Aproveitem, meus amigos........
Ensaio sobre as tetas
por Pedro Mairal
Agora que o calor chega e por toda a cidade brotam as tetas com sua vanguarda promissora de um tempo mole, vale talvez se entregar a essa curiosidade primária que as tetas geram na vida dos homens. Primeiro, estão as tetas paradigmáticas, formativas. As tetas alarmantes do cinema ou da TV. Depende da idade de cada um. Para uma geração, foram as tetas da Loren em *Bocaccio 70*, ou da Anita Ekberg em *A Doce Vida*. Para outros, foram as tetas da Cucinotta em *O Carteiro*, ou as tetas já mais estilizadas e harmônicas da Mônica Bellucci em *Malena*. O cinema italiano sempre foi fornecedor de grandes tetas mediterrâneas.
As tetas americanas, por outro lado, sempre ficaram em segundo plano, atrás das explosões e dos carros batendo. Os Estados Unidos nunca foram e nem são um bom fornecedor de tetas, com exceção das tetas da Lynda Carter em *Mulher-Maravilha*, que eram bem notáveis – tetas atléticas, altivas, heroicas, incrivelmente controladas por aquele corset com estrelinhas. A Mulher-Maravilha provocou em muitos as primeiras inquietações masculinas, o primeiro desassossego, aquela sensação terrível de falta que nos deixava tremendo na frente da TV e do Nescau, sem entender direito por quê. Mas, no geral, as tetas yankees costumam ser mais siliconadas, como as da Pamela Anderson em *Baywatch*. Ou, se são naturais – como no caso da morena totêmica Tyra Banks – não têm graça nem são sexies. Tyra é tão pouco sexy que, no programa dela, convidou um famoso cirurgião plástico para provar, ao vivo, que as tetas dela são naturais. O cirurgião apalpou elas e fez uma mamografia ao vivo, na frente do público convidado. Tyra, emocionada, teve a voz embargada explicando que fazia aquilo porque estava cansada de falarem que as tetas dela não eram dela.
Em nível nacional, a Coca Sarli ainda não foi destronada do posto de diva exclusiva do fetichismo mamário, com uma filmografia inteira dedicada às suas Tetas panorâmicas, os peitos dela como se fossem patrocinados pela secretaria nacional de turismo, porque apareciam em todos os lagos, montanhas, cachoeiras do país, dando uma categoria geográfica àqueles peitos exibidos junto com a exuberância da paisagem. As longas flutuações dela na hidrografia argentina não têm e talvez nunca mais tenham comparação.
Depois dos peitos virtuais e midiáticos, aparecem na vida da gente os peitos reais, talvez ainda não palpáveis, mas visíveis. Aqueles peitos que a gente viu pela primeira vez nus, ao vivo, nunca mais se esquece. Quando eu tava no segundo ano do ensino médio, fiquei de recuperação em Português e tive que ter aulas particulares de análise sintática com uma professora que vinha em casa. Ela se chamava Teresa. Eu tinha quinze anos e ela não passava dos vinte e cinco. Era dezembro e tava calor. Teresa vinha pra casa com umas regatas soltinhas, sem sutiã. Um dia, sentados juntos, debruçados sobre as frases pra analisar, vi pelo decote os peitos dela, as pontas dos peitos, os mamilos rosados. Senti uma alteração violenta, como se todo o meu sangue parasse de repente e começasse a fluir na direção oposta. Ela percebeu e ajeitou a regata sem se preocupar muito, deixando que acontecesse de novo várias vezes. Tive mais aulas, estudei pra caralho e fiz uma prova muito boa. Nunca esqueci das estruturas sintáticas da Teresa. O relâmpago clandestino dos peitos dela de vinte e poucos anos deu um erotismo pra matéria que nenhum professor do colégio conseguiria infundir jamais.
