O relógio marcava três da madrugada e Manolo olhava para a tela do celular com os olhos injetados. O saldo da sua conta de apostas esportivas piscava em vermelho: zero absoluto. Mas o que gelava o sangue dele não era o zero, e sim a mensagem que acabara de receber de Miguel.
"Amanhã às 12 no meu escritório. Não falte, ou começo com os advogados. E você sabe o que isso significa: sua moto, seu apartamento, tudo o que sua avó te deixou. Você tem 24 horas para me trazer uma solução."
Manolo deixou o telefone cair na mesinha de cabeceira. A moto era a única liberdade dele, o apartamento o único refúgio. E a dívida, inflada pelos juros usurários que Miguel tinha enfiado nos últimos meses, chegava a um valor que nem trabalhando dez anos num supermercado ele conseguiria pagar.
Na manhã seguinte, o escritório do Miguel cheirava a couro velho e tabaco de enrolar. Miguel era um homem na casa dos quarenta, com barba por fazer de dois dias e um olhar que não piscava. Atrás da mesa de mogno, brincava com um isqueiro de prata enquanto Manolo se sentava do outro lado, encolhido na cadeira.
— Fui generoso com você, moleque — disse Miguel sem tirar os olhos do isqueiro. — Te emprestei dinheiro quando ninguém mais emprestava. E você, em vez de agradecer, ficou perdendo tudo nessa porcaria de aplicativo. Agora tá na hora de pagar.
— Não tenho o dinheiro, Miguel. Você sabe disso. Me dá mais tempo, pelo amor de Deus.
— Tempo é a única coisa que eu não tenho pra te dar. Meus advogados já prepararam a ação. Em duas semanas, sua moto vai pro ferro-velho e seu apartamento vai a leilão. E você, na rua, com uma mancha no histórico de crédito que vai te perseguir até os quarenta.
Manolo sentiu um nó no estômago. Tentou falar, mas a voz saiu num sussurro quebrado.
— Não tem outro jeito? O que for, Miguel. Eu trabalho pra você, faço o que você pedir.
Miguel fechou o isqueiro com um estalo seco e se recostou na poltrona. Um sorriso torto se desenhou no rosto dele.
— Tá falando sério? Qualquer coisa?
Manolo aceniu, engolindo saliva. —Pois é, eu tenho um bar. Um dos meus pontos, no centro. Nas noites de fim de semana enche de gente com grana, clientes que procuram... diversão. Mas não é um bar qualquer. As garçonetes são especiais. São garotos como você, gostosos, novinhos, que sabem se vestir e se mexer pra fazer a clientela gastar e gastar. E eu preciso de mais um. Manolo piscou, sem entender direito. —Garçom? Eu dou conta, Miguel. Sou rápido, sei servir as bebidas... —Eu não falei garçom. Falei garçonete. O sorriso de Miguel se alargou enquanto tirava uma foto de uma gaveta. Nela, um garoto de traços finos posava com um vestido vermelho de lantejoulas, salto agulha e uma peruca loira que caía até a cintura. O rosto dele estava maquiado com precisão: sombra esfumada, lábios carmim e cílios postiços. —Esse é o Christian, um dos meus. Ele ganha numa noite o que você ganha num mês de trampo normal. Os clientes pagam pra ver eles, pra conversar, pra tocar se eles deixarem. E você tem o tipo certo, Manolo. Magro, pernas longas, cara de anjo caído. Com um pouco de treino, você seria a sensação do lugar. Manolo sentiu o chão se abrir sob os pés dele. —Cê tá de sacanagem? Eu não sou nenhum traveco. Sou homem, porra. Não vou me vestir de mulher nem usar salto nem... nem... —Nem pagar sua dívida, nem ficar com sua moto, nem dormir no seu apê —cortou Miguel, frio—. A escolha é sua, Manolo. Uma noite de trabalho no meu bar, ou uma vida de merda. E não pensa que é tão ruim assim. Os garotos são bem cuidados, têm seu público, e alguns até curtem. Mas se você não se acha capaz, não me faz perder tempo. O silêncio pesou. Manolo olhou pra foto do Christian, os olhos pintados e a pose provocante, e sentiu um arrepio. Mas aí pensou na moto, nas chaves do apê, na foto da avó dele na lareira. —Só uma noite? —perguntou com a voz trêmula. —A primeira noite é de teste. Se não der conta, procuro outro e você se fode. Se der conta, vamos abaixando a dívida aos poucos. Mas vai ter que fazer direito, Manolo. Maquiagem, vestido, peruca, e servir as bebidas com um sorriso. E se um cliente pedir algo mais... a gente vê depois.
Manolo fechou os punhos até as unhas cravarem nas palmas. Todo o seu ser se revoltava contra a ideia. Mas a alternativa era pior.
—Tá bom —sussurrou—. Faço o que você diz. Uma noite.
—Boa decisão. Hoje às dez no endereço que vou te mandar. Entra pela porta dos fundos, pergunta pela Lola. Ela vai te vestir e te maquiar. E, Manolo... não pense em fugir. Eu te acho.
As dez da noite encontraram Manolo diante de uma porta de metal sem nenhuma placa anunciando o bar. Só um número, o 17, e uma luz vermelha sobre o batente. Ele bateu com o punho trêmulo e uma mulher de ombros largos e cabelo preto comprido abriu. Era a Lola, uma travesti de quarenta anos com voz grave, mas modulada, que o olhou de cima a baixo com olhos de quem entendia do assunto.
—Então você é o novato. Entra, lindo. Temos muito trabalho.
O camarim cheirava a laquê, a porra e a suor adocicado. Lola sentou ele diante de um espelho iluminado com lâmpadas de luz quente e começou a trabalhar no rosto dele sem pedir licença. Manolo viu o próprio reflexo se transformar: as sobrancelhas se delineavam em arcos perfeitos, as pálpebras se cobriam de sombras douradas e pretas, os lábios se pintavam de um vermelho escuro que parecia sangue seco. Depois veio a peruca, uma cascata de cabelo castanho-claro que batia nos ombros, e o vestido: um corpo de lantejoulas pretas que se ajustava ao tronco e abria numa saia que mal cobria a coxa.
—Os saltos —disse Lola, entregando uns sapatos de agulha de doze centímetros—. Anda como se pisasse em ovos, mas com rebolado. E sorri, porque você tem uns covinhas que derretem qualquer um.
Manolo se levantou com dificuldade, cambaleando. O vestido incomodava, a peruca coçava o pescoço, e os Os saltos eram um suplício. Mas quando se olhou no espelho, já não viu o Manolo. Viu uma garota alta, de pernas intermináveis, com um rosto de beleza andrógina que parecia saído de um anúncio de perfume caro.
— Agora pra sala — disse Lola, empurrando ele em direção à porta —. E lembra: você é a "Manuela". Seu trabalho é fazer o povo babar, sorrir e pagar. Se te tocarem, não fica nervoso. São clientes, não assaltantes.
O bar era um espaço íntimo, com luzes baixas, cortinas de veludo vermelho e um balcão de mármore onde outras três travestis serviam drinks com movimentos graciosos. A clientela era variada: homens sozinhos, casais, grupos de amigos que riam e apontavam. Quando o Manolo — agora Manuela — saiu, sentiu todos os olhares cravados nele. Um arrepio percorreu sua nuca.
— Ei, gostosa! — gritou um careca de uma mesa —. Me traz outro uísque, mas dessa vez com gelo e com um sorriso.
Manolo forçou um sorriso e caminhou até o balcão, sentindo o balanço do quadril e o roçar da saia contra as coxas. Cada passo era um lembrete da sua nova identidade. Mas quando o cliente esticou uma nota de cinquenta e roçou a mão dele com intenção demais, Manolo não se afastou. Lembrou da moto, do apartamento, da dívida.
O peso do vestido de lantejoulas ficava mais suportável a cada minuto, mas os saltos continuavam sendo um castigo. Manolo — Manuela — se segurava no balcão com uma mão enquanto com a outra segurava uma bandeja de taças de champanhe. Sua primeira rodada foi desastrada: derramou um pouco de licor no mármore e a clientela riu com condescendência. Mas logo aprendeu a balançar o quadril, a inclinar a cabeça com falsa coqueteria e a sorrir mostrando aquelas covinhas que a Lola tinha elogiado.
Os primeiros toques chegaram aos vinte minutos. Um homem de terno cinza, com bafo de gim, roçou a bunda dele com a palma aberta enquanto pedia outra dose. Manolo deu um sobressalto, sentiu um ardor de vergonha subindo pelo nuca, mas não se atreveu a protestar. Miguel estava na penumbra, observando. Então Manolo apertou os dentes e continuou servindo.
Meia hora depois, outro cliente, mais jovem e com olhar de predador, agarrou-lhe a coxa por baixo da barra da saia enquanto Manolo se inclinava para deixar uma garrafa de rum na mesa. Os dedos do cara afundaram na carne dele, subindo uns dois centímetros, e Manolo sentiu um arrepio que percorreu a espinha.
—Não fica tímida não, gostosa —sussurrou o cliente—. Você tá aqui pra isso, não tá?
Manolo se endireitou rápido, soltou uma risadinha fingida e recuou até o balcão com o coração batendo forte no peito. Sentiu-se sujo, exposto, como um pedaço de carne num mercado. Mas quando viu a moto estacionada na imaginação e as chaves do apartamento penduradas num fio, se forçou a continuar.
Passou uma hora. Uma hora de sorrisos falsos, de mãos atrevidas que deslizavam pelas laterais do corpo, de sussurros no ouvido e notas amassadas na liga. Manolo estava exausto, a maquiagem começando a escorrer com o suor e os pés ardendo como se andasse sobre brasas.
Então Lola apareceu ao lado dele como um anjo da guarda vestido de lantejoulas douradas. Agarrou-lhe o cotovelo com firmeza e o conduziu até um canto afastado, atrás de uma cortina de veludo, onde o barulho do bar virava um murmúrio distante.
—Manuela —disse Lola, com aquela voz grave e modulada que misturava autoridade e ternura—, tenho que te propor uma coisa. Tem um cliente na sala privada. Um senhor mais velho, dos habituais. Paga bem e é limpo, mas tem suas... manias. Ele quer te depilar, com cera. Da cintura pra baixo. Ele paga 500 euros, dos quais 350 serão pra você... Ou pra sua dívida. O Miguel já me avisou que você deve dinheiro. Aceita?
Manolo sentiu o mundo parar. A palavra "depilar" soou como uma faca. Um desconhecido, vendo ele nu da cintura pra baixo, arrancando os pelos com cera quente? A humilhação era de um nível muito superior ao de usar salto alto e vestido. Sentiu um nó na garganta e as mãos tremeram.
—Depilar? Com cera? E ainda por cima me olhando? Lola, isso é... isso é demais. Eu só aceitei servir drinks, não isso. Que sou eu, um puto brinquedo?
Lola não se abalou. Cruzou os braços sobre o peito e sustentou o olhar com uma calma que desarmava.
—Olha, querida, entendo seu nojo. Eu também passei por isso na primeira vez. Mas o cliente não é um bruto. É um homem mais velho, solitário, que gosta de estética, de pele lisinha. Ele não vai te tocar de forma violenta, só quer ver e sentir o processo. E 350 € são 350 €. Me diz quantas horas de garçom normal você precisa pra ganhar isso.
