O Dia da Lealdade (parte 1)

((E aí. Voltando à ativa com uma nova história. Espero que vocês gostem!


--M77.))
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Capítulo 1 - "Um Dia Peronista


“Vamos ver, Nicolás… quando você diz ‘minha namorada é uma puta’, primeiro que me parece uma reação completamente agressiva, e segundo não sei exatamente a que você se refere”.

Essa frase ficou gravada em mim, não sei por quê. Foi minha psicóloga, Carmen, que me disse durante uma das nossas sessões. Pra mim pareceu absolutamente óbvio, não sabia que precisava explicar. Uma puta é uma puta. Olhei pra Carmen como quem diz, sem palavras, "sério que eu preciso te explicar?".


Carmen era minha terceira terapeuta ao longo dos anos. Já fazia dois anos que nos víamos. Era uma senhora de sessenta e sete anos, com mais vontade de se aposentar do que de atender pacientes. Feia como pisar em merda descalço. Como diziam os Les Luthiers,seus encantos não tinham diminuído com os anos: tinham desaparecido. Os terapeutas anteriores que eu tive não me serviram pra nada, um gasto de grana à toa. Carmen era boa, mas de repente soltava umas coisas que queria que eu explicasse o que pra mim era óbvio.


...que dá pra caras, Carmen. O que mais ia querer dizer?", eu respondi mesmo assim.
Sim", me disse ele, "o ato é claro, mas o que eu não entendo é por que você continua se referindo à Valentina como 'sua namorada', se ela faz essas coisas.", me respondeu.
Porque a gente nunca cortou", respondi. Era a verdade.

Carmen me olhou como querendo ver o que tinha por trás dos meus olhos, todas as engrenagens, finalmente me disse: "Você não acha que está se agarrando a uma formalidade que já não faz sentido?
“Ai, desculpa, não sou tão progressista quanto os outros…”, respondi meio rindo.
“Você não tá me entendendo”, ela me parou, “Não tô falando isso de forma progressista… tipo, ‘hoje em dia rótulos como namorado e namorada já não servem mais’... não. Nada a ver. Tô te falando do ponto de vista de que se ela tem relações com outros homens, como você garante, então a palavra ‘namorada’ já não deveria continuar sendo válida pra descrever seu relacionamento com ela, não?”
“Ah, tá…”
“Por isso não sei por que você continua dizendo que ela é ‘sua namorada’. Claramente ela decidiu que não é mais, ou tem algo que eu não sei?”, ele me perguntou.
“Não sei...”, eu disse.
“Ou você precisa se juntar com ela e com algum tabelião e que os dois assinem o documento que diz que não são mais…”
“Uf, vai, Carmen, não enche…”, eu cortei ela.
Carmen deu de ombros, "Não falo isso pra te fuder não. Só tô dizendo que quando acontece uma parada dessas, geralmente a relação acaba ali, ipso facto…

Vamos rebobinar.

Sou Nicolás Bianchi. 36 anos. Torcedor do Almagro desde sempre por causa do meu velho (obrigado por todas as 'alegrias', pai). Trabalho numa empresa de comércio exterior e logística, na parte contábil. É uma empresa média, puxando pra pequena. Somos onze funcionários num escritório no centro. Gente boa, me dou bem com todo mundo.

Tenho um leve transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Sou um cara muito detalhista. É leve mesmo, apesar das zoações que às vezes aguento no escritório por causa das coisas que faço ou noto. Por isso comecei a ir a terapeutas e por isso acabei com a Carmen. No começo era por causa do TOC, ela me ajudou bastante, mas depois começaram a acontecer outras coisas que conversei com ela e aí estamos. Por enquanto ela não conseguiu me ajudar muito. Que coisas?

Vamos rebobinar mais.

Apesar da opinião da Carmen e mesmo apesar dos quilômetros de rola que entram nela todo mês, eu estou namorando. Sim, namorando. Valentina Soria. Ela tem trinta e quatro anos, muito bem vividos. É uma gostosa da Vale. Cabelo castanho que ela pinta de loiro, esbelta, tem um corpão. Uns peitos alucinantes. Mas o que me fisgou desde o início foi o rosto dela, mistura de menina de bairro e puta pra caralho, e o jeito tão agradável que ela tinha. Que tem.



