46: Revisão Executiva (Parte 1 de 3)




Postagem anterior
Post seguinte
Compêndio III46: REVISÃO EXECUTIVA (Parte 1 de 3)

(Caro leitor: Esse encontro foi bem intenso. Aquela tarde foi muito longa e satisfatória, então tive que dividir em 3 partes. Peço desculpas, mas maio foi uma correria.)
muito ocupado... a ponto de quase não conseguir sentar para escrever, e a Marisol me pede pra deixar anotações separadas pra não esquecer os detalhes. Agradeço a paciência e a compreensão dela e vou tentar postar o restante ainda essa semana.)

Eu me sentia cansado. Meus olhos ardiam e eu só queria ir pra casa. Tinha sido um daqueles dias em que nada estava errado por si só, mas também nada estava certo: só uma sequência chata de pequenas frustrações que me deixaram exausto. As portas do elevador se abriram no estacionamento e eu caminhei pesadamente até minha caminhonete, girando os ombros tensos.

Aí, eu vi ela.
46: Revisão Executiva (Parte 1 de 3)Isso foi literalmente um bálsamo pros meus olhos cansados. A Cristina estava ali como se o estacionamento, a caminhonete e provavelmente toda a minha força de vontade pertencessem a ela. O jeito que os quadris dela inclinavam pra um lado, como a jaqueta se ajustava na cintura antes de abrir só o suficiente pra insinuar a curva da bunda dela… Meu Deus! Quase deixei as chaves caírem. Aquele decote pronunciado era simplesmente letal.

• Você parece um homem prestes a me decepcionar. — ela exclamou sem piedade, batendo a ponta do sapato no concreto. O som ecoou na garagem como o martelo de um juiz.

Tentei salvar as aparências segurando minha pasta com mais força, mas meus dedos me traíram, escorregando levemente na alça de couro. Os olhos da Cristina (afiados como o salto que marcava um ritmo impaciente no chão da garagem) acompanharam o movimento.

— E você parece uma mulher prestes a me pedir algo caro.

Cristina riu, baixo e rouco.

• A Edith tá esperando! Entra no carro!

Eu tava cansado. Queria ir pra casa. Não me mexi.

— Espera! Por que eu ia…?

• Vamos! — ela reclamou, já fazendo biquinho enquanto forcejava com a maçaneta da porta do carona. — Quero ir ver ela!

— Eu sei! Mas por que comigo? — perguntei, sentindo a tensão tomar conta de mim.

Meus nós dos dedos ficaram brancos de tanto apertar a alça da pasta. Cristina parou o biquinho no meio, os olhos escuros dela se estreitando como se tivesse acabado de detectar um erro no código.

• Porque... — ela sibilou, irritada, mas aí meio que ficou sem energia. — Sei que ela vai ficar mais feliz se você vier.

Isso foi... surpreendente, pra dizer o mínimo. A Cristina não era exatamente conhecida pela sinceridade — mais pela lábia afiada e manipulação estratégica. Mas o jeito que ela falou (como se tivesse levantado uma camada de si mesma só o suficiente pra mostrar algo sincero) fez eu afrouxar o aperto na alça. Apertei o Chaveiro, as luzes da caminhonete piscaram quando as portas destravaram.

Ao subir na cabine, o balanço dos peitos dela era hipnótico: não só pela física pura, mas pelo jeito que ela fingia não notar que eu tava olhando. Só que o canto do lábio dela tremeu. Ela sabia. Sempre sabia.

Como de costume, assim que sentei na minha caminhonete, peguei o celular e liguei pra minha esposa. Cristina arqueou uma sobrancelha (a versão dela de um interrogatório silencioso) enquanto tamborilava as unhas impecáveis no painel. O telefone tocou duas vezes antes da Marisol atender com aquele tom melódico de sempre, embora desse pra ouvir o barulho fraco de panelas batendo ao fundo. Preparando o jantar, então.

— Oi, Marisol! Pode falar pras meninas que vou chegar tarde hoje? — perguntei, mantendo a voz casual.

Cristina revirou os olhos de um jeito dramático e murmurou…

• Patético! — a crítica favorita dela sobre minha transparência de marido.

+ Claro! Onde você tá? — perguntou minha esposa, a voz cantarolando com aquela mistura específica de alegria e desconfiança que só décadas de casamento conseguem aperfeiçoar.
amiga com direitosO som distante das panelas parou… ela tinha parado de mexer o que quer que estivesse fervendo na cozinha só pra saborear isso.

Senti um suor frio nas costas…

— A Cristina me pediu pra levar ela pra ver como a Edith está. — Respondi.

Consegui sentir a risadinha da minha esposa: aquele suspiro pelo nariz que ela guardava pra quando eu estava ridiculamente transparente. Cristina sorriu com superioridade, deslizando um dedo ao longo da costura da saia dela em movimentos lentos e deliberados… só pra ver minha mandíbula se contrair.

— Ah! — Marisol não decepcionou, mudando então pra um espanhol rápido e polido, a voz descendo pra aquele tom rouco que ela usava pra zuar comigo. — E depois… você vai levar ela pra um
albergueO jeito que a língua dela envolveualberguefez com que eu apertasse o volante com mais força. As unhas de Cristina pararam de tamborilar, a cabeça dela se inclinando como um predador sentindo um cheiro desconhecido.

Eu corei e engoli em seco, o calor subindo pelo meu pescoço enquanto as palavras de Marisol escorriam pelo telefone. Os dedos de Cristina pararam no meio do tamborilar contra o painel, os olhos escuros dela se virando para mim com interesse predatório.

