Preso sem saída Eu contava pra Adela Batista no telefone como tinha sido meu parto, o quanto eu era feliz e o orgulho que sentia por ter trazido meu filho ao mundo como Deus manda.
Adela não entendia como o povo deseja que o parto seja "uma horinha curta".
Ter meu filho em casa me custou, além das onze horas de trabalho de parto, meses de angústia desde o primeiro dia que soube que tava grávida. Mas no fim foi uma preparação. Pra tudo de bom que veio depois.
E as maravilhosas horas, semanas e meses de pós-parto que eu tô vivendo?
Que triste seria se eu pudesse reduzir tudo que vivi a uma coisa de um instante.
De jeito nenhum eu queria que meu parto tivesse durado "uma horinha curta".
Doeu muito, pra caralho. 😭 Eu esperava que fosse um parto sem dor, suave, como minhas gestações anteriores, e foi doloroso e animalesco. Mas por nada nesse mundo eu trocaria por um "bom parto hospitalar com sua anestesia".
E olha que juro que durante umas horas eu bendisse a médica que inventou aquilo e me arrependi de não ter ido pra um hospital. A vida de repente ficou dura, e em alguns momentos hostil. Foi uma longa jornada que começou quando assumi as rédeas da minha gravidez, tentando enchê-la de paz e me afastar o máximo possível de qualquer contato que me prejudicasse, começando pelas pessoas que me julgavam. Então fugi, buscando sossego.
Me pareceu muito mais importante evitar complicações do que procurá-las. Não fiz mais exames além de uma ultrassom naquele último mês, isso não quer dizer que não tenha acompanhado minha gravidez.
Pelo contrário, cuidei pra caramba, mas prestando atenção na minha alimentação, fazendo exercício e descansando.
Naquela hora, eu sentia que minha barriga tava enorme e me faltava o ar.
Esse bebê se desenvolveu por completo e tudo indicava que seria do mesmo genótipo do pai. Que sorte.
Por quê?
Porque sim, esse menino tem a mesma força que o Gerson teve.
Vai ser forte o bastante pra poder ter o Mundo aos pés dela. O pai dele foi ruim, mas esse menino vai ser o contrário. Se esse moleque é filho de alguém que foi uma ameaça pra sociedade, Minor (é assim que chama 😍) vai ser uma bênção. E disso eu cuido. Dá vontade de sair correndo, né? Pois foi isso que eu pensei: "Corre, Melissa, corre". No começo, o fato de não ter ninguém me dizendo o que fazer, marcando dia e hora, me aprovando ou me xingando se eu tinha errado ou não, me pareceu irreal. Que liberdade do caralho! Senti o mesmo prazer e a mesma tremedeira que uma adolescente que, pela primeira vez na vida, desafia a autoridade do pai. Depois, fui me acostumando aos poucos a tomar minhas próprias decisões, fui recusando uma por uma a maioria dos exames de rotina, ou o que não me dava na telha. Decidi dar um passo a mais no uso da minha nova liberdade e parir no lugar onde eu realmente me sentia mais segura e onde queria que meu filho nascesse: na minha casa. Por que abrir mão disso? Fazer isso seria me deixar condicionar pela maldição da infidelidade, por algo que não é meu nem do meu filho, um problema que nunca procurei, mas que os outros jogavam na minha cara. Então, no dia 15 de setembro, entrei em trabalho de parto à uma e vinte da tarde. Naquela tarde, tropecei na rua e quase caí de cara no chão enquanto saía pra jogar o lixo. Senti minha barriga enorme se mexer violentamente de um lado pro outro e me assustei. Um vizinho me viu e ficamos nos encarando em silêncio. Ele perguntou se eu tava bem e eu disse que tinha me assustado pra caralho. "Eu também", ele falou. "Posso ajudar?" Com o susto no corpo, tentando me acalmar, estiquei o saco de lixo pra ele. Ele levou sem reclamar até os contêineres e eu entrei em casa. Movimento demais pros meus cinco quilos