O olhar dos homens dobra. Quando passa uma mulher com uns peitos bonitos, o olhar dos homens se curva, busca, se intromete por entre as dobras, por entre os decotes ou os botões mal fechados, e adivinha, pesa, sentencia. As mulheres modelam os peitos delas como querem. A roupa pode levantar os peitos, escondê-los, apertá-los, transparentá-los, sugerí-los, aumentá-los. É bom conhecer todos esses Truques, não tanto pra não se deixar enganar, mas sim pra participar e se entregar ao jogo. As tetas dos anos cinquenta, por exemplo, eram cônicas, faziam parte de um torso sólido e apontavam ameaçadoras; depois, nos anos sessenta, as tetas sumiram um pouco de cena no hippismo das pacifistas sem sutiã; nos anos oitenta começou a febre dos silicones; e agora as tetas são como balões apertados e empurrados pra cima pelo famoso wonder bra. Tem que levar em conta que o wonder bra dá forma, mas também rigidez. E é uma pena porque não tem nada como aquele tremor hipnótico que vai num ritmo diferente dos passos da mulher, tipo um contrarritmo, uma síncope própria das tetas naturais em ação.
As tetas têm vida própria, isso é sabido; não são como a bunda, por exemplo, que se mexe comandada pela dona. As tetas parecem difíceis de controlar. Em ocasiões de cavalgadas, escadas e trote pra pegar o ônibus, podem até ser engraçadas, desajeitadas e pouco sérias. Algumas mulheres, no entanto, têm a habilidade de dirigi-las. Nossa deslumbrante Carla Conte, por exemplo, sabe fazer um mínimo taconeio entusiasmado, um rebote de afirmação, de pura simpatia, de "tô aqui", que provoca um tremor pra cima que termina numa espécie de vibração de trampolim na altura das tetas plenipotenciárias de mina de bairro. Um movimento que conquistou telespectadores e que para o zapping. Dentro das mudanças evolutivas, que vão do homo sapiens ao homo midiático, a função mais importante das tetas hoje em dia já não é a reprodução, mas a capacidade de aumentar o ibope.
Mas voltando pras tetas reais deste lado da tela, como se chega nelas, como se alcançam e revelam? As mulheres peitudas têm uma habilidade desenvolvida durante anos pra frear as mãos dos homens-polvo. O homem-polvo é aquele que não dá conta, que já tá com as duas mãos agarrando cada metade da bunda e quer mais, porque Ele quer também apalpar ao mesmo tempo a abundância dos peitos, e é como se nascessem dois braços extras pra alcançar esse objetivo. Mas as mulheres peitudas têm muita habilidade, sabem colocar o cotovelo na frente e bloquear qualquer tentativa de avanço. É preciso aprender que, se uma mulher para uma mão, não se deve insistir, mas tentar mais adiante por outro lado, devagar, sem pressa. Nunca, jamais se deve tentar pegar nos peitos de uma mulher antes de dar um beijo nela, porque seria um fracasso (há exceções, tem abordagens bem quentes por trás que vêm com um aperto duplo nos peitos e um beijo no pescoço, mas não são muito comuns entre desconhecidos). No geral, os peitos são explorados durante o beijo, no auge da paixão do beijo. Uma vez instalados nessa vertigem, dá pra subir uma mão pelas costas que explore por baixo do elástico do fecho do sutiã, mas sem desabotoar nada ainda, numa carícia que chegue até a nuca, que disfarce um pouco mas ao mesmo tempo diga "já estou aqui debaixo dessa lycra apertada e não vou parar". Se a mulher aceitar tacitamente (porque nunca se deve perguntar nem pedir permissão), aí sim, dá pra tentar desabotoar, desmontar a engenharia delicada do sutiã, desativar aquela tensão tão gostosa, o elástico, o apertado dos peitos presos entre desenhos de laços e florzinhas. E então chega a verdade, sem truques têxteis íntimos, a dupla realidade pura e palpável. Aí aparecem, surgem em estéreo, se desdobram os peitos em todas as suas variantes como exemplos da biodiversidade. Peitos duros, novos, peitos caídos, pesados, peitos moles, imensos, peitos sem queda, sem dobra, como cúpulas altas de mamilos rosados, peitos que mal se destacam mas são finalmente encontrados pelas mãos, peitos enormes e cheios, peitos assimétricos, peitos curtos mas pontudos de mamilos duros, peitos lisos de auréolas enormes mal desenhadas, peitos brancos, morenos, com marcas de biquíni, peitos pequeninos e felizes, peitos tímidos. Esquivas, desafiadoras, orgulhosas, guerreiras. Todas lindas, prontas pro beijo, pra língua, pro mordisco leve, e provocando uma sede desesperada quanto maiores, uma atitude ridícula do homem que de repente age como um cachorro cego, faminto e descontrolado.
