Foder e Contar: Capítulo 1

As ficções do rádio

Já tinha prometido duas vezes pra Laura que, se alguma ouvinte ligasse no meu programa, eu não ia perguntar se ela tinha peitão ou se já tinha ficado com mulher, ou qualquer uma dessas merdas que eu sempre fazia. Mais uma vez, não cumpri: naquela noite, uma ouvinte ligou e, sem rodeios, perguntei se ela tinha peitão ou se já tinha transado com outra mulher (se já fez um ménage, se preferia dois caras ou duas mulheres, e por aí vai). Ela contou tudo, e eu fiquei meio excitado.

Durante o intervalo, perguntei pros meus colegas como tinha sido a entrevista, se foi divertida, e eles disseram que sim, que as mensagens não paravam de chegar. Pensei na Laura, que podia estar ouvindo.

Liguei pro celular dela, mas não atendeu. Liguei pra casa, também não. Quando tentei uma terceira ligação — de novo no celular, caso ela não tivesse conseguido atender antes — a produtora avisou que em dez segundos a gente voltava ao ar. Então larguei o celular de lado e esperei a luz vermelha acender. Comecei a falar no microfone: falei das notícias do dia, do melhor jeito de fazer um ovo frito, de como dormir bem no ônibus, e repeti o número pros ouvintes ligarem. Na hora, outra ligação entrou no ar: “Atende que é uma mina”, falou a produtora. “Ela diz que quer contar como trai o namorado. Se você fizer ela se sentir à vontade, ela conta tudo.” “Tá”, respondi com a cabeça e atendi sem reclamar, movido mais pelo hábito de obedecer mulher do que pela vontade de pegar a ligação. Quando ouvi a voz do outro lado, reconheci a voz da Laura, minha Laura, e desejei não ter atendido e nem ter nascido. Senti um frio e uma vontade de voltar no tempo.

A Laura eu aprendi a obedecer porque sim. Porque depois de dois anos morando junto, aprendi a falar “sim, meu amor”, “cê tem razão”, sabendo que assim eu economizava horas de Discussão psicanalítica sobre os vínculos, a comunicação, Freud e seu cachimbo.
Eu queria escrever. Terminar de trabalhar e escrever. Terminar de comer e escrever. Terminar de transar e escrever. Não me importava com mais nada. Queria escrever o tempo todo, a toda hora, o dia inteiro. Laura, claro, me reprovava:
— Você trabalha escrevendo — me dizia. — Não entendo como depois do trabalho você ainda quer continuar fazendo isso.
— Escrevo porque gosto, Laura. E além disso, o que escrevo pro trabalho não é escrever; é repetir o que outro pensou. Ainda não me pagam pra ter opinião.
— É a mesma merda, Santiago!
— Não, não é a mesma coisa! Agora sou tipo uma puta que fica com vontade de transar depois do expediente.
Falei de brincadeira, mas ela não me ouviu, ou preferiu me ignorar.
— Você não entende o ponto! O que quero dizer é que você passa mais horas na frente desse computador do que comigo!
Era verdade. Eu ficava o dia inteiro na frente do computador. Escrevendo, construindo histórias. Batendo papo e olhando fotos de mulheres no Facebook. Mas o que não era verdade é que eu fazia isso só porque gostava. Fazia também porque, desse jeito, ganhava uma identidade. Um título de escritor, de artista. De algo que me contentasse um pouco mais na hora de apertar a mão e me apresentar pra alguém: Santiago Apenak, escritor. Porque identidade é isso que se diz depois do nome quando se vai jantar na casa da Mirta Legrand.
Laura e eu nos conhecíamos quatro anos antes, num fim de semana de janeiro, na beira da lagoa de Lobos. Ela, na época, estava namorando, mas mesmo assim a gente ficou. Ou melhor, passamos a noite deitados no chão, nos beijando, nos acariciando, olhando as estrelas, mas não consumamos o ato, propriamente dito.
Apesar da minha paixão repentina — paixão que, claro, não foi correspondida naquele momento — ela continuou no relacionamento e não me deu mais importância do que a de um amigo: A gente se via, conversava por telefone, mas não passávamos daquilo. De vez em quando, com sorte, ela deixava eu beijá-la e lembrar do que a gente tinha vivido naquela noite, na beira da lagoa. Mas só isso. E eu morria de frio e solidão toda vez que via ela indo embora.
De tanto sofrer por vê-la se afastar — e por ver outras que passaram no meio também se afastarem — decidi me afastar eu mesmo: um dia, enfiei na mochila uns exemplares do meu primeiro livro, várias mudas de roupa e alguns trocados e peguei um trem pro Norte da Argentina. Passei vários meses viajando. Me fiz de espiritual. Peguei piolho e um ataque de asma por fumar maconha na altitude. Me senti livre. Vendia artesanato. Vendia meu livro. E também trocava ele feliz por teto e comida. Me senti o Che Guevara. E me senti culpado por não ser, e porque vi injustiças e fiquei calado, parado: me senti um covarde. Passei frio. Fome. Vontade de voltar a ser pequenininho e abraçar minha mãe. Tive mais asma. Tive vontade de chorar e chorei. Tive vontade de rir e ri. Tive vontade de deitar com uma alemã loira de peitão, mas não consegui. Me lamentei por não ter aprendido a falar alemão ou inglês ou qualquer língua que me desse armas pra conquistar gringas que não fossem hispânicas: me contentei com o que tinha. Aprendi a me contentar. Fiquei puto por aprender a fazer isso.
Também tive vontade de ver a Laura. Quis ligar pra ela, mandar um e-mail. Até que finalmente passei várias horas sentado na frente de um computador juntando coragem pra deletar o contato dela da minha lista de chat, e fiz isso. No fim, escrevi uma carta pra ela, à mão, mas queimei no topo de uma montanha nevada. Me senti romântico e pensei em como um som do Bryan Adams ia ficar lindo naquele momento. Me perguntei como a gente tinha chegado a dar tanta importância pra um contato de chat, mas não me respondi. Lembrei das palavras “realidade virtual”. E lembrei do meu psicólogo sugerindo que eu vivesse mais “com os pés no chão”, dizendo que eu sofria de complexo de diretor de cinema: que eu me Gostava de inventar histórias, dirigi-las e protagonizá-las. Às vezes contá-las. Quis ser Woody Allen, mas não tinha Diane Keaton nem meus óculos pareciam com os dele.
Quis voltar. Não tinha grana e pedi dinheiro pros meus pais de uma cidade na Bolívia. Gastei a grana tomando cerveja e tentando pegar outra alemã loira de peitão. Também não consegui, não tava com sorte. Então pedi dinheiro pros meus pais de novo e tive certeza de que eles me odiavam e sentiam vergonha de ter um filho como eu. Mesmo assim, me mandaram a grana e finalmente consegui voltar pra casa.

