Um cortado e um castigo

Esta história é fictícia, e nunca aconteceu.

Outubro de 2006. Uma agradável tarde de semana, com temperaturas amenas, mas não quentes, nublada e com um pouco de umidade. As pessoas se deslocavam às centenas no centro dessa grande cidade, vai saber pra onde iam. Se atender num hospital, pros empregos, passear, pra escola, pra qualquer lugar. Num bar simples, Pedro Mirandela e seu amigo Javier Poggio se encontram, falando sobre suas vidas, coisas sem nexo, do trabalho, um pouco de tudo.

P: - Como é que tão as coisas?
J: - Por sorte, tá 10, véio. Devo estar numa das melhores fases. Chego no fim do mês sem pedir esmola. Não era tão terrível trampar, antes era uma tortura ouvir essa palavra.
P: - O que acontece é que sempre fomos uns vagabundos, por isso. Eu também me cagava de medo, mas isso não tá tão ruim. Devia pedir um café pra comemorar.
J: - Fala sério, pra isso que vim. Você não tá com a cara de sempre, aconteceu alguma coisa?
P: - Ontem à noite tive um sonho muito estranho, mas não sei se é mais engraçado do que estranho.
J: - Não vem me zoar, hein! Fala isso e me assusta, e depois acaba sendo uma merda qualquer. Te conheço demais. O que foi?
P: - Sonhei que o velho Ruckauf tava rebolando a bunda, dançando "gasolina". A verdade é que o cara tinha um vigor, que eu caio e me levanto.
J: - Você se entupiu de remédio? Não foi o seu Raimundo, o da esquina da sua casa, que sempre tirava todo mundo pra dançar no fim de ano?
P: - Não me entupi de nada, e sim, era o velho Ruckauf, o governador. Você não sabe como ele mexia a buceta, que filho da puta. Dançava melhor que muito jovem. Era tudo muito parecido com a última vez que aquele baixinho foi no programa da Susana, uns dois anos atrás.
J: - Ah, o Nelson. É, que morreu faz pouco. Talvez você lembrou daquela vez, e te deu tanta graça imaginar um velho gagá fazendo aquilo, e seu cérebro aceitou.
P: - Pode ser. Invejo o Nelson, ele se mexe melhor que eu, melhor dizendo, se mexia.
J: - Você foi um pau não dançante. Tava mais duro que madeira. Seus sonhos são estranhos. Você não sonha Com mulheres?
P: - Não. Se for pra ser sincero, não.
J: - Você é estranho. Ficou estranho. E vamos dizer que você não se deu bem em chegar nas minas.
P: - O que você quer que eu faça? Não deu certo. E você quis pegar todas, e não te deram nem bola, mano.
J: - Pelo menos tentei. Levei um fora, mas fazer o quê.
P: - Minha mãe sempre diz que tudo tem seu tempo na vida.
J: - Sua mãe é foda! Ela tem muitos motivos pra falar isso: uma vida resolvida, diferente da nossa, que vai sem rumo. A gente mal tem 23 anos, e já viu de tudo.
P: - Agora que a gente tá começando a ver o lado bom, uns anos atrás a gente não tinha nem 5 reais. Tô com muita vontade de viver, de sair, de continuar trampando.
J: - Assim que se fala! E pra ir pra balada também. Se eu sair, você vem comigo?
P: - Vai se foder. Me dá um abraço.
Ambos: - Vale a pena estar vivo!

