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Compêndio III52: DESALINHAMENTO ESTRATÉGICO
Como sempre, tava trabalhando no meu escritório quando fui interrompido. Kaori entrou meio hesitante.
Do ponto de vista estético, é quase difícil pensar na Kaori como uma mulher. O jeito que ela se veste faz ela parecer andrógina, com camisas e calças compridas e pretas. Mas, de algum jeito, ela tem um corpo bonito e atlético. Ainda assim, talvez o que mais chame a atenção nela sejam os olhos: a heterocromia deu a ela um olho azul lindo e outro verde esmeralda, que provavelmente causaram um monte de problemas na adolescência dela.• Senhor Marco! – Ela exclamou da beirada da porta, com uma voz cortante mas não insensível. Feito uma lâmina envolta em seda.
Levantei o olhar da tela, meus dedos parando sobre o teclado.
- Sim? – perguntei.
• Posso entrar? – ela perguntou, soando educada.
Sorri pra ela com carinho.
- Claro! No que posso te ajudar, Kaori? – perguntei com um sorriso amigável.
Ela me deu uma leve impressão de um sorriso agradecido: um gesto tão minúsculo que passaria despercebido por qualquer um que não tivesse passado anos lendo gente em salas de reunião e em obras de mineração. Desapareceu tão rápido quanto apareceu, substituída por aquela neutralidade polida que ela usa como armadura.
• Vim falar com o senhor sobre ajudar aminha esposa! – Ela me respondeu, sentando-se na cadeira na minha frente com desenvoltura e confiança. O couro nem rangeu debaixo dela. – Estou aqui pra você me usar como achar melhor!
O jeito que ela falou revirou meu estômago. Não foram as palavras em si, mas a entrega: como se estivesse me passando uma faca e oferecendo a própria garganta no mesmo suspiro. Começou com aquela frase:minha esposaMinha senhora". Para alguém como Kaori, que desliza pelos corredores com a sutileza de um fantasma e a letalidade de um franco-atirador, essa reverência feudal soa destoante. Ela não é uma ama de leite de Quioto saída da era dos samurais; é uma profissional capaz de quebrar pessoas em três idiomas. Mas ali estava: um eco cultural de algo mais antigo e profundo que nem mesmo seu pragmatismo austríaco consegue apagar.
Além disso, tinha a proposta dela. Eu pausei por alguns segundos, matutando as palavras dela. A influência da Inga era evidente. Ela enxerga ferramentas em vez de pessoas: polidas, eficientes, descartáveis. Mas já passei tempo demais em canteiros de mina e em cubículos de escritório pra confundir uma pessoa com uma chave de fenda. Cada trampo, por mais mínimo que seja, tem seu valor. Até os desprezíveis e sutis, como os que a Kaori geralmente cuida.- O que você quer dizer? – perguntei, me acomodando melhor no assento e estudando ela com mais atenção.
O ar no meu escritório ficou denso, não por tensão, mas por algo bem mais incomum: uma honestidade crua e desconfortável. Os dedos dela brincavam nervosos sobre a coxa, a única rachadura naquela compostura de porcelana.
Ela baixou o olhar sem me encarar. A luz do meu escritório pegou uma sombra no queixo dela, que de algum jeito a fez parecer mais nova e vulnerável.
- Quero que você me use pra remover o Reginald. – exigiu numa voz quase sepulcral.
E ali estava: do jeito que a voz dela quebrou na palavra “use”.usar, como a garganta dela se apertava ao dizer aquilo. Não era uma estratégia. Era uma confissão.
Soltei um bufado, meio divertido e complicado. O som fez ela recuar.— Não posso! — respondi num tom mais caloroso e paternal do que esperava.
Ela ergueu o olhar, os dois olhos me encarando com uma tormenta desafiadora: o azul, frio em acusação; o verde, ofendido com algo parecido com traição. Os dedos dela se tensionaram levemente sobre o apoio de braço, o couro protestando num rangido suave.
— Por quê? É porque você odeia tanto a...minha esposa? - A voz dela soou cortante e defensiva, as palavras como facadas precisas e clínicas, mas o medo na voz dela a traía.
Isso já não era protocolo. Era algo muito mais pessoal.
Mantive a calma, soltando o ar pelo nariz antes de responder. — Não odeio a Inga.
A admissão a pegou desprevenida: os ombros dela se tensionaram, os lábios se separaram levemente, mostrando um pouco dos dentes perolados.
