Continuação de:
Durante a noite, depois do jantar, entramos na praça pra caminhar, alguns lugares já tinham fechado. Mas no Liverpool, que já tava quase fechando, a gente achou um xadrez médio e também um par de baralhos de UNO.
Na área dos livros, encontramos uns títulos interessantes; queria que a Alina lesse, e com certeza ela ia ler assim que a gente chegasse em casa. A maioria dos livros à venda eu já tinha.
Mesmo assim, conseguimos achar algo que eu ainda não tinha: Dom Quixote, num volume só. Junto com duas antologias completas do H.P. Lovecraft. Sabendo que era uma leitura pesada demais pra ela, decidi pegar esses livros pra depois, e fuçando consegui achar algo mais adequado: O Velho e o Mar, Mulherzinhas e Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho. Nunca tinha lido esses últimos, mas um clássico não dá pra deixar passar, mesmo que o tom das obras fosse diferente, serviria pra descobrir as preferências dela. Algo mais fantasioso beirando o onírico? Algo meditativo e calmo? Ou algo mais cru?
Quando voltamos pro hotel, a Alina tava curiosa com as cartas e, quando colocamos as coisas na mesa, ela pegou e ficou olhando.
— Pode abrir. — Ela enfiou a unha no plástico que envolvia o pacote e as cartas se espalharam na mesa. Nervosa, tentou juntar tudo de volta num monte. Enquanto isso, eu tava arrumando as peças no tabuleiro.
— Amo, você me detona nesse jogo... — Ela fez biquinho, forçando uma carinha de choro.
— E com certeza também nesse — apontei pras cartas. — Vamos ver o quanto você consegue melhorar. A gente vai jogar isso direto.
— Amo... Tá bom. Vou tentar ganhar.
— Beleza.
A Alina tinha esquecido o que eu tinha ensinado e foi como ela disse: das 7 partidas, ganhei 7. Com UNO foi um pouco mais interessante; as primeiras 3 partidas não duraram muito, mas ela parecia aprender rápido as funções das cartas. Jogamos mais 5 rodadas sem perceber o tempo passar. tempo.
Ela ficou curiosa sobre os livros, e não demorou muitos segundos depois de ouvir, por cima, do que se tratava Alice, pra escolher esse livro pra ler primeiro. Mandei ela ler em voz alta, e a leitura dela ainda era fraca. Ela travava em palavras longas, pulava sinais de pontuação e, no geral, ia devagar, mas mesmo assim não parecia envergonhada.
No dia seguinte, a gente foi pra praia. Ela parecia curtir o clima quente e dava uns mergulhos na parte rasa. Eu tava sentado, mantendo a cabeça fora d'água, enquanto ela tentava construir um castelo de areia pra depois jogar água. Ficava me perguntando como minha Karla reagiria ao ver a Alina. Por outro lado, por que eu tava tão afastado enquanto ela parecia tão feliz? Decidi ficar boiando de barriga pra cima.
— O senhor é muito solitário, amo. — Alina interrompeu, surgindo do meu lado.
— Talvez já seja um costume meu.
— O senhor não gosta de ficar comigo?
— De onde veio isso?
— Bem... O senhor não quer brincar comigo? — Fazia tempo que eu não fazia movimentos rápidos. Nunca me senti confortável me mexendo de forma ágil ou, no geral, fazendo expressões faciais.
— Tá bom. Vamos.
Naquela tarde, fomos no Chedraui do shopping e comprei cerveja, vinho, vodka, uísque e rum. Queria ver como ela se comportava bêbada.
— São amargos — ela disse, fazendo careta e quase jogando o copo na mesa.
— Com o tempo você se acostuma.
— O senhor não vai beber? — Ela me olhava com os olhos semicerrados. Peguei o copo da Alina e bebi o uísque em dois goles. Tava há muito tempo sem beber, balancei a cabeça e larguei o copo na mesa.
— Sua vez.
— Hmm — ela reclamou, pegando a garrafa e enchendo o copo de novo.
— Se botar gelo ou água, fica mais doce. — Pela cara dela, parecia que tava tentando adivinhar o gosto que ia ter, era igual ver uma criança tentando entender a rotação da lua. — Vamos pegar gelo, vem.
