto quase eufórico por dentro. Sorte a sua que não tô do seu lado, porque te daria um abraço com consequências traumatológicas pra você.
Ela soltou uma gargalhada.
— Nossa, que medo você me dá. Toma um chá de camomila antes de subir hoje à tarde.
— Porque hoje não é seu dia de foder com o Javier, senão a gente faria 5 penetrações duplas, sua safada.
Ela continuou rindo, mas a verdade é que nós dois liberamos uma boa parte da adrenalina que tava nos apertando nos últimos dias.
— Sabe alguma coisa do Javier?
— Não, tomara que ele me fale algo hoje à tarde. Tô chegando em casa, mas acho que ele não tá aqui.
— Bom, não fica nervosa, ele já te conta como foi a entrevista com o gerente.
— Sim, mas quando você sair, não demora, porque preciso de você do meu lado quando ele chegar. Javier, fala qualquer coisa.
-Eu sei, mas fica tranquila, minha vida. Vamos, te vejo depois, beijos, meu amor.
-Um beijo, céu.
Era lógico que ela estivesse tão nervosa, se ele conseguisse aquela vaga, a vida dela sofreria uma grande mudança.
Meia hora depois de sair do trabalho, cheguei em casa, me surpreendendo que Javier e Ana estavam na sala.
Ela estava com cara de preocupação, ao contrário dele, que estava bem relaxado.
-Oi, céu - me cumprimentou, enquanto se levantava pra vir até mim, ficando nós dois bem abraçados.
-Não foi nada, já te falei, tô perfeita, minha vida.
Mas eu não soltava ela e nem conseguia falar nada, até apertava ela mais forte contra mim. Nós dois estávamos com os olhos lacrimejando. Por cima do ombro dela, vi que Javier esfregava as mãos com um certo nervosismo e fiz sinal pra ele se juntar ao nosso abraço, coisa que ele fez na hora.
O abraço entre nós três durou uns dois minutos, até que finalmente fomos nos soltando aos poucos. Eu levei ela pro sofá e sentei ela no meu colo. Não queria me desgrudar dela por nada.
Depois ela explicou pra nós dois todo o processo com a doutora, quando ela tinha que fazer os exames e que em duas semanas teria uma nova consulta com ela pra confirmar com os resultados que tava tudo perfeito. Mas que, mesmo não sendo muito normal ela ter desmaiado naquele dia, o estado dela era bom.
Já mais relaxados, Javier se ofereceu pra fazer os cafés que a gente tanto gostava de tomar naquela hora do dia.
Depois notei que Ana ficou um pouco mais nervosa, segurando minha mão, enquanto, sem perceber, se apertava mais contra mim no sofá, deixando um pouco mais de espaço pro Javier.
-Aconteceu alguma coisa? - perguntei pros dois.
-Não, eu tinha acabado de chegar e tava contando pra Ana que preferia contar pra vocês dois ao mesmo tempo como foi a entrevista com o gerente.
-Te conto. Agradeço, Javier. Para o bem ou para o mal, eu também quero estar com ela em momentos como este.
— Diego, não se preocupa, que eu tô bem tranquila — ela me disse, sem soltar minha mão, quase quebrando meus dedos.
— Claro, querida, eu sei — respondi e olhei pra Javier, esperando ele começar logo a falar antes que eu gritasse com a falange fraturada.
— Vamos ver, por onde eu começo — ele disse —, confirmo pra vocês que eles querem um Diretor de Marketing. As funções vão ser escolher as empresas que vão fazer as campanhas comerciais, aprovar o design dessas campanhas e controlar a execução e os resultados. Bom, isso você já sabe melhor do que eu, né?
— Sim, claro, imaginava que ia ser assim.
— Agora vem o possível problema. Olha, cada país vai ter uma única empresa pra fazer as campanhas, o que significa que tem que viajar pra esses países.
— Mas Javier, isso uma pessoa sozinha não dá conta, vai precisar de alguém pra ajudar.
— Não sei, Ana, isso vocês têm que conversar entre si.
— Como assim "entre si"? O que quer dizer? — intervim eu, aguentando outro aperto fudido nos dedos da minha mão.
— É que o cargo é da Ana, se ela aceitar as viagens, claro.
— Porraaaaa...! — exclamei.
Ana não dizia nada, parecia que já sabia o que Javier ia contar sobre os requisitos do cargo.
— Imagino que vão querer me entrevistar, né?
— Sim, é o último requisito. O administrador, que é o responsável pela sua contratação, vai fazer essa entrevista.
— E pra quando seria a entrada? — perguntei.
— O gerente me disse que precisam pra ontem, então já viu.
Ana agora tava mais tranquila do que eu, que não tava assimilando muito bem essa história de viagens. Pelo menos ela tinha parado de torturar minha mão dolorida.
— Ana, querida, o que você diz sobre tudo isso? Isso?
—Que eu já esperava, que são as funções lógicas do cargo, viagens inclusas, claro.
—Então? — perguntei.
—Que da minha parte aceito, agora falta a sua, sem sua aprovação não quero o cargo que me ofereceram.
—Porra, não esperava isso, nem de longe — meu nervosismo só aumentava.
—Deixamos a decisão para amanhã — ela disse —, agora o Diego não tá em condições de decidir nada.
—Não se preocupem, eu pedi dois dias pra vocês pensarem. Só ligo depois de amanhã.
—É que não sei quantos dias você vai ficar fora de casa a partir de agora. Não consigo imaginar ficar um dia inteiro sem te ver. Muito menos você estar sempre fora de casa.
—Vamos estar sempre em contato, meu amor. Eu também não consigo ficar um dia sequer sem te ver.
—Embora eu não saiba como seu trabalho vai se desenrolar, acho que as viagens serão mais frequentes no começo, depois espaçam, né? — perguntou Javier.