– Talvez... – admiti, jogando um olhar e parando por um breve instante nos peitos magníficos de Cristina –. Vamos ver!

As palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las, meio brincalhonas, parte desafiadoras. Os lábios de Cristina se separaram em surpresa silenciosa, os dedos dela congelando contra o painel. Pelo telefone, a respiração satisfeita de Marisol crepitou… provavelmente sorriu feliz, daquele jeito que curvava os lábios só o suficiente para fazer aparecer covinhas.

– Ótimo! Vou falar pras meninas que você vai visitar uma avó doente... – respondeu com sua atitude borbulhante. Depois, completou –: E espero seu carinho mais tarde também, meu love!

A ligação foi cortada antes que eu pudesse responder: a saída clássica de Marisol, me deixando com a sensação fantasma do sorriso dela esquentando meu ouvido.

Liguei a caminhonete com um sorriso de idiota.

– Tinha que dar satisfação! – expliquei pra Cristina, que naquele momento se livrava da jaqueta com a precisão de alguém desarmando uma bomba.

O aroma do perfume dela inundou a cabine enquanto ela jogava a jaqueta no banco de trás. A blusa por baixo era uma obra-prima de tensão, o primeiro botão já rendido.
vadia peitudaO motor roncou ao ligar, vibrando pelos bancos de couro gastos. Cristina ajustou as saídas de ar-condicionado, o perfume dela (alguma coisa cara com notas de jasmim) tomando conta do ar com aquele cheiro inebriante. Ela soltou um suspiro brusco, girando os ombros como quem se livra do peso do dia corporativo, a blusa dela estalando com o movimento. Não olhei. Bom, dei uma espiada.

- Você soube alguma coisa da Edith? — perguntei pra Cristina enquanto programava o GPS pra casa dela.

O centro de Melbourne começava a acalmar enquanto o dia entrava naquela hora dourada em que as sombras se esticavam no asfalto. O motor da caminhonete se acomodou num ronco constante, vibrando pelos bancos que nem uma puta satisfeita.

Ela me encarou com os olhos arregalados, as unhas elegantes e finas paradas no ar como se eu tivesse acabado de confessar um assassinato.

- Você não falou com ela...? — perguntou Cristina, parecendo chocada, com uma voz capaz de provocar uma avalanche.

Os dedos dela ficaram suspensos perto da saída de ar, as unhas pegando a luz do entardecer. O jeito que as sobrancelhas dela se arquearam (como se eu tivesse dito que não conhecia eletricidade) me fez apertar o volante com mais força.

- Pra ser sincero, não. — respondi seco, vendo um ciclista chegar perigoso perto do meu parachoque antes de sumir no trânsito. — Não soube nada dela desde aquela tarde no hospital.

- Mas isso foi há quase dois meses! — gritou Cristina, a voz dela ecoando dentro da caminhonete que nem uma bala perdida.
infidelidade consentidaOs dedos dela se cravaram no banco de couro como se ela estivesse se segurando fisicamente pra não me estrangular.

— Eu sei! — admiti, observando o peito da Cristina subindo com aquele suspiro teatral… um movimento tão gostoso que bem que podia vir com manual. O tecido da blusa dela estalava perigosamente, o botão de cima se agarrando como se fosse pela vida. — Mas também pensei que ela e o Charles precisavam de privacidade.

• Ela tá bem. Descansando em casa. — disse Cristina finalmente, a voz dela soando mais frustrada, os dedos brincando com a coxa carnuda dela… um hábito nervoso que ela nunca ia admitir pra mim. — A Madeleine e eu nos revezamos pra ver como ela tá.
progressocom o Charles.
Do jeito que ele disse
progressocarregava o menor tremor, como se estivesse se convencendo mais a si mesma do que a mim.

- Ah! Então não tinha motivo pra eu me preocupar... - falei mais aliviado, mas estranhamente murcho.

A caminhonete parou num sinal vermelho, e peguei o reflexo da Cristina no espelho lateral: os lábios apertados numa linha fina, o olhar desviando.

Ela me lançou um olhar frio.

• Acho que não.

A caminhonete avançou. O estilete da Cristina batucava ocioso contra o tapete, o clic no borracha feito um metrônomo marcando o silêncio estranho entre nós. O GPS deu uma instrução de curva, a voz robótica cortando a tensão como faca de manteiga em manteiga derretida: presente mas inútil.

- Cê tá bolada! - falei, entrando na avenida principal.

Letreiros de néon passavam borrados: um sushi bar, uma lavanderia, os reflexos manchando o vidro da Cristina como tinta molhada.

Ela soltou o ar bruscamente pelo nariz.

• Não tô bolada! Tô... - Os dedos dela apertaram a bolsa, o couro estalando sob o aperto. - Surpresa. Vocês dois eram próximos.

Um caminhão buzinou dois quarteirões adiante. O som sacudiu os ombros dela, e ela se encolheu, o joelho batendo no porta-luvas. Uma caneta solta chacoalhou lá dentro. O barulho repentino fez os dedos dela se tensionarem: aqueles mesmos dedos que conseguiam desmontar um servidor em minutos ou me reduzir a um tremelique só com um olhar. Agora pareciam estranhamente vulneráveis, apertados com força em volta da bolsa.

- Próximo não significa intrometido. - expliquei, revelando minha lógica e reduzindo a velocidade num sinal amarelo. O cruzamento cheirava a escapamento de gasolina e massa frita de um carrinho de donuts. - Já estive no lugar dele. Depois de um tempo, você odeia dar a mesma explicação pra todo mundo toda hora.

