Dois dias depois de voltar da minha viagem incrível pro Caribe, voltei pro trampo na consultoria aguentando umas brincadeiras sobre o que rolou no quase-casamento e também uns comentários de inveja pelas fotos que viram do resort.
Tava tentando aterrissar, não no aeroporto, mas na minha vida cotidiana, porque não dá pra descer do céu pra terra sem fazer umas paradas pra despressurizar. Parecia inacreditável a aceleração que minha vida tinha tomado. Duas semanas atrás, tava todo iludido pra casar com a Laura, minha mina com quem já morava junto fazia um ano.
Fazia dez dias que fui deixado plantado no altar. E sem tempo pra digerir, minha mãe me animou, quase me obrigou a usar as passagens da lua de mel que meus pais tinham me dado de presente, e se inscreveu como minha parceira. O que aconteceu lá eu já contei em algum relato anterior e só posso acrescentar que foi a semana mais incrível da minha vida.
Desde que a gente chegou, não tinha visto ela de novo, por decisão dela, ela precisava de tempo e distância pra conseguir voltar à normalidade na vida dela.
Eu também tentava retomar minha normalidade e, embora o resto da família quisesse que a gente se reunisse, fui adiando a data com a desculpa de emergências no trabalho, até que inevitavelmente chegou o dia, apressado também porque ainda tinha uns pepinos financeiros do casamento desfeito pra resolver.
Na reunião na casa da minha mãe, que tinha sido a casa da família, e que ela ficou na separação, a gente ia estar: meus pais, minha irmã e o marido dela, e eu.
Antes, minha mãe me ligou e combinamos de revisar bem o celular e apagar qualquer foto que pudesse dar a entender o que tinha rolado entre a gente durante nossa estadia no resort, pra qual a gente combinou um roteiro juntos.
Cheguei nervoso porque ia ser o primeiro encontro com ela, desde que voltamos. O visual dela estava extraordinário. Muitos anos mais jovem do que a Marta que decolou de Madrid há apenas dez dias.
Ela já tinha adiantado umas histórias da viagem. A estratégia era fazer eles acreditarem que eu tava na merda a maior parte do tempo, ainda sofrendo pela fuga da Laura, pra dar mais liberdade pra ela contar a versão dela.
Mesmo que minha irmã tentasse arrancar detalhes de mim, pensando que eu fosse revelar algum personagem que pudesse ter aparecido nas férias da mãe dela, meu pai, mais reservado, sorria forçado, não sabia se por invejar a mulher que tinha se divertido sem ele, ou porque pudesse suspeitar que o filho da puta do filho dele tinha explodido todos os princípios e a educação da mulher dele.
Eu dei de ombros, fingindo que não tava nem aí.
—Foi a mais animada do resort, tive sorte dela me acompanhar.
Minha mãe trouxe uns petiscos e uma garrafa de vinho. Depois de aguentar as piadas do meu cunhado, enquanto a gente via as fotos dos passeios, chegou a hora de falar dos pepinos pendurados por causa do cancelamento do casamento.
—Ainda precisa devolver o dinheiro de alguns convidados e os presentes que sobraram —disse meu pai, quebrando o silêncio—. E além disso, tem que fazer isso logo.
Os rendimentos estavam numa conta corrente de uso comum, tanto pra Laura quanto pra mim. Eu já tinha visto que ela fazia isso com a grana dos convidados dela.
—Já fiz algumas. Os presentes materiais, vou fazer a relação e começar também em breve.
—Você devia redigir uma nota pra acompanhar eles. Sem entrar em detalhes, mas limpando um pouco sua imagem — apontou minha mãe, que, como madrinha de casamento, tinha ficado tão marcada quanto eu pelo show que minha noiva deu ao dizer NÃO.
A ideia de sentar pra fazer transferências e escrever mensagens tipo «lamento informar que o casamento foi uma farsa» já me revirava o estômago.
—Posso colocar na nota que a Laura pediu pra voltar pra mim?
—Sério? —perguntou minha irmã surpresa—. Que cara de pau, hein!
—Nem por um segundo você pensou nisso! — acrescentou meu pai.
—Fica tranquilo, ela já entendeu —respondeu minha mãe, que ouviu nossa conversa no telefone.
—Falta decidir também como a gente divide os gastos da comida, a wedding planner, os fotógrafos, etc.
—O Luis (pai da Laura) me ligou pra falar desse assunto e sugeriu que eu aceitasse o que você e a Laura decidissem.
—Não quero falar com ela! Deixo isso com vocês.
—Já fizemos isso. Eu não tava a fim de me encontrar com o Luís, nunca gostei dele e a atitude dele na igreja não me desceu — comentou meu pai —. Então ontem sua mãe e a Teresa (mãe da Laura) marcaram de tomar um café.
—E aí? Se já decidiram, pode ir em frente.
—Já passamos pelos assuntos por cima, ela e eu estamos de acordo. Mas ela gostaria que você confirmasse isso.
—Não tenho nenhuma objeção em vê-la. A Teresa sempre foi muito carinhosa comigo.
Quando a gente se despediu, esperei todo mundo ir embora, falando que precisava falar uma coisa com minha mãe. Ficamos sozinhos pela primeira vez desde que voltamos. Eu tava muito nervosa. A calma que mostrei pros outros desabou naquela hora.
—Não me toca, por favor —A voz dela tremeu levemente—. Se me beijar, não vou conseguir te parar.
—Vou te dar o tempo que precisar, mas você sabe que uma hora a gente vai ter que se ver de novo, nem que seja só como mãe e filho.
—Eu sei. Só que ainda não tô preparada.
Respeitei o desejo dela e fui embora. Com certeza assumi que nosso relacionamento amoroso tinha acabado e que eu precisava criar a base pra reconstruir o vínculo de pai e filha, que nunca se perderia.
No dia seguinte da reunião de família, a Teresa, minha ex-sogra, me ligou. A voz dela, quente e calma do outro lado da linha, me passou confiança em poucos segundos. Sempre teve um respeito mútuo entre a gente, até uma cumplicidade que, às vezes, era mais sincera do que a que eu tinha com a filha dela.
