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Compêndio III42: ACESSO NÃO AUTORIZADO (I)
Voltava do almoço, minha gravata levemente afrouxada, o gosto do frango teriyaki devorado às pressas ainda no paladar enquanto olhava meu relógio: vinte para as duas. As portas giratórias do saguão me cuspiram de volta ao frio do ar-condicionado, onde o vaivém do meio-dia de ternos e maletas se movia com eficiência rotineira. Foi quando a vi.
No meio do burburinho de executivos arrumados, uma mulher se destacava, completamente perdida como uma turista que pegou o caminho errado. Seu vestido fluido de seda branca, seu chapéu grande de putaria e seus óculos escuros eram indicadores óbvios. Sem mencionar que sua postura tensa, agarrando a bolsa como um amuleto protetor enquanto olhava o balcão da recepção do saguão, passava uma impressão de vulnerabilidade e desespero.
Dudé por meio segundo… só o tempo suficiente pro meu cérebro processar que essa mulher precisava de ajuda na hora. Meus pés se mexeram antes que minha mente pudesse protestar, meus sapatos lustrosos fazendo clic contra o piso de mármore enquanto eu fechava a distância entre nós. De perto, os detalhes me acertaram como uma onda em câmera lenta: o jeito que os dedos dela tremiam contra a alça da bolsa, o jeito que o vestido de seda grudava levemente nas coxas dela na umidade do saguão.— Precisa de ajuda? — perguntei, com a voz baixa o bastante pra não assustar ela. — Você parece alguém que odeia portas giratórias…
A risada dela saiu como um soluço suave. Ela se virou, os óculos escuros escorregando pelo nariz o suficiente pra revelar olhos vermelhos. De perto, ela cheirava a frutas cítricas, talvez laranjas.
• Eu... sim... Talvez. — Hesitou, nervosa. Seu sotaque britânico marcado fazia com que soasse ao mesmo tempo cativante e elegante. Seus dedos se apertaram ao redor da alça da bolsa. — Acho que meu marido trabalha aqui. Ele se chama Reginald. Sei que está atuando como CEO interino... Desculpe, isso deve soar absurdo, mas parece que me tranquei para fora do meu quarto de hotel. Deixei minha carteira, meus cartões, meus documentos... e esta manhã, ele disse que estaria em reuniões de diretoria o dia todo... então entrei em pânico... e ele não vai sair por horas, e meu cartão de acesso ao hotel...Parou abruptamente, suas bochechas coraram e ela desabou em lágrimas. Uma única lágrima escorreu por sua bochecha (perolada, perfeita) antes que ela a pegasse com as costas da mão, num gesto que partiu meu coração um pouco.
Notei o jeito que sua garganta se contraía ao engolir. Notei o tremor em suas mãos. O saguão estava levemente quente, um resquício de verão no início de abril, mas ela não tremia de frio. Sua angústia tinha aquela qualidade particular, privada... do tipo que faz os espectadores desviarem o olhar, constrangidos, como se estivessem testemunhando algo que não deveriam.
— Então você se trancou para fora do quarto... — Deduzi, observando como seu lábio inferior tremia levemente, aquele tipo de movimento involuntário que denunciava mais exaustão do que desespero naquele momento.
Ela respondeu com um aceno trêmulo.
— E pra piorar, deixei meu celular carregando no quarto. Todos os meus documentos estão lá dentro! Não tenho nem dinheiro pra um táxi de volta!
Os dedos dela apertaram a alça da bolsa com mais força, o couro rangendo sob a pressão.Olhei pro relógio velho e fiel do meu pai. Minha hora de almoço tinha que acabar em catorze minutos. Catorze minutos pra decidir se vou vazar ou...
– Deixa eu me apresentar! – Falei, entrando no ritmo que usava pra acalmar chefes de obra nervosos. – Meu nome é Marco. Sou o Gerente Regional de Operações de Equipamentos de Mineração. Seu marido é o Reginald, né? Alto, careca, um pouco largo na cintura? Veterano da RAF?
A Celeste deu uma risada com a imitação que fiz do marido dela, mas quando mencionei que ele eraveterano, ela congelou.
• Você conhece ele? — Perguntou surpresa, os dedos relaxando ao redor da alça da bolsa pela primeira vez desde que eu tinha me aproximado dela.
