A mensagem do Ignacio continuava na tela.
E você?
Fiquei olhando para ela por vários segundos.
Não precisava explicar muito pra ele. Ele já sabia que a Fer me atraía. A gente já tinha conversado sobre isso. Inclusive, tinha sido ele quem, mais de uma vez, me empurrou pra admitir.
Mas uma coisa era conversar.
Outra bem diferente era contar que eu tinha deixado a Fer me beijar.
Escrevi:
Eu também.
A resposta demorou uns segundos.
Você gostou?
Sorri.
Sim.
Apareceram os três pontinhos.
Muito?
Fiquei pensando.
O suficiente pra eu ter dificuldade de dormir.
Dessa vez demorou um pouco mais.
Então a gente tem um problema.
Por quê?
Porque agora você vai querer ver ele de novo.
Apoiei o celular na cama.
Fiquei olhando pro teto.
Odeio ele.
Porque ele tinha razão.
No dia seguinte, a Fer não escreveu.
Nem de manhã.
Nem ao meio-dia.
Nem à tarde.
Eu tentava me convencer de que não me importava.
Mas toda vez que o celular vibrava, eu olhava.
E toda vez que não era ele, sentia uma decepçãozinha que me incomodava admitir.
Finalmente, perto das seis, o nome dele apareceu.
Fer: Você chegou bem ontem?
Respondi depois de alguns minutos.
Eu: Sim.
Fer: Que bom.
Nada mais.
Fiquei olhando.
Esperei.
Nada.
Então escrevi:
Eu: Era só isso?
Demorou.
Fer: O que você queria que eu dissesse?
Sorri.
Eu: Sei lá. Você que começou.
Fer: Você também não parecia muito apressada pra ir embora.
Mordi o lábio.
Eu: Pode ser.
Fer: Pode ser não.
Eu: Ah, não?
Fer: Não.
Eu: E seria o quê?
Os três pontinhos apareceram.
Sumiram.
Voltaram.
Fer: Que você gostou.
Apoiei o celular na mesa.
Respirei fundo.
Peguei de novo.
Eu: Você é bem confiante.
Fer: Nem sempre.
Eu: E agora?
Fer: Agora sim.
Não consegui evitar o sorriso.
Nos dias seguintes, nossa conversa virou uma espécie de jogo.
A gente nunca sabia exatamente onde terminava uma conversa normal e onde começava a provocação. A gente podia estar falando de uma publicação do local. Fer: Você postou o story? Eu: Sim. Fer: Tá bom. Eu: Obrigada. Fer: Você também. Eu: A gente tá falando do story. Fer: Eu não. E ficava por isso. Sem explicação. Sem precisar acrescentar nada. Às vezes passavam horas sem a gente se falar. E outras vezes a gente conversava a tarde inteira. Ele me perguntava o que eu tava fazendo. O que eu tinha vestido. Se eu tava sozinha. Se o Ignacio tava em casa. Perguntas simples. Mas cada uma tinha uma segunda leitura. E eu tava começando a gostar demais dessa segunda leitura. Uma tarde eu tava em casa quando chegou outra mensagem. Fer: O que você tá fazendo? Eu: Nada. Fer: Mentira. Eu: Por quê? Fer: Porque você nunca tá fazendo nada. Eu: Hoje tô. Fer: E o quê? Olhei pra sala. O Ignacio tava trabalhando. Escrevi: Eu: Tô em casa. Fer: Sozinha? Olhei de novo pra sala. Eu: Não. Fer: Melhor. Fiquei olhando pra tela. Eu: Por que melhor? A resposta demorou. Fer: Porque se você tivesse sozinha eu teria que pensar demais. Sorri. Eu: Pensar o quê? Fer: Coisas que eu não deveria. Senti aquele friozinho na barriga que eu já tava começando a reconhecer. Eu: Então não pensa. Fer: Fácil falar. Eu: E o que você quer que eu faça? Fer: Nada. Eu: Então a gente tá de acordo. Fer: Não tenho tanta certeza. Desliguei o telefone. Não porque eu quisesse terminar a conversa. Muito pelo contrário. Desliguei porque sabia que, se continuasse, eu ia acabar falando algo que depois teria que explicar pro Ignacio. E essa possibilidade, em vez de me assustar, tava começando a me divertir. Naquela noite eu contei pra ele. O Ignacio tava deitado olhando o celular. — O Fer tá cada vez mais atrevido. Ele levantou o olhar. — O que ele te disse? Mostrei a conversa. Ele leu tudo. Depois me devolveu o telefone. — E você? — O quê? — Você também tá Você tá provocando.
