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Compêndio III44: ALINHAMENTO ESTRATÉGICO
A manhã estava uma correria, eu preso no trampo, revisando uns gráficos no computador do território norte. Os números não batiam (pra variar) e eu tava a dois segundos de jogar minha xícara de café na parede quando uma batida seca interrompeu meu surto. A porta rangeu aberta antes que eu pudesse responder, e a primeira coisa que ouvi foi a voz da Inga, áspera e cortante, como se alguém tivesse arrastado uma lima de metal no vidro.
• Não acredito que você tava certa, Kaori! Então o bruto realmente trabalha nessa espelunca minúscula e imunda!
A voz da Inga cortou o ar viciado do escritório como um bisturi mergulhado em vinagre. As palavras não eram só para a assistente dela… eram feitas pra cravar, pra cavar fundo na minha pele. Mantive os olhos fixos na planilha que sangrava números vermelhos na minha tela, deixando o brilho queimar minhas retinas em vez de reconhecer a entrada dela.Mugrienta.- Repeti monotonamente entre dentes, rangendo os dentes. -Pequena. Minúscula.As palavras tinham gosto de ferrugem e desprezo. Meus dedos se fecharam na borda da minha mesa, os nós dos dedos ficando brancos contra o mogno.
Kaori estava parada atrás da Inga, postura tensa… como alguém se preparando pro impacto. Garota esperta. A tensão no quarto engrossou, apertando minhas têmporas igual uma broca cega. Soltei o ar pelo nariz, devagar e de propósito, antes de girar minha cadeira na direção delas.A Inga entrou com aquele sorriso vazio que não significava nada: um presságio predador de que ela queria alguma coisa de mim. Os saltos dela batiam na madeira feito um metrônomo contando pra algum desastre inevitável. A Kaori ficou meio passo atrás, os olhos dela pulando entre mim e a porta, como se calculasse a rota de fuga mais rápida.
• Precisamos tirar o Reginald do conselho o mais rápido possível! — A exigência da Inga cortou o ar feito uma espada, sem deixar espaço pra frescura ou fingimento.
O rosto de porcelana dela ficou assustadoramente parado, exceto por um leve tensionamento nos cantos dos lábios: um sinal que eu aprendi que significava que ela já estava três passos à frente, movendo peças num tabuleiro que só ela conseguia enxergar.Suspirei, já me sentindo cansado.
- Bom dia, Kaori!... Inga...
Deixei escapar um gemido, lembrando de tentar ser educado... mesmo que as palavras tivessem um gosto amargo na minha boca.
O ar ficou pesado na hora: parte pelo perfume sufocante de baunilha-e-cedro da Inga, parte pela tensão que emanava dos ombros duros da Kaori. Meu escritório, com sua vista modesta do centro de Melbourne e móveis funcionais, costumava ser confortável. Com a Inga dentro, o cômodo de repente ficou abafado, as paredes apertando como cela de prisão.
- Reginald? - Me recostei na cadeira fingindo não ter ouvido ela, o couro rangendo sob meu peso, e finalmente desviei o olhar da tela para os olhos gelados da Inga. - Tá na diretoria há quase dois meses. Qual é o verdadeiro motivo?
O sorriso da Inga não vacilou, mas os dedos dela apertaram a costura do blazer impecável.
- A ética dele é um risco! - Ela articulou cada sílaba com precisão, como se estivesse ditando um memorando. - A manipulação! A sede de poder! Tudo! Vai ser a nossa ruína!
A voz dela carregava a convicção melodramática de alguém que tinha ensaiado esse discurso na frente do espelho, mas o jeito que os olhos azuis gelados dela desviaram pra Kaori por meio segundo entregou tudo. Isso não era sobre ética. Isso era sobre inconveniência.
Kaori se mexeu levemente atrás dela, o clique abafado dos saltos no assoalho sendo o único som. Os olhos dela pulavam entre nós, quieta como um rato.
Eu ri, entretido, me inclinando pra frente pra apoiar os cotovelos na mesa.
- Ética! Claro! Especialmente vindo de você...!
No momento em que essas palavras saíram da minha boca, a temperatura no quarto caiu três graus. As narinas de Inga se alargaram como se alguém tivesse acendido um fósforo debaixo do seu perfume. Kaori congelou no meio do passo, os dedos se curvando levemente ao lado do corpo. Dava pra quase ouvir ela prender a respiração.