de bebê, quatro litros de líquido amniótico e um quilo e meio de placenta. Com 9 meses de gravidez exatos. Avancei só um pouco pelo corredor, quando ia pro meu quarto. Então... De repente, assim que cheguei na cama, minha bolsa estourou. Junto com o líquido amniótico, saiu muito sangue que encharcou meu avental e escorreu pelas minhas pernas. Fiquei com muito medo... Tirei o avental e joguei no chão pra recolher o sangue. Coloquei tudo num saco de lixo junto com a calcinha pra esconder, não queria que minhas filhas e a Nana vissem aquilo. Eu também não queria ver. Depois tomei um banho e coloquei um absorvente. Cada vez saía menos sangue, mas minhas pernas não paravam de tremer pensando que aquilo podia ser descolamento de placenta ou coisa pior. Lembrei da vez que esperando a Nina aconteceu algo parecido, naquele dia o Tomás chegou a tempo e fomos voando pro hospital por causa do sangramento. Mas não deu em nada. Lembrei das palavras de uma parteira: sangrar um pouco é normal, o sangue pode vir do colo do útero, mas se você sangrar de colherada, aí tem que correr pro hospital. Colherada de sopa ou de café? Quantas colheradas? Aquilo eram várias conchas de sopa, mas mesmo assim preferia que a Nana me visse antes de fazer qualquer coisa. Então gritei; pedindo ajuda, a primeira a chegar foi a Nina, que ao me ver pelada no banheiro ficou toda surpresa. Falei pra minha filha que tinha estourado a bolsa disfarçando um sorriso e chamei a Nana. Feita um caco de nervos. Só duas vezes e a voz calma e quente dela confirmou que já vinha. Não deve ter demorado mais que uns dois minutos. A primeira coisa que ela olhou foi o sangramento e achou normal. A verdade é que nessa altura a hemorragia já tinha parado e quase não sujava. Pensei que talvez o sangue tivesse acontecido quando tropecei e se acumulou, caindo de uma vez, fazendo parecer um sangramento grande. A Nana ouviu o coração do meu bebê: batia forte durante as contrações, que já eram regulares e a cada poucos minutos. Tava ótimo. Que alegria! Que alívio! A Nana disse que era hora de tomar decisões, de decidir se queria parir em casa ou no hospital. Hospital? Que Hospital? Se meu bebê estava bem, era tudo o que eu precisava saber. Foda-se o hospital. Eu me sentia feliz e cheia de energia. Nana me examinou: eu estava com dois centímetros de dilatação, o colo do útero centralizado e apagado. Ela achou que eu daria à luz em umas cinco horas. Nana e minha filha foram descansar um pouco, e eu comecei a preparar a roupinha do bebê, toalhas, plásticos e tudo o que achei que poderia precisar para o parto.
Escolhi o quarto no sótão, no andar de cima de casa, para parir, então passei uma hora subindo e descendo as escadas, sentindo as contrações ficarem cada vez mais fortes. Mal dava tempo de fazer qualquer coisa entre elas, e eu tinha que parar para respirar, porque parecia que meu útero consumia todo o oxigênio do meu corpo com o trabalho dele. Três horas depois do início do parto, quando Paola e Beatriz chegaram, eu estava feliz, descansando e curtindo as contrações. Que prazer, quanto tempo eu desejei sentir aquelas contrações. Era incrível como o corpo trabalhava, com tanta regularidade, com tanto sistema.
Fiz compota de maçã e gritei pra mandar uma mensagem. Tava tão emocionada que não conseguia parar de anunciar que o parto tinha começado, queria compartilhar com elas. Que noite mágica! Deu vontade de sair na rua, a temperatura estava ótima e o céu lindo. O feriado nacional tava prestes a começar, e logo teria festa e algazarra, foguetes e música mexicana no talo. Mas não tive coragem. Que boba! 🤭 Com certeza tinha algum motivo pelo qual meu instinto me empurrava pra sair de casa.
