Voltar de trem depois do trabalho, apertado, cansado, pode-se dizer que dessa vez foi um deleite, um prazer inesperado considerando as circunstâncias.
Devo admitir que mal entrei tive sorte, pois fiquei encostado naquele encosto de assentos que fica ao lado das portas, lugar estrategicamente cobiçado quando se trata de descer.
De Once saiu lotado. Em Caballito encheu mais. Em Flores encheu ainda mais.
É de não acreditar na capacidade elástica dos vagões, pois quando a gente pensa que não cabe mais ninguém, na estação seguinte, essa observação deixa de fazer sentido. Sempre entram mais. Mas como disse, dessa vez o sofrido e desconfortável retorno, o amontoado de corpos e mais corpos, foi uma verdadeira bênção.
Foi justamente na estação de Flores que começou essa viagem prazerosa irrepetivelmente inédita.
****
Fiquei o tempo todo com aquele formigamento, não sei por quê. Foi um daqueles dias estranhos em que a excitação está à flor da pele. Um daqueles dias em que você se sente plena, desinibida, com as rédeas do prazer exageradamente curtas, balançando nos dedos que, instintivamente, estão predispostos à carícia.
Poderia dizer que me senti totalmente atraente, todos os olhares eram meus, todos os desejos passeando pela minha pele, em um perfeito e fresco bem-estar, onde o prazer de mostrar ecoava a cada passo.
Trabalho no Banco que fica em frente à Praça Flores, e desde que entrei fiquei com essa sensação. Não houve homem que não tenha me olhado, os que atendi e os que não também, de todas as cabines, todas as mesas, na frente deles ou atrás, colegas e desconhecidos, senti o tempo todo que me percorriam com foco de desejo.
Será verdade o que dizem sobre os feromônios que segregamos naturalmente, pois parece que quando a gente se sente assim, meio esquentada, os caras, como animais no cio que são, sentem nosso estado à distância…
*****
O dia tinha sido exaustivo. Ser office boy na A cidade de Buenos Aires é um calvário bíblico, incrustada de cimento e corpos que se chocam sem pedir desculpas, de humores que se anulam, e grunhidos de violência que se destacam, ainda mais, em seguranças e recepcionistas mal pagos, que despejam sobre você toda a sua existência desgraçada de sua infelicidade cinzenta.
Reclamações pelo calor, reclamações pelo frio, gritos, reproches, buzinas, fumaça, pedestres kamikazes, policiais corruptos, carros assassinos em velocidade incalculável, maltratadores por esporte, e todos os demais componentes dessa selva podre de todos os dias, opressiva, doentia, e que como desfecho do final da jornada diária, se coroa com a volta para casa nas condições nefastas do transporte que você escolher. A mim me cabe o trem. Mas se todos os dias fossem como esse...
De Caballito a Flores a distância se mede, nessa hora, em movimentos de encaixe de peças com forma de corpos, que ficam como entram, no melhor dos casos, e vão se moldando ao espaço do vagão, à medida que este desliza pelos trilhos.
Esse dia não era exceção. Quando se abriram as portas, uma enxurrada de gente a passinhos curtos, foi se agregando ao conglomerado de almas que já estavam dentro, quebrando toda teoria sobre a impenetrabilidade da matéria. Nisso estava quando a vi, mal subiu. Sua vestimenta decididamente formal a denunciava como secretária ou algo do tipo, melena bruna bem cuidada presa, que se desvanecia brilhante e perfumada sobre a impecável camisa branca, que se perdia dentro de uma saia justíssima, que contornava uma bunda redonda, de onde nasciam umas pernas musculosamente fortes, cobertas de meias altas transparentes no tom. Acho que ela me olhou, talvez imaginei, mas o que não foi imaginação foi que seu corpo ficou totalmente apoiado sobre o meu, dando-me as costas, quase me pressionando contra o encosto.
****
Chegou a hora de saída, deixei minha mesa e fui para a sala que usamos como vestiário. Bebi água e fui No banheiro. Fiz xixi e, quando me limpei, fiquei me tocando um pouquinho, de leve, com as pontas dos dedos, cutucando meu clitóris, apertando bem de leve, pra aliviar aquele formigamento de dia inteiro.
Sem perceber, tinha começado a me masturbar, deixando a mente em branco, como um reflexo de relaxamento. Começaram a aparecer na minha mente imagens quentes, bagunçadas, meio embaçadas, mas ardentes, fantasias ou realidades, não sei, minha cabeça foi tomada por formas rápidas que entravam e saíam, agitando minha respiração no ritmo dos círculos que desenhava sobre meu clitóris. O barulho surdo e seco da porta me trouxe de volta à realidade, voltando a mim e percebendo que estava no banheiro do trabalho. Bateram na porta e respondi que estava ocupado. Era minha colega que também tinha vindo pegar suas coisas pra ir embora.
