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Compêndio IIIO ar dentro da sala de conferências estava tenso. A mistura entre perfumes caros e loções pós-barba, café exótico e o ozônio do projetor criava uma atmosfera desagradável.
- Acho que podemos precisar de ativos adicionais, não utilizados, para resolver esse problema. – sugeri, com os olhos já fixos na resposta.
Os olhos de Cristina se arregalaram, com um olhar desconcertado. Ela se recostou na cadeira ergonômica de tela, e o tecido soltou um rangido agudo e rítmico que pontuou suas preocupações.
• O quê? Marco, já estou no meu limite! - respondeu ela, com a voz tensa e o tecido justo da blusa se esticando levemente enquanto ela se mexia. - Cassidy é minha melhor programadora e qualquer contratempo com o mainframe pode nos comprometer, independentemente do seu projeto. Não posso te emprestar mais ninguém.Os membros da diretoria começaram a murmurar, um zumbido baixo de confusão que percorreu a sala como uma onda física. A expressão de Cassidy mudou; seus olhos verde-uva se nublaram com uma tristeza repentina e aguda; parecia alguém vendo um sonho frágil começar a rachar antes mesmo de ter a chance de voar. Ao lado dela, Nelson se recostou, com a postura afundada numa desesperança silenciosa que refletia a dúvida coletiva da sala. Mas Cristina notou que eu não estava escutando ela.
- Não me refiro a um programadordo seu apartamento, Cristina. -respondi, com um sorriso lento e malicioso puxando os cantos da minha boca. Mudei o peso do meu corpo, sentindo como a dinâmica de poder na sala balançava sobre seu eixo. - Eu quis dizer que podemos precisar da Kaori.
O quarto ficou mergulhado num silêncio tão pesado que parecia físico. Observei como as reações se espalhavam pela mesa, uma sequência de contrações musculares faciais que me indicavam exatamente qual era a postura de cada um. O maxilar de Cristina não caiu (ela era disciplinada demais para isso), mas suas pupilas se dilataram, uma resposta instintiva diante de uma ameaça percebida.
*+*+*+*+*+*
Tinha sido minha primeira reunião de diretoria desde minha reintegração, e o ar estava saturado do aroma de poder recuperado e velhos rancores. Edith tinha voltado de sua licença médica com fome de novidades, seus lábios pálidos e finos apertados numa linha de curiosidade profissional. Queria saber exatamente o que a diretoria vinha conquistando durante sua ausência, e Cassidy tinha aproveitado o momento. Com o apoio de Cristina servindo como escudo, a jovem programadora deu um passo à frente para revelar o projeto pessoal que vinha cultivando nas sombras digitais da empresa.
Do lado oposto da mesa de mogno, Gloria estava sentada com os braços cruzados firmemente sobre o peito, seu olhar alternando entre Cassidy e a tela do projetor com uma volatilidade que beirava a combustão. Para Gloria, cada movimento do rabo de cavalo de Cassidy era uma afronta pessoal, e cada faísca de inteligência nos olhos da mulher mais jovem era sentida como um desafio à sua própria posição. Parecia menos uma observadora da diretoria e mais uma juíza esperando um deslize no decoro.
Como sempre, a roupa da Cassidy era tão ousada quanto seu código, um guarda-roupa que borrava a linha entre vestimenta corporativa e flerte. Para os novatos, seu decote pronunciado e seus shorts jeans justos pareciam um convite, mas depois de passar uma tarde dentro do cofre da sala do servidor mestre, eu entendi a lógica prática por trás daquele código de vestimenta sensual. O calor naquele bunker de concreto era algo denso e opressivo: uma parede espessa e zumbente de calor capaz de murchar um colarinho engomado em segundos. A ventilação travava uma batalha perdida contra a pura potência calórica dos servidores, e o traje leve da Cassidy tinha menos a ver com provocação e mais com sobrevivência.
