AS CINCO FOTOS
Acontece que guardo no meu computador uma série de fotos que uma das minhas filhas, já casada e com três filhinhos, me mandou há um tempo. Ela mesma tinha se fotografado no banheiro da casa dela, pelada. Fiquei surpreso ao recebê-las, e mais surpreso ainda com o recado que veio junto:
"Pai, te mando essas fotos que acabei de tirar. Papai, tomara que você não se assuste ou fique chateado por eu te mandar. Se te deixar sem graça, deleta elas e pronto, não aconteceu nada. Sério. Mas queria que você gostasse de me ver assim. Quer apague ou guarde, me responde, por favor. Te amo muito."
São cinco fotos digitais tiradas no banheiro da casa dela enquanto se molha debaixo do chuveiro. A luz da janela ilumina ela em tons de ocre, amarelo e laranja, deixando o lado direito do corpo e o rosto numa penumbra azulada, e dos cabelos dela escorre uma cachoeira de diamantes. De corpo inteiro e com os pés dentro da banheira, as imagens são surpreendentemente nítidas, quase tridimensionais. Numa, ela aparece de costas; noutra, de lado, com o braço cobrindo os peitos. Três fotos são quase de frente: uma com as mãos na cintura, outra levantando os cabelos e a terceira com as mãos sobre as coxas, quase emoldurando a buceta. Em todas, ela olha para um ponto indefinido, com um sorriso leve e doce.
No dia em que recebi, fiquei olhando um bom tempo, clicando numa, depois noutra, voltando pra anterior. Lindíssima, pensei. Ao ficar passando elas na tela uma e outra vez, o rosto dela, a cara da minha filha, parecia se transformar e virar uma mulher desconhecida. Gostosa pra caralho, sem dúvida. Por isso e pra minha surpresa, uma mulher que naquele momento se tornou estranha pra mim.
Impossível apagar as imagens do meu computador. Os dias passaram e, sem nem perceber, caí numa nova rotina. Assim que ligava o computador, resgatava as cinco fotos, acariciava elas rapidamente com os olhos e, em seguida, com uma sensação inquietante de surpresa ao mesmo tempo que de Tranquilidade, só tava passando pra responder minha correspondência e cuidar dos meus assuntos. No fim da tarde, me dava um tempinho de sossego pra olhar elas de novo, agora sim, devagar e repetidamente. Eu espalhava na tela pra ficar vendo uma e outra vez, sem conseguir nem formular as palavras pra descrever o que acontecia dentro de mim, naquele lugar onde guardo o inexplicável. Fiquei pensando em como elas foram tiradas. Devia ter usado o timer, pensei na primeira vez que vi. Só depois percebi que me incomodava a possibilidade de ter sido o marido dela quem tirou. Queria sentir que só eu conhecia elas.
O que mais me perturbava era pensar por que ela tinha me mandado aquilo. Claro, ela tinha escrito "queria que você gostasse de me ver assim", e era exatamente isso, totalmente inesperado, que quebrava todos os esquemas que tinham governado nossa relação até então. Minha filha queria que eu gostasse de ver ela pelada... e eu nunca poderia negar: claro que eu gostava de ver o corpo dela nu e molhado! E não só isso, ver ela assim despertava em mim uns apetites que eu nem sabia que tinha. Será que era isso que ela queria? Me causar uma fome desconhecida? Me provocar? Pois ela tinha conseguido com aquelas cinco fotos.
Ela tinha me pedido pra responder, e eu não soube como igualar a ousadia dela, talvez com medo de ter interpretado errado, sem querer pisar na bola. Então escrevi pra ela como se não tivesse recebido nada... uns detalhes da viagem que eu tinha acabado de voltar, perguntas sobre a saúde dos filhos e do marido. Mensagem curta, mas palavras carinhosas. Sem assinatura... como de costume. Poucos dias depois de escrever, meu celular tocou. Era ela. Perguntou quando eu ia visitar eles. "Quando você me convidar, minha filha", respondi. "Que bobo você é, você sempre nos visita sem convite nenhum", ela disse, "por que não aparece aqui neste fim de semana mesmo?" Ela falou que o genro ia pra capital buscar mercadoria pra loja de ferragens dele e que ela e as crianças iam passar o fim de semana em casa. "Fechou", falei, "não tenho compromissos, vou pegar o ônibus da madrugada pra chegar antes do meio-dia.
