Uma noite amena, parida por um dia quente, da segunda metade dos anos 90, ao chegar em casa, levava no carro brinquedos novos para meus três filhos e uma desculpa velha para minha esposa.
Depois de um jantar frugal, banhado, barbeador elétrico a pilha na maleta, vestido com a roupa de sempre para as ocasiões em que tinha trabalho fora do horário normal — pra não levantar suspeitas — e uma expressão de sacrifício, saí pra encontrar a Erika.
Erika tinha um ar decidido e uma beleza rara.
De boa fonte, sabia que não foram poucos os jovens que penaram pelos favores dela e sofreram com suas recusas e caprichos, que herdou as curvas da mãe, os gostos do pai e que, depois de virar a cabeça de advogados, médicos, políticos, acabou sucumbindo a um Indivíduo que, pelo nascimento e posses, se destacava entre os concidadãos: um marido VIP, que lhe dava uma vida morna e folgada, mas na época em que meu trabalho me fez conviver com ela (eu tocava um projeto pra empresa do marido dela, projeto pra qual fui designado na firma de engenharia que me empregava), os desejos ardentes dela estavam com ações, se não congeladas, monótonas.
Passado o tempo — alguns meses —, múltiplos encontros profissionais, sondagens e sugestões pra induzi-la a "jogar com cartas novas", ela largou a rotina, supostamente anos de indecisão, e pegou um táxi pra uma aventura, mais ou menos na mesma hora em que eu saía no meu carro. Levou consigo um perfume novo pra mim, uma esperança antiga e uma excitação recente pra ela mesma. Banhada, depilada e com lingerie provocante — pra despertar desejo —, vestiu uma conveniente expressão de indiferença — nunca se sabe — que não combinava com a vertigem do proibido nem com a ousadia de mergulhar no desconhecido com um homem (eu), não mal posicionado, que perdia, e muito, em nível social e econômico pro marido, mas o superava em atitude, em estilo, em trato e, nos assuntos de conversa, às vezes, salpicados com delicadas indecências e leves vulgaridades.
Deixei o carro num estacionamento perto do meu escritório – nunca se sabe. –
Antes de entregar a chave, conferi minha barba e meu cabelo no espelho retrovisor. Depois peguei um táxi pra ir ao bar da esquina da Corrientes com Callao (hoje desaparecido).
O programa, pra aquele dia, era o de sempre pra encontros desse tipo, exceto pela companhia: uma mulher Vip, com marido VIP, provavelmente teria a classe que faltava pras cúmplices de contravenções anteriores. Quem sabe não misturaria aos gemidos um pouco de francês…
O encontro começou com sorrisos cúmplices e dois beijos no rosto:
– Você tá esplêndida, radiante!! –
– Muito gentil, obrigada pela amabilidade. –
– Tô falando sério. –
– Pra todas que você traz aqui, diz a mesma coisa –
– Você é a primeira –
– Não acredito. –
– ……….. –
– Quer pedir agora? –
Falamos de banalidades, de atualidades, e da beleza, elegância e charme da minha companhia daquela noite, eu. Ela, do agradável do lugar, de alguns dos seus sentimentos, tédios, sonhos e novos projetos pessoais.
Chegou o silêncio pós-bebidas e ficamos imóveis, nos olhando. No ar flutuava o aroma de corpos exaltados, a excitação acumulada, as tensões das forças opostas de atração precisavam de uma saída. Ao sentir um toque insinuante de um pezinho debaixo da mesa, me levantei meio e nos beijamos pela primeira vez.
Percebi que era hora de concretizar e propus um espaço mais íntimo.
Ela sentiu que era hora de falar e disse que buscava emoções inéditas, que queria voar, ser outra pessoa e, ao mesmo tempo, ser ela mesma:
– Você me entende? –
Tinha minhas dúvidas, mas não as manifestei, muito pelo contrário. Já veria o que fazer:
– Claro que sim! Fica perto daqui o lugar que te falei, vamos no mesmo táxi, ninguém vai nos ver. –
– Quero experimentar com você o encanto do Fada verde". Inspirada pela fada verde, vamos viajar para uma dimensão desconhecida. Trouxe um vidrinho na bolsa. Pronto pra tomar com a proporção certa de água e açúcar. Não é a mesma coisa que preparar na hora, mas serve. -
"Não podia ser de outro jeito", pensei, é uma mulher chique e tem fantasias estranhas, extravagantes.