—Já saio— falei, e cortei abruptamente aquele momento de prazer que tinha começado. Me arrumei e saí pra ela entrar. Peguei minhas coisas, dei tchau, bati o ponto e fui pra rua. Atravessei a praça com uma sensação de tesão terrível, o ar roçava através da minha blusa nos meus mamilos, e eu sentia eles endurecendo com aquele contato mínimo. Ao caminhar, os lábios molhados da minha buceta queimavam sem parar. Tive que disfarçar e me tocar um pouco por cima da saia, pra acalmar aquela espécie de febre. Cheguei na estação e comprei a passagem. Subi a escada com uma sensação de orgasmo prestes a chegar. Na plataforma, a sensação ainda continuava e, como o dia todo, comecei a sentir os olhares de todos os caras em mim. Eu olhava pra eles e confirmava que era assim mesmo, me sentia desejada por todos, operários, estudantes, funcionários, velhos, caras… O som estrondoso da buzina rouca me fez voltar à realidade e ver que o trem estava se aproximando. Parou e fiquei de frente pra uma das portas que se abriram e, entre empurrões, consegui um lugar pra entrar…
****
Fiquei imóvel, minha intenção não era encostar nela, mas As circunstâncias da viagem me colocaram numa posição totalmente inesperada, mas por sorte, encontrada. Pedi desculpas na hora, e ela me disse pra não me preocupar, que sabia bem como era viajar todo dia no Sarmiento. Fiquei tranquilo, mas perturbado…
****
Superei a linha da porta com esforço, mas a enxurrada de gente entrando atrás me empurrou pra um dos lados da porta. Atrás de mim ficou um cara que deixei sem ar pela pressão da massa. Fiquei em pé, totalmente em cima do cara, impedindo qualquer tipo de movimento dele. Dava pra sentir as costelas dele em um dos meus cotovelos, então tentei me ajustar pra não machucá-lo. Ele me pediu desculpas, como se fosse ele quem tivesse me machucado. Mal consegui virar a cabeça pra dizer pra ele não se preocupar, enquanto tentava não pisar nele. Na tentativa, a única coisa que consegui foi que minha bunda ficasse totalmente apoiada no corpo dele, embora até aquele momento eu não soubesse direito em que parte.
O trem arrancou e a estabilidade começou a surgir naturalmente, conforme avançava sobre os trilhos irregulares…
****
A gatinha estava gostosa pra caralho. Tinha ela tão colada no meu corpo que dava pra sentir o perfume dela, e até alguns fios de cabelo entraram na minha boca. Não sei quantos anos ela teria, mas era tão atraente, tão sensual, que não conseguia pensar em outra coisa senão no corpo dela, inteiramente apoiado no meu, e naquela bunda carnuda que ficou diretamente ancorada na altura do meu volume. Tava com vergonha, mas o que tanto temia estava se materializando. Aos poucos, tentava deixar minha mente em branco, esquecer que o que tinha em cima de mim era uma mulher deslumbrante. Queria evitar, por todos os meios, que meu corpo me traísse, que denunciasse minha tesão de cara excitado. Não podia deixar o pau ficar duro… o que essa beleza iria pensar… será que eu era um degenerado daqueles que esfregam nas mulheres nos ônibus e trens?
Eu estava me tornando, sem conseguir evitar, em… um daqueles caras contra os quais sempre desabafei, esses babacas abusivos que merecem levar uma surra de doido, que se aproveitam de situações como essa para descarregar toda a libido em mulheres indefesas…
Um conflito moral estava me invadindo. E também uma ereção difícil de disfarçar…
****
Através da saia justa percebi que algo começava a endurecer sobre minhas nádegas. No primeiro momento atribuí à sensação de tesão que vinha acumulando, aquele estado de excitação efervescente que durante todo o dia tomou conta dos meus instintos mais íntimos e ardentes, mas assim que as portas se fecharam, abriu-se em mim o apetite inacabado da sensação de orgasmo. Ri por dentro, a situação não podia ser mais propícia.