Javier e Pedro saem do bar, andam umas três quadras e depois cada um vai seguir pra começar seu dia de trampo. Mas a partir daqui, a história vai focar no Pedro. Como o Javier já tinha dito, o amigo não era um "Don Juan", era bem o contrário. As investidas dele nunca foram grotescas, mas ele já tinha feito as contas. Em 2000, uma colega deu dois tapas na cara dele pra ele parar de encher o saco e chamou ele de idiota. Ele ficou desanimado depois daquilo, porque gostava muito dela, mas não virou um obcecado. Por um tempo, ele tinha esquecido as saídas, os encontros (que entraram na vida dele graças ao "pirata" do Javier) e a bebida, que uma vez deixou ele bêbado, fazendo os pais proibirem ele de ir pra balada por três meses.
Eram 10 horas, e ele tinha chegado no trampo. Sentar num escritório era uma bênção, principalmente pra quem tinha conseguido o primeiro emprego. Ele lembrava na mente como a mãe dele o educou. Ela ensinou várias coisas, mas as principais eram: andar ereto, de cabeça erguida, ouvir, respeitar, agradecer e pedir desculpas QUANDO FOR NECESSÁRIO. Em março No ano passado, aprovaram o pedido de admissão dele, e desde então ele curtia o benefício merecido de poder trabalhar. O salário de 900 contos deixava ele dormir sossegado, e complementava a grana que entrava em casa todo mês. Os colegas eram educados e convidavam ele pra jantares onde todo mundo ia, mas o último jantar, o do dia 16, abalou geral. Domingo Einaudi, o chefe e presidente da empresa, tava de saída. Com seus 70 anos, queria ir pro mundão, longe dos números e das ordens, daquilo que tinha prejudicado ele um pouco. Ficar 14 horas dentro da corporação fez a pressão dele subir, e ele rolou uns degraus e foi parar no hospital, internado por um mês, no dezembro passado. Rezaram, pediram, e o chefe voltou. Mas a despedida dele escreveu um novo capítulo na história daquela empresa familiar, que pela primeira vez ia passar o comando pra alguém de fora do círculo. Domingo e a esposa dele, Silvita, junto com o comitê executivo, decidiram que a pessoa que ia suceder ele tinha que ser jovem, potente, capaz e comprometida, que tivesse uma ideia de quem ia mandar. O cargo foi entregue pra Mercedes da Silva, que tava há 10 anos direto, e era muito respeitada entre os colegas. Ela nunca imaginou isso, e pediu que o Domingo fosse "presidente honorário" até ele morrer. Ela ia assumir na segunda-feira seguinte.
Perto da "transição", o Pedro não parava de pensar em duas coisas: a primeira era sobre a chefa nova, com quem ele nunca tinha trocado ideia, e o medo tava lá, porque a gente sempre tem medo de quem não conhece. A segunda coisa, bem menor que a primeira, era "Por que a 'Madonna' fez isso?", ele pensava consigo mesmo. Deixando de lado o pistoleiro maluco de San Vicente, o dia 23 de outubro ia ser um novo amanhecer, e todo mundo tava roendo os lábios de curiosidade. Teve uma recepção com café da manhã, convidados especiais e uma festinha que os funcionários mais próximos da Mecha, como chamavam ela, quiseram organizar por ela ter sido promovida. Corridas, cantinhos, serpentinas, cornetas, balões, de tudo. Cada um dos escritórios foi decorado pro evento. Nervoso, Pedro foi e desejou sorte pra ela. Ela agradeceu, mesmo sem conhecê-lo. Ele se mandou pro novo espaço, enquanto os cantinhos continuavam, e a música de reggaeton, salsa e cumbia tocava num volume bem baixo, pra não atrapalhar ninguém de continuar.

As tarefas não mudaram nada durante o primeiro mês, mas lá pela metade de novembro, uma chamada caiu como uma pedrada na cabeça dele.

Secretário: — Mirandela, já tão te esperando. Pode entrar. Senhora, aqui está o rapaz que a senhora mandou chamar.
Mercedes: — Obrigada, pode se retirar, Manolo. Bom, você veio me cumprimentar quando acabei de assumir esse cargo, e acho que foi muito gentil da sua parte ter feito isso.
Pedro: — Obrigado, senhora. Aconteceu alguma coisa?
Mercedes: — Não precisa ter acontecido nada pra eu querer conversar com meus funcionários (levanta um pouco o tom de voz). Me desculpe, mas a gente tem que saber com quem vai tocar esse grande projeto.
Pedro: — A senhora tem razão.
Mercedes: — Sempre tive razão (enfatiza), por isso me promoveram. E fico feliz que o esforço valeu a pena.
Pedro: — É muito bom se esforçar. É a origem de cada um dos nossos sucessos pessoais.
Mercedes: — Acho que você tem o mesmo conceito que me ensinaram. Meus avós imigraram pra este país de Aveiro (Portugal), e sempre enfatizaram a beleza de trabalhar, que só assim a gente tem o que merece, e quando tem, a satisfação é indescritível.
Pedro: — Claro, senhora.
Mercedes: — Você é fraco, Mirandela? (desafiadora)
Pedro: — (gagueja) Não… Não… Não… Não, senhora.
Mercedes: — Então não abaixa o olhar, homem. Tem que olhar sempre pra cima.
Pedro: — Me perdoe, não vai acontecer de novo.
Mercedes: — É o que espero, e espero que seu estômago não vire.
Pedro: — Tô muito bem de saúde. Nunca faltei desde que comecei aqui.
Mercedes: — OK, isso é o que Isso deveria acontecer com cada um de vocês. Volte agora para suas tarefas.
Pedro: — Até logo, e tenha um bom dia.

Ele saiu daquela sala com o coração a mil, a 100 por minuto, e com uma sensação de nervosismo, mas também com o medo inicial que sentia. Se considerava forte, mas para ficar teria que ser ainda mais. Não podia temê-la, senão, tava fora. Sua chefe era uma gostosa, mas ele nem ligou pra isso quando a teve na frente. Não quis olhar pra ela e a evitou por um par de semanas, e antes do fim do mês, Manolo deu um berro e o jovem teve que ir pro lugar mais tenso da empresa, onde cada decisão era gerada, onde cada centavo tinha valor, e essas ideias tinham que passar pela cabeça e pela autorização daquela mulher.

