Babilônia 21

Babilônia 21O ar do táxi cheirava a abafamento e àquele aromatizante de baunilha rançosa que embrulha o estômago. O motorista era um cara cinza, desses que morrem de vontade de reclamar da gasolina e da "porra do governo", mas eu não dava corda. Fiquei olhando pela janela, sentindo o vinil do banco grudar na parte de cima das minhas coxas, sentindo meu suor escorrer pelas pernas fazendo elas brilharem, deixando a marca da minha bunda e das coxas coladas no assento.
Eu estava usando a minissaia que meu irmão diz que é um "insulto" e uma camisa de manga comprida que abotoei até o último botão, só pra não dizerem que eu andava "me oferecendo". Que hipocrisia. Se mostro, sou puta; se cubro, sou uma sonsa.
Pelo vidro vi umas minas na esquina, encostadas num muro pichado, esperando algum cliente parar. Fiquei olhando pra elas sem julgar, mas na minha cabeça ligou o gravador do meu pai: "Vanesa, um dia desses vão te pegar por andar vestida como se estivesse em promoção. Tenha um pouco de vergonha pelo seu sobrenome". E depois meu irmão, o grandessíssimo idiota, que se acha dono da minha moral: "Você parece puta de bar barato, depois não reclama quando os caras te xingarem na rua".
Deu vontade de rir. Se eles soubessem que as broncas deles servem de lubrificante. Quanto mais me dizem pra me cobrir, mais curta eu compro a saia. A diferença entre as minas da esquina e eu é que elas cobram pra aguentar macho, e eu... eu só tô procurando algo que me faça sentir viva nessa cidade de buracos e gente amargurada.
O taxista freou de repente e soltou um resmungo.
—Porra de trânsito, senhorita. Não andamos nem a pau —disse, sem tirar os olhos da frente.
—Não tem pressa —respondi, enquanto ajeitava o cabelo e sentia o roçar do tecido contra minhas pernas—. Afinal, o inferno não vai a lugar nenhum.
Cheguei em casa e mal cruzei a soleira, o cheiro de desinfetante de pinho e a comida quente me envolveu. Mamãe saiu da cozinha com aquele sorriso que ela usa para as fotos de família, toda doçura e abnegação. —Minha filha! Que bom que você chegou, já estava com saudade —me disse, me dando um beijo na bochecha —. Anda, deixa essa mochila aí e corre pras tortilhas, que seu pai já não demora e você já sabe como ele fica se não tem nada na mesa. Me mandou como se eu fosse mais um mandado, mas fez isso com tanta suavidade que nem vontade de responder me deu. Deixei a mochila no sofá e saí de novo pra rua. A fila da tortilharia estava cheia do barulho das máquinas e do vapor do milho. Senti os olhares na hora. Uns caras, desses que sempre ficam perdendo tempo na esquina, começaram a murmurar entre eles enquanto me escaneavam de cima a baixo. Minha saia, minhas pernas, o jeito que eu ajeitava o cabelo... tudo era um ímã. Em vez de me encolher, senti uma onda de adrenalina. Ajeitei o peso do corpo numa só perna, fazendo o quadril se destacar, e me movi com uma lentidão calculada. Se queriam ver, que vissem bem; afinal, olhar é de graça, mas tocar ia custar a vida deles. Comprei o quilo de tortilhas, senti o calor do papel nas mãos e comecei a voltar. Ao passar pelo bar da esquina, um bêbado que mal se aguentava em pé me seguiu com o olhar perdido. —Ai, rainha! —balbuciou com a língua pesada—. Só me diz quando você quer que se repita... porque o da outra vez me deixou com vontade de mais. Fiquei gelada por um segundo. Do que esse imbecil estava falando? Nunca o tinha visto na minha vida, muito menos "tinha acontecido algo". Não entendi nada, mas o coração me deu um sobressalto estranho. Pensei que era só um delírio de bêbado, uma dessas frases que soltam pra ver o que pescam. —Vai sonhando, vovô —joguei sem parar, acelerando o passo pra casa. Cruzei a soleira da casa ainda com o eco do bêbado na cabeça, mas o que encontrei lá dentro me congelou a sangue. Não era o cheiro de comida que flutuava no ar, mas um silêncio espesso, daqueles que anunciam uma execução. Meu pai estava sentado à cabeceira, com o rosto vermelho e as veias do pescoço prestes a estourar. Ao lado dele, minha mãe mantinha uma expressão de profunda decepção, como se tivesse acabado de descobrir que a filha era a encarnação do pecado. E ali, sobre a toalha xadrez onde rezamos todo domingo, estava meu vibrador. Rosa, brilhante e fora de lugar.