O Dia da Lealdade (parte 1)

Nos conhecemos há sete anos, começamos a sair logo em seguida. Não a conheci através de um amigo em comum, nem trabalhamos juntos nem nada disso. Foi algo tão incomum, pelo menos pra mim, que não consegui interpretar como outra coisa senão intervenção divina. Um dia peguei um ônibus pra ir pro escritório e a vi. Ela estava sentada nos assentos da esquerda, individuais, com fones de ouvido e olhando o celular. Fiquei completamente babaca olhando pra ela. Não conseguia tirar os olhos dela. Durante a viagem, de vez em quando ela levantava a cabeça pra ver onde o busão estava, olhava em volta e encontrava meu olhar. Eu desviava na hora. E logo voltava a olhar quando ela olhava o celular de novo. Parecia que o tempo não passava.

Quando eu vi que ela se levantou pra se preparar pra descer, senti como se minha pressão tivesse caído. Que eu tava me sentindo mal. Que ia perdê-la. Não consigo explicar. Minhas mãos suavam. Eu não sou um cara impulsivo por natureza, mas alguma coisa eu tinha que fazer. Algo que nunca antes tinha feito na vida. Quando ela parou perto da porta, apertou o botão e se agarrou num cano. Não era meu ponto, era muito antes de onde eu tinha que descer, mas eu me coloquei atrás dela. Ela nem aí, continuava com a música dela.

Nós dois descemos, ela na parada dela e eu que nem sabia onde porra eu tinha descido. Segui ela por um quarteirão, pensando e repensando o que dizer. Tinha que fazer algo e rápido. Se ela entrasse em algum prédio, eu perdia ela pra sempre. Tomei coragem e abordei ela na esquina, enquanto esperava o semáforo mudar pra atravessar.

Pensei que ela ia me mandar à merda, ou me ignorar educadamente como as pessoas fazem quando a gente para elas na rua. Talvez ela tenha pensado que eu queria vender meia. Mas não. Ela tirou o fone de ouvido. Falei exatamente o que eu pensava, que me desculpasse, que eu não costumava fazer isso de jeito nenhum, mas que a vi no ônibus e era a mulher mais gostosa que eu já tinha visto pessoalmente na minha vida. Que não queria incomodar, só queria dizer isso pra ela ou ia me arrepender a vida inteira se não fizesse.

Valentina riu, mas riu de verdade. Não pra me zoar, riu docemente e me olhou. Me agradeceu o elogio e por eu ter sido educado. Tinha uma voz linda ainda por cima. Deixei meu celular, anotado num papelzinho. Falei pra ela por favor pegar. Que não tinha compromisso nenhum, mas que se ela estivesse sozinha e desse vontade em algum momento de sair, ir tomar um café ou o que fosse, que eu também estava sozinho e adoraria.

Pela segunda vez ela não me mandou à merda. Sorriu, me olhou e guardou o papelzinho. Disse obrigada. Nada mais. Obrigada. O sinal mudou, ela atravessou e eu fiquei ali feito um idiota olhando a bunda dela enquanto ela se afastava.

Achei que tudo tinha ficado por isso mesmo. O que eu fiz, fiz, e pronto. Cumpri. Mas três dias depois ela me mandou uma mensagem no WhatsApp. Começamos a sair pouco depois disso. Eu não conseguia acreditar. Ainda não consigo. No ano seguinte, a avó dela, Elvira, faleceu e deixou pra ela o apartamento dela em Villa Urquiza. Zona boa, residencial. A família dela, os Soria, eram gente com grana há gerações, sempre tinha algum Soria metido com fazendas no interior, criação de gado, exportação de carne e tudo isso. Valentina se mudou pra esse apartamento, que precisava de uma reforma porque a velha Elvira tinha deixado ele bem largado por anos. A Vale parou de pagar aluguel onde estava e finalmente tinha o apartamento dela, pra reformar e morar. Ela estava muito feliz. E eu também, quando ela me disse pra gente morar junto lá. Pra mim ficava super fora de mão, longe do escritório, mas não me importei.

Era conviver com a Valentina.