Lembrei que o absinto também é conhecido como fada verde (la fée verte) por causa de um suposto efeito alucinógeno. Charles Baudelaire, Vincent Van Gogh (dizem que perdeu a orelha sob seus efeitos), Oscar Wilde, Henri de Toulouse-Lautrec, Edgar Allan Poe, entre muitos outros, eram adeptos da fada verde.
Foi proibido no começo do século XX, em quase todo o mundo. Com o tempo e estudos rigorosos, comprovou-se que, fora o alto teor alcoólico, não tem nenhuma propriedade nociva.
Um halo ou crença envolve esse elixir. Acredita-se que alucina, seduz e faz desejar veementemente. No começo dos anos 2000, foi incluído num filme (Alfie) onde a protagonista (Susan Sarandon) bebe absinto com o ritual recomendado (absinto + colher perfurada com cubo de açúcar + água) com seu parceiro e depois transam de um jeito alucinante.
No módulo da sala de jantar, na minha casa, tinha uma garrafinha da marca Mari Mayans (que trouxe da Espanha, sei lá em que ano. Acho que na península nunca foi proibida.) praticamente sem uso (tinha usado em umas duas sessões íntimas caseiras sem nada de especial).
-Bom, vamos? O que você acha? –
Paguei a conta e saímos em busca do hotel Los Pinos, na Avenida Independência, 1300.
No quarto, retomamos o beijo de língua, só insinuado no bar, e as mãos começaram a percorrer nossos corpos com carícias cada vez mais ousadas que, apesar da roupa no meio, deram pra consumir um bom punhado de minutos ardentes.
Em seguida, era hora de tirar as roupas. Tentei começar com botões e zíperes. —Me dá um segundo — ela respondeu, se afastando e me empurrando com as mãos no peito.
Percebi malícia no olhar da Erika. Não entendi o porquê até que ela foi até onde tinha deixado a bolsa, tirou um vidrinho minúsculo com um líquido verde claro, desenroscou a tampinha e levou à boca. Voltou até mim, colou os lábios nos meus e derramou num beijo o absinto da boca dela na minha boca. Engoli a dose e a surpresa.
Ela pegou minha mão direita e levou por baixo do vestido dela, na região pubiana depilada, protegida só pela calcinha — algo mais que úmida, algo menos que molhada — e soltou (segura de que dali eu teria dificuldade de tirar) para, em seguida, ir em busca da minha virilha crescida e pulsante.
Foi o “chega de enrolação e vamos ao que interessa”. Instantes depois, éramos duas crateras prestes a vomitar lava.
O que aconteceu, a partir daquele momento e pelo resto do turno do hotel, foi um se deixar levar pelas paixões, se entregar à exaltação dos sentidos, quase sem moderação.
Não posso garantir se, entre a infinidade de emoções vividas por nós dois, houve alguma inédita. As que eu curti foram das mais intensas às alucinantes, entre elas o excelso Beijo de Cingapura que ela intercalou com maestria e, pelo que pude perceber na Erika (nas pupilas dilatadas dela eu lia o desejo selvagem que a consumia, os gemidos dela ecoavam pelas paredes do quarto, os quadris dela se mexiam apressados, a língua dela insistia em se encontrar com a minha numa dança erótica animal, o clitóris dela pulsava frenético estimulado pelas carícias…) ela teve ondas de prazer que pareciam ameaçar deixá-la sem consciência.
Teve uma profusão de orgasmos dela e ejaculações profusas da minha parte, na intimidade mais profunda dela.
No entanto, na hora de ir embora, concordamos que a gente se devia, pelo menos, uma repetição.
Saímos do hotel os dois no mesmo táxi que, antes de me deixar no estacionamento onde tinha deixado o carro, seguiu viagem até o apartamento dele.
Ao entrar no quarto, depois de uma nova e cuidadosa higiene corporal e escovação dos dentes além dos três minutos recomendados, e enxágue bucal com um antisséptico – pra evitar a remota possibilidade de detectarem cheiros suspeitos – encontrei minha esposa, iluminada pela luz fraca do abajur que eu tinha esquecido de apagar, profundamente adormecida, uma expressão gostosa, tranquila no rosto, destapada por causa do calor da noite, com o corpo descansando de costas, as pernas abertas em V e uma das mãos apoiada perto da buceta.
A cena acabou com o cansaço e acendeu o desejo. Era a primeira vez que, voltando de um ato de pirataria sexual, sentia pela minha esposa, naquele nível, os chamados, os uivos dos meus genitais.