A noite tava quase silenciosa, só interrompida pelo barulho dos carros e os murmúrios dos transeuntes. Consegui ver pela rabinho do olho algumas olhadas para Alina.
As horas passavam rápido, misturamos uísque com café, outros licores com alguns outros refrigerantes, mas não bebemos o suficiente pra ficar bêbados. De qualquer jeito, eu não tinha muita resistência ao álcool; sempre que bebia até demais, me sentava em posições estranhas, me afastava das pessoas e ficava em silêncio.
— Amo...
— Alina.
— Como é sua irmã?
— Tá com medo de não agradar ela? — Vi ela assentir com a cabeça. — É mais provável que ela cague na minha cabeça do que enche o saco com você.
— O quê?!
— Ah... Você não tá acostumada. É mais provável que ela se irrite comigo. — Ela suspirou aliviada. — Vamos dormir, Alina. Não sei a que horas ela chega amanhã, prefiro não piorar o castigo. — Ela pareceu chocada de novo. — Ela só vai gritar comigo. Não quero que ela exagere. Vamos. — Dei um tapa na bunda dela enquanto ela ia pra cama. Ela sorriu pra mim.
Quando acordamos, já eram 10h40 da manhã. O telefone estava tocando e vibrando no criado-mudo direito. Levantei o celular, vi o nome "kk" no contato e atendi a ligação.
— Já chegou? — Perguntei, ainda saindo do torpor, e olhei pelo quarto procurando Alina. Ela ainda estava deitada do meu lado, com o cabelo espalhado no travesseiro e a camiseta regata larga deixando os peitos à mostra.
— Tô a... Acho que meia hora. Tô entrando na cidade.
— Fala pra recepção deixar você subir quando chegar. É bem provável que me liguem no quarto. — Falei tentando não acordar Alina enquanto punha a mão na cabeça dela.
— Hm. Beleza. Cê tava dormindo?
— Yep. Alguma novidade?
— Acho que dá pra chamar assim. Não sei. A gente vê daqui a pouco.
— Que misteriosa — tentei fazer minha voz tremer. — Katia? — Do outro lado da linha, ouvi um bufo de deboche. — Ah, aconteceu alguma coisa?
— Te conto quando chegar. Tchau! — Ela desligou. Olhando com mais atenção, notei que não era a primeira vez que ela ligava. Tinha ligado umas 5 vezes antes de eu atender. respondeu. Deve ter se sentido sozinha no caminho. Olhei para Alina, que no sono tinha se aproximado para me abraçar. Levantei, tirando devagar os braços dela do meu peito, e deixei ela abraçando um travesseiro, cobri ela e fui até o telefone: queria encher o saco da minha irmã.
Alina e eu estávamos tomando café enquanto tentávamos achar algo no YouTube, a tela do celular era pequena, mas pelo menos dava pra ouvir.
O telefone do quarto tocou e Alina se levantou pra atender.
— Não atende, traz ele. — Ordenei. Alina voltou com o telefone na mão e me entregou quase fazendo uma reverência. Será que dava pra mudar esse hábito?
— Alô?
— Alô, bom dia. É da recepção, sua convidada está no lobby. — O tom de voz dela tentava ser neutro, mas dava pra ouvir a vergonha na voz.
— Obrigado, deixa ela subir, por favor. — Tentei segurar um sorriso enquanto a recepcionista se despedia e desligava o telefone.
— Minha irmã já chegou na entrada.
— Devo ir buscar ela, amo? — Ela virou quase na hora pra me olhar, preocupada.
— Não, espera ela bater na porta do quarto... Você ficou mais prestativa? — Ela baixou a cabeça, envergonhada.
— Isso foi minha — Hesitou uns segundos procurando a palavra, e como não achou, resolveu falar em russo —... Овр...
— Educação?
— Sim! Mas não tive chance de fazer isso na viagem. Me desculpa, amo. — Ela colocou a mão dela na minha e encostou a testa nelas. Eu não estava acostumado, nem tinha entendido no começo o que passava na cabeça de Alina.
— Tudo bem. Não se desculpa. — Usei a outra mão pra acariciar o cabelo dela.