Vamos rebobinar.





ninfomaniaca



Valentina era super peronista até o osso. Eu não. Eu sempre fui mais de centro-direita, se é que dava pra me definir assim. Eu nunca fui uma pessoa apaixonada por política. Muito menos. Sempre tive minhas ideias, mas o resto eu ignorava. Valentina, por outro lado, sempre foi peronista, igual aos pais. Na adolescência (e já não tão adolescente) ela militava em unidades básicas, ia a marchas, participava. Era muito comprometida com suas ideias. Quando entrou na faculdade começou a estudar Sociologia na UBA e aí, claro, também militou. Se meteu na Juventude Universitária Peronista que ficava ali em Ciências Sociais, ajudando com o centro acadêmico, militando, distribuindo panfletos, apoiando greves e tudo isso. Também tinha entrado em contato com grupos sociais em alguns bairros e nos fins de semana ia ajudar lá. Até dava aulas de literatura (sempre dentro das suas possibilidades, já que não era especialista) numa associação de bairro, de graça pra quem ia.

Isso foi nos anos mais jovens dela. Quando nos conhecemos, ela me disse que nunca tinha terminado a faculdade e que já não ia mais às unidades básicas. Continuava ligada a pessoas que tinha conhecido nos anos de assistência social, organização de marchas e tudo mais. E que ainda ajudava em alguns bairros, mas não tanto como antes.

Pra mim não incomodava não. Pelo contrário, eu gostava de ver ela empolgada e comprometida ajudando o pessoal, porque além de qualquer sigla ou preferência política, tinha um monte de gente que infelizmente precisava de ajuda e era ótimo que recebesse.

Quando a gente foi morar junto ali em Villa Urquiza, nossa rotina se estabeleceu quase que imediatamente. A Valentina não estava trabalhando, então ficava no apartamento. Primeiro arrumando e reformando, e depois que isso acabou, cuidando das coisas da casa. Eu, durante a semana, ficava das nove às dezoito no escritório, voltava à noite, e a gente compartilhava os fins de semana no apartamento o dia todo. Às vezes a gente saía pra comer ou pra algum lugar, em outros dias ela ia fazer algum trabalho de colaboração e ajuda social e eu ficava em casa, de boa.

Aos três anos de estarem juntos ali, Valentina se reconectou com uma amiga da faculdade, Cecilia. Outra gostosa louca como ela. Ceci sempre me caiu bem. Cecilia a procurou para propor um empreendimento pra começarem juntas, já que Valentina não tinha trabalho. Olha, ela não precisava, mas uns trocados a mais sempre vinham bem em qualquer lar.

A ideia das meninas acabou sendo chamada de "Fundo Liso". Era um empreendimento de venda pelo Instagram de tecidos e materiais de couro reciclados ou reformados, e também papelaria reciclada, presentes corporativos, bugigangas variadas. Algumas eram bem bonitas e algumas pessoas gostavam. Cecilia era a que cuidava de conseguir o material e as oficinas para dar forma às roupas, bolsas, capas de mate, etc. Valentina era a que cuidava da promoção no Instagram, vendas e das contas.

Fundo Liso já tem três anos de vida. Nunca foi um sucesso nem um fracasso. Serve para as duas ganharem uns trocados extras e ficarem ocupadas. Principalmente a Valentina. Nunca falei isso pra ela, mas eu sempre pensei (pura opinião pessoal) que as vendas do Fundo Liso disparavam um pouco quando a Valentina aparecia nos anúncios ela mesma em vez de só mostrar os produtos, já que todos os punheteiros com certeza compartilhavam os vídeos.

Já estamos mais ou menos em dia? Ok. Como foi que toda essa história começou, que eu acabei falando disso com a Carmen e por que eu disse que a Valentina era uma puta? Pra isso a gente tem que rebobinar até o começo dessa fita cassete fatal em que a minha vida se transformou nos últimos tempos.

Como toda boa história, essa começa com uma besteira: Ir a uma verdureira.

Foi mais ou menos há um ano. Um sábado de sol, de manhã. Valentina me disse para acompanhá-la fazer as compras pelo bairro, assim eu a ajudava com as sacolas. Não me incomodava. Valentina não conseguia evitar ir às grandes redes de supermercados por algumas coisas específicas, mas se dependesse dela preferia ir aos comércios de bairro "para ajudar a economia dessa gente", segundo ela.