Os olhos de Kaori piscaram uma vez… uma hesitação de fração de segundo que me disse mais do que qualquer palavra. Inga podia ser a espada, mas Kaori era a mão que a empunhava, e agora, aquela mão calculava se girava ou recuava.
O sorriso de Inga ficou congelado no lugar.
• Marco! – Ela disse, doce feito mel envenenado com arsênico, sondando o terreno. – Você não entende! Isso não é sobre mim! É sobre a empresa!
Ela deu um passo à frente… como se a proximidade sozinha pudesse me intimidar… as unhas polidas brilhando sob as luzes fluorescentes como garras recém-afiadas.• A auditoria interna do Reginald? — Ela continuou, a voz caindo para um murmúrio conspiratório que fez minha pele se arrepiar. — Assim que essa máquina começar a se mover, nem a Edith vai conseguir parar quando ela voltar.
Me inclinei para frente, cotovelos apoiados na mesa, e aspirei o café rançoso do meu copo meio vazio.
— Ahã! — Respondi seco. — E como isso me afeta pessoalmente?
Um músculo se contraiu perto da têmpora da Inga. Atrás dela, a Kaori soltou o ar pelo nariz, lento e controlado… o tipo de respiração que você faz antes de pular no vazio. A mão esquerda da Kaori deslizou até a tablete fina escondida debaixo do braço… um reflexo, como se estivesse a segundos de mostrar documentação. Ou de detonar uma bomba. Com essas duas, nunca se sabe.
• Te afetar? — A voz da Inga caiu para um ronronar venenoso. Ela se inclinou sobre minha mesa, os ângulos afiados dos pulsos pressionando os relatórios espalhados que eu estava revisando. — Marco, você não tá vendo o quadro geral aqui? Esse trampo… envolve vários departamentos… revisando montes de relatórios. Cê acha que eu dou conta sozinha?
Senti uma dor pontuda nas minhas entranhas. Eu faço isso o ano inteiro (sem reclamar) supervisionando projetos de manutenção por toda a paisagem australiana, coordenando com gerentes gostosos, filiais corporativas, decifrando relatórios mais grossos que dicionários. Qual a diferença? A ideia de dificuldade da Inga era arquivar papelada de salto alto.Soltei um suspiro fundo, tentando organizar meus pensamentos. Uma lembrança relampejou da minhaprimeiro encontrocom a Cassidy, ela comendo uma colherada de sorvete, o sotaque texano dela me avisando que a Inga era umagata preguiçosaQue certeiras e proféticas foram as palavras dela!
Inga interpretou mal meu silêncio e meu sorriso, confundindo minha contemplação quieta com aceitação. O rostinho de porcelana dela suavizou (só um tiquinho) e, por um instante fugaz, ela soou quase humana.• Gente como o Reginald tem que ser parada! - As palavras carregavam um tremor raro, algo cru por baixo do verniz polido. - Já vi ele fazer isso antes! Quando eu e a Kaori estávamos em Londres. Ele deforma as pessoas primeiro. Depois, a estrutura ao redor delas... (Os dedos dela se cravaram na borda da minha mesa.) ...Não quero voltar pra aquilo! Não quero deixar aquilo me engolir de novo! Por isso que preciso da sua ajuda! Você foi o único que conseguiu enfrentar ele!
- E por que eu deveria te ajudar? - interrompi. - Ele te deu o que você queria: eu, fora do conselho. Não lembra?
Kaori observou a patroa dela tão perplexa quanto eu. As luzes fluorescentes zumbiam sobre nossas cabeças, um gemido elétrico se misturando com o cheiro de café velho e o perfume enjoativo da Inga. Meus dedos tamborilaram um ritmo descompassado na mesa umas duas vezes antes de se fecharem na minha palma. A respiração brusca da Kaori cortou o silêncio como uma faca.
• Marco! - começou Inga, a voz mais suave agora, quase implorando. As unhas impecáveis dela (pintadas com aquele tom pele corporativo insuportável) se cravaram na borda da minha mesa. - Aquilo foi... diferente. Eu não percebi.
- Sim, você percebeu! - exclamei irritado, minhas palavras caindo como uma marreta.