E mesmo assim essa sede nunca se sacia de verdade. Tem algo misterioso na atração por peitos. Porque, o que se busca nos peitos? As atrações da cintura pra baixo têm um objetivo sempre mais claro e complementar, que acaba se consumando sem muito equívoco. Mas nos peitos, o que os adultos procuram? Que tudo seja um simulacro de amamentação não fecha direito. Muito edipiano e batido essa de tentar repetir aquele vínculo nutritivo com a mãe. E além disso, o que as mulheres oferecem quando oferecem os peitos? Dizem que a existência dos peitos tem um propósito de atrativo sexual (além da função alimentar). Dizem que, ao ficarem eretas, as fêmeas humanas tiveram que desenvolver uma espécie de reduplicação da bunda na parte da frente do corpo pra atrair os machos. Esse seria o papel dessas duas esferas juntas na altura das costelas superiores: ser um chamariz parecido com uma bunda chamativa. A explicação parece bem ridícula e talvez por isso mesmo – porque o corpo humano é bem ridículo – seja verdade.
Os peitos são inevitáveis. Ímãs pros olhos. Os peitos convidam pro mergulho pra passar um verão entre esses dois hemisférios. São mais fortes que a gente. Tem uma força hormonal e animal que supera qualquer tentativa repressiva e civilizatória de não olhar, de não ficar igual um primata vesgo de desejo. Olhar o tempo todo nos olhos de uma mulher com um bom decote é um exercício difícil de autocontrole, é quase impossível que os olhos não escorreguem pra essas curvas, que não caiam e se entreguem com todo o olhar à gravitação da redondeza da terra. Porque tem peitos que são insustentáveis, e provocam incredulidade. A gente olha uma vez e volta a Olhar pensando: "Será que vi direito?". E sim, a gente viu direito, e essa visão gera uma inquietação, uma insatisfação total com a vida. A gente quer entrar naquele mundo macio e suave, se sente longe daqueles peitos, desamparado como um soldado na trincheira.
O gosto anoréxico da época propõe um ideal de mulher magra, mas com peitões grandes, algo raro que só acontece em casos prodigiosos. Por isso a superabundância de peitos falsos na mídia, peitos que ficam estrábicos, desorientados, e às vezes meio ortopédicos. Exigem mulheres esqueléticas que acabam colocando silicone, porque sem prótese teriam uns peitos apenas protuberantes, peitos de bailarina de balé; uma beleza sutil e sugerida que a TV parece não aceitar.
Uma regra estranha, mas frequente, faz com que as peitudas sejam bundudas chatas, e as bundudas sejam chatas em cima. Como se na distribuição fosse preciso escolher uma ou outra opção. A mulher latino-americana costuma ser mais dotada de rabo do que de peito. A mulher brasileira média, por exemplo, com sua mistura afro-tupi, costuma ter umas bundas poderosas e ser bem chata de peito. Já as mulheres europeias, nórdicas, costumam apresentar — como ouvi uma vez num canal a cabo — um volume mamário importante. As alemãs teutônicas, as suecas, as valquírias escandinavas, são mulheres com toda a vida pela frente. Avançam heroicas com grandes peitos redondos, dourados, divergentes. Na França, se faz mais um culto aos peitos do que à bunda, e no entanto as francesas — com exceções normandas de tirar o fôlego, como a impressionante Laetitia Casta — costumam ser magras, escassas e finas.
Talvez os peitos não sejam indispensáveis, mas dão alegria. Por sorte, as argentinas, graças ao encontro dos sangues nativos e da imigração mediterrânea, costumam ter medidas harmônicas, o que quer dizer que são boas de todos os lados. E se por acaso a gente se apaixonar por uma mulher sem peitos, vai ter que aguentar, amar ela, e dar aquele de vez em quando umas espiadinhas só, disfarçando. Tem que ter cuidado. Um amigo teve um lapso que apressou a separação dele. A namorada dele, que era muito chata e ciumenta, cansou de pegar ele olhando decotes na rua e vaticinou: Você um dia vai me largar por uma peituda. E ele, querendo se consertar, respondeu: Sem você eu estaria perdido, amor, você é minha tábua de salvação.