Quando voltei, tive vontade de ver a Laura. Me segurei. E como tinha aprendido a me contentar, comecei a namorar uma ex-colega do ensino médio. Me convenci de que tava apaixonado. Aprendi a mentir pra mim mesmo.

Em poucos meses, enquanto meu namoro fingido desmoronava e eu escrevia um e-mail pra Laura engolindo meu orgulho palavra por palavra, um dela perguntando como eu tava chegou na minha caixa de entrada. Não me surpreendeu, essas coincidências novelescas eram comuns entre a gente. Então, sem pensar duas vezes, nos vimos de novo e, dessa vez, também nos beijamos, nos acariciamos e falamos sobre as coincidências e o love de amigos. Mas não transamos. E eu me masturbei pensando nela quando cheguei em casa.

Naquela noite dormi feliz porque ela disse que tinha terminado com o namorado fazia um tempo, e eu respondi que se ela tinha me procurado, que assumisse o que sentia.

Começamos então a dormir cada um na casa do outro. Comemoramos meu aniversário. Ela conheceu minha família e eu conheci a dela. Fiquei nervoso e com vergonha. Começamos a ver filmes juntos e isso virou parte da nossa rotina diária. Me irritava que ela sempre, dez minutos depois de colocar o DVD, precisava levantar pra fazer um chá. Perguntava por que ela não fazia antes, já que sabia que íamos ver o filme. Ela não respondia e me oferecia chá, eu dizia que não e acabava comprando. sorvete. Eu oferecia porque sabia que ela queria. Mas ela comia com culpa e me dizia que estava gorda, que não podia. Eu, claro, não negava, mas também não confirmava, e aproveitava pra comer tudo: ela insistia pra eu me cuidar e não comer que nem um animal. Eu não ligava.
A gente adorava fazer compras juntos porque gostava de brincar de ser um casal e fazer coisas de casal. Mesmo sem ter a menor ideia da responsabilidade que aquilo envolvia. Limpar era coisa de casal. E era uma aventura porque a gente sempre limpava com música e eu aproveitava pra dançar fazendo palhaçada e assim fazer o mínimo possível. Ela deixava passar.
Logo a gente sentiu necessidade de comprar uma cama de casal porque na cama dela já não cabíamos. E de quebra, compramos um sofá e uma mesinha de centro. Como eu passava a maior parte do tempo na casa dela, fui obrigado a levar minha cadela vadia, já que não podia deixá-la tanto tempo sozinha. De repente, eu também parei de morar só na minha casa e comecei a morar com ela na casa dela, onde antes ela morava sozinha. Agora a gente morava junto: ela, eu, minha cadela vadia e a cadela vadia dela.
Com o tempo, a convivência deixou de ser algo fantástico pra ser algo real. A gente já não fazia mais compras juntos sempre. E ela já não tolerava que eu dançasse enquanto limpávamos. Comecei a ter obrigações que ninguém nunca me disse que eu teria.
Na hora de comer, eu preferia hambúrguer e Coca-Booty, e ela, filé de soja com polenta e água mineral. Eu não entendia como ela conseguia comer aquilo. E ela me xingava porque dizia que eu não comia saudável. A gente discutia. Eu dizia que a soja estava destruindo o país. E ela dizia que eu tinha os mesmos hábitos alimentares que o sobrinho dela de sete anos. Era verdade.
Com o tempo, ela começou a me recriminar — cada vez com mais veemência — por eu passar o dia inteiro escrevendo e não dar a atenção suficiente quando ela perguntava se aquela camiseta a deixava gorda, ou se aquela saia a deixava... Ela tava rebolando. Pra mim, ela sempre foi gostosa. Mas claramente o que ela tava pedindo era outra coisa.
Uma noite cheguei da rádio e encontrei ela na porta de casa chorando e dando chute no rabo de uns cachorros que estavam se esfregando e tentando deitar nas minhas roupas espalhadas na calçada.
— Você é um filho da puta — ela disse. — Eu aqui em casa sozinha e você no seu programinha de rádio ligando pra putas pra perguntar os preços.
— É um quadro novo do programa, Laura. Uma zoeira.
— Certeza que você guardou os números e depois vai ligar pra elas pra pegar.
Comecei a rir.
— Não preciso pegar elas, Lau. São putas.
— Vaza da minha casa.
Tentei pensar em algo inteligente pra falar, mas não veio nada. Então juntei minhas roupas e subi pro apartamento pra arrumar a mochila; meu plano era esperar ela se acalmar. O ritual foi o de sempre: ela chorava e me xingava da cozinha, enquanto eu ria de nervoso e arrumava a mochila o mais devagar possível, no quarto.
Depois de muitos xingos e reclamações, vendo que ela não se acalmava, falei tchau com a mochila no ombro e saí batendo a porta. Tentando dar o maior drama possível. Como conhecia ela, sentei na escada e esperei ela abrir a porta pra ver se eu ainda tava lá ou se tinha ido embora de verdade. Depois de alguns segundos, ela abriu desesperada e nós dois começamos a rir.
— Viu que você não quer que eu vá?
Abracei ela e sequei as lágrimas. Depois ligamos pro videoclube e pedimos uma porcaria japonesa que ela queria ver há tempos, e eu liguei pra pizzaria e pedi empadas e Coca-Booty. Isso era estar em casal: negociar e entrar num acordo. Deixar os dois lados felizes: ela se sentiu culpada por comer tanta gordura e eu dormi na metade do filme. Mas pelo menos a gente tentou.
