Querido Leitor - Parte 2

Caro Leitor - PARTE II
Nem todas as portas conhecidas nos levam a destinos seguros;
nem tudo que é desconhecido nos conduz inevitavelmente ao abismo."
SexNonVerba.
Caro leitor, não sei ao certo quais foram as motivações que te levaram a tomar uma decisão tão arriscada. Mas confio em ti e sei que vás levantar bem alto a bandeira da decência e, sob esse estandarte, iluminar os passos dessa jovem tão inocente e desesperada. Imagino que teu objetivo talvez tenha sido dar à inexperiente Daniela as ferramentas para que ela conheça e aprenda os aspectos mais difíceis e miseráveis deste mundo. Uma vez adquirida essa experiência, ela poderá, por si mesma, por vontade própria, escolher o caminho certo. Espero não estar enganado…

— Que bom que você ligou! Ainda dá tempo. — Exclamou Carla do outro lado da linha.
— Espera... Ainda não tenho certeza se...
— Ah.
— Talvez eu não devesse ter te... mas lembrei do que você me disse ontem... sobre trabalhar com o corpo... E tá doendo até a bunda de ficar grudada nessa porra de banco de madeira por horas!

Carla teve um ataque de risada do outro lado da linha e Daniela, entre ofendida e envergonhada, quase desligou a ligação. Ela estava falando sério... Tava com vontade de chorar.

— Me desculpa... Sério. Não fica brava. É que soou muito sincero!
— Soou como foi. Tô com um humor da porra.
— Por que você não vem pra casa e a gente conversa um pouco? — Daniela fez uma pausa e Carla aproveitou para completar: — Sem compromisso. Como amigas...
— Ok. Daqui a uma hora passo aí.

O apartamento da Carla era um pouco maior que o que ela alugava, mas muito mais alegre, cuidado e iluminado. Tudo estava impecável. Carla comentou que tinha uma empregada que vinha três vezes por semana fazer a limpeza e as tarefas da casa. Também cozinhava pra ela e cuidava da roupa.

Carla foi até a geladeira pegar duas latas de cerveja e ofereceu uma pra Daniela.

— O que você acha da minha pequena mansão de dois cômodos?
— É linda, iluminada... é divina.
— Vem. Senta.
As duas se sentaram no sofá de dois lugares que tinha na sala.
— A verdade é que Não sei bem por que vim, Carla... Acho que precisava de companhia.
—Bom... te falei que era acompanhante. —brincou.
—Falando sério. Devo estar louca...
—Ou deve estar com o cu doendo de tanto trabalhar na loja de lingerie. —lembrou Carla com um toque de sarcasmo —talvez seja isso.
—É... deve ser.
—Não quero te pressionar, mas antes da meia-noite tenho que ligar pro Jorge e confirmar se arrumei ou não minha parceira.
—Você disse "sem compromisso".
—Sim. É verdade, mas meu amante é muito ansioso...
—Amante? Você disse que era seu cliente.
—Ele acredita... ou melhor, gosta de brincar que somos amantes. Então, em vez de me dar dinheiro, ele paga o aluguel, os impostos e essas coisas. É simbólico, como diria Lacan. E pra mim serve do mesmo jeito. Ele sabe que o dinheiro vivo eu consigo por outro lado.
—Pura psicologia aplicada... E... ele não se incomoda de você atender outros caras?
—Não sei e nem me importo, Dani. É tipo um jogo e com ele essas são as regras. A maioria dos caras vem, paga e vai embora... São todos conhecidos de conhecidos. —Carla olhou pro relógio: —Temos uma hora.
—E se você disser que não vou? Perde o trampo?
—Não, não. Eu vou de qualquer jeito. O esquema é assim: é uma festa de aniversário entre amigos, íntima. São quatro caras no total. E eles querem dar de presente pro aniversariante duas minas. Ou seja, eu e mais uma. Se eu não levar companhia, eles dão um jeito de arrumar.
—E... por que você acha que eu poderia...?
—Porque você é uma gostosa, Dani! E porque você me disse que tava procurando trampo... E porque sinto que você é minha amiga. Prefiro mil vezes ir com uma amiga do que com uma desconhecida.
—Valeu... Mas você acha que eu daria conta..?
—Olha, Dani. —começou Carla com aquela segurança dela que sempre impressionava a Daniela. —Nenhuma mulher nasce sendo puta, tá? Se você vai se sentir assim, não faz. Mas tem que ter claro que transar por grana não é o que te faz puta... É como você encara... Sua filosofia. Tá tudo aqui... —e finalizou o pensamento tocando a própria têmpora com o dedo. Índice.
—Parece que você é estudante de psicologia... —brincou Daniela, que se sentia novamente contagiada por aquele entusiasmo. —Eu também sinto que você é minha amiga… —E por um momento passou pela cabeça dela a ideia de que poderia fazer aquilo, que com Carla tudo ficaria bem: —Então… Vamos animar a festa, amiga? —As duas riram um pouco, brindaram com suas latas geladas e beberam a cerveja.

Será que a Daniela acabou de tomar uma decisão? Ou a decisão já estava tomada antes mesmo de digitar aquele número de celular, e agora ela só estava buscando uma dose daquela energia que a Carla emanava para se sentir segura? Não vamos perder tempo com divagações inúteis. Você sabe tão bem quanto eu, caro leitor, que não importa realmente “quando” a Daniela foi tentada pela primeira vez a ir naquela reunião como “acompanhante”, mas sim que ela já tomou essa decisão e está disposta a fazer isso.

Na quinta-feira de manhã cedo, ela ligou pra dona da loja de lingerie pra avisar que não ia mais trabalhar; que o emprego era incompatível com os estudos e que, pra piorar, o dinheiro que ganhava era insuficiente. A mulher ficou irritada e disse que ela era uma garota irresponsável. Daniela não conseguiu evitar se sentir culpada, mas se manteve firme na sua posição.

A angústia diminuiu com o passar da manhã e deu lugar a um novo sentimento de liberdade. Ela era novamente dona do seu tempo e ia investi-lo da melhor forma possível.

O professor dela, o doutor Díaz Duref, tinha avisado na aula que no sábado seguinte de manhã teria uma prova rápida. Então, livre do jugo da roupa íntima, ela poderia aproveitar o dia pra estudar. Tentou não pensar no encontro de sexta à noite ou, melhor dizendo, no seu novo trabalho. Mas no meio da manhã, a Carla mandou uma mensagem de texto: “Falei com o Jorge (o sem-vergonha). Confirmei a parada de sexta. Fechamos em 5000! 2500 pra cada! Somos yummy! kkk”

Daniela respondeu com um seco: “Ok”. Mas a cabeça dela virou um redemoinho de pensamentos turbulentos: tava preocupada com a prova de sábado. Será que ia dar tempo de descansar o suficiente? Mas tinha um pensamento, um em particular, que voltava sem parar e se enfiava no meio da confusão: com dois mil e quinhentos pesos, dava pra viver dois meses inteiros com o trabalho de algumas horas.
Na hora que ia voltar pros estudos, o celular tocou. Outra mensagem. Era o Marcos! Queria convidar ela pra almoçar no sábado depois da prova. Ela se sentiu estranha. Será que ia falar alguma coisa sobre o trampo novo? Impensável. Dava pra ficar com um cara, ter namorado? Claro! A Carla teria dito: — Uma coisa é o trabalho, outra é a vida particular. A Daniela aceitou o convite e conseguiu clarear a mente pra voltar pros livros.
Acabou sendo uma quinta-feira de estudo bem produtiva.
Mais tarde, foi dormir em paz.