Ensaio sobre as tetas
por Pedro Mairal
Agora que o calor chega e por toda a cidade brotam as tetas com sua vanguarda promissora de um tempo mole, vale talvez se entregar a essa curiosidade primária que as tetas geram na vida dos homens. Primeiro, estão as tetas paradigmáticas, formativas. As tetas alarmantes do cinema ou da TV. Depende da idade de cada um. Para uma geração, foram as tetas da Loren em *Bocaccio 70*, ou da Anita Ekberg em *A Doce Vida*. Para outros, foram as tetas da Cucinotta em *O Carteiro*, ou as tetas já mais estilizadas e harmônicas da Mônica Bellucci em *Malena*. O cinema italiano sempre foi fornecedor de grandes tetas mediterrâneas.
As tetas americanas, por outro lado, sempre ficaram em segundo plano, atrás das explosões e dos carros batendo. Os Estados Unidos nunca foram e nem são um bom fornecedor de tetas, com exceção das tetas da Lynda Carter em *Mulher-Maravilha*, que eram bem notáveis – tetas atléticas, altivas, heroicas, incrivelmente controladas por aquele corset com estrelinhas. A Mulher-Maravilha provocou em muitos as primeiras inquietações masculinas, o primeiro desassossego, aquela sensação terrível de falta que nos deixava tremendo na frente da TV e do Nescau, sem entender direito por quê. Mas, no geral, as tetas yankees costumam ser mais siliconadas, como as da Pamela Anderson em *Baywatch*. Ou, se são naturais – como no caso da morena totêmica Tyra Banks – não têm graça nem são sexies. Tyra é tão pouco sexy que, no programa dela, convidou um famoso cirurgião plástico para provar, ao vivo, que as tetas dela são naturais. O cirurgião apalpou elas e fez uma mamografia ao vivo, na frente do público convidado. Tyra, emocionada, teve a voz embargada explicando que fazia aquilo porque estava cansada de falarem que as tetas dela não eram dela.
Em nível nacional, a Coca Sarli ainda não foi destronada do posto de diva exclusiva do fetichismo mamário, com uma filmografia inteira dedicada às suas Tetas panorâmicas, os peitos dela como se fossem patrocinados pela secretaria nacional de turismo, porque apareciam em todos os lagos, montanhas, cachoeiras do país, dando uma categoria geográfica àqueles peitos exibidos junto com a exuberância da paisagem. As longas flutuações dela na hidrografia argentina não têm e talvez nunca mais tenham comparação.
Depois dos peitos virtuais e midiáticos, aparecem na vida da gente os peitos reais, talvez ainda não palpáveis, mas visíveis. Aqueles peitos que a gente viu pela primeira vez nus, ao vivo, nunca mais se esquece. Quando eu tava no segundo ano do ensino médio, fiquei de recuperação em Português e tive que ter aulas particulares de análise sintática com uma professora que vinha em casa. Ela se chamava Teresa. Eu tinha quinze anos e ela não passava dos vinte e cinco. Era dezembro e tava calor. Teresa vinha pra casa com umas regatas soltinhas, sem sutiã. Um dia, sentados juntos, debruçados sobre as frases pra analisar, vi pelo decote os peitos dela, as pontas dos peitos, os mamilos rosados. Senti uma alteração violenta, como se todo o meu sangue parasse de repente e começasse a fluir na direção oposta. Ela percebeu e ajeitou a regata sem se preocupar muito, deixando que acontecesse de novo várias vezes. Tive mais aulas, estudei pra caralho e fiz uma prova muito boa. Nunca esqueci das estruturas sintáticas da Teresa. O relâmpago clandestino dos peitos dela de vinte e poucos anos deu um erotismo pra matéria que nenhum professor do colégio conseguiria infundir jamais.