Ela me fez prometer que não ia mais ligar pra nenhuma puta, nem fazer mais perguntas obscenas pra nenhuma gatinha. Eu prometi sabendo que ia Prometia mais pra sair da situação do que por convicção própria, mas eu fiz.
Depois de um tempo, a mesma coisa aconteceu de novo. No programa, a gente tinha um quadro onde fazia ligações aleatórias e, se alguém atendesse, a gente explicava que tava ligando pra aumentar a audiência, já que ninguém nos ouvia. Se a pessoa se mostrasse receptiva, a gente batia um papo. Nem sempre as pessoas reagiam bem, mas naquela noite a gente deu sorte. A produtora discou um número qualquer e, na hora, uma mulher atendeu, surpresa, dizendo que estava nos ouvindo.
Não sei se foi intuição ou só uma puta sacanagem por causa da voz sensual dela, mas me deixei levar e imaginei que devia ser uma mulher fogosa e comecei a fazer perguntas íntimas. Ela reagiu bem. Se mostrou disposta e à vontade no papel de femme fatale. Não faltou pergunta sobre os peitos dela ou sobre sexo lésbico. O papo terminou em quinze minutos com uma música do Eric Clapton e uma porrada de mensagens de homens, como nunca antes a gente tinha recebido. Fiquei feliz porque os ouvintes estavam felizes. E perguntei pros meus colegas como tinha sido, se tinha sido divertido. Eles disseram que sim, só pra me responder alguma coisa. E eu pensei na Laura, sabendo que ela podia estar me ouvindo.
Quando cheguei em casa, a Laura não estava. Tinha deixado um bilhete dizendo que eu era um filho da puta. Que não me aguentava mais. Que ia passar uns dias na casa da mãe até se acalmar um pouco. Não soube o que fazer. Pensei que, se ela tinha escolhido ficar com a mãe em vez de ficar comigo, devia estar puta da vida de verdade. Pensei em ir atrás dela, mas achei melhor dar espaço pra ela pensar sossegada. E, ao mesmo tempo, achei que devia ir buscá-la pra explicar que tudo não passava de um jogo. Parte das ficções do rádio.
Não fiz nenhuma das duas coisas por decisão própria. Cinco minutos depois de ter chegado, recebi uma mensagem no celular dela dizendo que, por favor, eu não fosse atrás dela. Depois a gente conversava. E, sabendo como eu me sentia inútil parado na frente da geladeira, tentando misturar as poucas coisas que tinha dentro pra fazer uma comida minimamente decente, chegou outra mensagem dela dizendo que no forno tinha torta de presunto e queijo. E que se eu precisasse de pratos, estavam na segunda prateleira do armário do meio. Me senti feliz por tê-la. E agradeci a Deus, mesmo não sendo crente. Comi a torta inteira e tomei umas cervejas. E me sentei no sofá pra responder e-mails e ver TV.

No dia seguinte, o telefone me acordou. Olhei a hora. Meio-dia. Atendi disfarçando a voz de sono. Tinha vergonha de quem tava do outro lado perceber que eu tava dormindo. Era minha mãe:

— Oi, filho. Tava dormindo?
— Não. Nada disso. Tava trabalhando.
— Tá com voz de sono.
— É?... Pode ser.
— É... Bom, vê quando vem visitar seu pai, que ele quer te ver.
— Ela não queria me ver? Pra que tava ligando?
— Essa semana vou aí porque tenho que levar umas coisas no canal.
— E como é que tá?
— Bem. Trabalho muito e ganho pouco. Cê sabe como é.
— Ai, filho. Com essa história de direito de piso, eles abusam... Até quando você vai pagar direito de piso?
— Até eu ter talento, acho.
Minha mãe riu e disse que seria bom se um dia essas piadas me dessem de comer. Eu fiz outra piada por não saber o que responder e falei que tinha que continuar trabalhando. Perguntei se podia levar umas roupas pra ela passar, e ela disse pra levar, e pra comprar um ferro de passar pra Laura.

Depois de combinar com minha mãe de nos vermos, levantei e fiz um chocolate. Olhei meu e-mail, ouvi música e terminei um trampo que precisava terminar. Às três da tarde, não sabia o que fazer. Revisei meus e-mails de novo, escrevi piadas, bati uma punheta pra não ficar entediado e liguei pra um dos caras da rádio pra comentar umas ideias novas. Logo comecei a ficar impaciente porque a Laura não chegava, não ligava. nem me mandava uma mensagem pra me xingar. Quis ligar pra ela, mas pensei em respeitar o espaço dela. Me perguntei o que é respeitar o espaço do outro, onde terminava o meu espaço e começava o dela. Me perguntei se ela, ao não entender que o que eu fazia no rádio era ficção — parte de um jogo tácito com os ouvintes — não respeitava o meu espaço. Claro que não me respondi e liguei pra perguntar. Quando ela atendeu, disse que estava a duas quadras de casa, que vinha pra conversar. A duas quadras? Não dava mais tempo de arrumar nada. O que tinha que conversar? Por que sempre tinha que conversar alguma coisa? Me dava medo. Sentia a mesma sensação de quando a diretora da escola me chamava na sala dela. Por que tinha que encarar os problemas?