A gente acabou na verdureira de um cara chamado Raúl Mena. Um cinquentão. Ele e a Valentina se conheciam de tanto ela ir comprar lá. O cara era simpático. Eu fiquei do lado de fora, na calçada, com as outras sacolas, mexendo no celular enquanto ela comprava. De repente, escuto da calçada o vozeirão de outro cara, não era o Raúl.

Vale? Gatinho, só você?

Levantei a cabeça e vi que tinha outro cara com o Raúl, parecia que trabalhava ali ou era amigo do Raúl. Impossível determinar. Um moreno, gordo, meio obeso, com o cabelo meio comprido e barba com alguns fios grisalhos, bem desleixado. Vi a Valentina que levou uma mão ao peito e respondeu.

Tavo? Porra, o que você tá fazendo!", ela riu, "Não acredito, o que você tá fazendo?

Eles se aproximaram e se deram um abraço educado, um beijo no rosto. Os dois sorriam um para o outro.

O cara riu e ficou olhando pra ela, "Tanto tempo, moni… olha só você, o que é a vida…
Sim, porra, incrível. O que você tá fazendo aqui?", ela perguntou.
“E aqui trabalhando, né… com o Raúl.”
Raúl sorriu para os dois enquanto embalava umas verduras para Valentina, "Vocês dois se conhecem?
Valentina riu, "É... mas faz um tempão que a gente não se vê...
Dez anos fácil...", concordou o gordo.
Mais ou menos… o que é da sua vida, doidão? Perdi seu rastro quando parei de ir na La Cañada", disse Valentina. Eu sabia que 'La Cañada' era uma das associações de bairro em que Valentina ajudava, anos atrás, no Mataderos.
O gordo deu de ombros, "E, véi... na luta. Aqui e ali. Tô parando em San Miguel agora, num assentamento com um primo meu e a mulher dele.
E você trabalha aqui?", perguntou Valentina, "Que viagenzinha que você tem...
O gordo bufou, "É, nem me fala... kkkkk... mas que bom te ver, macaquinho. Que doideira. Você tá gostosa como sempre!
“Ai, obrigada…”, riu Valentina.
Desculpa me intrometer, né, mas... como é essa parada de 'monito'?", perguntou Raúl com um sorriso sacana. Valentina e o gordo riram.
“A gente chamava assim...”
Outras épocas...", riu Valentina.
“Ah. E a que vem esse apelido?”, perguntou Raúl.
“Ai, Raúl, é melhor a gente parar por aqui…”, riu Valentina. O gordo também riu.
É, é... vamos deixar assim...", comentou o gordo, "Aqui o Raúl, na boa, me deu trampo... ajudando aqui com os caixotes e as parada. Você tá morando por aqui?
A senhora é vizinha, Tavo… cuidado, hein?", acrescentou Raúl.
“Ufff… não me chama de ‘senhora’ não…”, riu Valentina, “Sim, aqui a três quarteirões. Com meu namorado.”
O gordo assentiu, “Que bom, né, as voltas da vida. Rauli, você não sabe o que é essa garota, um doce de pessoa. Você não sabe as mãos que ela nos deu…”
Valentina sorriu, "Ajuda se puder, dizia meu velho.
Raúl assentiu e sorriu também, “Boa política.”



corno


Da onde eu tava, ninguém me via. Eles conversaram mais um pouquinho até o Raúl terminar de arrumar as sacolas pra Valentina, ela pagou ele, se despediu do gordo com outro abraço e beijo na bochecha e saiu.

Voltando pra casa, perguntei pra Valentina qual é que era. Ela sorriu e me disse.
Tavo? O gordo era um cara em situação de rua que a gente às vezes atendia na La Cañada.", ele sorriu como se estivesse lembrando, "Muito gente boa. Ele também nos ajudava com o que podia.
Eu assenti, “Sim, parece maneiro.”
“Caramba, que cara legal”, ela reforçou, “Olha só onde eu venho te encontrar depois de tanto tempo.”
Às vezes é assim. Que bom que parece que ele tem trampo e tal agora", eu disse.
Sim, ótimo.", disse ela, "Tem um monte de gente que você ajuda e às vezes parece que a ajuda não faz nada, sabe? Continuam perdidos. Por sorte o Tavo endireitou o rumo