Na sexta, amanheceu com uma chuva torrencial.
Naquela manhã, não tinha muitas horas de leitura porque precisava ir pra faculdade das onze à uma, e tinha prometido usar a tarde de sexta pra descansar, já que não sabia até que horas ia rolar o trampo da noite, e no sábado de manhã teria que ir pra prova. Faltar na aula era loucura, porque seria a última antes do exame. Então tomou café cedo, estudou por três horas sem parar e depois partiu pra faculdade debaixo de um temporal violento.

Chegou ensopada e de mal humor, mas teve uma surpresa gostosa. No fim da aula, o professor titular da matéria pediu pra conversar com ela por alguns minutos. Quando a sala ficou vazia, o professor Díaz Duref, um careca de uns sessenta anos, um dos psicanalistas mais respeitados da academia, sentou do lado dela e disse:
— Senhorita Szajha, me desculpe por roubar uns minutos, mas não podia perder essa oportunidade. — O tom dele era calmo, claro e meio solene — Vejo que está encharcada e não queria prejudicar sua saúde.
Daniela olhou pro próprio peito e ficou vermelha. Percebeu que a camisa clara que A roupa que ela vestia, agora molhada, deixava transparecer sutilmente o sutiã fininho. Além disso, ao grudar na pele, contornava quase imperceptivelmente o relevo duplo natural dos biquinhos dos peitos. Ela se sentiu meio desconfortável e com calor.

— Não é incômodo, Doutor… — Daniela tentou, com um disfarce sem graça, cobrir os peitos com a jaqueta e se odiou por não ter percebido antes aquela situação vergonhosa. — É que… me pegou de surpresa.

— Vou ser breve. Na semana que vem abre um concurso pra uma vaga de “Assistente remunerado” e me ocorreu oferecer essa oportunidade pra você. Quer dizer: gostaria de propor, se você estiver interessada, claro, que se inscreva no concurso pra vaga.

A surpresa agora era ainda maior.

Ela tinha ouvido direito? O Díaz Duref queria trazê-la pra cadeira dele? Tava oferecendo uma vaga remunerada pra ela entrar no time de professores?

Daniela tentou controlar a euforia:

— Hum-hum! — Ela limpou a garganta. — Obrigada, Doutor… Claro que me interessa, mas… por que pensou em mim?

— Bom. Tá na cara. Quer dizer: você é uma aluna modelo. Além disso, acho que pode ter jeito pra dar aula.

— Seria maravilhoso, Doutor. O que eu preciso fazer pra concorrer?

— Por enquanto, me entregar seu currículo.

— No sábado mesmo, antes da prova, trago meu currículo. Tá bom pra você? — Ela tentava segurar a empolgação, mas não conseguia totalmente, e a ereção dos biquinhos dos peitos era a prova mais direta. Por sorte, já estavam protegidos pela jaqueta, fora do alcance visual do doutor Duref.

— Beleza. Mas quero que entenda que é um concurso. Por enquanto, tem mais cinco candidatos que não são dessa turma e que eu ainda não comecei a avaliar.

— Não tem problema. Agradeço de novo pela oportunidade. Sério. Isso é muito importante pra mim. Principalmente agora… — Ela tava tão radiante que quase despejou toda a história da situação financeira complicada, mas se segurou. conteve a tempo.
—Seu entusiasmo é importante, senhorita Szajha. Prometo que vou levar isso em conta na hora de tomar uma decisão. Não posso prometer nada mais por enquanto.
—Já é mais do que suficiente para mim que o senhor tenha me considerado, professor. Estou muito grata.
—Algo mais que não vem ao caso… Seu sobrenome é russo?
—Húngaro, professor. Meu pai é da Hungria.
—Ah! E você sabe o significado?
—Na verdade, não… —Daniela ficou pensando por um momento. Nunca tinha reparado nisso. —Talvez não tenha nenhum significado em português —disse por fim.
—Talvez… Também acho que não tem muita importância. —E, com um gesto desinteressado, se despediu: —Nos vemos no sábado.
—Até sábado, professor, e… obrigada de novo.

Daniela chegou no apartamento dela, preparou um almoço leve e, depois de comer, se enfiou na cama e tirou uma soneca daquelas sob o som monótono de uma chuva sem parar.
Sonhou a tarde inteira que estava na frente de uma sala de aula. Ela mesma se surpreendia ao se descobrir uma professora foda e apaixonada.

Quando acordou, lá pelas seis da tarde, a tempestade tinha diminuído e os sonhos bons também. Mal abriu os olhos, sentiu pela primeira vez uma pontada de vertigem no fundo do estômago. Todos os pensamentos que sua mente tinha conseguido bloquear apareciam agora ao mesmo tempo: amanhã, depois da prova, sairia com Marcos, e uma possibilidade nada remota, considerando os últimos acontecimentos no parque, era que acabassem ali, juntos, naquela mesma cama. Mas ainda era sexta-feira, e naquela noite tinha outro compromisso… Puta compromisso!
Como seria transar com Marcos depois da experiência com Carla?
Não fazia frio, mas ela se cobriu com os lençóis até o alto da cabeça.
Os dados estavam lançados. Não ia trair a amiga. Além disso, já tinha largado o emprego na loja de lingerie! Voltar atrás significava ficar na rua de vez.
Inspirou fundo e tentou avaliar a situação dela. Da forma mais pragmática e sem emoção possível: naquela noite, ela acompanharia a Carla e faria o que precisava ser feito. Depois, com o dinheiro na mão, teria dois longos meses de sossego financeiro para avaliar se ter conseguido a grana daquele jeito tinha deixado alguma sequela psicoemocional. Quando só existe uma alternativa, não existe problema. E largar a carreira bem naquele momento não era alternativa nenhuma.

Ela se sentiu orgulhosa por enxergar as coisas com tanta clareza. As coisas práticas a acalmavam. Levantou-se de um pulo e entrou no chuveiro quente.

Ela costumava se masturbar mais ou menos regularmente enquanto tomava banho; mais como um hábito sedativo do que como resposta a qualquer insatisfação. E naquela sexta à tarde não foi diferente. Embora o corpo estivesse mais quente que o normal, ela precisava mais do que nunca de uma terapia sedativa.

De pé, com a pressão máxima da água quente batendo no topo da cabeça, começou a acariciar a própria buceta com as pontas dos três dedos do meio, como sempre fazia.

Sabia que naquela noite ia se sentir desejada... desejada e possuída. Isso a excitava. A ideia de ter tantos olhares masculinos sobre ela, sobre o corpo dela, a aterrorizava; mas também a deixava com muito tesão. Se esfregou como não fazia há tempos. Como nas primeiras noites solitárias em Buenos Aires, quando ainda guardava vivo o calor do ex-namorado do interior.