Liguei pra Montserrat Cob, professora de yoga e doula que queria estar no parto. Fiquei na dúvida se chamava ela ou não, porque queria intimidade e imaginei que não ia gostar de ter muita gente por perto. Ainda bem que eu disse sim! Montse apareceu na hora, fresca como uma alface, mesmo sendo feriado, cheia de otimismo e energia positiva. Ela me disse que seria uma noite linda e que eu estava muito gostosa. Lembro dela sorrindo quase o tempo todo, ou pelo menos eu sentia um sorriso nela. Foi uma presença doce, amiga, calorosa. Me senti muito ligada a ela, apesar de mal termos tido tempo de nos conhecer. Montse me trazia chás, água, fazia massagem nas minhas costas, e cuidava de toda a logística, tipo achar isso ou aquilo numa casa estranha pra ela. Quando as contrações ficaram dolorosas, elas prepararam uma banheira com água bem quente e foi um alívio danado. Montse, Nana e as meninas ficaram um tempão ao redor da banheira, jogando água em mim e conversando. — Ah, minhas mulheres, tão divinas elas... Adorava papear com elas entre uma contração e outra. Era a glória. Depois de cinco horas de parto, a dor começou a ficar insuportável e eu queria gemer e botar pra fora. 😱 Todas me animaram e lembro de ter feito muitos “oms” com a Montse, igual quando a conheci na aula de yoga pra parir. A dinâmica das contrações tava muito boa, dizia a Nana. Aquilo soou bem e soou um raio ao mesmo tempo. Bem porque o parto tava avançando superbem. Um raio porque as contrações já não me davam descanso, vinham a cada minuto, e eu queria uma dinâmica “menos boa”. As últimas três horas de dilatação foram bem pesadas. Era um alívio poder gemer e reclamar, estar rodeada das minhas filhas atentas aos meus desejos. Pensei em todas as mulheres que pariam em hospitais, que naquele momento estavam parindo numa sala asséptica, deitadas de costas, sem poder se mexer, sem poder beber, sem poder gritar... Eu, que sentia uma dor tão imensa, imaginei parir daquele jeito como a mais horrível das torturas e quase chorei por todas elas. Saí da água, lembrei do dr. Camarena, que contava que às vezes os partos paravam por ficar tempo demais na água quente. Foi um erro, aquilo não parava nada. ninguém. Não importava o que eu fizesse, meu corpo não parava. Quem dera eu pudesse ter desacelerado um pouco! Já mal tinha tempo de conversar com meus anjos da guarda, foi assim que senti todas elas — nem Nana, nem conhecida, nem filhas, eram meus anjos. Pensei que ia querer ficar sozinha no parto, mas aconteceu exatamente o contrário: precisei de companhia a cada segundo.