O salto da Kaori raspou meio centímetro pra trás no meu assoalho de madeira, o som agudo no espaço apertado.
Lembro perfeitamente: você quase sorriu para o Reginald. E agora quer que eu te ajude?Lá fora, o zumbido do trânsito do meio-dia de Melbourne vazava pelas janelas de vidro simples, uma sinfonia distante de táxis buzinando e bondes chacoalhando. O som costumava me acalmar… naquele dia, só destacou o absurdo daquela conversa. Os lábios de Inga se separaram, depois se apertaram numa linha fina. Pela primeira vez desde que tinha invadido, a postura dela vacilou (levemente), os ombros se inclinando para frente.
• Você tem razão! - Ela admitiu, as palavras cortadas como se fosse tropeçar. - Eu queria que você saísse da reunião! Mas não assim! Não com ele puxando os cordões!
Para a surpresa dela, eu sorri.
- Ótimo! - respondi com um tom predador e alegre que fez os ombros de Kaori se tensionarem.
Meus dedos tamborilaram contra a mesa um pouco antes de se fecharem num punho frouxo.
- Pelo menos tem algum progresso… - As palavras pairaram entre nós como uma espada equilibrada pela lâmina.
A respiração de Inga prendeu… só uma vez… antes do rosto dela voltar àquela máscara imperturbável de porcelana.
De repente, a porta do meu escritório se abriu de repente antes que alguém pudesse reagir (sem bater, sem hesitar) só o rangido estridente de dobradiças sem óleo e o clique de saltos na madeira. Abby entrou com seu usual redemoinho de energia.
o Ei, Marco! Adivinha o que eu ouvi…? - A voz borbulhante de Abby cortou a tensão como uma criança entrando num velório com balões, já desabotoando os botões superiores da camisa.
Então ela congelou no meio do passo, suas ondas castanhas balançando com o impulso travado quando seus olhos cor de avelã pousaram em Kaori. A pasta na mão dela amassou na hora, o som do papel estalando grotescamente alto no silêncio repentino.A cabeça de Kaori virou para a intrusão, seus olhos desiguais (íris esquerda azul glacial; direita verde tempestade) avaliando Abby com a velocidade de um leitor de código de barras. Seus saltos pretos polidos giraram três graus para dentro, uma postura defensiva sutil.
O ar entre elas crepitou com aquele tipo de tensão que precede um relâmpago: duas fontes de fofoca reconhecendo o veneno nas águas uma da outra. A máscara alegre da Abby escorregou por meio segundo, revelando algo afiado e cauteloso por baixo.Inga não se virou. Seu perfil de porcelana permaneceu congelado, mas o músculo da mandíbula dela tremeu como um nervo preso. O perfume estranho e caro dela engrossou quando ela exalou pelas narinas abertas. O ar entre os quatro coagulou em algo palpável, carregado com a estática de velhas rixas e políticas de escritório ainda mais velhas. A fachada alegre da Abby rachou ainda mais, os dedos dela apertando a pasta amassada até as bordas morderem a palma da mão.
Eu quebrei o silêncio primeiro.
— Abby! — Falei, num tom deliberadamente neutro, observando os ombros da Inga se tensionarem ainda mais. — A gente tá numa reunião!
o "Certo! Desculpa!" – A voz da Abby saiu mais alta que o normal. Mesmo assim, ela encarou a Kaori como se tivesse encontrado a inimiga mortal cara a cara. Deu dois passos pra trás, as solas de borracha dos saltos chiando na madeira. – Eu só…Abby simplesmente fechou a porta com um clique audível que pareceu ecoar no silêncio repentino. Os ombros de Kaori continuaram tensos, os dedos apertando o tablet como se fosse um escudo. Os olhos desiguais piscaram na direção da porta por uma fração de segundo (algo ilegível passando por eles) antes de voltarem a se fixar em mim. Ela parecia eriçada, tensa, como uma puta pega no meio do pulo. O ar entre nós engrossou de novo, carregado com os restos da saída abrupta da Abby e o peso do que quer que a Inga estivesse prestes a propor.
• "Marco, tô desesperada! Preciso que o Reginald saia agora!" – A voz da Inga falhou: uma rachadura incomum na sua postura de rainha do gelo. Os dedos delicados dela se cravaram na minha mesa como aranhas testando uma teia. – "Não vou aguentar muito até a Edith voltar se as coisas continuarem assim!