Manolo baixou o olhar pro chão, pros saltos agulha que destruíam seus pés. A mente era um turbilhão: a imagem da avó, a moto que vinha restaurando peça por peça, o apartamento que era seu único refúgio. Tudo isso se desvanecia se o Miguel executasse a dívida. 350 € não pagavam nem a décima parte do que devia, mas era um começo, um gesto que mostraria ao Miguel que ele estava disposto a cumprir.
—Lola, o que você faria? —perguntou erguendo o olhar, com os olhos brilhando de uma umidade que ainda não era choro—. Me fala você. Não sei se consigo, se sou capaz de aguentar isso.
Lola se aproximou um passo e pôs a mão no ombro dele. O toque era quente, quase maternal.
—Eu já fiz isso, Manuela. E não foi uma vez. Te falo a verdade: no começo você se sente um trapo, uma coisa. Mas fecha os olhos, pensa no que tá em jogo, e desliga. Esse senhor paga bem e não é mau. É um fetiche estranho, sim, mas tem coisa muito pior nesse lugar, te garanto. Se você aceitar, o Miguel vai ver que você cumpre e te deixa respirar. Se recusar, não sei se ele te dá outra chance. A dívida não espera.
Manolo mordeu o lábio inferior, sentindo o gosto do batom. A cera quente, a nudez, o olhar de um velho desconhecido... todo o seu ser gritava que não. Mas a moto, o chão, a liberdade... gritavam mais alto.
— Tá bom — sussurrou por fim, com a voz embargada e os punhos apertados contra as lantejoulas do vestido —. Me faz o favor de ficar por perto. Caso aconteça alguma coisa.
Lola esboçou um sorriso cúmplice e deu um tapinha na bochecha dela.
— Não se preocupa, querida. Vou estar do outro lado da porta. Agora vai pro camarim, tira a calcinha (que eu suponho que você esteja usando) e veste o roupão que vai estar pendurado. O senhor te espera no quarto dos fundos. E, Manuela... pensa na tua moto. Pensa no asfalto e no vento. Isso vai te ajudar.
Manolo assentiu, engolindo saliva e veneno. Deu a volta e caminhou até o camarim com passo incerto. Cada salto que batia no chão era uma batida da dignidade dela morrendo. Mas enquanto tirava a peça íntima e se enrolava no roupão branco, repetiu o mantra que Lola tinha dado: A moto. O apartamento. A liberdade. E com esse pensamento, empurrou a porta do quarto privado, onde a esperavam uma poltrona de veludo, uma mesa com utensílios de cera e um homem de cabelos grisalhos que a olhou com olhos de avaliador experiente.
A poltrona de veludo bordô rangeu quando o homem se levantou. Era um senhor de sessenta e poucos anos, daqueles que viveram bem e isso se nota: a barriga proeminente que o colete de lã não consegue disfarçar, as mãos grossas com veias marcadas e anéis de ouro nos dedos, o cabelo prateado penteado para trás com fixador. Cheirava a loção de barbear cara e a tabaco de cachimbo, uma mistura antiquada mas não desagradável. Os olhos dele, de um azul pálido e cansado, percorreram Manuela de cima a baixo com uma lentidão que parecia saborear cada centímetro do corpo dela envolto no roupão branco.
— Senta, gata — disse, e a voz era grave, rouca, como de quem falou demais em bares e fumou charutos demais.
Manolo — Manuela — sentou na beirada da maca, com as pernas juntas e as mãos cruzadas no colo, sentindo o frio do vinil contra a pele. muslos nus. O homem não se sentou de novo. Em vez disso, aproximou-se com passos pesados que faziam o assoalho de madeira ranger, e quando ficou diante dele, ergueu uma mão e segurou seu queixo com dois dedos. O gesto foi firme, mas não brusco, como quem manuseia um objeto delicado.
—Você tem um rostinho lindo — murmurou, inclinando-se devagar—. Mas te falta uma coisa... relaxamento.
E então os lábios dele pousaram sobre os de Manuela. Foi um beijo suave, daqueles que mal pressionam, mais como uma pergunta do que uma declaração. Os lábios do homem eram quentes e carnudos, e cheiravam a menta e uísque. Manolo sentiu o bigode grisalho roçar seu lábio superior e o contato da língua, apenas insinuado, que umedeceu o batom.
E então aconteceu algo que ele não esperava: um tremor. Um arrepio minúsculo, mas inconfundível, que percorreu sua nuca e desceu pelas costas, fazendo os mamilos endurecerem sob o roupão.
Que buceta você tá sentindo? — gritou para si mesmo na cabeça —. Você é um cara. Isso é um homem. Um velho barrigudo. Isso deveria te dar nojo.
Mas o corpo não mentia. Ou talvez fosse o cansaço, a vertigem da noite, a humilhação que tinha ficado tão intensa que começava a se confundir com outra coisa. O beijo não era exigente nem agressivo. Era quase terno. E no fundo mais escuro da sua consciência, Manolo descobriu que fazia anos que ninguém o beijava assim: com atenção, com calma, como se ele realmente importasse.
O homem afastou os lábios e o encarou com aqueles olhos azuis enrugados.
—Viu? Não é tão ruim — disse, passando o polegar pela bochecha dele para limpar uma mancha de batom—. A cera espera, mas antes quero que você se sinta confortável comigo. Não gosto que minhas... acompanhantes fiquem tensas.
Manolo piscou, confuso. Por um momento, o tremor se espalhou das costas para o ventre, e ele sentiu um calor estranho entre as pernas que não soube interpretar. Era medo? Era vergonha? Era outra coisa? Mordeu o lábio inferior, o o mesmo que o homem tinha beijado, e sentiu um gosto residual de menta e tabaco.
É só uma transação, repetiu para si mesma. 350 euros. A moto. O apartamento. Isso não significa nada.
O homem tirou a mão do queixo de Manuela e deslizou-a para baixo, com uma lentidão deliberada, como se quisesse que ela sentisse cada milímetro do percurso. Os dedos grossos, com seus anéis de ouro frios, traçaram um caminho desde a clavícula, descendo pelo decote do roupão branco até parar na borda do tecido que cobria suas coxas.
—Deixa eu ver essas pernas, gata —sussurrou com a voz rouca, e suas mãos afastaram o roupão com um movimento suave, deixando à mostra a pele pálida e lisa das coxas de Manuela.
Manuela sentiu o ar fresco do quarto acariciar sua pele, e depois o calor das palmas do homem pousando sobre suas coxas. As mãos eram ásperas, com calos típicos de uma vida de trabalho, mas o toque era surpreendentemente delicado. Os dedos se moviam em círculos lentos, subindo dos joelhos até a virilha, acariciando a parte interna das coxas com uma paciência quase hipnótica.
O homem não desviava o olhar. Seus olhos azuis seguiam cada movimento das próprias mãos, e um sorriso mal esboçado se formava em seus lábios carnudos. Manuela permaneceu imóvel, com a respiração ofegante, sentindo aquelas mãos explorarem sua pele como se fosse um mapa de tesouros.
—Você tem a pele macia... tão macia —murmurou o homem, e seus dedos deslizaram para as nádegas, apertando a carne com firmeza, mas sem brutalidade.
Manuela sentiu um arrepio elétrico subir pela espinha quando as mãos do homem moldaram sua bunda, separando-a levemente, como se estivesse avaliando o peso e a textura de cada centímetro. E então aconteceu: um calor estranho, um formigamento que ela não esperava, que não queria sentir, mas que se instalou no seu ventre como um bicho domesticado. Meu Deus, o que está o que está acontecendo?, perguntou-se enquanto sentia a respiração ficar mais curta, mais trêmula.
O homem se inclinou, aproximando o rosto da orelha de Manuela, e sussurrou:
—Você gosta, não gosta? Gosta de ser desejado assim. Tudo bem, gatinho. Aqui não tem julgamento.
As palavras queimaram sua nuca, mas mesmo assim ele não conseguiu negar. Havia algo na forma como o homem o olhava, na forma como suas mãos o tocavam sem pressa, como se realmente o achasse lindo, que despertava nele uma sensação estranha e viciante. Era a primeira vez em muito tempo que alguém o olhava com desejo genuíno, sem condições nem apostas no meio. E mesmo que esse alguém fosse um homem mais velho e acima do peso, o desejo não entende de lógica.
O homem deslizou uma mão entre as pernas de Manuela, afastando suavemente suas coxas, e com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho, acariciou o saco com a ponta dos dedos. A pele era sensível, e o toque provocou uma contração involuntária em todo o seu corpo. Manolo prendeu a respiração, sentindo a mão do homem explorar a curva das bolas com movimentos circulares, como se estivesse decifrando a forma exata da sua intimidade.
—Relaxa, amor. Não vou te machucar —disse o homem com voz calma, enquanto o outro braço envolvia a cintura de Manuela para segurá-lo.
Os dedos continuaram a exploração, deslizando para trás, roçando o períneo com uma pressão leve, até chegar à borda do cu. Manolo sentiu o contato e seu corpo reagiu com uma mistura de tensão e uma excitação curiosa. Os dedos do homem traçaram círculos minúsculos ao redor da borda, sem penetrar, só explorando, acariciando, testando.
Manuela fechou os olhos. Não conseguia evitar imaginar que aquela mão era de outra pessoa, alguém mais jovem, alguém que ele tivesse escolhido. Mas a realidade era que aquelas mãos experientes pertenciam a um desconhecido de sessenta anos que estava pagando por isso. E em em algum lugar retorcido da mente dele, aquilo também tinha um tesão difícil de ignorar. — Você gosta, né? — repetiu o homem, notando a respiração ofegante de Manuela —. Seu corpo diz que sim, mesmo que sua cabeça tente negar. Manolo abriu os olhos e se deparou com o olhar do homem, que o observava com uma mistura de ternura e luxúria. Sentiu as mãos do homem em seus glúteos, afastando-os um pouco mais, explorando cada dobra, cada curva, com uma minúcia que o fazia sentir vulnerável e, ao mesmo tempo, estranhamente valioso. O homem tirou as mãos com uma lentidão deliberada, como se estivesse saboreando o último toque, e deu um passo para trás. O rangido do sofá de veludo ao receber o peso dele voltou a preencher o ambiente quando ele se sentou, ajustando o corpo com um movimento pesado. Reclinou-se, cruzou uma perna sobre a outra e entrelaçou os dedos sobre a barriga. A luz fraca do abajur desenhava sombras no rosto dele, endurecendo as feições, dando-lhe um ar de patriarca severo. — Se despacha — disse ele, e a voz tinha perdido toda a doçura de antes. Era uma ordem, seca e direta, como quem manda num cachorro bem treinado. Manolo sentiu o peso das palavras cair sobre ele como uma laje. O momento de calma, de carícias lentas, tinha se dissipado. Agora não havia negociação nem preliminares. Só uma ordem e a expectativa de que fosse cumprida. Levantou-se da maca com dificuldade, sentindo as pernas levemente trêmulas. O jaleco branco pendia dos ombros dele, aberto, mostrando a pele nua que o homem já tinha explorado. Estava com as mãos coladas nas laterais do corpo, sem saber onde colocá-las, sem saber como começar. — Não me faz esperar, gatinha — disse o homem com um tom que não admitia réplica. Manolo engoliu seco e ergueu as mãos até os ombros. Os dedos tremiam enquanto encontravam a borda do jaleco e o empurravam para trás. O tecido deslizou pelos braços dele com um sussurro e caiu no caiu num monte branco aos seus pés. Ficou completamente nu, de pé no meio do quarto, sob a luz amarelada que acariciava cada curva do seu corpo jovem.