- Tenho certeza de que ela me odeia. – continuei, brincando com minha caneta entre os dedos. – Ou pelo menos, eu desagrado tanto ela que virou um hobby. Mas isso é irrelevante. Ela faz o trabalho dela. Talvez não de um jeito que combine moralmente, mas ela entrega resultados. É isso que realmente importa.Deixei ele refletir sobre minhas palavras, observando como seu olhar de espanto as absorvia. Ela não estava nem um pouco brava. Mas a urgência que emanava dela mantinha seus ombros tensos. Pessoas tão astutas quanto Kaori não só causam problemas se não forem controladas; elas podem desmantelar sistemas inteiros com precisão cirúrgica.
- O motivo de eu não estar tentando ativamente remover o Reginald é porque estou esperando a Edith se recuperar. – falei, preparando um café.
Kaori seguia meus movimentos como uma gata à espreita, silenciosamente me acusando. Tomei meu tempo para colocar três colheres de açúcar e mexer a xícara antes de continuar.
- E como eu disse pra Inga da última vez, não vamos conseguir nada se tirarmos ele. O escritório central só vai mandar outro Reginald. Talvez um pior.
Os dedos dela se apertaram sobre os joelhos, deixando marcas no tecido da calça.
• Isso é sentimentalismo! – exclamou, a voz assumindo um tom venenoso e ofensivo. Seu olho azul pareceu congelar. – Você não sabe! Ou talvez… talvez… (ela parou por alguns segundos, o olhar afiado como uma navalha) … você esteja esperando algo mais.
Foi o pior momento para queimar a língua. Mas ao mesmo tempo, foi um alívio. Precisava da dor para não rir. Porque Edith (Nossa CEO de vontade de ferro que tinha colapsado sete semanas atrás) já tinha visitado três canteiros de mineração além do da Tom. E se eu pudesse acreditar nos relatos silenciosos dos chefes de obra em quem confio, Edith não estava só se recuperando. Ela estava se empoderando.
- Por que vocês querem remover o Reginald com tanta urgência? – perguntei, já que ela não estava fingindo sua raiva. A xícara de café tremia na minha mão. Não por medo nem pelo calor, mas pela pura intensidade que ela irradiava. Kaori não parecia só agitada. Ela estava apavorada.
Ela deu um suspiro fundo, daqueles que antecedem uma confissão ou um grito. Os dedos dela se flexionaram, depois se curvaram em punhos que ela segurou sobre os joelhos.
• Você não o conhece! – exclamou Kaori, com uma voz desolada. Os olhos dela piscavam em choque pós-traumático. Perdidos na memória. – É assim que ele age!
Eu fiquei em silêncio. Às vezes, a melhor estratégia para interrogar é a calma.
• No começo, você nem percebe… – continuou, os olhos dela olhando além de mim, relembrando uma vivência.
Suas palavras saíram devagar. Medidas. Como se tentasse traduzir um pesadelo pra uma língua…• Ele começa… a te envolver. A te prender no jogo dele. – os dedos imitavam visceralmente o movimento: lento, silencioso, como uma trepadeira sufocando uma cerca. – Aí… você perde… a autonomia. Sua voz.
A forma como ela terminou a última parte foi quase visceral.
O silêncio entre nós foi quebrado pelo ar-condicionado. Baixei minha xícara, baixando as defesas. Estudei ela com calma: o jeito que os ombros dela se curvavam, o tremor minúsculo do lábio inferior. Ela não tava tentando me manipular. Tava revivendo um trauma.
• Quando estávamos na Inglaterra… – Ela continuou em voz baixa, o olhar descendo para os joelhos. – Minha esposa e eu… nossas decisões se tornaram as dele… (Os dedos dela tremeram, empalidecendo sobre o tecido da calça.) A gente não quer voltar pra isso!... Não podemos!... (Os olhos lindos dela se ergueram, o olhar profundo se fixando em mim com uma intensidade impressionante.) Por isso precisamos da sua ajuda!... (Uma pausa. A leve rachadura na armadura dela.) Você pode enfrentar ele!Eu soltei o ar pelo nariz, me recostando na cadeira. O couro rangeu debaixo de mim.
– Só se você deixar. – falei seco, pegando a caneta entre os dedos e brincando com ela.
O movimento prendeu o olhar dela de forma quase hipnótica. Um truque barato, mas eficaz.
Ela me olhou como se eu tivesse virado cruel de repente. Os olhos dela piscavam como se eu tivesse arrancado um véu na frente dela.
