Louvor e Submissão - Capítulo 6: O Eco do PrazerO domingo amanheceu diferente. O sol entrava pela janela do quarto dela não como um julgamento, mas como um carinho. María Elena acordou sentindo o peso dos lençóis sobre a pele de um jeito novo, como se cada fibra tivesse um propósito, uma textura pra lembrar que ela estava viva. O eco do orgasmo do dia anterior não tinha se apagado; tinha se instalado nela, uma presença silenciosa e quente que mudava a percepção que ela tinha do mundo.
Enquanto tomava banho, a água quente sobre os peitos e as coxas não foi só uma higiene, mas um ato de redescoberta. Suas mãos, já não trêmulas nem envergonhadas, se moveram com uma curiosidade nova, explorando as curvas que durante anos ela tinha considerado meramente funcionais. Agora eram um território de prazer, um mapa que ela estava começando a decifrar.
Se vestiu pro templo com uma deliberação que lhe pareceu estranha. Em vez de escolher o vestido mais escuro e largo que encontrou, seus dedos pararam num de cor creme, de um linho macio que se colava sutilmente às suas formas. Não era provocante, mas também não era uma armadura. Era simplesmente... ela. Ou a versão dela que estava começando a conhecer.
No café da manhã, sua mãe a olhou com estranheza. —Filha, hoje você está... radiante. Tá se sentindo bem?
—Sim, mãe. Nunca me senti melhor —respondeu, e era a verdade.
Sebastián, sentado à frente dela, levantou os olhos do celular e sorriu. —Você tem razão, mãe. Tem algo diferente em você hoje. É como se... você pesasse menos.
María Elena sorriu, um gesto genuíno que alcançou seus olhos. —Acho que decidi parar de carregar pesos que não me pertencem.
A ida ao templo foi diferente. Já não sentia o peso da expectativa, a necessidade de agir como a irmã María, o pilar da fé. Se sentia como uma observadora, uma antropóloga estudando uma tribo à qual tinha pertencido a vida toda.
Quando entrou, seus olhos o procuraram instintivamente. Ele não estava. Uma pontada de Uma decepção, aguda e inesperada, a atravessou. Sentou-se no seu lugar de sempre, mas desta vez não se perdeu na liturgia. Observou. Observou o fervor nos rostos dos irmãos, as mãos levantadas em êxtase, os olhos fechados em comunhão. E pela primeira vez, não sentiu inveja. Sentiu uma espécie de... piedade. O pastor Ramiro subiu ao púlpito, sua voz potente enchendo o templo. "Irmãos e irmãs, hoje quero falar da carne. Porque a carne é fraca, irmãos. A carne é o terreno onde o inimigo planta suas sementes mais venenosas. O desejo carnal é um fogo que pode consumir a alma, uma distração que nos afasta do caminho verdadeiro." Enquanto falava, a mão de María Elena se moveu instintivamente para sua coxa, sobre o vestido de linho. Sentiu o calor da própria pele através do tecido, o eco do prazer que havia descoberto. E soube que o pastor estava errado. A carne não era fraca. A carne era sábia. A carne não era uma distração; era um guia. "A mulher virtuosa," continuou o pastor, "aquela que teme ao Senhor, guarda seu corpo como um templo sagrado. Não se entrega aos apetites da carne, não se deixa levar pelas paixões mundanas. Porque seu reino não é deste mundo, irmãos. Seu reino está nos céus." María Elena pensou no templo que seu corpo havia se tornado no dia anterior, no céu que havia encontrado na poltrona de espera do seu salão de beleza. E soube que seu reino estava muito bem aqui, na terra, na sua própria pele. Quando o culto terminou, ficou sentada um momento, observando as pessoas saindo. A irmã Hortensia já estava lá fora, conversando animadamente com outras irmãs. Sebastián a esperava na porta, com uma paciência que ela agradeceu com um sorriso. — Vamos, mãe? — Sim, filho. Vou em um minuto. Sebastián assentiu e saiu. María Elena ficou sozinha no banco de madeira, o templo vazio e silencioso ao seu redor. Sentia-se