No entanto, Nelson nunca punha um pé dentro daquela câmara de concreto quando Cassidy estava de turno. Assim como eu, ele é um homem de hábitos meticulosos, o que significava que a colaboração deles era uma dança coordenada à distância. Trabalhavam em paralelo, como duas engrenagens girando em salas separadas, se comunicando por pings criptografados e chamadas de voz altas horas da noite, garantindo que a sinergia profissional deles nunca se arriscasse à volatilidade da proximidade física.-< Como vocês podem ver… - começou Nelson, recuperando a cadência profissional e estável da voz enquanto mostrava a última versão beta da plataforma. - Cassidy e eu carregamos com sucesso um mainframe digital dos sites. A plataforma é totalmente funcional, proporcionando um centro centralizado com acesso fácil e uma interface intuitiva que otimiza o processo de relatórios.
Cassidy ficou vermelha.
-3 Caraca, Nelson! Você não é um garoto bonito? - chilreou Cassidy, deixando a voz cair naquele acento texano arrastado, doce e pausado, que sempre parecia vibrar na sala muito depois de ela parar de falar. Ela se inclinou para ele com um brilho brincalhão nos olhos verde-uva que fazia a formalidade da reunião do conselho parecer uma sugestão pitoresca. - É, esse campo tá pronto pra arar! O problema é que não conseguimos pegar esses arquivos como queríamos. Simplesmente tem muitos pra escolher.
Edith olhou para Nelson, com um olhar plano e nada impressionado com os coloquialismos, e pediu uma explicação mais normal. Nelson se remexeu no assento, enquanto um leve rubor subia pelo pescoço ao tentar traduzir as preocupações de Cassidy, de metáforas rurais para linguagem corporativa.
-< Ela tem razão. - admitiu Nelson, recuperando a firmeza profissional na voz apesar do leve rubor que ainda subia pelo pescoço. - A plataforma é funcional e Cassidy e eu já a configuramos, mas não conseguimos recuperar a informação como queremos. Cada site tem seu próprio sistema de arquivo. Diferentes convenções de nomenclatura, diferentes pastas, diferentes metadados... até o mesmo tipo de relatório pode ser armazenado de maneira diferente dependendo do site. -3 É como se tivessem soltado todos esses contêineres de chaves pra gente, dizendo que estavam organizados, mas ninguém lembrou de nos dizer o que eles entendem pororganizado... -Cassidy se recostou, fazendo com que seu rabo de cavalo chicoteasse o ombro. Mostrou um sorriso largo e safado que parecia vibrar com uma energia que a sala de reuniões costumava tentar suprimir. - Então aqui estamos todos procurando pelo em ovo, tentando achar a agulha certa num monte inteiro de palheiros. > E qual é a alternativa? - perguntou Edith, cortando o silêncio denso da sala. Ela se inclinou para frente com um movimento preciso e econômico, desviando o olhar dos dados fragmentados da tela para encarar Nelson de novo.
-3 Bom, esse é o problema, chefa! - Cassidy bufou, um som seco e impaciente que ecoou pelas paredes estéreis. Levantou as mãos, fazendo seu rabo de cavalo voltar a bater no ombro com um estalo rítmico. - Nelson e eu tentamos desenrolar essa bagunça, mas não conseguimos sozinhos. Até o Marco nos colocou em contato com a filial de Adelaide pra um teste e o sistema todo pirou. Tentamos inserir algumas sequências de teste e a plataforma se recusou a avançar o mínimo. Já não sabemos o que fazer.Ele tinha razão; a magnitude do caos era avassaladora. Eu tinha entrado em contato com o Kevin, um antigo vizinho dos meus tempos no acampamento de Broken Hill que agora comandava o departamento de informática da nossa filial irmã. Ele tinha se disposto a fazer um teste, alimentando a plataforma com dados reais de cinco sites diferentes pra ver se o motor conseguia digerir o ruído. O resultado não foi uma falha elegante, mas sim uma catástrofe digital. O sistema não só parou; ele surtou, se engasgando com a pura variância dos fluxos de dados até que a interface congelou num mosaico irregular de códigos de erro e colapsou. Era como tentar esvaziar um oceano usando uma colher. Então, o Nelson assumiu.