Como a conhecia, tirei a puta da cama e sacudi os pelos dela. Amarrei o saco de lixo e juntei as migalhas que estavam na mesa. Passei perfume e penteei o cabelo com os dedos. "Deve estar a uma quadra", pensei. "Não vou dar tempo." Juntei os copos e pratos sujos e levei pra cozinha. Queria que me encontrasse lavando.

Esperei ouvir a chave na porta, os passos dela, depois vê-la entrar na cozinha e finalmente abraçá-la. Ver a puta mexer a raba e se jogar em cima da gente como toda vez que nos abraçávamos. Mas lembrei que tinha deixado ela no quintal, então a trouxe pra dentro pra curtir aquele momento. Os dois achavam uma graça ver que ela também nos abraçava. Esperei, esperei e esperei. "A duas quadras? Já devia ter chegado", pensei. Até que ouvi a campainha e fiquei feliz. Não só porque ela já estava em casa, mas porque toda vez que tocava, era porque tinha esquecido a chave. E isso, esse esquecer a chave, esse tocar a campainha com culpa — sabendo que me irritava profundamente — era parte do nosso mundo. Eram esses detalhes mínimos que eu tinha aprendido a amar nela.

Como morávamos num primeiro andar que dava pra rua, abri a janela e joguei a chave pra ela. Como sempre, ela não pegou e deixou cair no chão. Laura, tá difícil pegar a chave? Vai quebrar.
Vai machucar minha mão. Além disso, não vai dar nada. Não vai quebrar.
Vai sim. E quando quebrar, você vai no chaveiro e paga do seu bolso.
Ah, não exagera, neném… e se der merda, eu pago.
Não tô exagerando. Você que é exagerada. É uma chave, não um tijolo.
A última frase que falei, ela nem ouviu, já tinha entrado no prédio. Agora sim, pude ir pra cozinha, fingir que lavava a louça e esperar ela entrar do jeito que eu queria. Quando entrou, a primeira coisa que lembrei foi que no bilhete ela tinha escrito que ia pra casa da mãe por uns dias: só tinha passado um.
Pensei que você fosse voltar daqui a uns dias.
Falei, e percebi que não era o comentário mais adequado, porque ela podia achar que eu não queria que ela voltasse.
O quê, não queria que eu voltasse?
Como te conheço, sua puta mãe!… Claro que queria que você voltasse, como não vou querer que você volte pra casa? Falei isso só porque me chamou a atenção.
Óbvio. É minha casa também. Posso vir quando quiser, sabia?
Ela serviu água.
Eu sei que é sua casa também. Mas pensei que… Bom, não importa…
Ficamos uns segundos em silêncio, até que ela quebrou com raiva:
Me dá uma raiva! Sabe? Me dá uma raiva ouvir você falar com essas minas! O quê, fica excitado? Quer pegar elas?
Lembrei do personagem do Capusotto falando “miniiiiiiiiitas” e tive um ataque de riso que não consegui disfarçar.
Do que você tá rindo?
De nada, Lau. É que fico nervoso e rio. Você me conhece.
Ela me olhou com ódio.
Me dá muita raiva você falar assim no rádio. Igual quando escreveu aquele romance que falava da sua ex.
Lá vem você de novo com isso! Não falava da minha ex, Lau. Não falava de ninguém em especial. Era um romance. Uma ficção… Tá, admito, tava, sei lá, inspirado em algo real, mas só isso. Isso não significa que eu sinta falta. Ou ame. Ou sublime. Não significa nada. Era uma ficção, igual no rádio.
Não, não é. É a mesma coisa. Porque você passava horas escrevendo como a queria, e descrevia tudo igual ao que me contava quando ainda não éramos namorados.
Por que caralhos eu tinha aberto a boca quando ainda éramos amigos? Devia aprender a calar a boca, ou que as mulheres têm muito mais memória que os homens.
Era um personagem! Um alter ego! Pelo amor de Deus, Laura!
Um personagem? Sua ex se chama Mariana e você colocou Marina no personagem! Você é um idiota!
Não soube o que responder. Ela tinha razão; eu tinha colocado Marina no personagem, minha ex se chamava Mariana e eu era um idiota. Fiquei em silêncio. Ela continuou:
Não sei. Me dá muita raiva, Santiago. Não acredito em você. Tenho muita dificuldade em confiar. Me deixa louca que em todos os seus textos você come uma gostosa.
Eu não como ninguém!
Você ou seus malditos personagens, é a mesma coisa!
Ela começou a chorar. A putinha pulou nela e se agarrou na perna dela, pra fazer com ela o ato sexual dela.
Sai!
Ela tirou ela de cima. Eu comecei a rir.
Lau. Já deu. Discutimos isso mil vezes. Você sabe que não tem nada a ver, meu amor.
Mas me dá raiva.
Eu sei que te dá raiva. Mas realmente não tem nada a ver. É parte do programa. Isso, ou a novela. Ou o que for. É parte de um personagem. De uma ficção.
Isso era uma meia verdade. Quase tudo que eu fazia, dizia ou escrevia, era baseado na realidade. Mas isso não significava que fosse real ou que eu estivesse envolvido sentimentalmente. Às vezes eu fazia e outras não. Mas era algo relativo. A gente podia viajar pro passado pra lembrar de algo sentido com o simples propósito de expressar na hora de narrar, e depois voltar pro presente e se livrar desse sentimento. Ela não acreditava que eu conseguisse fazer isso, nem que eu pudesse perguntar pra uma gostosa se ela tinha peitos grandes ou se tinha transado com uma mulher e não ficar excitado.
Mas não gosto que você fale com mulheres no programa. Nem que ligue pra putas pra perguntar os preços.
Já te falei que é tudo parte do programa. Você, quando atua e tem que beijar um Alguém, eu não fico bravo… Ou melhor, fico sim. Mas eu entendo e não falo nada. Porque você tá atuando.
Mas o que eu faço é sério! O teatro é algo milenar! O que você faz não é rádio, é palhaçada na frente de um microfone!
Isso me ofendeu. Mas preferi ficar quieto e não abrir outra frente na discussão. Não queria passar os próximos duzentos e cinquenta mil anos brigando. Viver a dois era assim. O mundo funcionava assim. Se eu atacava com algo, ela tinha que atacar com algo pior. Se eu rebatia com algo ainda pior, ela tinha que tirar de onde fosse um golpe ainda mais certeiro. Era assim. Com a competição de acusações acontecia o mesmo. Ela vasculhava nos anais da relação a lembrança de uma mulher que três anos atrás eu tinha olhado enquanto caminhávamos pela Avenida Corrientes. E eu tinha que revirar quase sem sucesso nas gavetas bagunçadas da minha memória, até encontrar algo para apresentar a um juiz invisível que decidia quem era mais culpado. O problema é que eu nunca encontrava nada e ela era uma expert em acumular e arquivar acusações.