Bem na hora de nos despedirmos, ele hesitou uns instantes e então me perguntou o que eu tinha feito com as fotos que ele tinha me mandado. Guardei elas e vejo o tempo todo, respondi em voz baixa... Depois de um breve silêncio, ele me perguntou por quê. Ah... porque... porque gosto muito de te ver, respondi. Ai, papai, que bom, exclamou alegre, bom, então é só me mandar uma mensagem pra me avisar a hora da sua chegada no terminal que eu passo pra te buscar.
Cheguei na cidade pouco antes do meio-dia. Minha filha estava me esperando estacionada na saída do terminal. Passamos no supermercado e de lá fomos pra casa dela, nos arredores da cidade. Comi uma delícia com ela e meus netos. Trouxe três camisetas estampadas pros pequenos, muito engraçadas, uma bola de cristal com uma paisagem nevada pra neta mais velha, pro menininho uma coleção emoldurada de borboletas montadas (são insetos criados em estufas especiais, avisei), e uma girafa amarela e sem forma pra pequenininha, que ficou encantada e não largou mais. Levei também uma caixa de fósforos grandona cheia de sementes de frutas diferentes que tinha comido na minha viagem mais recente, então com a ajuda dos três pequenos enchemos vários vasos com terra preta e plantamos. Escrevemos etiquetinhas com o nome de cada fruta e o lugar onde crescia e colamos nos vasos. E quando vão ficar grandes, vovô? Uns mais cedo que outros...
Depois, enquanto minha filha atendia uma vizinha amiga (Que milagre o senhor aparecer, seu Feli! Como assim, Violeta, se eu estive por aqui há apenas três meses...), consertei o abajur da sala que tinha quebrado uma vez e aproveitei pra apertar a perna solta da velha cadeira de balanço herdada do meu avô que eu tinha dado pra minha filha.
A vizinha se despediu de todo mundo com os habituais alvoroços e fomos jantar no fim da tarde. Tamales e chocomil. Minha filha deu banho nos pequenos Na banheira. Pra fazer eles dormirem, eu os aninhei e contei uma nova variação da mesma história de sempre, a da civilização que morava em casas construídas em árvores gigantes. Como era o costume saudável deles, os três foram dormindo antes que eu terminasse de contar.
Quando levantamos a mesa, eu e minha filha, a noite e suas estrelas já nos cobriam por completo. Enquanto ela lavava os pratos e eu os secava, ela me perguntou o que eu queria fazer, se eu tava a fim de visitar os padrinhos dela, meus compadres. Podia ser... respondi, o que você sugere? Melhor ficar, ela disse enquanto enxaguava os cinco copinhos, vamos bater um papo, faz tempo que não nos atualizamos...
Era uma noite quente e clara, a lua quase cheia. O quintal e suas plantinhas, tudo iluminado de prata. A casa tava tão tranquila. Minha filha pegou aquele mezcalzinho que eu trouxe uma vez pra ela e serviu uns dois copinhos. Bateram 10 horas no campanário eletrônico da prefeitura. Ela serviu mais dois tragos. Sorrindo, brindamos com os olhos e ficamos um tempão sem falar, dividindo o mesmo cigarro, ouvindo os grilos lá fora. Eu ouvia o canto agudo das cigarras quando minha filha ficou me encarando. O olhar dela, olhos semicerrados, parecia medir a intimidade entre nós dois. De repente, ela se levantou e veio pro meu lado da mesa pra sentar no meu colo. Ela é uma mulher alta, bem esbelta de cintura e com poucas curvas. Não pesa muito. Ela enlaçou meu pescoço com os braços e, me olhando nos olhos, disse com muita ternura, bem baixinho: "Fala, pai, me diz por que você guardou as fotos que eu te mandei."
