O Jogo da Porta - Parte 9 (final)

De tão estressada e mal que eu estava, dormi pra caralho. Ouvi o despertador, mas dei um tapa nele e continuei dormindo. O que me acordou, não sei como, essas coisas que acontecem, foi o som de batidinhas suaves na porta de casa. Não era a campainha da rua, estavam batendo na porta. E não sei como consegui ouvir, mas ouvi e acordei. Na correria, pensando que não podia ser o Ariel já que ele tinha chave, peguei uma camiseta e uma calça de moletom assim mesmo e fui até a porta.

"Quem é?", perguntei baixinho.
“Sim, Leonardo…”Ouvi a voz do outro lado. Ah, Leo. Meu vizinho aposentado. Não era estranho que de vez em quando ele batesse na minha porta por alguma coisa, ou que eu batesse na dele. Já fazia uns dois anos que a gente morava ali. Às vezes a gente se via no corredor e sempre, desde que me lembro, ele me pareceu um cara super gente boa, era um amor. Sempre me dava um sorriso, sempre cumprimentava direitinho, era muito cavalheiro e ficava puxando papo, mas de boa. Nada chato, sempre era um prazer e ele me arrancava uma risada com alguma piada. Ele morava com a mulher em outro dos PH, uma véia que não podia ser mais amarga e ranzinza. Sempre vestida de preto, como se todo dia tivesse morrido alguém, e quando a gente se cruzava, ela quase nem cumprimentava. Sempre com cara de cu. Permanente. E quando eu saía pra comprar alguma coisa ou fazer qualquer coisa, o único barulho que eu ouvia, não importava a hora do dia que eu passava, era o som alto da TV no PH deles, com a véia vendo novela o tempo todo. Sempre achei curioso e chamativo o contraste entre o Leonardo e a mulher, e nunca tinha conseguido explicar. Abri a porta e vi ele. Estava ali, me dando um sorriso suave, com a boa energia que parecia irradiar sempre. “Oi, Trini… uh… te acordei?”, ele disse. “Não… não”, menti enquanto esfregava um pouco a bochecha e o olho. Tava com muito sono ainda e ele só sorriu. “Que foi…” “Nada”, ele falou. “Desculpa a interrupção, espero que não te incomode, mas vim ver como você tava… se tava bem, sabe…” Fiquei estranhando no começo, não tava pegando, mas caiu a ficha rápido. A briga que tive com o Ariel ontem à noite deve ter sido mais alta do que eu pensava. Eu não percebi, toda enfiada na discussão, mas o que deve ter sido… “Ah… uh, sim… desculpa, Leonardo… É, ontem à noite foi complicado, mas tá tudo bem… perdoa se a gente te acordou…” Ele deu uma risada. “Não, nada a ver, não me acordou. Mas fiquei preocupado, sabe. Vocês não são de brigar e, pra falar a verdade, tava bem alto.” “Sim, claro… desculpa…”, eu falei. “Quase liguei para a polícia", ele disse, e eu fiquei surpresa. Tínhamos brigado tão feio assim? "Pensei que podia ter sido um caso de violência, sabe…"

Eu olhei pra ele. Deu uma ternura que um vizinho tivesse tido a delicadeza de pensar isso e querer me cuidar assim. "Ah… ah, Leo, não, muito obrigada. Mas eu tô bem… agradeço mesmo você ter pensado…"

Ele fez um gestinho com a mão. "Nem fala, Trini. Fico feliz que você esteja bem."

Eu sorri. "Muito obrigada, Leo. De verdade, você é muito gentil."

"Claro", ele sorriu docemente.

"É… a verdade é que ontem à noite… sim, foi bem pesado. A gente meio que perdeu a mão…", eu disse, e me peguei querendo contar. Eu sempre tentei ser bem reservada com minhas coisas, ainda mais umas vergonhas assim, mas o sorriso do velho e a boa vibe dele meio que me desarmaram. Me acalmou e me deixou bem, a fim de conversar, mesmo eu tendo acabado de acordar.