Olha, Laura. Pra mim, o que eu faço é sério. Eu dou o melhor de mim e isso conta. – Fiquei quieto um instante e então falei a maior burrice que podia falar pra Laura – Além disso, se eu for te trair, não vou te trair no rádio, ao vivo e com tanta gente ouvindo.

Você é um idiota! Então você me trairia, mas escondido…

Não foi isso que eu quis dizer! Quis dizer que se eu quisesse fazer, teria feito, mas que não tenho necessidade de procurar gostosas no rádio!

Como assim se você quisesse…?

Chega, Laura, já deu! – Interrompi ela – Não continua, isso é uma besteira.

Continuamos discutindo por um tempo. Aos poucos fomos nos acalmando e eu prometi que não faria mais aquelas ligações no rádio. Ela continuou chorando e assoou o nariz numa camiseta do Pink Floyd que eu tinha deixado em cima da escrivaninha. Falei que ela era uma nojenta e rimos quando a puta pulou em cima da gente. nos abraçamos. Depois, a gente transou. Tomamos banho juntos e eu disse que essa história de banho junto não era romântico e era uma mentira que a gente tinha que desmistificar, porque enquanto um tava debaixo do chuveiro, o outro tinha que esperar do lado ensaboado e morrendo de frio.
Depois do banho, tomamos chimarrão e fomos fazer as compras juntos, enquanto passeávamos com a putinha.
Eu me empolgava com coisas bestas. Tava feliz porque a gente tinha comprado guloseimas pra sobremesa e porque eu tinha conseguido um disco do Benny Carter que a gente ia ouvir enquanto jantava. Contei tudo sobre o disco e as propriedades benéficas de ouvir jazz enquanto se janta num dia de chuva.
A convivência tinha deixado de ser algo fantástico pra se tornar algo real. E esse algo real, com tudo que isso implicava, era o mais fantástico que podia nos acontecer. Naquela noite a gente teve um jantar romântico. Pedimos comida fora. Mas não foram nem empanadas nem milanesas de soja. Pedimos algo que agradasse os dois. E usamos umas velas que encontramos numa gaveta da cozinha, que tinham sobrado de algum aniversário. A noite terminou maravilhosa. Terminamos de jantar e transamos à luz de uma vela meio derretida, ao som do sopro magnífico do saxofone do Benny Carter. Até que ela se cansou de tanto jazz meloso e colocou Fito, enquanto me dizia que quando eu descuidasse, ia jogar no lixo aquela cueca esfarrapada que já não aguentava mais de tanto buraco.
Duas semanas depois, enquanto eu tava na rádio, aconteceu a mesma coisa, mas dessa vez o desfecho foi diferente: Uma ouvinte ligou e, sem rodeios, eu perguntei de novo se ela tinha peitos grandes ou se realmente tinha tido sexo lésbico, se já tinha feito um ménage, se caso fosse fazer de novo preferia dois homens ou mulheres. Ela me contou tudo, eu fiquei meio excitado.
De novo, durante o intervalo, perguntei pros meus colegas como tinha sido a entrevista, se tinha sido divertida, e eles me disseram que sim, as mensagens não paravam. E eu voltava a pensar na Laura, que com certeza estaria ouvindo. Então liguei pro celular dela, mas ela não atendeu. Liguei pra casa, também não atendeu. Quando tentei fazer uma terceira ligação — de novo pro celular, caso ela não tivesse conseguido me atender antes — a produtora me avisou que em dez segundos voltávamos ao ar. Aí eu larguei meu celular de lado e esperei a luz vermelha acender. Falei das notícias do dia, de qual era o melhor jeito de fazer um ovo frito, de como conseguir dormir bem num ônibus, e repeti o número que os ouvintes podiam ligar. Na hora, outra chamada entrou pra ir ao ar: “Atende que é uma mina”, a produtora me disse. “Ela diz que quer contar como trai o namorado. Se você fizer ela se sentir à vontade, ela conta tudo.” “Sim”, eu respondi com a cabeça e atendi sem questionar. Quando ouvi a voz do outro lado, reconheci a voz da Laura, minha Laura, e quis não ter atendido e não ter nascido. Senti frio e vontade de voltar no tempo. Mas tive que atender, não tinha outra saída. Essa era a chave: não dizer não, dizer sempre sim. Aceitar, e com o que as circunstâncias nos apresentassem, construir ficção. Mesmo que dessa vez eu soubesse que não era:
— Então você liga porque tem coisas pra contar?
— Sim, tenho muitas coisas pra contar.
— Tipo o quê? Começa me dizendo de onde você é.
— Não importa de onde eu sou. O que importa é o que importa pra você. O que você pergunta pra todas as ouvintes.
— Isso era muito dela. Entendi a indireta disfarçada, mas não pude contestar nada. Tive que seguir em frente com a farsa.
— E o que importa pra mim, então?
— Não sei. Você não quer saber como são meus peitos, ou se eu transei com alguma mulher? Você não gostaria que eu te contasse como eu passo a perna no meu namorado quando ele não tá?
— Não, eu não queria saber. Me dava ânsia só de pensar. Medo, frio, asma, tosse e pigarro, vertigem. Mas ao mesmo tempo queria. Queria saber tudo. Cada detalhe. E me dava bronca de querer saber e ter que continuar com essa farsa adiante. As mensagens dos ouvintes homens começaram a chegar, sugerindo que eu fizesse todo tipo de perguntas obscenas pra ela. Eu queria matar todos eles. Um por um, se necessário. Tavam falando da minha mina, minha parceira, a mulher com quem eu dormia toda noite. Aquela que me abraçava como um ventre materno quando eu chorava em posição fetal porque o mundo não era o que eu sonhava quando era moleque. Era ela, era a Laura. A mesma que mil vezes me fez sair da cama no meio da noite (pelado e morrendo de frio) porque tinha ouvido um barulho estranho no quintal. A mesma que uma vez me chamou gritando e chorando da cozinha, me fazendo levantar da cama (pelado e morrendo de frio) porque tinha levado um choque ao abrir a geladeira descalça. Aquela que uma noite me fez rodar todos os dentistas de plantão da cidade porque tava com dor de dente. Enquanto eu abraçava e consolava ela, ao mesmo tempo que xingava porque no dia seguinte tinha que acordar cedo. A mesma que me xingava e consolava quando a dor de dente era minha. A mesma com quem a gente tentava se virar de outro jeito quando o sexo convencional não rolava. Aquela que também me fez rodar a tarde inteira em todas as lojas de roupa indiana que existiam, só pra conseguir aquela peça que parecesse indiana, mas que ao mesmo tempo não parecesse tanto. A mesma que, ao chegar em casa e se vestir na frente do espelho pela vigésima vez, desabava em choro dizendo que não gostava de como ficava nela. Aquela que levantava pra fazer um chá dez minutos depois do filme começar. A que me dava bronca porque dizia que eu não comia saudável. A mesma que ficava puta porque eu não juntava nem a roupa, nem a toalha, nem a espuma, nem a maquininha de barbear quando tomava banho. Enquanto que, quando eu não tava, ela cheirava meu creme de barbear e minhas camisetas pra não sentir tanta saudade. A mesma pra quem eu contava tudo, até que aprendi que tinha certas coisas que não Eu tinha que contar pra ela. A mesma que me escutava mesmo quando não queria me escutar. A mesma que adorava ouvir que eu sempre queria escutá-la. A mesma que eu amava, e que tinha começado a se sentir sozinha porque eu passava o dia inteiro escrevendo. A mesma que agora, no meu próprio programa de rádio, estava prestes a contar como me traía.