Eu não sabia bem o que responder. Olhei no fundo dos olhos dela. Me surpreendi ao notar umas ruguinhas começando, daquelas que se formam quando a gente ri muito... Talvez pelo mesmo motivo que você me mandou, eu sussurrei. Então você gostou delas? Eu assenti com a cabeça sem desviar o olhar dela, que a gente sustentou num longo momento de silêncio, desse lado do chiado dos grilos e cigarras e o canto estranho de um galo distante, tão fora de lugar. Senti o corpo inteiro dela tremendo e percebi que eu também tava tremendo. Como é bom que você tenha conseguido nos visitar, murmurou no meu ouvido, me abraçando. O hálito dela arrepiou meu corpo todo.
Ei, falou devagar, tô meio cansada, quero tomar um banho gostoso... e você, vai dormir assim ou quer tomar banho também? Não tá cansado? Não, verdade, não tô, respondi, franzindo a testa e balançando a cabeça, quase sem conseguir falar. Sentia o peitinho dela, o biquinho durinho, apertado no meu braço e sabia que ela, sentada no meu colo, podia sentir minha excitação debaixo das coxas dela. Tava rolando uma coisa entre a gente impossível de descrever. A gente quase suava, de nervoso ou de... Aí ela deu o último gole do mezcalzinho dela e com todo cuidado colocou o copinho na mesa sem fazer barulho, virou e me deu um beijinho na boca, os lábios molhados nos meus. Vem, vamos tomar banho, quer? ordenou de repente.
Entramos de mãos dadas no banheiro. Não é grande, mas tem banheira e chuveiro. O que você prefere, falou. Chuveiro... não, banheira... não, chuveiro... ah, sei lá, falei, e a gente se soltou rindo, muito nervosos os dois, tremendo. Espera aí, falou enquanto se abaixava pra abrir as torneiras do chuveiro, pega duas toalhas ali, falou; pega o sabonete daquela prateleirinha, cheiroso... E saiu descalça do banheiro enquanto eu sentia a temperatura da água. Quando voltou, vi que ela trazia a câmera digital na mão. Colocou na mesinha perto da pia e apontou pra banheira e aí, sem mais, tirou a blusa e a saia. Não tava de calcinha. Quando sentei na tampa do vaso pra tirar os sapatos, ela me ajudou a me despir em silêncio, primeiro a camisa, depois pegou do chão minha cueca e calça e pendurou direitinho num gancho. Pelados os dois, terminamos juntos de regular a água do chuveiro, como se quisesse prolongar o momento antes de entrar. Nos molharmos. As costas dela eram brancas, quase sinuosas, e dava pra ver as vértebras marcadas.
O bom é que é aquecedor de passagem, papi, a água quente não acaba, ela disse se colocando debaixo do chuveiro. Pois é, respondi feito um idiota. Eu ainda tava tremendo tanto que não conseguia pensar direito no que tava fazendo. Olhava pra ela e ela tava linda. Esbelta, atlética, saudável. Ao vê-la molhar os cabelos, tive a sensação de que a pele dela brilhava. Ela me abraçou pra eu me molhar também debaixo do jato. Dividimos o xampu e lavamos o cabelo juntos, alternando debaixo do chuveiro. E cada vez que trocávamos de lugar, nos tocávamos mais. Vem cá, papi, vou lavar suas costas, ela disse com a bucha na mão. Me esfregou forte como se eu fosse um cavalo e eu fui relaxando. Esfregou meus lados e, me abraçando por trás, passou a bucha no meu peito até tocar minha rola. Cuidadosamente, foi ensaboando ela com a mão direita. Agora me ensaboa, pa, ela disse e eu, elétrico, passei a bucha no corpo inteiro dela. Ela se deixou fazer sem falar nada, os olhos e a boca entreabertos, levantando os braços de leve, me mostrando que não tinha depilado as axilas, se virando... o pescoço, os peitinhos dela, a bunda, a barriga. Sentei na borda da banheira pra ensaboar as pernas dela e depois, com muito cuidado, ensaboei a buceta dela. Suavemente. Com todos os dedos da minha mão. A gente tinha parado de tremer. O vapor no banheiro, morno, nos envolvia numa névoa de sonho...