Pareceu custar a admissão, sua pele de porcelana se avermelhando no tom mais suave de rosa sob a base perfeita.• Estou disposta a fazer qualquer coisa!... até...
Suas palavras congelaram, enquanto olhava para Kaori… um olhar tão pesado que poderia ter dobrado aço. O silêncio se estendeu como um abismo entre elas, aprofundado por um silêncio estranho, algo brutal. Os dedos de Kaori pararam ao redor da sua prancheta, seus olhos se arregalando uma fração. Pela primeira vez desde que entrou no meu escritório, sua postura a traiu: ombros se tensionando, respiração cortando quase imperceptivelmente.
• Até... — Inga repetiu suavemente, a palavra pairando entre nós como uma lâmina de guilhotina.
Ela fez uma pausa (dez segundos completos, medidos pelo ponteiro rápido do relógio do meu pai), antes de expirar pelas narinas abertas. Quando abriu os olhos de novo, eles tinham se endurecido em fragmentos de gelo ártico.
• Estou disposta a emprestar a Kaori para você! Para o que precisar!
O silêncio que seguiu a oferta da Inga foi tão absoluto que dava pra ouvir o zumbido fraco do ventilador do meu computador. A respiração da Kaori prendeu (só uma vez) antes que a postura dela ficasse ainda mais rígida, se é que isso era possível.Deixei o silêncio se estender, observando a máscara cuidadosamente construída da Inga rachar nas bordas. Uma gota de suor escorreu pela têmpora dela, cortando o acabamento matte perfeito da base. O cheiro do perfume dela ficou enjoativo no espaço apertado, se misturando com o gosto amargo do café frio no meu copo. A Kaori não tinha se mexido (nem piscado), os olhos dela fixos nos meus com a intensidade da mira de um atirador de elite. Quase dava pra ouvir os cálculos zumbindo por trás deles, reavaliando cada variável agora que eu tinha jogado aquilo na mesa de negociação como uma ficha de pôquer.
— Emprestar a Kaori pra mim? — repeti devagar, rolando as palavras na boca como um conhecedor provando vinho. Minha cadeira rangeu quando me inclinei pra trás, o couro reclamando sob meu peso. — Que uso eu teria pra ela?
Embora Kaori estivesse atordoada com a proposta da Inga, me ver descartá-la tão rápido bateu no ego profissional dela. Os olhos dela dançaram entre nós, calculando trajetórias que nem franco-atirador avaliando saídas. Aquela tensão sutil no maxilar dela (que a maioria das pessoas nem notaria) me contou tudo. Já tinha visto isso antes em cachorro prestes a morder: o momento em que eles percebem que os dentes são a única saída.Inga engoliu seco, a garganta se mexendo por baixo da gola engomada da blusa.
• Temporariamente! — esclareceu, a voz mais tensa que corda de violino. — Pra... projetos de alinhamento estratégico.
Em outras palavras, pra jogar sujo. Recusei a isca.
Suspirei de novo. O relógio na parede marcou três segundos audíveis antes de eu responder.
— Te pergunto de novo: você emprestaria ela pra mim? — repeti a pergunta, batendo o dedo indicador na mesa no ritmo do relógio. A vibração percorreu a superfície, fazendo um clipe perto do teclado tremer. — Você percebe que a Kaori não é um carro da empresa, né? Não dá pra simplesmente entregar as chaves e esperar...!
• Ela é incrível! - Inga interrompeu, a voz falhando com um fervor incomum. As palavras saíram rápido demais, cruas demais… como se tivessem sido improvisadas na hora.
• Ela é boa com computadores, excelente em coletar informações... Basicamente, é a melhor assistente que eu poderia precisar! - Suas mãos elegantes gesticulavam na direção de Kaori com um movimento espasmódico, quase desesperado, como se estivesse apresentando um cão de exposição.
Tanto eu quanto a Kaori ficamos impressionados. A Inga geralmente é fria, mas ouvi-la falar da Kaori me fez pensar nas minhas filhas tentando me convencer a cuidar de uma vadiazinha doente. Mesmo assim, minha mente já estava decidida.- Inga, a Kaori é inútil pra mim! - respondi seco.