Bateram na porta. Alina ia se levantar, mas eu não tirei a mão da cabeça dela.
— Primeiro olha quem é pelo olho mágico.
— Sim, amo! — Deixei ela ir e me levantei atrás dela, segui até a entrada. Ela espiou pelo olho mágico e me deu espaço pra conferir: uma mulher de cabelo castanho, morena, não muito alta, magra, vestindo uma calça de moletom e um moletom, estava do lado de fora da porta. olhando a buceta com uma expressão dura. Olhei para Alina e concordei com a cabeça. Ela pegou a maçaneta e abriu a porta. Os olhos de Karla passaram de olhar com incerteza para Alina, a me procurar ao lado da porta.
— Pedaço de filho da puta. Você disse pra elas que eu era uma puta? Quem é ela? Porra, você ainda tá de pijama?
— Heh. — Forcei uma risada enquanto olhava pra ela o mais sério que conseguia. — Entra.
Ela andou pra frente, cumprimentando Alina, que se ofereceu pra guardar a bolsa dela enquanto a gente conversava. Karla, desconfiada, recusou.
— Marco... Vamos ver... — O tom da voz dela parecia o de um psicólogo confuso. Ela foi até a mesa e sentou na cadeira que estava ocupando antes. Alina deu um suspiro de desaprovação. Olhei pra ela e balancei a cabeça. Alina concordou.
— Quer um café? — Perguntou Alina atrás de mim.
— Não, muito obri... gada. Marco — Ela dirigiu o olhar pra mim. — Que porra é essa? Você contratou uma governanta... um mordomo? Tipo, eu sabia que você era um megalomaníaco, mas isso é demais.
— Não é nenhum dos dois. — Respondi, andando até a mesa e sentando ao lado do meu café, de frente pra minha irmã.
— Não... Não me fode. — Dava pra ver a decepção no tom da voz dela. Quase soava como uma mãe negando a natureza perversa de um dos filhos. — Marco, uma escrava? Como...? Por quê? Você não percebe o quão idiota isso é? Doeu tanto assim a história da Katia?
— Ei. Calma. — Respondi. — Tecnicamente, não é uma escrava. Até onde eu lembro, a constituição diz que escravos entrados em território naci...
— Você vai se esconder atrás de um tecnicismo?!
— Olha, se ela não quisesse ficar comigo, já teria ido embora há muito tempo.
— Ela não tem pra onde ir! — Virei pra olhar Alina, ela estava preocupada, virava a cabeça pra gente cada vez que a gente falava, as sobrancelhas levantadas e as mãos segurando na frente da barriga. — Ou você vai me dizer que ela tem muitas opor...? — Levantei a mão pra calar Karla.
— Vem... — Ordenei, me dirigindo a Alina. Quando ela se aproximou, hesitou se devia sentar ou ficar de pé. Ela virou pra me olhar. perguntando com o olhar.
—Senta do lado da minha irmã... No sofá ao lado. —Ele assentiu.
—Marco... Por quê?
—Karla mantinha o tom de decepção. Me apoiei na mesa e pensei na resposta por alguns segundos.
—Me diz o que ia me falar sobre a Katia.
—Adianta alguma coisa?
—Preciso sondar o terreno.
—Ela veio me ver. —Era claro pelo meu olhar que eu queria mais detalhes. Karla revirou os olhos e continuou: — Uma semana depois que você sumiu, ela me ligou. Queria falar com você. Eu falei a verdade. Não sabia onde você estava. Não dei seu novo endereço... Ela tentou me seguir algumas vezes, imagino pra ver se podia me levar até você... Ah, é. Terminou com o outro namorado dela, Marco.
—Então que vá pro inferno. —Falei no tom mais despreocupado que consegui. —Enquanto ela não souber onde eu moro, tá tudo bem.
—Você pretende evitar ela pra sempre?
—Sim, pra ser sincero, sim —respondi cínico. —Foi ela quem me largou, foi ela quem voltou e foi ela quem me destruiu. Que direito ela tem de querer consertar o nosso rolo —fiz aspas no ar —depois de ficar com outros, sei lá, 20 caras, e todos com o mesmo nome?