—Sim, assim que as campanhas estiverem rodando, a gente só precisaria controlar os resultados. Teríamos que ir nas que não atingirem as metas — confirmou Ana.
—Por outro lado, tem o horário do seu expediente, que num cargo desses, você tem hora pra entrar, mas quase nunca pra sair — insisti de novo.
—Isso vou conversar com o administrador, antes de formalizar o contrato. Mas vai ser inevitável quando as circunstâncias exigirem.
Javier falava pouco, sabia que eu tava certo nas minhas colocações. Aquele trabalho ia significar uma baita redução na presença da Ana em casa.
—Bom, pensem bem vocês dois e não se apressem em tomar a decisão. Vou pro escritório, que tenho muito trabalho pendente. Vejo vocês no jantar.
Ele se levantou pra ir, mas Ana deu um pulo e se jogou num abraço nele.
—Obrigada, Javier — ela disse —, na vida eu teria uma oportunidade como essa se não fosse com sua ajuda.
Ele apertava ela com força, mas do jeito que meu amigo Carlos.
—Tomara que tudo dê certo pra vocês se aceitarem o cargo. Juro que é o que mais desejo.
Depois deu um tapa na bunda dela.
—E não fiquem me agradecendo, faço isso porque sou amigo de vocês. Amo vocês de verdade, tá?
Minha namorada olhou pra mim e eu levantei pra entrar naquele abraço que durou quase um minuto. Aí, sem mais conversa, ele foi pro escritório dele.
—Vamos pra varanda, precisamos tomar um ar — ela me disse.
—Ana, me explica o que é isso de viagens, porque não entendi nada direito.
—No começo, depende da área que a empresa quiser promover. Depois, teria que ir de duas a três vezes por país. Tem trabalho que dá pra fazer daqui, pra outros não tem jeito, a gente tem que ir pra lá.
—Você vai visitar os países um por um, ou teria que ir a dois ou três antes de voltar?
—Pode ser que precise fazer dos dois jeitos, principalmente no início; depois, normalmente seria um por um, mas nunca seriam estadias longas, no máximo deslocamentos de um dia.
—Parece que você já tá planejando.
—Na minha cabeça não consigo evitar, mas só no geral; sem saber as intenções deles, é impossível entrar em detalhes.
—Ana, vou sentir uma puta falta de você nos dias que não estiver aqui comigo, mas não vou ser um obstáculo pras oportunidades que tão surgindo. Quero que você aceite esse trabalho, primeiro por você mesma e depois por mim, e vou te dar todo meu apoio, sem esquecer do Javier que não para de nos ajudar.
—Sério, amor? Você não devia pensar melhor?
—Qual é, você não sabe o orgulho que me faz sentir, e me desculpa pelas minhas dúvidas de antes. Às vezes eu ajo como um egoísta babaca. Me dá um abraço.
Ela se jogou literalmente nos meus braços, que já estavam abertos. A gente se balançou de um lado pro outro enquanto durou aquele abraço. Depois dei um tapa na bunda dela.
—Já chega. Pesada, você tá se aproveitando de mim.
— Vai nessa... — respondeu ela, me dando um tapinha no ombro —, mas saiba que eu tenho licença pra isso.
Tive que rir, a gente tinha voltado ao clima bom.
— Além disso, lembra que daqui a duas semanas vou ter que passar três dias no curso em Madri.
— Tá preocupado com isso?
— Não, porque nem quis pensar nisso. Quando vem na cabeça, dá um aperto na boca do estômago.
— Tá falando isso porque eu e o Javier vamos ficar sozinhos esses dias?
— Já te disse que nem quero pensar, mas acho que é por isso. Não consigo ver claro vocês passando três dias e três noites sozinhos.
— Então não quero que você se preocupe, porque sabe que não vai rolar nada entre a gente. Jamais vamos fazer sem você estar presente.
— Mas tem outro motivo, amor.
— Como assim? O que quer dizer? Que não confia no que tô falando?
— Que nada, meu amor, o outro motivo da minha agonia sou eu mesmo. Sabe que sou um cuck sem cura e minha cabeça de baixo me pede pra vocês fazerem nesses dias.
Ela ficou chocada com o que eu tinha acabado de falar. Mesmo me conhecendo como se tivesse me parido, não esperava ouvir aquilo nem de longe.
— Mas sua cabeça de cima pede pra não fazer, né?
— Meu amor, tem uma linha direta entre a de cima e a de baixo, e por mais que eu tente separar, não tem jeito.
— Então fica tranquilo que de jeito nenhum vamos foder.
Olhei pra ela com uma expressão que ela interpretou como descrença.
— Mas Diego, por que duvida do que tô falando? Não confia no Javier?
— Já te disse que o Javier é muito fogoso. Sabe que várias vezes ele teve que dizer: "de agora em diante não vou mais fazer". Nem culpo ele, porque você não faz ideia do potencial sexual que exerce em todos os homens. Nele então, nem se fala.
Ela ficou bem séria. me encarando, quase sem piscar.
—Vou te dar um exemplo do que pode rolar. Imagina que vocês tão vendo um filme e você encosta suas costas no peito dele, ou ele faz uma massagem nos seus pés, ou você deita a cabeça no colo dele. São aproximações inocentes, mas você sabe como isso termina. Ele é muito fogoso e você, quando esquenta, não consegue parar. Tô certo?
—Amor, entre eu e o Javier tem uma atração sexual forte, mas somos adultos e fiéis a você. Se a gente fosse transar nessas condições, não mereceríamos nem ele e muito menos eu.
—Mas e se, mesmo assim, eu pedisse pra vocês fazerem?
—Não faria nem se você pedisse. Nunca. Além disso, se você continuar duvidando de mim, a gente para tudo a partir de agora. Minha única prioridade é você. Eu não quero ficar com mais ninguém além de você. Vamos falar com o Javier agora mesmo e dizer que acabou.