-< Não é que a gente não consiga. O sistema é funcional. Se implementarmos a plataforma de forma generalizada, vai ser uma bênção pros nossos chefes de centro. - Nelson tranquilizou a Edith. - Mas, infelizmente, o volume bruto dos dados é uma montanha que não dá pra escalar rapidinho. Pra processar e categorizar direito a informação herdada de cada site, pode levar um ano ou dois.
> Dois anos é uma vida inteira nessa indústria! - observou Edith, baixando a voz enquanto o peso do cronograma se assentava na sala. Ela se recostou, e o couro da sua cadeira executiva soltou um gemido suave e cansado, enquanto juntava as palmas das mãos com uma precisão lenta e deliberada. - E você tem certeza de que essa plataforma é eficaz? Ou estamos apenas construindo um arquivo digital caríssimo que nunca vamos conseguir preencher?
Nelson e eu trocamos olhares de apoio, um pacto silencioso de confiança de que o motor funcionava, mesmo que as linhas de combustível estivessem atualmente obstruídas por escombros do passado.
-< Marco e eu sabemos que essa é uma ferramenta que seria muito bem-vinda nos sites. -respondeu Nelson, com uma cordialidade genuína na voz. - Praticamente resume tudo o que costumamos ter que gerenciar manualmente nos diferentes departamentos. Transforma uma semana de arquivamento monótono em alguns segundos de cliques.
Edith se inclinou sobre a extensão de mogno da mesa de conferências, com um movimento lento e pesado, como se o peso do legado da empresa pressionasse seus ombros. Soltou um suspiro de resignação que pareceu esvaziar o otimismo restante na sala.
> Infelizmente, embora eu compreenda suas boas intenções, não podemos desperdiçar nosso tempo com isso. - sentenciou Edith, com uma finalidade pesada e triste que pareceu atenuar as luzes da sala. Não se limitou a rejeitar o projeto; ela lamentou. - Mesmo se eu desse luz verde, a realidade é que estão surgindo mais relatórios enquanto falamos. Vocês não estão simplesmente cavando um buraco; estão tentando drenar um oceano com um dedal. Seria um trabalho interminável.
-3 Mas podemos arquivá-los em tarefas recursivas, senhora! - implorou Cassidy, perdendo o toque brincalhão do seu sotaque para dar lugar a uma urgência desesperada e aguda. Ela se inclinou para frente, quase escorregando da cadeira, com os olhos verdes dilatados por uma espécie de brilho frenético. - Não precisamos processá-los ao vivo! Podemos guardá-los num buffer, colocá-los no Booty em loops recursivos e deixar o sistema mastigar o acumulado enquanto o novo se amontoa. Podemos ganhar do relógio!
O olhar de Edith passou de Cassidy para a tela piscante do projetor, e depois voltou a se fixar na jovem. Por um momento, a CEO não era um titã corporativo; era uma matemática calculando a probabilidade de um milagre diante do peso esmagador de um prazo. Olhou para Cassidy com uma ternura que parecia deslocada numa sala projetada para a eficiência fria, o tipo de olhar que uma mãe dá a um filho pouco antes de partir o coração dele pelo próprio bem dele.> Sinto muito, querida, mas nossas opções são limitadas! - respondeu Edith, suavizando a voz até adotar um tom tão incomumente emocional que soou como um abraço contra a compostura da sala.
Era a primeira vez que se dirigia a um funcionário chamando-o de "querida", e a palavra flutuou como uma peça de vidro frágil, brilhando pouco antes de se estilhaçar.