—Ela não pode ficar com outro depois de terminar o relacionamento, mas você conseguiu uma escrava e ainda comeu outras na cara dela enquanto estavam juntos? Você marcou ela com uma tatuagem e um ferro quente, Marco. Por que você não supera isso?
—É minha culpa que ela tenha proposto ser marcada? É minha culpa que ela gostava de me ver com outras? É minha culpa que ela arrume namorados parecidos comigo ou com o mesmo nome? É minha culpa que toda vez que um relacionamento não dá certo ela tenha que me procurar pra me culpar? —Tentava me manter calmo, mas até eu percebia minha voz ficando mais hostil.
—Marco, nem a tatuagem nem a marca do ferro vão sumir. Você manipulou ela até que ela gostasse —Ela olhou pra Alina, dessa vez não com incerteza, mas com preocupação. —Você deixou ela traumatizada, representou tudo que ela considerava divino. Como ela não vai te procurar? Toda vez que algo dá errado? É tipo um garoto procurando por Deus!
- O que foi que ela te disse quando falou contigo?
- Que sentia sua falta - Ela começou, se recostando de novo no sofá. - Que mesmo estando com outros, pensava em você e queria falar contigo pra, se você concordasse, tentar de novo ou pelo menos te manter na vida dela outra vez.
- Meu Deus. - Respondi com o nojo ainda na voz. - Quanto vitimismo. Você acreditou nela?
- Não sei, Marco. - Ela levou as mãos ao rosto. - Não sei. Você me conta uma coisa e ela me conta outra. Até onde posso entender, vocês dois são uns crianças mais burras que uma porta.
- Bom, pelo menos eu não tô querendo voltar atrás.
- Marco. Uma escrava. Você vai manipulá-la igual? Vai marcá-la? - Ela virou pra olhar a Alina, que tava olhando pro chão. - Pelo menos quando entrei, ela não parecia tão miserável quanto a Katia quando tava com você. O que aconteceu desde que você se trancou?
- Tava aprendendo russo. Contactando gente... - Eu coçava a palma da mão e balançava a perna pra cima e pra baixo, olhando pra Alina e pra Karla. - Quando tive tudo pronto pra viagem, fui. Pra Rússia.
- Sim, você me contou sobre as vilas. No final, você se atreveu. Bravo. E depois?
- Comprei ela. O nome dela é Alina. Ela não tinha um quando...
- Ah, evita a parte do messias, Marco. - Estalei os lábios.
- Comprei ela, fomos de estrada até uma cidade costeira, onde tinha um cruzeiro de migrantes, mas conseguimos documentos falsos, avalizados por um infiltrado no cartório, caso não desse pra usar o barco, pelo menos vir de avião... E usei esse tempo pra ensinar espanhol pra ela. É isso.
- Imagino que você comeu ela. - Ela arqueou as sobrancelhas.
- Hmm.
- Cara. - Ela murmurou. - O que vai fazer com ela?
- Vou manter ela comigo. Já te falei, ela tem documentos, não pretendo deixar ela analfabeta. Se der, a gente pode dar um jeito de fazer ela de refugiada ou algo assim. - Dei de ombros. - A questão é ela querer, mas p...
- Não me separe do amo, por favor. - Alina interrompeu, mas depois se encolheu de novo. Karla suspirou e virou pra mim. ver.
—Amo.
—Falei pra me chamar pelo meu nome. — Dei de ombros de novo. Karla balançou a cabeça.
—Já devíamos ir embora daqui. Vai indo pro carro. Leva suas malas e as dela.
—Eu vou, amo... — Alina se levantou de repente e me olhou, o rosto dela denunciava a preocupação.
—Não, Ali, minha irmã quer falar com você e quer ter certeza de que...
—Tá maduro, Marco.
—Tá bom. — Suspirei. — Onde você deixou ele?
—No estacionamento do shopping. Terceiro andar.
—Ainda tá usando o Mercedes? — Ela assentiu com a cabeça. — Beleza. Me liga quando vocês já estiverem do lado de fora. — Ela assentiu de novo e fez um gesto com a mão pra eu ir. Empilhei a roupa suja dos dois e enfiei rápido nas duas malas.Fim parte 11.