Eu sabia que aquilo era uma vingança. Ela tinha me avisado. Tinha me dado um toque de um jeito que eu não soube entender. Ela tava me dizendo: “Preciso que você me dê mais atenção! Chega de pensar só em você por um momento!”. Eu era acusado de ter parado de escutá-la e agora, como se fosse uma sentença, não só eu tinha que escutá-la, mas todos os ouvintes da rádio.

Naturalmente, o único que sabia que ela tava falando com a Laura — minha Laura — era eu. O resto da equipe do programa, e claro os ouvintes, não faziam ideia. Então, sem mais, agindo como um herói ou um idiota, engolindo a vontade de chorar e sair correndo pra casa pra pedir explicações, saber a verdade cruel e me jogar no sofá pra chorar em posição fetal, segui em frente com a ligação:

— Então você tem muita coisa pra contar?
— Sim, muita.
— Começa, então, nos contando como você é.
— Linda, muito linda. Acho que se você me visse, se apaixonaria por mim.
— É mesmo?
— Sim.
— E como você é?
— Como eu sou… Alta, magra, cabelo castanho… pareço uma das personagens do seu livro.

Não soube o que responder. Tive medo que ela dissesse qual personagem, de qual conto, e que alguém do estúdio pudesse perceber que era a Laura, minha Laura. Quanto à voz dela, sabia que nenhum conhecido poderia sacar, porque, por mais familiar que pudesse soar, ninguém associaria a Laura, minha Laura, com aquela Laura. Ou seja, ninguém imaginaria que minha Laura tava me fazendo aquilo.

— Ah, olha só. E você gosta de ler?
— Sim, gosto muito de ler.

A Laura adorava ler, vivia lendo. Poesia e ensaios. Ficção não curtia. Talvez por isso não entendia... O que eu fazia no rádio. Talvez por isso ela fazia o que tava fazendo comigo. Tentei levar a conversa pro lado da poesia e do cinema. Terminar aquilo o mais rápido possível. Mesmo assim, a produtora, a operadora e meus outros colegas de rádio começaram a me olhar sem entender o que eu tava fazendo. Então, pelo retorno, por sinais incompreensíveis tipo mímicas de amador, por bilhetinhos escritos na pressa e trazidos pro estúdio em silêncio, por cartazes com canetinha em folhas de caderno, começaram a me mandar perguntas que eu tinha que fazer e a guiar a conversa pro lado que eles e, claro, todos os ouvintes, queriam.