Fiquei de boca aberta. Não esperava essa reação da minha namorada. Achava que a atração sexual entre eles era tão forte que já não dava pra parar, mas a firmeza naquelas palavras me deixou claro que dava, sim.
—Não, amor, espera! — falei, segurando a mão dela quando ela se virou pra ir atrás do Javier —, eu não quero que acabe nada. Senta aqui de novo comigo e a gente conversa.
Ela tinha ficado bem irritada, e eu queria que ela relaxasse e me perdoasse. Ela sentou do meu lado, mas eu peguei ela e coloquei no meu colo.
—Tudo que eu tava te falando eram suposições, nunca fatos. Não leva a mal. Em nenhum momento eu afirmei nada.
Ela cobriu o rosto com as mãos e começou a soluçar.
—Amor, não chora. Não aguento ter te magoado, tô morrendo de dor por te fazer chorar.
Então eu abracei ela e comecei a soluçar junto. Queria morrer naquela hora. Como posso ser tão idiota se ela só me mostrou o amor que sente por mim? Como pude duvidar da firmeza dela? Ela estava certa, era melhor parar com minhas taras e idiotices e falar com Javier.
Ela ficou um tempo parada, depois foi tirando as mãos do rosto e envolveu meu pescoço com os braços. Em seguida, encostou a bochecha na minha, misturando nossas lágrimas.
— Se você me ama, nunca duvide de mim — disse ela com a voz embargada.
— Eu te amo mais que minha vida, amor meu. A culpa foi das paranóias que eu mesmo crio. Sei que não mereço seu perdão, mas se quiser, peço de joelhos que me perdoe. Você é a parte boa da nossa relação e eu sou um idiota, que não merece a mulher mais maravilhosa do universo que tenho ao meu lado.
Ela soluçou um pouco mais forte e se apertou mais contra mim.
— Se quiser que a gente termine isso, eu faço o que você mandar, porque sei que você é mais sensata do que eu.
Ficamos em silêncio por um tempo e, aos poucos, paramos de soluçar. Peguei o lenço que estava no bolso e sequei as lágrimas dela. Depois fiz o mesmo com as minhas.
— Vamos falar com Javier agora mesmo — falei.
Ela continuava sentada no meu colo, com as mãos apoiadas nas coxas, e não se mexeu.
— Vamos contar suas dúvidas pra ele e deixar que ele nos diga se acha que são justificadas. Se forem, a gente termina. Você sabe que ele vai ser sincero na resposta.
Peguei a mão dela e nos levantamos, mas antes de ir, abracei ela de novo por um minuto. Sou o cara dos abraços, muitos problemas se resolvem assim. Depois fomos ver Javier.
Ele estava no escritório, totalmente concentrado nos trabalhos que fazia no computador de mesa.
— Javier, você tem um momento? — perguntou ela — Queríamos falar com você.
— Ah, desculpa, estava distraído. Claro que tenho um momento pra vocês, lógico.
— Vem pra sala, lá a gente fica melhor.
Ele, ao ver nossas caras de preocupação, ficou alerta na hora.
— Aconteceu alguma coisa? Tô vendo vocês muito sérios — disse enquanto se levantava pra acompanhar a gente.
- Sim, acontece -respondeu minha namorada de novo.
Sentamos como sempre no sofá e agora éramos nós três, todos muito sérios.
- O que houve, Diego? Aconteceu alguma coisa? Vocês choraram?
- Para, Javier -falei-, a gente teve uma conversa sobre as relações que estamos tendo, por causa da minha ausência de três dias nas próximas semanas.
- E qual é o problema? -perguntou ele.
- É que eu criei um filme na minha cabeça sozinho sobre se vocês vão conseguir ficar esses três dias sem... sem foder.
- Mas, Diego, como é que você pensa uma coisa dessas, cara? Não te dei motivo pra duvidar de mim. Além do mais, a gente vai fazer isso de vez em quando... Por que a gente faria pelas suas costas?
- Não! -interveio minha namorada, com muita propriedade, porque eu tava acabado-, é que ele acha que, pelo jeito dele ser... pela tendência dele de querer que eu transe com outros, sabe, ele mesmo pode acabar pedindo pra gente fazer isso na ausência dele e que a gente não vai conseguir recusar por causa da nossa atração sexual. Tudo isso nos levou a perguntar pra você se acha que isso pode rolar.
- Pra deixar mais claro entre nós três -respondeu ele-, não vamos nos rasgar por causa de umas negações ou afirmações sobre isso que te fez duvidar de mim, e não sei se da Ana também. Nós três nos comprometemos a cumprir exatamente o que combinamos por escrito no famoso decálogo. Fora disso, não faremos nada, nunca duvide que vou quebrar esses acordos. Qualquer mudança tem que ser incluída antes no decálogo e ter nossa concordância por unanimidade.
Depois dessas palavras, nós três ficamos num silêncio longo. Foi minha namorada quem quebrou ele.
- Da minha parte, dou o assunto por encerrado.
Os dois olharam pra mim pra ver qual seria minha reação.
- Acho sua proposta certa. Você é um puta Salomão -falei enquanto me levantava-, agora quero que a gente Demos um abraço forte. Depois, se quiserem, podem me levar ao cadafalso.
Eles se levantaram na hora e nós três demos um abraço forte e demorado. Minha namorada começou a soluçar de novo, por ser emotiva. Eu não fiquei atrás, porque também me emocionei. Javier engoliu toda a saliva que tinha na boca para não fazer o mesmo, mas os olhos lacrimejantes o entregaram.
Aos poucos, fomos afrouxando aquele abraço e os soluços pararam. Javier foi o primeiro a se soltar, e nós fizemos o mesmo.
— Qual vai ser minha sentença? — perguntei a eles.
— Que vou te amar mais do que antes, porque você resolveu suas dúvidas com coragem. Você continua sendo meu namorado favorito — respondeu com um sorrisão, enquanto me dava um tapão na bunda. — Isso aqui você mereceu, seu cuck.