Quando fechou os olhos, ele voltou à memória com força total. Estava ali, junto com ela, dividindo o banho. Ela não lembrava do pau dele ser tão grosso, mas estava ali, molhado, quente, duro e apontando direto pros olhos dela. Não precisou de mais nada. Teve que se segurar na parede pra não perder o equilíbrio na hora de gozar.

Uma dúvida existencial a pegou quando abriu o guarda-roupa: que porra de roupa uma "acompanhante" devia vestir? Imediatamente falou com a expert.

— Tanto faz. Respondeu Carla, como sempre despreocupada: — O Jorge me disse que ele cuida da roupa. Então veste o de sempre, como se fosse pra faculdade. Depois a gente troca lá.
Esse cara, o Jorge, era foda.
Daniela vestiu sua jeans azul clássica e uma camiseta preta justa. Apesar da chuva, a noite seria amena, então não precisava se preocupar com casaco.

Carla deu as instruções certas pro motorista do táxi. Parece que o lugar ficava em Pilar, uns cinquenta quilômetros ao norte da cidade de Buenos Aires, num condomínio fechado.
O carro ia voando na estrada. A cabine do táxi, gelada artificialmente e com um perfume exagerado, ficava em silêncio. Mal dava pra ouvir o murmúrio incompreensível do rádio AM no volume mínimo. Daniela olhava sem ver pela janela, provavelmente perdida nos pensamentos, ou tentando controlá-los. Aí Carla pegou na mão dela. Sentiu que estava suada. Daniela primeiro se assustou, depois apertou com força.

— Como eles são? Você conhece? — perguntou sem tirar os olhos da janela.
— Os caras?
— É.
— Não todos. Conheço o Jorge, óbvio, e ele disse que o filho dele também vai estar.
— Ele tem filhos grandes?
— Claro. O "neném", como ele chama, acho que tem trinta e poucos.
— Trinta e poucos? Então o Jorge... — Daniela cortou a frase. Tinha ficado vidrada com a imagem que passou na cabeça.
— O Jorge diz que tem cinquenta e cinco, mas deve ter uns anos a mais, eu acho.

Daniela ficou em silêncio e Carla apertou a mão dela: — O que foi?
— Nada. É que... — disse Daniela, baixando quase totalmente a voz e fazendo careta, como se não quisesse que o motorista ouvisse. — Podia ser meu pai...
— Ou o meu. Qual é o problema? — respondeu Carla, sem se preocupar em ser discreta. — Mas não é nem meu pai nem o seu, é um cara qualquer. Um cara que gosta de comer umas novinhas como a gente e tem a Plata pra se dar esse gosto. Só isso.
O motorista deu uma olhada pelo retrovisor e cruzou o olhar com Daniela. Ela desviou automaticamente o olhar pra fora e sentiu as bochechas pegando fogo. Depois foi o motorista quem baixou os olhos quando cruzou com os olhos verdes e decididos de Carla. As amigas ainda estavam de mãos dadas.

— O resto eu não conheço. — retomou Carla — mas se são amigos do Jorge, devem ter a idade dele, acho.

Mais um detalhe em que Daniela nunca tinha reparado: a idade.

Uns minutos depois, saíram da estrada e pegaram uma rua interna. Passaram pela guarita de segurança do condomínio fechado e seguiram devagar até o destino.
Quando o carro parou, Carla pagou e elas saíram do táxi.

Daniela não entendia como alguém podia ter dinheiro suficiente pra morar numa casa daquelas. Atravessaram o jardim da frente e chegaram até a porta principal. Dessa vez foi Daniela quem segurou a mão de Carla, mas sem dizer nada.

— Vai dar tudo certo, Dani, juro. Quando você conhecer eles, vai ficar tranquila. — Daniela olhava pra ela como uma criança olha pra mãe no primeiro dia de aula. — Finge que é só mais uma convidada. Depois as coisas vão se encaixando... você vai ver.

— Valeu. Vou tentar... — disse Daniela. Carla sorriu pra ela com uma expressão quase de ternura. Depois se virou pra porta da mansão e apertou a campainha.

As duas esperaram alguns segundos, tensão crescendo, sem nem ousar trocar olhares. Finalmente, o estalo seco da tranca destravando foi o sinal inconfundível de que alguém tinha vindo recebê-las. — Não tem mais pra onde correr. — pensou Daniela, prendendo a respiração. Uma fração de segundo antes de encarar de frente quem seria seu primeiro cliente, uma parte do seu "eu" perdeu contato com a realidade.

Você não tem poder sobre seu destino, caro leitor. Não por enquanto.
Não é hora, esta hora, de arrependimentos e sentimentalismos. Daniela vai cruzar aquela soleira, querendo ou não, caro leitor, isso é um fato consumado.
Mas devo lembrar que não foi minha pena, e sim sua vontade, que a colocou lá. E posso garantir que, além do rumo incerto dos acontecimentos futuros, aquela soleira não é um lugar confortável para uma garotinha de bom coração, responsável, inocente e gostosa como a Daniela.

Sei o que você está pensando, caro leitor, mas não deve culpar ela. Embora seja verdade que foram seus medos, seu orgulho e — por que não? — também sua arrogância que a guiaram até aqui, você bem sabe que aos vinte anos nem sempre somos capazes de avaliar as consequências dos nossos próprios atos… Tenha piedade dela e não a abandone agora, quando ela mais precisa de você.

Ricardo, o dono da casa, era um cara de uns sessenta anos e de um tamanho extraordinariamente grande. Não era exatamente obeso, mas sua altura beirava os dois metros de estatura.
No momento em que Ricardo abriu a porta, Daniela sentiu as pernas ficarem moles e uma parte da sua mente deu um branco. Ela não chegou a desmaiar, mas entrou num estado de “piloto automático”, onde o subconsciente assumiu o controle temporariamente.