"Acontece, acontece às vezes… fica tranquila, se não foi o problema que eu falei… então tá tudo bem, tudo se resolve. Sabe as brigas que eu tinha com a Estela às vezes! Hahahaha…", ele riu sozinho, e eu sorri.

"É, fica tranquilo que não tem nada a ver, foi só uma discussão", sorri pra ele.

"Bom, perfeito, quando eu ver o Ariel também vou falar… tem que se acalmar, eu… Tudo se resolve na vida…", ele riu de novo.

Se me perguntam agora, não sei por que eu contei. Não sei. Era a confiança que ele me passava, não sei. O cara me deu uma segurança… um calor… "Eh… bom… a verdade é que não sei se você vai ver ele de novo…"

Aí a cara dele mudou, ficou sério de repente. "Ah, não me diz, Trini… não… não, sinto muito…"

"Bah, não sei, sei lá…", encolhi os ombros. "Só tava comentando…"

Ele sorriu suave e me olhou ainda mais suave, com ternura no olhar. "Bom… como eu disse, tudo se resolve. Escuta, qualquer coisa… mas sério, qualquer coisa que precisar, me avisa, hein? Bate na minha porta, não tem problema nenhum."

"Ai, Leo, muito obrigada… em Sério…”, eu sorri, concordei com a cabeça e nos despedimos muito amigavelmente. Ele me deu, como eu disse, uma sensação de ternura e me senti bem por um vizinho querer cuidar de mim assim. Quando voltei para casa, me peguei sorrindo suavemente sozinha, nem sabia por quê, enquanto me preparava para começar o dia. Aquela conversa inesperada tinha me feito bem.

Não haviam passado vinte minutos quando senti alguém batendo de leve na porta de novo, o que achei muito estranho. Quando abri, era o Leonardo de novo. Ele só sorria e me estendeu um pacotinho que tinha na mão. Reconheci na hora, estava embrulhado no papel da padaria da esquina.

“Toma, pra você. Assim você tem algo gostoso pra acompanhar o café da manhã…”

“Ai, Leo… obrigada, eu….”

Não sei o que deu em mim. Naquele momento, não sei o que aconteceu. Me deu tanta felicidade, tanta ternura que o cara teve essa atenção comigo, sem querer nada em troca. E eu vinha tão estressada de ontem, de vários dias, com as brigas e discussões… não pude evitar e me quebrei um pouquinho. As lágrimas não chegaram a cair de novo. Queriam sair, mas eu segurei. Soltei um soluço baixinho sem querer e esfreguei o nariz.

“… o-obrigada, Leo… você é muito gentil… obrigada, de verdade…”

O Leonardo me olhou meio sério, “Opa… opa, gata, que foi? Tá bem?”

Eu concordei com a cabeça e olhei pra ele. Naquele momento, senti que não queria fazer outra coisa e simplesmente saiu. Saiu natural, saiu bem, saiu necessário. Desenhei um sorriso suave e abri a porta, “… quer entrar? Faço um cafezinho pra você… é o mínimo que posso fazer…”

O Leonardo deve ter visto que eu realmente precisava de companhia e conversar com alguém. Ele captou na hora e sorriu suavemente, “Bom, vamos lá… claro, se não for te atrapalhar…”

Eu sorri, “Nada a ver, entra, vamos… obrigada…”

Às vezes as coisas acontecem por um motivo. Aquelas duas horas que o Leonardo ficou em casa e nos sentamos na mesinha da cozinha, tomando café, comendo croissants, conversando sob o solzinho suave da manhã que entrava preguiçoso pela janela… essas duas horas me mudaram minha vida.