Kaori se mexeu. Num segundo, tava parada feito uma estátua atrás da Inga; no seguinte, o tablet dela bateu na minha mesa com um estalo seco de plástico. Os dedos dela cravaram na borda da mesa, os nós dos dedos ficando brancos de tanta pressão. As luzes fluorescentes pegaram o tremor leve nos pulsos dela enquanto ela se inclinava pra frente, os olhos desiguais queimando buracos nos meus.
❤️ Você...! - ela sibilou, a primeira palavra que soltava desde que entrou.Você não faz a MENOR ideia do que sou capaz!
O hálito dela bateu no meu rosto: quente, mentolado, furioso…Inga recuou meio passo, os saltos lustrosos dela estalando na madeira.
• Kaori!
- Sim, eu sei! - Interrompi, levantando a mão pedindo a palavra. - Kaori, quantas vezes você tentou plantar microfones no meu escritório?
Os olhos desiguais de Kaori congelaram, ambos parecendo tons diferentes de um mar revolto. As luzes fluorescentes captaram a mínima dilatação das pupilas dela, entregando os cálculos que corriam por trás delas. Os dedos dela se cravaram na minha mesa, as pontas francesas das unhas deixando leves meias-luas no laminado.
- Tô falando de quando você me via como ameaça pra sua patroa, - insisti, observando o pulso pulsar na garganta de Kaori.
As luzes fluorescentes piscaram, projetando sombras dentadas no rosto dela enquanto os lábios se separavam… e depois se apertaram numa linha tensa.
- Quantas vezes você tentou se infiltrar no meu escritório?
Inga suspirou.
• Kaori! - O tom dela era suave, não de decepção, mas de surpresa genuína. Aquele tipo de suavidade reservada pra quando um cão de caça premiado volta com a boca vazia.
Kaori soltou um suspiro derrotado.❤️ Muitas vezes…! – a voz dela mal passou de um sussurro… a primeira rachadura genuína na armadura dela desde que entrou no meu escritório.
As luzes fluorescentes pegaram o leve tremor do lábio inferior dela antes que ela o apertasse de novo numa linha tensa. Os olhos dela baixaram, focando numa marca de desgaste perto da ponta do sapato preto lustrado.— Exatamente! Cê acha que eu não sabia?
As palavras rolaram da minha língua como moedas soltas de uma máquina caça-níquel quebrada: pesadas, metálicas, e caindo com uma frieza definitiva. As duas mulheres congelaram no meio da respiração, os dedos da Inga flutuando sobre minha mesa feito passarinhos assustados.
— Essa é a diferença entre vocês e eu. — continuei, batendo na minha têmpora de um jeito sugestivo. — Cês acham que dá pra conseguir tudo isso com essas estratégias de capa e espada. Enquanto isso, eu só paguei a festa de crisma do filho mais novo do Gonzalo… o adolescente do chefe da manutenção.
Amei o silêncio que veio depois: não do tipo tenso e sufocante, mas do tipo atordoado, com bocas abertas, onde até o cérebro afiado da Inga deu um curto-circuito.- Pois é! Ser educado e atencioso com os guardas e o pessoal da limpeza dá os mesmos resultados que os de vocês.
Meu sorriso foi de loba enquanto me inclinava pra trás, observando o entendimento piscar primeiro no rosto da Kaori. Enfiei a faca mais fundo.
- Agradece que pelo menos você e a Kaori deixam as mesas limpas quando vão embora. Eu sempre fico de olho nos prazos do Ethan e nos procedimentos de segurança pendentes da Helen nos canteiros. - Bati na minha têmpora de novo, mais devagar dessa vez. - Então, pra responder sua pergunta de novo, Inga, não, não tenho nenhum uso pra Kaori no momento.
O ar no escritório engrossou ainda mais: parte ozônio-queimado de tensão, parte o perfume enjoativo de baunilha-cedro agora misturado com o fedor acre do suor da Inga. Os dedos da Kaori se crisparam onde ainda pressionavam minha mesa, as unhas rombudas deixando arranhões leves no mogno.
Inga se recuperou primeiro. A mão delicada dela (com francesinhas impecáveis) voou até o pescoço, ajustando o colarinho com um puxão seco.
- Marco...! - começou ela, a voz trêmula. Interrompi de novo.
- Além disso, qual é a sua estratégia?