– Todo mundo vê ele como um semideus. Eu não. Só vejo um homem gordo, velho, mal-humorado, tão imperfeito quanto qualquer um de nós. – As palavras saíram pesadas e sem filtro.
Eu via isso no meu pai quando era criança, quase todo dia. De certa forma, até entendia a escolha da Edith: entre a gente na diretoria, ninguém se destacava em particular, e eles precisavam de alguém pra seguir. Esse era o propósito do Reginald. Mas o que todo mundo ignorava era que ele era tão cheio de defeitos quanto qualquer um de nós; as atitudes dele eram tão questionáveis quanto quando estávamos com a Edith. Homens como ele não são especiais. Só fazem barulho suficiente pra confundirem o volume da voz deles com autoridade.
– Por isso a gente precisa de você! Você já enfrentou ele duas vezes e venceu! – Kaori se inclinou pra frente, os dedos apertando o braço da cadeira até os nós dos dedos ficarem brancos. O couro gemeu.
– É… mas eu não existo no radar dele. – A caneta congelou entre meus dedos enquanto eu estudava o rosto dela; o jeito que a pálpebra esquerda dela dava um tique quase imperceptível quando eu disse "radar". Um sinal. - Já não faço parte do conselho, Kaori, e, assim como você, tenho as mesmas chances contra o Reginald.
O ar entre nós engrossou. As narinas dela dilataram levemente; não era raiva, mas cálculo. Os dedos dela se flexionaram contra o apoio de braço, e o couro sussurrou seu protesto. Eu não ia partir pra cima cegamente só porque ela tinha me entregado uma faca e apontado pras costas do Reginald. Algumas batalhas exigiam mais que força bruta. Ela precisava recalcular.
• Por isso que estou me oferecendo. - As palavras saíram afiadas, precisas, mas algo vacilou por trás delas: uma sombra cruzando aqueles olhos desiguais. Os ombros dela se tensionaram como se ela se preparasse pra um impacto. Mais uma vez, ela fez a oferta soar suja na própria boca. - Te ofereço... minhas habilidades pra tirar o Reginald.
O silêncio se esticou entre nós, tenso como um cabo. Me inclinei pra frente, apoiando os cotovelos na mesa, e balancei a cabeça.
- Não. Não posso te usar.
As palavras quebraram o silêncio como uma pedra num lago calmo. Os dedos dela tiveram um espasmo mínimo, reflexivo, mas eu vi. A rejeição doeu mais nela do que eu tinha previsto.
• Por que não? - ela perguntou, quase indignada.
O azul glacial do olho esquerdo dela pareceu congelar numa ventania, enquanto o verde oliva do direito ardia com algo mais quente: traição, talvez, ou a compreensão súbita de que a armadilha dela, cuidadosamente montada, tinha se fechado sem pegar nada.
Suspirei e cocei a cabeça, deixando o silêncio se prolongar o bastante pra ver os dedos dela se enterrarem mais no apoio de braço. O couro gemeu de novo.
- Só me responde uma coisa, Kaori. - falei, me inclinando até que nossas sombras se fundissem sob o brilho fluorescente. - E aí eu considero... (Minha voz baixou pra um tom mais suave, quase íntimo no ar estéril do escritório.) Você já pensou em como Vença a si mesma?
A respiração dela falhou: um pequeno ofego involuntário. Para uma mulher que passou anos aperfeiçoando a arte da invisibilidade, aquilo bem que poderia ter sido um grito. As pupilas dela se dilataram, o preto devorando os tons heterocromáticos por uma fração de segundo antes que ela retomasse o controle.
— O quê? — A palavra saiu aguda demais, forte demais. Ela recuou ligeiramente, como se a pergunta tivesse um peso físico. — O que você quer dizer com isso?
A mão direita dela, a que não estava agarrada na cadeira, moveu-se inconscientemente em direção à clavícula, os dedos roçando o tecido engomado da camisa.
Respirei fundo, com cansaço; aquele tipo de suspiro que vem quando você explica algo dolorosamente óbvio para alguém que deveria saber. O amargor do café ainda estava na minha língua, afiando as palavras antes que saíssem da minha boca.
— Você está lutando contra alguém que está na mesma frequência que você. — Gesticulei vagamente entre nós, um movimento que cortou o ar viciado do escritório. — Cada habilidade que você tem, ele aperfeiçoou ao longo de vinte anos de operações militares. Você está levando uma faca de manteiga para uma briga de espadas.