Quando chegamos ao apartamento e a Valentina estava tirando tudo das sacolas, eu a ouvi reclamar: "Ai, mas a puta que pariu... que burra...
“Que foi?”, perguntei da sala.
“Esqueci os zapallitos… por ficar de papo…”, suspirou.
Deixa... vou eu. De quebra passo na banca comprar cigarro, senão vou ficar sem...", eu disse e peguei as chaves.
“Vai, amor… traz só um quilo…”

Comprei cigarros e subi para a verdureira. Quando cheguei, vi o Raul e o gordo Tavo sentados, um numa cadeira e o gordo num caixote de fruta que parecia prestes a se render ao peso do cu do gordo e causar uma tragédia. Estavam tomando mate e conversando. O Raul não me conhecia, eu era um cara qualquer. Nem sabia que eu era o namorado da Valentina porque nunca fui com ela em nenhum momento dentro da verdureira. Nem nesse dia nem em nenhum outro.

Cumprimentei, Raúl respondeu ao cumprimento educadamente e peguei uma sacolinha pra colocar as malditas abobrinhas. Foi aí que os ouvi continuar a conversa.
Eu não acredito nisso", disse Raúl para Tavo, "Olha só, a garota...
O gordo riu e assentiu, "É, papai… cada história tem… você não sabe o que era.Ou você tá se achando e me contando uma baita mentira sobre a loira...", riu Raúl.

Eu me fiz de bobo e comecei a escolher os abobrinhas, examinando eles como se deles dependesse a paz do ocidente. Queria deixar os dois caras continuarem falando, pra ver o que eu descobria, se é que eu descobria alguma coisa.

“Nah, pai…”, riu Tavo, “Eu não minto. Juro pela virgem.”
Então ela é guerreira. Tem cara", comentou Raúl.
Você sabe como os vagabundos davam pra ela lá na La Cañada... ufff...", riu o gordo.
“Vai, otário… que foi? Você também bateu uma, né?”
O gordo riu, "Não... mas vontade não me falta, hein? Nem ontem nem hoje... a filha da puta tá uma gostosa, igual antes".
Aí, fode-te a direita, negro...", riu Raúl.
“Não tem nojo de nada”, riu Tavo, “Bah… ou pelo meno’ naquela época não. Agora vai saber. Vai que virou uma senhora decente”.
“Ela tem namorado, ela disse”, comentou Raúl.

Eu já não podia mais demorar a seleção dos malditos abobrinhas e já sentia que meu sangue fervia. Se eu continuasse ali apalpando abobrinhas, iam pensar que eu estava procurando outra coisa. Passei a sacola pro Raúl, ele pesou, paguei e nos cumprimentamos amigavelmente. Voltei pro apartamento pensando se contava algo pra Valentina ou não. Sobre o que eu tinha escutado na verdureira.

No final, e por enquanto, decidi não fazer isso. Não por uma questão de não querer. Foi mais que nada porque tinha medo de reavivar coisas que talvez ela já tivesse deixado pra trás. Ela sempre foi muito aberta comigo, sobre o passado militante dela e as coisas que fez, mas essa parada de que "os caras mexiam nela o tempo todo" na La Cañada, disso ela nunca tinha me falado nada. Tá certo que talvez não sejam coisas que se falam, mas eu pensava que ela teria me contado se alguma vez tivesse tido alguma aventura.

Então, se a Valentina nunca me disse nada, era porque tinha deixado aquilo pra trás, não ia querer que ficassem relembrando, ou a outra opção era que aquele gordo, o Tavo, era um bocudo que tava se achando com o novo chefe dele, o Raúl, e tava esquentando a cabeça dele vai saber pra quê. Mesmo assim, me chamou atenção o Tavo ter dito pro Raúl que ele nunca tinha pegado ela. Que outros sim, mas ele não. Eu pensava que, se o gordo era um bocudo, se era uma história inventada, ele teria dito que também tinha comido uma mulher dessas pra se exibir. Mas não.

O simples fato de ele não ter feito isso, de não ter dito, foi algo que ficou na minha cabeça por semanas. E foi o que começou a alimentar a paranoia crescente que eu tinha, intimamente na minha cabeça, em relação à Valentina. Dava veracidade à história do gordo.

Eu não sabia naquele momento, mas era o começo do fim.

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