A caminhonete tremeu ao parar, a vibração do motor fazendo o a coxa de Cristina tremeu contra a minha. Ela soltou um suspiro brusco, afrouxando a pegada na bolsa.

A risada de Cristina foi frágil e mais compreensiva.

• É, pois é... talvez você tenha razão. Ontem, Charlie foi mais seco comigo. Me preocupou.
colega de trabalho- Exato! - O sinal ficou verde.

Acelerei enquanto um cara impaciente atrás de mim buzinava. Os dedos da Cristina se cravaram no banco de novo... não de medo, mas de frustração.

• Você nem ligou uma vez? - ela pressionou, a voz afiada o bastante pra cortar o zumbido do ar-condicionado.

O sol do entardecer pegou no contorno do queixo dela enquanto ela se virava completamente pra mim, transformando o perfil dela numa linha de sombra e ouro.

- Mandei mensagens. Duas vezes.

O salto da Cristina voltou a bater, cada clique metálico no carpete marcando minha culpa. O ritmo combinava com meu pulso, acelerando enquanto ela virava a cabeça devagar, o olhar cortando feito bisturi.

• Mensagens! - ela murmurou como se eu tivesse confessado um crime. - Pelo amor de Deus!
46: Revisão Executiva (Parte 1 de 3)Um poste de luz piscou sobre nós, projetando o perfil dela em sombras marcadas: a linha afiada do maxilar, os cílios pegando a luz como penas negras. Por um momento, ela parecia menos a predadora corporativa que eu conhecia e mais alguém que tinha acabado de perceber que estava segurando a respiração por tempo demais. O silêncio entre nós engrossou, quebrado só pelo GPS indicando outra curva. Eu fiz a curva, minhas mãos firmes no volante, mesmo com o pulso martelando contra as costelas.

- Você tá realmente pilhada com isso! – exclamei, preocupado por ter ignorado um sinal emocional não dito, observando os nós dos dedos dela ficarem brancos em volta da bolsa. O couro rangeu sob o aperto dela como se fosse vivo.

Os dedos dela se flexionaram.

• Ela perguntou por você! – explodiu parte da irritação dela.

Isso bateu como um soco. O volante rangeu sob meu aperto.

- Quando?

• Semana passada. A Madeleine me contou. – A voz da Cristina baixou, quase abafada pelo ronco do motor. – Ela disse que... a Edith quis saber como você tem lidado com tudo. Tava com medo de que a diretoria se unisse contra você.

O ar na cabine engrossou. Minha garganta fechou. Lá fora, gotas de chuva começaram a salpicar o para-brisa: devagar no começo, depois mais rápido, até os limpadores entrarem em ação com um gemido.

A Cristina virou o rosto para a janela coberta de chuva.

• Então é isso. Achei que você devia
ver ela...
As gotas distorciam o reflexo dela, transformando os traços afiados em algo fluido… instável.

Silêncio. Os únicos sons eram o chiado rítmico dos limpadores de para-brisa e o trovão distante, retumbando como um pedido de desculpas engasgado.

Ajustei as saídas de ar, direcionando o calor pra ela.

— Então… nenhuma de vocês contou pra ela que fui expulso da reunião? — perguntei baixinho.

Os ombros dela se enrijeceram na hora, meio centímetro.

— Puta merda, não! Isso ia matar ela! — se preocupou, os dedos torcendo a alça da bolsa até o couro chiar de novo.
amiga com direitosA chuva lá fora se intensificou, batendo no telhado num ritmo frenético que combinava com a pulsação na sua têmpora.

• Ela acha que você ainda está lutando
A boa briga lá em cima.— O que você é... — a garganta de Cristina trabalhou em volta das palavras como se elas tivessem espinhos. — Sua última linha de defesa.

Eu ri.

— Não, não faria! — tranquilizei ela. — Vai deixá-la furiosa, mas não vai matá-la.

Meus dedos marcavam um ritmo calmo contra o volante, sincronizado com o vai e vem constante dos limpadores. A chuva tinha virado uma garoa insistente, borrando os letreiros de neon em manchas de cor.

De repente, ela achou os saltos dela interessantes, torcendo um stiletto contra o carpete como se ele guardasse os segredos do universo. O clique do salto dela contra a borracha foi mais afiado que o tom dela quando finalmente falou:

— Você não tá puto com isso? — perguntou, desviando o olhar.

Dei uma olhada nos pés dela, pensando que talvez tivesse pisado em chiclete, já que ela não me encarava.

— Com o quê? — questionei, confuso.

— Comigo. — Ela ergueu a cabeça finalmente. — Com a Madeleine. O Horácio. Os outros... a gente não parou o Reginald.

As palavras saíram de uma vez, como moedas soltas de um bolso furado: cortantes, tilintantes, repentinas, deixando um vazio depois. Os dedos dela, normalmente tão precisos ao digitar comandos ou percorrer minha pele, agora brincavam com a barra da saia, amassando o tecido impecável.

Eu ri de novo.

— Por que eu ficaria puto? Tô querendo sair do conselho o ano inteiro! — respondi, buzinando pra um Cooper que mudou de faixa sem avisar.

A buzinada ecoou o suspiro brusco de Cristina: os dois sons igualmente assustados. Os dedos dela se cravaram no tecido amassado da saia, as unhas impecáveis pegando a luz fraca como lâminas minúsculas.

— Por quê? — perguntou Cristina, os dedos congelados no ar, o vinco entre as sobrancelhas se aprofundando.
vadia peitudaLá fora, a chuva tinha virado uma neblina, suavizando os contornos da cidade até deixar ela quase onírica.

Suspirei, esfregando a têmpora onde uma dor de cabeça ameaçava aparecer.