O homem não desviou o olhar. Seus olhos azuis percorreram o torso de Manolo: os ombros estreitos mas marcados, o peito liso com os mamilos já eretos pelo frio ou pela excitação, o ventre plano que se contraía a cada respiração ofegante. Depois desceram para o quadril, para os quadris afilados, para os pelos pubianos ralos e escuros que emolduravam sua buceta, que começava a despertar apesar da vergonha. E finalmente, para as pernas longas que sustentavam aquele corpo de forma instável.
Manolo sentiu o olhar do homem como um peso físico. Cada centímetro da sua pele ardia sob aqueles olhos, e um rubor que não era de maquiagem subiu pelo seu peito e pescoço. Mas no meio da humilhação, algo mais se agitava por dentro. Era o formigamento de ser observado, de ser desejado, de ser o centro das atenções de alguém que parecia valorizar cada detalhe. Suas mãos se moveram instintivamente para se cobrir, para esconder a buceta que já começava a endurecer, mas o homem ergueu a mão.
— Não. Não se cubra. Quero ver tudo.
Manolo deixou os braços caírem ao lado do corpo, oferecendo seu corpo nu como um altar. Sentiu o ar do quarto percorrer sua pele, arrepiando os pelos dos braços e das pernas. Sentiu o peso das suas bolas balançando entre as coxas, o roçar das próprias coxas ao se juntarem levemente. Sentiu seu coração batendo tão forte que quase podia ouvi-lo nos ouvidos.
— Vira-se — disse o homem com a mesma voz firme.
Manolo obedeceu sem pensar. Girou sobre os calcanhares, oferecendo suas costas ao homem, e depois sua bunda, que apertou inconscientemente. Ficou de perfil, sem saber o que fazer com as mãos, sentindo o olhar do homem pousar na curva das suas costas, na linha da sua coluna, na fenda dos seus glúteos.
— Mãos para trás da a nuca.
Manolo entrelaçou os dedos atrás da cabeça, arqueando levemente as costas, sentindo como o gesto tensionava os abdominais e erguia o peito. O homem se inclinou um pouco para a frente no assento, e Manolo pôde ouvir sua respiração, mais ofegante do que antes.
—Como você é lindo, Manuela —sussurrou—. Que pena que você esteja aqui por dinheiro. Poderia estar numa passarela.
O elogio, vindo daquele homem que pagava para depilá-lo, teve um efeito estranho em Manolo. Sentiu uma mistura de orgulho e vergonha, de nojo e desejo. Seus mamilos endureceram ainda mais, e seu pau, traiçoeiro, começou a subir com clareza.
—Quer se tocar, Manuela? —perguntou o homem, com um sorriso na voz—. Quer que eu te veja fazer isso?
Manolo negou com a cabeça, mas seu corpo não obedecia. O calor entre suas pernas era inegável, e a sensação de estar completamente exposto, sob o controle daquele homem, começava a excitá-lo de um jeito que ele não tinha previsto.
O homem se recostou na poltrona de veludo com uma lentidão que parecia coreografada, ajustando as roupas com gestos pausados enquanto seus olhos azuis não desgrudavam nem um segundo do corpo nu de Manuela. Seus dedos brincavam com o anel de ouro, girando-o no dedo, e sua boca desenhava um meio sorriso de satisfação. A luz do abajur projetava sombras alongadas no chão, e o silêncio do quarto só era quebrado pela respiração entrecortada do garoto.
—Deita na maca —ordenou, e sua voz tinha recuperado aquele tom seco e direto, sem nenhum traço da doçura dos primeiros minutos—. Quero começar com a cera.
Manolo sentiu um nó no estômago. Seu corpo nu ainda vibrava com o calor do olhar do homem, e a ordem chegou como um chicote que lembrou por que ele estava ali. Deu um passo em direção à maca, sentindo o frio do chão sob os pés, e se deitou de barriga para cima, apoiando a cabeça na pequena almofada. couro. O contato do vinil contra suas costas a fez estremecer.
—Não, gata —disse o homem, erguendo uma sobrancelha e balançando um dedo de um lado para o outro como quem corrige uma criança pequena—. De bruços. Quero ver essa bunda que você tem.
Manuela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A ordem era tão específica e tão carregada de intenção que ela soube que o homem não queria apenas acesso à área que ia depilar; ele queria ver, aproveitar, possuir com o olhar antes mesmo de tocar de novo. Ela se ergueu com dificuldade, virou o corpo e se deitou de bruços na maca, com o rosto apoiado na almofada e os braços estendidos dos dois lados da cabeça.
A posição a deixava completamente exposta. Suas costas nuas se estendiam até a curva da cintura, que afundava levemente antes de se elevar na redondeza das nádegas. Os glúteos, firmes e bem torneados, se ofereciam como duas montanhas de carne pálida, separados por uma linha escura que sumia na intimidade entre as coxas. Ela podia sentir o peso das próprias bolas pressionando contra o vinil da maca, e uma umidade crescente entre as pernas que não sabia se era suor ou algo mais.
O homem se levantou com um rangido da cadeira e seus passos pesados se aproximaram da maca. Manuela sentiu o calor do corpo dele ao lado, e então uma mão grande e quente que pousou sobre seu glúteo direito com uma lentidão deliberada. Os dedos afundaram na carne, apertando, moldando a forma como quem apalpa uma fruta para verificar se está madura.
—Você tem uma bunda boa —disse o homem, e a voz dele era um sussurro rouco que vibrava no ouvido de Manuela—. Redonda, firme, com a pele macia. Parece feita para ser admirada.
A mão deslizou para o outro glúteo, repetindo o gesto, e então os dedos traçaram o contorno da racha, descendo lentamente pela curva até roçar as bolas que se espreitavam entre as pernas. Manuela prendeu a respiração, sentindo como Os dedos do homem exploravam a borda do saco dele, acariciando com uma pressão leve que provocou um estremecimento involuntário.
— Você gosta, né? — murmurou o homem, e Manolo sentiu os dedos dele separarem seus glúteos, abrindo a fenda pra deixar à mostra o pequeno e escuro anel do seu cu, que se contraiu com o contato do ar frio —. Você gosta que te olhem aqui, que te toquem aqui. O corpo não mente, Manuela. O seu tá dizendo que sim mesmo que a boca diga que não.
Manolo apertou os olhos com força, afundando o rosto no travesseiro pra não ver, pra não ouvir, mas o calor se espalhava pela barriga dele com uma intensidade que o apavorava. Os dedos do homem continuaram explorando a borda do cu dele, fazendo círculos minúsculos, roçando as dobras com uma ternura que contrastava com a crueza da situação. Cada carícia provocava um tremor nas pernas dele, uma contração nas nádegas, um gemido abafado que lutava pra escapar da garganta.
— Fica tranquila — sussurrou o homem, tirando a mão e dando um passo pra trás —. Agora vem a cera. Mas não se preocupa, querida. Vou fazer disso uma experiência inesquecível.
O homem se moveu até a mesinha onde estavam os utensílios, e Manolo sentiu o frio da maca na barriga e nas coxas, sentiu o peso da própria excitação pressionando contra o vinil, sentiu a humilhação.
Os passos do homem ecoaram no chão enquanto ele ia até a mesinha auxiliar, onde os utensílios de cera descansavam sobre uma bandeja de metal: um aquecedor de cera que mantinha o líquido dourado na temperatura perfeita, uma espátula de madeira, tiras de pano branco e um pote de óleo de amêndoas. O aroma doce e quente da cera se misturou com o cheiro de tabaco e loção que emanava do homem.
Manolo permanecia de bruços sobre a maca, com o rosto enterrado no travesseiro, ouvindo o tilintar dos utensílios, o rumor da cera sendo mexida. A pele dele ainda ardia por causa das As carícias anteriores e a humilhação pesavam sobre sua nuca como uma mão invisível. Mas quando sentiu a presença do homem ao seu lado, seu corpo reagiu com uma mistura de tensão e uma ansiedade estranha.
— Vamos começar — disse o homem, com a voz rouca e pausada—. Primeiro, uma carícia pra pele se acostumar. Depois, a cera. E aí... o puxão.
A mão do homem, grande e quente, pousou sobre a panturrilha esquerda do Manolo. Os dedos deslizaram pra cima, massageando a panturrilha com movimentos lentos e circulares, subindo até a curva do joelho e depois descendo de novo. A carícia era surpreendentemente suave, quase terna, e o Manolo sentiu os músculos da perna relaxarem apesar dele mesmo. Era como se aquela mão enorme soubesse exatamente onde pressionar pra dissipar a tensão.
— Assim, gatinha. Relaxa — murmurou o homem—. A cera dói menos se você tá soltinha.
Depois de alguns segundos de carícias, o homem mudou o ritmo. A mão se afastou e, um instante depois, o Manolo sentiu o primeiro contato da cera quente na pele. Um fio fino e dourado caiu sobre a panturrilha, se espalhando num círculo viscoso que esfriava rápido. A temperatura era morna, mas não queimava, e o contraste entre o óleo de amêndoas que o homem tinha passado antes e a cera quente criava uma sensação estranha e gostosa.
O homem espalhou a cera com a espátula de madeira, cobrindo desde a parte de cima da panturrilha até quase o joelho. Os movimentos eram precisos, como os de um artesão aplicando verniz numa madeira fina. Depois, aplicou uma tira de pano sobre a cera e pressionou com a palma, alisando pra aderir bem.
— Agora o puxão — sussurrou, e o Manolo sentiu os dedos do homem procurando a borda da tira.
A respiração do Manolo parou quando a tira foi arrancada num movimento rápido e seco. A dor foi aguda, como uma picada de vespa, e O garoto não conseguiu conter um gemido abafado que escapou da garganta. A pele ficou vermelha e brilhante, e os pelos escuros da perna tinham desaparecido, deixando uma superfície lisa e quente.
— Dói, né? — disse o homem, passando a palma pela área recém-depilada para acalmar a ardência—. Mas olha que pele macia. Vale a pena, não acha?
Manolo não respondeu. Apertou os dentes e afundou o rosto no travesseiro, sentindo a dor se transformar num calor residual que se espalhava pela perna. O homem não esperou resposta. Aplicou mais cera na outra perna, repetindo o ritual: a carícia prévia com óleo, o jorro de cera quente, a espátula espalhando com cuidado, a tira de pano pressionada, e finalmente, o puxão.
Outro gemido escapou de Manolo, mais contido que o primeiro, mas igualmente sincero. A dor era aguda e brilhante, mas tinha algo nela que a tornava quase viciante. Talvez fosse a sensação de estar completamente entregue, de que outra pessoa decidisse por ele, de que seu corpo virasse uma tela para a experiência.
O homem continuou subindo: das panturrilhas até as coxas, aplicando a cera com a mesma atenção minuciosa. Em cada trecho, a carícia prévia era mais longa, como se o homem quisesse prolongar o prazer antes da dor. Manolo sentiu a cera se espalhar pelas coxas, subindo até os glúteos, e o puxão seguinte fez ele arquear as costas.
— Calma, Manuela. Quase chegamos na parte boa — disse o homem, e a voz tinha um quê de excitação mal contida.
O último trecho foi o mais delicado: a cera ao redor do saco e na borda do cu, onde a pele era mais fina e sensível. O homem aplicou a cera em pequenas porções, com uma precisão extrema, e o puxão foi tão rápido que Manolo mal teve tempo de reagir. A dor foi intensa, uma pulsação que ecoou pelo corpo inteiro, e o garoto soltou um gemido que dessa vez não conseguiu conter.