Ariel apareceu de novo dois dias depois. Chegou com o carro que o amigo tinha emprestado e várias bolsas. Veio terminar comigo e pegar as coisas dele. Tivemos outra discussão, também bem tensa, mas que nem de longe chegou aos níveis de volume da outra. Eu estava mais triste do que brava. Ele estava seco que nem um deserto, e me tratou do mesmo jeito. Desdenhoso e frio. Ele me disse duas ou três coisas, sobre assuntos muito íntimos que ele sabia de mim. Coisas muito doloridas que me machucaram muito e me deixaram muito mal. Coisas que não precisava dizer. Coisas de gente ruim de dizer.

Ao ir embora, ele jogou as chaves da casa na mesa da sala e as deixou ali. E assim foi embora. Me deixando com o PH... e eu quase sem grana e sem uma renda. Me pegou uma depressão muito forte naquela hora. Aquele momento de desespero em que todos os pratos que você tá fazendo malabarismo caem, todos de uma vez no chão e você não sabe qual tentar segurar primeiro.

Quando me recompus, liguei pra minha mãe e contei tudo. Por sorte, me passaram um pouco de grana com meu velho, pra ir me virando pelo menos naquele mês com as despesas básicas. Também liguei pra Roxy e ela me transferiu um pouco de dinheiro. Não só isso, como ela veio ficar comigo em casa dois ou três dias, pra eu não ficar sozinha e pra me ajudar com o que fosse. E não só isso, como ela me disse que ia tentar me fazer entrar na empresa onde ela tava, assim eu poderia começar a trabalhar remoto de casa.

Como eu amo minha Roxy.

Enquanto Roxy tava em casa, uma noite ela me disse pra tentar mandar mensagem de novo pro Mateo. Evidentemente eu tinha ficado a fim dele e por que não tentar? Se a gente tinha se curtido e agora com o Ariel que já não tava mais... quem sabe? Eu não sabia se fazia, tinha passado um tempo, mas no final me decidi e fiz.

Mateo basicamente me respondeu que obrigado, mas não obrigado. Me desejou o melhor, mas disse que realmente não queria me ver nem começar nada. Que ele tava com outras coisas. Ele me mandou um beijo pelo chat e essa foi a última vez que falei com ele. Eu me senti pior. A Roxy, depois de pensar um pouco, me disse o que achava, que provavelmente era verdade.

O Mateo, quando me conheceu, óbvio que gostou de mim, isso nem se discute. Mas ele queria uma namorada, uma mina normal… e eu, que fiz? Como uma idiota e uma tarada, só mostrei pra ele a putinha e a doida, que deixava tirar fotos praticando sexo oral. Uma maluca que não tinha nenhum problema em trair o namorado com um cara que tinha acabado de conhecer… e se podia fazer isso com o Ariel, por que não faria com ele depois, igualmente fácil?

E a verdade é que a Roxy tinha acertado em cheio. O que ela disse fazia muito sentido. Coitado do Mateo, e que otária eu fui.

Foi por causa do Mateo, e por outros motivos também, que eu e a Roxy decidimos ali que o jogo da porta tinha que acabar. Chega, já deu. As duas se divertiram, enquanto durou, mas nenhuma das duas soube lidar direito com aquilo. Nada a reclamar no aspecto sexual, mas trouxe muitas, muitas complicações. Só parabenizei ela por ter ganhado e ela me fez cozinhar um jantar da vitória naquela noite porque, segundo ela, tinha literalmente se matado pra me vencer.

E pra mim, a verdade é que foi um alívio ter acabado com o jogo. Com a situação da minha vida já tão complicada, eu não precisava desse tipo de tempero extra.

Também acho que tenho que contar pra vocês o mais importante de tudo isso, que é o que tem a ver com o Leonardo. Acho que isso ficou pendente. Que bobagem ficar guardando isso.