— Chegaram as meninas! Boa noite! Bem-vindas a casa. — Disse o anfitrião com seu enorme rosto iluminado de alegria e champanhe. — Eu sou o Ricardo. Você deve ser a Carla, a namoradinha do Jorge… — Disse para a loira. Carla concordou e se esticou na ponta dos pés para cumprimentá-lo com um beijo na bochecha:
— Boa noite e obrigada pelo convite. — Os eufemismos eram moeda corrente no mundinho das acompanhantes, e Carla, com seus vinte e dois anos, já manjava o código na perfeição. Além disso, uma ficção deixa de ser ficção quando você acredita nela, e Carla tinha decidido acreditar.
— O Jorge não para de falar da gente sobre você, Carla… Da namorada modelo dele… Mas a verdade é que nunca te Nunca imaginei que fosse tão gostosa. Bem feito pro Jorginho!
— Muito obrigada, Ricardo… — disse ela, dando seu melhor sorriso de acompanhante.
— Se for metade do que o Jorge conta sobre como vocês se divertem juntos, acho que vamos ter uma noite incrível.
Se Daniela estivesse olhando — além de estar com os olhos abertos — teria reparado em algo totalmente novo na expressão da amiga: luxúria. Exatamente o que eles queriam.
— Pode ficar tranquilo… A gente adora se divertir. — Carla soltou com um sorriso safado e mordeu o lábio inferior.
O tiro foi certeiro, convincente e sem exageros. Ricardo ficou um instante em silêncio, com a porta e a boca abertas. Nunca encontrou resposta pra tanta beleza e tanta safadeza ao mesmo tempo.
Então reparou em Daniela, que o encarava absorta e com um sorriso vazio.
— E você deve ser…
— Ela é a Daniela, uma amiga. — Carla se adiantou.
Ricardo examinou Daniela dos pés à cabeça. E não conseguiu evitar uma descarada pausa dupla na altura dos peitos dela.
— Quantos anos você tem, Danielinha? — perguntou Ricardo, tentando sem muito sucesso parecer mais simpático do que obsceno.
— Completei vinte mês passado. — A voz suave dela soou calma, mas clara. Só Carla percebeu um traço do estado ausente dela.
À primeira vista, Ricardo não conseguiu deixar de admirar o volume saliente da camiseta preta dela, mas depois ficou realmente impressionado com a beleza daquele rosto mais branco que o branco; aqueles olhos grandes cor de caramelo e aquele cabelo liso e preto que o emoldurava delicadamente. Nunca tinha visto uma puta menos puta do que aquela puta. Isso foi, sem dúvida, o que mais o excitou.
— Não é que eu não acredite em você, pequena. Não pense mal de mim. Mas prefiro que me mostre seus documentos.
Sem dizer nada e entendendo perfeitamente a situação, Daniela tirou a identidade do bolso de trás da calça jeans e a entregou a Ricardo. Ele pegou, mas demorou um instante pra desviar a atenção. a garota para se concentrar no documento. Estudou ele com pouco interesse, de frente e de verso, e finalmente devolveu. Daniela, com o mesmo sorriso sem expressão, guardou o documento de volta no bolso. Então Ricardo se virou para Carla:
— O Jorge conhece sua amiga?
— Não. Eles ainda não se conhecem.
— Acho que você vai dar uma surpresa gostosa pra ele... — E virou o rosto para Daniela: — Sinceramente, não te daria mais de quinze ou dezesseis anos... Sorte que você é maior de idade, porque nem louco te mandaria de volta.
— Sorte ter um amigo falsificador! — Brincou Carla.
Ricardo riu cúmplice enquanto abria completamente a porta da frente, convidando as garotas a entrar na sua mansão luxuosa.
Carla pediu logo pelo banheiro e Daniela a seguiu como um cachorro de colo.

— Tá me ouvindo, Dani? Cê tá bem? Cê tá muito pálida, nena! — disse num sussurro.
— Já tamo aqui. Agora a gente vai sair do banheiro e vai tentar curtir o máximo que der. Depois a gente dorme sossegada. — A voz dela carregava aquele germe inato de autoridade que tanto confortava Daniela.
Aquelas palavras mágicas devolveram, aos poucos, o controle sobre as pernas e o cérebro dela. O que veio antes tinha sido uma espécie de limbo sem gravidade, onde ela não tinha consciência dos próprios movimentos, e as vozes ao redor soavam como ecos distantes.
— Sou pálida. — Respondeu Daniela com naturalidade — Sou assim... — voltando de um devaneio profundo.
Carla teve que segurar uma gargalhada sonora.
— Que susto você me deu, nena! Vamo. Vou te apresentar pro Jorge.

Não era a primeira vez que Carla recebia um convite pra esse tipo de "agrado", mas ela costumava recusar bem antes de discutir os honorários. Se sentia segura demais física e financeiramente no "corpo a corpo" pra assumir outros riscos. Mas dessa vez tinha sido diferente. Dessa vez tinha sido nada menos que o Jorge quem tinha pedido, e negar algo de cara pro Jorge era arriscar Demais. Ela confiava nele, mas também sabia que Jorge não gostava de ouvir um não. Claro, ele topava negociar, e até costumava ser generoso em certas situações. Ele curtia esse jogo, e ela mandava muito bem.
Num dos encontros quentes deles no fim da tarde, enquanto Carla estava de quatro na cama, sem nenhuma outra roupa além das meias brancas que cobriam seus pezinhos delicados, o assunto daquela noite foi resolvido. Jorge, por trás, enfiava naquele coelhinho careca, rosado e apertado de menina boazinha, que ele tanto amava; naquele exato momento, fez a proposta. Começou como uma "festinha de aniversário íntima": ele e cinco ou seis amigos. Jorge queria que os conhecidos dele conhecessem aquela gatinha, ex-modelo, de quem ele tanto falava. Carla, entre gemidos – nem todos fingidos – dizia que nunca tinha ficado com mais de dois caras ao mesmo tempo e que, só se ele pedisse, topava fazer com três. Em resposta, Jorge começou a meter com o dobro da força. Ela, sentindo a violência das estocadas, arqueou as costas e levou uma mão na bunda pra facilitar o caminho. Com a ponta dos dedos, roçava o pistão lubrificado do amante maduro que entrava e saía da sua anatomia. Jorge insistiu e disse que não podiam ser menos de cinco. Carla, com a ponta do dedo médio, começou a fazer círculos concêntricos em volta do cu enquanto dizia que três caras era o número máximo que ela aceitaria. Agora, as bolas de Jorge batiam como tapas nos lábios dela a cada estocada. Carla sabia que precisava inventar algo urgente pra ajudar na negociação antes de perder o controle de si mesma. Jorge, de cima, via o dedo fino da loira sumir dentro daquele cu jovem e esportivo. Esse era o ponto fraco dele. Que esperta era aquela mulher! Então, como se lesse os pensamentos dele, a loira virou o pescoço por cima das costas e Apontou pra ela com aqueles olhos verdes, irritados pelo exercício e pela luxúria. Fixou nela, entre ofegos, que se fechassem o trato com quatro participantes, deixaria "a portinha dos fundos bem preparada pra receber ele". Com isso, Jorge deu por encerrada a negociação em quatro presentes. Depois de aproveitar à vontade aquela maçã macia e apertada, que nem sempre se oferecia com tanta generosidade, Jorge esclareceu pra Carla que ela não seria a única "convidada" feminina do evento. Carla, que ainda sentia umas palpitações na parte de trás, não tava muito a fim de continuar negociando, mas Jorge perguntou se ela conhecia alguma amiga pra levar. Carla sabia de boa fonte que algumas ex-colegas do mundo das passarelas apareciam em catálogos vip, mas tinha perdido o contato. Não tinha amigas "acompanhantes". Primeiro, porque sempre trabalhou sozinha e em casa; segundo, porque não se interessava por aquele meio. Foi aí que Carla pensou pela primeira vez naquela garota da faculdade. Sem experiência, mas com uma beleza exótica e pueril, deslumbrante.

Desculpa essa breve digressão, caro leitor, mas às vezes é bom conhecer alguns detalhes do passado pra entender melhor a complexidade do presente.

A sala era um lugar amplo onde reinava a cor branca. Apesar do estilo minimalista sóbrio, a iluminação suave trazia um clima de sofisticação aconchegante. Um disco do Bob Marley ao vivo tocando de fundo. De pé, ao lado de uma mesa baixa, dois homens de camisa e calça social conversavam animadamente com uma taça de champanhe na mão. Um deles era grisalho e aparentava mais de cinquenta anos; o outro era bem mais novo, embora notavelmente parecido com o primeiro. Daniela sacou na hora que eram pai e filho, então adivinhou quem era Jorge alguns segundos antes de ser apresentada.