—Oi, Carlos. Não vou te perguntar como você está. Entendo que não quer falar com ela. A reunião vai ser rápida, só pra esclarecer uns assuntos em conjunto, sem intenção de jogar nada na cara. Eu também não me orgulho do que aconteceu.
Enquanto eu a ouvia, lembrei do comportamento dela na igreja.
Quando ouvi o «Carlos, me desculpa, mas não posso casar com você», na frente de uma igreja lotada, senti o peso de todos os olhares em cima de mim: os dos parentes dela, os dos meus, os dos amigos que vieram celebrar e que testemunharam minha humilhação ao vivo e a cores.
Não respondi nada porque sabia que se abrisse a boca naquele momento, ia acabar dando o maior show.
Quando a Laura desceu os degraus do altar, indo na direção do babaca do ex-namorado dela, no meio do cochicho de muitos presentes, minha mãe foi a primeira a reagir. No altar, com os olhos cheios de raiva, ela encarou o Luis, o pai da Laura e padrinho.
—Isso é uma vergonha! —cuspilhou—. Vocês sabiam e deixaram ele chegar até a igreja pra passar o Carlos de otário?
—Não fala assim comigo! —respondeu meu ex-sogro, encarando ela—. A gente não sabia de nada.
Quando descemos o degrau que separava nossa área da primeira fileira de bancos, Paula, a irmã mais nova da Laura, tentou justificar o injustificável. Meu pai, que até então tinha ficado paralisado, também interveio na minha defesa. Tudo virou uma bagunça.
Então a mãe da Laura, a Teresa, que tava usando um vestido lindo que deixava ela muito gostosa e que até aquele momento tinha ficado quieta, entrou na discussão.
—Calem a boca todo mundo! O que a Laura fez não tem desculpa, por mais que a gente goste dela —sentenciou. E mudando o tom, tentando parecer carinhosa, completou—. Peço desculpas, Carlos, pode contar comigo pro que precisar.
Confirmou que era uma senhora e que o carinho que ela mostrou por mim enquanto eu era namorado da filha dela não era fingido. Eu também gostava dela.
A gente se encontrou num cafézinho perto da casa dela. Quando cheguei, vi ela sentada numa mesa perto da janela. Fiquei surpreso com a elegância dela, vestindo um vestido justo de tons claros. O decote deixava ver a plenitude dos peitos dela, que subiam e desciam com a respiração, mostrando o nervosismo que tomava conta dela.
Parei ela quando ela se levantou pra me cumprimentar.
Oi, Carlos — disse ela sorrindo, com o mesmo carinho que sempre teve comigo.
Baixei meu rosto pra dar dois beijos nela. Ela deixou o rosto dela pronto pra que fosse eu quem desse os beijos. Quando encostei na bochecha dela, meu corpo reagiu de um jeito... masculino. Não sabia se era por causa da minha redescoberta do mundo das mulheres maduras que fiz com a minha mãe, mas o fato é que, pela aparência dela, ela me parecia mais gostosa do que nunca. Minha percepção dela não era mais a de mãe da Laura, mas sim a de uma senhora atraente.
Embora nós dois soubéssemos o motivo do encontro, começamos como dois velhos conhecidos, falando besteira: do lugar escolhido pra nos encontrar, dos preparativos do casamento, da viagem que eu sabia que ele tinha feito.
—Sua mãe me contou que vocês se divertiram pra caralho na viagem e ela até conheceu um gostoso.
Não sabia que versão minha mãe ia contar, mas com certeza não era eu aquele jovem. Imaginei que ela tava falando do Miguel.
—Seu professor de dança? Eles ficaram muito amigos.
Notei um brilho nos olhos dela, enquanto brincava com a colherzinha do café, desenhando círculos invisíveis na mesa.
—Vi umas fotos suas nas redes através da Laura. Também não perdeu tempo, hein.
Não senti necessidade de me desculpar.
—Tanto eu quanto minha mãe precisávamos esquecer de onde viemos. Nós dois curtimos a estadia, com a sorte de estarmos perto um do outro.
Depois de dar um gole no café, ela me olhou com aquela serenidade que só os anos e a classe trazem.
—Fico feliz por você. Você não merecia o que a Laura fez —disse ela, sem rodeios, indo direto ao assunto do encontro.
Eu não sabia se agradecia o comentário dela ou me lamentava ainda mais. Não respondi.
—Imagino como você se sente. Eu também tô magoada. Não concordo com a decisão dela e nem entendo direito. Mas vim te ver porque acho que é o certo a fazer, e vou falar com você com toda a sinceridade.
Ele me explicou que, depois de se reunir com minha mãe, eles decidiram arcar com os custos de cancelamento do ágape não realizado, que era 50% do valor e, no fim das contas, era o que eles já tinham planejado pagar.
Minha mãe concordou em cuidar da floricultura, do fotógrafo e de outros gastos menores, como a igreja ou a organizadora do casamento. Por parte dela, já tinham devolvido os presentes para os convidados, exceto os que estavam na minha casa.
—Queria te dizer que o que a Laura fez, não muda a lembrança carinhosa que tenho de você — acrescentou com voz calma.
—Agradeço. A viagem serviu pra resetar a mente, embora ainda apareçam comentários engraçados de algum amigo ou piadas nas minhas redes sociais.
—Imagino o desconforto de algumas piadas, tão acostumados aqui na Espanha a rir das desgraças alheias.
—Felizmente, já superei isso —falei, tirando o peso da situação.
—No final, vocês vão sair todos do buraco antes de mim.
Me surpreendeu esse comentário. Ela deve ter percebido que não veio a calhar e tentou se explicar.
—Desculpa, foi uma bobagem. Quer beliscar alguma coisa? Assim não vou precisar entrar na cozinha quando chegar em casa — comentou, insegura com a minha resposta.
—Pra mim tá perfeito, também não tenho ninguém me esperando nem fazendo janta pra mim.
—Lembra que as quintas-feiras são minhas. É meu dia de sair pra eventos culturais, galerias ou lançamentos de livros, e o Luís já tá acostumado a jantar fora.
—Se a gente for jantar, você vai ter que me contar de verdade, o que você quis dizer com aquilo de sair do buraco. Lembra que você ia falar com toda honestidade — lembrei a ele da saudação.