Continuação:

Durante a noite, depois do jantar, entramos na praça pra caminhar, alguns lugares já tinham fechado. Mas no Liverpool, que já tava quase fechando, a gente achou um xadrez médio e também um par de baralhos de UNO.
Na área dos livros, encontramos uns títulos interessantes; queria que a Alina lesse, e com certeza ela ia ler assim que a gente chegasse em casa. A maioria dos livros à venda eu já tinha.
Mesmo assim, conseguimos achar algo que eu ainda não tinha: Dom Quixote, num volume só. Junto com duas antologias completas do H.P. Lovecraft. Sabendo que era uma leitura pesada demais pra ela, decidi pegar esses livros pra depois, e fuçando consegui achar algo mais adequado: O Velho e o Mar, Mulherzinhas e Alice no País das Maravilhas & Através do Espelho. Nunca tinha lido esses últimos, mas um clássico não dá pra deixar passar, mesmo que o tom das obras fosse diferente, serviria pra descobrir as preferências dela. Algo mais fantasioso beirando o onírico? Algo meditativo e calmo? Ou algo mais cru?
Quando voltamos pro hotel, a Alina tava curiosa com as cartas e, quando colocamos as coisas na mesa, ela pegou e ficou olhando.
— Pode abrir. — Ela enfiou a unha no plástico que envolvia o pacote e as cartas se espalharam na mesa. Nervosa, tentou juntar tudo de volta num monte. Enquanto isso, eu tava arrumando as peças no tabuleiro.
— Amo, você me detona nesse jogo... — Ela fez biquinho, forçando uma carinha de choro.
— E com certeza também nesse — apontei pras cartas. — Vamos ver o quanto você consegue melhorar. A gente vai jogar isso direto.
— Amo... Tá bom. Vou tentar ganhar.
— Beleza.
A Alina tinha esquecido o que eu tinha ensinado e foi como ela disse: das 7 partidas, ganhei 7. Com UNO foi um pouco mais interessante; as primeiras 3 partidas não duraram muito, mas ela parecia aprender rápido as funções das cartas. Jogamos mais 5 rodadas sem perceber o tempo passar. tempo.
Ela ficou curiosa sobre os livros, e não demorou muitos segundos depois de ouvir, por cima, do que se tratava Alice, pra escolher esse livro pra ler primeiro. Mandei ela ler em voz alta, e a leitura dela ainda era fraca. Ela travava em palavras longas, pulava sinais de pontuação e, no geral, ia devagar, mas mesmo assim não parecia envergonhada.
No dia seguinte, a gente foi pra praia. Ela parecia curtir o clima quente e dava uns mergulhos na parte rasa. Eu tava sentado, mantendo a cabeça fora d'água, enquanto ela tentava construir um castelo de areia pra depois jogar água. Ficava me perguntando como minha Karla reagiria ao ver a Alina. Por outro lado, por que eu tava tão afastado enquanto ela parecia tão feliz? Decidi ficar boiando de barriga pra cima.
— O senhor é muito solitário, amo. — Alina interrompeu, surgindo do meu lado.
— Talvez já seja um costume meu.
— O senhor não gosta de ficar comigo?
— De onde veio isso?
— Bem... O senhor não quer brincar comigo? — Fazia tempo que eu não fazia movimentos rápidos. Nunca me senti confortável me mexendo de forma ágil ou, no geral, fazendo expressões faciais.
— Tá bom. Vamos.
Naquela tarde, fomos no Chedraui do shopping e comprei cerveja, vinho, vodka, uísque e rum. Queria ver como ela se comportava bêbada.
— São amargos — ela disse, fazendo careta e quase jogando o copo na mesa.
— Com o tempo você se acostuma.
— O senhor não vai beber? — Ela me olhava com os olhos semicerrados. Peguei o copo da Alina e bebi o uísque em dois goles. Tava há muito tempo sem beber, balancei a cabeça e larguei o copo na mesa.
— Sua vez.
— Hmm — ela reclamou, pegando a garrafa e enchendo o copo de novo.
— Se botar gelo ou água, fica mais doce. — Pela cara dela, parecia que tava tentando adivinhar o gosto que ia ter, era igual ver uma criança tentando entender a rotação da lua. — Vamos pegar gelo, vem.