Eu disse que aquela conversa que tivemos quando tomamos café da manhã naquela manhã acabou mudando minha vida. Durante aquele café, conversamos sobre tudo. Tudo que tinha acontecido comigo, tudo que poderia acontecer, e assim começamos a nos conhecer. Aos poucos. Começamos a nos encontrar em casa, ele começou a vir sempre pra me fazer companhia, pra tomar cafés ou mates intermináveis, ou ficava depois de… fazer uns favores pra mim, mesmo que eu ficasse com vergonha dele fazer. Ele se oferecia de boa vontade.

Percebi que o Leonardo era um cara realmente fascinante. Pô, pelo menos pra mim ele acabou me fascinando. E quanto mais ele me contava sobre ele e mais tempo eu passava com ele, mais bem ele me fazia sentir e mais interessada eu ficava.

Ele já tinha 70 anos, mas muito bem vividos e era um cara muito experiente, muito viajado. Experimentado, essa é a palavra exata. Mas enquanto outros homens usam essa experiência de anos pra endurecer a pele e ficar mais distantes, mais secos, o Leonardo era totalmente o contrário. Ele tinha sido meio hippie quando jovem, durante os anos 70, e sempre andou meio metido na onda do rock nacional daquela época.

Olhava pra ele e, sinceramente, não parecia nada. Tinha mudado muito. Tava ali esse cara grisalho, já aposentado, mas com o cabelo curto e bem arrumado. Não conseguia imaginar ele de cabelão e chapado, até que uma vez ele me mostrou, se cagando de rir, umas fotos antigas dele e eu não conseguia acreditar. Ali estavam os olhos azuis inconfundíveis do Leonardo, mas me encarando de tanto tempo atrás e quase escondidos sob uma juba longa e preta. Era uma foto em grupo com outros caras e minas, pareciam ter uns vinte e poucos anos. Ele me disse que tiraram essa foto nas serras de Córdoba, quando foram fazer um acampamento pela paz.

Eu sorri olhando a foto e perguntei quem eram os outros. Ele disse que eram amigos e amigas, alguns do colégio, outros assim da vida ou do meio. Quando joguei no ar o que teria acontecido com toda essa galera, ele me disse com naturalidade, sem nenhum tipo de tristeza, "Ah... quase todos morreram. De uma coisa ou de outra. E outros se perderam pelo caminho. O que a gente pode fazer...". A filosofia e o jeito de ser do Leonardo me encantavam. Pra ele tudo era experiência, não tinha espaço pra julgamento. Cada um tinha seu próprio caminho e o direito de experimentar como fosse, como a vida fosse dando. Tudo na vida era experiência pra aprender, não pra julgar.

Ele tinha sido segurança do Palito. Ortega e de Baglietto, ele me contou, e conheceu Spinetta, Charly, Billy Bond e Pappo. Quando meio que se cansou um pouco da cena do rock, lá pro final da ditadura, nesses últimos anos, ele começou a viajar de mochila. Assim conheceu, ele me disse, desde Ushuaia até Bogotá. Viu as cataratas, Machu Picchu, o sol se pôr cedo atrás da cordilheira em Mendoza… o Amazonas fluindo suave e potente pela manhã, junto com os sons dos canoeiros gritando coisas enquanto ele observava da margem… Esteve também na Jamaica e em Cuba.

Eu olhava para ele extasiada enquanto ele contava tudo isso, ele tinha um jeito de contar as coisas que fazia você se sentir lá, porque ele se lembrava de todos os detalhes e ainda por cima eram detalhes lindos. Ouvir ele te transportava de verdade. Eu viajava com ele, perdida com um sorriso nas palavras dele. E ele não tinha mil histórias, parecia ter um milhão.