Seus olhos desiguais se arregalaram, não por medo, mas por compreensão. Aquela compreensão que se instala como água fria, lenta e sufocante. Seus dedos tremeram contra a clavícula dela, o único sinal externo da recalibração interna que acontecia por trás daqueles olhos heterocromáticos.- O pior... - continuei, girando a xícara vazia entre minhas palmas, precisando me agarrar a algo tangível. - é que ele tem poder institucional por trás. Se te pegarem? (olhei fixamente nos olhos dela.) Não vão só te mandar embora. Vão destruir sua reputação por completo. (A cerâmica tilintou contra minha mesa quando a larguei.) Por isso você não me serve de nada. Não sou do tipo que sacrifica os outros como peões...
Kaori me encarou de olhos bem abertos, e suas íris desiguais captaram a luz do teto como vidro quebrado. Eu sabia, com absoluta certeza, que, se nossas posições estivessem trocadas, ela já teria me empurrado para a guilhotina metafórica; e eu até poderia ter deixado. Havia algo quase poético na eficiência com que ela via as pessoas como ativos descartáveis. Mas eu não sou como a Inga. Não ia jogá-la nas engrenagens só porque ela se ofereceu de bandeja.
Ainda assim, a culpa se enroscava nas minhas entranhas como uma cobra adormecida. O que eu estava prestes a pedir não era nobre. Nem era justo...
- Tem algo que você pode fazer. - falei devagar, notando como a postura dela se tensionava imperceptivelmente. - Mas não tenho certeza se devo pedir.
Ela ficou rígida de indignação, e seus dedos apertaram mais o braço da cadeira até o couro chiar como um ser agonizante.
- Por quê? Porque prejudicaria a...minha esposa? — As palavras saíram cortantes, quase quebradiças; um desafio jogado como uma luva.
— Não exatamente. — Girei levemente a cadeira, só o suficiente para captar como a luz do teto se quebrava nos olhos desiguais dela. — Tenho certeza de que, em outras circunstâncias, a própria Inga teria te pedido isso.
Minhas palavras a surpreenderam. Os lábios de Kaori se abriram, só uma fração, mas nenhum som saiu.
— O motivo de eu estar hesitando… — continuei, girando a caneta distraidamente entre os dedos. — é que, para a Inga, essa informação vai ser completamente inútil. Mas para o resto de nós? (Deixei a pausa se estender, observando as pupilas dela dilatarem.) Poderia ser um verdadeiro salva-vidas.
Kaori me olhou como se eu tivesse roubado a roupa dela. A garganta dela se mexeu em silêncio antes que ela conseguisse desemperrar a voz.• Se explica! - A palavra foi pouco mais que um sussurro, mas carregava o peso de uma exigência. - Do que se trata?
- Quero que você monitore o computador do Reginald. - falei, odiando o gosto das palavras saindo da minha boca. A luz fluorescente sobre nós piscou, só uma vez, projetando sombras tortas no rosto da Kaori. - Verifica a informação que entra e sai.
As mãos da Kaori se fecharam em punhos no colo dela, os nós dos dedos branqueando contra o tecido preto da calça.
• Isso é inútil! - As palavras dela explodiram com um veneno que fez o ar vibrar entre nós. - Não podemos usar essa informação pra chantagear ninguém!
- Eu sei! - falei, sentindo o baque no estômago ao ler a Inga e a Kaori como livros abertos. As palavras tinham gosto amargo, como admitir algo vergonhoso. - Mas, como você viu na última reunião, ele tem negligenciado o departamento da Sonia.
Meus dedos tamborilaram sobre a mesa, e cada batida pontuava o silêncio. O maxilar da Kaori se tensionou, e os olhos desiguais dela brilharam com algo entre a fúria e uma compreensão relutante.
• Pra sua patroa… - continuei, observando como os dedos dela apertavam o apoio de braço até o couro chiar. - essa informação é inútil. Mas pra quem tá fora do conselho? (Minha caneta bateu duas vezes na mesa, enfatizando minha impaciência) É um sistema de alerta antecipado. Um jeito de enxergar os pontos fracos que o Reginald deixa expostos.
Ela me olhou com os olhos arregalados, o azul glacial e o verde oliva das íris refletindo a luz do teto como vidro quebrado. O jogo que eu tava jogando era maior que o dela; maior que o da Inga, maior até que o do Reginald. E, pela primeira vez, vi algo oscilar por trás daquela máscara polida: não era confusão, nem raiva, mas o começo de compreensão de que eu tinha subestimado a diretoria por completo.