Eu tava no meu mundo, e nesse mundo ninguém podia me ajudar, eu tinha que dar conta sozinha, a dor era minha, mas sempre soube que "lá fora" estavam elas, esperando, me acompanhando. Quase toda a dilação eu passei deitada do lado esquerdo, com um travesseiro entre as pernas. O bebê tava em posição posterior, então eu já sabia que não ia ser aquele parto suave que eu tive nas minhas gestações anteriores. Tava bem resignada a sentir dor, sabia disso pelo tamanho enorme desse bebê, que era muito maior que qualquer uma das minhas filhas. Também o parto da Montse tinha sido em posterior. Perguntei se ela tinha sofrido muito. Na verdade, queria expressar minha incredulidade de que alguém no planeta Terra pudesse sentir uma dor tão forte quanto a que eu tava sentindo ao dar à luz. Me consolei em saber que o parto da Montse tinha sido difícil, muito doloroso, e que, embora o bebê tivesse nascido naturalmente, ela precisou ser levada pra um hospital. Tinha uma grande solidariedade nela. Ninguém, nem a Nana e muito menos minhas filhas, podia saber o que eu tava passando. A Montse sim... Tem uma parte do parto em que a gente sofre, mas com consolo e apoio, o ânimo nunca falha. Minha Nana soube estar ali o tempo todo, nunca se assustou nem interferiu, pediu pras meninas saírem pra ter mais espaço, que era o que eu precisava. E elas fizeram isso, um pouco tristes, mas obedientes. A Nana levou tudo com uma naturalidade que quase me chocou. Acho que houve um entendimento muito bom e uma cordialidade entre ela e a Montse, e isso me encantou. Pedi que preparassem outra banheira e entrei nela. Dessa vez, quase não senti alívio nenhum, só me restava gemer e gemer. A Montse me trouxe uma infusão de própolis com mel que tomei com canudinho, já que não conseguia me sentar. Devo ter passado assim mais uma hora, e a Nana me examinou. Já tava com dilatação completa. Que alívio! Quase não faltava nada pra ver meu filho! 😭😍
Nana me disse que se eu quisesse, "podia ir empurrando". Empurrando? Não tô a fim, falei. O que eu faço? Prendo a respiração? Empurra do jeito que quiser!! ela respondeu. Enchi os pulmões de ar e segurei a respiração pra que o ar empurrasse o útero pra baixo. Era besteira, não saía, o corpo não pedia. Mesmo querendo que chegasse a hora do expulsivo, se não tivesse vontade, não ia empurrar. Eu não vi minhas filhas nascerem, mas agora não seria assim, queria ver meu pequeno. Observar o bebê que Gerson me enfiou, uma noite. Induzida pelas drogas que a maldita da Marisa colocou no meu drink, mas que mesmo assim eu amava com toda minha alma... Colocaram um pano sobre meus joelhos e ele apareceu por cima, como um fantoche surgindo por trás das cortinas do teatrinho. Não conseguia imaginar como meu filho ia sair da minha buceta. Tinha que visualizar, mas não dava. Enfiei os dedos na minha buceta pra tentar tocar a cabeça do meu filho, sentir que era verdade, que tava acontecendo, que ia sair por ali. Mas meus dedos não alcançavam a cabeça, não ia rolar. Sabia que naquele momento, mais do que nunca, tinha que "acreditar" no parto, me convencer e convencer meu corpo de que meu filho ia sair por onde tinha que sair. Cada mulher tem que usar seus próprios recursos, buscar dentro de si mesma e esquecer o que os livros dizem — Gerson, Gersoooooon!!!! Comecei a chamar pelo nome dele, bem alto, o pai do meu filho, pedindo por favor que viesse comigo. Assim como ele prometeu um dia no meu sonho. Aí me cobri de um suor frio e me senti perdida, viajando. A dor era tão forte que pensei que não ia aguentar muito mais. Se espalhou pelo corpo todo e achei que tava com febre. Precisava me mexer, mas não sabia como. Fiquei de quatro, mas a dor era a mesma, chamei meu falecido marido e me apoiei nele. Não, não conseguia me mexer, cada vez pior. Aí gritei com muita raiva. — Gerson, a culpa é sua!!!! 