Ella y yo

Ela e eu transávamos diariamente. Em outras palavras, segundas, terças e quartas a gente transava sem falta… Quintas, sextas e sábados, a gente transava do mesmo jeito… Por fim, domingos a gente transava religiosamente. A gente transava compulsivamente. Transávamos deliberadamente. Transávamos espontaneamente. A gente transava por compatibilidade de caráter, por favor, por suposto, por telefone, de primeira intenção e em última instância, por não deixar barato e por via das dúvidas, como primeira medida e como último recurso. A gente transou por osmose e por simbiose: e a isso chamávamos de transar cientificamente. Mas também transamos eu nela e ela em mim: ou seja, reciprocamente. E quando ela ficava no meio de um orgasmo e eu, com o pau virado num músculo flácido, não conseguia preencher ela, então a gente transava penosamente. O que não tem nada a ver com as vezes em que eu imaginava que não ia conseguir, e não conseguia, e ela pensava que não ia sentir, e não sentia, ou então estávamos tão cansados e tão preocupados que nenhum dos dois chegava ao orgasmo. Dizíamos então que tínhamos transado aproximadamente. Muitas vezes transamos contra a natureza, a favor da natureza, ignorando a natureza. Ou de noite com a luz acesa, ou de dia com os olhos fechados. Ou com o corpo limpo e a consciência suja. Ou vice-versa. Contentes, felizes, sofridos, amargurados. Com remorso e sem sentido. Com sono e com frio. E quando estávamos conscientes do absurdo da vida, e de que um dia nos esqueceríamos um do outro, então a gente transava inutilmente. Para inveja dos nossos amigos e inimigos, a gente transava ilimitadamente, magistralmente, legendariamente. Para honra dos nossos pais, a gente transava moralmente. Para escândalo da sociedade, a gente transava ilegalmente. Para alegria dos psiquiatras, a gente transava sintomaticamente. A gente transava fisicamente, de pé e cantando, de De joelhos e rezando, deitados e sonhando. E acima de tudo, e pela simples razão de que eu a queria assim e ela também... a gente transava... por vontade própria.

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