— Porque vocês são complicados. — O motor da caminhonete roncava baixinho, igual o cansaço na minha voz. — Quando a Edith me indicou na reunião, minha primeira reação foi sugerir a Sonia no meu lugar. Ela tem paciência pra política corporativa. Eu? Só quero lidar com os gerentes de site e chefes de fábrica: problemas diretos, soluções diretas.

Ela pareceu triste… não aquele bico teatral que ela fazia nas salas de reunião, mas algo sincero e emotivo, o lábio inferior tremendo antes de morder ele. O brilho neon de uma placa de bar ali perto piscou no rosto dela, transformando as pupilas dela em poços líquidos de violeta.

• Se eu soubesse antes que você nos salvou há três anos… no ataque cibernético… — A voz dela se desfiou nas bordas, igual seda enganchando num prego enferrujado.

O volante rangeu na minha mão.

— Bom, eu fui um idiota com você, então tá justificado. — Interrompi ela antes que a culpa se instalasse nas minhas costelas. — Te chantageei pra revelar seu segredo como Dominatrix…

As palavras tinham gosto de ferrugem. A respiração da Cristina prendeu… não pela lembrança, mas pela minha brutalidade casual ao contar.

— E transei na sua frente com outras mulheres… três vezes…

Os dedos dela se apertaram contra a coxa, no mesmo ritmo do pulso dela quando uma vez eu imobilizei os pulsos dela contra a parede do meu escritório.

— Então você tava justificada pra agir como uma puta.

Ela sorriu com isso, se sentindo um pouco aliviada.
infidelidade consentida• Bom, não foi tão ruim assim. — Ela sorriu, os dedos finalmente afrouxando o aperto mortal na bolsa.

A tensão nos ombros dela cedeu o suficiente para que ela se deixasse cair contra o banco, o couro estalando suavemente sob seu peso. A chuva tinha diminuído para uma neblina agora, banhando a cidade num brilho difuso que suavizava suas arestas afiadas. Pela primeira vez desde que a vi no estacionamento, ela parecia quase humana: não a predadora corporativa ou a amazona gostosa, só a Cristina, cansada e estranhamente vulnerável.

A brisa morna esquecida do verão trazia o cheiro de jasmim dos jardins extensos da Edith enquanto subíamos pela entrada circular. Minha própria casa com a Marisol (uma mansão respeitável pra qualquer padrão, com seu pé de cerejeira e cercas vivas impecáveis) parecia um bangalô modesto em comparação. A propriedade da Edith se erguia na nossa frente como algo arrancado direto de Versalhes, sua fachada de pedra clara brilhando âmbar sob a luz do entardecer. A fonte central, uma monstruosidade de mármore esculpido representando algum mito grego que eu não reconheci, gorgolejava ameaçadoramente enquanto eu estacionava.

• Cê tá inquieta! – observei de novo ao chegar, desligando o motor.

Os faróis se apagaram bem na hora que iluminaram as esculturas intrincadas da balaustrada de pedra da propriedade: detalhes que não desentonariam no centro de uma capital europeia. As mãos da Cristina estavam alisando a saia dela inquietas nos últimos três semáforos, a compostura normalmente impecável dela se desfiando nas bordas.

A mão da Cristina parou…

• Não tenho tanta certeza se isso vai dar certo.

Os dedos dela pairaram sobre a maçaneta da porta, as unhas impecáveis pegando a luz que se apagava como pequenas lâminas. A hesitação não era típica dela: a Cristina que eu conhecia chutava portas abertas, metafórica e literalmente.

Estacionei minha caminhonete na frente de uma garagem enorme que podia abrigar pelo menos cinco carros, embora Só o Jaguar vintage do Charles descansava ali, a grade cromada brilhando igual sorriso de predador. O rangido do cascalho sob nossos sapatos era o único som enquanto caminhávamos até a porta da frente: uma laje de carvalho maciço com dobradiças de ferro que pareciam saídas de um castelo. Os stilettos da Cristina afundavam de leve na grama impecável a cada passo, aquele andar predador dela meio suavizado pela incerteza.
colega de trabalho- Olá. Viemos ver a dona da casa? - perguntei ao mordomo, um homem magro cuja postura sugeria que tinha sido esculpido no mesmo mármore das colunas do saguão.

Seu aceno foi tão leve que poderia ter sido um truque da luz do candelabro.

- Sigam-me! - entoou, girando com a precisão de um metrônomo. Nossos passos ecoaram pelo grande salão: os meus pesados, os saltos de Cristina tilintando como uma contagem regressiva.

Lá em cima, o teto se estendia para sombras onde partículas de poeira dançavam nos últimos raios âmbar da luz do dia. Os retratos a óleo que adornavam as paredes eram um desfile de antepassados de Edith: homens severos com coletes que provavelmente ainda cheiravam a tabaco, mulheres com colares de pérolas apertados como cordas. Uma matriarca particularmente carrancuda pareceu seguir o decote de Cristina com olhos críticos.

O mordomo parou diante de uma porta de mogno entalhada.

- Ela tem estado...
peculiarcom as visitas. — o sussurro dela carregava o peso de um aviso, os nós dos dedos empalidecendo em volta do puxão de latão como se pudesse morder.

A madeira cheirava a óleo de limão e algo medicinal por baixo: talvez cânfora, ou o fantasma de receitas antigas.

O estilete da Cristina raspou o assoalho.