Ela se sentiu presa nas próprias palavras e resolveu se abrir. Pedimos um vinho suave.
—Não tava nos planos falar de mim, mas se é pra ser sincero, também não tenho por que esconder — começou, com um leve tremor na voz—. Eu e o Luís tamo passando por uma fase difícil.
Arqueei a sobrancelha surpreso. Sempre os via como um casal estável, talvez meio sem graça, com um papel de dominação por parte do meu sogro, mas bem resolvido. Ela percebeu minha surpresa e sorriu sem alegria.
—Com o passar dos anos, as verdadeiras personalidades vão aparecendo. Não é a primeira crise que a gente tem, mas dessa vez, com o que rolou na igreja, foi meio que o limite. Sabe? Em muitos aspectos, a Laura é uma cópia do pai dela: orgulhosa, volúvel, egoísta, incapaz de manter algo por muito tempo.
Pelo que eu conhecia os dois, não tinha dúvida de que lado escolheria pra ficar.
—Te faço a mesma oferta que você me fez. Se precisar de algo de mim, pode contar comigo.
—Obrigada, Carlos. Por enquanto, tô satisfeita em ter alguém em quem confiar e desabafar o que sinto.
—Por que você disse que aumentou depois que a Laura deu o fora? Como isso te afetou?
—Em tudo, ele concorda com a Laura e eu não. Ele critica você e toda a sua família, diz que seu pai é um banana por deixar sua mãe tirar umas férias e botar ele pra fora de casa. Eu gosto muito deles de verdade, principalmente da sua mãe.
Agradeci o apoio sincero dele(a) pra minha família.
—Queria discutir todos os gastos do casamento e ficou puto quando forcei ele a assumir nossa responsabilidade, maior que a de vocês.
—Acho que não vamos ter problema em chegar a um acordo, nem minha família nem eu queremos estender essa guerra, por nós não tem briga, só queremos pagar o que é nosso e esquecer o ocorrido. Não sabia da sua situação com o Luís.
—Eu procuro não dar o que falar em público —disse sem hesitar—. Mas dessa vez, o baque foi maior, não pela parte financeira, mas porque eu acreditava em vocês como casal, via em você as qualidades que sentia falta no meu marido.
—Foi por isso que não falou nada? Por que você não vai me dizer que não sabia?
Ela me olhou com os olhos semicerrados, como se estivesse medindo as palavras.
—Não a via totalmente feliz, mas associei ao nervosismo do casamento. Me enganei.
Nós nos olhamos, tinha uma cumplicidade entre a gente. Algo que se costurou na surdina durante o tempo que nos tratamos como genro e sogra.
—Quer que a gente peça outro vinho? — perguntei pra ela.
—Sim —disse ela, sem hesitar.
Ela arrumou a salada que a gente tinha pedido, mexendo nela, como se estivesse remexendo a própria história dela.
— Ainda não entendo essa vontade dela de casar. A gente vivia bem como casal, mas a Laura insistiu — falei.
—O pai dela lembrava disso toda vez que podia, não gostava que vocês morassem juntos sem serem casados.
—Eu me sentia casado com ela. Era a mulher da minha vida.
—Você é muito nobre. E sei que cuidava dela, que a ouvia e a incentivava a ter esperanças. Eu me perguntei muitas vezes o que teria sido da minha vida se tivesse escolhido alguém que realmente me ouvisse, que não fugisse dos problemas, nem procurasse desculpas.
—Segue o exemplo da sua filha, dá o fora. E ainda por cima não precisa devolver os presentes —falei de brincadeira.
Fiz ela rir. Foi uma risada limpa, daquelas que só buscam um alívio.
—Sempre me senti à vontade com você —me disse Teresa, já no segundo vinho—, às vezes até mais do que com a Laura. Por mais que a gente sempre ame os filhos, isso não impede que eles possam te decepcionar.
—Os filhos nem sempre reconhecem o valor dos pais... e das mães.
Teresa sorriu reconhecendo meu comentário.
—Vocês são muito diferentes. Você tem empatia e ela… é igual ao pai dela.
O jantar se estendeu sem a gente perceber. Aí ela baixou a voz e me encarou.
—Tá a fim de dar uma volta? —falou pra quebrar o silêncio—. Não tô com vontade de voltar pra casa ainda.
Saímos do café devagar, sem pressa, igual fizemos durante o jantar. O vestido, justinho na cintura dela, balançava a cada passo, quase roçando a parte de cima das coxas. Os saltos realçavam o comprimento das pernas dela.
Então, com um gesto quase imperceptível, pegou meu braço e apoiou entre os dela. Caminhamos assim, colados, sem nos importar com as aparências, como se de repente tivéssemos liberado tudo que flutuava entre nós — a tensão que a fuga de Laura causou entre nossas famílias.
Às vezes ela parava pra olhar as vitrines, às vezes nossas mãos se roçavam, só um instante, uma mistura de delicadeza e do proibido.
Os carros passavam, a gente andava por ali, mas eu me perdia no jeito que o sorriso dela enchia o ar. Por uns momentos, não éramos ex-sogra e ex-namorado largado. Éramos só duas pessoas com feridas pra sarar, achando consolo na sinceridade uma da outra.
Caminhamos devagar por ruas de pedestres, longe da bagunça dos bares, como se o mundo tivesse ficado pequeno pra gente percorrer no nosso ritmo. Ela baixou o olhar e aquele jeito de timidez leve me pareceu combinar com a elegância com que ela sempre se movia.
—Sabe? Às vezes me arrependo de ter tentado manter tudo na minha vida arrumadinho… como se a vida pudesse ser controlada com um Excel e listas de tarefas — disse ela sorrindo.
—Não te imagino mexendo num Excel —respondi brincando.
—Desde que aprendi isso, tenho uma folha pra tudo. Aliás, falando em listas… —ela parou por um momento—, a gente não fechou os assuntos. Devia se encontrar de novo pra concluir tudo que ficou pendente.
Sim, traz teu notebook e a gente faz uma planilha juntos.