Quando já sentiu que tinha viajado bastante, em meados dos anos 80 ele voltou e com um amigo abriu um negócio de venda de instrumentos musicais. Ele me disse que tinha dado uma grana boa até que veio a hiperinflação e tudo desandou no país. Já tinha conhecido a Estela, ele me contou, e já tinham se casado. Quando o negócio faliu, ele decidiu ir para o Chile e começar de novo lá. Teve a sorte, depois de vários anos, de montar um empreendimento de importação de computadores. E muitos anos mais tarde, de celulares e acessórios, bem na hora que começou o boom dos celulares, com o iPhone e tudo mais, e ele encheu o bolso. Mas encheu o bolso pra caralho. Ele não me contou isso se gabando, de jeito nenhum. Pra ele era só mais uma informação.

Depois ele voltou para Buenos Aires, que foi quando comprou esse PH onde morava. Levou uma parte bem grande do que lhe cabia do negócio dos celulares e deixou a empresa para os outros sócios, incluindo também os funcionários que tinha. E aí se aposentou. E desde então vivia ali, tranquilo, com a mulher, aproveitando os anos que a vida ia decidir que ele tivesse.

Eu o Eu observava. Ele parecia super saudável para um cara da idade dele. Na verdade, a única coisa que denunciava a idade, se você reparasse, eram só as rugas na pele e o cabelo totalmente grisalho. E, claro, o mundo de experiência que ele carregava suavemente naquele olhos azuis, doces e amorosos. Eu nem precisava ter visto as fotos que ele às vezes me mostrava, dava pra perceber que ele tinha sido bem, mas bem gostoso quando jovem. Dava pra ver na forma como ele tinha envelhecido, bem e mantendo aquele rosto alegre e atraente, e no jeito como ele se comportava o tempo todo. Com segurança, com confiança, mas também com calor e compreensão. Não era só um prazer pra mim ouvi-lo, com a calma e paz que ele me transmitia. Também era um prazer perceber como ele me ouvia quando eu falava, prestando atenção em tudo que eu dizia, até nas piadas, e sorrindo suave pra mim, ouvindo, entendendo, e sempre me devolvendo algo doce e sábio que eu não esperava e que no fim me ajudava.

Uma vez, entre risadas, eu soltei algo tipo "nossa, o tanto que você deve ter pego quando era jovem, com essa aparência que dá pra ver nas fotos". Ele caiu na risada e só me disse que tava empatado com a vida nessa área: ele não podia reclamar, mas também nunca tinha recebido reclamações. Nós dois rimos.

No entanto, uma vez ele me deixou brava. Um dia voltei pra casa depois de fazer as compras e encontrei um envelope deslizado por baixo da porta. Quando abri, tinha um cheque. Não vou dizer de quanto, não importa, mas era o suficiente pra eu não me preocupar com nada pelo resto do mês, pelo menos. E quando vi quem era o assinante, a raiva subiu.

Fui imediatamente com o envelope na mão bater na porta do Leonardo. Quem atendeu foi a esposa amargurada dele, perguntei por ele e rapidinho ele veio à porta, já sorrindo. Eu estava séria e estendi o envelope pra ele pegar. Ele não pegou, ficou me olhando e sorrindo. Eu disse que agradecia, mas primeiro que era muito e que depois me dava vergonha receber caridade assim. Que eu já estava procurando emprego, que logo ia conseguir. E que eu ia me virar sozinha, como tinha que ser, e que ele não precisava me ajudar e muito menos me ajudar assim e com tanto. E que eu não precisava de blá. E blá blá blá...

Ele só sorriu. Quando terminei meu discurso, simplesmente disse: "Você tem razão, Trini", e concordou com a cabeça.

"Ah, okay, viu que tenho razão...", respondi satisfeita.

"Sim, mas me diz com a mão no coração que você não precisa...", ele me olhou direto nos olhos, "Me diz sério, sem mentir, que realmente não precisa e eu aceito de volta. Sem drama."

Nos olhamos e eu fiquei emocionada que nem uma garota besta. Para que ele não visse as lágrimas que já estavam transbordando, eu o abracei. E ele fez o mesmo, me segurando firme e ao mesmo tempo suave em seus braços, ali na porta da casa dele, me dizendo que tudo ia ficar bem, que eu não me preocupasse.