• Talvez a gente devesse…
46: Revisão Executiva (Parte 1 de 3)Bati duas vezes. Forte. O som ecoou pelo corredor como uma martelada. Em algum lugar mais fundo da casa, um cachorro pequeno latiu duas vezes em resposta. O mordomo estremeceu, sua fachada impecável rachando o suficiente pra revelar medo de verdade por baixo dela.

Uma pausa. Então…

> Que porra é essa? — a voz de Edith, cortante feito navalha.

Empurrei a porta sem esperar.

O cheiro de bergamota e café queimado tomava conta do cômodo, grudando nas cortinas pesadas de veludo e no tapete persa antigo debaixo dos nossos pés. Edith tava curvada sobre uma escrivaninha Luís XIV que provavelmente custava mais que meu salário anual, os dedos pontudos debaixo do queixo como se regesse uma orquestra invisível de reclamações. Atrás, janelões emolduravam a tempestade: relâmpagos se bifurcando no céu feito rachaduras em vidro, iluminando a teimosia dos ombros dela.
amiga com direitosCharles estava ao lado da lareira de mármore, as mangas da camisa, normalmente impecáveis, arregaçadas até revelar antebraços salpicados de pelos grisalhos. Olheiras roxas marcavam seu olhar, daquelas que contam noites inteiras convencendo a esposa a largar as planilhas e ir pra cama. Ele pegou meu olhar e soltou um suspiro pelo nariz… um pedido silencioso por reforço.

Edith não se virou. O abajur acentuava o ângulo afiado do seu queixo e como seu cabelo grisalho curto (normalmente penteado com precisão militar) agora tinha um topete rebelde perto da têmpora.

> Tô farta desses exames de saúde! – anunciou pro ar. A voz dela podia cortar vidro. – Se me perguntarem mais uma vez se tomei meu remédio...

- Não vou perguntar nada. – falei, avançando até que o perfume de bergamota de Edith abafasse os ecos de hospital. – Imagino que você esteja entediada, só passando o tempo aqui.

As costas dela enrijeceram. O silêncio se esticou… não vazio, mas pesado pelas jogadas de xadrez que a gente guardava em silêncio na cabeça. O relógio de pêndulo antigo no canto fez tique-taque três vezes antes de Edith girar a cadeira com uma lentidão calculada. Um relâmpago brilhou atrás dela, recortando o rosto dela em relevo marcado: os lábios finos apertados até ficarem brancos, o nariz empinado dilatando de leve. Os olhos claros dela não eram só afiados; estavam afiados de propósito.

Charles soltou um suspiro.
vadia peituda-> Finalmente! - A palavra saiu metade risada, metade soluço enquanto ela desabava numa poltrona que provavelmente custava mais que minha caminhonete. Os dedos dela cravaram nos braços da poltrona, o tecido estalando. - Três semanas! Três malditas semanas fingindo que durmo enquanto fico bolando planos de contingência mentalmente!

Edith girou a cadeira dela. Ver ela me bateu igual um soco: pálida, mais magra, mas com aquele mesmo olhar fulminante.

> Você tá um bagaço! – exclamou sem cerimônia, a voz áspera como lixa em madeira velha. A pulseira do hospital ainda agarrada no pulso dela, as bordas desfiadas de tanto mexer.
infidelidade consentidaEncolhi os ombros…
— Bom, você também não parece a Miss Universo… — respondi, me aproximando até que o perfume de bergamota dele se misturasse com o cheiro forte do antisséptico.

A mesa dele era um campo de batalha: comprimidos em blisters, um copo d’água meio vazio turvo de sedimentos, e por baixo de tudo, o brilho de um tablet que ainda exibia relatórios trimestrais.

Cristina abafou uma risada, o som estrangulado virando tosse quando o olhar de Edith se desviou para ela. A temperatura da sala caiu vários graus. Os dedos de Cristina, que estavam brincando com a barra do blazer, congelaram no meio do movimento. Os olhos de Edith (aquele tom particular de azul ártico) desceram pelo decote de Cristina, depois subiram de volta com a eficiência de um atirador confirmando um alvo.
colega de trabalhoOs dedos de Edith se crisparam em direção ao tablet antes de se conterem, esmagando a palma contra a mesa. As veias saltavam como cabos azuis sob sua pele fina.

> Você tem estado bem? — perguntou, com a voz enganosamente leve: o mesmo tom que usava antes de destruir alguém numa reunião de diretoria.

— Claro que sim! Por que não estaria bem? — respondi, me apoiando no globo terrestre antigo no canto.

Os meridianos de latão se cravaram na minha lombar, uma dor ancorada na realidade.
46: Revisão Executiva (Parte 1 de 3)Tanto Cristina quanto Charles me lançaram um olhar tenso. As unhas de Cristina cravaram na bolsa como se ela tentasse estrangular o couro. Charles limpou a garganta, o som ecoando nos decantadores de cristal alinhados no bar. Parecia que ele também sabia da minha saída do conselho…

Os dedos de Edith deslizaram até a taça de conhaque, as unhas dela (normalmente pintadas até um brilho mortal) agora lascadas nas bordas por semanas de movimento inquieto. O líquido âmbar capturou a luz da lareira, projetando reflexos dourados quebrados sobre os nós dos dedos dela.

> — Bem! — murmurou ela, embora a voz carregasse o peso de algo silencioso e secreto. — Tava preocupada que todo mundo tivesse se virado contra você.

Charles bufou na própria taça, o som abafado pelo vidro. O olhar dele desviou para Cristina, que tinha se sentado no braço de um sofá de brocado com a elegância ensaiada de alguém pronta pra fugir. O tecido rangeu sob o peso dela, protestando contra a intrusão repentina de curvas modernas na dignidade antiga.