—Um pouco.
—Um pouco bastante.
Eu ri.
—Te incomoda?
Ele negou com a cabeça.
—Não.
—Tem certeza?
—Sim.
Ele me olhou por alguns segundos.
—O que eu quero saber é o quanto você gosta disso.
Eu baixei o olhar.
—Mais do que deveria.
Ignacio sorriu.
—Então não se apressa.
—Não?
—Não. Deixa ele se aproximar.
Eu olhei pra ele.
—E se ele se aproximar demais?
—Aí você decide.
Eu me aproximei e apoiei a cabeça no ombro dele.
—Às vezes eu acho que você curte isso mais do que eu.
—Pode ser.
—Você é louco.
—Você é que abriu a porta.
Eu sorri.
—E você deixou ela aberta.
O próximo encontro com Fer foi diferente.
Não aconteceu nada.
E justamente por isso foi pior.
A gente tava no local.
Eu sentada na frente do computador.
Ele trabalhando atrás do balcão.
De vez em quando nossos olhares se cruzavam.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até que o Fer se aproximou.
—Tá concentrada?
—Tô trabalhando.
—Não parece.
Eu levantei o olhar.
—O que você quer dizer?
—Que faz cinco minutos que você tá olhando pra mesma tela.
Eu ri.
—Porque alguém não me deixa me concentrar.
Ele ficou parado na minha frente.
—Alguém?
—Sim.
—Quem?
Eu olhei direto pra ele.
—Você.
Ele sorriu.
Não disse nada.
Só ficou ali parado.
Perto demais.
Eu podia sentir o perfume dele.
Por um instante eu pensei que ele ia me beijar.
Mas não beijou.
Ele se afastou.
—Depois a gente continua conversando.
E voltou pro balcão.
Eu fiquei olhando ele se afastar.
Ele tinha conseguido exatamente o que queria.
Me deixar pensando.
Naquela tarde, quando saí do local, chegou uma mensagem.
Fer: Hoje você tava perigosa.
Eu: Eu?
Fer: Sim.
Eu: Não fiz nada.
Fer: Esse é o problema.
Eu sorri.
Eu: O que você quer fazer então?
Dessa vez ele demorou bastante pra responder.
Finalmente apareceu:
Fer: Te ver.
Eu olhei pra tela.
Eu: Quando?
Fer: Quando você quiser.
Fiquei uns segundos pensando.
Depois escrevi:
Eu: Amanhã.
A resposta chegou na hora.
Fer: Tem certeza?
Eu sorri.
Eu: Não.
Fer: Melhor.
Guardei o telefone.
E pela primeira vez entendi que aquilo já não era só uma fantasia do Ignacio.
Também não era só um jogo do Fer.
Era algo que eu estava escolhendo.
E o mais perigoso de tudo era que eu começava a gostar.
A tarde escolhida chegou mais rápido do que eu imaginava.
Naquele dia, a tensão em casa dava pra cortar com uma faca. Eu estava me arrumando na frente do espelho do quarto, escolhendo a roupa com um cuidado que beirava o obsessivo, consciente de cada detalhe.
Da porta, o Ignacio me observava em silêncio, encostado no batente, com as mãos nos bolsos e um meio sorriso safado nos lábios.
— Você demorou pra escolher — disse com a voz rouca.
— Quero ficar confortável — respondi sem olhar direito pra ele, embora o tremor nos meus dedos me entregasse.
— Claro, super confortável — zombou, se aproximando devagar. Me segurou pelo queixo, me obrigando a olhar nos olhos dele —. Você vai se cuidar? Ou vai deixar o jogo ir até o fundo?
Senti o calor subindo pelo meu pescoço.
— Não sei... acho que depende de como as coisas rolarem.
O Ignacio soltou uma risada baixa, me deu um beijo suave nos lábios e se afastou.
— Vai tranquila. Aproveita. Depois me conta os detalhes.
Saí pra rua com o coração batendo aos pulos.
A poucas quadras, o carro do Fer parou junto à calçada. Abri a porta e entrei de uma vez, tentando disfarçar o tremor das minhas mãos.