De repente, me lembrei da garrafa de absinto espanhol no móvel e do truque esperto e safado da Erika no hotel. Segundos depois, munido de colher, despejei sobre um torrão de açúcar uma pequena quantidade do líquido verde, água pra baixar o alto teor alcoólico e voltei pro quarto.
Acordei a Mariela com carícias, beijos e tirando a calcinha dela, tomei uma dose mínima do absinto e posicionei meu corpo sobre o dela, obediente. Ela, quase dormindo, aceitou as mini doses que minha boca – com medo de sufocar ela – ia derramando na boca dela e o pau urgente e pulsante. Ela cumpriu o "papel" de esposa, cooperando morna no começo, com entusiasmo, intensidade e loucura, sucessivamente, quando caiu na real. Com movimentos ritmados, a boca dela mordendo de leve e soltando suspiros e gemidos; as unhas dela cravando nas minhas costas a cada estocada do meu pau. Ficamos entrelaçados, nos deliciando, nos devorando um ao outro, até que senti meu gozo subir na cabeça como tomando impulso, se soltou "algo" que deu um ritmo desenfreado no entra e sai da rola, que diminuiu depois que o fluido que tinha subido desceu de repente e inundou a grutinha da Mariela, que, com um gemido profundo antes, soltou o orgasmo dela, me arranhando as costas e mexendo a pelve igual uma louca.
Já recuperado, depois do epílogo, o coração voltou ao normal, ela suspirou, reclamando de mentirinha por eu ter interrompido o sono dela. Depois quis saber:
— O que era aquilo que você tinha na boca quando começou a me beijar? Era doce e alcoólico. Um licor… e você não bebe vinho nem licor, pelo que eu saiba. De onde você tirou isso?
— Era o fada verde. Veio do módulo da sala. Viu que bom? Você sentiu, provou e te acordou! E, de quebra, ficou toda carinhosa.
— O que eu senti lá dentro e me despertou foi outra coisa, seu sem-vergonha!!! Que fada, que nada!!!... Seu pau duro igual ferro!…. O que você disse que é o fada verde?
— O absinto que a gente tem no barzinho do módulo.
— Ahhh, agora entendi!!! Agora caiu a ficha, é aquela garrafinha verde-esmeralda que você trouxe de Madrid. Eu tinha esquecido dela. O que deu em você, desenterrar ela hoje, a essa hora?
— Amanhã te conto o que me veio à cabeça quando, ao chegar, te vi como a Vênus Nua da pintura do Giorgione, com uma mãozinha na “flor da vida”. Queria te acordar e te deixar “tesuda”…...
— Que loucura a sua!!
— Hora de dormir.
E tem quem diga que os anos de convivência trazem, inevitavelmente, o tédio.
No nosso caso, os anos de convivência, apesar de uma certa, pesada, mas suportável rotina, continuaram sendo altamente prazerosos e ardentes, naquela época e depois.
Talvez, tenha ajudado um pouco a gente ter se atrevido, de vez em quando, a indecências sutis, a paixões e/ou amores furtivos.
Está provado, sem sombra de dúvida, que o absinto não é alucinógeno nem afrodisíaco, mas…. minha adesão ao método científico fraqueja quando relembro aquela noite extraordinária dos anos 90.
Me invade a suspeita de que sim, com esse elixir, se potencializa a propensão natural do espírito e do corpo a se juntar com outro espírito e corpo e se tornarem ambos um todo durante um intervalo cativante. de vez em quando, conhecido mas sempre renovado, gratificante e, inevitavelmente, sempre curto demais. (e, às vezes, em conflito com a moral e os bons costumes que todo ser humano, supostamente, deveria "professar" e nem sempre o faz. "Felizmente")
É só por uns instantes, logo descarto a ideia, diante da evidência precisa e objetiva da ciência.
A cantil verde de absinto se perdeu, junto com outras duas garrafas de licor, num infeliz acidente doméstico (tropeço na limpeza do móvel).
Em algumas ocasiões, peguei a Mariela cochichando no telefone (ou, de uns anos pra cá, no celular dela, ou sorrindo abertamente pra tela do notebook) e me perguntei: "com quem será que ela tá falando (ou trocando ideia) e por que ri tanto assim?".
Nada de surpreendente: a ciência já estabeleceu que os mamíferos tão meio que de mal com a fidelidade – só 3% é monogâmico – com os primatas (incluindo a gente e os macacos bonobos) na liderança.
Não tenho provas, mas antes do acidente na limpeza do móvel, tive a impressão de que o nível do conteúdo da cantil tinha baixado.