— Já está — disse o homem, passando uma toalha úmida sobre a área para limpar os restos de cera —. Agora sim você tá pronto, gatinha. Feito um bebê.
A mão do homem deslizou pela pele lisa das nádegas de Manolo, acariciando a superfície que tinha ficado macia e quente. Manolo sentiu o contato e um tremor percorreu todo o corpo dele. A dor tinha sumido, mas o calor da pele recém-depilada e o olhar do homem sobre ele continuavam queimando com uma intensidade inesperada.
A dor que sobrava da cera ainda vibrava na pele dele como um eco de agulhas minúsculas, um ardor que se espalhava da parte de trás das coxas até a curva das nádegas e a borda sensível do cu. Cada centímetro da pele recém-depilada parecia vivo, hipersensível, como se os poros abertos respirassem o ar fresco do quarto. Manolo conseguia sentir a batida do próprio sangue ali onde a cera tinha arrancado os pelos, e cada movimento pequeno do corpo contra a maca renovava a pontada.
Mas então a mão do homem voltou a pousar sobre ele.
Não foi um toque brusco nem exigente. Foi uma carícia lenta, que começou na parte baixa das costas e deslizou para baixo seguindo a curva da coluna, como quem traça um mapa com a ponta dos dedos. Manolo sentiu o roçar da pele áspera e quente, e o ardor da cera se misturou com algo novo: um formigamento que subia pela nuca e descia até a barriga, como uma corrente elétrica de baixa intensidade.
— Agora é a parte mais gostosa — murmurou o homem, e os dedos dele deslizaram entre as coxas de Manolo, procurando o saco com uma precisão que sugeria conhecimento de cada dobra e cada curva.
Quando os dedos do homem roçaram o saco, Manolo sentiu um solavanco involuntário no corpo inteiro. As bolas pendiam macias e quentes, recém-livres de pelos, e o contato direto da pele com aqueles dedos experientes era quase avassalador. O homem acariciou o escroto com movimentos circulares, como se estivesse pesando a fruta mais delicada, e o prazer que brotou daquele contato foi tão intenso que Manolo não conseguiu evitar separar as pernas de forma inconsciente, se oferecendo mais, pedindo mais sem pronunciar uma palavra.
O que estou fazendo?, ele se perguntou num lampejo de lucidez, mas o pensamento se dissipou tão rápido quanto chegou, afogado pela torrente de sensações que percorria seu corpo. Sua mente tinha virado um espaço difuso, onde a humilhação e o prazer se enroscavam como duas cobras numa dança impossível de desembaraçar.
O homem percebeu a separação das pernas e soltou uma risada baixa, quase paternal.
— Assim que eu gosto, Manuela. Seu corpo sabe o que quer, mesmo que sua boca não diga.
Os dedos do homem se moveram com mais segurança agora, acariciando cada testículo separadamente, envolvendo-os com a palma, sentindo seu peso e seu calor. A pele do escroto, lisa e macia, respondia a cada carícia com um tremor que se espalhava para cima, para o baixo-ventre, para o pau que começava a endurecer contra a maca. Manolo sentiu a umidade entre as pernas aumentar, e o roçar do próprio sexo contra o vinil frio da maca era uma provocação constante.
— Você tá gostando, né? — sussurrou o homem —. Tá gostando que eu te toque assim, depois de te depilar, depois de ter visto tudo o que você tem a oferecer.
Manolo não conseguiu responder. A boca se abriu para dizer algo, mas só saiu um gemido abafado, um som que ele não reconhecia como seu. As pernas se abriram um pouco mais, e os quadris se moveram quase imperceptivelmente para trás, buscando mais contato, mais pressão, mais daquela mão que sabia exatamente onde tocar pra fazer ele esquecer quem era.
O homem não se apressou. Continuou acariciando o escroto com movimentos que ora eram círculos lentos, ora eram beliscões suaves que faziam saltar Manolo como se recebesse pequenas descargas elétricas. Cada carícia apagava um pouco mais a dor da cera, transformando-a numa espécie de fundo musical sobre o qual o prazer se erguia em ondas crescentes.
—Abre mais as pernas, gatinha —ordenou o homem, mas a voz dele era quase uma súplica—. Deixa eu ver tudo o que depilei. Deixa eu tocar bem.
Manolo obedeceu sem pensar, abrindo as pernas até os músculos das coxas formarem um ângulo que deixava a intimidade completamente exposta. Sentiu o ar fresco no períneo e o calor do olhar do homem pousado ali, naquele espaço que já não era segredo. E em algum lugar da consciência, soube que tinha cruzado uma linha da qual não poderia voltar atrás. Mas já não ligava.
As pontas dos dedos do homem se moviam com uma lentidão deliberada, traçando círculos perfeitos sobre a pele lisa e quente das bolas de Manolo. Cada rotação era um estudo de textura e temperatura, um diálogo tátil que não precisava de palavras. A pele depilada, sensível e nua, respondia a cada carícia com um tremor que se espalhava como ondas num lago, do saco até a barriga baixa, dos quadris até a nuca.
Manolo sentiu a dor residual da cera se dissolvendo sob aquele contato experiente, transformando-se em algo mais profundo, mais viscoso, mais parecido com um desejo que se recusava a ser nomeado. A respiração ficou irregular, ofegante, e os dedos se agarraram às bordas da maca como se temesse flutuar para um lugar de onde não pudesse voltar.
Quando os dedos do homem envolveram cada testículo separadamente, pesando-os com uma delicadeza que contrastava com o tamanho das mãos, Manolo deixou escapar um suspiro. Não foi um suspiro qualquer, mas um som que nascia no fundo do peito, uma exalação longa e trêmula que carregava consigo parte da resistência. Depois veio o gemido, baixo e gutural, que escapou dos lábios antes que pudesse contê-lo.
—Assim, gostosa —sussurrou o homem, e a voz dele era uma carícia por si só—. Deixa teu corpo falar.
Manolo sentiu os quadris se moverem sozinhos, erguendo-se suavemente da maca, oferecendo mais de si àquelas mãos que o exploravam sem pressa. O movimento foi inconsciente, animal, como se a pélvis dele buscasse instintivamente o calor e a pressão dos dedos que acariciavam o saco dele. O homem aceitou a oferta, deslizando uma mão por baixo das nádegas dele pra segurá-lo, e a outra continuou a dança ao redor dos testículos dele.
O prazer era um líquido quente se espalhando pelas veias dele, um zumbido que preenchia os ouvidos e turvava a visão. Não havia mais vergonha nem humilhação, só a sensação pura de ser tocado, de ser desejado, de ser o centro da atenção de alguém que parecia encontrar no corpo dele um objeto de veneração.
Então, o homem fez uma pausa.
A mão se retirou e o silêncio se encheu da respiração ofegante de Manolo, que ainda tremia sobre a maca, com os quadris levemente erguidos, esperando. A ausência do contato foi um vazio que se abriu no ventre dele, um buraco que pedia pra ser preenchido. Manolo ficou imóvel, sentindo cada batida do coração na ponta dos dedos, na curva das nádegas, na borda sensível do saco.
A pausa durou só alguns segundos, mas pra Manolo foi uma eternidade.
E então, ele sentiu algo diferente. Não as pontas dos dedos, mas o contato de uma língua. Quente, úmida, com a superfície levemente áspera das papilas gustativas deslizando sobre o saco recém-depilado. A sensação foi tão inesperada, tão íntima, que Manolo soltou um som que era ao mesmo tempo um suspiro e um gemido, uma mistura de surpresa e entrega total.
A língua do homem se moveu devagar, lambendo a superfície do saco de baixo pra cima, percorrendo cada dobra, cada curva, parando nos pontos onde a pele era mais fina e sensível. O O calor da boca do homem contrastava com o ar fresco do quarto, e o contraste fazia cada passada da língua ser uma revelação.
Manolo sentiu a língua contornar um testículo, como se estivesse saboreando, e depois o outro, com a mesma atenção meticulosa. O prazer era uma espiral que crescia sem parar, um carrossel de sensações que o arrastava para um centro do qual não queria escapar. Seus quadris se moveram de novo, empurrando-se em direção à boca do homem, buscando mais contato, mais calor, mais língua.
—Mmm —suspirou o homem, e o som vibrou contra o escroto de Manolo, adicionando uma dimensão nova ao prazer—. Você tem um gosto tão bom, Manuela.
Manolo não conseguiu responder. Sua boca estava aberta, mas dela só saíam suspiros e gemidos, sons que já não lhe pertenciam, que tinham sido roubados por aquele homem que o devorava com a língua. O prazer se espalhava do escroto até a base da coluna, fazendo todo o seu corpo arquear levemente sobre a maca.
—Não para —sussurrou sem querer, e a palavra escapou dos seus lábios como uma confissão.
O homem sorriu contra a sua pele e continuou lambendo, mais rápido agora, com mais segurança, levando Manolo a um estado de entrega absoluta onde o tempo e o espaço se dissolviam no calor daquela boca e no roçar daquela língua.
O mundo tinha se reduzido a um ponto de contato. Manolo —Manuela— já não era consciente do vinil frio contra o peito, nem do peso do próprio corpo, nem mesmo do eco da dor remanescente da cera que ainda vibrava nos seus glúteos. Só existia o calor da língua do homem nos seus testículos, aquela umidade insistente que percorria cada dobra, cada curva sensível, com uma paciência que parecia ter toda a eternidade pela frente.
E então, sentiu algo mais.
Um roçar leve, quase um sussurro, na borda do seu ânus. A princípio, pensou que era a própria língua do homem, que tinha se desviado na sua exploração. Mas a textura era diferente: mais firme, mais seca, com a superfície calejada de um dedo que traçava círculos minúsculos ao redor do anel da sua entrada.
—Shhh... —sussurrou o homem contra o seu saco, e o som vibrou diretamente na sua pele—. Relaxa, gostosa. Não vou fazer nada que você não queira.
Mas Manolo já não estava em condições de querer ou não querer. Sua mente tinha se desconectado, dando lugar a uma torrente de sensações puras, sem filtros nem julgamentos. A língua continuava massageando suas bolas com movimentos circulares, lambendo, saboreando, e o dedo seguia sua dança ao redor do seu cu, roçando as dobras com uma delicadeza que era quase cruel.
O contraste entre a umidade quente da língua e a pressão seca e precisa do dedo era avassalador. Manolo sentiu seu cu se contrair involuntariamente, e o dedo do homem parou, esperando. Depois de um momento, a pressão recomeçou, dessa vez com um pouco mais de firmeza, como se estivesse pedindo permissão para entrar.
—Assim, Manuela. Se deixa levar —murmurou o homem, e sua língua deslizou até a base do seu pau, lambendo o ponto onde as bolas se uniam à haste—. Só sente.
E Manolo sentiu. Cada passada da língua era um arco de prazer que se espalhava pelo seu ventre. Cada círculo do dedo ao redor do seu cu era uma pulsação que ecoava na sua espinha. E em algum momento, a fronteira entre a humilhação e o desejo se desfez por completo, fundindo-se em um único estado de consciência líquido e vibrante.
O dedo do homem parou de acariciar a borda e deslizou até o centro do buraquinho, aplicando uma pressão suave que fez Manolo arquear as costas. Não entrou, só ficou ali, na entrada, apalpando a resistência do esfíncter, sentindo como se contraía e relaxava no ritmo da sua respiração.