Eu sentado e a bunda dela contra minha virilha, meu pau entre as nádegas dela. De repente, ela apoiou as mãos nos azulejos da parede, se arqueou pra trás e eu senti como eu escorregava pra dentro dela. Gemeu baixinho e a gente transou sem pressa nenhuma, como se tivéssemos feito isso a vida toda, nos explorando devagar. Senti o orgasmo dela forte. Eu já não sou mais novo, então consegui me segurar pra prolongar o momento. A gente se sentia à vontade, ria com prazer. Senti ela me apertando com a buceta dela. Bucetinha. Cê gosta que eu te morda igualzinho um cachorrinho? perguntei com malícia. A gente se abraçou de novo debaixo do chuveiro e eu pensei no aquecedor a gás... Ela parecia feliz. Eu me sentia completo.
A água saiu quente durante todo o banho e a gente teve trabalho pra fechar o registro. Exaustos, abrimos a cortina e nos secamos um ao outro com carinho. Eu me vesti, mas ela resolveu sair do banho de roupão. A saideira, né, pai? disse sorrindo, e aí voltamos pra mesa pra tomar o último mezcalzinho. Sabe? falou, fico feliz de ter te mandado as fotos. Aaai... as fotos! exclamou, a gente não tirou nenhuma... e a gente riu. Não dava pra tirar foto, falei com ar de fotógrafo experiente, ia molhar tudo. Uai, disso cê não precisa se preocupar, me respondeu, tem vídeo de até 30 minutos. A gente riu de novo. Pra próxima, avisei. Sim, respondeu, quero ver a gente. Quero ver a gente junto, insistiu.
Um silêncio longo. Ai minha filha, e agora o que vai ser? perguntei baixando o olhar. Bem... vamos... vamos-dormir-no-quartodehóspedes, sussurrou brincando. Não, sério, insisti, o que a gente vai fazer daqui pra frente. Ai pai, não sei... o que a gente pode fazer? Não sei. Bom, a única coisa que sei é que hoje umas coisas se resolveram. Coisas, minha filha? Coisas na minha cabeça, pai... cê me entende? O quê... Cê acha que a gente não devia... Não, minha princesa. Aconteceu o que tinha que acontecer, né? Sim, pai, murmurou bem baixinho, com um sorriso bem fraquinho. E suspirou de novo, passou. Ai, pai, não se preocupa, falou e levantou da mesa. Quando fez isso, o roupão abriu e eu vi que o corpo dela continuava luminoso, brilhante. A gente já se soltou as madeixas, né? E com isso, que fez a gente rir pela terceira vez, a lua pareceu brilhar mais.
Tudo mudou desde então. E ao mesmo tempo nada mudou. Visito minha filha com mais frequência e os encontros na casa dela, com o marido e as crianças, com os amigos dela, ganharam uma nova dimensão. Percebo minha filha agora como uma mulher muito completa, dona de si mesma e noto com surpresa Clareza como o carisma dela impacta quem está ao redor. Nisso eu me incluo. E sei que, além de amá-la, eu a admiro. De vez em quando ela dá um jeito de viajar pra cidade grande e passar dois-três dias comigo. Aí a metrópole nos dá o privilégio do anonimato. Os amores com minha filha me fazem cuidar mais de mim, dos dentes, da pele, do cabelo... Ela adora cortar minhas unhas do pé. Uma vez, só uma vez, a gente se fotografou, pelados num sofá, fazendo piruetas, e depois, abraçados na frente do computador, selecionamos as melhores fotos. Só três. Mas depois de passar o dedo no monitor pra mostrar um ângulo, uma posição, decidimos deletá-las.
Aquelas cinco primeiras imagens continuam lá, na minha vista. Agora, os problemas tão macabros em que esse país que a gente teve que viver está metido, a violência indescritível que nos cerca, a estupidez da nossa classe média e suas fobias hipócritas... tudo me parece inconsequente, irreal. A única coisa que tem substância é o que a gente, eu e minha filha, vive de um jeito tão... tão tranquilo.