Será que ela, a Mariela, também não apelou pra fada verde pra dar um toque, refinar alguma escapada "non sancta"?
Depois de um jantar frugal, banhado, barbeador elétrico a pilha na maleta, vestido com a roupa de sempre para as ocasiões em que tinha trabalho fora do horário normal — pra não levantar suspeitas — e uma expressão de sacrifício, saí pra encontrar a Erika.
Erika tinha um ar decidido e uma beleza rara.
De boa fonte, sabia que não foram poucos os jovens que penaram pelos favores dela e sofreram com suas recusas e caprichos, que herdou as curvas da mãe, os gostos do pai e que, depois de virar a cabeça de advogados, médicos, políticos, acabou sucumbindo a um Indivíduo que, pelo nascimento e posses, se destacava entre os concidadãos: um marido VIP, que lhe dava uma vida morna e folgada, mas na época em que meu trabalho me fez conviver com ela (eu tocava um projeto pra empresa do marido dela, projeto pra qual fui designado na firma de engenharia que me empregava), os desejos ardentes dela estavam com ações, se não congeladas, monótonas.
Passado o tempo — alguns meses —, múltiplos encontros profissionais, sondagens e sugestões pra induzi-la a "jogar com cartas novas", ela largou a rotina, supostamente anos de indecisão, e pegou um táxi pra uma aventura, mais ou menos na mesma hora em que eu saía no meu carro. Levou consigo um perfume novo pra mim, uma esperança antiga e uma excitação recente pra ela mesma. Banhada, depilada e com lingerie provocante — pra despertar desejo —, vestiu uma conveniente expressão de indiferença — nunca se sabe — que não combinava com a vertigem do proibido nem com a ousadia de mergulhar no desconhecido com um homem (eu), não mal posicionado, que perdia, e muito, em nível social e econômico pro marido, mas o superava em atitude, em estilo, em trato e, nos assuntos de conversa, às vezes, salpicados com delicadas indecências e leves vulgaridades.
Deixei o carro num estacionamento perto do meu escritório – nunca se sabe. –
Antes de entregar a chave, conferi minha barba e meu cabelo no espelho retrovisor. Depois peguei um táxi pra ir ao bar da esquina da Corrientes com Callao (hoje desaparecido).
O programa, pra aquele dia, era o de sempre pra encontros desse tipo, exceto pela companhia: uma mulher Vip, com marido VIP, provavelmente teria a classe que faltava pras cúmplices de contravenções anteriores. Quem sabe não misturaria aos gemidos um pouco de francês…
O encontro começou com sorrisos cúmplices e dois beijos no rosto:
– Você tá esplêndida, radiante!! –
– Muito gentil, obrigada pela amabilidade. –
– Tô falando sério. –
– Pra todas que você traz aqui, diz a mesma coisa –
– Você é a primeira –
– Não acredito. –
– ……….. –
– Quer pedir agora? –
Falamos de banalidades, de atualidades, e da beleza, elegância e charme da minha companhia daquela noite, eu. Ela, do agradável do lugar, de alguns dos seus sentimentos, tédios, sonhos e novos projetos pessoais.
Chegou o silêncio pós-bebidas e ficamos imóveis, nos olhando. No ar flutuava o aroma de corpos exaltados, a excitação acumulada, as tensões das forças opostas de atração precisavam de uma saída. Ao sentir um toque insinuante de um pezinho debaixo da mesa, me levantei meio e nos beijamos pela primeira vez.
Percebi que era hora de concretizar e propus um espaço mais íntimo.
Ela sentiu que era hora de falar e disse que buscava emoções inéditas, que queria voar, ser outra pessoa e, ao mesmo tempo, ser ela mesma:
– Você me entende? –
Tinha minhas dúvidas, mas não as manifestei, muito pelo contrário. Já veria o que fazer:
– Claro que sim! Fica perto daqui o lugar que te falei, vamos no mesmo táxi, ninguém vai nos ver. –
– Quero experimentar com você o encanto do Fada verde". Inspirada pela fada verde, vamos viajar para uma dimensão desconhecida. Trouxe um vidrinho na bolsa. Pronto pra tomar com a proporção certa de água e açúcar. Não é a mesma coisa que preparar na hora, mas serve. -
"Não podia ser de outro jeito", pensei, é uma mulher chique e tem fantasias estranhas, extravagantes.
Lembrei que o absinto também é conhecido como fada verde (la fée verte) por causa de um suposto efeito alucinógeno. Charles Baudelaire, Vincent Van Gogh (dizem que perdeu a orelha sob seus efeitos), Oscar Wilde, Henri de Toulouse-Lautrec, Edgar Allan Poe, entre muitos outros, eram adeptos da fada verde.