> — Como ele está? — perguntou Edith, a voz cuidadosamente neutra.

A pergunta pairou entre nós como uma teia de aranha: transparente, irritante, mas inegável. Lá fora, um trovão ribombou, sacudindo os vidros nas molduras. Uma gota de condensação escorreu pelo copo intacto de Charles, traçando um caminho como uma lágrima.

Me recostei contra o globo, deixando o latão cravar mais fundo na minha espinha.

— Você tá falando do Reginald? — O nome tinha gosto de cinza. — Ele tá bem!

Uma mentira tão polida que o mordomo da Edith poderia ter lustrado…

— Mesma puta, guizo diferente…

Os dedos de Cristina se crisparam contra a coxa dela, as unhas impecáveis deixando meias-luas na seda da saia. O ar entre nós engrossou com tudo que não foi dito: os expurgos de poder do Reginald nos chefes de departamento, como ele tinha manipulado os contratos deles em um único dia pra moldá-los aos desejos dela, contratos que transformaram o resto do conselho em robôs zumbis. Os lábios dela se separaram, mas a risada seca da Edith cortou o ar antes que ela pudesse falar.

> É mesmo? - Os dedos da Edith tamborilaram sobre a mesa.

A lâmpada iluminou a pulseira do hospital ainda presa no pulso dela, as bordas desfiadas pela agitação nervosa. O olhar dela desviou pro Charles, que estava paralisado ao lado da lareira, o copo de uísque esquecido no meio do gole. Os cubos de gelo tilintaram suavemente enquanto a mão dele tremia.

- Na verdade, bem antes de você chegar, eu disse ao conselho que não precisávamos dele.

As palavras pairaram como fumaça depois de um tiro. O salto da Cristina escorregou no tapete persa com um chiado audível, o equilíbrio dela vacilando meio segundo antes de se agarrar no braço do sofá. As unhas dela cravaram no tecido com força suficiente pra fazer a madeira antiga gemer.

- Pois é, você nos ensinou bem! - respondi, observando o reflexo da Edith se distorcer na curva da taça de conhaque dela. A luz do fogo lambia as bordas, transformando o líquido em ouro derretido. - Graças a você, a gente sabe o que fazer... então eu disse pro resto do conselho que não precisávamos dele...

Deixei minhas palavras esculpirem um sorriso crescente e satisfeito na minha ex-chefe, pra depois dar o golpe final…

- Assim como não precisamos de você.

(Just like we don’t need you…)

O silêncio que veio não foi vazio… foi aquela pausa carregada entre o relâmpago e o trovão, densa com tudo que não foi dito. O copo de uísque do Charles escorregou dos dedos dele, o vidro se estilhaçando contra o mármore da lareira com um som de gelo quebrando. A respiração da Cristina prendeu, os dedos impecáveis dela voando pra garganta como se tivesse dado um tapa físico na Edith.
amiga com direitos— Mas e a Edith? Edith nem piscou. As pálpebras finas como papel nem se mexeram enquanto ela segurava meu olhar sobre o campo de batalha da mesa dela. O relógio de pêndulo marcou três tiques antes do canto da boca dela tremer: não um sorriso, mas o fantasma dele, como se ela tivesse provado algo inesperadamente satisfatório.

Os dedos de Edith relaxaram sobre a mesa, os nós dos dedos perdendo aquela tensão branca como osso. O ar no cômodo mudou: menos como a calma elétrica antes da tempestade, mais como a tranquilidade depois, quando você percebe que o pior já passou. Ela soltou o ar pelo nariz, um som tão suave que mal perturbou os grãos de poeira dançando na luz do abajur.

O que Cristina e Charles não entenderam foi que Edith e eu compartilhávamos algo diferente. Um humor negro que parece chocante pros outros. Diferente dos outros membros do conselho que alimentavam ela com elogios de colher de prata, ela reconhecia a verdade nas minhas palavras… até as mais brutais. Aquele último embate? Não era crueldade. Era a mesma segurança que ela vinha procurando entre os papéis. Entendimento. A certeza de que a diretoria dela (o mecanismo intrincado que ela construiu por décadas) não tinha desmoronado na ausência dela.

> — Valeu, Marco! — sussurrou Edith, a voz dela sem aquele fio de navalha de sempre, bem mais calma. O fantasma de um sorriso brilhou nos cantos dos lábios finos dela. — Tava realmente preocupada com isso!
vadia peitudaAtrás de mim, o salto da Cristina raspou o assoalho de novo… dessa vez por incredulidade. Quase dava pra ouvir os cálculos mentais dela: Como é que eu acabei de dizer pra Edith que ela não era necessária e ainda receber um agradecimento por isso?

Sorri calorosamente, mudando de assunto antes que Edith pudesse pensar demais naquela admissão.

— Bom, a Cristina tava me dizendo que você tem dado umas dores de cabeça pro Charles…

Charles reagiu como se estivesse esperando o sinal. Os ombros dele caíram como velas perdendo o vento, aquele brilho esperançoso nos olhos se apagando quando a rejeição da Edith acertou em cheio. Os dedos dele apertaram o copo de uísque (milagrosamente intacto apesar do tropeço anterior) até os nós dos dedos ficarem da cor do linho pálido da camisa dele.

— Pois é! — exclamou, a alegria forçada na voz tão transparente quanto a condensação escorrendo pelo copo. — Tô tentando convencer a Edith a ir velejar!

As palavras ficaram pairando entre eles como um salva-vidas jogado longe demais da praia.

Edith cruzou os braços em protesto.

— Não! Você só quer me tirar da cidade! — declarou, o lábio inferior projetado num bico que seria cômico em qualquer outra pessoa.