—Perfeito —disse ela, me encarando—. O que acha de quinta às seis? Dá tempo pra gente tomar mais um vinho.
—Perfeito.
Nos demos dois beijos de novo na despedida, um gesto simples que, no entanto, prolongamos um pouco mais do que o necessário. Depois, demos um abraço demorado. Um abraço de duas pessoas em processo de cura.
Fui embora com a sensação de que lealdade nem sempre vem de quem dorme do teu lado, mas sim de quem continua do teu lado, quando tudo desabou.
Recebi um dia uma mensagem dela, mandando lembranças da Laura que tinha ido na casa dela. Respondi que preferia as lembranças dela do que as da filha. A partir daí, começamos a trocar umas mensagens sem importância, mas que serviam pra manter ela presente na minha mente. E eu imaginava que eu também tava na dela.
Na quinta-feira cheguei na hora, mas tenho que admitir que com um friozinho na barriga. Marcamos num café diferente, fora do bairro dela, que escolhi porque tinha uma área tranquila pra trabalhar. Ela chegou cinco minutos atrasada, sinal de que já não era um encontro de família ou trabalho, mas com um cara que tem que esperar um pouco.
Apareceu muito mais arrumada do que na quinta passada, com um vestido de linho azul-marinho, decote discreto, mas elegante. Sapatos baixos e o cabelo preso num coque, que a deixava mais jovem uns anos. Elegante, sem precisar chamar atenção. O tipo de mulher que entra num lugar e muda tudo sem levantar a voz.
—Oi Carlos, desculpa o atraso
—Não se preocupa, tá no tempo.
—Preparei uma planilha com três abas: presentes, transferências e gastos bancados pela sua família — disse ela, tirando o notebook da bolsa —. Pode adicionar o que estiver faltando.
—Você é tão organizada pra lidar com a sua vida?
—Não é tão simples assim, a vida não cabe numa planilha — ela disse rindo.
Começamos a trabalhar. Cada item era uma desculpa pra lembrar de algo, pra zoar, pra se olhar além do conteúdo da tabela. Ela tava especialmente carinhosa. Tocava no meu braço pra apontar algo na tela, ou se inclinava pra mim pra ver algum número junto. O perfume dela tinha um negócio hipnótico.
—É gostoso trabalhar assim. Com o Luis não dá pra contar pra nada — disse ela levantando os olhos do notebook.
Luis, meu sogro não era um cara ruim, mas o jeito dele, todo durão e orgulhoso, igualzinho ao da Laura, fodia a relação com ele.
—E eu tô curtindo mais a anulação dos presentes do que quando organizava o casamento com a Laura. Tô gostando dessa sua versão, sem filtros nem protocolos.
Quando terminamos o serviço, pedi duas taças de vinho.
—Traga uma garrafa —ela corrigiu.
A partir do segundo copo, paramos de falar da Laura e do Luís. Era como se tivéssemos fechado a cortina do passado pra deixar entrar um pouco de ar fresco.
—A gente podia marcar de tomar um vinho qualquer dia —exclamou com a taça na mão.
Nossos dedos se roçaram na mesa, sem que ninguém tirasse a mão. Ficamos nos olhando, nosso tesão não precisava de palavras. Era óbvio que os dois queriam um encontro na terceira fase.
—Tudo bem pra mim. Contanto que você deixe o notebook em casa.
Olhei o sorriso dela. Conhecia aquela expressão de ter visto na minha mãe. Era uma mulher faminta pra recuperar o tempo perdido. Tinha a sensação gostosa de que algo inesperado tava começando a se escrever entre nós dois.
Não passaram muitos dias até que na quarta-feira ela me escreveu. Uma mensagem simples, como quem já não precisa de desculpas.
—Amanhã é quinta-feira.
Respondi com um emoticon de alegria e mandei o endereço do terraço onde fiz a reserva.
Veio com um vestido branco, soltinho, sem mangas, que apertava bem na cintura, um cinto enorme como se quisesse imitar um cinto de castidade. Tava de salto alto. O cabelo solto, mais natural do que nunca.
—Cada dia você se supera —falei, levantando pra dar dois beijos nela e puxar a cadeira.
O jantar foi entre risadas, uma garrafa de vinho e lembranças compartilhadas que já não doíam mais. A gente falou do que passou… sem se atrever a falar do que estava rolando. Até que, num instante, sem aviso nenhum, ela deu um gole no copo de vinho e ficou me encarando.
—Preciso saber uma coisa —a voz dela era firme—. Você fica comigo porque te lembro dela? Como um jeito de ainda segurá-la?
Fiquei surpreso. Nada mais longe da realidade. Laura ficou enterrada no Caribe, sepultada nas noites apaixonadas com a minha mãe.
—Como diz a música, Laura foi embora, Laura não está. Aceitei ficar porque me sinto genial contigo. Com a Teresa.
—Precisava saber disso. Eu não quero ocupar o lugar dela, quero que você me veja como eu sou. E mesmo que pareça loucura, desde que a gente se encontrou no primeiro dia, você não sai da minha cabeça. Rezo pra chegar quinta-feira e passar um tempo com você, batendo papo, rindo... me sentindo mulher.
Eu olhei pra ela, sem saber o que dizer. Quando roçou meu rosto com os dedos, fechei os olhos. O beijo dela foi suave no começo. Mas era só o prelúdio.
Pegamos um táxi até minha casa. Subimos no elevador pequeno que rangeu um pouco ao fechar. Nossos olhares se refletiram no espelho, um reflexo silencioso do que nossas mentes pensavam.
Parei o elevador. Os lábios dela, entreabertos, pareciam me chamar sem palavras. Não dava mais pra esperar. Me inclinei devagar na direção dela, dando todo tempo do mundo pra ela se afastar se quisesse. Mas ela não fez isso.
Quando nossas bocas se roçaram, senti ela prender a respiração. No começo foi um toque leve, tímido, como quem testa a água antes de mergulhar. Ela não se afastou. Peguei ela suavemente pela nuca, acariciando o cabelo solto dela. Ela passou os braços no meu pescoço e aí sim, a gente se beijou com gosto. Foi difícil me desgrudar dela porque ela tinha colado os lábios nos meus que nem uma lapa. Fim do primeiro capítulo, parte 2, na rede social do autor original.Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.