Foi a primeira vez na minha vida, eu juro, que quando alguém me disse que tudo ia ficar bem e que eu não me preocupasse, eu acreditei.

Começamos a nos ver e a ficar juntos com mais frequência. Muito mais frequência. Dia sim, dia não, ou a cada dois dias ele vinha em casa e trazia algo para comer ou para beber. Eu adorava estar acompanhada por ele, às vezes a tarde toda até a hora do jantar. Conversando, rindo, passando o tempo, ele me ajudava com coisas da casa... Uma vez perguntei se a mulher não ia ficar brava que ele passava tanto tempo comigo.

Ele só riu como sempre fazia, quando a gente falava de algo que parecia importante mas que pra ele não era e simplesmente escorria. "Já estamos separados os dois, Trini... imagina se ela vai fazer escândalo por isso."

Até que, claro, o que tinha que acontecer finalmente aconteceu. Nunca mais esqueço aquela tarde. Nós dois tínhamos sentado no sofá e ele tinha trazido um vinho dos que tinha em casa. Eu não tinha, nem tenho, ideia sobre vinhos. Mas estava uma delícia. Suave e com um gosto muito gostoso. Já tinha escurecido e estava aquela penumbra linda do final de tarde. noite lá fora. A gente ficou conversando ali no sofá, como sempre. Eu tinha pego o controle da TV e ele, pra me mostrar a música que ele gostava, da época em que era jovem e que eu não conhecia, ia falando das músicas ou artistas e a gente ficou ali, conversando e curtindo o vinho e a música. Algumas coisas não me pegaram muito, mas outras daquela época eu adorei e achei lindas. E claro, ele sabia pra caralho de música.

Lembro que a gente vinha de uma fase ouvindo muito Carly Simon e Fleetwood Mac. E agora a gente tinha mudado pra James Taylor. Foi um momento lindo. Não quero dar muitos detalhes, porque até hoje eu me lembro e não sei se quero compartilhar. É muito íntimo pra mim, por tudo o que significou com o que veio depois.

Mas a gente estava ali, os dois no sofá. Confortáveis, ouvindo uma música bonita e suave. Tomando um vinho gostoso e conversando. Até que eu me recostei um pouco no encosto do sofá, virando pra olhar pra ele enquanto ele estava me falando algo sobre a música que estava tocando. E nossos olhares se encontraram em silêncio. E como tinha feito aquela vez aquele técnico que veio consertar o cabo, minha primeira indiscrição nesse jogo da porta, como essas coisas que a vida te dá às vezes, Leonardo fez a mesma coisa. Me olhou, vi que ele se perdeu nos meus olhos e com a mão suave, em silêncio, afastou um pouco meu cabelo comprido do rosto. A gente sorriu, um pouco envergonhados e um pouco cúmplices, e logo eu me aproximei suavemente e a gente começou a se beijar.

Aqui eu quero parar. Quero que o resto seja só meu e espero que entendam. Não faço isso pra me fazer de misteriosa ou pra gerar intriga, não. Tudo o que contei até agora dos outros homens com quem fiquei, falando de paus e tudo mais, com o Leonardo não vou fazer porque isso é meu. Não é de vocês. Paro aqui e faço isso porque naquele momento foi quando encontrei o homem que amo. Que amo com toda a minha vida, com todo o meu ser. O que me faz sentir bem, nem mais nem menos. Às vezes acontece e não tem muito preâmbulo, não precisa correr rios e rios de tinta pra explicar. Naquele momento eu me apaixonei, loucamente, pelo Leonardo. E ele por mim. Não tem nada pra explicar. Tentar explicar era como tentar explicar por que a água molha.