😠 Olha o que eu tenho aqui dentro por sua causa! culpa do teu pau!! Tá me destruindo na hora de sair!! Não aguento mais!! 😭😭 Mas a Nana e a Montse insistiram que aquilo "tinha que ser mexido", então com muito esforço me colocaram de pé e fizeram eu desenhar oitos com o quadril apoiado nelas. As duas tinham que me segurar. Fiz gestos pra me sentarem num sofá grande que tem no quarto e sujei tudo de sangue. Já tinha visto muitas mulheres parindo assim, recostadas num sofá ou em cima de um marido-sofá. Mas não, não acontecia nada, só mais suor frio e uma dor insuportável, esmagadora. Por ela soube que aquilo não ia durar muito mais, porque se durasse mais eu simplesmente desmaiaria. Enfiei minhas mãos na buceta e foi como enfiar num balde de cola de papel de parede: escorria gelatina e isso também era um sinal de que o expulsivo era iminente. Decidi sentar no sofá improvisando como zona de parto, mais do que pensar que meu filho ia nascer já, pra "chamá-lo", pra "forçar o corpo", pra "criar a situação". E funcionou, porque mal sentei perdi totalmente a cabeça e comecei a gemer desesperada, de um jeito bem animal, totalmente entregue ao corpo. - Argggggggg, argggggg imensos foram meus lamentos e chegou o "anel de fogo". Fechei os olhos e passei berrando pendurada no pescoço da Montse. Meu soluço foi poderoso e não tinha nada que eu pudesse fazer. Minutos antes do meu filho nascer. O suor que escorre pelo meu rosto e ombros intensifica o calor corporal que tenho agora, suponho já bem próximo de uma febre. Tô sentada no sofá de parto, e a Montse Cob, minha querida doula, me conforta. De repente aconteceu, uma força irresistível como uma onda que te joga contra as pedras fez a cabeça do meu filho descer pela minha buceta. Gritei com todas as minhas forças e quando consegui abrir os olhos vi no espelho da frente minha vulva totalmente aberta como uma porta e uma cabecinha marrom aparecendo. 🤩 Não vi mais nada. até que meu filho nasceu, porque na mesma hora vieram duas contrações brutais, enquanto Montse me dizia pra não fazer força, pra lembrar do meu períneo. — Lembra do períneo!! Mas não consegui fazer nada. Naquele momento, meu útero tinha assumido o controle do meu corpo e eu não tinha poder nenhum sobre as contrações. A força das ondas é imparável, você só pode se deixar levar ou lutar, mas a luta é inútil. Me falar pra cuidar do meu períneo soou como se dissessem pra alguém que está sendo jogado contra as rochas por uma onda gigante pra ter cuidado pra não se machucar a pele na batida. Que absurdo! Aqueles movimentos lá dentro eram como se um aspirador gigante puxasse meu bebê pra fora e arrastasse junto meu útero e todo o meu ser. Foi algo totalmente involuntário. Quando senti o "anel de fogo", aquela queimação no períneo onde os rasgos acontecem ou não, senti pequenos arranhões e esfoladuras. No meu períneo, e lembrei que as mulheres bem naquela hora querem colocar as mãos bem naquele lugar. Também não consegui testar isso, porque quando a maré te leva, você também não pode escolher onde colocar as mãos. Simplesmente acontece. As ondas, na sua retirada, me esfregavam contra as pedrinhas da beira. Não tinha morrido na batida. No terceiro puxão, meu filho nasceu. Um grito forte anunciou sua chegada a este mundo, bem no momento em que os fogos explodiram e a multidão na praça da cidade gritava eufórica: Viva México!! Que loucura, comecei a chorar de pura alegria, junto com Minor. E gritei: Viva o México, viva a vida, viva o amor 💕 Só quem já experimentou uma enxurrada de sentimentos vai entender. Um tempo depois; Nana pegou o menino, limpou ele e verificou que o bebê estava em excelente estado de saúde. Ela e Montse me disseram: "aqui está seu filho". Então abri os olhos, olhei pra baixo, e vi um bebê gorducho de 5.400 quilos. Minor