O ar na sala de reuniões ficou denso, com um silêncio estagnado e pesado. Era o tipo de quietude que segue o funeral de um sonho, onde o único som é o zumbido distante do sistema de climatização tentando, sem sucesso, purgar o aroma de decepção do ambiente. Sonia e Letty trocaram um olhar cansado, suas expressões refletindo a derrota dos outros. Até Cristina, geralmente a mais implacável do grupo, tinha se curvado ligeiramente, e seus ombros afiados perderam aquele fio predador enquanto ela encarava o projetor. Maddie e Horatio eram agora simples figuras decorativas, com os rostos vazios e as mentes já derivando para o alívio do fim do expediente. Eram pessoas capazes, certamente, mas pensavam em linhas retas, e esse problema era um labirinto.
Mas foi nesse silêncio pesado e estagnado que comecei a escanear a sala, deixando meu olhar passar por cima dos ombros caídos dos derrotados e dos olhares vazios dos desinteressados. Tentava encontrar uma maneira de fechar a lacuna entre o brilhante motor de Cassidy e a montanha caótica de dados, e enquanto meus olhos vagavam, pararam em uma figura silenciosa sentada na periferia. Notei, talvez, a única "solução pouco ortodoxa" sentada em silêncio entre nós...
Ali, posta com uma quietude que beirava o sobrenatural, estava Kaori. Sentava-se como uma extensão da sombra de Inga, com seus olhos heterocromáticos (um azul glacial, outro verde oliva) fitando o horizonte com uma precisão que fazia o resto de nós parecer desfocado. Não era programadora, e certamente não era analista de dados, mas possuía um tipo específico de habilidades que a tornavam viável.
*+*+*+*+*+*Voltando ao início do colapso, o silêncio que seguiu minha sugestão não apenas persistiu: se solidificou. Cada par de olhos na sala convergiu sobre mim com uma sincronização que parecia quase coreografada, como se a reunião tivesse decidido coletivamente que eu finalmente havia sucumbido a algum tipo de psicose corporativa. A única exceção era Inga; ela não parecia surpresa, mas sim como se estivesse medindo mentalmente a distância entre minha jugular e o abridor de cartas mais próximo. Para ela, minha sugestão não era simplesmente uma excentricidade; era uma violação territorial.
> Se explica! - ordenou Edith, sua voz cortando o silêncio como um martelo batendo num bloco. Ela se inclinou para frente, estreitando os olhos apertados como se tentasse encontrar o erro na minha lógica.
O resto da diretoria me olhava como se eu tivesse acabado de sugerir que a gente financiasse a expansão de um concorrente: uma expressão coletiva de perplexidade que só fazia o olhar da Inga ficar mais letal. Ela não parecia confusa; parecia estar calculando mentalmente a forma mais eficiente de se livrar do meu corpo.- Você não lembra o que aconteceu no ano passado? - perguntei, me recostando na cadeira com um desprendimento que eu sabia que estava irritando os nervos da Inga. Olhei ao redor da mesa, genuinamente divertido pela amnésia coletiva que tinha tomado conta da diretoria. - No ano passado, quando os ventos estavam mudando e a Cristina buscava qualquer migalha de vantagem sobre a contratação da Isabella pra me tirar da diretoria, não foi um programador que encontrou a verdade. Foi a Kaori que se infiltrou nos arquivos.
Minhas palavras eram um ponto sensível pra Cristina. Naquela época, a Kaori era a alavanca pra me tirar da diretoria. Mas agora, a Cristina e eu estamos muito mais unidos...
• Então sua solução é introduzir um risco? - explodiu Cristina, com uma voz afiada o suficiente pra cortar o silêncio restante. Ela se mexeu na cadeira, e o movimento fez a blusa justa se esticar contra o peito dela enquanto se inclinava pra frente, com uma expressão que misturava indignação profissional e um lampejo de algo muito mais pessoal.
Para ela, sugerir a Kaori como um ativo era como sugerir uma raposa como o novo chefe de segurança de um galinheiro.No entanto, a reação de Julien foi o verdadeiro catalisador. Ele não apenas falou; detonou. O consultor jurídico francês se levantou bruscamente, e sua cadeira deslizou para trás com um rangido violento que soou como um animal ferido. Seu rosto, normalmente uma máscara de diplomacia polida, havia se tingido de um carmesim profundo e alarmante que contrastava espetacularmente com sua gravata de seda.