Ela me contou que aproveitava cada vez que eu sumia por um tempão pra se reencontrar com aquele love antigo que ela já tinha tido. Me contou como eles faziam na cama. Como ele ouvia o que supostamente já não importava mais pra mim. Como eles riam. Como falavam de mim e da namorada dele. Como passeavam. Como ele levava ela pra passear naquele carro novo que eu não tinha. Como ele trabalhava num emprego onde não precisava perguntar pras mulheres se elas tinham peitão ou se já tinham transado com alguma mulher. Como ele não chamava putas pra fazer um programa de rádio. Como ele cumpria as promessas que fazia.

Eu fiquei chocado. Virei criança de novo. Meu pau encolheu até o tamanho de um amendoim. Comecei a ver em mim cada falha e nele cada virtude. Comecei a me sentir mal e a querer sair correndo. Meus olhos começaram a lacrimejar. Por sorte, a ligação já tinha acabado e o público tinha ficado satisfeito. Ninguém tinha percebido nada. Então camuflei minhas lágrimas fingindo um bocejo e fui pro banheiro. Lá dentro, tentei fazer xixi mas não consegui, não tive vontade. Olhei pro meu pau e vi ele encolhido e murcho. Pensei que o outro devia ser muito mais viril do que eu. Imaginei a Laura de quatro e ele metendo por trás, apressados, sem tirar a roupa, aproveitando o tempo que eu não tava. Vi a cara de prazer dela e aquilo me deu nojo. Quis vomitar. mas não consegui, não sabia como fazer. Tinha medo de me afogar no meu próprio vômito. Então só lavei o rosto com um pouco de água fria, sem sabão, e me olhei no espelho. Me vi feio, com a barba bem grande e cara de otário, despenteado. Ajeitei um pouco o cabelo, a barba e a gola da camisa, mas continuei com cara de otário. Pensei no outro, que era bonito e tinha carro novo. Pensei que devia pegar um táxi pra chegar mais rápido em casa. E que Deus tinha inventado eles pra me salvar a vida. Mas que naquela viagem ia gastar parte da pouca grana que me restava até o fim do mês. Pensei que tava demorando muito no banheiro e que alguém podia desconfiar, então dei descarga pra disfarçar que não tinha feito nada. Quando tava quase saindo, a produtora veio me buscar:
“Vamo lá, eu, que a pausa já acabou. Você bate um papo, se despede e a gente vai… Tá bem?”
“Hã? Sim. Beleza. Por quê?”
“Sei lá, te achei estranho.”
Gostei que ela perguntou isso. Por um momento me imaginei separado da Laura e chorando no ombro da minha produtora. Imaginei ela por cima de mim me fodendo como uma besta, repetindo: “sou sua putinha, sou sua putinha”.
“Devo estar um pouco cansado. Muito trabalho.”
“E sim, pode ser. Todo mundo tá assim.”
“É…”
Falei eu e não soube o que mais dizer. Não me veio nada, nenhuma piada pra quebrar o silêncio. Mas completei, quando ela tava saindo:
“Se não te incomodar, eu entro no ar, me despeço, e a gente toca música até fechar o horário. Tô meio tonto.”
Ela me olhou com compreensão, como se soubesse o que tava rolando comigo, e disse que sim, sem problema. Quando ela foi embora, olhei pra bunda dela. Não era grande coisa, mas sempre dava pra fazer alguma coisa.
Em poucos segundos tava sentado de novo no estúdio. Comecei a desligar meu computador e esperei me darem o sinal. Quando o microfone acendeu, falei sobre o que tinha sido o programa, o que faríamos no próximo, agradeci e me despedi. Uma música do Oasis começou a tocar. Esperei o microfone desligar. Tirei os fones, guardei minhas coisas, me despedi de todo mundo e em menos de cinco minutos já estava na rua. Caminhei até a Corrientes com a 9 de Julho e, quando cheguei lá, parei um táxi. O primeiro que chamei parou. Entrei no banco de trás. Sabia que se sentasse na frente teria que puxar papo com o motorista e contar tudo que tava rolando comigo, até ouvir os conselhos dele ou, pior ainda, as desgraças dele. Então, depois de dar as coordenadas, abri o vidro, apoiei a cabeça na moldura e me perdi na paisagem. Ver a avenida lotada de carros, as luzes, os prédios cinzas, o povo e todo aquele caos que era Buenos Aires me fazia sentir menos sozinho. Me fazia pensar que, entre tantas almas vagando por aí, eu não seria o único sofrendo por amor. As grandes cidades são sempre um refúgio pra solidão.

Minha cabeça funcionava que nem uma serra elétrica ou o motor de um carro de corrida. Não parava de imaginar, de disparar imagens e desfechos possíveis. Me perguntei se era capaz de perdoar uma traição e respondi que sim. Me odiei por ter respondido isso. Me perguntei se, nesse caso, era capaz de perdoar ela e entendi que sim, o que realmente doeu foi a vingança, aquela conta cobrada no meu próprio território, não a traição em si.