Ele nem me cumprimentou com um beijo no rosto; mal fechei a porta, ele se inclinou pra mim, me agarrou pela nuca e devorou minha boca com uma urgência que me deixou sem ar.
O motor continuava roncando e o mundo lá fora já tinha deixado de importar.
O encontro não foi num lugar público, nem na casa dele nem na minha. A gente tinha alugado um quarto num hotel discreto, daqueles onde o tempo parece parar e as regras de fora deixam de valer.
Quando entramos, A penumbra do quarto nos recebeu com uma onda de calor. Fer fechou a porta atrás de nós e, antes que eu pudesse dizer uma palavra sequer, a mão firme dele já tinha me puxado pela cintura pra me colar contra o corpo dele.
— Tava doido pra isso desde o primeiro dia — murmurou contra a minha boca, com a voz rouca e perto, perto demais.
Os lábios dele se apossaram dos meus num beijo faminto, profundo, com uma urgência contida. Minhas mãos subiram pelo peito dele, sentindo os batimentos desenfreados sob o tecido, enquanto a boca dele descia pelo meu queixo até morder de leve o começo do meu pescoço.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
Nos despimos aos trancos, enroscados numa bagunça de roupas e respirações ofegantes. Caímos juntos no colchão macio. As barreiras caíram de uma vez. As mãos ágeis dele percorreram cada canto do meu corpo com uma segurança que me incendiou.
Num instante de pausa entre um beijo e outro, ofegando contra o peito dele, lembrei o óbvio com uma mistura de vertigem e tesão:
— Não tô com nada... Você não trouxe nada.
Fer parou por um segundo, me olhou nos olhos com uma intensidade sombria, e um sorriso torto se desenhou nos lábios dele antes de me beijar de novo com mais força.
— Melhor assim — respondeu num sussurro áspero —. Eu também não.
Quando finalmente nos unimos, foi com ele por cima de mim, se apoiando nos antebraços dos lados da minha cabeça enquanto eu arqueava as costas e envolvia a cintura dele com as pernas, encaixando nossos corpos na perfeição.
O movimento foi tão fundo e desesperado que o mundo lá fora desapareceu por completo. Não existia o bar, nem as mensagens, nem mesmo o Ignacio esperando de novo em casa.
Só existíamos nós, o som das nossas respirações quebradas ecoando no quarto, e o ritmo compassado e febril que nos consumia.
Cada roçada era mais intensa, cada fricção mais descontrolada. Me agarrei às costas dele com as unhas, marcando o compasso de um prazer que crescia como uma onda incontrolável.
Ele enterrou o rosto no meu pescoço, gemendo meu nome até nos levar ao limite.
Quando o clímax explodiu, foi um baque seco que nos sacudiu por dentro naquela mesma posição, apertados um contra o outro.
E, exatamente como tínhamos desejado, não nos separamos nem por um instante.
Ficamos fundidos, abraçados, sem nos soltar enquanto o calor do quarto nos envolvia.
O suor cobria nossa pele e, à medida que a intensidade física diminuía, sentíamos nossos corpos ainda pulsando em uníssono, colados e completamente molhados, respirando o mesmo ar denso por longos minutos até que o próprio frio começou a correr da cavidade dele para a minha numa contração lenta e compartilhada.
Muito mais tarde, quando a pele começou a esfriar de repente e a realidade começou a se infiltrar por baixo da porta, me sentei na beira da cama.
Os lençóis revirados, o cheiro de perfume misturado com suor seco, o eco do que acabávamos de fazer.
Fer dormitava de bruços ao meu lado, com um braço cruzado sobre o travesseiro.
Olhei para o teto na penumbra e, de repente, uma pontada fria atravessou meu peito.
A gente não se cuidou.
A frase se repetiu na minha cabeça como um eco ameaçador.
Lembrei da facilidade com que nos deixamos levar, a falta absoluta de freio, e a vertigem se transformou num medo real, pesado e silencioso.
E se tinha acontecido?
E se esse jogo idiota acabasse deixando uma marca impossível de esconder no meu corpo?
Olhei para Fer, e pela primeira vez em todo o dia, senti a adrenalina se apagar para dar lugar a um pavor paralisante que eu não sabia como ia explicar pra ninguém.
Nem pra ele.
Muito menos pro Ignacio.
E você?