em paz, como se tivesse acabado de tomar uma decisão importante. Ela se levantou e saiu para o sol brilhante do meio-dia. Caminhou pela rua principal do vilarejo, não com a pressa habitual de uma mulher com deveres a cumprir, mas com o passo lento de alguém que está redescobrindo seu entorno. O cheiro de pão quente, o som das crianças brincando, a cor das flores nas sacadas... tudo parecia mais vivo, mais real. Chegou à sua loja e abriu a porta. O cheiro familiar de tintura e roupa de segunda mão a recebeu como um abraço. Acendeu as luzes, baixou a persiana, e ficou de pé no meio do local, sentindo o espaço ao seu redor como uma extensão de si mesma. Estava decidindo o que fazer quando a campainha da porta tocou. Levantou o olhar, e seu coração deu um pulo. Era ele. Mas não estava sozinho. Com ele estava outra mulher, uma mulher jovem e bonita, com o cabelo loiro e um sorriso brilhante. Usava uma camisa justa e uns jeans que realçavam uma figura esbelta e atlética. Era tudo o que María Elena não era: jovem, magra, moderna. —Deus te abençoe, irmão —cumprimentou María Elena, sua voz mais firme do que esperava—. Em que posso ajudar? Ele olhou para ela, e em seus olhos não havia nem um pingo do calor do dia anterior. Era o olhar de um cliente, de um estranho. —Oi, María Elena. Te apresento minha colega, Sofía. Ela veio me ajudar com a instalação das antenas na zona norte. Estávamos procurando roupa de frio, e me lembrei da sua loja. María Elena assentiu, sentindo como o chão se abria sob seus pés. Sofía sorriu para ela, um sorriso amável e um pouco curioso. —Prazer. Já ouvi muito falar da sua loja. Dizem que você tem as melhores coisas do vilarejo. María Elena se forçou a sorrir, a agir como a dona de loja eficiente que sempre tinha sido. Mostrou as jaquetas e os casacos, respondendo às perguntas deles com uma profissionalidade que parecia uma armadura. Enquanto ele experimentava uma jaqueta, Sofía se aproximou dela. —Você é a mulher de quem ele não para de falar, né? María Elena ficou gelada. —Como? —Ele —disse Sofía, com um sorrisinho cúmplice—. Diz que você é a mulher mais forte que ele já conheceu. Diz que você criou três filhos sozinha, que toca um negócio, que você é... uma inspiração. María Elena se sentiu paralisada. Inspiração. Era isso que ele via nela? Uma inspiração, não uma mulher? Ele se aproximou então, com a jaqueta vestida. —Vou levar ela, María Elena. E a Sofía também quer um par de botas. Enquanto María Elena atendia a Sofía, ele se aproximou do balcão, de costas para elas. Falou baixinho, mas María Elena conseguiu ouvir cada palavra. —O que você acha? —disse ele—. Não é incrível? Uma mulher assim, lutando sozinha contra tudo e todos. Me lembra a minha própria mãe. Mãe. A palavra a atingiu como um soco. Mãe. Inspiração. Forte. Tudo o que ela sempre tinha sido, tudo o que ela sempre tinha odiado ser. Não era uma mulher para ele. Era um projeto. Um símbolo. Pagou pela jaqueta e se despediu. —A gente se vê, María Elena. Obrigado por tudo. Saiu com a Sofía, rindo de algo que ela disse. María Elena ficou parada atrás do balcão, com o dinheiro na mão, sentindo como o mundo que tinha começado a construir desmoronava aos seus pés. O eco do prazer do dia anterior tinha se transformado no eco da humilhação. Não era uma mulher desejada. Era uma mulher admirável. Não era um objeto de paixão. Era um objeto de inspiração. Fechou a loja às pressas,... e subiu as escadas para o pequeno apartamento que ficava em cima da loja, um espaço que usava para estocar mercadoria e onde às vezes dormia quando os dias eram longos. Não era a casa dela, mas naquele momento, era o único lugar onde podia ficar a sós. Trancou a porta e se apoiou nela, com os olhos fechados. As palavras dele ecoavam na cabeça dela: "inspiração", "forte", "me lembra a minha