me olhou nos olhos tão profundamente pra me tirar da minha incredulidade. Devíamos Ficar assim, se olhando, os dois bobinhos de puro amor. O Minor é bem tranquilo e tem uns olhões azuis 🤩 (Algo tinha que herdar da mamãe dele) Que contrastam com a cor de chocolate dele. Na vida curta dele, já pode se gabar de que esteve metido numa aventura que a vida colocou como prova. Depois que a Montse o incubou a noite inteira, pele com pele, quando o deixei na cama, peguei ele recostado com as mãos atrás da nuca, sorrindo feito um machão depois de transar com a mina mais gostosa do baile. Só faltava dar um trago fundo num cigarro. É tão reconfortante ver que deu tudo certo. Tô feliz de ter tido a Montse do meu lado. Uma doula é uma mulher que sempre tem a palavra certa pra dizer pra parturiente, uma palavra que cura e consola. Uma boa doula, como a Montse, é uma mulher sábia e corajosa que se compadece da mulher, que acompanha, que segura, que lembra o sentido da dor e permite que ela expresse e se sinta orgulhosa do que tá fazendo. Graças à Montse, eu soube que não precisava ficar triste por tudo que aconteceu, porque eu vi meu filho nascer com meu ser mais profundo. Finalmente o menino se aninhou no meu peito e começou a mamar que nem um desesperado. Até nisso ele puxou o pai. Quando a Montse me examinou, notou que meu períneo tava intacto e só tinha um cortezinho nos lábios que se resolvia com dois pontos. Não quis que a Nana me costurasse. O corte tava bem no lugar onde me fecharam a buceta demais depois da episiotomia anterior. Dois pontos eram os pontos extras que tinham me dado pra "me deixar virgem" e agradar o Gerson na época. Aquele corte era o reparo daquela humilhação, então tava bom do jeito que tava e já ia sarar sozinho e do melhor jeito pra mim. Além disso, a última coisa que eu queria naquele momento era ouvir falar de pontos e agulhas. A Nana insistiu, com razão, mas se encontrou com uma cabeça dura irredutível. Em nenhum momento Durante o parto, senti medo ou pensei que algo ruim podia acontecer com meu filho. Ouvi ele chorar e sabia que tava bem, abracei ele e ele me pareceu o ser mais perfeito do universo. Só curti uns minutos olhando pra ele quando a Montse e minha Nana tiveram que pegar ele de novo porque eu senti umas contrações fortíssimas. Como a Nana disse, "agora é hora de parir". Soou estranho aquele "é hora", como se fosse um trabalho ou algo que eu tivesse que fazer conscientemente. Mas se as placentas escorregavam sozinhas! Eu vi isso em muitos vídeos de parto. Será que tinha que fazer algo especial? As contrações vinham uma atrás da outra e eram terrivelmente dolorosas. O que era aquilo? O que tava rolando? Me surpreendeu de novo uma dor insuportável e sem descanso entre as contrações. Levei as mãos à cabeça e puxei meu cabelo várias vezes, fiquei uma hora e meia me contorcendo e mordendo o travesseiro. Gritei perguntando pra Nana: "O que é isso? O que é essa dor? Por que tem que doer agora? É injusto, quero ficar com meu filho." 😭 Repeti várias vezes que era uma dor injusta. Tava muito puta, me sentia "abusada pela natureza". Meu filho tinha nascido, eu tinha "feito minha parte", tinha pago o preço, tinha sofrido, tinha aguentado minha dor com dignidade. Por que mais dor agora? Que necessidade tinha disso? Tanto falar do parto e eu não sabia que parir a placenta podia ser doloroso. Não fazia ideia, naqueles vídeos que vi, as placentas escorregavam suavemente enquanto a parturiente olhava pro bebê extasiada, sem nem perceber. Se eu soubesse, talvez tivesse lidado melhor com essa dor. Foi a pior parte do parto. A placenta não saía e a Nana disse que se eu não fizesse xixi, teria que me sondar. Quase dei um pulo apesar do meu estado, porque essa história de sonda me lembrou o hospital e de jeito nenhum eu queria tubos nem tesouras