Nós três caímos na risada.
— Tem mais uma coisa — falei para Javier —, decidimos que a Ana vai aceitar a oferta de emprego.
— Não me diga! Você não devia ter pensado mais um pouco?
— Javier, não tenho o que pensar. Senti pânico só de imaginar a Ana não estando do meu lado algum dia. Era um pensamento egoísta, mas essa oportunidade que você conseguiu pra ela não vai aparecer de novo na vida. Ela merece isso e muito mais. Tô muito orgulhoso da minha namorada e sempre vou estar. Tomara que ela consiga essa vaga, vai ser a melhor.
— Tá bom, então amanhã cedo falo com o gerente. O administrador vai entrar em contato com você pra marcar a entrevista.
Aquilo já não tinha volta. Fiquei feliz por ter apoiado minha namorada mais uma vez, mas não conseguia deixar de sentir um aperto no estômago.
— Vamos pedir comida chinesa? Tô com vontade hoje — disse minha namorada.
— Pede a mesma coisa que vocês. Vou tomar um banho e volto pra cá — falou, indo para o quarto dele.
— Quer ensaboar ele, sua slutty? — perguntei num sussurro.
— Claro, seu cuck, mas não se empolga que hoje não vai rolar. Toca, já sabe.
—Que pena, que trabalho vai me dar não fazer isso até sexta, se é que vai ser nesse dia.
—Pra mim também, mas a gente tem que ser forte e respeitar as regras.
—Pois é... podia ter deixado pelo menos umas punhetas pra aliviar.
Nós dois soltamos umas gargalhadas.
—Que burro você é... Não prefere a gente meter um bom depois?
—Isso sempre, meu anjo.
—Então a gente faz depois, se quiser a gente coloca o vídeo que gravou na casa do Rafa.
—Porra, esse vídeo anima pra caralho, já tô de pau duro.
—A gente pode transar quando quiser, mas o Javier não vai poder, coitado — ela me disse.
—Não me surpreenderia se ele trouxesse uma mina ainda essa semana, são muitos dias de abstinência.
—Porra Diego, como isso vai me fazer mal quando acontecer.
—Por quê? Se você até ofereceu sua amiga Cris pra ele.
—É, mas na época não tinha rolado tudo que a gente fez depois.
Nessa hora a gente ouviu ele sair do chuveiro indo pro quarto dele.
—Você trocaria a frequência pra duas vezes por semana, em troca de ele não trazer uma mina aqui? — falei bem baixinho, aumentando um pouco o volume da TV — você teria que propor pra ele.
—Não sei, mas por enquanto não vamos mudar nada, já penso nisso.
Pouco depois trouxeram o jantar que a gente curtiu na mesma sala junto com o Javier.
—Muito trabalho, né? — perguntei pra ele.
—Tô meio atrasado e ainda falta bastante pra me atualizar. Também preciso trazer uns arquivos de casa. Todos os documentos estão lá.
—Um dia você tem que levar a gente pra conhecer sua casa — disse a Ana.
—Se vocês quiserem, na semana que vem.
—Nesse fim de semana a gente planejou ir ver nossos pais.
—Então a gente vê mais pra frente. Mas vamos logo, agora vocês não podem mais recusar.
—Limpa bem, não vai ter calcinha espalhada por todo lado. —lados —falei, rindo os três.
—A propósito, marquei com o Rafa pra ir na balada do outro dia.
—Agora? —perguntou minha namorada.
—Bom, umas onze.
Naquela hora, achei que ele tava com cara de bunda, mas era normal o que o Javier ia fazer.
—Vai trazer alguma mina aqui?
—Não sei, Ana, depende da sorte que eu tiver, capaz que eu não pego ninguém, dia de semana tem pouca gente.
—Tá muito carente, não é? Muitos dias sem uma mulher.
—Você não é mulher, não se inclui como uma, mas sim, tenho necessidades, igual vocês, claro.
—Mas a gente faz quando quer —falei.
—E eu uma vez por semana, olha, pra isso eu proponho quinta-feira, tá bom?
—A gente achava que ia pedir sexta.
—Quem dera, mas tenho que ir pra minha casa e vou ter que fazer na sexta. Sábado volto pra gente sair pros bares com seus amigos.
—Quinta-feira vai ser ótimo então —disse minha namorada.
Olhei pra ela esperando que fizesse a proposta de mudar as regras, mas meu sonho foi pro saco, porque a única coisa que fez foi pegar o controle da TV e botar um filme.
Depois se encostou no meu peito pra ficar colada em mim, e eu passei meu braço na cintura dela pra apertar um pouco mais.
Um tempo depois ele foi se arrumar.
—Não propôs nada pra ele, amor.
—Ele já tinha marcado com o Rafa, não dava pra mudar isso —respondeu num sussurro.
—Bom, se ele trouxer uma mina, você não tem que ficar brava também, a não ser que esteja com ciúmes.
—Tem razão, olha, que ele traga uma mina e coma ela aqui, assim a gente perde essas besteiras e vê como uma coisa normal.
—Tá bem, sabe o que te digo? Que eu queria que os dois viessem e te fizessem gozar dez vezes.
—Olha que você é um animal, vai, desliga a TV e vamos pra cama, que hoje ninguém te salva.
—Porra, que medo você me dá, safada.
Na terça de manhã, a Ana tinha a consulta de revisão. Depois, me mandou uma mensagem no celular:
“Por enquanto, tá tudo bem, só esperando os resultados dos exames. Depois a gente conversa”, seguido de vários emoticons de beijo.
Eu respondi com um OK e os mesmos emoticons.
Depois do almoço, liguei pra minha mina, como todo dia.
— Oi, amor, já comeu?
— Sim, agora mesmo. Me conta como foi sua consulta com a médica.