própria mãe". Cada palavra era uma facada, uma negação de tudo o que ela tinha sentiu no dia anterior. Não o desejava. Admirava-o. Via-o como um monumento à resistência, não como um homem de carne e osso. A raiva começou a arder em seu peito, uma raiva quente e purificadora. Não era raiva dele, mas de si mesma. Como tinha sido tão burra? Como tinha acreditado, mesmo que por um momento, que um homem como ele poderia desejar uma mulher como ela? Uma mulher de quarenta e sete anos, com três filhos, uma loja num fim de mundo e um corpo marcado pelo tempo e pelos partos. Tirou o vestido creme com uma brusquidão que quase o rasgou. Ficou de frente para o espelho que havia num canto, usado para conferir as roupas. Olhou-se nua, realmente nua, pela primeira vez. Viu as estrias prateadas na barriga, a leve caída dos seios, as rugas finas ao redor dos olhos. Viu o corpo de uma mãe, de uma trabalhadora, de uma sobrevivente. E então, algo mudou. A raiva se transformou em outra coisa. Em desafio. Em orgulho. Sim, era o corpo de uma mãe. Um corpo que tinha dado vida três vezes. Sim, era o corpo de uma trabalhadora. Um corpo que tinha levantado caixas, que tinha ficado de pé durante horas, que tinha construído um negócio com as próprias mãos. Sim, era o corpo de uma sobrevivente. Um corpo que tinha aguentado o abandono, a solidão, o sacrifício. Era o seu corpo. E era lindo. Aproximou-se do espelho, seus dedos traçando as linhas que antes odiava. As estrias não eram defeitos; eram medalhas. As rugas não eram sinais de velhice; eram mapas de uma vida vivida. A leve caída dos seios não era flacidez; era a prova de que tinha nutrido seus filhos. Tocou-se, não com a timidez de antes, nem com a orientação dele. Tocou-se com um conhecimento novo, com uma aceitação total. Suas mãos percorreram sua pele, não buscando o prazer que ele tinha lhe ensinado a encontrar, mas reafirmando sua própria existência, seu próprio valor. "Forte", sussurrou ao seu reflexo, mas desta vez a palavra não soou como uma condenação, mas como uma declaração. "Inspiração". E sorriu, um sorriso feroz e triunfante.
Não precisava da admiração dele. Não precisava do desejo dele. Tinha o seu próprio. Tinha a descoberta do seu próprio corpo, do seu próprio prazer. Tinha a força que ele tinha visto, mas agora essa força não era um peso, mas uma arma.
Se vestiu de novo, não com o vestido creme, mas com jeans e uma camiseta preta justa. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo alto e severo. Se maquiou com um vermelho intenso nos lábios. Quando se olhou pela última vez no espelho, não viu a mãe dos gêmeos, nem a filha da irmã Hortensia, nem a dona da "Bendiciones". Viu uma mulher. Uma mulher que tinha sido tocada, que tinha sido despertada, e que agora estava decidida a assumir as rédeas do seu próprio despertar.
Desceu as escadas, reabriu a loja e começou a trabalhar. Organizou os cabides com uma nova energia, atendeu os clientes com um sorriso que era genuíno, não profissional. O mundo continuava o mesmo, mas ela era diferente.
Quando a campainha da porta soou de novo no final da tarde, não levantou a cabeça com expectativa. Levantou a cabeça com curiosidade.
Era ele. Estava sozinho. Se aproximou do balcão, e desta vez seus olhos não eram os de um cliente. Eram os de um homem que busca algo.
—María Elena —disse ele, sua voz mais baixa que o habitual—. Precisamos conversar.
—Sobre o quê? —perguntou ela, sua voz neutra—. Sobre seu colega? Ou sobre o quanto eu sou inspiradora?
Ele piscou, surpreso com seu tom. —Você entendeu errado.
—Ah, eu entendi perfeitamente —disse ela, se apoiando no balcão—. Sou a mulher forte, a mãe solteira, o símbolo da resistência. Uma inspiração. Mas não uma mulher, né? Não alguém que você poderia desejar de verdade.
—Não é assim —começou ele, mas ela o interrompeu.