- Por isso hesito em te pedir. - admiti, girando a xícara de café entre as palmas. A cerâmica já estava fria, com restos de um borra amarga grudados no fundo. - Conhecendo a Inga, ela vai agarrar isso como um dragão com seu ouro. Nas minhas mãos? (Segurei o olhar dela fixamente. Minha caneta parada entre os dedos) Dá pro resto de nós uma chance de lutar.
Kaori soltou um bufado, um som seco e sem graça que cortou o ar viciado do escritório. Os dedos dela tamborilaram contra o apoio de braço com impaciência antes de ficarem parados. Calculando. Sempre calculando.
- E como isso ia nos ajudar? - exigiu ela, com a voz descendo pra algo grave e ameaçador. - Isso não vai resolver nossa situação atual.
- Porque uma coisa é certa: a Edith vai voltar. - Me inclinei pra frente, pressionando a mesa com os antebraços com o peso de uma convicção absoluta. - Já conheci mulheres como ela. Elas não ficam de braços cruzados, não quando a obra da vida delas tá em jogo.
O bufado de Kaori foi afiado o bastante pra fazer sangrar. Os dedos dela voltaram a se mexer em direção ao pescoço; não era nervosismo, mas a manifestação física do nojo dela.
- Não acredito que vim aqui te pedir ajuda! - As palavras pingavam veneno, enquanto o olho azul gelado dela congelava de vez e o oliva ardia de desprezo. - Minha esposa tinha razão sobre você, Marco! Você é infantil! Fraco! (O lábio dela se curvou levemente na última palavra, como se provasse algo podre.) Você age por sentimento em vez de estratégia! É nojento! Frustrante!
O insulto deveria ter doído. Em vez disso, sorri… devagar, com sabedoria… e observei as pupilas dela se contraírem em resposta.— E ainda assim… — falei, girando a caneta entre meus dedos. — Você acabou de admitir que eu derrotei o Reginald duas vezes.
Minha caneta parou de repente, apontando para ela como uma acusação. No fundo, perfurando o ego dela.
Kaori teve que morder a língua de frustração; literalmente. Vi a marca mais sutil dos dentes dela na carne do lábio inferior antes que ela recuperasse aquela neutralidade polida na expressão. Os olhos desiguais dela brilharam com algo cru: não era raiva, nem derrota, mas a fúria silenciosa de alguém que acabara de perceber que tinha sido superada no próprio jogo dela.
— Tá bom! Vou cooperar! — Kaori cuspiu as palavras como se tivessem gosto rançoso, levantando-se de repente.
A cadeira rangeu contra o chão de madeira, um som agudo demais para a precisão habitual dela. Ela já estava no meio do caminho para a porta quando eu me mexi.
— Kaori, espera! — falei, levantando também e correndo atrás dela. — Você esqueceu uma coisa!
Peguei o microfone que tinha deixado pra trás: pequeno, preto fosco, quase invisível contra o couro escuro da cadeira. O ímã que o segurava já tinha soltado depois da partida brusca dela. Kaori ficou congelada no meio do passo, enrijecendo as costas como se eu tivesse encostado uma arma nas suas costas.- Esses dispositivos não são tão bons assim. - Meu polegar passou pela carcaça de plástico barato antes de jogá-lo levemente no ar como uma moeda, sentindo o peso. Ele girou uma vez, num arco lento e debochado, antes de cair de novo na minha palma com um estalo oco. - Um movimento brusco da cadeira e o ímã solta. (Inclinei a mão, deixando o microfone deslizar na direção dela como uma ficha de pôquer sobre feltro verde.) A melhor opção é plantar eles em luminárias, molduras de quadros... (Fiz uma pausa, apontando pra minha mobília modesta enquanto ela me olhava apavorada…) Ou até em vasos de planta. Sabe, coisas que não se mexem com tanta frequência.
Kaori ficou encarando o microfone na minha palma, os olhos desiguais dela alternando entre o aparelho e o meu rosto como se não conseguisse decidir qual traição doía mais. As luzes fluorescentes destacaram o ângulo afiado da mandíbula dela enquanto ela se tensava (uma vez, engolindo o sapo), antes de pegar o microfone de volta num silêncio atônito.Post seguinte
2 comentários - 52: Desalinhamento estratégico