A pergunta rolou da minha língua como uma bolinha de gude quicando: dura, precisa, se chocando contra o silêncio. Observei as pupilas da Inga se contraírem, as íris azul-gelo encolhendo até virarem pontinhos minúsculos.
- Você tá disposta a arriscar sacrificar a Kaori assim, na maior cara de pau? Inga, a essa altura, você já deve saber muito bem o que vai rolar se enfrentar o Reginald. - Meus dedos bateram uma vez na mesa... um baque surdo que fez a Kaori estremecer. - Ele vai destruir vocês duas antes que tenham chance de agir.
Deixei o silêncio penetrar, observando a garganta da Inga trabalhar enquanto ela engolia em seco. — Você não pode chantageá-lo! — continuei, lento e deliberado como cravando pregos num caixão. — Não pode unir os membros do conselho contra ele, e não pode espalhar boatos sobre ele… não quando a autoridade do Reginald vem direto do comando central de Londres…
As palavras caíram entre nós como uma martelada.
— Além disso, mesmo que conseguisse e tirasse o Reginald do conselho, o comando central só nomearia outro. E outro. E outro. — Abri as mãos num gesto amplo. — Parabéns! Você acabou de se inscrever pra uma batalha sem fim!
O olho esquerdo da Kaori (o azul glacial) tremeu, percebendo a verdadeira profundidade da situação. Uma veia pulsou levemente na têmpora dela, o único sinal externo da tempestade que se formava por trás daqueles olhos desiguais. Os dedos perfeitos da Inga se curvaram pra dentro, as unhas cravando nas palmas com tanta força que deixaram marcas de meia-lua na própria pele. O cheiro do suor dela atravessou o perfume agora, azedo e desesperado, misturando-se com o café rançoso e o leve chiado de ozônio da tensão no ar.
— Você tem razão! — admitiu ela com os dentes trincados. — Por isso mesmo que preciso da sua estratégia! Porque qualquer tática de terceiro mundo que te trouxe até aqui claramente funciona melhor que…
Me inclinei pra frente, a mesa rangendo sob o peso do meu corpo. — Me diz uma coisa primeiro… — eu a calei, pegando a Inga no meio da frase. Minha voz baixou pra um murmúro rouco, daquele que faz a gente se aproximar mesmo sem querer. — Por que agora? O Reginald já tava apertando os parafusos há semanas.Por que o pânico hoje?A garganta da Inga se mexeu. Uma única gota de suor desenhou o contorno da orelha dela antes de sumir no colarinho duro da blusa… uma pequena brecha naquela compostura gelada.
• Porque... — ela suspirou, a palavra escapando como vapor de uma panela de pressão, os ombros se curvando sob a perfeição sob medida do blazer. — Ele tá me pressionando pra começar a auditoria interna amanhã!
Os dedos dela se cravaram na coxa, as unhas francesinhas pegando a luz fluorescente.
• E eu realmente não quero fazer essa porra!
Eu ri baixinho (não deu pra evitar), o som escapando como vapor de uma válvula de pressão. Debaixo daquela máscara de porcelana, a Inga era tão mimada quanto minha filha mais nova fazendo birra na hora de dormir. Passei o polegar nos cantos dos olhos, limpando a umidade ali.— Desculpa, Inga! — falei, a voz escorrendo com a mesma condescendência que ela tinha usado no meu escritório minutos atrás. — Mas não tem uma solução fácil e rápida pra isso.
As luzes fluorescentes do teto zumbiram, ampliando o silêncio entre nós. Os olhos da Kaori pulavam de um pro outro, feito espectadora num jogo de tênis.
— Homens como o Reginald não caem por força bruta ou planos apressados. — continuei, observando como a luz fluorescente iluminava o suor que agora perolava a linha do cabelo da Inga. — Eles só desmoronam quando você faz eles engolirem o próprio veneno. Obriga eles a jogar com as próprias regras até a hipocrisia partir eles no meio. Então não, não dá pra apressar isso.
Inga soltou o ar pelo nariz… uma liberação lenta e controlada que alargou as narinas dela. As luzes do teto pegaram o tremor leve no lábio superior dela, o jeito que a mandíbula apertou só o suficiente pra tensionar os tendões do pescoço. O perfume dela ficou mais ácido com o calor da frustração.