Acontece que guardo no meu computador uma série de fotos que uma das minhas filhas, já casada e com três filhinhos, me mandou há um tempo. Ela mesma tinha se fotografado no banheiro da casa dela, pelada. Fiquei surpreso ao recebê-las, e mais surpreso ainda com o recado que veio junto:
"Pai, te mando essas fotos que acabei de tirar. Papai, tomara que você não se assuste ou fique chateado por eu te mandar. Se te deixar sem graça, deleta elas e pronto, não aconteceu nada. Sério. Mas queria que você gostasse de me ver assim. Quer apague ou guarde, me responde, por favor. Te amo muito."
São cinco fotos digitais tiradas no banheiro da casa dela enquanto se molha debaixo do chuveiro. A luz da janela ilumina ela em tons de ocre, amarelo e laranja, deixando o lado direito do corpo e o rosto numa penumbra azulada, e dos cabelos dela escorre uma cachoeira de diamantes. De corpo inteiro e com os pés dentro da banheira, as imagens são surpreendentemente nítidas, quase tridimensionais. Numa, ela aparece de costas; noutra, de lado, com o braço cobrindo os peitos. Três fotos são quase de frente: uma com as mãos na cintura, outra levantando os cabelos e a terceira com as mãos sobre as coxas, quase emoldurando a buceta. Em todas, ela olha para um ponto indefinido, com um sorriso leve e doce.
No dia em que recebi, fiquei olhando um bom tempo, clicando numa, depois noutra, voltando pra anterior. Lindíssima, pensei. Ao ficar passando elas na tela uma e outra vez, o rosto dela, a cara da minha filha, parecia se transformar e virar uma mulher desconhecida. Gostosa pra caralho, sem dúvida. Por isso e pra minha surpresa, uma mulher que naquele momento se tornou estranha pra mim.
Impossível apagar as imagens do meu computador. Os dias passaram e, sem nem perceber, caí numa nova rotina. Assim que ligava o computador, resgatava as cinco fotos, acariciava elas rapidamente com os olhos e, em seguida, com uma sensação inquietante de surpresa ao mesmo tempo que de Tranquilidade, só tava passando pra responder minha correspondência e cuidar dos meus assuntos. No fim da tarde, me dava um tempinho de sossego pra olhar elas de novo, agora sim, devagar e repetidamente. Eu espalhava na tela pra ficar vendo uma e outra vez, sem conseguir nem formular as palavras pra descrever o que acontecia dentro de mim, naquele lugar onde guardo o inexplicável. Fiquei pensando em como elas foram tiradas. Devia ter usado o timer, pensei na primeira vez que vi. Só depois percebi que me incomodava a possibilidade de ter sido o marido dela quem tirou. Queria sentir que só eu conhecia elas.
O que mais me perturbava era pensar por que ela tinha me mandado aquilo. Claro, ela tinha escrito "queria que você gostasse de me ver assim", e era exatamente isso, totalmente inesperado, que quebrava todos os esquemas que tinham governado nossa relação até então. Minha filha queria que eu gostasse de ver ela pelada... e eu nunca poderia negar: claro que eu gostava de ver o corpo dela nu e molhado! E não só isso, ver ela assim despertava em mim uns apetites que eu nem sabia que tinha. Será que era isso que ela queria? Me causar uma fome desconhecida? Me provocar? Pois ela tinha conseguido com aquelas cinco fotos.
Ela tinha me pedido pra responder, e eu não soube como igualar a ousadia dela, talvez com medo de ter interpretado errado, sem querer pisar na bola. Então escrevi pra ela como se não tivesse recebido nada... uns detalhes da viagem que eu tinha acabado de voltar, perguntas sobre a saúde dos filhos e do marido. Mensagem curta, mas palavras carinhosas. Sem assinatura... como de costume. Poucos dias depois de escrever, meu celular tocou. Era ela. Perguntou quando eu ia visitar eles. "Quando você me convidar, minha filha", respondi. "Que bobo você é, você sempre nos visita sem convite nenhum", ela disse, "por que não aparece aqui neste fim de semana mesmo?" Ela falou que o genro ia pra capital buscar mercadoria pra loja de ferragens dele e que ela e as crianças iam passar o fim de semana em casa. "Fechou", falei, "não tenho compromissos, vou pegar o ônibus da madrugada pra chegar antes do meio-dia.
