Acordei de repente, ainda era noite, sentia uma dor muito forte na região da cintura pra baixo... "Coisas do ofício?" — pensei comigo mesma. Sentei e molhei os pés naquela poça, que ainda estava lá. Levantei e olhei o relógio: já tinham se passado três horas desde que eu tinha desmaiado. Fui até o armário de remédios do banheiro, pensei que se tomasse uma aspirina podia aliviar as dores. Abri uma das torneiras e bebi água com as mãos em concha, tomei o comprimido e suspirei. Me olhei no espelho e estava acabada: olheiras, cabelo todo bagunçado e um olhar cansado. Gente normal já teria desistido, mas eu tava decidida a continuar. Tinha gostado tanto daquilo que não dava pra parar. Lavei o rosto e, quando percebi que não tinha mais sono, pensei em limpar a casa, que não tinha feito depois que a Lorena foi embora. Fui até a sala, peguei a camisola que tinha usado, vesti e comecei a passar um pano no chão. Peguei o arnês e joguei na pia da cozinha, de molho. Tirei o enchimento das almofadas que tinham sido "feridas" na lida e coloquei pra secar na brisa da varanda. Como o chão da sala era de madeira, achei melhor passar cera pra deixar brilhando. Devo ser a primeira pessoa que resolve encerar o chão nessa hora da madrugada. Quando terminei, o chão tava limpo, o cheiro do ambiente agradável, e o sofá desmontado. Minhas dores tinham diminuído e eu tava com vontade de tomar alguma coisa. Fui até o pequeno armário, peguei o uísque, servi um gole num copo "old fashioned" com dois cubos de gelo, sentei numa cadeira e suspirei. Já tinham passado duas clientes: uma que a Laura chamou de suave, e outra, de pesada. Será que eu podia me dedicar a isso em tempo integral? Pelo estado da minha carteira, com certeza, mas será que eu tava pronta pra isso? Pra viver numa corda bamba de mentiras? Todo mundo gosta de sexo, ninguém pode negar, a não ser o padre devoto ou aquele bando de velhas fofoqueiras do primeiro andar — já tinham se passado uns Dias e já conhecia a maioria das caras do meu prédio — então esse não era o problema, mas fazer disso meu trampo?. Enquanto esses debates pessoais rolavam na minha cabeça, às vezes eu murmurava e continuava bebendo. Quando no meu copo só sobravam restos de água do gelo, o sol já tava aparecendo, os primeiros ônibus faziam aquele barulhão na minha rua e começava mais um dia. Fui tomar um banho rápido, sem dar atenção pra nenhuma parte do meu corpo, e pensei em sair pra tomar café da manhã em algum lugar. Coloquei um conjunto de lingerie cor da pele, um vestido branco, sandálias pretas e saí, com bolsa na mão e óculos escuros. Caminhei tranquila, curtindo a manhã enquanto procurava um café. Andei três quarteirões e achei um, chamava "As Angelinhas", parecia novo, mesas dentro e fora. Como tava calor, decidi ficar do lado de fora, tinha uma brisa de verão que ajudava os transeuntes ocasionais. Sentei numa mesa, onde tinha uns cardápios, e olhei pra dentro. Pela aparência, deduzi o motivo do nome do lugar: na minha opinião, não tinha funcionários ou gerentes homens, eram tudo mulher. Daí um tempo, uma mulher se aproximou, provavelmente da minha idade, ou pelo menos uns anos a mais ou a menos, com um avental azul claro na cintura. — Oi, bom dia, o que você vai querer? — ela perguntou com um sorriso e um olhar alegre. Olhei pra ela e tinha o nome no avental: "Milena". — Oi, Mile — me atrevi a tratar por tu —, vou querer um Frappé de morango com uma torrada, ok? — fiz o pedido enquanto sorria pra ela. — Pode deixar, sem problema, já vou trazer — ela respondeu, devolvendo o sorriso. — Posso te perguntar uma coisa? — interrompi ela indo pro balcão — Só trabalham mulheres aqui? — falei. — Sim, sim, as donas são duas irmãs e decidiram fazer um café de mulheres — ela ria enquanto contava. — Ah, olha que diferente — sorri. Com isso, ela foi pro balcão preparar o que eu tinha pedido. Fiquei olhando as folhas das árvores dançarem no ritmo do vento e me espreguicei, mesmo já tendo passado um tempo, era estranho fazer coisas de adulta estando sozinha. Minutos depois meu celular tocou, pelo toque pude deduzir antes de pegar que era uma chamada. Atendi e uma voz desconhecida se apresentou
— Oi, bom dia, me chamo Florencia, tava ligando pra marcar um encontro, pode ser? — me disse a voz estranha. Fiquei perplexa, quem era? Devia ignorar a ligação e desligar? Fiquei pensando rápido num plano.
— Oi, bom dia, me chamo Florencia, tava ligando pra marcar um encontro, pode ser? — me disse a voz estranha. Fiquei perplexa, quem era? Devia ignorar a ligação e desligar? Fiquei pensando rápido num plano.
2 comentários - Minhas experiências como acompanhante (VI)