A noite tava quase silenciosa, só interrompida pelo barulho dos carros e os murmúrios dos transeuntes. Consegui ver pela rabinho do olho algumas olhadas para Alina.
As horas passavam rápido, misturamos uísque com café, outros licores com alguns outros refrigerantes, mas não bebemos o suficiente pra ficar bêbados. De qualquer jeito, eu não tinha muita resistência ao álcool; sempre que bebia até demais, me sentava em posições estranhas, me afastava das pessoas e ficava em silêncio.
— Amo...
— Alina.
— Como é sua irmã?
— Tá com medo de não agradar ela? — Vi ela assentir com a cabeça. — É mais provável que ela cague na minha cabeça do que enche o saco com você.
— O quê?!
— Ah... Você não tá acostumada. É mais provável que ela se irrite comigo. — Ela suspirou aliviada. — Vamos dormir, Alina. Não sei a que horas ela chega amanhã, prefiro não piorar o castigo. — Ela pareceu chocada de novo. — Ela só vai gritar comigo. Não quero que ela exagere. Vamos. — Dei um tapa na bunda dela enquanto ela ia pra cama. Ela sorriu pra mim.
Quando acordamos, já eram 10h40 da manhã. O telefone estava tocando e vibrando no criado-mudo direito. Levantei o celular, vi o nome "kk" no contato e atendi a ligação.
— Já chegou? — Perguntei, ainda saindo do torpor, e olhei pelo quarto procurando Alina. Ela ainda estava deitada do meu lado, com o cabelo espalhado no travesseiro e a camiseta regata larga deixando os peitos à mostra.
— Tô a... Acho que meia hora. Tô entrando na cidade.
— Fala pra recepção deixar você subir quando chegar. É bem provável que me liguem no quarto. — Falei tentando não acordar Alina enquanto punha a mão na cabeça dela.
— Hm. Beleza. Cê tava dormindo?
— Yep. Alguma novidade?
— Acho que dá pra chamar assim. Não sei. A gente vê daqui a pouco.
— Que misteriosa — tentei fazer minha voz tremer. — Katia? — Do outro lado da linha, ouvi um bufo de deboche. — Ah, aconteceu alguma coisa?
— Te conto quando chegar. Tchau! — Ela desligou. Olhando com mais atenção, notei que não era a primeira vez que ela ligava. Tinha ligado umas 5 vezes antes de eu atender. respondeu. Deve ter se sentido sozinha no caminho. Olhei para Alina, que no sono tinha se aproximado para me abraçar. Levantei, tirando devagar os braços dela do meu peito, e deixei ela abraçando um travesseiro, cobri ela e fui até o telefone: queria encher o saco da minha irmã.
Alina e eu estávamos tomando café enquanto tentávamos achar algo no YouTube, a tela do celular era pequena, mas pelo menos dava pra ouvir.
O telefone do quarto tocou e Alina se levantou pra atender.
— Não atende, traz ele. — Ordenei. Alina voltou com o telefone na mão e me entregou quase fazendo uma reverência. Será que dava pra mudar esse hábito?
— Alô?
— Alô, bom dia. É da recepção, sua convidada está no lobby. — O tom de voz dela tentava ser neutro, mas dava pra ouvir a vergonha na voz.
— Obrigado, deixa ela subir, por favor. — Tentei segurar um sorriso enquanto a recepcionista se despedia e desligava o telefone.
— Minha irmã já chegou na entrada.
— Devo ir buscar ela, amo? — Ela virou quase na hora pra me olhar, preocupada.
— Não, espera ela bater na porta do quarto... Você ficou mais prestativa? — Ela baixou a cabeça, envergonhada.
— Isso foi minha — Hesitou uns segundos procurando a palavra, e como não achou, resolveu falar em russo —... Овр...
— Educação?
— Sim! Mas não tive chance de fazer isso na viagem. Me desculpa, amo. — Ela colocou a mão dela na minha e encostou a testa nelas. Eu não estava acostumado, nem tinha entendido no começo o que passava na cabeça de Alina.
— Tudo bem. Não se desculpa. — Usei a outra mão pra acariciar o cabelo dela.