—Que lindo você é, Manuela —disse o homem, erguendo a cabeça para olhá-lo—. Seu corpo não resiste. Seu corpo está te dizendo que isso é o que você precisa. fim do primeiro capítulo, parte 2 aqui
"Amanhã às 12 no meu escritório. Não falte, ou começo com os advogados. E você sabe o que isso significa: sua moto, seu apartamento, tudo o que sua avó te deixou. Você tem 24 horas para me trazer uma solução."
Manolo deixou o telefone cair na mesinha de cabeceira. A moto era a única liberdade dele, o apartamento o único refúgio. E a dívida, inflada pelos juros usurários que Miguel tinha enfiado nos últimos meses, chegava a um valor que nem trabalhando dez anos num supermercado ele conseguiria pagar.
Na manhã seguinte, o escritório do Miguel cheirava a couro velho e tabaco de enrolar. Miguel era um homem na casa dos quarenta, com barba por fazer de dois dias e um olhar que não piscava. Atrás da mesa de mogno, brincava com um isqueiro de prata enquanto Manolo se sentava do outro lado, encolhido na cadeira.
— Fui generoso com você, moleque — disse Miguel sem tirar os olhos do isqueiro. — Te emprestei dinheiro quando ninguém mais emprestava. E você, em vez de agradecer, ficou perdendo tudo nessa porcaria de aplicativo. Agora tá na hora de pagar.
— Não tenho o dinheiro, Miguel. Você sabe disso. Me dá mais tempo, pelo amor de Deus.
— Tempo é a única coisa que eu não tenho pra te dar. Meus advogados já prepararam a ação. Em duas semanas, sua moto vai pro ferro-velho e seu apartamento vai a leilão. E você, na rua, com uma mancha no histórico de crédito que vai te perseguir até os quarenta.
Manolo sentiu um nó no estômago. Tentou falar, mas a voz saiu num sussurro quebrado.
— Não tem outro jeito? O que for, Miguel. Eu trabalho pra você, faço o que você pedir.
Miguel fechou o isqueiro com um estalo seco e se recostou na poltrona. Um sorriso torto se desenhou no rosto dele.
— Tá falando sério? Qualquer coisa?
Manolo aceniu, engolindo saliva. —Pois é, eu tenho um bar. Um dos meus pontos, no centro. Nas noites de fim de semana enche de gente com grana, clientes que procuram... diversão. Mas não é um bar qualquer. As garçonetes são especiais. São garotos como você, gostosos, novinhos, que sabem se vestir e se mexer pra fazer a clientela gastar e gastar. E eu preciso de mais um. Manolo piscou, sem entender direito. —Garçom? Eu dou conta, Miguel. Sou rápido, sei servir as bebidas... —Eu não falei garçom. Falei garçonete. O sorriso de Miguel se alargou enquanto tirava uma foto de uma gaveta. Nela, um garoto de traços finos posava com um vestido vermelho de lantejoulas, salto agulha e uma peruca loira que caía até a cintura. O rosto dele estava maquiado com precisão: sombra esfumada, lábios carmim e cílios postiços. —Esse é o Christian, um dos meus. Ele ganha numa noite o que você ganha num mês de trampo normal. Os clientes pagam pra ver eles, pra conversar, pra tocar se eles deixarem. E você tem o tipo certo, Manolo. Magro, pernas longas, cara de anjo caído. Com um pouco de treino, você seria a sensação do lugar. Manolo sentiu o chão se abrir sob os pés dele. —Cê tá de sacanagem? Eu não sou nenhum traveco. Sou homem, porra. Não vou me vestir de mulher nem usar salto nem... nem... —Nem pagar sua dívida, nem ficar com sua moto, nem dormir no seu apê —cortou Miguel, frio—. A escolha é sua, Manolo. Uma noite de trabalho no meu bar, ou uma vida de merda. E não pensa que é tão ruim assim. Os garotos são bem cuidados, têm seu público, e alguns até curtem. Mas se você não se acha capaz, não me faz perder tempo. O silêncio pesou. Manolo olhou pra foto do Christian, os olhos pintados e a pose provocante, e sentiu um arrepio. Mas aí pensou na moto, nas chaves do apê, na foto da avó dele na lareira. —Só uma noite? —perguntou com a voz trêmula. —A primeira noite é de teste. Se não der conta, procuro outro e você se fode. Se der conta, vamos abaixando a dívida aos poucos. Mas vai ter que fazer direito, Manolo. Maquiagem, vestido, peruca, e servir as bebidas com um sorriso. E se um cliente pedir algo mais... a gente vê depois.
Manolo fechou os punhos até as unhas cravarem nas palmas. Todo o seu ser se revoltava contra a ideia. Mas a alternativa era pior.
—Tá bom —sussurrou—. Faço o que você diz. Uma noite.
—Boa decisão. Hoje às dez no endereço que vou te mandar. Entra pela porta dos fundos, pergunta pela Lola. Ela vai te vestir e te maquiar. E, Manolo... não pense em fugir. Eu te acho.
As dez da noite encontraram Manolo diante de uma porta de metal sem nenhuma placa anunciando o bar. Só um número, o 17, e uma luz vermelha sobre o batente. Ele bateu com o punho trêmulo e uma mulher de ombros largos e cabelo preto comprido abriu. Era a Lola, uma travesti de quarenta anos com voz grave, mas modulada, que o olhou de cima a baixo com olhos de quem entendia do assunto.
—Então você é o novato. Entra, lindo. Temos muito trabalho.
O camarim cheirava a laquê, a porra e a suor adocicado. Lola sentou ele diante de um espelho iluminado com lâmpadas de luz quente e começou a trabalhar no rosto dele sem pedir licença. Manolo viu o próprio reflexo se transformar: as sobrancelhas se delineavam em arcos perfeitos, as pálpebras se cobriam de sombras douradas e pretas, os lábios se pintavam de um vermelho escuro que parecia sangue seco. Depois veio a peruca, uma cascata de cabelo castanho-claro que batia nos ombros, e o vestido: um corpo de lantejoulas pretas que se ajustava ao tronco e abria numa saia que mal cobria a coxa.
—Os saltos —disse Lola, entregando uns sapatos de agulha de doze centímetros—. Anda como se pisasse em ovos, mas com rebolado. E sorri, porque você tem uns covinhas que derretem qualquer um.
Manolo se levantou com dificuldade, cambaleando. O vestido incomodava, a peruca coçava o pescoço, e os Os saltos eram um suplício. Mas quando se olhou no espelho, já não viu o Manolo. Viu uma garota alta, de pernas intermináveis, com um rosto de beleza andrógina que parecia saído de um anúncio de perfume caro.
— Agora pra sala — disse Lola, empurrando ele em direção à porta —. E lembra: você é a "Manuela". Seu trabalho é fazer o povo babar, sorrir e pagar. Se te tocarem, não fica nervoso. São clientes, não assaltantes.
O bar era um espaço íntimo, com luzes baixas, cortinas de veludo vermelho e um balcão de mármore onde outras três travestis serviam drinks com movimentos graciosos. A clientela era variada: homens sozinhos, casais, grupos de amigos que riam e apontavam. Quando o Manolo — agora Manuela — saiu, sentiu todos os olhares cravados nele. Um arrepio percorreu sua nuca.
— Ei, gostosa! — gritou um careca de uma mesa —. Me traz outro uísque, mas dessa vez com gelo e com um sorriso.
Manolo forçou um sorriso e caminhou até o balcão, sentindo o balanço do quadril e o roçar da saia contra as coxas. Cada passo era um lembrete da sua nova identidade. Mas quando o cliente esticou uma nota de cinquenta e roçou a mão dele com intenção demais, Manolo não se afastou. Lembrou da moto, do apartamento, da dívida.
O peso do vestido de lantejoulas ficava mais suportável a cada minuto, mas os saltos continuavam sendo um castigo. Manolo — Manuela — se segurava no balcão com uma mão enquanto com a outra segurava uma bandeja de taças de champanhe. Sua primeira rodada foi desastrada: derramou um pouco de licor no mármore e a clientela riu com condescendência. Mas logo aprendeu a balançar o quadril, a inclinar a cabeça com falsa coqueteria e a sorrir mostrando aquelas covinhas que a Lola tinha elogiado.
Os primeiros toques chegaram aos vinte minutos. Um homem de terno cinza, com bafo de gim, roçou a bunda dele com a palma aberta enquanto pedia outra dose. Manolo deu um sobressalto, sentiu um ardor de vergonha subindo pelo nuca, mas não se atreveu a protestar. Miguel estava na penumbra, observando. Então Manolo apertou os dentes e continuou servindo.
Meia hora depois, outro cliente, mais jovem e com olhar de predador, agarrou-lhe a coxa por baixo da barra da saia enquanto Manolo se inclinava para deixar uma garrafa de rum na mesa. Os dedos do cara afundaram na carne dele, subindo uns dois centímetros, e Manolo sentiu um arrepio que percorreu a espinha.
—Não fica tímida não, gostosa —sussurrou o cliente—. Você tá aqui pra isso, não tá?
Manolo se endireitou rápido, soltou uma risadinha fingida e recuou até o balcão com o coração batendo forte no peito. Sentiu-se sujo, exposto, como um pedaço de carne num mercado. Mas quando viu a moto estacionada na imaginação e as chaves do apartamento penduradas num fio, se forçou a continuar.
Passou uma hora. Uma hora de sorrisos falsos, de mãos atrevidas que deslizavam pelas laterais do corpo, de sussurros no ouvido e notas amassadas na liga. Manolo estava exausto, a maquiagem começando a escorrer com o suor e os pés ardendo como se andasse sobre brasas.
Então Lola apareceu ao lado dele como um anjo da guarda vestido de lantejoulas douradas. Agarrou-lhe o cotovelo com firmeza e o conduziu até um canto afastado, atrás de uma cortina de veludo, onde o barulho do bar virava um murmúrio distante.
—Manuela —disse Lola, com aquela voz grave e modulada que misturava autoridade e ternura—, tenho que te propor uma coisa. Tem um cliente na sala privada. Um senhor mais velho, dos habituais. Paga bem e é limpo, mas tem suas... manias. Ele quer te depilar, com cera. Da cintura pra baixo. Ele paga 500 euros, dos quais 350 serão pra você... Ou pra sua dívida. O Miguel já me avisou que você deve dinheiro. Aceita?
Manolo sentiu o mundo parar. A palavra "depilar" soou como uma faca. Um desconhecido, vendo ele nu da cintura pra baixo, arrancando os pelos com cera quente? A humilhação era de um nível muito superior ao de usar salto alto e vestido. Sentiu um nó na garganta e as mãos tremeram.
—Depilar? Com cera? E ainda por cima me olhando? Lola, isso é... isso é demais. Eu só aceitei servir drinks, não isso. Que sou eu, um puto brinquedo?
Lola não se abalou. Cruzou os braços sobre o peito e sustentou o olhar com uma calma que desarmava.
—Olha, querida, entendo seu nojo. Eu também passei por isso na primeira vez. Mas o cliente não é um bruto. É um homem mais velho, solitário, que gosta de estética, de pele lisinha. Ele não vai te tocar de forma violenta, só quer ver e sentir o processo. E 350 € são 350 €. Me diz quantas horas de garçom normal você precisa pra ganhar isso.
Manolo baixou o olhar pro chão, pros saltos agulha que destruíam seus pés. A mente era um turbilhão: a imagem da avó, a moto que vinha restaurando peça por peça, o apartamento que era seu único refúgio. Tudo isso se desvanecia se o Miguel executasse a dívida. 350 € não pagavam nem a décima parte do que devia, mas era um começo, um gesto que mostraria ao Miguel que ele estava disposto a cumprir.