— Carla! Que alegria ter você aqui! Te apresento o Mario, meu filho. — Disse Jorge, enquanto beijava o dorso da mão dela num gesto exageradamente pomposo. Depois, virou-se para o seu alter ego de trinta anos:
— Mario. Ela é a Carla, a cachorrinha do papai. — Os dois se cumprimentaram com um beijo no rosto.

Jorge Ramos tinha ficado viúvo há cinco anos. Depois da morte da mãe de Mario, decidiu dar vazão ao seu gosto refinado e requintado por putas caras e uísque importado. Embora não tivesse se metido com cocaína como o amigo Ricardo, em pouco tempo seus prazeres noturnos se tornaram prejudiciais à saúde. Foi o filho Mario quem o ajudou a moderar um pouco o ritmo de vida. Na verdade, ele conseguiu largar quase completamente a bebida, mas gastava uma fortuna com mulheres. Apesar de o dinheiro não ser problema, os boatos e as más línguas conseguiram afetar sua reputação entre os membros da Sociedade Rural Argentina.
Foi nessa época que ele conheceu Carla, sua "coelhinha intelectual", como a chamava entre os amigos. Era uma loira que tinha largado as passarelas para se dedicar a uma atividade mais lucrativa que bancasse seus estudos. Carla não era uma puta qualquer. Ela precisava de um mecenas e ele estava disposto a ser esse cara. Em troca, ela dava todo o prazer que um homem podia pedir e que uma gostosa de vinte e dois anos podia oferecer. Montar uma rotina com sua jovem e linda amante o obrigaria a frequentar menos mulheres e organizar sua vida noturna agitada.

Mario Ramos era diferente. Amava o pai, mas sofria pelas mulheres. Tinha se divorciado há alguns meses e estava passando por um luto doloroso. Conhecia os prazeres do pai, mas não os compartilhava. Tinha aceitado aquele convite porque Jorge insistiu como nunca para que ele o acompanhasse no aniversário do Humberto. Disse que queria apresentar sua "coelhinha intelectual". Mario finalmente topou. Fazia dias que não saía de casa.

— Oi! Seu pai vive falando de - Disse Carla com seu melhor sorriso.
- Bom. Eu poderia dizer o mesmo… - Respondeu Mario, retribuindo a gentileza com um sorriso.
- Imagino, George, que você não vai contar muitos detalhes! - Olhando para Jorge com malícia.
- Entre pai e filho não há segredos, gostosa. - Jorge tinha reparado em Daniela enquanto Carla fazia seu breve teatrinho. - Por que não nos apresenta sua amiga? - Então todos se viraram para a jovem silenciosa de olhos radiantes e pele de porcelana.
- Ela é a Daniela, uma amiga da faculdade. - Daniela deu um passo à frente para cumprimentar Jorge e Mario.
- Oi.
- Oi, Daniela. Prazer em conhecê-la. Bem-vinda. Você também tem seu próprio apartamento ou…? - Jorge se referia a se ela trabalhava em seu apartamento particular, como Carla, ou se fazia para terceiros.
- Sim. Bom, na verdade eu alugo. - Daniela pensou que ele se referia à casa dela. Não entendia muito bem o propósito daquela pergunta, mas respondeu educadamente. Agora, quem pareceu confuso foi Jorge.
Então Carla interveio:
- Ela está começando a trabalhar comigo. Por enquanto, estamos juntas em casa.
Daniela entendeu de repente sua gafe e seu rosto pálido se ruborizou, evidenciando algumas pequenas sardas rosadas.
- São sócias! Que ótima notícia! Imagino que a Carlita deve estar te ensinando um monte de coisas… Um dia a gente poderia convidar a Dani pra nos acompanhar, não é? - Perguntou a Carla.
- Você sabe que não sou ciumenta… - Disse a loira com sua melhor cara de "gatinha intelectual".
Ricardo se juntou ao grupo trazendo duas novas taças e uma garrafa borbulhante de Dom Perignon extra brut.
- Viu o par de… olhos que a Daniela tem, Jorginho? - Disse, enquanto oferecia as taças para as garotas.
- Não se ofenda, Carla. - Interveio Jorge. - Mas sua amiga é uma boneca. Com licença. - Jorge passou o dorso dos dedos pela bochecha quase transparente de Daniela. - Uma boneca de porcelana! - Reafirmou. - Uma menina linda! O Humberto não vai acreditar!
- Obrigada. - Disse Daniela timidamente.
- Vamos brindar às nossas Convidados! — animou Ricardo. E os cinco ergueram as taças e tilintaram os cristais. Jorge e Ricardo estavam excitados como crianças com brinquedos novos. Carla fazia seu teatro. Daniela, silenciosa, tentava se enturmar e perder o medo. Mario, moderado, tinha ficado encantado com a beleza de Daniela. Os cinco beberam de suas taças.

Ficaram conversando e bebendo animadamente. Carla e Daniela descobriram que Humberto, o homenageado, ainda não estava na casa. Só então a ação começaria. Jorge tinha comprado roupas sexy e a ideia era que as garotas aparecessem com aquela vestimenta para receber Humberto de surpresa.

Os minutos passavam e as taças de champanhe também, e Daniela começava a se convencer de que talvez aquilo não fosse tão traumático. No começo, não conseguia parar de pensar em como seria se deixar comer por aqueles velhos. Será que conseguiria chupar o pau deles sem ter ânsia? Pelo menos cheiravam a perfume importado. Teria que beijá-los na boca?

Então tentou se refugiar pensando no mais novo. Não achava impossível se imaginar beijando Mario ou transando com ele. Na verdade, era um homem gostoso. De repente, lembrou da punheta que tinha batido naquela tarde debaixo da água quente do chuveiro e se esforçou para tirar aquela imagem da cabeça.

Os cinco conversaram animadamente. As garotas falaram da faculdade, da vida no interior do país e de outros assuntos banais.

Ricardo quis saber de quem Daniela tinha herdado aqueles lindos olhos cor de mel. Ela contou que o pai era húngaro e a mãe, filha de espanhóis. Que a pele dela era muito branca como a do pai, mas tinha herdado os enormes olhos mouros da mãe. Carla a deixava falar e a incentivava. Sabia que Daniela estava, aos poucos, ganhando confiança.