Na Edith, era como ver um navio de guerra tentando dançar: totalmente sem noção, mas estranhamente fascinante. As mangas de seda da blusa dela farfalharam com o movimento, o tecido esticado sobre os cotovelos ainda afiados.

— Além disso, é você que adora velejar!

— Mas claro!… — Charles não negou, o sorriso brilhando branco contra a barba grisalha.

O relógio de pêndulo marcou três tiques antes de Edith soltar um suspiro pelo nariz: um som como vapor escapando de uma válvula de pressão. O salto da Cristina tamborilou no tapete persa, os dedos dela torcendo a alça da bolsa até o couro chiar de protesto.

Charles avançou. Seus mocassins de couro rangendo como tábuas velhas.

-> Querido, o médico disse…

> Eu sei o que o médico disse
Maldito doutor.! - interrompeu Edith, seus nós dos dedos empalidecendo ao redor da taça de conhaque até que as facetas do cristal talhado ameaçaram rachar sob seu aperto.

Lá fora, um trovão rolou pela propriedade, sacudindo as janelas francesas em suas molduras douradas. Os pingentes de lágrima do lustre tremeram, projetando luz fragmentada sobre o perfil afiado de Edith: iluminando a teimosia de seu queixo, o jeito como suas narinas dilatavam a cada respiração controlada.

Me apoiei contra o batente da porta, braços cruzados.

- Você tá com medo!

A cabeça de Edith virou na minha direção. A acusação entre nós, afiada como o relâmpago que rachava o céu atrás dela. Cristina prendeu a respiração.

Charles abriu a boca… e a fechou com um estalo de dentes. O relógio de pêndulo marcou quatro tiques antes que os dedos de Edith se soltassem da taça de conhaque. Ela a colocou sobre a mesa com precisão deliberada, o cristal encontrando o mogno sem um som. Quando falou, sua voz estava mais suave do que eu jamais ouvira: não fraca, mas gasta, como couro polido por décadas de uso.

> Claro que eu tô com medo! - A voz de Edith rachou como gelo. Ela bateu o copo contra a escrivaninha; o líquido âmbar respingou em seus relatórios financeiros, se espalhando sobre as projeções trimestrais como uma mancha de tinta alcoólica. - Olha pra mim! A gente tá no meio de uma crise corporativa!

Sua pulseira de hospital prendeu na bandeja de clipes, sacudindo seu pulso com um barulho plástico que soou obscenamente alto no silêncio pesado.

Levantei as mãos… não em rendição, mas em exasperação. O movimento fez minha sombra pairar sobre a escrivaninha de Edith como um espectro corporativo.

- Beleza! Por que a gente não muda o foco? - O relógio de pêndulo marcou sete vezes antes de continuar. - Se navegar parece fuga…

Os dedos de Edith congelaram no ar, suas unhas suspensas sobre as planilhas manchadas de conhaque como um falcão reconsiderando seu bote. O copo de uísque de Charles parou no meio do caminho até seus lábios, os cubos de gelo tilintando suavemente… não pelo movimento, mas pela quietude repentina de sua mão. Até a agitação perpétua de Cristina cessou, a alça da bolsa abandonada no meio de uma torção enquanto os três rostos se viravam para mim com diferentes graus de interesse perplexo.

> Como é que é? - A voz de Edith tinha a precisão afiada de uma lâmina de guilhotina parando a milímetros do alvo.

A taça de conhaque parou no meio do caminho até os lábios de Edith.

> Se explica! – ordenou com sua antiga voz de comando da diretoria. Aquela única palavra poderia ter congelado magma.

- Por que vocês não transformam isso numa viagem de estrada? - sugeri, meu polegar já deslizando pelo celular. - Por que não exploram o interior australiano?

Charles engasgou com o uísque. As sobrancelhas de Edith subiram até a linha do cabelo, quase se fundindo com os franjados prateados que emolduravam sua testa. Ambos bufaram com desdém em perfeita sincronia, como um casal de velhos recusando um sushi ruim.

> Não, desculpa, Marco! - Charles enxugou a barba com um lenço com suas iniciais. - Mas nem eu nem Charlie somos mais pintinhos.

Os lábios de Edith se franziram.

> A última vez que dormi em algo que não fosse uma suíte cinco estrelas, o Menzies ainda era primeiro-ministro…

Seus dedos se esticaram para o tablet novamente, a luz azul projetando sombras espectrais sob seus olhos.

- Ah, mas é aí que tá a sacada... - Girei meu celular na direção deles. A tela mostrava um mapa da Austrália salpicado de pontos carmesim: cada site de mineração sob o império de Edith. Os pontos pulsavam como monitores de batimento cardíaco. - Você quer vigiar a empresa, né?

Os pontos latejavam como incêndios distantes, cada um marcando um lugar onde o império da Edith extraía minerais da terra. O brilho da tela projetava sombras irregulares no rosto dela, acentuando os novos buracos sob suas maçãs do rosto. Os dedos dela pairavam sobre a taça de conhaque, as bordas descascadas do esmalte das unhas (normalmente impecável) pegando a luz. Lá fora, a chuva se intensificou, batendo nos vitrais como dedos impacientes exigindo entrada.

- Aqui estão os locais de mineração da nossa empresa! - Apresentei com orgulho, girando o telefone para que a luz iluminasse cada alfinete pulsante como um farol de alerta. - Se quiserem, podem visitá-los. Nos ajudariam pra caralho, saca? Assim que eu disser aos gerentes de obra que tem uma CEO corporativa solta, vagando entre as gostosas... (Fiz uma pausa só para os olhos da Edith se apertarem de entendimento) a maioria vai lembrar de repente de todos os protocolos de segurança que ignoraram.
infidelidade consentidaA risada de Charles foi seca, o copo de uísque balançando perigosamente enquanto ele se inclinava pra frente.