—Lola, o que você faria? —perguntou erguendo o olhar, com os olhos brilhando de uma umidade que ainda não era choro—. Me fala você. Não sei se consigo, se sou capaz de aguentar isso.
Lola se aproximou um passo e pôs a mão no ombro dele. O toque era quente, quase maternal.
—Eu já fiz isso, Manuela. E não foi uma vez. Te falo a verdade: no começo você se sente um trapo, uma coisa. Mas fecha os olhos, pensa no que tá em jogo, e desliga. Esse senhor paga bem e não é mau. É um fetiche estranho, sim, mas tem coisa muito pior nesse lugar, te garanto. Se você aceitar, o Miguel vai ver que você cumpre e te deixa respirar. Se recusar, não sei se ele te dá outra chance. A dívida não espera.
Manolo mordeu o lábio inferior, sentindo o gosto do batom. A cera quente, a nudez, o olhar de um velho desconhecido... todo o seu ser gritava que não. Mas a moto, o chão, a liberdade... gritavam mais alto.
— Tá bom — sussurrou por fim, com a voz embargada e os punhos apertados contra as lantejoulas do vestido —. Me faz o favor de ficar por perto. Caso aconteça alguma coisa.
Lola esboçou um sorriso cúmplice e deu um tapinha na bochecha dela.
— Não se preocupa, querida. Vou estar do outro lado da porta. Agora vai pro camarim, tira a calcinha (que eu suponho que você esteja usando) e veste o roupão que vai estar pendurado. O senhor te espera no quarto dos fundos. E, Manuela... pensa na tua moto. Pensa no asfalto e no vento. Isso vai te ajudar.
Manolo assentiu, engolindo saliva e veneno. Deu a volta e caminhou até o camarim com passo incerto. Cada salto que batia no chão era uma batida da dignidade dela morrendo. Mas enquanto tirava a peça íntima e se enrolava no roupão branco, repetiu o mantra que Lola tinha dado: A moto. O apartamento. A liberdade. E com esse pensamento, empurrou a porta do quarto privado, onde a esperavam uma poltrona de veludo, uma mesa com utensílios de cera e um homem de cabelos grisalhos que a olhou com olhos de avaliador experiente.
A poltrona de veludo bordô rangeu quando o homem se levantou. Era um senhor de sessenta e poucos anos, daqueles que viveram bem e isso se nota: a barriga proeminente que o colete de lã não consegue disfarçar, as mãos grossas com veias marcadas e anéis de ouro nos dedos, o cabelo prateado penteado para trás com fixador. Cheirava a loção de barbear cara e a tabaco de cachimbo, uma mistura antiquada mas não desagradável. Os olhos dele, de um azul pálido e cansado, percorreram Manuela de cima a baixo com uma lentidão que parecia saborear cada centímetro do corpo dela envolto no roupão branco.
— Senta, gata — disse, e a voz era grave, rouca, como de quem falou demais em bares e fumou charutos demais.
Manolo — Manuela — sentou na beirada da maca, com as pernas juntas e as mãos cruzadas no colo, sentindo o frio do vinil contra a pele. muslos nus. O homem não se sentou de novo. Em vez disso, aproximou-se com passos pesados que faziam o assoalho de madeira ranger, e quando ficou diante dele, ergueu uma mão e segurou seu queixo com dois dedos. O gesto foi firme, mas não brusco, como quem manuseia um objeto delicado.
—Você tem um rostinho lindo — murmurou, inclinando-se devagar—. Mas te falta uma coisa... relaxamento.
E então os lábios dele pousaram sobre os de Manuela. Foi um beijo suave, daqueles que mal pressionam, mais como uma pergunta do que uma declaração. Os lábios do homem eram quentes e carnudos, e cheiravam a menta e uísque. Manolo sentiu o bigode grisalho roçar seu lábio superior e o contato da língua, apenas insinuado, que umedeceu o batom.
E então aconteceu algo que ele não esperava: um tremor. Um arrepio minúsculo, mas inconfundível, que percorreu sua nuca e desceu pelas costas, fazendo os mamilos endurecerem sob o roupão.
Que buceta você tá sentindo? — gritou para si mesmo na cabeça —. Você é um cara. Isso é um homem. Um velho barrigudo. Isso deveria te dar nojo.
Mas o corpo não mentia. Ou talvez fosse o cansaço, a vertigem da noite, a humilhação que tinha ficado tão intensa que começava a se confundir com outra coisa. O beijo não era exigente nem agressivo. Era quase terno. E no fundo mais escuro da sua consciência, Manolo descobriu que fazia anos que ninguém o beijava assim: com atenção, com calma, como se ele realmente importasse.
O homem afastou os lábios e o encarou com aqueles olhos azuis enrugados.
—Viu? Não é tão ruim — disse, passando o polegar pela bochecha dele para limpar uma mancha de batom—. A cera espera, mas antes quero que você se sinta confortável comigo. Não gosto que minhas... acompanhantes fiquem tensas.
Manolo piscou, confuso. Por um momento, o tremor se espalhou das costas para o ventre, e ele sentiu um calor estranho entre as pernas que não soube interpretar. Era medo? Era vergonha? Era outra coisa? Mordeu o lábio inferior, o o mesmo que o homem tinha beijado, e sentiu um gosto residual de menta e tabaco.
É só uma transação, repetiu para si mesma. 350 euros. A moto. O apartamento. Isso não significa nada.
O homem tirou a mão do queixo de Manuela e deslizou-a para baixo, com uma lentidão deliberada, como se quisesse que ela sentisse cada milímetro do percurso. Os dedos grossos, com seus anéis de ouro frios, traçaram um caminho desde a clavícula, descendo pelo decote do roupão branco até parar na borda do tecido que cobria suas coxas.
—Deixa eu ver essas pernas, gata —sussurrou com a voz rouca, e suas mãos afastaram o roupão com um movimento suave, deixando à mostra a pele pálida e lisa das coxas de Manuela.
Manuela sentiu o ar fresco do quarto acariciar sua pele, e depois o calor das palmas do homem pousando sobre suas coxas. As mãos eram ásperas, com calos típicos de uma vida de trabalho, mas o toque era surpreendentemente delicado. Os dedos se moviam em círculos lentos, subindo dos joelhos até a virilha, acariciando a parte interna das coxas com uma paciência quase hipnótica.
O homem não desviava o olhar. Seus olhos azuis seguiam cada movimento das próprias mãos, e um sorriso mal esboçado se formava em seus lábios carnudos. Manuela permaneceu imóvel, com a respiração ofegante, sentindo aquelas mãos explorarem sua pele como se fosse um mapa de tesouros.
—Você tem a pele macia... tão macia —murmurou o homem, e seus dedos deslizaram para as nádegas, apertando a carne com firmeza, mas sem brutalidade.
Manuela sentiu um arrepio elétrico subir pela espinha quando as mãos do homem moldaram sua bunda, separando-a levemente, como se estivesse avaliando o peso e a textura de cada centímetro. E então aconteceu: um calor estranho, um formigamento que ela não esperava, que não queria sentir, mas que se instalou no seu ventre como um bicho domesticado. Meu Deus, o que está o que está acontecendo?, perguntou-se enquanto sentia a respiração ficar mais curta, mais trêmula.
O homem se inclinou, aproximando o rosto da orelha de Manuela, e sussurrou:
—Você gosta, não gosta? Gosta de ser desejado assim. Tudo bem, gatinho. Aqui não tem julgamento.
As palavras queimaram sua nuca, mas mesmo assim ele não conseguiu negar. Havia algo na forma como o homem o olhava, na forma como suas mãos o tocavam sem pressa, como se realmente o achasse lindo, que despertava nele uma sensação estranha e viciante. Era a primeira vez em muito tempo que alguém o olhava com desejo genuíno, sem condições nem apostas no meio. E mesmo que esse alguém fosse um homem mais velho e acima do peso, o desejo não entende de lógica.
O homem deslizou uma mão entre as pernas de Manuela, afastando suavemente suas coxas, e com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho, acariciou o saco com a ponta dos dedos. A pele era sensível, e o toque provocou uma contração involuntária em todo o seu corpo. Manolo prendeu a respiração, sentindo a mão do homem explorar a curva das bolas com movimentos circulares, como se estivesse decifrando a forma exata da sua intimidade.
—Relaxa, amor. Não vou te machucar —disse o homem com voz calma, enquanto o outro braço envolvia a cintura de Manuela para segurá-lo.
Os dedos continuaram a exploração, deslizando para trás, roçando o períneo com uma pressão leve, até chegar à borda do cu. Manolo sentiu o contato e seu corpo reagiu com uma mistura de tensão e uma excitação curiosa. Os dedos do homem traçaram círculos minúsculos ao redor da borda, sem penetrar, só explorando, acariciando, testando.
Manuela fechou os olhos. Não conseguia evitar imaginar que aquela mão era de outra pessoa, alguém mais jovem, alguém que ele tivesse escolhido. Mas a realidade era que aquelas mãos experientes pertenciam a um desconhecido de sessenta anos que estava pagando por isso. E em em algum lugar retorcido da mente dele, aquilo também tinha um tesão difícil de ignorar. — Você gosta, né? — repetiu o homem, notando a respiração ofegante de Manuela —. Seu corpo diz que sim, mesmo que sua cabeça tente negar. Manolo abriu os olhos e se deparou com o olhar do homem, que o observava com uma mistura de ternura e luxúria. Sentiu as mãos do homem em seus glúteos, afastando-os um pouco mais, explorando cada dobra, cada curva, com uma minúcia que o fazia sentir vulnerável e, ao mesmo tempo, estranhamente valioso. O homem tirou as mãos com uma lentidão deliberada, como se estivesse saboreando o último toque, e deu um passo para trás. O rangido do sofá de veludo ao receber o peso dele voltou a preencher o ambiente quando ele se sentou, ajustando o corpo com um movimento pesado. Reclinou-se, cruzou uma perna sobre a outra e entrelaçou os dedos sobre a barriga. A luz fraca do abajur desenhava sombras no rosto dele, endurecendo as feições, dando-lhe um ar de patriarca severo. — Se despacha — disse ele, e a voz tinha perdido toda a doçura de antes. Era uma ordem, seca e direta, como quem manda num cachorro bem treinado. Manolo sentiu o peso das palavras cair sobre ele como uma laje. O momento de calma, de carícias lentas, tinha se dissipado. Agora não havia negociação nem preliminares. Só uma ordem e a expectativa de que fosse cumprida. Levantou-se da maca com dificuldade, sentindo as pernas levemente trêmulas. O jaleco branco pendia dos ombros dele, aberto, mostrando a pele nua que o homem já tinha explorado. Estava com as mãos coladas nas laterais do corpo, sem saber onde colocá-las, sem saber como começar. — Não me faz esperar, gatinha — disse o homem com um tom que não admitia réplica. Manolo engoliu seco e ergueu as mãos até os ombros. Os dedos tremiam enquanto encontravam a borda do jaleco e o empurravam para trás. O tecido deslizou pelos braços dele com um sussurro e caiu no caiu num monte branco aos seus pés. Ficou completamente nu, de pé no meio do quarto, sob a luz amarelada que acariciava cada curva do seu corpo jovem.
