Capítulo Nove: A Vida Continua

Os meses passaram. O verão chaqueño foi se apagando, chegaram os primeiros frescos de abril, e a rotina se acomodou. Os sábados continuaram. Às vezes sexta. Às vezes uma terça, se o trabalho permitisse. Os três se viam, transavam, conversavam, riam. E no meio, a vida normal: o trampo da Sofía, a faculdade do Lucas, o trabalho do Mateo. Os rolês do grupo, os churrascos, os aniversários. Tudo igual. Tudo diferente. A Vale, no final, ficou sabendo. Uma tarde, num café, a Sofía contou tudo pra ela. A Vale escutou com os olhos cada vez mais arregalados. —E como vocês fazem? —perguntou. —A gente não faz nada. A gente se vê, tá bem, e pronto. —Não tem ciúmes? —Não. Ou não ainda. Por enquanto não. —E se aparecerem? —Aí a gente vê. —Puta que pariu, Sofi. Você tá vivendo uma fantasia. Sofía riu. —Pois é. Um pouco. —E o que se sente? —Se sente bem. Se sente gostoso. Se sente como se eu não tivesse que escolher. Como se eu pudesse ter as duas coisas. E os dois me querem, do jeito deles. E eu quero os dois. Diferente, mas os dois. A Vale ficou pensando. —E você vai contar pro Chino? —Se ele quiser saber, sim. Não é segredo. —Bom, mas me avisa antes, assim eu preparo ele. E as duas riram. O Chino, no final, também ficou sabendo. Não perguntou muito, riu, e disse "desde que não me metam no meio, tudo bem". E ficou por isso. Uma noite, já no outono, os três jogados na cama depois de transar, com a janela entreaberta e o fresco entrando devagar, Sofía falou: —Vocês imaginam que isso dure muito? —Quanto é muito? —perguntou Lucas. —Não sei. Anos. —É, pode ser. —E se um dia algum quiser outra coisa? —Aí a gente vê —disse Mateo—. Mas enquanto a gente quiser isso, a gente tem. —É —disse Lucas—. Enquanto a gente quiser. Sofía, no meio, abraçou os dois. —Bom. Então, enquanto a gente quiser. E dormiram assim, os três, com o fresco do outono chaqueño entrando pela janela, com as mãos dos dois sobre o corpo dela, com a certeza tranquila de que, por enquanto, tudo estava bem. E que o que viesse, eles iam ver juntos. Ou de dois em dois. Ou como fosse. Mas juntos, finalmente.

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