Tava tentando aterrissar, não no aeroporto, mas na minha vida cotidiana, porque não dá pra descer do céu pra terra sem fazer umas paradas pra despressurizar. Parecia inacreditável a aceleração que minha vida tinha tomado. Duas semanas atrás, tava todo iludido pra casar com a Laura, minha mina com quem já morava junto fazia um ano.
Fazia dez dias que fui deixado plantado no altar. E sem tempo pra digerir, minha mãe me animou, quase me obrigou a usar as passagens da lua de mel que meus pais tinham me dado de presente, e se inscreveu como minha parceira. O que aconteceu lá eu já contei em algum relato anterior e só posso acrescentar que foi a semana mais incrível da minha vida.
Desde que a gente chegou, não tinha visto ela de novo, por decisão dela, ela precisava de tempo e distância pra conseguir voltar à normalidade na vida dela.
Eu também tentava retomar minha normalidade e, embora o resto da família quisesse que a gente se reunisse, fui adiando a data com a desculpa de emergências no trabalho, até que inevitavelmente chegou o dia, apressado também porque ainda tinha uns pepinos financeiros do casamento desfeito pra resolver.
Na reunião na casa da minha mãe, que tinha sido a casa da família, e que ela ficou na separação, a gente ia estar: meus pais, minha irmã e o marido dela, e eu.
Antes, minha mãe me ligou e combinamos de revisar bem o celular e apagar qualquer foto que pudesse dar a entender o que tinha rolado entre a gente durante nossa estadia no resort, pra qual a gente combinou um roteiro juntos.
Cheguei nervoso porque ia ser o primeiro encontro com ela, desde que voltamos. O visual dela estava extraordinário. Muitos anos mais jovem do que a Marta que decolou de Madrid há apenas dez dias.
Ela já tinha adiantado umas histórias da viagem. A estratégia era fazer eles acreditarem que eu tava na merda a maior parte do tempo, ainda sofrendo pela fuga da Laura, pra dar mais liberdade pra ela contar a versão dela.
Mesmo que minha irmã tentasse arrancar detalhes de mim, pensando que eu fosse revelar algum personagem que pudesse ter aparecido nas férias da mãe dela, meu pai, mais reservado, sorria forçado, não sabia se por invejar a mulher que tinha se divertido sem ele, ou porque pudesse suspeitar que o filho da puta do filho dele tinha explodido todos os princípios e a educação da mulher dele.
Eu dei de ombros, fingindo que não tava nem aí.
—Foi a mais animada do resort, tive sorte dela me acompanhar.
Minha mãe trouxe uns petiscos e uma garrafa de vinho. Depois de aguentar as piadas do meu cunhado, enquanto a gente via as fotos dos passeios, chegou a hora de falar dos pepinos pendurados por causa do cancelamento do casamento.
—Ainda precisa devolver o dinheiro de alguns convidados e os presentes que sobraram —disse meu pai, quebrando o silêncio—. E além disso, tem que fazer isso logo.
Os rendimentos estavam numa conta corrente de uso comum, tanto pra Laura quanto pra mim. Eu já tinha visto que ela fazia isso com a grana dos convidados dela.
—Já fiz algumas. Os presentes materiais, vou fazer a relação e começar também em breve.
—Você devia redigir uma nota pra acompanhar eles. Sem entrar em detalhes, mas limpando um pouco sua imagem — apontou minha mãe, que, como madrinha de casamento, tinha ficado tão marcada quanto eu pelo show que minha noiva deu ao dizer NÃO.
A ideia de sentar pra fazer transferências e escrever mensagens tipo «lamento informar que o casamento foi uma farsa» já me revirava o estômago.
—Posso colocar na nota que a Laura pediu pra voltar pra mim?
—Sério? —perguntou minha irmã surpresa—. Que cara de pau, hein!
—Nem por um segundo você pensou nisso! — acrescentou meu pai.
—Fica tranquilo, ela já entendeu —respondeu minha mãe, que ouviu nossa conversa no telefone.
—Falta decidir também como a gente divide os gastos da comida, a wedding planner, os fotógrafos, etc.
—O Luis (pai da Laura) me ligou pra falar desse assunto e sugeriu que eu aceitasse o que você e a Laura decidissem.
—Não quero falar com ela! Deixo isso com vocês.
—Já fizemos isso. Eu não tava a fim de me encontrar com o Luís, nunca gostei dele e a atitude dele na igreja não me desceu — comentou meu pai —. Então ontem sua mãe e a Teresa (mãe da Laura) marcaram de tomar um café.
—E aí? Se já decidiram, pode ir em frente.
—Já passamos pelos assuntos por cima, ela e eu estamos de acordo. Mas ela gostaria que você confirmasse isso.
—Não tenho nenhuma objeção em vê-la. A Teresa sempre foi muito carinhosa comigo.
Quando a gente se despediu, esperei todo mundo ir embora, falando que precisava falar uma coisa com minha mãe. Ficamos sozinhos pela primeira vez desde que voltamos. Eu tava muito nervosa. A calma que mostrei pros outros desabou naquela hora.
—Não me toca, por favor —A voz dela tremeu levemente—. Se me beijar, não vou conseguir te parar.
—Vou te dar o tempo que precisar, mas você sabe que uma hora a gente vai ter que se ver de novo, nem que seja só como mãe e filho.
—Eu sei. Só que ainda não tô preparada.
Respeitei o desejo dela e fui embora. Com certeza assumi que nosso relacionamento amoroso tinha acabado e que eu precisava criar a base pra reconstruir o vínculo de pai e filha, que nunca se perderia.
No dia seguinte da reunião de família, a Teresa, minha ex-sogra, me ligou. A voz dela, quente e calma do outro lado da linha, me passou confiança em poucos segundos. Sempre teve um respeito mútuo entre a gente, até uma cumplicidade que, às vezes, era mais sincera do que a que eu tinha com a filha dela.
—Oi, Carlos. Não vou te perguntar como você está. Entendo que não quer falar com ela. A reunião vai ser rápida, só pra esclarecer uns assuntos em conjunto, sem intenção de jogar nada na cara. Eu também não me orgulho do que aconteceu.