Fiquei olhando para ela por vários segundos.
Não precisava explicar muito pra ele. Ele já sabia que a Fer me atraía. A gente já tinha conversado sobre isso. Inclusive, tinha sido ele quem, mais de uma vez, me empurrou pra admitir.
Mas uma coisa era conversar.
Outra bem diferente era contar que eu tinha deixado a Fer me beijar.
Escrevi:
Eu também.
A resposta demorou uns segundos.
Você gostou?
Sorri.
Sim.
Apareceram os três pontinhos.
Muito?
Fiquei pensando.
O suficiente pra eu ter dificuldade de dormir.
Dessa vez demorou um pouco mais.
Então a gente tem um problema.
Por quê?
Porque agora você vai querer ver ele de novo.
Apoiei o celular na cama.
Fiquei olhando pro teto.
Odeio ele.
Porque ele tinha razão.
No dia seguinte, a Fer não escreveu.
Nem de manhã.
Nem ao meio-dia.
Nem à tarde.
Eu tentava me convencer de que não me importava.
Mas toda vez que o celular vibrava, eu olhava.
E toda vez que não era ele, sentia uma decepçãozinha que me incomodava admitir.
Finalmente, perto das seis, o nome dele apareceu.
Fer: Você chegou bem ontem?
Respondi depois de alguns minutos.
Eu: Sim.
Fer: Que bom.
Nada mais.
Fiquei olhando.
Esperei.
Nada.
Então escrevi:
Eu: Era só isso?
Demorou.
Fer: O que você queria que eu dissesse?
Sorri.
Eu: Sei lá. Você que começou.
Fer: Você também não parecia muito apressada pra ir embora.
Mordi o lábio.
Eu: Pode ser.
Fer: Pode ser não.
Eu: Ah, não?
Fer: Não.
Eu: E seria o quê?
Os três pontinhos apareceram.
Sumiram.
Voltaram.
Fer: Que você gostou.
Apoiei o celular na mesa.
Respirei fundo.
Peguei de novo.
Eu: Você é bem confiante.
Fer: Nem sempre.
Eu: E agora?
Fer: Agora sim.
Não consegui evitar o sorriso.
Nos dias seguintes, nossa conversa virou uma espécie de jogo.
A gente nunca sabia exatamente onde terminava uma conversa normal e onde começava a provocação. A gente podia estar falando de uma publicação do local. Fer: Você postou o story? Eu: Sim. Fer: Tá bom. Eu: Obrigada. Fer: Você também. Eu: A gente tá falando do story. Fer: Eu não. E ficava por isso. Sem explicação. Sem precisar acrescentar nada. Às vezes passavam horas sem a gente se falar. E outras vezes a gente conversava a tarde inteira. Ele me perguntava o que eu tava fazendo. O que eu tinha vestido. Se eu tava sozinha. Se o Ignacio tava em casa. Perguntas simples. Mas cada uma tinha uma segunda leitura. E eu tava começando a gostar demais dessa segunda leitura. Uma tarde eu tava em casa quando chegou outra mensagem. Fer: O que você tá fazendo? Eu: Nada. Fer: Mentira. Eu: Por quê? Fer: Porque você nunca tá fazendo nada. Eu: Hoje tô. Fer: E o quê? Olhei pra sala. O Ignacio tava trabalhando. Escrevi: Eu: Tô em casa. Fer: Sozinha? Olhei de novo pra sala. Eu: Não. Fer: Melhor. Fiquei olhando pra tela. Eu: Por que melhor? A resposta demorou. Fer: Porque se você tivesse sozinha eu teria que pensar demais. Sorri. Eu: Pensar o quê? Fer: Coisas que eu não deveria. Senti aquele friozinho na barriga que eu já tava começando a reconhecer. Eu: Então não pensa. Fer: Fácil falar. Eu: E o que você quer que eu faça? Fer: Nada. Eu: Então a gente tá de acordo. Fer: Não tenho tanta certeza. Desliguei o telefone. Não porque eu quisesse terminar a conversa. Muito pelo contrário. Desliguei porque sabia que, se continuasse, eu ia acabar falando algo que depois teria que explicar pro Ignacio. E essa possibilidade, em vez de me assustar, tava começando a me divertir. Naquela noite eu contei pra ele. O Ignacio tava deitado olhando o celular. — O Fer tá cada vez mais atrevido. Ele levantou o olhar. — O que ele te disse? Mostrei a conversa. Ele leu tudo. Depois me devolveu o telefone. — E você? — O quê? — Você também tá Você tá provocando.