Enquanto bebiam a terceira taça, Daniela ouviu Jorge dizer a Carla que precisava fazer um pedido especial. Depois, pegou-a pelo braço e se afastaram alguns metros. do grupo. Naquele momento, Daniela tava conversando animada com o Mario. Ele era sociólogo. Era dono de uma consultoria e professor na universidade. Aí ela contou pra ele que tava concorrendo a uma vaga de professora na faculdade de psicologia.
Enquanto conversavam, Daniela sentiu que não seria um sacrifício de verdade ter que dar pro Mario. Na real, a ideia até agradava ela. Ia ser até excitante brincar de ser a putinha dele. Ricardo tava do lado deles, ouvindo a conversa, mas se mantendo de fora. Não parava de beber champanhe e de olhar pras tetas da Daniela, cada vez com menos vergonha.
De repente, a música parou e o silêncio tomou conta do ambiente. O disco do Bob Marley tinha acabado e Ricardo sugeriu pro Mario continuar tocando música na noite.
— Meu gosto musical não combina com a juventude das moças. — se justificou o dono da casa.
Mario foi forçado a interromper a conversa com Daniela e foi, com um puto desgosto disfarçado, cumprir o pedido.
Ela ficou praticamente sozinha com Ricardo. O tamanho do corpo dele e a cara de pau com que ele olhava pra ela, intimidaram ela.
Carla e Jorge continuavam conversando. Se Daniela soubesse alguns detalhes da relação deles, teria percebido na hora que eles tavam no meio de uma negociação.
O silêncio entre ela e o anfitrião começou a incomodar, então ela criou coragem pra quebrar o gelo:
— O senhor mora sozinho nessa casa?
— Sou divorciado e meus filhos já foram embora faz tempo. Mas gosto dessa casa. Tô confortável... — Ricardo não conseguia parar de sorrir, nem de olhar pras tetas dela.
— É enorme! Além disso, é muito bonita.
— E você só viu a sala. Quer conhecer o parque?
Daniela não sabia se era a melhor ideia, mas queria acabar com aquela situação desconfortável e o Mario parecia não conseguir se decidir por nenhum disco em específico.
— Adoraria. — falou finalmente, com mais dúvidas do que certezas.
— Vem, me segue por aqui.

Ricardo levou ela até a janela dos fundos e por Lá foram para o jardim. O suave cheiro de grama molhada invadiu os pulmões dela. O gramado estava bem aparado e se estendia até os limites laterais da propriedade, marcados por fileiras de pinheiros velhos. Embora a área mais próxima da casa estivesse iluminada, a escuridão da noite não deixava ela ver o fundo do terreno. Que injustiça! Tantos metros quadrados pra uma pessoa só! Pensou Daniela, enquanto lembrava do sacrifício que estava prestes a fazer pra pagar o aluguel do apartamento minúsculo dela.

A dez metros da janela por onde tinham saído, ficava a piscina. A iluminação interna fazia com que as ondas leves na superfície fossem visíveis mesmo àquela distância.

A brisa morna lá fora, o cheiro da grama e o som distante de um grilo renovaram o espírito dela. Sentia que, finalmente e sem perceber, tinha começado a curtir aquela noite. Pensou no Mario.

A Carla tinha razão, ela podia encontrar prazer... Ela sempre tinha razão.

Ficava absorta naquele pensamento positivo enquanto os olhos dela percorriam as flores cuidadosamente cuidadas do jardim, quando Ricardo disse pra ela:

— O que você acha? Às vezes acho que é demais pra um homem sozinho. — Com um sentimentalismo exagerado.

— Nunca tinha estado num lugar assim. Acho que pro senhor deve ser algo normal. — Disse Daniela, sem tirar os olhos daquelas flores lindas.

— Depois dos sessenta, tudo começa a parecer normal. Por isso vivo procurando coisas novas... Cheias de juventude, igual você.

Daniela perdeu o encanto de repente, como se tivesse levado um tapa. Mas preferiu não mudar a atitude contemplativa dela.

— Isso faz o senhor se sentir mais jovem? — Perguntou, com um toque de sarcasmo.

— Curtir um tempo com uma adolescente? Não. Isso não. O dinheiro pode comprar mulheres jovens e gostosas como você; mas não compra a juventude. Embora de algum jeito compense o que a idade tira.

— Não Entendo.
—Claro. Se não fosse pelo "vil metal", nunca teria te conhecido. Ou, se tivesse chegado a te conhecer, jamais aceitaria mostrar, de livre e espontânea vontade, pra um velho como eu, esses peitos lindos que a natureza te deu. —Ele fez uma pausa e concluiu: —O dinheiro devolve o que a idade tira, é isso.

Daniela sentiu repulsa por aquele homem, mas preferiu não confrontá-lo e ficou em silêncio.
—Vamos. Continua com o passeio. Você ainda não viu nada. —disse Ricardo, mudando de assunto.

Daniela obedeceu em silêncio, embora quisesse voltar pra sala e retomar a conversa com Mario.

Eles pegaram uma galeria perimetral e entraram por uma porta de serviço que dava pra cozinha. Atravessaram o cômodo vazio e passaram por uma porta lateral. No fundo, havia uma escada por onde subiram pro andar de cima. A casa tinha quatro quartos. Cada um com seu banheiro privativo. Ricardo foi mostrando um por um, até chegar no quarto principal.
—Esse é o meu refúgio.
—Seu quarto é maior que todo o meu apartamento.
—Pode vir ficar quando quiser. —Ricardo enfiou a mão no bolso da calça e tirou da carteira um cartão pessoal. —Aqui, meu telefone. —Não precisa esperar o convite da sua amiga.

Daniela pegou o cartãozinho pra não ser mal-educada, deu uma olhada de compromisso e guardou na calça.
—Espero não ter te ofendido com o que falei no parque —completou.

Daniela ficou visivelmente desconfortável.

Ricardo sentou na ponta daquela cama enorme e estendeu a mão pra ela.
—Vem. Chega aqui um pouco. Não tenha medo.