Enquanto eu a ouvia, lembrei do comportamento dela na igreja.
Quando ouvi o «Carlos, me desculpa, mas não posso casar com você», na frente de uma igreja lotada, senti o peso de todos os olhares em cima de mim: os dos parentes dela, os dos meus, os dos amigos que vieram celebrar e que testemunharam minha humilhação ao vivo e a cores.
Não respondi nada porque sabia que se abrisse a boca naquele momento, ia acabar dando o maior show.
Quando a Laura desceu os degraus do altar, indo na direção do babaca do ex-namorado dela, no meio do cochicho de muitos presentes, minha mãe foi a primeira a reagir. No altar, com os olhos cheios de raiva, ela encarou o Luis, o pai da Laura e padrinho.
—Isso é uma vergonha! —cuspilhou—. Vocês sabiam e deixaram ele chegar até a igreja pra passar o Carlos de otário?
—Não fala assim comigo! —respondeu meu ex-sogro, encarando ela—. A gente não sabia de nada.
Quando descemos o degrau que separava nossa área da primeira fileira de bancos, Paula, a irmã mais nova da Laura, tentou justificar o injustificável. Meu pai, que até então tinha ficado paralisado, também interveio na minha defesa. Tudo virou uma bagunça.
Então a mãe da Laura, a Teresa, que tava usando um vestido lindo que deixava ela muito gostosa e que até aquele momento tinha ficado quieta, entrou na discussão.
—Calem a boca todo mundo! O que a Laura fez não tem desculpa, por mais que a gente goste dela —sentenciou. E mudando o tom, tentando parecer carinhosa, completou—. Peço desculpas, Carlos, pode contar comigo pro que precisar.
Confirmou que era uma senhora e que o carinho que ela mostrou por mim enquanto eu era namorado da filha dela não era fingido. Eu também gostava dela.
A gente se encontrou num cafézinho perto da casa dela. Quando cheguei, vi ela sentada numa mesa perto da janela. Fiquei surpreso com a elegância dela, vestindo um vestido justo de tons claros. O decote deixava ver a plenitude dos peitos dela, que subiam e desciam com a respiração, mostrando o nervosismo que tomava conta dela.
Parei ela quando ela se levantou pra me cumprimentar.
Oi, Carlos — disse ela sorrindo, com o mesmo carinho que sempre teve comigo.
Baixei meu rosto pra dar dois beijos nela. Ela deixou o rosto dela pronto pra que fosse eu quem desse os beijos. Quando encostei na bochecha dela, meu corpo reagiu de um jeito... masculino. Não sabia se era por causa da minha redescoberta do mundo das mulheres maduras que fiz com a minha mãe, mas o fato é que, pela aparência dela, ela me parecia mais gostosa do que nunca. Minha percepção dela não era mais a de mãe da Laura, mas sim a de uma senhora atraente.
Embora nós dois soubéssemos o motivo do encontro, começamos como dois velhos conhecidos, falando besteira: do lugar escolhido pra nos encontrar, dos preparativos do casamento, da viagem que eu sabia que ele tinha feito.
—Sua mãe me contou que vocês se divertiram pra caralho na viagem e ela até conheceu um gostoso.
Não sabia que versão minha mãe ia contar, mas com certeza não era eu aquele jovem. Imaginei que ela tava falando do Miguel.
—Seu professor de dança? Eles ficaram muito amigos.
Notei um brilho nos olhos dela, enquanto brincava com a colherzinha do café, desenhando círculos invisíveis na mesa.
—Vi umas fotos suas nas redes através da Laura. Também não perdeu tempo, hein.
Não senti necessidade de me desculpar.
—Tanto eu quanto minha mãe precisávamos esquecer de onde viemos. Nós dois curtimos a estadia, com a sorte de estarmos perto um do outro.
Depois de dar um gole no café, ela me olhou com aquela serenidade que só os anos e a classe trazem.
—Fico feliz por você. Você não merecia o que a Laura fez —disse ela, sem rodeios, indo direto ao assunto do encontro.
Eu não sabia se agradecia o comentário dela ou me lamentava ainda mais. Não respondi.
—Imagino como você se sente. Eu também tô magoada. Não concordo com a decisão dela e nem entendo direito. Mas vim te ver porque acho que é o certo a fazer, e vou falar com você com toda a sinceridade.
Ele me explicou que, depois de se reunir com minha mãe, eles decidiram arcar com os custos de cancelamento do ágape não realizado, que era 50% do valor e, no fim das contas, era o que eles já tinham planejado pagar.
Minha mãe concordou em cuidar da floricultura, do fotógrafo e de outros gastos menores, como a igreja ou a organizadora do casamento. Por parte dela, já tinham devolvido os presentes para os convidados, exceto os que estavam na minha casa.
—Queria te dizer que o que a Laura fez, não muda a lembrança carinhosa que tenho de você — acrescentou com voz calma.
—Agradeço. A viagem serviu pra resetar a mente, embora ainda apareçam comentários engraçados de algum amigo ou piadas nas minhas redes sociais.
—Imagino o desconforto de algumas piadas, tão acostumados aqui na Espanha a rir das desgraças alheias.
—Felizmente, já superei isso —falei, tirando o peso da situação.
—No final, vocês vão sair todos do buraco antes de mim.
Me surpreendeu esse comentário. Ela deve ter percebido que não veio a calhar e tentou se explicar.
—Desculpa, foi uma bobagem. Quer beliscar alguma coisa? Assim não vou precisar entrar na cozinha quando chegar em casa — comentou, insegura com a minha resposta.
—Pra mim tá perfeito, também não tenho ninguém me esperando nem fazendo janta pra mim.
—Lembra que as quintas-feiras são minhas. É meu dia de sair pra eventos culturais, galerias ou lançamentos de livros, e o Luís já tá acostumado a jantar fora.
—Se a gente for jantar, você vai ter que me contar de verdade, o que você quis dizer com aquilo de sair do buraco. Lembra que você ia falar com toda honestidade — lembrei a ele da saudação.