—Um pouco.
—Um pouco bastante.
Eu ri.
—Te incomoda?
Ele negou com a cabeça.
—Não.
—Tem certeza?
—Sim.
Ele me olhou por alguns segundos.
—O que eu quero saber é o quanto você gosta disso.
Eu baixei o olhar.
—Mais do que deveria.
Ignacio sorriu.
—Então não se apressa.
—Não?
—Não. Deixa ele se aproximar.
Eu olhei pra ele.
—E se ele se aproximar demais?
—Aí você decide.
Eu me aproximei e apoiei a cabeça no ombro dele.
—Às vezes eu acho que você curte isso mais do que eu.
—Pode ser.
—Você é louco.
—Você é que abriu a porta.
Eu sorri.
—E você deixou ela aberta.
O próximo encontro com Fer foi diferente.
Não aconteceu nada.
E justamente por isso foi pior.
A gente tava no local.
Eu sentada na frente do computador.
Ele trabalhando atrás do balcão.
De vez em quando nossos olhares se cruzavam.
Uma vez.
Duas.
Três.
Até que o Fer se aproximou.
—Tá concentrada?
—Tô trabalhando.
—Não parece.
Eu levantei o olhar.
—O que você quer dizer?
—Que faz cinco minutos que você tá olhando pra mesma tela.
Eu ri.
—Porque alguém não me deixa me concentrar.
Ele ficou parado na minha frente.
—Alguém?
—Sim.
—Quem?
Eu olhei direto pra ele.
—Você.
Ele sorriu.
Não disse nada.
Só ficou ali parado.
Perto demais.
Eu podia sentir o perfume dele.
Por um instante eu pensei que ele ia me beijar.
Mas não beijou.
Ele se afastou.
—Depois a gente continua conversando.
E voltou pro balcão.
Eu fiquei olhando ele se afastar.
Ele tinha conseguido exatamente o que queria.
Me deixar pensando.
Naquela tarde, quando saí do local, chegou uma mensagem.
Fer: Hoje você tava perigosa.
Eu: Eu?
Fer: Sim.
Eu: Não fiz nada.
Fer: Esse é o problema.
Eu sorri.
Eu: O que você quer fazer então?
Dessa vez ele demorou bastante pra responder.
Finalmente apareceu:
Fer: Te ver.
Eu olhei pra tela.
Eu: Quando?
Fer: Quando você quiser.
Fiquei uns segundos pensando.
Depois escrevi:
Eu: Amanhã.
A resposta chegou na hora.
Fer: Tem certeza?
Eu sorri.
Eu: Não.
Fer: Melhor.
Guardei o telefone.
E pela primeira vez entendi que aquilo já não era só uma fantasia do Ignacio.
Também não era só um jogo do Fer.
Era algo que eu estava escolhendo.
E o mais perigoso de tudo era que eu começava a gostar.
A tarde escolhida chegou mais rápido do que eu imaginava.
Naquele dia, a tensão em casa dava pra cortar com uma faca. Eu estava me arrumando na frente do espelho do quarto, escolhendo a roupa com um cuidado que beirava o obsessivo, consciente de cada detalhe.
Da porta, o Ignacio me observava em silêncio, encostado no batente, com as mãos nos bolsos e um meio sorriso safado nos lábios.
— Você demorou pra escolher — disse com a voz rouca.
— Quero ficar confortável — respondi sem olhar direito pra ele, embora o tremor nos meus dedos me entregasse.
— Claro, super confortável — zombou, se aproximando devagar. Me segurou pelo queixo, me obrigando a olhar nos olhos dele —. Você vai se cuidar? Ou vai deixar o jogo ir até o fundo?
Senti o calor subindo pelo meu pescoço.
— Não sei... acho que depende de como as coisas rolarem.
O Ignacio soltou uma risada baixa, me deu um beijo suave nos lábios e se afastou.
— Vai tranquila. Aproveita. Depois me conta os detalhes.
Saí pra rua com o coração batendo aos pulos.
A poucas quadras, o carro do Fer parou junto à calçada. Abri a porta e entrei de uma vez, tentando disfarçar o tremor das minhas mãos.