Bem na hora de nos despedirmos, ele hesitou uns instantes e então me perguntou o que eu tinha feito com as fotos que ele tinha me mandado. Guardei elas e vejo o tempo todo, respondi em voz baixa... Depois de um breve silêncio, ele me perguntou por quê. Ah... porque... porque gosto muito de te ver, respondi. Ai, papai, que bom, exclamou alegre, bom, então é só me mandar uma mensagem pra me avisar a hora da sua chegada no terminal que eu passo pra te buscar.
Cheguei na cidade pouco antes do meio-dia. Minha filha estava me esperando estacionada na saída do terminal. Passamos no supermercado e de lá fomos pra casa dela, nos arredores da cidade. Comi uma delícia com ela e meus netos. Trouxe três camisetas estampadas pros pequenos, muito engraçadas, uma bola de cristal com uma paisagem nevada pra neta mais velha, pro menininho uma coleção emoldurada de borboletas montadas (são insetos criados em estufas especiais, avisei), e uma girafa amarela e sem forma pra pequenininha, que ficou encantada e não largou mais. Levei também uma caixa de fósforos grandona cheia de sementes de frutas diferentes que tinha comido na minha viagem mais recente, então com a ajuda dos três pequenos enchemos vários vasos com terra preta e plantamos. Escrevemos etiquetinhas com o nome de cada fruta e o lugar onde crescia e colamos nos vasos. E quando vão ficar grandes, vovô? Uns mais cedo que outros...
Depois, enquanto minha filha atendia uma vizinha amiga (Que milagre o senhor aparecer, seu Feli! Como assim, Violeta, se eu estive por aqui há apenas três meses...), consertei o abajur da sala que tinha quebrado uma vez e aproveitei pra apertar a perna solta da velha cadeira de balanço herdada do meu avô que eu tinha dado pra minha filha.
A vizinha se despediu de todo mundo com os habituais alvoroços e fomos jantar no fim da tarde. Tamales e chocomil. Minha filha deu banho nos pequenos Na banheira. Pra fazer eles dormirem, eu os aninhei e contei uma nova variação da mesma história de sempre, a da civilização que morava em casas construídas em árvores gigantes. Como era o costume saudável deles, os três foram dormindo antes que eu terminasse de contar.
Quando levantamos a mesa, eu e minha filha, a noite e suas estrelas já nos cobriam por completo. Enquanto ela lavava os pratos e eu os secava, ela me perguntou o que eu queria fazer, se eu tava a fim de visitar os padrinhos dela, meus compadres. Podia ser... respondi, o que você sugere? Melhor ficar, ela disse enquanto enxaguava os cinco copinhos, vamos bater um papo, faz tempo que não nos atualizamos...
Era uma noite quente e clara, a lua quase cheia. O quintal e suas plantinhas, tudo iluminado de prata. A casa tava tão tranquila. Minha filha pegou aquele mezcalzinho que eu trouxe uma vez pra ela e serviu uns dois copinhos. Bateram 10 horas no campanário eletrônico da prefeitura. Ela serviu mais dois tragos. Sorrindo, brindamos com os olhos e ficamos um tempão sem falar, dividindo o mesmo cigarro, ouvindo os grilos lá fora. Eu ouvia o canto agudo das cigarras quando minha filha ficou me encarando. O olhar dela, olhos semicerrados, parecia medir a intimidade entre nós dois. De repente, ela se levantou e veio pro meu lado da mesa pra sentar no meu colo. Ela é uma mulher alta, bem esbelta de cintura e com poucas curvas. Não pesa muito. Ela enlaçou meu pescoço com os braços e, me olhando nos olhos, disse com muita ternura, bem baixinho: "Fala, pai, me diz por que você guardou as fotos que eu te mandei."