-> ¡Non! ¡Non! ¡Non, Monsieur! - explodiu Julien, e seu sotaque francês ficou mais acentuado até que suas palavras se tornaram uma rajada rápida de indignação. Ele se lançou para frente, golpeando a superfície de mogno com as palmas das mãos com um som parecido com o de um disparo. - ¡KaorinãoÉ de confiar! É um fantasma, uma sombra que trata os protocolos de segurança como sugestões! Invadiu arquivos confidenciais, pulou meus firewalls e tratou minhas salvaguardas profissionais como se fossem portas abertas! Se eu fosse a Madame, não daria um projeto pra ela; eu a manteria na coleira curta e sob vigilância permanente!
- Exatamente! É por isso que a Kaori é perfeita! - exclamei, cortando a indignação do Julien com a precisão de uma lâmina. Inclinei-me para frente, e a mudança repentina na minha postura refletiu a mudança de energia na sala.A pobre Kaori parecia ter sido atingida por um raio duas vezes no mesmo lugar. Ficou congelada, piscando rapidamente com seus olhos desiguais, presa em um fogo cruzado psíquico. Por um lado, o Julien acabara de retratá-la como uma predadora corporativa, uma habitante das sombras que tratava as proteções de informação digital como simples enfeites. Por outro, eu estava defendendo ela baseado precisamente no ato de espionagem que ela tinha cometido contra mim. Eu era a vítima da infiltração dela e, no entanto, aqui estava eu, oferecendo um lugar na mesa pra ela. A ironia era palpável, tão espessa quanto a tensão que vibrava entre a gente.
Mas a agitação na sala tinha atingido um ponto crítico, uma sinfonia caótica de suspiros indignados e o contínuo balbucio em francês do Julien. O ar parecia carregado, como o instante antes de uma tempestade de inverno desabar sobre os Andes, enquanto os membros da junta olhavam alternadamente pra Kaori e pra mim, como se fôssemos duas peças de um quebra-cabeça que se recusavam a encaixar. Finalmente, a Edith deixou escapar um suspiro longo e cansado de exasperação que pareceu reduzir o volume da sala pela metade.
> Marco, por favor, se explique! - A voz da Edith não apenas ordenava; vibrava com uma severidade que poderia ter congelado uma cachoeira. Ela se recostou na cadeira, entreabrindo os olhos em frestas de ceticismo profissional. - Estou inclinada a ver a lógica no seu pensamento pouco ortodoxo, mas não posso ignorar os sinais de alerta. As preocupações do Julien não são infundadas. A Kaori é um fantasma na máquina, e fantasmas são notoriamente difíceis de responsabilizar. Detalhe tudo, e faça isso rápido!
Até meu fiel A amiga Sonia se aproximou, roçando minha mão com um gesto silencioso e instintivo de apoio. Sempre tinha sido minha âncora silenciosa nessas tempestades, o tipo de mulher que confiava na minha intuição mesmo quando parecia loucura para todo mundo. Do outro lado da extensão de mogno, Kaori parecia ter sido despida na frente de um pelotão de fuzilamento. Seus olhos desiguais saltavam de um para o outro, brilhando com um coquetel de preocupação e vergonha genuína. Tinha existido nessa empresa como um fantasma silencioso, uma sombra que operava na periferia, sem saber que sua invisibilidade tinha fomentado, na verdade, uma aura latente de desconfiança entre a diretoria.