Ele nem me cumprimentou com um beijo no rosto; mal fechei a porta, ele se inclinou pra mim, me agarrou pela nuca e devorou minha boca com uma urgência que me deixou sem ar.
O motor continuava roncando e o mundo lá fora já tinha deixado de importar.
O encontro não foi num lugar público, nem na casa dele nem na minha. A gente tinha alugado um quarto num hotel discreto, daqueles onde o tempo parece parar e as regras de fora deixam de valer.
Quando entramos, A penumbra do quarto nos recebeu com uma onda de calor. Fer fechou a porta atrás de nós e, antes que eu pudesse dizer uma palavra sequer, a mão firme dele já tinha me puxado pela cintura pra me colar contra o corpo dele.
— Tava doido pra isso desde o primeiro dia — murmurou contra a minha boca, com a voz rouca e perto, perto demais.
Os lábios dele se apossaram dos meus num beijo faminto, profundo, com uma urgência contida. Minhas mãos subiram pelo peito dele, sentindo os batimentos desenfreados sob o tecido, enquanto a boca dele descia pelo meu queixo até morder de leve o começo do meu pescoço.
Um arrepio percorreu meu corpo inteiro.
Nos despimos aos trancos, enroscados numa bagunça de roupas e respirações ofegantes. Caímos juntos no colchão macio. As barreiras caíram de uma vez. As mãos ágeis dele percorreram cada canto do meu corpo com uma segurança que me incendiou.
Num instante de pausa entre um beijo e outro, ofegando contra o peito dele, lembrei o óbvio com uma mistura de vertigem e tesão:
— Não tô com nada... Você não trouxe nada.
Fer parou por um segundo, me olhou nos olhos com uma intensidade sombria, e um sorriso torto se desenhou nos lábios dele antes de me beijar de novo com mais força.
— Melhor assim — respondeu num sussurro áspero —. Eu também não.
Quando finalmente nos unimos, foi com ele por cima de mim, se apoiando nos antebraços dos lados da minha cabeça enquanto eu arqueava as costas e envolvia a cintura dele com as pernas, encaixando nossos corpos na perfeição.
O movimento foi tão fundo e desesperado que o mundo lá fora desapareceu por completo. Não existia o bar, nem as mensagens, nem mesmo o Ignacio esperando de novo em casa.
Só existíamos nós, o som das nossas respirações quebradas ecoando no quarto, e o ritmo compassado e febril que nos consumia.
Cada roçada era mais intensa, cada fricção mais descontrolada. Me agarrei às costas dele com as unhas, marcando o compasso de um prazer que crescia como uma onda incontrolável.
Ele enterrou o rosto no meu pescoço, gemendo meu nome até nos levar ao limite.
Quando o clímax explodiu, foi um baque seco que nos sacudiu por dentro naquela mesma posição, apertados um contra o outro.
E, exatamente como tínhamos desejado, não nos separamos nem por um instante.
Ficamos fundidos, abraçados, sem nos soltar enquanto o calor do quarto nos envolvia.
O suor cobria nossa pele e, à medida que a intensidade física diminuía, sentíamos nossos corpos ainda pulsando em uníssono, colados e completamente molhados, respirando o mesmo ar denso por longos minutos até que o próprio frio começou a correr da cavidade dele para a minha numa contração lenta e compartilhada.
Muito mais tarde, quando a pele começou a esfriar de repente e a realidade começou a se infiltrar por baixo da porta, me sentei na beira da cama.
Os lençóis revirados, o cheiro de perfume misturado com suor seco, o eco do que acabávamos de fazer.
Fer dormitava de bruços ao meu lado, com um braço cruzado sobre o travesseiro.
Olhei para o teto na penumbra e, de repente, uma pontada fria atravessou meu peito.
A gente não se cuidou.
A frase se repetiu na minha cabeça como um eco ameaçador.
Lembrei da facilidade com que nos deixamos levar, a falta absoluta de freio, e a vertigem se transformou num medo real, pesado e silencioso.
E se tinha acontecido?
E se esse jogo idiota acabasse deixando uma marca impossível de esconder no meu corpo?
Olhei para Fer, e pela primeira vez em todo o dia, senti a adrenalina se apagar para dar lugar a um pavor paralisante que eu não sabia como ia explicar pra ninguém.
Nem pra ele.
Muito menos pro Ignacio.
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