Eu não sabia bem o que responder. Olhei no fundo dos olhos dela. Me surpreendi ao notar umas ruguinhas começando, daquelas que se formam quando a gente ri muito... Talvez pelo mesmo motivo que você me mandou, eu sussurrei. Então você gostou delas? Eu assenti com a cabeça sem desviar o olhar dela, que a gente sustentou num longo momento de silêncio, desse lado do chiado dos grilos e cigarras e o canto estranho de um galo distante, tão fora de lugar. Senti o corpo inteiro dela tremendo e percebi que eu também tava tremendo. Como é bom que você tenha conseguido nos visitar, murmurou no meu ouvido, me abraçando. O hálito dela arrepiou meu corpo todo.
Ei, falou devagar, tô meio cansada, quero tomar um banho gostoso... e você, vai dormir assim ou quer tomar banho também? Não tá cansado? Não, verdade, não tô, respondi, franzindo a testa e balançando a cabeça, quase sem conseguir falar. Sentia o peitinho dela, o biquinho durinho, apertado no meu braço e sabia que ela, sentada no meu colo, podia sentir minha excitação debaixo das coxas dela. Tava rolando uma coisa entre a gente impossível de descrever. A gente quase suava, de nervoso ou de... Aí ela deu o último gole do mezcalzinho dela e com todo cuidado colocou o copinho na mesa sem fazer barulho, virou e me deu um beijinho na boca, os lábios molhados nos meus. Vem, vamos tomar banho, quer? ordenou de repente.
Entramos de mãos dadas no banheiro. Não é grande, mas tem banheira e chuveiro. O que você prefere, falou. Chuveiro... não, banheira... não, chuveiro... ah, sei lá, falei, e a gente se soltou rindo, muito nervosos os dois, tremendo. Espera aí, falou enquanto se abaixava pra abrir as torneiras do chuveiro, pega duas toalhas ali, falou; pega o sabonete daquela prateleirinha, cheiroso... E saiu descalça do banheiro enquanto eu sentia a temperatura da água. Quando voltou, vi que ela trazia a câmera digital na mão. Colocou na mesinha perto da pia e apontou pra banheira e aí, sem mais, tirou a blusa e a saia. Não tava de calcinha. Quando sentei na tampa do vaso pra tirar os sapatos, ela me ajudou a me despir em silêncio, primeiro a camisa, depois pegou do chão minha cueca e calça e pendurou direitinho num gancho. Pelados os dois, terminamos juntos de regular a água do chuveiro, como se quisesse prolongar o momento antes de entrar. Nos molharmos. As costas dela eram brancas, quase sinuosas, e dava pra ver as vértebras marcadas.
O bom é que é aquecedor de passagem, papi, a água quente não acaba, ela disse se colocando debaixo do chuveiro. Pois é, respondi feito um idiota. Eu ainda tava tremendo tanto que não conseguia pensar direito no que tava fazendo. Olhava pra ela e ela tava linda. Esbelta, atlética, saudável. Ao vê-la molhar os cabelos, tive a sensação de que a pele dela brilhava. Ela me abraçou pra eu me molhar também debaixo do jato. Dividimos o xampu e lavamos o cabelo juntos, alternando debaixo do chuveiro. E cada vez que trocávamos de lugar, nos tocávamos mais. Vem cá, papi, vou lavar suas costas, ela disse com a bucha na mão. Me esfregou forte como se eu fosse um cavalo e eu fui relaxando. Esfregou meus lados e, me abraçando por trás, passou a bucha no meu peito até tocar minha rola. Cuidadosamente, foi ensaboando ela com a mão direita. Agora me ensaboa, pa, ela disse e eu, elétrico, passei a bucha no corpo inteiro dela. Ela se deixou fazer sem falar nada, os olhos e a boca entreabertos, levantando os braços de leve, me mostrando que não tinha depilado as axilas, se virando... o pescoço, os peitinhos dela, a bunda, a barriga. Sentei na borda da banheira pra ensaboar as pernas dela e depois, com muito cuidado, ensaboei a buceta dela. Suavemente. Com todos os dedos da minha mão. A gente tinha parado de tremer. O vapor no banheiro, morno, nos envolvia numa névoa de sonho...
