Preso sem saída XXIV

Atrapada sin salida XXIVCapítulo XXIV
Ignacio "Nacho" Coronel Villarreal era o braço direito de Joaquín "El Chapo" Guzmán, que depositou nele sua confiança para operar Jalisco, Colima e Nayarit; áreas que ele manteve longe da violência extrema. O que diferenciava Nacho do resto dos narcos do cartel de Sinaloa era o controle da sua região. Por anos foi assim, até que a chegada de Felipe Calderón ao poder mudou tudo. O tabuleiro de xadrez caiu no chão, e o país mergulhou de cabeça numa violência sem fim. Com o passar dos anos, a volatilidade constante causou uma troca frequente de lideranças, e alianças que duravam anos se perderam.

Sexta-feira, 30 de julho de 2010. Todo o submundo estava em alerta. Um dia antes, a Marinha executou o plano de capturar o cara, o que acabou na morte dele naquele mesmo dia. Gerson, desde ontem e desde bem cedo hoje — já que passou a madrugada inteira acordado — me avisou que a gente ia voltar pra Honduras. A situação aqui logo ficaria insustentável, e era preciso fugir o quanto antes. Gerson estava muito alterado, tentando ficar alerta a tudo. Fez umas ligações pra Honduras, tentando que fossem atendidas na hora. Ele tava desesperado atrás de uma saída pra sumir com a mulher dessa merda toda.

Ao meio-dia, sem avisar ninguém, eles saíram de fininho do povoado. Iam em direção a Aguascalientes e esperavam pegar um voo pra Cidade do México. E de lá, um voo direto pra San Pedro Sula. A estrada tava cheia de fiscalização, e Gerson agradeceu que a gravidez de Melissa facilitasse as coisas. Mal os policiais viam ela, e já deixavam eles seguirem viagem. Tudo ia bem, e parecia que o plano ia sair como o esperado.