—Então, como é? Me explica. Porque ontem você me ensinou a sentir meu próprio corpo, a descobrir meu próprio prazer. Você me fez me sentir viva, desejada. E hoje você chega com uma loira dez anos mais nova e me apresenta como seu... projeto social? Ele ficou calado, os olhos fixos nela. E pela primeira vez, viu algo que não tinha visto antes: medo. —Sofía é minha irmã —disse finalmente, a voz quase um sussurro—. Minha irmã mais nova. Acabou de chegar na cidade e queria que ela conhecesse o lugar. E o que eu disse sobre você... era verdade. Você é uma inspiração. Mas não só por isso. Eu te admiro por isso, sim. Mas eu te desejo... te desejo por todo o resto. Pela sua força, pela sua vulnerabilidade, pelo jeito que seus olhos brilham quando você ri, pelo som da sua voz quando sussurra meu nome. Te desejo porque você é você, María Elena. Completa. María Elena olhou pra ele, analisando seus olhos, buscando a verdade. E encontrou. Viu o desejo, sim, mas também o respeito. Viu a admiração, mas também a paixão. Percebeu que tinha interpretado mal as palavras dele. Tinha deixado seus velhos medos, sua velha insegurança, nublarem seu julgamento. Tinha construído uma história de humilhação na cabeça, uma história que não era real. —Desculpa —disse ele, se aproximando um pouco mais—. Eu devia ter te contado antes. Devia ter te contado primeiro. —É —disse ela, assentindo devagar—. Devia. Ficou em silêncio por um momento, processando. E então, tomou uma decisão. —Fecha a porta —disse, a voz baixa e firme—. Vira a placa. Ele olhou pra ela, surpreso. —Tem certeza? —Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida —respondeu ela, e dessa vez, não havia dúvida na voz dela, nem nos olhos—. Você acabou de me ensinar uma coisa muito importante, sabia? Me ensinou que meu prazer me pertence. Que meu corpo me pertence. Que meu desejo me pertence. E agora, vou te ensinar uma coisa. Ele obedeceu, trancando a porta e virando a placa de "Aberto". Quando se virou pra ela, ela já estava esperando, não na área da barbearia, mas no meio da loja, entre araras de roupa e caixas de sapatos.
—Vem —disse ela, e pegou a mão dele—. É a minha vez de guiar.
Enquanto tomava banho, a água quente sobre os peitos e as coxas não foi só uma higiene, mas um ato de redescoberta. Suas mãos, já não trêmulas nem envergonhadas, se moveram com uma curiosidade nova, explorando as curvas que durante anos ela tinha considerado meramente funcionais. Agora eram um território de prazer, um mapa que ela estava começando a decifrar.
Se vestiu pro templo com uma deliberação que lhe pareceu estranha. Em vez de escolher o vestido mais escuro e largo que encontrou, seus dedos pararam num de cor creme, de um linho macio que se colava sutilmente às suas formas. Não era provocante, mas também não era uma armadura. Era simplesmente... ela. Ou a versão dela que estava começando a conhecer.
No café da manhã, sua mãe a olhou com estranheza. —Filha, hoje você está... radiante. Tá se sentindo bem?
—Sim, mãe. Nunca me senti melhor —respondeu, e era a verdade.
Sebastián, sentado à frente dela, levantou os olhos do celular e sorriu. —Você tem razão, mãe. Tem algo diferente em você hoje. É como se... você pesasse menos.
María Elena sorriu, um gesto genuíno que alcançou seus olhos. —Acho que decidi parar de carregar pesos que não me pertencem.
A ida ao templo foi diferente. Já não sentia o peso da expectativa, a necessidade de agir como a irmã María, o pilar da fé. Se sentia como uma observadora, uma antropóloga estudando uma tribo à qual tinha pertencido a vida toda.