- Olha, Julien! - comecei, desviando o olhar para o francês, cujo rosto ainda tinha um tom grená vívido. Sabia que o orgulho do homem era tão vasto quanto seus arquivos jurídicos, e a única maneira de avançar com meu plano ousado era convencê-lo primeiro. - Suponho que, devido à natureza do seu trabalho e aos dados delicados que costuma manusear, você percebeu há tempos que nossa infraestrutura de TI padrão da empresa é porosa demais. O risco é alto demais para armazená-los onde possam ser recuperados facilmente. Especialmente depois dos nossos ataques cibernéticos anteriores e dos sustos de espionagem digital. Então você construiu sua própria fortaleza, né? Servidores privados, túneis criptografados, o pacote completo. Longe da bagunça da nossa empresa. Tô certa?Uma compreensão súbita brilhou nos olhos de Cassidy e Cristina, uma faísca sincronizada de dissonância cognitiva. Foi como se uma engrenagem oculta finalmente tivesse se encaixado, revelando uma verdade que elas vinham observando há anos sem realmente enxergar. Não olhavam mais para mim; olhavam para Julien, depois voltavam a olhar para Kaori, traçando as linhas invisíveis de um roubo digital que antes tinham descartado como simples sorte ou falha de segurança.
- Provavelmente você contratou serviços externos. - continuei, baixando a voz para um tom conspirador que buscava fechar a lacuna entre o ego de Julien e o ceticismo da diretoria. - Talvez até armazene as informações numa nuvem privada, protegida num local digital onde nossos concorrentes não têm como chegar. Deus sabe onde você esconde isso, Julien!
-> E daí? - perguntou Julien, com a voz como uma lâmina afiada e cética. Continuava meio levantado da cadeira, com o peito agitado pelos restos da sua indignação. Não estava engolindo os elogios; estava esperando o desfecho de uma piada que suspeitava ser às suas custas.
- Kaori sabia que as informações de contratação de Isabella existia. - expliquei, inclinando-me para o centro da mesa para encurtar a distância entre a suspeita da junta e minha lógica. - Sabia que Maddie não era a pessoa que a tinha. Então procurou em outro lugar. Farejou algo. Eventualmente encontrou a pessoa responsável por protegê-la. Percebeu que você, Julien, tinha o verdadeiro prêmio guardado na sua fortaleza privada.
Kaori baixou o olhar, confirmando minhas suspeitas.
- Então, uma vez que descobriu que você o tinha, não desistiu. - continuei. - Apesar da sua proteção e dos seus firewalls, não demorou muito para encontrar uma brecha na armadura. Não topou com os arquivos de Isabella por acaso; caçou eles através de um labirinto que você tinha construído para ser impenetrável.
Foi então que notei a raiz do rancor de Julien: Kaori tinha invadido sua fortaleza impecável de informações.- Sim, a informação estava protegida e sim, foi uma brecha de segurança. – continuei, modulando minha voz para um tom mais suave e persuasivo. - Mas repara na precisão cirúrgica do roubo. Ela não saqueou os arquivos nem vazou uma dúzia de segredos comerciais para a concorrência. Foi atrás de um objetivo específico… os arquivos da Isabella… e deixou o resto da tua fortaleza intacta. Nem sequer deixou rastro até ser pega.
Embora Julien parecesse ainda ferido no ego, o fogo nos seus olhos tinha passado de um rugido para um simples lampejo. Afundou-se na cadeira de couro com um bufido, o som de um homem que sabia que tinha sido superado mas que não encontrava a brecha legal para protestar. Então virei-me e encarei Edith, que continuava sendo o centro de gravidade absoluto da sala.
- Agora mesmo temos uma montanha de dados, classificada de forma diferente em cada um dos centros. - disse, com uma voz que ressoava com uma urgência renovada que finalmente preencheu o vazio da sala. - Mas não estamos procurando uma agulha no palheiro; estamos procurando um conjunto específico de agulhas espalhadas em mil palheiros diferentes. Precisamos de alguém que não só saiba programar, mas de alguém que saibatransar. Essa é a minha lógica! O ar-condicionado mudou de repente, e as grades trepidaram ao começar a bombear um frio súbito e cortante que pareceu cristalizar a tensão da sala. Por um momento, o ar ficou quebradiço, e os membros da diretoria ficaram imersos num estado coletivo e gélido de compreensão. Olharam para Kaori (olharam de verdade), não como uma sombra silenciosa num blazer preto sob medida, mas como um instrumento de precisão de infiltração digital. O silêncio pesava com a carga de uma epifania: o "problema de ontem" era, na verdade, a solução de hoje. Todos, exceto Inga. ❤️ E daí? Você vai levar um membro do meu departamento sem o meu consentimento? - respondeu Inga, com uma voz carregada de veneno e arrogância.