Ela se sentiu presa nas próprias palavras e resolveu se abrir. Pedimos um vinho suave.
—Não tava nos planos falar de mim, mas se é pra ser sincero, também não tenho por que esconder — começou, com um leve tremor na voz—. Eu e o Luís tamo passando por uma fase difícil.
Arqueei a sobrancelha surpreso. Sempre os via como um casal estável, talvez meio sem graça, com um papel de dominação por parte do meu sogro, mas bem resolvido. Ela percebeu minha surpresa e sorriu sem alegria.
—Com o passar dos anos, as verdadeiras personalidades vão aparecendo. Não é a primeira crise que a gente tem, mas dessa vez, com o que rolou na igreja, foi meio que o limite. Sabe? Em muitos aspectos, a Laura é uma cópia do pai dela: orgulhosa, volúvel, egoísta, incapaz de manter algo por muito tempo.
Pelo que eu conhecia os dois, não tinha dúvida de que lado escolheria pra ficar.
—Te faço a mesma oferta que você me fez. Se precisar de algo de mim, pode contar comigo.
—Obrigada, Carlos. Por enquanto, tô satisfeita em ter alguém em quem confiar e desabafar o que sinto.
—Por que você disse que aumentou depois que a Laura deu o fora? Como isso te afetou?
—Em tudo, ele concorda com a Laura e eu não. Ele critica você e toda a sua família, diz que seu pai é um banana por deixar sua mãe tirar umas férias e botar ele pra fora de casa. Eu gosto muito deles de verdade, principalmente da sua mãe.
Agradeci o apoio sincero dele(a) pra minha família.
—Queria discutir todos os gastos do casamento e ficou puto quando forcei ele a assumir nossa responsabilidade, maior que a de vocês.
—Acho que não vamos ter problema em chegar a um acordo, nem minha família nem eu queremos estender essa guerra, por nós não tem briga, só queremos pagar o que é nosso e esquecer o ocorrido. Não sabia da sua situação com o Luís.
—Eu procuro não dar o que falar em público —disse sem hesitar—. Mas dessa vez, o baque foi maior, não pela parte financeira, mas porque eu acreditava em vocês como casal, via em você as qualidades que sentia falta no meu marido.
—Foi por isso que não falou nada? Por que você não vai me dizer que não sabia?
Ela me olhou com os olhos semicerrados, como se estivesse medindo as palavras.
—Não a via totalmente feliz, mas associei ao nervosismo do casamento. Me enganei.
Nós nos olhamos, tinha uma cumplicidade entre a gente. Algo que se costurou na surdina durante o tempo que nos tratamos como genro e sogra.
—Quer que a gente peça outro vinho? — perguntei pra ela.
—Sim —disse ela, sem hesitar.
Ela arrumou a salada que a gente tinha pedido, mexendo nela, como se estivesse remexendo a própria história dela.
— Ainda não entendo essa vontade dela de casar. A gente vivia bem como casal, mas a Laura insistiu — falei.
—O pai dela lembrava disso toda vez que podia, não gostava que vocês morassem juntos sem serem casados.
—Eu me sentia casado com ela. Era a mulher da minha vida.
—Você é muito nobre. E sei que cuidava dela, que a ouvia e a incentivava a ter esperanças. Eu me perguntei muitas vezes o que teria sido da minha vida se tivesse escolhido alguém que realmente me ouvisse, que não fugisse dos problemas, nem procurasse desculpas.
—Segue o exemplo da sua filha, dá o fora. E ainda por cima não precisa devolver os presentes —falei de brincadeira.
Fiz ela rir. Foi uma risada limpa, daquelas que só buscam um alívio.
—Sempre me senti à vontade com você —me disse Teresa, já no segundo vinho—, às vezes até mais do que com a Laura. Por mais que a gente sempre ame os filhos, isso não impede que eles possam te decepcionar.
—Os filhos nem sempre reconhecem o valor dos pais... e das mães.
Teresa sorriu reconhecendo meu comentário.
—Vocês são muito diferentes. Você tem empatia e ela… é igual ao pai dela.
O jantar se estendeu sem a gente perceber. Aí ela baixou a voz e me encarou.
—Tá a fim de dar uma volta? —falou pra quebrar o silêncio—. Não tô com vontade de voltar pra casa ainda.
Saímos do café devagar, sem pressa, igual fizemos durante o jantar. O vestido, justinho na cintura dela, balançava a cada passo, quase roçando a parte de cima das coxas. Os saltos realçavam o comprimento das pernas dela.
Então, com um gesto quase imperceptível, pegou meu braço e apoiou entre os dela. Caminhamos assim, colados, sem nos importar com as aparências, como se de repente tivéssemos liberado tudo que flutuava entre nós — a tensão que a fuga de Laura causou entre nossas famílias.
Às vezes ela parava pra olhar as vitrines, às vezes nossas mãos se roçavam, só um instante, uma mistura de delicadeza e do proibido.
Os carros passavam, a gente andava por ali, mas eu me perdia no jeito que o sorriso dela enchia o ar. Por uns momentos, não éramos ex-sogra e ex-namorado largado. Éramos só duas pessoas com feridas pra sarar, achando consolo na sinceridade uma da outra.
Caminhamos devagar por ruas de pedestres, longe da bagunça dos bares, como se o mundo tivesse ficado pequeno pra gente percorrer no nosso ritmo. Ela baixou o olhar e aquele jeito de timidez leve me pareceu combinar com a elegância com que ela sempre se movia.
—Sabe? Às vezes me arrependo de ter tentado manter tudo na minha vida arrumadinho… como se a vida pudesse ser controlada com um Excel e listas de tarefas — disse ela sorrindo.
—Não te imagino mexendo num Excel —respondi brincando.
—Desde que aprendi isso, tenho uma folha pra tudo. Aliás, falando em listas… —ela parou por um momento—, a gente não fechou os assuntos. Devia se encontrar de novo pra concluir tudo que ficou pendente.
Sim, traz teu notebook e a gente faz uma planilha juntos.
—Perfeito —disse ela, me encarando—. O que acha de quinta às seis? Dá tempo pra gente tomar mais um vinho.
—Perfeito.