O homem não desviou o olhar. Seus olhos azuis percorreram o torso de Manolo: os ombros estreitos mas marcados, o peito liso com os mamilos já eretos pelo frio ou pela excitação, o ventre plano que se contraía a cada respiração ofegante. Depois desceram para o quadril, para os quadris afilados, para os pelos pubianos ralos e escuros que emolduravam sua buceta, que começava a despertar apesar da vergonha. E finalmente, para as pernas longas que sustentavam aquele corpo de forma instável.
Manolo sentiu o olhar do homem como um peso físico. Cada centímetro da sua pele ardia sob aqueles olhos, e um rubor que não era de maquiagem subiu pelo seu peito e pescoço. Mas no meio da humilhação, algo mais se agitava por dentro. Era o formigamento de ser observado, de ser desejado, de ser o centro das atenções de alguém que parecia valorizar cada detalhe. Suas mãos se moveram instintivamente para se cobrir, para esconder a buceta que já começava a endurecer, mas o homem ergueu a mão.
— Não. Não se cubra. Quero ver tudo.
Manolo deixou os braços caírem ao lado do corpo, oferecendo seu corpo nu como um altar. Sentiu o ar do quarto percorrer sua pele, arrepiando os pelos dos braços e das pernas. Sentiu o peso das suas bolas balançando entre as coxas, o roçar das próprias coxas ao se juntarem levemente. Sentiu seu coração batendo tão forte que quase podia ouvi-lo nos ouvidos.
— Vira-se — disse o homem com a mesma voz firme.
Manolo obedeceu sem pensar. Girou sobre os calcanhares, oferecendo suas costas ao homem, e depois sua bunda, que apertou inconscientemente. Ficou de perfil, sem saber o que fazer com as mãos, sentindo o olhar do homem pousar na curva das suas costas, na linha da sua coluna, na fenda dos seus glúteos.
— Mãos para trás da a nuca.
Manolo entrelaçou os dedos atrás da cabeça, arqueando levemente as costas, sentindo como o gesto tensionava os abdominais e erguia o peito. O homem se inclinou um pouco para a frente no assento, e Manolo pôde ouvir sua respiração, mais ofegante do que antes.
—Como você é lindo, Manuela —sussurrou—. Que pena que você esteja aqui por dinheiro. Poderia estar numa passarela.
O elogio, vindo daquele homem que pagava para depilá-lo, teve um efeito estranho em Manolo. Sentiu uma mistura de orgulho e vergonha, de nojo e desejo. Seus mamilos endureceram ainda mais, e seu pau, traiçoeiro, começou a subir com clareza.
—Quer se tocar, Manuela? —perguntou o homem, com um sorriso na voz—. Quer que eu te veja fazer isso?
Manolo negou com a cabeça, mas seu corpo não obedecia. O calor entre suas pernas era inegável, e a sensação de estar completamente exposto, sob o controle daquele homem, começava a excitá-lo de um jeito que ele não tinha previsto.
O homem se recostou na poltrona de veludo com uma lentidão que parecia coreografada, ajustando as roupas com gestos pausados enquanto seus olhos azuis não desgrudavam nem um segundo do corpo nu de Manuela. Seus dedos brincavam com o anel de ouro, girando-o no dedo, e sua boca desenhava um meio sorriso de satisfação. A luz do abajur projetava sombras alongadas no chão, e o silêncio do quarto só era quebrado pela respiração entrecortada do garoto.
—Deita na maca —ordenou, e sua voz tinha recuperado aquele tom seco e direto, sem nenhum traço da doçura dos primeiros minutos—. Quero começar com a cera.
Manolo sentiu um nó no estômago. Seu corpo nu ainda vibrava com o calor do olhar do homem, e a ordem chegou como um chicote que lembrou por que ele estava ali. Deu um passo em direção à maca, sentindo o frio do chão sob os pés, e se deitou de barriga para cima, apoiando a cabeça na pequena almofada. couro. O contato do vinil contra suas costas a fez estremecer.
—Não, gata —disse o homem, erguendo uma sobrancelha e balançando um dedo de um lado para o outro como quem corrige uma criança pequena—. De bruços. Quero ver essa bunda que você tem.
Manuela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A ordem era tão específica e tão carregada de intenção que ela soube que o homem não queria apenas acesso à área que ia depilar; ele queria ver, aproveitar, possuir com o olhar antes mesmo de tocar de novo. Ela se ergueu com dificuldade, virou o corpo e se deitou de bruços na maca, com o rosto apoiado na almofada e os braços estendidos dos dois lados da cabeça.
A posição a deixava completamente exposta. Suas costas nuas se estendiam até a curva da cintura, que afundava levemente antes de se elevar na redondeza das nádegas. Os glúteos, firmes e bem torneados, se ofereciam como duas montanhas de carne pálida, separados por uma linha escura que sumia na intimidade entre as coxas. Ela podia sentir o peso das próprias bolas pressionando contra o vinil da maca, e uma umidade crescente entre as pernas que não sabia se era suor ou algo mais.
O homem se levantou com um rangido da cadeira e seus passos pesados se aproximaram da maca. Manuela sentiu o calor do corpo dele ao lado, e então uma mão grande e quente que pousou sobre seu glúteo direito com uma lentidão deliberada. Os dedos afundaram na carne, apertando, moldando a forma como quem apalpa uma fruta para verificar se está madura.
—Você tem uma bunda boa —disse o homem, e a voz dele era um sussurro rouco que vibrava no ouvido de Manuela—. Redonda, firme, com a pele macia. Parece feita para ser admirada.
A mão deslizou para o outro glúteo, repetindo o gesto, e então os dedos traçaram o contorno da racha, descendo lentamente pela curva até roçar as bolas que se espreitavam entre as pernas. Manuela prendeu a respiração, sentindo como Os dedos do homem exploravam a borda do saco dele, acariciando com uma pressão leve que provocou um estremecimento involuntário.
— Você gosta, né? — murmurou o homem, e Manolo sentiu os dedos dele separarem seus glúteos, abrindo a fenda pra deixar à mostra o pequeno e escuro anel do seu cu, que se contraiu com o contato do ar frio —. Você gosta que te olhem aqui, que te toquem aqui. O corpo não mente, Manuela. O seu tá dizendo que sim mesmo que a boca diga que não.
Manolo apertou os olhos com força, afundando o rosto no travesseiro pra não ver, pra não ouvir, mas o calor se espalhava pela barriga dele com uma intensidade que o apavorava. Os dedos do homem continuaram explorando a borda do cu dele, fazendo círculos minúsculos, roçando as dobras com uma ternura que contrastava com a crueza da situação. Cada carícia provocava um tremor nas pernas dele, uma contração nas nádegas, um gemido abafado que lutava pra escapar da garganta.
— Fica tranquila — sussurrou o homem, tirando a mão e dando um passo pra trás —. Agora vem a cera. Mas não se preocupa, querida. Vou fazer disso uma experiência inesquecível.
O homem se moveu até a mesinha onde estavam os utensílios, e Manolo sentiu o frio da maca na barriga e nas coxas, sentiu o peso da própria excitação pressionando contra o vinil, sentiu a humilhação.
Os passos do homem ecoaram no chão enquanto ele ia até a mesinha auxiliar, onde os utensílios de cera descansavam sobre uma bandeja de metal: um aquecedor de cera que mantinha o líquido dourado na temperatura perfeita, uma espátula de madeira, tiras de pano branco e um pote de óleo de amêndoas. O aroma doce e quente da cera se misturou com o cheiro de tabaco e loção que emanava do homem.
Manolo permanecia de bruços sobre a maca, com o rosto enterrado no travesseiro, ouvindo o tilintar dos utensílios, o rumor da cera sendo mexida. A pele dele ainda ardia por causa das As carícias anteriores e a humilhação pesavam sobre sua nuca como uma mão invisível. Mas quando sentiu a presença do homem ao seu lado, seu corpo reagiu com uma mistura de tensão e uma ansiedade estranha.
— Vamos começar — disse o homem, com a voz rouca e pausada—. Primeiro, uma carícia pra pele se acostumar. Depois, a cera. E aí... o puxão.
A mão do homem, grande e quente, pousou sobre a panturrilha esquerda do Manolo. Os dedos deslizaram pra cima, massageando a panturrilha com movimentos lentos e circulares, subindo até a curva do joelho e depois descendo de novo. A carícia era surpreendentemente suave, quase terna, e o Manolo sentiu os músculos da perna relaxarem apesar dele mesmo. Era como se aquela mão enorme soubesse exatamente onde pressionar pra dissipar a tensão.
— Assim, gatinha. Relaxa — murmurou o homem—. A cera dói menos se você tá soltinha.
Depois de alguns segundos de carícias, o homem mudou o ritmo. A mão se afastou e, um instante depois, o Manolo sentiu o primeiro contato da cera quente na pele. Um fio fino e dourado caiu sobre a panturrilha, se espalhando num círculo viscoso que esfriava rápido. A temperatura era morna, mas não queimava, e o contraste entre o óleo de amêndoas que o homem tinha passado antes e a cera quente criava uma sensação estranha e gostosa.
O homem espalhou a cera com a espátula de madeira, cobrindo desde a parte de cima da panturrilha até quase o joelho. Os movimentos eram precisos, como os de um artesão aplicando verniz numa madeira fina. Depois, aplicou uma tira de pano sobre a cera e pressionou com a palma, alisando pra aderir bem.
— Agora o puxão — sussurrou, e o Manolo sentiu os dedos do homem procurando a borda da tira.
A respiração do Manolo parou quando a tira foi arrancada num movimento rápido e seco. A dor foi aguda, como uma picada de vespa, e O garoto não conseguiu conter um gemido abafado que escapou da garganta. A pele ficou vermelha e brilhante, e os pelos escuros da perna tinham desaparecido, deixando uma superfície lisa e quente.
— Dói, né? — disse o homem, passando a palma pela área recém-depilada para acalmar a ardência—. Mas olha que pele macia. Vale a pena, não acha?
Manolo não respondeu. Apertou os dentes e afundou o rosto no travesseiro, sentindo a dor se transformar num calor residual que se espalhava pela perna. O homem não esperou resposta. Aplicou mais cera na outra perna, repetindo o ritual: a carícia prévia com óleo, o jorro de cera quente, a espátula espalhando com cuidado, a tira de pano pressionada, e finalmente, o puxão.
Outro gemido escapou de Manolo, mais contido que o primeiro, mas igualmente sincero. A dor era aguda e brilhante, mas tinha algo nela que a tornava quase viciante. Talvez fosse a sensação de estar completamente entregue, de que outra pessoa decidisse por ele, de que seu corpo virasse uma tela para a experiência.
O homem continuou subindo: das panturrilhas até as coxas, aplicando a cera com a mesma atenção minuciosa. Em cada trecho, a carícia prévia era mais longa, como se o homem quisesse prolongar o prazer antes da dor. Manolo sentiu a cera se espalhar pelas coxas, subindo até os glúteos, e o puxão seguinte fez ele arquear as costas.
— Calma, Manuela. Quase chegamos na parte boa — disse o homem, e a voz tinha um quê de excitação mal contida.
O último trecho foi o mais delicado: a cera ao redor do saco e na borda do cu, onde a pele era mais fina e sensível. O homem aplicou a cera em pequenas porções, com uma precisão extrema, e o puxão foi tão rápido que Manolo mal teve tempo de reagir. A dor foi intensa, uma pulsação que ecoou pelo corpo inteiro, e o garoto soltou um gemido que dessa vez não conseguiu conter.
— Já está — disse o homem, passando uma toalha úmida sobre a área para limpar os restos de cera —. Agora sim você tá pronto, gatinha. Feito um bebê.