Manteve-se rígida, a coluna como uma linha reta contra o estofado de veludo, enquanto seus dedos tamborilavam um ritmo agudo e errático sobre a mesa de mogno. Para Inga, a empresa era uma série de jardins murados, cada um guardado por uma hierarquia rígida que ela mesma zelava pessoalmente. Eu era o homem que constantemente tentava pular as cercas e, para ela, minha sugestão não era uma estratégia inovadora: era uma invasão territorial.❤️ Tá vendo, Edith? Esse é o problema que eu venho te falando: o Marco não conhece limites. - A voz de Inga não só cortou o silêncio; deixou um gume serrilhado. - Ele trata a estrutura corporativa como um conselho opcional, gerenciando gente de outros departamentos para as próprias maquinações mesquinhas dele. Não é justo e é fundamentalmente pouco profissional!
No entanto, Edith olhou para Inga com uma curiosidade lenta e clínica, ignorando sua atitude.
> Mas, é verdade o que ele diz sobre ela? - perguntou Edith, com uma voz que flutuava pela sala como uma névoa lenta. - Ela realmente consegue recuperar esses arquivos?
Os olhos de Inga se arregalaram e sua compostura se quebrou pela primeira vez na reunião. Parecia uma marinheira vendo as mandíbulas de um tubarão gigante se abrirem sob seu casco, consciente de repente de que as profundezas que achava controlar eram muito mais voláteis do que tinha imaginado.
❤️ Claro que consegue! - explodiu Inga, com uma voz que alcançou um tom capaz de estilhaçar os copos de cristal que bordejavam a mesa. Remexeu-se no assento, e sua pele de porcelana se tingiu de um rosa súbito e colétasty que contrastava violentamente com seu cabelo platinado. - Mas émeuAssistente! Ela é o cimento que mantém o Departamento de Planejamento unido! Você não pode simplesmente arrancá-la do cargo dela para satisfazer um capricho de brilhantismopouco ortodoxa! No entanto, a força do protesto de Inga era como uma fita de seda tentando parar um desabamento. Edith nem piscou. A resolução da diretora executiva já tinha se cristalizado e, no mundo de Edith, uma vez alcançado o veredito, a deliberação não passava de barulho. > E você é membro do meu conselho, Inga, o que significa que você trabalha parameu! - replicou Edith, baixando a voz até alcançar um tom de absoluta finalidade. A frase não só silenciou Inga; pareceu apagá-la. - Muito bem! Kaori, você está disposta a trabalhar no projeto da Cassidy?
Kaori parecia ter sido pega pelos faróis de um caminhão em alta velocidade. Seus olhos assimétricos se moviam freneticamente entre a raiva latente de Inga e o olhar inabalável de Edith. Era uma mulher definida por uma lealdade silenciosa e absoluta; para ela, Inga era mais que uma chefe, era literalmentea sua senhoraA hesitação não foi só uma pausa; foi uma luta visível, uma guerra silenciosa entre a devoção que sentia por sua mentora e o peso esmagador da autoridade da CEO. Abriu a boca para falar, mas saiu apenas uma respiração superficial e trêmula que traía seu pânico interno.
> Vou colocá-la trabalhando bem debaixo do nariz da Cassidy! - decidiu Edith, com uma voz que não deixava espaço para mais discussão. - Já que ela vai lidar com dados sensíveis, precisa ser monitorada. Concordo com seu ponto de vista, Marco; a Kaori pode ser um trunfo único. No entanto, para acalmar as preocupações válidas do Julien, ela vai permanecer na lista de vigilância corporativa. Deve ser supervisionada o tempo todo. Está encerrada a sessão!
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