— Cê tá me dizendo…? — Inga articulou, cada palavra medida como dose de veneno. — Que eu não faça nada?
Bati o dedo médio na mesa (uma, duas vezes), o ritmo sincronizando com o tique-taque do relógio.
— Tô te dizendo pra esperar!
Os dedos da Kaori se tensionaram… não o movimento controlado de uma assistente executiva corporativa, mas o espasmo involuntário de um nervo no limite. Os olhos dela pularam pro rosto da Inga bem na hora que a chefe de Planejamento esmagou as duas palmas na minha mesa com um estalo que fez a xícara de café tremer.
— Isso é loucura! Como cê sabe que isso vai funcionar? — Inga finalmente explodiu numa fúria gloriosa, uma resposta surpreendentemente revigorante diante da frieza habitual dela.
Pela primeira vez desde que a conhecia, Inga parecia viva…
– Porque já vi isso antes. – respondi com monotonia, observando as sobrancelhas perfeitamente depiladas de Inga se franzirem.
Ao contrário das reações falsas dela, dessa vez a confusão era crua, imediata.
– Diferente de você… – continuei, afastando minha cadeira o suficiente pra esticar as pernas. – Eu vivi com meu próprio Reginald por vinte anos. Aprendi a lidar com ele.
• Seu próprio Reginald? O que quer dizer? – Inga perguntou, começando a ficar frenética. Os dedos de porcelana dela cravaram nos braços da cadeira, deixando marcas leves no couro.
– Meu pai. – respondi por fim, encerrando meu ponto.
A reação dela foi uma risada falsa… do tipo que surge quando você acha que é melhor que todo mundo. O som era agudo, frágil, como gelo quebrando sob os pés. A risada de Inga cortou de repente ao ver minha expressão. Os olhos azuis gelados dela pularam pra Kaori, como se quisesse ter certeza de que ela tinha entendido a piada sem graça.
• Você me diverte, Marco! -A voz de Inga cortou o ar viciado do escritório com precisão glacial.
Ela inclinou o queixo para cima… aquele gesto arrogante que fazia o cabelo platinado dela pegar a luz fluorescente como arame gelado.
• Entendo que você veja a Edith como uma espécie de...matriarca corporativa— continuou, desdenhosa, os lábios se curvando ao redor das palavras como se tivessem gosto ruim. — Mas comparar o Reginald com seu pai?... (Um dedo bateu na própria têmpora.) Isso é um nível novo de loucura sentimental. Aqui a gente tá falando de política corporativa multinacional. Não de qualquer... (as narinas dela se alargaram numa careta de nojo) briga de poder familiar primitiva que você sofreu na sua infância de cidade pequena.Me inclinei pra frente com um sorriso predador, observando a postura perfeita da Inga vacilar de leve quando minha sombra cruzou o rosto dela.
—Então me ilumina, Inga!— Eu a desafiei, minha voz baixando para um murmúrio rouco que fez Kaori se mexer na cadeira sem perceber. — Que outra estratégia você sugere? Porque até agora, só vi você se curvar e seguir o ritmo do Reginald igual um pônei de exposição bem treinado.
Inspirei fundo, cheio de orgulho, um gesto que irritou ela ainda mais.
— Enquanto isso, eu… que já estou fora do conselho… consegui calar e acalmar o Reginald. — Meus dedos batucaram um ritmo irregular na mesa, avisando que minha paciência tinha limite. — Então me diz: que pérolas de sabedoria você pode compartilhar pra acelerar isso?
Inga franziu os lábios até eles perderem a cor, a pele de porcelana ficando vermelha num tom nada lisonjeiro por baixo da base impecável.
• Kaori, vamos embora!
As palavras cortaram o ar do escritório como um chicote. Ela já estava no meio do caminho para a porta, seus saltos de grife batendo no chão com cliques deliberados e furiosos que ecoavam pelas paredes.• Sabia que vir ver esse bruto era perda de tempo!
Kaori ficou um segundo a mais do que o necessário (uma respiração, uma batida do coração), seus olhos fixos nos meus com uma intensidade que não era raiva, nem cálculo, mas algo perigosamente próximo de consideração.
Então ela girou nos calcanhares e seguiu Inga, fechando a porta com uma suavidade que parecia proposital, como se estivesse deixando o peso do seu silêncio para trás.Post seguinte
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