A mão do homem deslizou pela pele lisa das nádegas de Manolo, acariciando a superfície que tinha ficado macia e quente. Manolo sentiu o contato e um tremor percorreu todo o corpo dele. A dor tinha sumido, mas o calor da pele recém-depilada e o olhar do homem sobre ele continuavam queimando com uma intensidade inesperada.
A dor que sobrava da cera ainda vibrava na pele dele como um eco de agulhas minúsculas, um ardor que se espalhava da parte de trás das coxas até a curva das nádegas e a borda sensível do cu. Cada centímetro da pele recém-depilada parecia vivo, hipersensível, como se os poros abertos respirassem o ar fresco do quarto. Manolo conseguia sentir a batida do próprio sangue ali onde a cera tinha arrancado os pelos, e cada movimento pequeno do corpo contra a maca renovava a pontada.
Mas então a mão do homem voltou a pousar sobre ele.
Não foi um toque brusco nem exigente. Foi uma carícia lenta, que começou na parte baixa das costas e deslizou para baixo seguindo a curva da coluna, como quem traça um mapa com a ponta dos dedos. Manolo sentiu o roçar da pele áspera e quente, e o ardor da cera se misturou com algo novo: um formigamento que subia pela nuca e descia até a barriga, como uma corrente elétrica de baixa intensidade.
— Agora é a parte mais gostosa — murmurou o homem, e os dedos dele deslizaram entre as coxas de Manolo, procurando o saco com uma precisão que sugeria conhecimento de cada dobra e cada curva.
Quando os dedos do homem roçaram o saco, Manolo sentiu um solavanco involuntário no corpo inteiro. As bolas pendiam macias e quentes, recém-livres de pelos, e o contato direto da pele com aqueles dedos experientes era quase avassalador. O homem acariciou o escroto com movimentos circulares, como se estivesse pesando a fruta mais delicada, e o prazer que brotou daquele contato foi tão intenso que Manolo não conseguiu evitar separar as pernas de forma inconsciente, se oferecendo mais, pedindo mais sem pronunciar uma palavra.
O que estou fazendo?, ele se perguntou num lampejo de lucidez, mas o pensamento se dissipou tão rápido quanto chegou, afogado pela torrente de sensações que percorria seu corpo. Sua mente tinha virado um espaço difuso, onde a humilhação e o prazer se enroscavam como duas cobras numa dança impossível de desembaraçar.
O homem percebeu a separação das pernas e soltou uma risada baixa, quase paternal.
— Assim que eu gosto, Manuela. Seu corpo sabe o que quer, mesmo que sua boca não diga.
Os dedos do homem se moveram com mais segurança agora, acariciando cada testículo separadamente, envolvendo-os com a palma, sentindo seu peso e seu calor. A pele do escroto, lisa e macia, respondia a cada carícia com um tremor que se espalhava para cima, para o baixo-ventre, para o pau que começava a endurecer contra a maca. Manolo sentiu a umidade entre as pernas aumentar, e o roçar do próprio sexo contra o vinil frio da maca era uma provocação constante.
— Você tá gostando, né? — sussurrou o homem —. Tá gostando que eu te toque assim, depois de te depilar, depois de ter visto tudo o que você tem a oferecer.
Manolo não conseguiu responder. A boca se abriu para dizer algo, mas só saiu um gemido abafado, um som que ele não reconhecia como seu. As pernas se abriram um pouco mais, e os quadris se moveram quase imperceptivelmente para trás, buscando mais contato, mais pressão, mais daquela mão que sabia exatamente onde tocar pra fazer ele esquecer quem era.
O homem não se apressou. Continuou acariciando o escroto com movimentos que ora eram círculos lentos, ora eram beliscões suaves que faziam saltar Manolo como se recebesse pequenas descargas elétricas. Cada carícia apagava um pouco mais a dor da cera, transformando-a numa espécie de fundo musical sobre o qual o prazer se erguia em ondas crescentes.
—Abre mais as pernas, gatinha —ordenou o homem, mas a voz dele era quase uma súplica—. Deixa eu ver tudo o que depilei. Deixa eu tocar bem.
Manolo obedeceu sem pensar, abrindo as pernas até os músculos das coxas formarem um ângulo que deixava a intimidade completamente exposta. Sentiu o ar fresco no períneo e o calor do olhar do homem pousado ali, naquele espaço que já não era segredo. E em algum lugar da consciência, soube que tinha cruzado uma linha da qual não poderia voltar atrás. Mas já não ligava.
As pontas dos dedos do homem se moviam com uma lentidão deliberada, traçando círculos perfeitos sobre a pele lisa e quente das bolas de Manolo. Cada rotação era um estudo de textura e temperatura, um diálogo tátil que não precisava de palavras. A pele depilada, sensível e nua, respondia a cada carícia com um tremor que se espalhava como ondas num lago, do saco até a barriga baixa, dos quadris até a nuca.
Manolo sentiu a dor residual da cera se dissolvendo sob aquele contato experiente, transformando-se em algo mais profundo, mais viscoso, mais parecido com um desejo que se recusava a ser nomeado. A respiração ficou irregular, ofegante, e os dedos se agarraram às bordas da maca como se temesse flutuar para um lugar de onde não pudesse voltar.
Quando os dedos do homem envolveram cada testículo separadamente, pesando-os com uma delicadeza que contrastava com o tamanho das mãos, Manolo deixou escapar um suspiro. Não foi um suspiro qualquer, mas um som que nascia no fundo do peito, uma exalação longa e trêmula que carregava consigo parte da resistência. Depois veio o gemido, baixo e gutural, que escapou dos lábios antes que pudesse contê-lo.
—Assim, gostosa —sussurrou o homem, e a voz dele era uma carícia por si só—. Deixa teu corpo falar.
Manolo sentiu os quadris se moverem sozinhos, erguendo-se suavemente da maca, oferecendo mais de si àquelas mãos que o exploravam sem pressa. O movimento foi inconsciente, animal, como se a pélvis dele buscasse instintivamente o calor e a pressão dos dedos que acariciavam o saco dele. O homem aceitou a oferta, deslizando uma mão por baixo das nádegas dele pra segurá-lo, e a outra continuou a dança ao redor dos testículos dele.
O prazer era um líquido quente se espalhando pelas veias dele, um zumbido que preenchia os ouvidos e turvava a visão. Não havia mais vergonha nem humilhação, só a sensação pura de ser tocado, de ser desejado, de ser o centro da atenção de alguém que parecia encontrar no corpo dele um objeto de veneração.
Então, o homem fez uma pausa.
A mão se retirou e o silêncio se encheu da respiração ofegante de Manolo, que ainda tremia sobre a maca, com os quadris levemente erguidos, esperando. A ausência do contato foi um vazio que se abriu no ventre dele, um buraco que pedia pra ser preenchido. Manolo ficou imóvel, sentindo cada batida do coração na ponta dos dedos, na curva das nádegas, na borda sensível do saco.
A pausa durou só alguns segundos, mas pra Manolo foi uma eternidade.
E então, ele sentiu algo diferente. Não as pontas dos dedos, mas o contato de uma língua. Quente, úmida, com a superfície levemente áspera das papilas gustativas deslizando sobre o saco recém-depilado. A sensação foi tão inesperada, tão íntima, que Manolo soltou um som que era ao mesmo tempo um suspiro e um gemido, uma mistura de surpresa e entrega total.
A língua do homem se moveu devagar, lambendo a superfície do saco de baixo pra cima, percorrendo cada dobra, cada curva, parando nos pontos onde a pele era mais fina e sensível. O O calor da boca do homem contrastava com o ar fresco do quarto, e o contraste fazia cada passada da língua ser uma revelação.
Manolo sentiu a língua contornar um testículo, como se estivesse saboreando, e depois o outro, com a mesma atenção meticulosa. O prazer era uma espiral que crescia sem parar, um carrossel de sensações que o arrastava para um centro do qual não queria escapar. Seus quadris se moveram de novo, empurrando-se em direção à boca do homem, buscando mais contato, mais calor, mais língua.
—Mmm —suspirou o homem, e o som vibrou contra o escroto de Manolo, adicionando uma dimensão nova ao prazer—. Você tem um gosto tão bom, Manuela.
Manolo não conseguiu responder. Sua boca estava aberta, mas dela só saíam suspiros e gemidos, sons que já não lhe pertenciam, que tinham sido roubados por aquele homem que o devorava com a língua. O prazer se espalhava do escroto até a base da coluna, fazendo todo o seu corpo arquear levemente sobre a maca.
—Não para —sussurrou sem querer, e a palavra escapou dos seus lábios como uma confissão.
O homem sorriu contra a sua pele e continuou lambendo, mais rápido agora, com mais segurança, levando Manolo a um estado de entrega absoluta onde o tempo e o espaço se dissolviam no calor daquela boca e no roçar daquela língua.
O mundo tinha se reduzido a um ponto de contato. Manolo —Manuela— já não era consciente do vinil frio contra o peito, nem do peso do próprio corpo, nem mesmo do eco da dor remanescente da cera que ainda vibrava nos seus glúteos. Só existia o calor da língua do homem nos seus testículos, aquela umidade insistente que percorria cada dobra, cada curva sensível, com uma paciência que parecia ter toda a eternidade pela frente.
E então, sentiu algo mais.
Um roçar leve, quase um sussurro, na borda do seu ânus. A princípio, pensou que era a própria língua do homem, que tinha se desviado na sua exploração. Mas a textura era diferente: mais firme, mais seca, com a superfície calejada de um dedo que traçava círculos minúsculos ao redor do anel da sua entrada.
—Shhh... —sussurrou o homem contra o seu saco, e o som vibrou diretamente na sua pele—. Relaxa, gostosa. Não vou fazer nada que você não queira.
Mas Manolo já não estava em condições de querer ou não querer. Sua mente tinha se desconectado, dando lugar a uma torrente de sensações puras, sem filtros nem julgamentos. A língua continuava massageando suas bolas com movimentos circulares, lambendo, saboreando, e o dedo seguia sua dança ao redor do seu cu, roçando as dobras com uma delicadeza que era quase cruel.
O contraste entre a umidade quente da língua e a pressão seca e precisa do dedo era avassalador. Manolo sentiu seu cu se contrair involuntariamente, e o dedo do homem parou, esperando. Depois de um momento, a pressão recomeçou, dessa vez com um pouco mais de firmeza, como se estivesse pedindo permissão para entrar.
—Assim, Manuela. Se deixa levar —murmurou o homem, e sua língua deslizou até a base do seu pau, lambendo o ponto onde as bolas se uniam à haste—. Só sente.
E Manolo sentiu. Cada passada da língua era um arco de prazer que se espalhava pelo seu ventre. Cada círculo do dedo ao redor do seu cu era uma pulsação que ecoava na sua espinha. E em algum momento, a fronteira entre a humilhação e o desejo se desfez por completo, fundindo-se em um único estado de consciência líquido e vibrante.
O dedo do homem parou de acariciar a borda e deslizou até o centro do buraquinho, aplicando uma pressão suave que fez Manolo arquear as costas. Não entrou, só ficou ali, na entrada, apalpando a resistência do esfíncter, sentindo como se contraía e relaxava no ritmo da sua respiração.
—Que lindo você é, Manuela —disse o homem, erguendo a cabeça para olhá-lo—. Seu corpo não resiste. Seu corpo está te dizendo que isso é o que você precisa. fim do primeiro capítulo, parte 2 aqui
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