—Vocês podem me explicar que direito têm de fuçar nas minhas coisas? —soltei, antes que eles abrissem a boca. O coração disparava, mas a raiva era mais forte que o medo—. Sou adulta, porra! Essa mochila é privada!
—Nesta casa não existe nada privado enquanto você viver debaixo do meu teto! —rugiu meu pai, dando um soco na mesa que fez o brinquedo pular—. É pra isso que pagamos sua faculdade? Pra você andar com essas putarias? Você parece uma qualquer, Vanesa! Que falta de respeito com sua mãe e comigo!
Olhei pra minha mãe buscando uma aliada, mas ela me encarou com uma frieza que doeu. Ajeitou a gola da blusa.
—Vanesa, filha... dói muito na gente —disse ela—. Não sei que exemplo eu te dei pra você sentir que precisa dessas... coisas. Mulher bem criada se dá ao respeito, não fica buscando prazer como um animal. Você me envergonha.
—Eu te envergonho, mãe? —falei, baixando a voz, deixando-a perigosa—. E quem te deu o título de santa? Porque eu não pedi pra nascer num convento. Se a pele de vocês incomoda tanto, fechem os olhos, mas não se metam no meu quarto nem na minha mochila.
—Cala a boca! —gritou meu pai se levantando—. Pede desculpa pra sua mãe agora mesmo!
Virei as costas sem dizer nada, peguei minha mochila e o brinquedo da mesa com um tapa desafiador. Subi as escadas com o rosto ardendo, não de vergonha, mas de uma raiva negra que apertava minha garganta. A porta que bati ecoou pela casa toda, mas não conseguiu abafar os soluços que Eu escutava da sala de jantar. Eram os soluços da minha mãe. E isso era o que mais me doía. Me joguei na cama, apertando a mochila contra o peito. Meu pai continuava gritando lá embaixo, maldizendo minha "falta de princípios", mas o que me furava os ouvidos era a voz suave da mamãe tentando acalmá-lo. Eu a imaginava ali, com suas mãos sempre limpas, sempre cheirando a amaciante e alho, enxugando as lágrimas porque sua única filha tinha saído "defeituosa". Lembrei do rosto dela quando viu o vibrador sobre a mesa. Não era uma cara de nojo, era de dor pura. Ela me olhou como se eu tivesse enfiado um punhal no rosário que guarda embaixo do travesseiro. —"Uma mulher bem nascida se dá ao respeito" —ela tinha me dito. E o pior é que ela dizia isso de verdade. Mamãe sempre foi impecável. Enquanto eu brigo com o mundo pelo comprimento da minha saia, ela anda pelo bairro com uma dignidade que parece de outro século. Todos a respeitam. O açougueiro lhe dá o melhor corte, o padre lhe pede conselho, e meu pai... meu pai a vê como se fosse a Virgem descida do altar. Me senti um lixo. Por um segundo, a rebeldia se transformou em culpa. Talvez eles tivessem razão. Talvez eu fosse a podre, buscando sensações baratas enquanto ela se sacrificava todos os dias para que esta casa fosse um lar "decente". Fiquei olhando para o teto, escutando como minha mãe subia as escadas lentamente. Ela parou na frente da minha porta. Não entrou, não gritou. Só escutei um suspiro longo, carregado de uma tristeza infinita, e depois seus passos se afastando em direção ao quarto dela. Naquele momento, eu a odiei. A odiei por ser tão perfeita, por ser tão santa que me fazia sentir como um monstro. Jurei que ia encontrar algo nela, uma mancha, um erro, o que fosse que a fizesse humana para eu não me sentir tão pequena diante dela. Mas no fundo da minha mente, a frase do bêbado continuava girando como uma mosca no lixo: "A da outra vez foi de infarto". "Com certeza me confundiu com alguma das velhas do boteco", pensei, tentando me convencer. Porque a ideia de que alguém pudesse confundir minha mãe com uma mulher dessas era, simplesmente, impossível. Ela era a Santa Lulú. E eu, só a sombra suja dela.
No dia seguinte de manhã cheguei à faculdade com as olheiras pesando e o ânimo no chão. Não tinha conseguido pregar o olho pensando na cara da minha mãe e no vibrador rosa que agora estava escondido no fundo do meu armário, como se fosse uma arma do crime.
Entrei na sala de "Direito Romano" bem quando o Professor Rodríguez terminava de anotar uma frase em latim no quadro. Rodríguez é desses caras que cheiram a loção cara e a superioridade intelectual. Ajustou os óculos e me olhou por cima deles enquanto eu procurava meu lugar.
—Senhorita Vanesa —disse com aquela voz pausada que me deixa os pelos em pé—, que alegria que decide nos honrar com sua presença. Suponho que sua vestimenta... tão particular... é o que a impediu de chegar a tempo.
Um par de risadinhas estourou no fundo. Sentei sem dizer nada, engolindo o orgulho.