A poucos quilômetros de chegar em Aguascalientes, a bexiga de uma grávida fez efeito. Melissa pediu pra Gerson parar no banheiro. E ele fez isso quando chegou num Oxxo que ficava na beira da estrada. A mulher grávida pediu ajuda pro homem dela pra conseguir sair, e ao recebê-la rápido, caminhando em direção à porta de entrada do banheiro feminino. Gerson decidiu entrar pra comprar cigarros, precisava acalmar os nervos que o consumiam. Olhando fixamente pra prateleira onde estavam as garrafas de bebida, pensou em comprar uma pra relaxar mais rápido. Não se decidia qual pegar. E, absorto nos pensamentos, não pensou em ficar alerta. Quando percebeu, os fuzileiros navais já estavam lá dentro... Também estavam fazendo compras no caminho. 😬 Mas a surpresa de Gerson aumentou o nervosismo dele, e ele rapidamente pagou os cigarros com uma nota, sem esperar o troco. Se mexeu e entrou rápido no carro. Então ligou o motor e, sem pensar na Melissa, arrancou. Os fuzileiros, ao verem a cena, não demoraram a largar as compras de lado e saíram atrás dele. O preto avançou uns 50 ou 60 metros em velocidade ainda normal, esperando o motor girar o mais rápido possível. Quando chegou a mais de 100 km/h, já tendo percorrido uns 300 metros, os fuzileiros iam atrás dele, já colados no rabo dele. Gerson começou a manobrar, esperando uma distração que o ajudasse a escapar. Mas a marinha já era muito experiente em perseguições contra os narcotraficantes. Suando em bicas, Gerson abriu o porta-luvas e tirou uma pistola automática Smith & Wesson. Pisou fundo no acelerador e, desviando de carros, começou a atirar nos fuzileiros. Eles, por sua vez, protegendo os civis, iniciaram manobras de captura sem ainda atirar no carro do preto. Avançaram um quilômetro e meio. E aos poucos isso surtiu efeito, conseguindo isolar os civis e cercar o hondurenho com as caminhonetes. Forçaram ele a sair da pista e o direcionaram pra entrar no terreno pedregoso e contornar as árvores do bosque. Então começaram a atirar, os impactos acertaram em cheio a frágil lataria, fazendo ela em pedaços. Um impacto raspou o ombro direito e o hondurenho soltou a arma, enquanto perdia o controle do carro. Tudo passou tão rápido então. Certamente os Memórias da vida dele passaram num flash instantâneo. A infância de pobreza extrema, os anos difíceis, a ascensão no crime, os grandes negócios, mas ele focou principalmente na vida que levou até hoje ao lado da loira. As curvas dela, os peitos cheios de porra, a bunda imensa e aquela carinha de sonho. O pau dele perfurando aquela buceta milagrosa e a barriga grande que ele fez crescer. A vida a dois saindo pra passear, as tarefas de casa e a comida caseira deliciosa que ele aprendeu a saborear da mulher dele. O tempero gostoso de um ensopado de carne. E terminar um dia pesado só com beijos... As lágrimas escorreram depressa pelo rosto duro de Gerson, que chorava como um menino ao ver tudo perdido. Não era a dor no ombro que o afligia, era a tristeza de saber que não conheceria o filho dele. Em breves instantes, o vento na sua cadência suave levou as memórias de Gerson. Uma árvore grande destruída pelo impacto de um carro que entrou como um míssil. Entre galhos quebrados e ferros e vidros estilhaçados. Ficou o corpo destruído de Gerson Moncada. Certamente, a bexiga de uma mulher grávida dá grandes problemas conforme a gravidez avança. Mas naquele dia, parei pra pensar que foi uma grande sorte. Pouco depois de sair do banheiro, o Gerson e o carro não estavam mais lá. Confusa e nervosa, entrei no Oxxo pra perguntar por um homem de cor, mas não foi necessário. Os funcionários e o pessoal que estava ali logo me contaram. Fiquei sabendo da história dos policiais e do negro que fugiu apavorado ao vê-los. Jorros imensos de lágrimas escorriam dos meus olhos. O pessoal olhava e eu falei. — É meu marido, de quem vocês estão falando 😫 Aí ficaram me olhando com pena ao perceber a nova vida que eu carregava na barriga. Como pude, pedi um celular pra um funcionário do lugar. E liguei pra casa do Tomás, minha antiga casa, por ser o único lugar de onde lembrava o telefone. Graças a Deus, minha Nana atendeu. — Alô... Agradeci ao céu por não ser o Tomás. E então, chorando, falei Contei tudo de uma vez pra minha Nana. — Nana!!! Meu marido tá sendo perseguido pelo exército. E me largou no meio da estrada!!! Minha nana, assustada, gritou: — Deus do céu!! Minha menina, cadê você, me diz onde tá que eu vou te ajudar... Eu não soube o que dizer, e perguntei pro cara que me emprestou o celular onde caralhos eu tava. O homem pediu o telefone de volta e, explicando tudinho pra minha Nana, disse onde eu estava. Fiquei um tempão falando com minha Nana, tava sozinha cuidando da Nina. Pedi pra ela não contar. Mas foi inevitável que ela soubesse, o susto que minha Nana tava sentindo denunciou ela e logo tava com minha filha no telefone. — Vou aí te buscar, Mami, não sai daí. Vou buscar ajuda, espera quietinha, já tô indoooo!!! Eu, assustada, implorei: — Por favor, Nina, seu pai não pode saber, não quero ver ele, nem que ele me veja assim. Promete... Nina foi bem sincera. — Mami, tô morrendo de vontade de chegar aí, não prometo nada. E desligou... Fiquei paralisada, torcendo pra não ser o Tomás. Daí a pouco, ver as ambulâncias passando e mais fuzileiros navais me deixou pior ainda. 😭 Os caras do Oxxo me acalmaram e me levaram pro depósito deles, longe dos olhares dos curiosos. Me ofereceram um sanduíche e uma bebida, mas eu tava em choque e não comi nada. De tarde, a porta do depósito abriu e a Nina entrou correndo, atrás dela vinham a Paola e a Beatriz. Me abraçaram e a gente começou a chorar horrores. Implorei pra elas me levarem pra onde o Gerson estivesse. E, pra minha surpresa, elas toparam. Saímos de lá agradecendo a ajuda. E fomos pro lugar onde a presença de curiosos e viaturas era evidente. Quando chegamos; uma fita da polícia bloqueava a passagem. Só a pé dava pra saber alguma coisa. A Nina se ofereceu pra ver o que tinha acontecido. Ela disse: — Me espera aqui, mamãe. E eu fiz isso. Juntei minhas mãozinhas implorando a Deus que o Gerson estivesse bem. 🙏 Depois de um tempão, a Nina apareceu pálida e assustada. Chorando, supliquei: — Filha, me diz o que houve. 😭 Ela, chorando, falou: — Sinto muito, mamãe, seu marido já tá com Deus... — Quêeeee!!! 😱😭😭 Fiquei louca de dor, de desespero, pensando que isso era um pesadelo. Mas não era, os abraços das minhas filhas logo viraram braços segurando minha queda. Porque eu tinha desmaiado...

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