Quando entrou, seus olhos o procuraram instintivamente. Ele não estava. Uma pontada de Uma decepção, aguda e inesperada, a atravessou. Sentou-se no seu lugar de sempre, mas desta vez não se perdeu na liturgia. Observou. Observou o fervor nos rostos dos irmãos, as mãos levantadas em êxtase, os olhos fechados em comunhão. E pela primeira vez, não sentiu inveja. Sentiu uma espécie de... piedade. O pastor Ramiro subiu ao púlpito, sua voz potente enchendo o templo. "Irmãos e irmãs, hoje quero falar da carne. Porque a carne é fraca, irmãos. A carne é o terreno onde o inimigo planta suas sementes mais venenosas. O desejo carnal é um fogo que pode consumir a alma, uma distração que nos afasta do caminho verdadeiro." Enquanto falava, a mão de María Elena se moveu instintivamente para sua coxa, sobre o vestido de linho. Sentiu o calor da própria pele através do tecido, o eco do prazer que havia descoberto. E soube que o pastor estava errado. A carne não era fraca. A carne era sábia. A carne não era uma distração; era um guia. "A mulher virtuosa," continuou o pastor, "aquela que teme ao Senhor, guarda seu corpo como um templo sagrado. Não se entrega aos apetites da carne, não se deixa levar pelas paixões mundanas. Porque seu reino não é deste mundo, irmãos. Seu reino está nos céus." María Elena pensou no templo que seu corpo havia se tornado no dia anterior, no céu que havia encontrado na poltrona de espera do seu salão de beleza. E soube que seu reino estava muito bem aqui, na terra, na sua própria pele. Quando o culto terminou, ficou sentada um momento, observando as pessoas saindo. A irmã Hortensia já estava lá fora, conversando animadamente com outras irmãs. Sebastián a esperava na porta, com uma paciência que ela agradeceu com um sorriso. — Vamos, mãe? — Sim, filho. Vou em um minuto. Sebastián assentiu e saiu. María Elena ficou sozinha no banco de madeira, o templo vazio e silencioso ao seu redor. Sentia-se em paz, como se tivesse acabado de tomar uma decisão importante. Ela se levantou e saiu para o sol brilhante do meio-dia. Caminhou pela rua principal do vilarejo, não com a pressa habitual de uma mulher com deveres a cumprir, mas com o passo lento de alguém que está redescobrindo seu entorno. O cheiro de pão quente, o som das crianças brincando, a cor das flores nas sacadas... tudo parecia mais vivo, mais real. Chegou à sua loja e abriu a porta. O cheiro familiar de tintura e roupa de segunda mão a recebeu como um abraço. Acendeu as luzes, baixou a persiana, e ficou de pé no meio do local, sentindo o espaço ao seu redor como uma extensão de si mesma. Estava decidindo o que fazer quando a campainha da porta tocou. Levantou o olhar, e seu coração deu um pulo. Era ele. Mas não estava sozinho. Com ele estava outra mulher, uma mulher jovem e bonita, com o cabelo loiro e um sorriso brilhante. Usava uma camisa justa e uns jeans que realçavam uma figura esbelta e atlética. Era tudo o que María Elena não era: jovem, magra, moderna. —Deus te abençoe, irmão —cumprimentou María Elena, sua voz mais firme do que esperava—. Em que posso ajudar? Ele olhou para ela, e em seus olhos não havia nem um pingo do calor do dia anterior. Era o olhar de um cliente, de um estranho. —Oi, María Elena. Te apresento minha colega, Sofía. Ela veio me ajudar com a instalação das antenas na zona norte. Estávamos procurando roupa de frio, e me lembrei da sua loja. María Elena assentiu, sentindo como o chão se abria sob seus pés. Sofía sorriu para ela, um sorriso amável e um pouco curioso. —Prazer. Já ouvi muito falar da sua loja. Dizem que você tem as melhores coisas do vilarejo. María Elena se forçou a sorrir, a agir como a dona de loja eficiente que sempre tinha sido. Mostrou as jaquetas e os casacos, respondendo às perguntas deles com uma profissionalidade que parecia uma armadura. Enquanto ele experimentava uma jaqueta, Sofía se aproximou dela. —Você é a mulher de quem ele não para de