no meu parto. Com muito esforço, cheguei ao banheiro e fiz xixi. Imediatamente a placenta, de quilo e meio de peso no total, saiu da minha buceta escorregando. Como um peixe. Esse foi o fim... Sem mais dor, não tive cólicas, sentia o útero se mexer quando o neném mamava, mas sem nenhum incômodo. Achei interessante observar como aquela bola dura se movia como um ser vivo pra cima e pra baixo da minha barriga. Levei como uma experiência científica. Aquela dor "das cólicas", pra qual eu estava preparada, não veio. O mundo de ponta-cabeça. Como minha pressão tava muito baixa, 6/3, tive que ficar deitada no chão do banheiro. Tentaram me levantar várias vezes, mas eu ficava tonta e sentia uma agonia de morte. Assim, deitada no chão, tava no céu e sorria pra Nana sem parar. Ela sentou aos meus pés e os segurou pra cima, me dando uma massagem. Pronto, tinha parido meu filho, ele tava no mundo, esperando a mãe dele abraçá-lo. Depois disso, a pressão não tinha importância nenhuma pra mim, sou baixa pressão mesmo e falei pra Nana não se preocupar. Não parei de falar o tempo todo pra elas saberem que eu tava bem. Perguntei tímida se podia tomar café e Nana "me receitou" dois. Foi tomar o cafezinho e uma sopa de milho e me sentir a Superwoman. Aí Nina entrou no quarto e a gente se abraçou. Depois Paola e Beatriz entraram pela porta e eu desabei a chorar. A gente conseguiu! Sempre tem um momento em que a emoção toma conta de todo mundo ali. Nunca antes tinha sentido assim o calor da tribo. Minha tribo, o que seria de mim sem o apoio de todas elas? Me ajudaram, acompanharam, protegeram e mimaram quando eu tava grávida e quando dei à luz, e depois cuidaram do meu filhote como se fosse delas. Isso é o que senti compartilhando minha gravidez com elas. Depois de parir, e durante o mês inteiro seguinte, tive a sensação de estar chapada. Lembro do meu primeiro passeio sozinha, três dias depois do parto. A cidade inteira tava lá fora e fazia um sol espetacular. As montanhas estavam lindas. Eu não acreditava que tava assim, numa manhã tão gostosa, recém-parida. Parida e caminhando. Respirar ar puro enquanto curtia a paisagem e as lembranças do que acabava de viver me fazia sorrir, pensando no ar poluído e no ambiente fechado que estaria respirando agora se tivesse parido num hospital. A Nina me deu um caldo de legumes delicioso que fez quando soube que eu estava dando à luz. Trouxe um monte de comidas gostosas pra casa pro puerpério. Eu curtia pensar que, ao voltar pra casa, meu bebê lindo tava me esperando, sem ter levado um único furo de agulha, sem ter sido tocado por nenhum estranho, que tinha nascido no mesmo lugar quentinho e seguro onde foi concebido. No meu parto anterior (no hospital), não consegui ficar de pé até quinze dias depois, e dois meses mais tarde ainda andava com dificuldade. Tava muito traumatizada, exausta, cheia de raiva. Agora tava aqui, feita uma rosa, passeando pela cidade e com uma onda de endorfina que me fazia flutuar. Droga de graça por dias e dias e com o único efeito colateral de se apaixonar perdidamente pelo seu bebê. Sim, por favor! Isso e muito mais é o que a gente perde com a anestesia. No meu caso, acho que a natureza me fez uma oferta especial com dose dupla, e por isso eu me sentia tão-tão-eufórica. Nunca experimentei heroína, mas isso deve viciar do mesmo jeito, porque foi parir, com toda a dor que senti, e eu passei. Não me arrependo de nada, nem tenho do que reclamar. A vida é linda, e eu fui uma mulher medrosa. Passei por coisas incrivelmente difíceis, mas aqui estou. Dando trabalho e lutando por mim e pelos meus filhos. Hoje estou convencida: o amanhã está nas minhas mãos... Fim.
2 comentários - Atrapada sin salida XXXII Final.
Y al final Melissa le hace saber que ya no le interesa estar con el a pesar de qué le pidió perdón.