— Então, olha, não enrolei e falei que perdi a consciência depois de um orgasmo foda — ela respondeu dando umas risadinhas —, que nunca tinha me acontecido e que a gente tava preocupado. Depois ela mediu minha pressão, auscultou meu peito e minhas costas. Examinou as duas orelhas e os olhos. Também me fez um monte de perguntas, e no fim disse que, a princípio, não tinha nada, mas que ia pedir exames de sangue e um eletrocardiograma, mais pra confirmar o que já suspeitava, ou seja, que tô mais saudável que uma maçã. Daqui a dois dias faço o eletro e os exames de sangue e urina.
— Porra, Ana, você não sabe como meu corpo se animou agora, me sinto quase eufórico por dentro. Sorte a sua que não tô do seu lado, porque te daria um abraço com consequências traumatológicas pra você.
Ela soltou uma gargalhada.
— Nossa, que medo você me dá. Toma um chá de camomila antes de subir hoje à tarde.
— Porque hoje não é seu dia de foder com o Javier, senão a gente faria 5 penetrações duplas, sua safada.
Ela continuou rindo, mas a verdade é que nós dois liberamos uma boa parte da adrenalina que tava nos apertando nos últimos dias.
— Sabe alguma coisa do Javier?
— Não, tomara que ele me fale algo hoje à tarde. Tô chegando em casa, mas acho que ele não tá aqui.
— Bom, não fica nervosa, ele já te conta como foi a entrevista com o gerente.
— Sim, mas quando você sair, não demora, porque preciso de você do meu lado quando ele chegar. Javier, fala qualquer coisa.
-Eu sei, mas fica tranquila, minha vida. Vamos, te vejo depois, beijos, meu amor.
-Um beijo, céu.
Era lógico que ela estivesse tão nervosa, se ele conseguisse aquela vaga, a vida dela sofreria uma grande mudança.
Meia hora depois de sair do trabalho, cheguei em casa, me surpreendendo que Javier e Ana estavam na sala.
Ela estava com cara de preocupação, ao contrário dele, que estava bem relaxado.
-Oi, céu - me cumprimentou, enquanto se levantava pra vir até mim, ficando nós dois bem abraçados.
-Não foi nada, já te falei, tô perfeita, minha vida.
Mas eu não soltava ela e nem conseguia falar nada, até apertava ela mais forte contra mim. Nós dois estávamos com os olhos lacrimejando. Por cima do ombro dela, vi que Javier esfregava as mãos com um certo nervosismo e fiz sinal pra ele se juntar ao nosso abraço, coisa que ele fez na hora.
O abraço entre nós três durou uns dois minutos, até que finalmente fomos nos soltando aos poucos. Eu levei ela pro sofá e sentei ela no meu colo. Não queria me desgrudar dela por nada.
Depois ela explicou pra nós dois todo o processo com a doutora, quando ela tinha que fazer os exames e que em duas semanas teria uma nova consulta com ela pra confirmar com os resultados que tava tudo perfeito. Mas que, mesmo não sendo muito normal ela ter desmaiado naquele dia, o estado dela era bom.
Já mais relaxados, Javier se ofereceu pra fazer os cafés que a gente tanto gostava de tomar naquela hora do dia.
Depois notei que Ana ficou um pouco mais nervosa, segurando minha mão, enquanto, sem perceber, se apertava mais contra mim no sofá, deixando um pouco mais de espaço pro Javier.
-Aconteceu alguma coisa? - perguntei pros dois.
-Não, eu tinha acabado de chegar e tava contando pra Ana que preferia contar pra vocês dois ao mesmo tempo como foi a entrevista com o gerente.
-Te conto. Agradeço, Javier. Para o bem ou para o mal, eu também quero estar com ela em momentos como este.
— Diego, não se preocupa, que eu tô bem tranquila — ela me disse, sem soltar minha mão, quase quebrando meus dedos.
— Claro, querida, eu sei — respondi e olhei pra Javier, esperando ele começar logo a falar antes que eu gritasse com a falange fraturada.
— Vamos ver, por onde eu começo — ele disse —, confirmo pra vocês que eles querem um Diretor de Marketing. As funções vão ser escolher as empresas que vão fazer as campanhas comerciais, aprovar o design dessas campanhas e controlar a execução e os resultados. Bom, isso você já sabe melhor do que eu, né?
— Sim, claro, imaginava que ia ser assim.
— Agora vem o possível problema. Olha, cada país vai ter uma única empresa pra fazer as campanhas, o que significa que tem que viajar pra esses países.
— Mas Javier, isso uma pessoa sozinha não dá conta, vai precisar de alguém pra ajudar.
— Não sei, Ana, isso vocês têm que conversar entre si.
— Como assim "entre si"? O que quer dizer? — intervim eu, aguentando outro aperto fudido nos dedos da minha mão.
— É que o cargo é da Ana, se ela aceitar as viagens, claro.
— Porraaaaa...! — exclamei.
Ana não dizia nada, parecia que já sabia o que Javier ia contar sobre os requisitos do cargo.
— Imagino que vão querer me entrevistar, né?
— Sim, é o último requisito. O administrador, que é o responsável pela sua contratação, vai fazer essa entrevista.
— E pra quando seria a entrada? — perguntei.
— O gerente me disse que precisam pra ontem, então já viu.
Ana agora tava mais tranquila do que eu, que não tava assimilando muito bem essa história de viagens. Pelo menos ela tinha parado de torturar minha mão dolorida.
— Ana, querida, o que você diz sobre tudo isso? Isso?
—Que eu já esperava, que são as funções lógicas do cargo, viagens inclusas, claro.
—Então? — perguntei.
—Que da minha parte aceito, agora falta a sua, sem sua aprovação não quero o cargo que me ofereceram.
—Porra, não esperava isso, nem de longe — meu nervosismo só aumentava.
—Deixamos a decisão para amanhã — ela disse —, agora o Diego não tá em condições de decidir nada.