Bateram na porta. Alina ia se levantar, mas eu não tirei a mão da cabeça dela.
— Primeiro olha quem é pelo olho mágico.
— Sim, amo! — Deixei ela ir e me levantei atrás dela, segui até a entrada. Ela espiou pelo olho mágico e me deu espaço pra conferir: uma mulher de cabelo castanho, morena, não muito alta, magra, vestindo uma calça de moletom e um moletom, estava do lado de fora da porta. olhando a buceta com uma expressão dura. Olhei para Alina e concordei com a cabeça. Ela pegou a maçaneta e abriu a porta. Os olhos de Karla passaram de olhar com incerteza para Alina, a me procurar ao lado da porta.
— Pedaço de filho da puta. Você disse pra elas que eu era uma puta? Quem é ela? Porra, você ainda tá de pijama?
— Heh. — Forcei uma risada enquanto olhava pra ela o mais sério que conseguia. — Entra.
Ela andou pra frente, cumprimentando Alina, que se ofereceu pra guardar a bolsa dela enquanto a gente conversava. Karla, desconfiada, recusou.
— Marco... Vamos ver... — O tom da voz dela parecia o de um psicólogo confuso. Ela foi até a mesa e sentou na cadeira que estava ocupando antes. Alina deu um suspiro de desaprovação. Olhei pra ela e balancei a cabeça. Alina concordou.
— Quer um café? — Perguntou Alina atrás de mim.
— Não, muito obri... gada. Marco — Ela dirigiu o olhar pra mim. — Que porra é essa? Você contratou uma governanta... um mordomo? Tipo, eu sabia que você era um megalomaníaco, mas isso é demais.
— Não é nenhum dos dois. — Respondi, andando até a mesa e sentando ao lado do meu café, de frente pra minha irmã.
— Não... Não me fode. — Dava pra ver a decepção no tom da voz dela. Quase soava como uma mãe negando a natureza perversa de um dos filhos. — Marco, uma escrava? Como...? Por quê? Você não percebe o quão idiota isso é? Doeu tanto assim a história da Katia?
— Ei. Calma. — Respondi. — Tecnicamente, não é uma escrava. Até onde eu lembro, a constituição diz que escravos entrados em território naci...
— Você vai se esconder atrás de um tecnicismo?!
— Olha, se ela não quisesse ficar comigo, já teria ido embora há muito tempo.
— Ela não tem pra onde ir! — Virei pra olhar Alina, ela estava preocupada, virava a cabeça pra gente cada vez que a gente falava, as sobrancelhas levantadas e as mãos segurando na frente da barriga. — Ou você vai me dizer que ela tem muitas opor...? — Levantei a mão pra calar Karla.
— Vem... — Ordenei, me dirigindo a Alina. Quando ela se aproximou, hesitou se devia sentar ou ficar de pé. Ela virou pra me olhar. perguntando com o olhar.
—Senta do lado da minha irmã... No sofá ao lado. —Ele assentiu.
—Marco... Por quê?
—Karla mantinha o tom de decepção. Me apoiei na mesa e pensei na resposta por alguns segundos.
—Me diz o que ia me falar sobre a Katia.
—Adianta alguma coisa?
—Preciso sondar o terreno.
—Ela veio me ver. —Era claro pelo meu olhar que eu queria mais detalhes. Karla revirou os olhos e continuou: — Uma semana depois que você sumiu, ela me ligou. Queria falar com você. Eu falei a verdade. Não sabia onde você estava. Não dei seu novo endereço... Ela tentou me seguir algumas vezes, imagino pra ver se podia me levar até você... Ah, é. Terminou com o outro namorado dela, Marco.
—Então que vá pro inferno. —Falei no tom mais despreocupado que consegui. —Enquanto ela não souber onde eu moro, tá tudo bem.
—Você pretende evitar ela pra sempre?
—Sim, pra ser sincero, sim —respondi cínico. —Foi ela quem me largou, foi ela quem voltou e foi ela quem me destruiu. Que direito ela tem de querer consertar o nosso rolo —fiz aspas no ar —depois de ficar com outros, sei lá, 20 caras, e todos com o mesmo nome?