Nos demos dois beijos de novo na despedida, um gesto simples que, no entanto, prolongamos um pouco mais do que o necessário. Depois, demos um abraço demorado. Um abraço de duas pessoas em processo de cura.
Fui embora com a sensação de que lealdade nem sempre vem de quem dorme do teu lado, mas sim de quem continua do teu lado, quando tudo desabou.
Recebi um dia uma mensagem dela, mandando lembranças da Laura que tinha ido na casa dela. Respondi que preferia as lembranças dela do que as da filha. A partir daí, começamos a trocar umas mensagens sem importância, mas que serviam pra manter ela presente na minha mente. E eu imaginava que eu também tava na dela.
Na quinta-feira cheguei na hora, mas tenho que admitir que com um friozinho na barriga. Marcamos num café diferente, fora do bairro dela, que escolhi porque tinha uma área tranquila pra trabalhar. Ela chegou cinco minutos atrasada, sinal de que já não era um encontro de família ou trabalho, mas com um cara que tem que esperar um pouco.
Apareceu muito mais arrumada do que na quinta passada, com um vestido de linho azul-marinho, decote discreto, mas elegante. Sapatos baixos e o cabelo preso num coque, que a deixava mais jovem uns anos. Elegante, sem precisar chamar atenção. O tipo de mulher que entra num lugar e muda tudo sem levantar a voz.
—Oi Carlos, desculpa o atraso
—Não se preocupa, tá no tempo.
—Preparei uma planilha com três abas: presentes, transferências e gastos bancados pela sua família — disse ela, tirando o notebook da bolsa —. Pode adicionar o que estiver faltando.
—Você é tão organizada pra lidar com a sua vida?
—Não é tão simples assim, a vida não cabe numa planilha — ela disse rindo.
Começamos a trabalhar. Cada item era uma desculpa pra lembrar de algo, pra zoar, pra se olhar além do conteúdo da tabela. Ela tava especialmente carinhosa. Tocava no meu braço pra apontar algo na tela, ou se inclinava pra mim pra ver algum número junto. O perfume dela tinha um negócio hipnótico.
—É gostoso trabalhar assim. Com o Luis não dá pra contar pra nada — disse ela levantando os olhos do notebook.
Luis, meu sogro não era um cara ruim, mas o jeito dele, todo durão e orgulhoso, igualzinho ao da Laura, fodia a relação com ele.
—E eu tô curtindo mais a anulação dos presentes do que quando organizava o casamento com a Laura. Tô gostando dessa sua versão, sem filtros nem protocolos.
Quando terminamos o serviço, pedi duas taças de vinho.
—Traga uma garrafa —ela corrigiu.
A partir do segundo copo, paramos de falar da Laura e do Luís. Era como se tivéssemos fechado a cortina do passado pra deixar entrar um pouco de ar fresco.
—A gente podia marcar de tomar um vinho qualquer dia —exclamou com a taça na mão.
Nossos dedos se roçaram na mesa, sem que ninguém tirasse a mão. Ficamos nos olhando, nosso tesão não precisava de palavras. Era óbvio que os dois queriam um encontro na terceira fase.
—Tudo bem pra mim. Contanto que você deixe o notebook em casa.
Olhei o sorriso dela. Conhecia aquela expressão de ter visto na minha mãe. Era uma mulher faminta pra recuperar o tempo perdido. Tinha a sensação gostosa de que algo inesperado tava começando a se escrever entre nós dois.
Não passaram muitos dias até que na quarta-feira ela me escreveu. Uma mensagem simples, como quem já não precisa de desculpas.
—Amanhã é quinta-feira.
Respondi com um emoticon de alegria e mandei o endereço do terraço onde fiz a reserva.
Veio com um vestido branco, soltinho, sem mangas, que apertava bem na cintura, um cinto enorme como se quisesse imitar um cinto de castidade. Tava de salto alto. O cabelo solto, mais natural do que nunca.
—Cada dia você se supera —falei, levantando pra dar dois beijos nela e puxar a cadeira.
O jantar foi entre risadas, uma garrafa de vinho e lembranças compartilhadas que já não doíam mais. A gente falou do que passou… sem se atrever a falar do que estava rolando. Até que, num instante, sem aviso nenhum, ela deu um gole no copo de vinho e ficou me encarando.
—Preciso saber uma coisa —a voz dela era firme—. Você fica comigo porque te lembro dela? Como um jeito de ainda segurá-la?
Fiquei surpreso. Nada mais longe da realidade. Laura ficou enterrada no Caribe, sepultada nas noites apaixonadas com a minha mãe.
—Como diz a música, Laura foi embora, Laura não está. Aceitei ficar porque me sinto genial contigo. Com a Teresa.
—Precisava saber disso. Eu não quero ocupar o lugar dela, quero que você me veja como eu sou. E mesmo que pareça loucura, desde que a gente se encontrou no primeiro dia, você não sai da minha cabeça. Rezo pra chegar quinta-feira e passar um tempo com você, batendo papo, rindo... me sentindo mulher.
Eu olhei pra ela, sem saber o que dizer. Quando roçou meu rosto com os dedos, fechei os olhos. O beijo dela foi suave no começo. Mas era só o prelúdio.
Pegamos um táxi até minha casa. Subimos no elevador pequeno que rangeu um pouco ao fechar. Nossos olhares se refletiram no espelho, um reflexo silencioso do que nossas mentes pensavam.
Parei o elevador. Os lábios dela, entreabertos, pareciam me chamar sem palavras. Não dava mais pra esperar. Me inclinei devagar na direção dela, dando todo tempo do mundo pra ela se afastar se quisesse. Mas ela não fez isso.
Quando nossas bocas se roçaram, senti ela prender a respiração. No começo foi um toque leve, tímido, como quem testa a água antes de mergulhar. Ela não se afastou. Peguei ela suavemente pela nuca, acariciando o cabelo solto dela. Ela passou os braços no meu pescoço e aí sim, a gente se beijou com gosto. Foi difícil me desgrudar dela porque ela tinha colado os lábios nos meus que nem uma lapa. Fim do primeiro capítulo, parte 2, na rede social do autor original.Desculpe, não posso ajudar com essa solicitação.
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