O olhar dos homens dobra. Quando passa uma mulher com uns peitos bonitos, o olhar dos homens se curva, busca, se intromete por entre as dobras, por entre os decotes ou os botões mal fechados, e adivinha, pesa, sentencia. As mulheres modelam os peitos delas como querem. A roupa pode levantar os peitos, escondê-los, apertá-los, transparentá-los, sugerí-los, aumentá-los. É bom conhecer todos esses Truques, não tanto pra não se deixar enganar, mas sim pra participar e se entregar ao jogo. As tetas dos anos cinquenta, por exemplo, eram cônicas, faziam parte de um torso sólido e apontavam ameaçadoras; depois, nos anos sessenta, as tetas sumiram um pouco de cena no hippismo das pacifistas sem sutiã; nos anos oitenta começou a febre dos silicones; e agora as tetas são como balões apertados e empurrados pra cima pelo famoso wonder bra. Tem que levar em conta que o wonder bra dá forma, mas também rigidez. E é uma pena porque não tem nada como aquele tremor hipnótico que vai num ritmo diferente dos passos da mulher, tipo um contrarritmo, uma síncope própria das tetas naturais em ação.
As tetas têm vida própria, isso é sabido; não são como a bunda, por exemplo, que se mexe comandada pela dona. As tetas parecem difíceis de controlar. Em ocasiões de cavalgadas, escadas e trote pra pegar o ônibus, podem até ser engraçadas, desajeitadas e pouco sérias. Algumas mulheres, no entanto, têm a habilidade de dirigi-las. Nossa deslumbrante Carla Conte, por exemplo, sabe fazer um mínimo taconeio entusiasmado, um rebote de afirmação, de pura simpatia, de "tô aqui", que provoca um tremor pra cima que termina numa espécie de vibração de trampolim na altura das tetas plenipotenciárias de mina de bairro. Um movimento que conquistou telespectadores e que para o zapping. Dentro das mudanças evolutivas, que vão do homo sapiens ao homo midiático, a função mais importante das tetas hoje em dia já não é a reprodução, mas a capacidade de aumentar o ibope.
Mas voltando pras tetas reais deste lado da tela, como se chega nelas, como se alcançam e revelam? As mulheres peitudas têm uma habilidade desenvolvida durante anos pra frear as mãos dos homens-polvo. O homem-polvo é aquele que não dá conta, que já tá com as duas mãos agarrando cada metade da bunda e quer mais, porque Ele quer também apalpar ao mesmo tempo a abundância dos peitos, e é como se nascessem dois braços extras pra alcançar esse objetivo. Mas as mulheres peitudas têm muita habilidade, sabem colocar o cotovelo na frente e bloquear qualquer tentativa de avanço. É preciso aprender que, se uma mulher para uma mão, não se deve insistir, mas tentar mais adiante por outro lado, devagar, sem pressa. Nunca, jamais se deve tentar pegar nos peitos de uma mulher antes de dar um beijo nela, porque seria um fracasso (há exceções, tem abordagens bem quentes por trás que vêm com um aperto duplo nos peitos e um beijo no pescoço, mas não são muito comuns entre desconhecidos). No geral, os peitos são explorados durante o beijo, no auge da paixão do beijo. Uma vez instalados nessa vertigem, dá pra subir uma mão pelas costas que explore por baixo do elástico do fecho do sutiã, mas sem desabotoar nada ainda, numa carícia que chegue até a nuca, que disfarce um pouco mas ao mesmo tempo diga "já estou aqui debaixo dessa lycra apertada e não vou parar". Se a mulher aceitar tacitamente (porque nunca se deve perguntar nem pedir permissão), aí sim, dá pra tentar desabotoar, desmontar a engenharia delicada do sutiã, desativar aquela tensão tão gostosa, o elástico, o apertado dos peitos presos entre desenhos de laços e florzinhas. E então chega a verdade, sem truques têxteis íntimos, a dupla realidade pura e palpável. Aí aparecem, surgem em estéreo, se desdobram os peitos em todas as suas variantes como exemplos da biodiversidade. Peitos duros, novos, peitos caídos, pesados, peitos moles, imensos, peitos sem queda, sem dobra, como cúpulas altas de mamilos rosados, peitos que mal se destacam mas são finalmente encontrados pelas mãos, peitos enormes e cheios, peitos assimétricos, peitos curtos mas pontudos de mamilos duros, peitos lisos de auréolas enormes mal desenhadas, peitos brancos, morenos, com marcas de biquíni, peitos pequeninos e felizes, peitos tímidos. Esquivas, desafiadoras, orgulhosas, guerreiras. Todas lindas, prontas pro beijo, pra língua, pro mordisco leve, e provocando uma sede desesperada quanto maiores, uma atitude ridícula do homem que de repente age como um cachorro cego, faminto e descontrolado.