→ Tá sugerindo que a gente transforme a convalescença dela num terror corporativo? - O polegar dele traçou a borda do copo, borrando a condensação igual criança testando os limites.

A luz da lareira pegou os fios prateados na barba dele, deixando-os em chamas.

Cristina bufou na bolsa de mão, os ombros tremendo com uma risada abafada que fez a seda chiar. O salto dela marcou um ritmo doido no tapete persa: metade diversão, metade incredulidade. O som atraiu o olhar de Edith igual predador seguindo a presa, mas, pela primeira vez, Cristina não se encolheu sob aquele escrutínio gelado.

Ampliei o mapa até os pontos carmesim virarem uma constelação de ameaças corporativas.

→ Pensem! Os gerentes de site tão acomodados. Metade não recebe uma inspeção surpresa desde os anos 90. - O brilho da tela aprofundou as olheiras de Edith enquanto ela se aproximava. - Mas os boatos... esses se espalham mais rápido que vazamento de gás.

A sobrancelha de Edith tremeu... quase imperceptível. Os dedos dela, ainda pairando sobre a taça de conhaque, voaram de volta pro tablet antes de se fecharem num punho. Charles soltou o ar pelo nariz, largando o copo com um tilintar que ecoou na lareira de mármore.

→ Cê tá sugerindo que a gente forje a reputação da Edith? - ele bufou de novo, incrédulo, coçando a barba.

Os fios prateados pegaram a luz do fogo, dando a ele um ar momentâneo de pirata pensando num motim.

O relógio de pêndulo bateu. Quatro vezes. Depois...

> Qual deles primeiro?

A voz de Edith era calma, mas os olhos dela queimavam. Ela se inclinou pra frente, a luz do abajur esculpindo sombras sob as maçãs do rosto onde o peso tinha sumido durante a convalescença. O dedo dela pairou sobre a tela do meu celular. Essa. Tremeu levemente sob o toque dele, ou talvez fosse a mão dele.

Eu ri.

- Não sei! É sua escolha! Mas eu evitaria a área central. Não é tão ruim quanto no inverno, mas também não é divertido ficar preso no meio do nada e passar a noite no frio. - Sorri, contente em ver um brilho novo nos olhos de Edith enquanto ela estudava o mapa com a concentração de um general planejando uma invasão. - Além disso, (adicionei, tocando a tela onde três alfinetes se agrupavam como estrelas vermelhas), se você já viu um garimpo, já viu todos.

Charles soltou um som entre a tosse e a risada, disfarçando rapidamente com um gole de uísque que não escondeu a diversão dele. As narinas de Edith se alargaram (só um pouco), mas os dedos dela continuaram traçando rotas no mapa digital com precisão de predadora. Essa era a Edith: ofendida pela sugestão de que qualquer parte do império dela pudesse ser comum, mas já calculando como desmontar essa mesma percepção.

Nos despedimos deles: Charles, com um aperto de mão firme que se prolongou só o suficiente pra transmitir gratidão; Edith, com um aceno distraído enquanto confiscava meu celular pra mandar as coordenadas pra ela. A porta pesada de carvalho se fechou atrás da gente com a finalidade de um cofre se selando.

- Ela nem falou comigo! - O salto de Cristina bateu nos degraus de mármore com mais força do que o necessário enquanto descíamos o alpendre da Edith.

A chuva tinha diminuído, deixando o ar pesado com cheiro de eucalipto molhado e o gosto distante de ozônio de tempestades se dissipando.

Segurei o cotovelo dela quando ela hesitou nos paralelepípedos irregulares.

- Ah, mas ela sabia que você estava ali!

O movimento me aproximou o suficiente pra sentir os vestígios do perfume da Edith na jaqueta de Cristina, misturados com algo mais forte: baunilha e sal, como uma tequila cara.

Já dentro da cabine da minha caminhonete e com o cinto afivelado, me inclinei sobre Cristina e beijei a lábios suavemente… sem exigência, só presença. Os lábios dela tinham um gosto leve do Earl Grey caro da Edith e algo mais afiado por baixo, talvez o fantasma do espresso daquela manhã. Ela não resistiu. Os dedos dela se enroscaram na gola da minha camisa, me puxando até a alavanca de câmbio cravar na minha coxa.
colega de trabalhoA cabine cheirava a couro molhado pela chuva e ao aromatizador de pinho pendurado no retrovisor. A respiração de Cristina falhou quando eu me afastei, o peito dela subindo bruscamente sob aquela blusa decotada que desafiava perigos...Próximo post


1 comentários - 46: Revisão Executiva (Parte 1 de 3)

RosoUno +1
Gran capítulo, me encantan los dibujos de los personajes
Irónicamente, es la parte más engorrosa: tienes que alimentar los prompts y revisar que la AI no saque muchas imágenes raras. Pero la verdad, ya no puedo volver al formato anterior de solamente texto y es algo que me incomoda, porque todavía no he cambiado al nuevo formato algunas historias. Pero gracias por comentar.
RosoUno +1
Por mi propia experiencia se lo complicado que es trabajar con ia's y pretender que mantengan las caras y otras características de los personajes.
Pues lo más molesto para mí ha sido que la AI no cuenta bien dedos en escenas hot y como soy un poco obsesivo compulsivo, debo botar algunas que gráficamente se aprecian perfectas, pero el detalle las delata.