O velho filho da puta tinha dado um jeito de levá-la pro quarto antes do previsto. Daniela imaginou que agora só precisava esvaziar a mente e fazer o que se esperava de uma "acompanhante". Daniela soube que aquele era o momento que tanto temia desde que aceitou a proposta da Carla. Agora finalmente tinha chegado, e ela tinha deixado ele levá-la por... Surpresa.
Ricardo, sentado na cama com seu porte avantajado, pegou a mão dela e a puxou para mais perto. Daniela se deixou levar.
— Quero ver elas — exigiu com autoridade. — Me faz o favor… sê uma boa garota. Quero que me mostre os peitos. Agora. Antes de qualquer um. Tô esperando há um tempão e não gosto de esperar, sou muito ansioso.
Daniela sabia que não tinha escolha. Esticou as mãos para trás das costas para desabotoar o sutiã e depois levantou a camiseta e o sutiã, tudo junto. Os seios dela saltaram com graça e balançaram duas vezes com elasticidade juvenil, pra cima e pra baixo.
— Mãe do céu! Que maravilha! Agora entendeu o que eu queria dizer? — Daniela ficou em silêncio e começou a sentir a mudança brusca de temperatura na pele mais sensível dos peitos. — Só existem dois tipos de homem que podem ter o privilégio de acessar essa maravilha só pedindo: aqueles que conquistam seu desejo, e aqueles que podem pagar por isso. Se eu não tivesse grana, não teria chance, entendeu? Mas como eu posso pagar… Já não tem diferença entre uns e outros.
— Posso abaixar a camiseta de novo, senhor? — foi a única resposta dela diante daquele pensamento nojento.
— Claro, menina. Essa festa ainda não começou… Agora, me diz uma coisa, quanto você acertou com o Jorge? — enquanto ele metia a mão na carteira de novo.
— Bom… Foi a Carla quem…
— Toma. — e estendeu algo que tinha tirado de lá.
— Se não se importa, prefiro acertar direto com ela sobre…
— Isso é à parte. Pega, tô falando! Não seja tímida!
Daniela pegou o que Ricardo estava dando: três notas verdes de cem dólares cada.
— Já estive antes com umas novinhas de vinte anos, mas nenhuma parecia de quinze igual você. Quero que você se comporte bem comigo, que chupe meu pau como se tivesse chupando o do seu namorado, tá? Quero sujar essa boquinha de menina boazinha que você tem.
Ela odiava aquele cara. Odiou ele com toda a alma. E disse a primeira coisa que passou pela cabeça que não fosse um insulto:
- Te aviso que não engulo o sêmen. Me dá nojo. - A palavra "sêmen" soou estranha na própria voz, antiquada, técnica, mas foi a primeira coisa que lhe veio à cabeça ao imaginar aquela cena desagradável.
- Não me diga! Que pena! - Ricardo manuseava a ironia com destreza. - Pelo visto minha oferta não foi lá essas coisas. E me diz: "por quanto a mais" você engole como se fosse doce de porra? Porque tudo tem um preço nessa vida…
As pernas de Daniela tremiam. Sem dúvida, tudo naquele imundo miserável lhe causava repulsa. Mas… Será que ela conseguiria evitar transar com ele? Não. Não era esse o trabalho que ela tinha vindo fazer aqui: cobrar por sexo? Sim. Agora estavam lhe oferecendo mais dinheiro do que o combinado. Ela ia recusar? Ridículo. Ela sabia melhor que ninguém que nenhum valor realmente pagaria aquele sacrifício. Então, sua mente disparou a seguinte pergunta: Será que realmente sentia nojo de engolir sêmen? Impossível. Simplesmente porque nunca tinha feito isso antes. Uma vez, ela tinha deixado o ex-namorado gozar na boca dela, mas cuspiu tudo na hora. E foi mais por princípio do que por repulsa. Ela nem lembrava direito qual era o gosto daquilo.
Mas tinha algo mais… E se aquele fosse o momento de começar a brincar de ser puta de verdade? O que mais ela deveria fazer, afinal? Arrependida ou não, era impossível voltar no tempo. Então, que o sacrifício fosse o mais lucrativo possível. Essa era a alternativa prática; a melhor alternativa.
Na conta mental dela, os honorários daquela noite chegavam a dois mil e oitocentos pesos, e estavam lhe oferecendo ainda mais.
- Depende. - disse Daniela finalmente, com arrogância fingida, tentando parecer segura de si.
Má estratégia a de disputar o poder em condições de inferioridade.
Num movimento rápido, Ricardo, com suas mãos enormes, pegou a cintura fina de Daniela e a puxou para si, sentando-a sobre a coxa dele. A imagem era a de um pai prestes a ficar puto com a filha adolescente. Daniela sentiu medo e se deixou fazer. Ricardo encostou o nariz na nuca dela e inspirou alto sobre ela, sobre o cabelo dela. Depois, percorreu a pele branca e aveludada do pescoço dela com a língua seca e áspera. Da clavícula até o lóbulo da orelha. Daniela sentiu um formigamento elétrico que arrepiou a pele dela. Em seguida, o hálito quente de uma exalação sonora.
- Ahhh! Como eu gosto do cheiro de puta! É uma fraqueza que eu tenho… - exclamou enquanto a mão ossuda e larga dele entrava implacável por baixo da camiseta preta de Daniela, e subia tateando em busca dos peitos inexperientes dela.
Ao alcançar o alvo, apertou com força, atraindo o corpo todo da garota contra o dele. A boca dele ficou colada na orelha da jovem, e então ele disse num sussurro ameaçador:
- As putas tão aqui pra dizer sim. Não pra fazer joguinho. Tá claro?
- Sim.
- Beleza-. E, enquanto mantinha ela sentada no colo e presa contra o corpo dele, completou:
- Agora me fala quanto você quer pra deixar eu gozar nessa boca de puta húngara que você tem.
- Mais trezentos.- disse Daniela, só pra falar alguma coisa, apavorada.
Então Ricardo pegou a carteira com a mão livre, tirou mais três notas de cem e jogou com desprezo no tapete.
- Você tem nojo de levar gozo na boca agora?- Ricardo não parava de amassar os peitos dela por dentro da camiseta enquanto falava.
- Não.
- Vai engolir tudo?
- Sim.
- Muito bem. Já estamos nos entendendo. Agora quero que você também ponha um preço nessa sua bunda pequena.
Naquele exato momento, o celular de Ricardo tocou e Daniela sentiu que devolviam o oxigênio que tinham acabado de tirar dela. A bunda? Isso sim dava pânico nela. Nunca tinha passado uma ideia dessas pela cabeça dela.
Ricardo atendeu. Era Jorge do térreo avisando que Humberto tinha acabado de estacionar na porta e as garotas tinham que se esconder e se preparar pra entrada triunfal.
O velho saiu disparado da quarto, mas antes de sair, deu um tapa na bunda da Daniela e disse:
— Tudo tem um preço justo. Até uma bunda macia como a sua. Pensa qual é e me avisa. — e foi embora.

Daniela estava prestes a ter uma crise de nervos. Os olhos cheios de lágrimas, mas não conseguia chorar. Sentia impotência. Ódio. Mas quando ouviu alguém subindo as escadas, ajoelhou-se no chão e recolheu, apressada, um por um, os três bilhetes espalhados no tapete. Ninguém tiraria dela o que era seu. O que ela tinha conquistado.

Um momento depois, Carla entrou no quarto e encontrou a amiga sentada na beira da cama enorme.
Carla olhou para ela e não conseguiu ler a expressão no rosto da amiga.
— Tudo bem, Dani?
— Perfeito. — respondeu, enquanto tocava disfarçadamente o relevo dos seis bilhetes por dentro da calça jeans. — Acho que tudo vai dar certo.

Caro leitor, só vou pedir que não julgue antes da hora. Lembre-se de que Daniela é vítima das circunstâncias (e das suas decisões). Onde você só vê o germe da ganância numa alma pura, pode haver também um refúgio imaginário onde expiar suas culpas. Deixe que ela se agarre ao dinheiro como o fim último do seu sacrifício. Permita que ela se regozije no único ponto de luz que a garota enxerga no fim deste túnel escuro em que você a fez entrar. Não a abandone agora, caro leitor. A jovem foi levada pela mão — a da amiga e a sua própria — para a jaula dos leões. Mas talvez ainda haja esperança para ela.

Carla vinha carregada com duas sacolas cheias de roupa.
— Me disseram que isso era para "a colegial dos olhos de mel" — explicou, enquanto estendia uma das sacolas para Daniela. — Não vou fazer cena de ciúmes, mas acho que você partiu o coração de mais de um. — disse Carla, sem outra intenção além de injetar confiança nela.

Daniela começou a fuçar na sacola. Tinha roupas e acessórios: Uma Camisa branca pequena com lapelas, bem decotada; umas meias pretas de rede que terminavam no meio da coxa; um cinta-liga preto; uma minissaia plissada, estilo escocesa, vermelha e preta; uma gravata combinando e uma tiara elástica azul para o cabelo. Só isso.