Foi proibido no começo do século XX, em quase todo o mundo. Com o tempo e estudos rigorosos, comprovou-se que, fora o alto teor alcoólico, não tem nenhuma propriedade nociva.
Um halo ou crença envolve esse elixir. Acredita-se que alucina, seduz e faz desejar veementemente. No começo dos anos 2000, foi incluído num filme (Alfie) onde a protagonista (Susan Sarandon) bebe absinto com o ritual recomendado (absinto + colher perfurada com cubo de açúcar + água) com seu parceiro e depois transam de um jeito alucinante.
No módulo da sala de jantar, na minha casa, tinha uma garrafinha da marca Mari Mayans (que trouxe da Espanha, sei lá em que ano. Acho que na península nunca foi proibida.) praticamente sem uso (tinha usado em umas duas sessões íntimas caseiras sem nada de especial).
-Bom, vamos? O que você acha? –
Paguei a conta e saímos em busca do hotel Los Pinos, na Avenida Independência, 1300.
No quarto, retomamos o beijo de língua, só insinuado no bar, e as mãos começaram a percorrer nossos corpos com carícias cada vez mais ousadas que, apesar da roupa no meio, deram pra consumir um bom punhado de minutos ardentes.
Em seguida, era hora de tirar as roupas. Tentei começar com botões e zíperes. —Me dá um segundo — ela respondeu, se afastando e me empurrando com as mãos no peito.
Percebi malícia no olhar da Erika. Não entendi o porquê até que ela foi até onde tinha deixado a bolsa, tirou um vidrinho minúsculo com um líquido verde claro, desenroscou a tampinha e levou à boca. Voltou até mim, colou os lábios nos meus e derramou num beijo o absinto da boca dela na minha boca. Engoli a dose e a surpresa.
Ela pegou minha mão direita e levou por baixo do vestido dela, na região pubiana depilada, protegida só pela calcinha — algo mais que úmida, algo menos que molhada — e soltou (segura de que dali eu teria dificuldade de tirar) para, em seguida, ir em busca da minha virilha crescida e pulsante.
Foi o “chega de enrolação e vamos ao que interessa”. Instantes depois, éramos duas crateras prestes a vomitar lava.
O que aconteceu, a partir daquele momento e pelo resto do turno do hotel, foi um se deixar levar pelas paixões, se entregar à exaltação dos sentidos, quase sem moderação.
Não posso garantir se, entre a infinidade de emoções vividas por nós dois, houve alguma inédita. As que eu curti foram das mais intensas às alucinantes, entre elas o excelso Beijo de Cingapura que ela intercalou com maestria e, pelo que pude perceber na Erika (nas pupilas dilatadas dela eu lia o desejo selvagem que a consumia, os gemidos dela ecoavam pelas paredes do quarto, os quadris dela se mexiam apressados, a língua dela insistia em se encontrar com a minha numa dança erótica animal, o clitóris dela pulsava frenético estimulado pelas carícias…) ela teve ondas de prazer que pareciam ameaçar deixá-la sem consciência.
Teve uma profusão de orgasmos dela e ejaculações profusas da minha parte, na intimidade mais profunda dela.
No entanto, na hora de ir embora, concordamos que a gente se devia, pelo menos, uma repetição.
Saímos do hotel os dois no mesmo táxi que, antes de me deixar no estacionamento onde tinha deixado o carro, seguiu viagem até o apartamento dele.
Ao entrar no quarto, depois de uma nova e cuidadosa higiene corporal e escovação dos dentes além dos três minutos recomendados, e enxágue bucal com um antisséptico – pra evitar a remota possibilidade de detectarem cheiros suspeitos – encontrei minha esposa, iluminada pela luz fraca do abajur que eu tinha esquecido de apagar, profundamente adormecida, uma expressão gostosa, tranquila no rosto, destapada por causa do calor da noite, com o corpo descansando de costas, as pernas abertas em V e uma das mãos apoiada perto da buceta.
A cena acabou com o cansaço e acendeu o desejo. Era a primeira vez que, voltando de um ato de pirataria sexual, sentia pela minha esposa, naquele nível, os chamados, os uivos dos meus genitais.
De repente, me lembrei da garrafa de absinto espanhol no móvel e do truque esperto e safado da Erika no hotel. Segundos depois, munido de colher, despejei sobre um torrão de açúcar uma pequena quantidade do líquido verde, água pra baixar o alto teor alcoólico e voltei pro quarto.