—Ela não pode ficar com outro depois de terminar o relacionamento, mas você conseguiu uma escrava e ainda comeu outras na cara dela enquanto estavam juntos? Você marcou ela com uma tatuagem e um ferro quente, Marco. Por que você não supera isso?
—É minha culpa que ela tenha proposto ser marcada? É minha culpa que ela gostava de me ver com outras? É minha culpa que ela arrume namorados parecidos comigo ou com o mesmo nome? É minha culpa que toda vez que um relacionamento não dá certo ela tenha que me procurar pra me culpar? —Tentava me manter calmo, mas até eu percebia minha voz ficando mais hostil.
—Marco, nem a tatuagem nem a marca do ferro vão sumir. Você manipulou ela até que ela gostasse —Ela olhou pra Alina, dessa vez não com incerteza, mas com preocupação. —Você deixou ela traumatizada, representou tudo que ela considerava divino. Como ela não vai te procurar? Toda vez que algo dá errado? É tipo um garoto procurando por Deus!
- O que foi que ela te disse quando falou contigo?
- Que sentia sua falta - Ela começou, se recostando de novo no sofá. - Que mesmo estando com outros, pensava em você e queria falar contigo pra, se você concordasse, tentar de novo ou pelo menos te manter na vida dela outra vez.
- Meu Deus. - Respondi com o nojo ainda na voz. - Quanto vitimismo. Você acreditou nela?
- Não sei, Marco. - Ela levou as mãos ao rosto. - Não sei. Você me conta uma coisa e ela me conta outra. Até onde posso entender, vocês dois são uns crianças mais burras que uma porta.
- Bom, pelo menos eu não tô querendo voltar atrás.
- Marco. Uma escrava. Você vai manipulá-la igual? Vai marcá-la? - Ela virou pra olhar a Alina, que tava olhando pro chão. - Pelo menos quando entrei, ela não parecia tão miserável quanto a Katia quando tava com você. O que aconteceu desde que você se trancou?
- Tava aprendendo russo. Contactando gente... - Eu coçava a palma da mão e balançava a perna pra cima e pra baixo, olhando pra Alina e pra Karla. - Quando tive tudo pronto pra viagem, fui. Pra Rússia.
- Sim, você me contou sobre as vilas. No final, você se atreveu. Bravo. E depois?
- Comprei ela. O nome dela é Alina. Ela não tinha um quando...
- Ah, evita a parte do messias, Marco. - Estalei os lábios.
- Comprei ela, fomos de estrada até uma cidade costeira, onde tinha um cruzeiro de migrantes, mas conseguimos documentos falsos, avalizados por um infiltrado no cartório, caso não desse pra usar o barco, pelo menos vir de avião... E usei esse tempo pra ensinar espanhol pra ela. É isso.
- Imagino que você comeu ela. - Ela arqueou as sobrancelhas.
- Hmm.
- Cara. - Ela murmurou. - O que vai fazer com ela?
- Vou manter ela comigo. Já te falei, ela tem documentos, não pretendo deixar ela analfabeta. Se der, a gente pode dar um jeito de fazer ela de refugiada ou algo assim. - Dei de ombros. - A questão é ela querer, mas p...
- Não me separe do amo, por favor. - Alina interrompeu, mas depois se encolheu de novo. Karla suspirou e virou pra mim. ver.
—Amo.
—Falei pra me chamar pelo meu nome. — Dei de ombros de novo. Karla balançou a cabeça.
—Já devíamos ir embora daqui. Vai indo pro carro. Leva suas malas e as dela.
—Eu vou, amo... — Alina se levantou de repente e me olhou, o rosto dela denunciava a preocupação.
—Não, Ali, minha irmã quer falar com você e quer ter certeza de que...
—Tá maduro, Marco.
—Tá bom. — Suspirei. — Onde você deixou ele?
—No estacionamento do shopping. Terceiro andar.
—Ainda tá usando o Mercedes? — Ela assentiu com a cabeça. — Beleza. Me liga quando vocês já estiverem do lado de fora. — Ela assentiu de novo e fez um gesto com a mão pra eu ir. Empilhei a roupa suja dos dois e enfiei rápido nas duas malas.Fim parte 11.
Continuação:

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