E mesmo assim essa sede nunca se sacia de verdade. Tem algo misterioso na atração por peitos. Porque, o que se busca nos peitos? As atrações da cintura pra baixo têm um objetivo sempre mais claro e complementar, que acaba se consumando sem muito equívoco. Mas nos peitos, o que os adultos procuram? Que tudo seja um simulacro de amamentação não fecha direito. Muito edipiano e batido essa de tentar repetir aquele vínculo nutritivo com a mãe. E além disso, o que as mulheres oferecem quando oferecem os peitos? Dizem que a existência dos peitos tem um propósito de atrativo sexual (além da função alimentar). Dizem que, ao ficarem eretas, as fêmeas humanas tiveram que desenvolver uma espécie de reduplicação da bunda na parte da frente do corpo pra atrair os machos. Esse seria o papel dessas duas esferas juntas na altura das costelas superiores: ser um chamariz parecido com uma bunda chamativa. A explicação parece bem ridícula e talvez por isso mesmo – porque o corpo humano é bem ridículo – seja verdade.
Os peitos são inevitáveis. Ímãs pros olhos. Os peitos convidam pro mergulho pra passar um verão entre esses dois hemisférios. São mais fortes que a gente. Tem uma força hormonal e animal que supera qualquer tentativa repressiva e civilizatória de não olhar, de não ficar igual um primata vesgo de desejo. Olhar o tempo todo nos olhos de uma mulher com um bom decote é um exercício difícil de autocontrole, é quase impossível que os olhos não escorreguem pra essas curvas, que não caiam e se entreguem com todo o olhar à gravitação da redondeza da terra. Porque tem peitos que são insustentáveis, e provocam incredulidade. A gente olha uma vez e volta a Olhar pensando: "Será que vi direito?". E sim, a gente viu direito, e essa visão gera uma inquietação, uma insatisfação total com a vida. A gente quer entrar naquele mundo macio e suave, se sente longe daqueles peitos, desamparado como um soldado na trincheira.
O gosto anoréxico da época propõe um ideal de mulher magra, mas com peitões grandes, algo raro que só acontece em casos prodigiosos. Por isso a superabundância de peitos falsos na mídia, peitos que ficam estrábicos, desorientados, e às vezes meio ortopédicos. Exigem mulheres esqueléticas que acabam colocando silicone, porque sem prótese teriam uns peitos apenas protuberantes, peitos de bailarina de balé; uma beleza sutil e sugerida que a TV parece não aceitar.
Uma regra estranha, mas frequente, faz com que as peitudas sejam bundudas chatas, e as bundudas sejam chatas em cima. Como se na distribuição fosse preciso escolher uma ou outra opção. A mulher latino-americana costuma ser mais dotada de rabo do que de peito. A mulher brasileira média, por exemplo, com sua mistura afro-tupi, costuma ter umas bundas poderosas e ser bem chata de peito. Já as mulheres europeias, nórdicas, costumam apresentar — como ouvi uma vez num canal a cabo — um volume mamário importante. As alemãs teutônicas, as suecas, as valquírias escandinavas, são mulheres com toda a vida pela frente. Avançam heroicas com grandes peitos redondos, dourados, divergentes. Na França, se faz mais um culto aos peitos do que à bunda, e no entanto as francesas — com exceções normandas de tirar o fôlego, como a impressionante Laetitia Casta — costumam ser magras, escassas e finas.
Talvez os peitos não sejam indispensáveis, mas dão alegria. Por sorte, as argentinas, graças ao encontro dos sangues nativos e da imigração mediterrânea, costumam ter medidas harmônicas, o que quer dizer que são boas de todos os lados. E se por acaso a gente se apaixonar por uma mulher sem peitos, vai ter que aguentar, amar ela, e dar aquele de vez em quando umas espiadinhas só, disfarçando. Tem que ter cuidado. Um amigo teve um lapso que apressou a separação dele. A namorada dele, que era muito chata e ciumenta, cansou de pegar ele olhando decotes na rua e vaticinou: Você um dia vai me largar por uma peituda. E ele, querendo se consertar, respondeu: Sem você eu estaria perdido, amor, você é minha tábua de salvação.
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