Acordei a Mariela com carícias, beijos e tirando a calcinha dela, tomei uma dose mínima do absinto e posicionei meu corpo sobre o dela, obediente. Ela, quase dormindo, aceitou as mini doses que minha boca – com medo de sufocar ela – ia derramando na boca dela e o pau urgente e pulsante. Ela cumpriu o "papel" de esposa, cooperando morna no começo, com entusiasmo, intensidade e loucura, sucessivamente, quando caiu na real. Com movimentos ritmados, a boca dela mordendo de leve e soltando suspiros e gemidos; as unhas dela cravando nas minhas costas a cada estocada do meu pau. Ficamos entrelaçados, nos deliciando, nos devorando um ao outro, até que senti meu gozo subir na cabeça como tomando impulso, se soltou "algo" que deu um ritmo desenfreado no entra e sai da rola, que diminuiu depois que o fluido que tinha subido desceu de repente e inundou a grutinha da Mariela, que, com um gemido profundo antes, soltou o orgasmo dela, me arranhando as costas e mexendo a pelve igual uma louca.
Já recuperado, depois do epílogo, o coração voltou ao normal, ela suspirou, reclamando de mentirinha por eu ter interrompido o sono dela. Depois quis saber:
— O que era aquilo que você tinha na boca quando começou a me beijar? Era doce e alcoólico. Um licor… e você não bebe vinho nem licor, pelo que eu saiba. De onde você tirou isso?
— Era o fada verde. Veio do módulo da sala. Viu que bom? Você sentiu, provou e te acordou! E, de quebra, ficou toda carinhosa.
— O que eu senti lá dentro e me despertou foi outra coisa, seu sem-vergonha!!! Que fada, que nada!!!... Seu pau duro igual ferro!…. O que você disse que é o fada verde?
— O absinto que a gente tem no barzinho do módulo.
— Ahhh, agora entendi!!! Agora caiu a ficha, é aquela garrafinha verde-esmeralda que você trouxe de Madrid. Eu tinha esquecido dela. O que deu em você, desenterrar ela hoje, a essa hora?
— Amanhã te conto o que me veio à cabeça quando, ao chegar, te vi como a Vênus Nua da pintura do Giorgione, com uma mãozinha na “flor da vida”. Queria te acordar e te deixar “tesuda”…...
— Que loucura a sua!!
— Hora de dormir.
E tem quem diga que os anos de convivência trazem, inevitavelmente, o tédio.
No nosso caso, os anos de convivência, apesar de uma certa, pesada, mas suportável rotina, continuaram sendo altamente prazerosos e ardentes, naquela época e depois.
Talvez, tenha ajudado um pouco a gente ter se atrevido, de vez em quando, a indecências sutis, a paixões e/ou amores furtivos.
Está provado, sem sombra de dúvida, que o absinto não é alucinógeno nem afrodisíaco, mas…. minha adesão ao método científico fraqueja quando relembro aquela noite extraordinária dos anos 90.
Me invade a suspeita de que sim, com esse elixir, se potencializa a propensão natural do espírito e do corpo a se juntar com outro espírito e corpo e se tornarem ambos um todo durante um intervalo cativante. de vez em quando, conhecido mas sempre renovado, gratificante e, inevitavelmente, sempre curto demais. (e, às vezes, em conflito com a moral e os bons costumes que todo ser humano, supostamente, deveria "professar" e nem sempre o faz. "Felizmente")
É só por uns instantes, logo descarto a ideia, diante da evidência precisa e objetiva da ciência.
A cantil verde de absinto se perdeu, junto com outras duas garrafas de licor, num infeliz acidente doméstico (tropeço na limpeza do móvel).
Em algumas ocasiões, peguei a Mariela cochichando no telefone (ou, de uns anos pra cá, no celular dela, ou sorrindo abertamente pra tela do notebook) e me perguntei: "com quem será que ela tá falando (ou trocando ideia) e por que ri tanto assim?".
Nada de surpreendente: a ciência já estabeleceu que os mamíferos tão meio que de mal com a fidelidade – só 3% é monogâmico – com os primatas (incluindo a gente e os macacos bonobos) na liderança.
Não tenho provas, mas antes do acidente na limpeza do móvel, tive a impressão de que o nível do conteúdo da cantil tinha baixado.
Será que ela, a Mariela, também não apelou pra fada verde pra dar um toque, refinar alguma escapada "non sancta"?
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