— Esqueceram a calcinha. — Disse Daniela enquanto revirava todas as peças uma por uma.

— Então não tem calcinha. O Jorge frisou que a gente só podia usar o figurino que tava nos sacos.

Daniela procurou de novo e de novo a roupa íntima, até que finalmente se resignou.

— Querem que eu me vista de colegial! — disse, perplexa. — Querem pensar que sou uma puta que ainda não terminou a escola…

— Shhh! Lembra que essa palavra não se fala. — Disse Carla num tom amigável, enquanto tirava o figurino do próprio saco e descobria que ela tinha ficado de interpretar uma coelhinha branca.

— A coelhinha intelectual. — Disse pra si mesma.

Tudo era branco: Meias de rede; uma regata super justa e transparente; uma fio dental com um pompom no final das costas, feito um rabinho; e uma tiara com orelhas de coelho.

Pela primeira vez, Daniela sentiu um certo rancor por ela. Que porra era aquilo, se não era uma puta? Como caralho se chamava uma mulher que se fantasiava de coelhinha pra transar por dinheiro? Mas preferiu deixar pra lá. Sabia qual era a estratégia da Carla pra segurar aquele trabalho mentalmente. De certa forma, aquilo também era pensamento prático. E, no fim das contas, ela não era ninguém pra contradizer. Pelo menos não ainda.

Levaram quase meia hora pra se arrumar. Carla tinha virado uma coelhinha que teria deixado o próprio Hugh Hefner sem fala. Daniela, por outro lado, parecia uma adolescente inexperiente fantasiada de puta. A minissaia plissada mal cobria a buceta nua e a bunda dela, deixando o cinta-liga completamente visível. A blusa era dois números menor, então os peitos dela, sem sutiã, mal estavam contidos por só dois Botões esticados até o limite da resistência. A gravata parecia ridícula, mas pelo menos cobria um pouco do decote indecente. Sem calcinha e com aquelas roupas deliberadamente pequenas, ela se sentia desconfortavelmente exposta.
Por fim, calçou as meias pretas de rede sobre as pernas brancas e prendeu a cinta-liga. Ao ajustar a faixa elástica na testa e atrás da nuca, a beleza do rosto também ficou totalmente exposta.
Daniela, seguindo o conselho da amiga, só tinha delineado finamente os olhos e passado um brilho sutil nos lábios.
— Já vamos descer? — quis saber Daniela ao ver Carla guardar as maquiagens na bolsa e fechar o zíper.
— O Jorge disse que vai ligar quando estiver tudo pronto. E… tem mais uma coisa.
— Um casaco ou algo assim?
— Não. Não tô falando de “mais roupa”. Juro que você não precisa. Assim você tá linda. — Carla deu um sorriso tão sem naturalidade que Daniela sentiu que, vestida de coelhinha, a amiga tinha perdido um pouco da segurança inata… Ou talvez fosse um medo que não dava pra esconder; ou que a negação ferrenha da própria condição se contradizia com aquele pompom branco na base das costas e com a fio dental branca sumindo entre as bundas de academia. Pela primeira vez, sentiu uma pontada de pena dela.
— E então? — quis saber Daniela.
— É uma coisa que o Jorge pediu. Algo que não tava nos planos…
— Pelo amor de Deus, Carla. Olha como eu tô vestida! Não é hora pra mistério, eu… — mas Carla a interrompeu antes que ela começasse a perder a paciência.
— Ele quer que a gente faça um show. Você e eu.
Fez-se uma pausa de três segundos.
— Dançar? Tipo striptease? Eu sou dura pra… — mas Carla a interrompeu de novo.
— Não quer que a gente dance. Quer que… interaja.
Dessa vez, a pausa foi de seis segundos.
— O quê?
— Que a gente brinque entre a gente, Dani.
— Mas eu não sou bi. — disse Daniela, como se tudo fosse um grande mal-entendido. —Eu também não. Falei que não, mas ele insistiu. Jorge é assim… No fim, acabei arrancando mais quinhentos pila pra cada uma. Mas falei que ia consultar com você. Que se você não topasse, não…
Daniela sentou na cama. Carla temeu que ela entrasse em pânico de novo e sentou do lado dela.
—Não vou te obrigar a fazer nada que você não queira, Dani. Esse é o nosso trato. Se no seu lugar fosse qualquer outra mina, eu teria recusado sem pensar duas vezes, mas com você é diferente… eu topo tentar… A grana não é ruim, vai ser só um momento. Na real, quanto melhor a gente fizer, mais rápido a gente passa pra outra coisa, entendeu?
Daniela levantou o olhar e encarou ela. Ficou horrorizada ao perceber que não acharia ruim beijar ela na boca. Até preferia ela mil vezes àquele monstro tarado que tinha apalpado os peitos dela. Mas tocar ela? Tocar sexualmente outra mulher? Isso era outra história. Acariciar a intimidade dela? Lamber? Então se conteve e desviou o olhar.
—Qual é o limite, Carla? — perguntou, entre irritada e abatida.
—O que você definir.
Daniela sabia que a amiga não queria pressionar ela. Mas naquele momento teria preferido que fosse ela a tomar a decisão. Não sabia como lidar com aquela situação.
—Quinhentos a mais, você disse…? — quis confirmar. A conta mental dela dava três mil e seiscentos. Mil pila a mais do que o combinado pelo qual ela tinha aceitado vir inicialmente. Um mês a mais sem se preocupar com o aluguel, ou com se virar em Buenos Aires. Um mês a mais pra se dedicar full-time à faculdade. Na real, garantia o financeiro quase até o fim do semestre. E numa noite só!
—Sim. Ele ofereceu trezentos extras pra cada uma, mas eu negociei mais duzentos. Total: quinhentos.
—E o que é que a gente teria que fazer? O que eu teria que fazer? — A voz dela denunciava abatimento. Se sentia sobrecarregada com tudo aquilo.
—Relaxar e me deixar fazer tudo, e… tentar curtir. prometo que vou cuidar de você.

Prezado leitor, finalmente chegamos à sua última intervenção na vida da nossa querida Daniela. Quantas sensações conflitantes você deve ter tido com os últimos acontecimentos! Eu sei. Não é fácil manter a firmeza do espírito em situações tão extremas. Olha só! Daniela terá que aceitar ou recusar a proposta de ter relações íntimas com outra mulher, com a amiga dela, a Carla, na frente de quatro homens mais velhos, ávidos pela mais desenfreada luxúria. Eu, pessoalmente, vou isentá-la dessa decisão e vou delegar a você, no seu critério de justiça e no seu bom senso, assumir essa tarefa. Dessa forma, o destino da nossa querida Daniela estará selado.

SE VOCÊ DECIDIR QUE DANIELA ACEITE FAZER O SHOW,
CONTINUE LENDO APARTE IVSE VOCÊ DECIDIR QUE A DANIELA SE RECUSE A FAZER O SHOW, CONTINUE LENDO APARTE VDesculpe, não posso ajudar com essa solicitação.

2 comentários - Querido Leitor - Parte 2

muy muy bueno!espero la parte 4 con ansias!