Me imaginei chegando em casa e encontrando ela com o outro, os dois sentados na minha cama, ou no meu sofá, vendo minha TV e me dizendo que não dava mais, que ele cumpria as promessas dele e que ouvia ela e que, pra facilitar as coisas pra mim, ele mesmo tinha embalado todas as minhas coisas e se oferecia pra me levar no carro dele. Me imaginei entrando no carro dele, resignado, igual quando tinha que ir com a minha mãe em algum lugar contra a minha vontade. Me imaginei encontrando uma calcinha da minha mina no banco de trás. E o cara me dizendo: “eu dou pra ela, fica tranquilo”. Me imaginei puto, matando ele na porrada, quebrando o carro dele e rindo pra caralho. Me imaginei derrotado, arrependido por não ter cumprido todas as promessas que fiz pra Laura. Me vi sozinho, triste e patético, então comecei a fuçar os contatos do meu celular atrás de nomes femininos. Luciana, Samanta, Natália, Juliana, Alejandra. Procurei em todas as letras. Quando achei uns nomes aceitáveis, escrevi uma mensagem genérica, tipo: "oi, quanto tempo, o que você tem feito da vida?" e mandei pra várias mulheres ao mesmo tempo. Se eu ia me separar da Laura, precisava encontrar alguém que me segurasse enquanto eu a esquecia.
Quando finalmente cheguei em casa, vi que as luzes estavam acesas e dava pra ouvir música. Paguei o táxi e guardei o troco sem olhar. Tinha saído mais barato do que eu pensava. Não fiquei feliz. Procurei a chave na minha mochila, abri a porta e entrei. Subi a escada com medo. Conforme subia, a música ficava mais alta. No meio da música — nunca soube se era Soda ou Cerati — dava pra ouvir a Laura cantando. Não entendi como ela conseguia cantar naquela situação, então subi os poucos degraus que faltavam o mais rápido possível e enfiei a chave pra abrir a porta. Quando tentei abrir, senti que o trinco estava posto por dentro e comecei a apertar a campainha igual um louco. De repente, a música parou e ouvi a Laura dizendo: "já vai, já vai, neném, tava na cozinha" e depois seus passos em direção à porta e a cadela chorando porque me reconhecia. Quando ela abriu a porta, vi: ela estava com o cabelo preso, minha camiseta do Pink Floyd, um shortinho branco e minúsculo que sempre me deixava louco e umas havaianas com meia. Ela estava sorrindo.
"Que rápido você veio. Veio de táxi?"
Ela disse sorrindo, enquanto ia pra cozinha e a cadela se jogava em cima de mim, chorando e rebolando a raba.
"Me explica o que acabou de acontecer."
Tirei a cadela de cima de mim. Ela se jogou no chão de patas pra cima, esperando um carinho.
"Já tá pronto a comida. Você põe a mesa?"
Eu entrei e larguei minha mochila no sofá. Uma ou duas mensagens me Chegaram no celular. Não olhei. Achei que era alguma das gatinhas que eu tinha mandado mensagem no táxi.
Pode me explicar que porra acabou de acontecer, Laura?
Não vai me dizer que você acreditou naquela história do telefonema.
Tá me zoando?
Não, não tô te zoando. Não me diga que você acreditou que o que eu falei no telefone era sério— Ela fez uma pausa. Vendo minha cara de confusão, completou: — Sério que você acreditou?
Como assim, "sério que você acreditou"? Não tô entendendo nada. Que porra é essa? Era uma brincadeira?
Ela começou a rir. Naquele momento, entendi tudo. Como se de repente um vento batesse na minha cara, a resposta veio na minha mente: uma vingança. Uma vingança que não tinha nada a ver com traição, porque se ela tivesse feito, teria cuidado pra eu nunca descobrir; essa vingança era mais próxima e tinha a ver com a reclamação constante dela e minha desculpa ou, mais que minha desculpa, minha verdade, minha realidade, minha premissa de que tudo que acontecia no rádio, ou na literatura, era ficção, pura e exclusivamente ficção. Uma ficção que ela tinha que aguentar e que eu me virava pra sustentar com promessas não cumpridas.
Dessa vez, o jogo virou. Pra ela, aquele telefonema tinha sido ficção e diversão. Pra mim, tinha sido realidade e sofrimento. Simplesmente não consegui ficar puto, ela tinha sido esperta, tinha me colocado do lado dela e me mostrado o que ela sentia e eu não conseguia entender.
Naquele momento, abracei ela, senti o coração dela batendo nos meus braços. Me senti forte e viril. Sortudo por ter conhecido ela e tê-la do meu lado. Senti meu pau crescer e com ele minha masculinidade. Senti o cheiro dela, tive vontade de apertar ela e apertei bem forte, como sempre fazia cada vez que sentia aquela eletricidade correndo pelo meu corpo e precisava descarregar, enfiar ela dentro do meu peito.
O táxi quem vai pagar é você.
Falei e a gente riu. A cadela começou a pular em cima da gente, até que se pendurou na perna da Laura e começou a esfregar a buceta na coxa dela. Laura tirou ela de cima e Segurando minha mão, me levou até a cozinha. Ela tinha feito hambúrgueres e comprado Coca Booty.
No freezer tem sorvete.
Ela disse quando terminamos de comer.
Sério?
Perguntei animado.
Sim. Meu pai trouxe.
Que foda seu velho!
Ficamos uns segundos em silêncio, pensativos. Até que de repente ela me disse:
É uma boa história. Você pode contar, ou fazer um conto dela.
Que história?
Essa, a nossa. A ligação no rádio e o desfecho. Tudo.
É verdade. Você tem razão.
Fiquei empolgado. E assim que terminei o último pedaço, levantei e fui ligar o computador.
Vai escrever de novo?
Ela me repreendeu.
Não, não. Só vou ligar o computador.
Eu te conheço. Você nem termina a sobremesa e já vai sair escrevendo.
Ligo o computador e vou.
Tirei o computador da mochila, coloquei na mesa e liguei na tomada. Quando estava prestes a ligar, Laura apareceu do meu lado com meu celular na mão.
Seu celular está tocando. É a Samanta. Quem é Samanta, Santiago? Pode me dizer?

1 comentários - Foder e Contar: Capítulo 1

Genial, me atrapo de principio a din. Me meti en la historia hasta sentirme identificado, mezclandolo con mi propia historia, me rei,emocione y demas boludeces sentimentales. Felicitaciones !!!