falar, né? María Elena ficou gelada. —Como? —Ele —disse Sofía, com um sorrisinho cúmplice—. Diz que você é a mulher mais forte que ele já conheceu. Diz que você criou três filhos sozinha, que toca um negócio, que você é... uma inspiração. María Elena se sentiu paralisada. Inspiração. Era isso que ele via nela? Uma inspiração, não uma mulher? Ele se aproximou então, com a jaqueta vestida. —Vou levar ela, María Elena. E a Sofía também quer um par de botas. Enquanto María Elena atendia a Sofía, ele se aproximou do balcão, de costas para elas. Falou baixinho, mas María Elena conseguiu ouvir cada palavra. —O que você acha? —disse ele—. Não é incrível? Uma mulher assim, lutando sozinha contra tudo e todos. Me lembra a minha própria mãe. Mãe. A palavra a atingiu como um soco. Mãe. Inspiração. Forte. Tudo o que ela sempre tinha sido, tudo o que ela sempre tinha odiado ser. Não era uma mulher para ele. Era um projeto. Um símbolo. Pagou pela jaqueta e se despediu. —A gente se vê, María Elena. Obrigado por tudo. Saiu com a Sofía, rindo de algo que ela disse. María Elena ficou parada atrás do balcão, com o dinheiro na mão, sentindo como o mundo que tinha começado a construir desmoronava aos seus pés. O eco do prazer do dia anterior tinha se transformado no eco da humilhação. Não era uma mulher desejada. Era uma mulher admirável. Não era um objeto de paixão. Era um objeto de inspiração. Fechou a loja às pressas,... e subiu as escadas para o pequeno apartamento que ficava em cima da loja, um espaço que usava para estocar mercadoria e onde às vezes dormia quando os dias eram longos. Não era a casa dela, mas naquele momento, era o único lugar onde podia ficar a sós. Trancou a porta e se apoiou nela, com os olhos fechados. As palavras dele ecoavam na cabeça dela: "inspiração", "forte", "me lembra a minha própria mãe". Cada palavra era uma facada, uma negação de tudo o que ela tinha sentiu no dia anterior. Não o desejava. Admirava-o. Via-o como um monumento à resistência, não como um homem de carne e osso. A raiva começou a arder em seu peito, uma raiva quente e purificadora. Não era raiva dele, mas de si mesma. Como tinha sido tão burra? Como tinha acreditado, mesmo que por um momento, que um homem como ele poderia desejar uma mulher como ela? Uma mulher de quarenta e sete anos, com três filhos, uma loja num fim de mundo e um corpo marcado pelo tempo e pelos partos. Tirou o vestido creme com uma brusquidão que quase o rasgou. Ficou de frente para o espelho que havia num canto, usado para conferir as roupas. Olhou-se nua, realmente nua, pela primeira vez. Viu as estrias prateadas na barriga, a leve caída dos seios, as rugas finas ao redor dos olhos. Viu o corpo de uma mãe, de uma trabalhadora, de uma sobrevivente. E então, algo mudou. A raiva se transformou em outra coisa. Em desafio. Em orgulho. Sim, era o corpo de uma mãe. Um corpo que tinha dado vida três vezes. Sim, era o corpo de uma trabalhadora. Um corpo que tinha levantado caixas, que tinha ficado de pé durante horas, que tinha construído um negócio com as próprias mãos. Sim, era o corpo de uma sobrevivente. Um corpo que tinha aguentado o abandono, a solidão, o sacrifício. Era o seu corpo. E era lindo. Aproximou-se do espelho, seus dedos traçando as linhas que antes odiava. As estrias não eram defeitos; eram medalhas. As rugas não eram sinais de velhice; eram mapas de uma vida vivida. A leve caída dos seios não era flacidez; era a prova de que tinha nutrido seus filhos. Tocou-se, não com a timidez de antes, nem com a orientação dele. Tocou-se com um conhecimento novo, com uma aceitação total. Suas mãos percorreram sua pele, não buscando o prazer que ele tinha lhe ensinado a encontrar, mas reafirmando sua própria existência, seu próprio valor. "Forte", sussurrou ao seu reflexo, mas desta vez a palavra não soou como uma condenação, mas como uma declaração. "Inspiração". E sorriu, um sorriso feroz e triunfante.