Leonardo levou meses pra se divorciar da mulher. Meses que foram pra nós dois às vezes melhores e às vezes piores, mas sempre bons. Eu, por sorte, já tinha finalmente conseguido trabalho, estava tudo melhor e mais estável na minha vida. Quando terminou a separação dele (e toda a história da separação da Estela, essa sim é outra história longa com capítulos como este, que não vem ao caso agora), Leonardo vendeu seu PH e se mudou pro meu, e assim começamos a viver juntos. Com o que ele tirou da sua parte da venda, mais um pouco de grana que já tinha, no ano seguinte ele comprou o PH onde estávamos e resolvemos assim a questão do aluguel.

Perguntei se ele não tinha exagerado um pouco com a questão da grana e da compra do PH. Se não tinha gasto toda a grana nisso. E de certa forma, em mim. Ele só sorriu. E não tocou mais no assunto.

Tive que me acostumar, sim. Reconheço que fiquei várias semanas, no começo do nosso relacionamento, juntos como casal, vivendo sob o mesmo teto, até que esse novo vestido me servisse. Por mais bobo que pudesse soar, eu ficava com vergonha às vezes quando saíamos ou íamos a algum lugar, que claro, todo mundo olhava ou achava que eu era a filha. Ou a putinha que o velho tinha pegado, se eu me arrumava muito. Isso me deixava muito complexada. A Roxy dizia que eu era uma otária por pensar isso, mas não tinha jeito. Me deixava mal.

Até uma noite que a gente tinha acabado de fazer amor docemente com meu velhinho. Estávamos na nossa cama e eu montada em cima dele. Já sem me penetrar, só sentada de cavalinho sobre ele. Enquanto ele me olhava suave e suas mãos percorriam minha pele, acariciando sua menina. Aí foi quando me... Finalmente me senti com vontade e contei pra ele. Do que eu achava sobre como nos víamos, do quanto eu realmente era insegura, do que as pessoas iam dizer...

"Você me quer?", ele me perguntou.
"...Eu te amo...", eu disse suavemente, olhando firme pra ele.
"E eu te adoro...", ele disse com aquele sorriso matador dele. Do nada, ele fez um gesto com as mãos que me assustou, como um passe de mágica na frente dos olhos, como um mágico revelando um truque. "Puffff!", ele disse e riu, "... e todo o resto não importa."

A puta que o pariu, que homem lindo, quero chorar.

Quando contei pra Roxy que tinha começado a sair com o Leonardo e, pior, quando confessei o quanto estava apaixonada, ela começou a me zoar de cima a baixo, como ela é. Encheu meus chats de foto de velhinhos. Me mandou foto de bengalas. Disse que já nos via passando o verão em Chapadmalal ou algum lugar assim. Me mandou links daqueles sites que anunciam Viagra barato. Filha da puta, como ela me fazia rir.

Mas a música mudou na noite em que convidei ela pra jantar em casa, pra que finalmente conhecesse ele pessoalmente. Eu ainda não tinha mandado nenhuma foto do Leonardo pra Roxy. Nada. Nos divertimos muito. E essa otária em dez minutos já tava toda babando pelo Leonardo, os dois conversando como se se conhecessem a vida toda. Já tinham virado comparsas, na maior sintonia. E eu já via nela, por trás dos olhinhos, como o Leonardo tava mexendo com todos os seus parafusos, sem fazer nada, só sendo ele mesmo, como tinha feito comigo. E a Roxy se mijava de rir toda vez que ouvia ele falar e ficava toda derretida, sorrindo pra ele. Eu morria de rir.

A muito trouxa às vezes ia pra cozinha, nos deixando sentados à mesa, e da cozinha fazia caretas pra mim. Falava sem emitir som e eu, lendo seus lábios, via a cara de espanto que ela fazia pra mim, fora da vista do Leonardo, me dizendo em silêncio...
... viadinhooooooo….e ele fazia gestos nojentos com a mão e a língua dentro da boca, imitando uma chupada de pau.