Tentando não ficar na evidência, recostei-me um pouco mais para trás e pude comprovar que o volume do cara estava bem ali, em plena metamorfose, crescendo naquela quietude ativa. Fiquei excitada pensando na reação dele, na imobilidade pré-fabricada, tentando decifrar o que se passava na cabeça dele. O formigamento se transformou em coceira. Imperceptivelmente, coloquei uma mão entre as pernas para acariciar suavemente minha buceta, que a essa altura começava a evidenciar uma ardência contundente. Apertei-me ainda mais no volume já duro do cara, que tentou recuar, talvez por reflexo, mas impedido pelo encosto que o continha. Senti a respiração dele acelerar, os nervos. Aquela atitude de passividade me excitou. Apoiei a bunda com mais força e contraí, para que ele sentisse que eu estava abrindo e fechando de propósito sobre o pau. Até chegarmos em Floresta o mantive assim, encurralado com meus movimentos internos, que ajudados pelas carícias que eu mesma me infligia, me fizerem gozar silenciosamente. O clitóris pulsava como um coração, independente do corpo. O trem já tinha arrancado. De Villa Luro, com mais gente a bordo, mais corpos apertados, e totalmente mais excitada...
****
Não aguentava mais, o movimento do trem a trazia para mim com mais força, e me era impossível não apoiá-la, não podia ir para trás, estava encurralado pelo corpo dela e pelo encosto. Tinha ficado duro de um jeito que até as bolas doíam. Mas o pior passava pela minha cabeça... tesão e moral se enfrentavam numa batalha perdida de antemão. Estava sitiado, entregando a arma diante de um inimigo indefeso mas forte, plantado diante de mim para me devorar com sua simples presença. O que estava acontecendo? Era minha imaginação perversa ou essa mulher estava brincando comigo?
Me dificultava pensar com clareza. Não conseguia imaginar outra coisa que não fosse aquela bunda se enfiando em mim, me fazendo sentir o rigor, aquele desejo latente incontrolável.
Com suprema vergonha, não conseguia evitar baixar o olhar e vê-lo ali, apoiado, incrustado sobre meu volume culpado, safado, pecaminoso... e ainda nem tínhamos chegado em Liniers...
****
O tesão me transportou para uma estação da qual não iria mais descer. Depois de gozar como tinha gozado, contrariamente ao que imaginei, meu estado de impunidade se magnificou. Meus movimentos já não guardavam nenhum tipo de reparo. Não me importava com nada, e menos ainda quando ouvi o cara que tinha como prisioneiro da minha lascívia encoberta, me perguntar se eu descia na próxima. A única resposta que dei foi um movimento negativo de cabeça, acompanhado de um rebolado circular de quadril. Me impulsei para trás, apertando-o descaradamente, fazendo-o sentir a separação das minhas nádegas, comendo ele com minha fenda através dos tecidos que nos vestiam, deixando claro que estava o violentando sem escrúpulos..., até me atrevi a levar minha nuca até seu rosto, e passar para trás a mão que me restava desocupada, para acariciá-lo perto da virilha. Na altura do estádio do Vélez Sarsfield, já me esfregava nele, subindo e descendo. Eu gostei muito, de verdade. Cheguei ao orgasmo número não sei qual, bem na hora em que pelas janelas dava pra ver a galera da plataforma passando, como se fosse uma esteira rolante. Quando as portas abriram, girei no meu eixo, não sem dificuldade, soltando ele, olhando nos olhos dele pela primeira vez em toda a viagem. Levantei as pálpebras, em sinal de agradecimento e cumplicidade. O cara ficou me encarando, estupefato, lá da plataforma, enquanto gente apressada passava pelos lados, esbarrando nele, sem que ele saísse da perplexidade.
O fluxo de troca de quem desce e sobe na estação Liniers é notório. Ali alguns assentos esvaziaram, e consegui me sentar, satisfeita, finalmente, recuperando o fôlego, a compostura, e cochilando placidamente até chegar na estação Morón.
****
Minhas culpas se esfumaram no momento em que me preparei para descer. Aquele turbilhão de imagens, vergonhas e autoflagelação, se dissolveu no mesmo instante em que perguntei se ela descia em Liniers, pois foi aí que não restaram dúvidas de que era ela que estava me dominando. Estava brincando com meu sentimento inocente de culpa. A gostosa ficou se esfregando em mim a viagem toda, e pelo visto, naquela altura, já não importava se a situação ficasse evidente. Até passou a mão no meu pau com um descaramento que quase me fez gozar na hora… Quando desceu e me fez olhinhos, senti que não conseguia andar de tão duro que estava. Desci e fiquei na plataforma, vendo como ela se sentou num assento livre, como se nada tivesse acontecido. Eu estava imóvel, esperando que ninguém percebesse a ereção. Tentava disfarçar curvando-me pra frente, pra não ficar tão visível. Além disso, não conseguia andar do jeito que estava. Precisava que ele amolecesse, e isso só aconteceu depois que passaram quatro trens. Finalmente, consegui me soltar do balcão da lanchonete, onde fiquei inclinado, tomando um refri, esperando o tempo desinchar minha humanidade…
12 comentários - Volta de Trem