Não precisava da admiração dele. Não precisava do desejo dele. Tinha o seu próprio. Tinha a descoberta do seu próprio corpo, do seu próprio prazer. Tinha a força que ele tinha visto, mas agora essa força não era um peso, mas uma arma.
Se vestiu de novo, não com o vestido creme, mas com jeans e uma camiseta preta justa. Prendeu o cabelo num rabo de cavalo alto e severo. Se maquiou com um vermelho intenso nos lábios. Quando se olhou pela última vez no espelho, não viu a mãe dos gêmeos, nem a filha da irmã Hortensia, nem a dona da "Bendiciones". Viu uma mulher. Uma mulher que tinha sido tocada, que tinha sido despertada, e que agora estava decidida a assumir as rédeas do seu próprio despertar.
Desceu as escadas, reabriu a loja e começou a trabalhar. Organizou os cabides com uma nova energia, atendeu os clientes com um sorriso que era genuíno, não profissional. O mundo continuava o mesmo, mas ela era diferente.
Quando a campainha da porta soou de novo no final da tarde, não levantou a cabeça com expectativa. Levantou a cabeça com curiosidade.
Era ele. Estava sozinho. Se aproximou do balcão, e desta vez seus olhos não eram os de um cliente. Eram os de um homem que busca algo.
—María Elena —disse ele, sua voz mais baixa que o habitual—. Precisamos conversar.
—Sobre o quê? —perguntou ela, sua voz neutra—. Sobre seu colega? Ou sobre o quanto eu sou inspiradora?
Ele piscou, surpreso com seu tom. —Você entendeu errado.
—Ah, eu entendi perfeitamente —disse ela, se apoiando no balcão—. Sou a mulher forte, a mãe solteira, o símbolo da resistência. Uma inspiração. Mas não uma mulher, né? Não alguém que você poderia desejar de verdade.
—Não é assim —começou ele, mas ela o interrompeu.
—Então, como é? Me explica. Porque ontem você me ensinou a sentir meu próprio corpo, a descobrir meu próprio prazer. Você me fez me sentir viva, desejada. E hoje você chega com uma loira dez anos mais nova e me apresenta como seu... projeto social? Ele ficou calado, os olhos fixos nela. E pela primeira vez, viu algo que não tinha visto antes: medo. —Sofía é minha irmã —disse finalmente, a voz quase um sussurro—. Minha irmã mais nova. Acabou de chegar na cidade e queria que ela conhecesse o lugar. E o que eu disse sobre você... era verdade. Você é uma inspiração. Mas não só por isso. Eu te admiro por isso, sim. Mas eu te desejo... te desejo por todo o resto. Pela sua força, pela sua vulnerabilidade, pelo jeito que seus olhos brilham quando você ri, pelo som da sua voz quando sussurra meu nome. Te desejo porque você é você, María Elena. Completa. María Elena olhou pra ele, analisando seus olhos, buscando a verdade. E encontrou. Viu o desejo, sim, mas também o respeito. Viu a admiração, mas também a paixão. Percebeu que tinha interpretado mal as palavras dele. Tinha deixado seus velhos medos, sua velha insegurança, nublarem seu julgamento. Tinha construído uma história de humilhação na cabeça, uma história que não era real. —Desculpa —disse ele, se aproximando um pouco mais—. Eu devia ter te contado antes. Devia ter te contado primeiro. —É —disse ela, assentindo devagar—. Devia. Ficou em silêncio por um momento, processando. E então, tomou uma decisão. —Fecha a porta —disse, a voz baixa e firme—. Vira a placa. Ele olhou pra ela, surpreso. —Tem certeza? —Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida —respondeu ela, e dessa vez, não havia dúvida na voz dela, nem nos olhos—. Você acabou de me ensinar uma coisa muito importante, sabia? Me ensinou que meu prazer me pertence. Que meu corpo me pertence. Que meu desejo me pertence. E agora, vou te ensinar uma coisa. Ele obedeceu, trancando a porta e virando a placa de "Aberto". Quando se virou pra ela, ela já estava esperando, não na área da barbearia, mas no meio da loja, entre araras de roupa e caixas de sapatos.
—Vem —disse ela, e pegou a mão dele—. É a minha vez de guiar.
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