E eu morria de rir. Era exatamente o que eu estava precisando. A felicidade de poder rir, e a paz que o Leonardo me dava, me fazendo sentir amada. Adoro satisfazer meu homem, meu velhinho lindo, meu Leo, porque só quero retribuir tudo que ele me proporciona, corpo e alma. Sim, claro que a diferença de idade existe e não vai sumir. Ele tem mais de quarenta anos que eu. E dá pra ver, visivelmente. Mas não dá pra perceber quando estamos nos amando, e fazemos isso com bastante frequência. Vocês já sabem tudo que eu fiz, contei nessa história, mas com o Leonardo era diferente. Era um fogo lento que me cozinhava por inteira. Nunca antes um homem me tinha satisfeito assim, desse jeito. Suave e forte ao mesmo tempo. Ele sabia muito, mas muito bem como satisfazer uma mulher e fazê-la se sentir desejada e amada, seja toda arrumada, bem sexy pra ele na intimidade do nosso quarto… ou de calça de moletom e pantufas na cozinha.

A Roxy acabou conhecendo um magricela e a tonta acabou ficando grávida. Digo "a tonta" porque é o que se diz, mas na verdade não. Ela quis ter, eles quiseram ter. Não são casados nem nada. O cara se chama Alan. Coitado, é um bagulhão, mas é bonzinho. Vai saber por quê, mas a Roxy o adora. Morre por ele. Não foi fácil porque minha Roxy teve uma gravidez muito, muito complicada, mas por sorte conseguiu levar até o final. E agora eu fico que nem uma idiota babona do caralho quando nos fins de semana eles aparecem e trazem nosso sobrinho, o Lucas. Babeio por ele. Morro, morro, morro pelo lindo do meu sobrinho. E o Leonardo também… põe ele no colo, brincam, fica falando com ele o tempo todo…

Com a Roxy a gente se olha às vezes enquanto nossos dois homens, tão, mas tão diferentes, estão ali em casa. O Leonardo com o Luquinhas no colo, explicando pro Alan como se deve viver a vida, e o Alan escuta e concorda. Que bagulhinho… mas a gente gosta dele. Tomara que o Alan escute mesmo que seja uma fração do que o Leonardo sempre diz pra ela. Enche ela de lições.

E eu só desejo, vendo eles assim, que se eu tiver espaço pra pedir mais um milagrinho na minha vida, só um e não peço mais nada, que um dia eu possa ver o Leonardo sentado ali, segurando o nosso. Nosso milagrinho.

Do jogo da porta? Não sei mais o que posso contar pra vocês. Joguei, me diverti no começo e depois ficou muito complicado. Mas dessa complicação nasceu essa felicidade que carrego comigo e não vai embora. Muito tempo depois de ter ficado com o Leonardo, quando já tinha confiança absoluta nele, numa noite que estávamos tendo uma daquelas nossas conversas longas e lindas… eu contei. Contei o que tinha feito. Eu estava morrendo de medo de contar pra ele e ele descobrir. Que soubesse o quão puta eu tinha sido. Mas não escondi nada. O Leonardo não merecia que eu escondesse algo dele. Tinha medo, muito medo, de contar tudo e ele pensar que eu era uma puta, espantando ele como fiz com o Mateo. Ou que por uma coisa ou outra ficasse bravo e decidisse me deixar, como o Ariel fez.

Quando terminei de contar tudo sobre o jogo, com todos os detalhes, vi que ele tomou um bom gole do vinho que tinha e ficou me olhando. Só me olhava, meio sério. Eu já estava morrendo de medo do que ele ia dizer. Finalmente, depois de um silêncio desconfortável, com o dedo indicador ele apertou meu umbigo pra fazer cócegas e só me disse…

“… e aí, quem ganhou?”

3 comentários - O Jogo da Porta - Parte 9 (final)

Buenísimo!!!! Me encantó, siempre un good ending