Pedro: — Bom dia, senhora.
Mercedes: — Bom dia, senhor. Parece que levou em conta o que eu disse umas duas semanas atrás.
Pedro: — O quê?
Mercedes: — Tá me olhando nos olhos, como deve ser. Assim vou ver que tá decidido.
Pedro: — Sempre estou decidido.
Mercedes: — Que assim seja. Recebi seus trabalhos e não estão nada mal. Em que você se baseia pra serem eficientes?
Pedro: — Acho que me baseio em entender que tem uma quantia de dinheiro disponível e fixa pra cada mês, e que tem que fazer cada coisa ser possível…
Mercedes: — (interrompe) Já vi, mas pode continuar me dizendo mais tarde.
Pedro: — Aconteceu alguma coisa?
Mercedes: — Nada; bom, sim. Lá vai você de novo baixando os olhos, homem! Levanta eles! (aumenta o tom de voz)
Pedro: — Peço mil desculpas, não vai acontecer de novo. Eu juro.
Mercedes: — Tem algum problema que não consegue me olhar?
Pedro: — (gagueja) Não… Não… Não… Claro que não, senhora.
Mercedes: — Então me olha, caralho!
Pedro: — Perdão, por favor. Me desculpe… Me desculpe… (tremendo)
Mercedes: — Você me teme… Quis se fingir de forte e não conseguiu. Não conseguiu… (vai até a porta e tranca a fechadura)
Pedro: — Por que você tá fechando a porta? Por que…?
Mercedes: — (interrompe) Você tem medo de mim porque eu… Insônia, né? Ou será que tô enganada? (firme, vai de uma esquina pra outra)
Pedro: - A senhora nunca se engana.
Mercedes: - Era isso que eu queria ouvir. (bate na mesa) De algum jeito eu sabia, sabia que te tiro o sono, se me permite te tratar por tu.
Pedro: - Permito sim, senhora.
Mercedes: - Você não vai ter nenhum lugar privilegiado nessa empresa. Vai continuar sendo um trabalhador comum, tô te avisando. (a chefa usa uma camisa branca e uma saia preta, salto alto e meia antiderrapante, desabotoa a camisa)
Pedro: - O que a senhora tá fazendo?
Mercedes: - Você vai ficar interessado nisso. Eu te agrado, mas você não quer admitir. É ético demais, querido, esse é seu problema. (tira a camisa e mostra um sutiã branco de renda) Você vai fazer o que eu mandar, e isso é uma ordem. Ouviu?
Pedro: - Sim, senhora.

Situação limite. Ele ficou sem palavras, e fez isso pra manter o emprego. Pedro tinha medo do olhar sacana e lascivo dela, e ficava confuso por estar com quem o comandava. Ela agarrou ele pelo pescoço e o forçou a olhar pra ela, e a provar a pele dela.
Os beijos iniciais foram pelo corpo todo, o que a deixava cada vez mais louca. Aquela pele era maravilhosa, e o fato de ser real era como uma fantasia proibida. “Ela é sua chefa, se controla, cara” ecoava na mente dele, mas a fase de formação do furacão tava nos preparativos finais. O pior ainda viria. Com os dois enrolados em lençóis macios e simples (dentro do escritório tinha um quarto escondido, com cama, mesa, computadores, internet, etc.), ela continuava precisando dele pra realizar seus desejos mais profundos. Tinha ele dominado, só pra ela, e ele começou a esvaziar a mente, esquecendo por uns momentos daquela relação de trabalho distante que tinham. Ela falava com ele quase como se fosse um bebê, pedindo pra ele chupar e lamber os peitos dela, e nessa intenção, proibia ele de falar, só fazia gestos. Se ele quisesse mais prazer, Ela apertava mais a cabeça dele pra fazer a língua deslizar mais rápido. Fez ele se levantar e pegou um chicote. Foi até a porta e o encurralou. Pressionou o pescoço dele e disse:

Mercedes: - Garoto, você sabe usar bem essa boquinha que Deus te deu, mas aquela coisa aí de baixo é inútil. Vê se consegue fazer alguma coisa pra melhorar.
Pedro: - Vou investigar, senhora, vou sim.
Mercedes: - Acho que vou precisar bastante de você de agora em diante. Vamos nos ver com frequência, não é? (agressiva, apertando mais o pomo de Adão dele)
Pedro: - Eu pertenço à senhora. Estarei à sua disposição. (fala com dificuldade, sem ar)
Mercedes: - Era isso que eu queria ouvir. Pode pegar sua roupa e voltar a trabalhar, querido.
Pedro: - Sim, senhora.
Mercedes: - RÁPIDO! Que ninguém te veja.

O jovem saiu correndo até seu escritório particular e continuou com suas tarefas até as 10 da noite, e voltou pra casa. Dali em diante, faria várias visitas à sala da senhora Da Silva. Com certeza os outros funcionários pensariam duas coisas sobre ele: que vivem elogiando ou xingando ele. Definitivamente, eram as duas coisas, mas cada uma no seu devido momento.

2 comentários - Um cortado e um castigo

Por lo menos no perdió el laburo !! Volveré y seré puntines capo ...