—Não se preocupem, eu pedi dois dias pra vocês pensarem. Só ligo depois de amanhã.
—É que não sei quantos dias você vai ficar fora de casa a partir de agora. Não consigo imaginar ficar um dia inteiro sem te ver. Muito menos você estar sempre fora de casa.
—Vamos estar sempre em contato, meu amor. Eu também não consigo ficar um dia sequer sem te ver.
—Embora eu não saiba como seu trabalho vai se desenrolar, acho que as viagens serão mais frequentes no começo, depois espaçam, né? — perguntou Javier.
—Sim, assim que as campanhas estiverem rodando, a gente só precisaria controlar os resultados. Teríamos que ir nas que não atingirem as metas — confirmou Ana.
—Por outro lado, tem o horário do seu expediente, que num cargo desses, você tem hora pra entrar, mas quase nunca pra sair — insisti de novo.
—Isso vou conversar com o administrador, antes de formalizar o contrato. Mas vai ser inevitável quando as circunstâncias exigirem.
Javier falava pouco, sabia que eu tava certo nas minhas colocações. Aquele trabalho ia significar uma baita redução na presença da Ana em casa.
—Bom, pensem bem vocês dois e não se apressem em tomar a decisão. Vou pro escritório, que tenho muito trabalho pendente. Vejo vocês no jantar.
Ele se levantou pra ir, mas Ana deu um pulo e se jogou num abraço nele.
—Obrigada, Javier — ela disse —, na vida eu teria uma oportunidade como essa se não fosse com sua ajuda.
Ele apertava ela com força, mas do jeito que meu amigo Carlos.
—Tomara que tudo dê certo pra vocês se aceitarem o cargo. Juro que é o que mais desejo.
Depois deu um tapa na bunda dela.
—E não fiquem me agradecendo, faço isso porque sou amigo de vocês. Amo vocês de verdade, tá?
Minha namorada olhou pra mim e eu levantei pra entrar naquele abraço que durou quase um minuto. Aí, sem mais conversa, ele foi pro escritório dele.
—Vamos pra varanda, precisamos tomar um ar — ela me disse.
—Ana, me explica o que é isso de viagens, porque não entendi nada direito.
—No começo, depende da área que a empresa quiser promover. Depois, teria que ir de duas a três vezes por país. Tem trabalho que dá pra fazer daqui, pra outros não tem jeito, a gente tem que ir pra lá.
—Você vai visitar os países um por um, ou teria que ir a dois ou três antes de voltar?
—Pode ser que precise fazer dos dois jeitos, principalmente no início; depois, normalmente seria um por um, mas nunca seriam estadias longas, no máximo deslocamentos de um dia.
—Parece que você já tá planejando.
—Na minha cabeça não consigo evitar, mas só no geral; sem saber as intenções deles, é impossível entrar em detalhes.
—Ana, vou sentir uma puta falta de você nos dias que não estiver aqui comigo, mas não vou ser um obstáculo pras oportunidades que tão surgindo. Quero que você aceite esse trabalho, primeiro por você mesma e depois por mim, e vou te dar todo meu apoio, sem esquecer do Javier que não para de nos ajudar.
—Sério, amor? Você não devia pensar melhor?
—Qual é, você não sabe o orgulho que me faz sentir, e me desculpa pelas minhas dúvidas de antes. Às vezes eu ajo como um egoísta babaca. Me dá um abraço.
Ela se jogou literalmente nos meus braços, que já estavam abertos. A gente se balançou de um lado pro outro enquanto durou aquele abraço. Depois dei um tapa na bunda dela.
—Já chega. Pesada, você tá se aproveitando de mim.
— Vai nessa... — respondeu ela, me dando um tapinha no ombro —, mas saiba que eu tenho licença pra isso.
Tive que rir, a gente tinha voltado ao clima bom.
— Além disso, lembra que daqui a duas semanas vou ter que passar três dias no curso em Madri.
— Tá preocupado com isso?
— Não, porque nem quis pensar nisso. Quando vem na cabeça, dá um aperto na boca do estômago.
— Tá falando isso porque eu e o Javier vamos ficar sozinhos esses dias?
— Já te disse que nem quero pensar, mas acho que é por isso. Não consigo ver claro vocês passando três dias e três noites sozinhos.
— Então não quero que você se preocupe, porque sabe que não vai rolar nada entre a gente. Jamais vamos fazer sem você estar presente.
— Mas tem outro motivo, amor.
— Como assim? O que quer dizer? Que não confia no que tô falando?
— Que nada, meu amor, o outro motivo da minha agonia sou eu mesmo. Sabe que sou um cuck sem cura e minha cabeça de baixo me pede pra vocês fazerem nesses dias.
Ela ficou chocada com o que eu tinha acabado de falar. Mesmo me conhecendo como se tivesse me parido, não esperava ouvir aquilo nem de longe.
— Mas sua cabeça de cima pede pra não fazer, né?
— Meu amor, tem uma linha direta entre a de cima e a de baixo, e por mais que eu tente separar, não tem jeito.
— Então fica tranquilo que de jeito nenhum vamos foder.
Olhei pra ela com uma expressão que ela interpretou como descrença.
— Mas Diego, por que duvida do que tô falando? Não confia no Javier?
— Já te disse que o Javier é muito fogoso. Sabe que várias vezes ele teve que dizer: "de agora em diante não vou mais fazer". Nem culpo ele, porque você não faz ideia do potencial sexual que exerce em todos os homens. Nele então, nem se fala.
Ela ficou bem séria. me encarando, quase sem piscar.
—Vou te dar um exemplo do que pode rolar. Imagina que vocês tão vendo um filme e você encosta suas costas no peito dele, ou ele faz uma massagem nos seus pés, ou você deita a cabeça no colo dele. São aproximações inocentes, mas você sabe como isso termina. Ele é muito fogoso e você, quando esquenta, não consegue parar. Tô certo?