—Entregue sua prova final —ordenou, estendendo a mão.
Entreguei. Vi como ele folheava com um desprezo quase físico. Nem sequer leu meus argumentos sobre as Doze Tábuas. Parou na última página, tirou sua caneta-tinteiro e traçou um círculo vermelho gigante. Cinco.
—Cinco? —soltei, levantando do assento—. Professor, respondi todas as perguntas. Citei os códigos, fiz a análise comparativa...
—Sua análise é tão pobre quanto seu critério para escolher seu guarda-roupa, Vanesa —me interrompeu, baixando a voz para que só eu escutasse—. Nesta carreira não se precisa só saber leis, se precisa decência. E você, com essa atitude de rebeldia barata, não tem o perfil de uma advogada. Está reprovada. Nos vemos na recuperação... ou no próximo ano.
Saí da sala antes que as lágrimas de raiva me traíssem. Estava presa numa armadilha: em casa, minha mãe era a santa que me fazia sentir podre, e na escola, esse velho infeliz me usava de exemplo do que "está errado". Andei pelo corredor sentindo que o mundo inteiro me apontava. "Uma mulher bem nascida se dá ao respeito", a voz da minha mãe ecoava na minha cabeça se misturando com a do Rodríguez. Entrei no banheiro da faculdade chutando a porta. Por sorte estava vazio; o eco dos meus próprios passos me furava os ouvidos. Me tranquei no último cubículo, aquele que ninguém usa porque a luz pisca, e desabei sobre a tampa do vaso. Tirei um cigarro e acendi com as mãos tremendo de pura raiva. —Velho estúpido do caralho —sussurrei, soltando a fumaça enquanto as lágrimas me borravam o rímel. Entre a fumaça e o choro, reparei na parede. Ali estava, um buraco perfeito, queimado e tosco: o famoso gloryhole da faculdade que todo mundo diz que não existe mas que todos sabem onde fica. Justo naquele momento, como se o destino quisesse zombar da minha "falta de decência", algo começou a atravessar o buraco. Não era só carne; era um pau que trazia algo entalado, um cartão de visita dobrado entre a pele e o prepúcio. Fiquei olhando aquele cartão. Dizia: "Babilônia 21 – A entrada do Éden". Uma risada amarga subiu pelo meu peito. Então isso era a vida real? Enquanto Rodríguez me sermoneava sobre Direito Romano e minha mãe chorava por um vibrador, o mundo seguia girando à base de porra e segredos. Me senti tão cheia de ódio, tão farta de bancar a "menina bem comportada" que não se encaixa, que me deu um arranco de coragem. Se já tinham me sentenciado como a puta da turma, então eu ia ser a melhor. Me ajoelhei no chão frio do banheiro. Diante dos meus olhos se erguia aquele pau vigoroso, pulsante, longo e grosso, uma veia no meio do tronco se destacava, ao lado uma mancha de nascença preta como uma pinta mas que cobria quase meio tronco, tudo era cor café chocolate, a glande um pouco mais rosada, admito que olhei fascinada, era o pau mais bonito que já tinha visto, coloquei meus dedos ao redor e abaixei um pouco o prepúcio, Peguei o cartão com uma mão e com a outra segurei aquele pau desconhecido que pulsava do outro lado da parede. Não fiz por prazer, fiz por vingança. Fiz para cuspir mentalmente na cara da minha mãe e do professor. Comecei a chupá-lo com uma fúria desesperada, fechando os olhos e deixando o gosto de desconhecido me encher a boca, meus lábios percorriam sua dureza, beijava a cabeça de vez em quando para sentir como o desconhecido se tensionava, minha língua explorava a base, devia ser um homem maduro, não se depilava, de repente O cara do outro lado soltou um grunhido surdo. Senti como ele se tensionava e, de repente, a descarga me encheu a garganta. Quente e amarga. Engoli tudo sem piscar, sentindo que aquele era meu verdadeiro batismo, longe das águas benditas da minha chefe, ainda com o pau na mão dei um último beijo antes de me levantar, olhei como ele ia se enfiando no buraco de novo até que não pude mais vê-lo. Limpei o canto dos lábios com as costas da mão e olhei o cartão de novo. —Bom —disse em voz alta, enquanto soltava uma última tragada do meu cigarro—. Pelo menos esse desconhecido sim me deu uma recompensa pelo meu trabalho, não como o merda do Rodríguez. Me levantei, guardei o cartão do hotel no sutiã e me olhei no espelho do banheiro. O rímel borrado me fazia parecer um guaxinim endemoniado, mas pela primeira vez no dia, me sentia com um plano. —Se a mamãe quer uma santa em casa —murmurei para meu reflexo—, vai ter que rezar muito para que eu não encontre o caminho para a Babilônia.relato

chupada

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