Eu sentado e a bunda dela contra minha virilha, meu pau entre as nádegas dela. De repente, ela apoiou as mãos nos azulejos da parede, se arqueou pra trás e eu senti como eu escorregava pra dentro dela. Gemeu baixinho e a gente transou sem pressa nenhuma, como se tivéssemos feito isso a vida toda, nos explorando devagar. Senti o orgasmo dela forte. Eu já não sou mais novo, então consegui me segurar pra prolongar o momento. A gente se sentia à vontade, ria com prazer. Senti ela me apertando com a buceta dela. Bucetinha. Cê gosta que eu te morda igualzinho um cachorrinho? perguntei com malícia. A gente se abraçou de novo debaixo do chuveiro e eu pensei no aquecedor a gás... Ela parecia feliz. Eu me sentia completo.
A água saiu quente durante todo o banho e a gente teve trabalho pra fechar o registro. Exaustos, abrimos a cortina e nos secamos um ao outro com carinho. Eu me vesti, mas ela resolveu sair do banho de roupão. A saideira, né, pai? disse sorrindo, e aí voltamos pra mesa pra tomar o último mezcalzinho. Sabe? falou, fico feliz de ter te mandado as fotos. Aaai... as fotos! exclamou, a gente não tirou nenhuma... e a gente riu. Não dava pra tirar foto, falei com ar de fotógrafo experiente, ia molhar tudo. Uai, disso cê não precisa se preocupar, me respondeu, tem vídeo de até 30 minutos. A gente riu de novo. Pra próxima, avisei. Sim, respondeu, quero ver a gente. Quero ver a gente junto, insistiu.
Um silêncio longo. Ai minha filha, e agora o que vai ser? perguntei baixando o olhar. Bem... vamos... vamos-dormir-no-quartodehóspedes, sussurrou brincando. Não, sério, insisti, o que a gente vai fazer daqui pra frente. Ai pai, não sei... o que a gente pode fazer? Não sei. Bom, a única coisa que sei é que hoje umas coisas se resolveram. Coisas, minha filha? Coisas na minha cabeça, pai... cê me entende? O quê... Cê acha que a gente não devia... Não, minha princesa. Aconteceu o que tinha que acontecer, né? Sim, pai, murmurou bem baixinho, com um sorriso bem fraquinho. E suspirou de novo, passou. Ai, pai, não se preocupa, falou e levantou da mesa. Quando fez isso, o roupão abriu e eu vi que o corpo dela continuava luminoso, brilhante. A gente já se soltou as madeixas, né? E com isso, que fez a gente rir pela terceira vez, a lua pareceu brilhar mais.
Tudo mudou desde então. E ao mesmo tempo nada mudou. Visito minha filha com mais frequência e os encontros na casa dela, com o marido e as crianças, com os amigos dela, ganharam uma nova dimensão. Percebo minha filha agora como uma mulher muito completa, dona de si mesma e noto com surpresa Clareza como o carisma dela impacta quem está ao redor. Nisso eu me incluo. E sei que, além de amá-la, eu a admiro. De vez em quando ela dá um jeito de viajar pra cidade grande e passar dois-três dias comigo. Aí a metrópole nos dá o privilégio do anonimato. Os amores com minha filha me fazem cuidar mais de mim, dos dentes, da pele, do cabelo... Ela adora cortar minhas unhas do pé. Uma vez, só uma vez, a gente se fotografou, pelados num sofá, fazendo piruetas, e depois, abraçados na frente do computador, selecionamos as melhores fotos. Só três. Mas depois de passar o dedo no monitor pra mostrar um ângulo, uma posição, decidimos deletá-las.
Aquelas cinco primeiras imagens continuam lá, na minha vista. Agora, os problemas tão macabros em que esse país que a gente teve que viver está metido, a violência indescritível que nos cerca, a estupidez da nossa classe média e suas fobias hipócritas... tudo me parece inconsequente, irreal. A única coisa que tem substância é o que a gente, eu e minha filha, vive de um jeito tão... tão tranquilo.
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