—Amor, entre eu e o Javier tem uma atração sexual forte, mas somos adultos e fiéis a você. Se a gente fosse transar nessas condições, não mereceríamos nem ele e muito menos eu.
—Mas e se, mesmo assim, eu pedisse pra vocês fazerem?
—Não faria nem se você pedisse. Nunca. Além disso, se você continuar duvidando de mim, a gente para tudo a partir de agora. Minha única prioridade é você. Eu não quero ficar com mais ninguém além de você. Vamos falar com o Javier agora mesmo e dizer que acabou.
Fiquei de boca aberta. Não esperava essa reação da minha namorada. Achava que a atração sexual entre eles era tão forte que já não dava pra parar, mas a firmeza naquelas palavras me deixou claro que dava, sim.
—Não, amor, espera! — falei, segurando a mão dela quando ela se virou pra ir atrás do Javier —, eu não quero que acabe nada. Senta aqui de novo comigo e a gente conversa.
Ela tinha ficado bem irritada, e eu queria que ela relaxasse e me perdoasse. Ela sentou do meu lado, mas eu peguei ela e coloquei no meu colo.
—Tudo que eu tava te falando eram suposições, nunca fatos. Não leva a mal. Em nenhum momento eu afirmei nada.
Ela cobriu o rosto com as mãos e começou a soluçar.
—Amor, não chora. Não aguento ter te magoado, tô morrendo de dor por te fazer chorar.
Então eu abracei ela e comecei a soluçar junto. Queria morrer naquela hora. Como posso ser tão idiota se ela só me mostrou o amor que sente por mim? Como pude duvidar da firmeza dela? Ela estava certa, era melhor parar com minhas taras e idiotices e falar com Javier.
Ela ficou um tempo parada, depois foi tirando as mãos do rosto e envolveu meu pescoço com os braços. Em seguida, encostou a bochecha na minha, misturando nossas lágrimas.
— Se você me ama, nunca duvide de mim — disse ela com a voz embargada.
— Eu te amo mais que minha vida, amor meu. A culpa foi das paranóias que eu mesmo crio. Sei que não mereço seu perdão, mas se quiser, peço de joelhos que me perdoe. Você é a parte boa da nossa relação e eu sou um idiota, que não merece a mulher mais maravilhosa do universo que tenho ao meu lado.
Ela soluçou um pouco mais forte e se apertou mais contra mim.
— Se quiser que a gente termine isso, eu faço o que você mandar, porque sei que você é mais sensata do que eu.
Ficamos em silêncio por um tempo e, aos poucos, paramos de soluçar. Peguei o lenço que estava no bolso e sequei as lágrimas dela. Depois fiz o mesmo com as minhas.
— Vamos falar com Javier agora mesmo — falei.
Ela continuava sentada no meu colo, com as mãos apoiadas nas coxas, e não se mexeu.
— Vamos contar suas dúvidas pra ele e deixar que ele nos diga se acha que são justificadas. Se forem, a gente termina. Você sabe que ele vai ser sincero na resposta.
Peguei a mão dela e nos levantamos, mas antes de ir, abracei ela de novo por um minuto. Sou o cara dos abraços, muitos problemas se resolvem assim. Depois fomos ver Javier.
Ele estava no escritório, totalmente concentrado nos trabalhos que fazia no computador de mesa.
— Javier, você tem um momento? — perguntou ela — Queríamos falar com você.
— Ah, desculpa, estava distraído. Claro que tenho um momento pra vocês, lógico.
— Vem pra sala, lá a gente fica melhor.
Ele, ao ver nossas caras de preocupação, ficou alerta na hora.
— Aconteceu alguma coisa? Tô vendo vocês muito sérios — disse enquanto se levantava pra acompanhar a gente.
- Sim, acontece -respondeu minha namorada de novo.
Sentamos como sempre no sofá e agora éramos nós três, todos muito sérios.
- O que houve, Diego? Aconteceu alguma coisa? Vocês choraram?
- Para, Javier -falei-, a gente teve uma conversa sobre as relações que estamos tendo, por causa da minha ausência de três dias nas próximas semanas.
- E qual é o problema? -perguntou ele.
- É que eu criei um filme na minha cabeça sozinho sobre se vocês vão conseguir ficar esses três dias sem... sem foder.
- Mas, Diego, como é que você pensa uma coisa dessas, cara? Não te dei motivo pra duvidar de mim. Além do mais, a gente vai fazer isso de vez em quando... Por que a gente faria pelas suas costas?
- Não! -interveio minha namorada, com muita propriedade, porque eu tava acabado-, é que ele acha que, pelo jeito dele ser... pela tendência dele de querer que eu transe com outros, sabe, ele mesmo pode acabar pedindo pra gente fazer isso na ausência dele e que a gente não vai conseguir recusar por causa da nossa atração sexual. Tudo isso nos levou a perguntar pra você se acha que isso pode rolar.
- Pra deixar mais claro entre nós três -respondeu ele-, não vamos nos rasgar por causa de umas negações ou afirmações sobre isso que te fez duvidar de mim, e não sei se da Ana também. Nós três nos comprometemos a cumprir exatamente o que combinamos por escrito no famoso decálogo. Fora disso, não faremos nada, nunca duvide que vou quebrar esses acordos. Qualquer mudança tem que ser incluída antes no decálogo e ter nossa concordância por unanimidade.
Depois dessas palavras, nós três ficamos num silêncio longo. Foi minha namorada quem quebrou ele.
- Da minha parte, dou o assunto por encerrado.
Os dois olharam pra mim pra ver qual seria minha reação.
- Acho sua proposta certa. Você é um puta Salomão -falei enquanto me levantava-, agora quero que a gente Demos um abraço forte. Depois, se quiserem, podem me levar ao cadafalso.
Eles se levantaram na hora e nós três demos um abraço forte e demorado. Minha namorada começou a soluçar de novo, por ser emotiva. Eu não fiquei atrás, porque também me emocionei. Javier engoliu toda a saliva que tinha na boca para não fazer o mesmo, mas os olhos lacrimejantes o entregaram.
Aos poucos, fomos afrouxando aquele abraço e os soluços pararam. Javier foi o primeiro a se soltar, e nós fizemos o mesmo.
— Qual vai ser minha sentença? — perguntei a eles.
— Que vou te amar mais do que antes, porque você resolveu suas dúvidas com coragem. Você continua sendo meu namorado favorito — respondeu com um sorrisão, enquanto me dava um tapão na bunda. — Isso aqui você mereceu, seu cuck.
Nós três caímos na risada.
— Tem mais uma coisa — falei para Javier —, decidimos que a Ana vai aceitar a oferta de emprego.
— Não me diga! Você não devia ter pensado mais um pouco?
— Javier, não tenho o que pensar. Senti pânico só de imaginar a Ana não estando do meu lado algum dia. Era um pensamento egoísta, mas essa oportunidade que você conseguiu pra ela não vai aparecer de novo na vida. Ela merece isso e muito mais. Tô muito orgulhoso da minha namorada e sempre vou estar. Tomara que ela consiga essa vaga, vai ser a melhor.
— Tá bom, então amanhã cedo falo com o gerente. O administrador vai entrar em contato com você pra marcar a entrevista.
Aquilo já não tinha volta. Fiquei feliz por ter apoiado minha namorada mais uma vez, mas não conseguia deixar de sentir um aperto no estômago.
— Vamos pedir comida chinesa? Tô com vontade hoje — disse minha namorada.
— Pede a mesma coisa que vocês. Vou tomar um banho e volto pra cá — falou, indo para o quarto dele.
— Quer ensaboar ele, sua slutty? — perguntei num sussurro.
— Claro, seu cuck, mas não se empolga que hoje não vai rolar. Toca, já sabe.
—Que pena, que trabalho vai me dar não fazer isso até sexta, se é que vai ser nesse dia.
—Pra mim também, mas a gente tem que ser forte e respeitar as regras.
—Pois é... podia ter deixado pelo menos umas punhetas pra aliviar.
Nós dois soltamos umas gargalhadas.
—Que burro você é... Não prefere a gente meter um bom depois?
—Isso sempre, meu anjo.
—Então a gente faz depois, se quiser a gente coloca o vídeo que gravou na casa do Rafa.
—Porra, esse vídeo anima pra caralho, já tô de pau duro.
—A gente pode transar quando quiser, mas o Javier não vai poder, coitado — ela me disse.
—Não me surpreenderia se ele trouxesse uma mina ainda essa semana, são muitos dias de abstinência.
—Porra Diego, como isso vai me fazer mal quando acontecer.
—Por quê? Se você até ofereceu sua amiga Cris pra ele.
—É, mas na época não tinha rolado tudo que a gente fez depois.
Nessa hora a gente ouviu ele sair do chuveiro indo pro quarto dele.
—Você trocaria a frequência pra duas vezes por semana, em troca de ele não trazer uma mina aqui? — falei bem baixinho, aumentando um pouco o volume da TV — você teria que propor pra ele.
—Não sei, mas por enquanto não vamos mudar nada, já penso nisso.
Pouco depois trouxeram o jantar que a gente curtiu na mesma sala junto com o Javier.
—Muito trabalho, né? — perguntei pra ele.
—Tô meio atrasado e ainda falta bastante pra me atualizar. Também preciso trazer uns arquivos de casa. Todos os documentos estão lá.
—Um dia você tem que levar a gente pra conhecer sua casa — disse a Ana.
—Se vocês quiserem, na semana que vem.
—Nesse fim de semana a gente planejou ir ver nossos pais.
—Então a gente vê mais pra frente. Mas vamos logo, agora vocês não podem mais recusar.
—Limpa bem, não vai ter calcinha espalhada por todo lado. —lados —falei, rindo os três.
—A propósito, marquei com o Rafa pra ir na balada do outro dia.
—Agora? —perguntou minha namorada.
—Bom, umas onze.
Naquela hora, achei que ele tava com cara de bunda, mas era normal o que o Javier ia fazer.
—Vai trazer alguma mina aqui?
—Não sei, Ana, depende da sorte que eu tiver, capaz que eu não pego ninguém, dia de semana tem pouca gente.
—Tá muito carente, não é? Muitos dias sem uma mulher.
—Você não é mulher, não se inclui como uma, mas sim, tenho necessidades, igual vocês, claro.
—Mas a gente faz quando quer —falei.
—E eu uma vez por semana, olha, pra isso eu proponho quinta-feira, tá bom?
—A gente achava que ia pedir sexta.
—Quem dera, mas tenho que ir pra minha casa e vou ter que fazer na sexta. Sábado volto pra gente sair pros bares com seus amigos.
—Quinta-feira vai ser ótimo então —disse minha namorada.
Olhei pra ela esperando que fizesse a proposta de mudar as regras, mas meu sonho foi pro saco, porque a única coisa que fez foi pegar o controle da TV e botar um filme.
Depois se encostou no meu peito pra ficar colada em mim, e eu passei meu braço na cintura dela pra apertar um pouco mais.
Um tempo depois ele foi se arrumar.
—Não propôs nada pra ele, amor.
—Ele já tinha marcado com o Rafa, não dava pra mudar isso —respondeu num sussurro.
—Bom, se ele trouxer uma mina, você não tem que ficar brava também, a não ser que esteja com ciúmes.
—Tem razão, olha, que ele traga uma mina e coma ela aqui, assim a gente perde essas besteiras e vê como uma coisa normal.
—Tá bem, sabe o que te digo? Que eu queria que os dois viessem e te fizessem gozar dez vezes.
—Olha que você é um animal, vai, desliga a TV e vamos pra cama, que hoje ninguém te salva.
—Porra, que medo você me dá, safada.
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