A surpresa na voz dela carregava um fundo de algo mais: alívio, talvez, ou desconfiança. Não conseguia identificar direito. - Sim! - Respondi, feliz por ter acalmado ela. - Ele foi nomeado nosso CEO Interino pela sede na Inglaterra, já que a nossa CEO, Edith, foi afastada para descansar por três meses.
Os olhos cor de avelã da Celeste brilharam, a tensão nos ombros dela cedendo o suficiente pra eu reparar na curva delicada da clavícula dela por baixo da seda.
- Ah, graças a Deus! - Ela soltou, pressionando uma mão contra o peito… um gesto inconsciente que fez os peitos dela se erguerem levemente por baixo do tecido. - Já tava começando a sentir que tinha entrado num labirinto corporativo onde ninguém nunca tinha ouvido falar dele!
Celeste respirou fundo, ajeitou a roupa e falou.
- Você se importaria de me mostrar onde fica o escritório dele? - Perguntou, com olhos grandes feito uma putinha perdida encontrada na chuva.
Não soube o que dizer. Sabia que o Reginald podia estar trabalhando no 17º andar, mas quase nunca vou lá a menos que seja pra reuniões do conselho ou pra ver a Edith ou a Maddie do RH, que dividiam o mesmo escritório. Na real, me fez pensar onde o Reginald podia estar trabalhando, já que não achava que a Maddie trabalhava sossegada sozinha com um cara mais velho e maior, ex-militar.
- Não tenho tanta certeza. — respondi, sentindo o calor subir pelo meu pescoço enquanto esfregava a nuca. — Eu trabalho no 12, e seu marido provavelmente está no 17. Mas não podemos ir andando de andar em andar perguntando se o Reginald trabalha ali. E entre nós, pelo que vi do seu marido, pode ser que ele não goste de ser pego assim no meio de uma reunião. Que tal irmos comer alguma coisa melhor? Tem um café ali na esquina… bons bolos, café melhor. Primeiro a gente te acalma um pouco…Celeste imediatamente corou, os dedos apertando a alça da bolsa de novo… aquele tique nervoso dela.
• Ah, não poderia! — murmurou, olhando para o vestido como se de repente se sentisse envergonhada. — Quer dizer, é terrivelmente gentil da sua parte, mas… com certeza você tem trabalho pra voltar, né?
De repente, o ronco do estômago de Celeste ecoou entre nós mais alto que o jazz ambiente do saguão. Era um daqueles roncos profundos, cavernosos, que não dava pra ignorar… do tipo que sugeria refeições puladas, mais do que simples fome. O rubor de Celeste se espalhou das bochechas até o delicado V da clavícula, visível sobre o decote do vestido. Ela olhou para o chão de mármore como se pudesse engoli-la inteira, pressionando uma mão delicada contra o abdômen coberto de seda como se pudesse silenciá-lo retroativamente.
- Tá com fome? - Mantive minha voz neutra, mas o canto da minha boca tremeu. - Parece que seu estômago tá mais ligado nisso do que você…O rubor dela se aprofundou até igualar a placa de saída de emergência do saguão. Ela olhou pra cima através dos cílios úmidos.
• Eu... pode ser que eu tenha pulado o café da manhã. - Uma mecha solta de cabelo loiro-mel grudou na têmpora dela. - Meus planos eram sair pra explorar a cidade. Não queria incomodar o serviço de quarto.
Acenei com a cabeça em direção às portas giratórias.
- O Café fica a duas quadras pra leste. Os croissants de amêndoa e muffins de chocolate deles são um crime…!
Celeste hesitou. As sandálias dela (de tiras, nada práticas) arrastaram no mármore enquanto ela se mexia.
• Mas o seu trabalho…!
- Sim. Posso me atualizar mais tarde. - Toquei no meu relógio. - E ainda tenho catorze minutos de preguiça liberada!
Uma risada suave escapou dos lábios de Celeste: inesperada, genuína, o tipo de som que faz as pessoas virarem a cabeça em lugares públicos. A luz do sol que entrava pelas janelas do saguão pegou as partículas douradas nos olhos cor de avelã dela, transformando-os em mel derretido por um instante. Ela enxugou as bochechas com um nó dos dedos, deixando um borrão sutil de rímel perto da têmpora onde a maquiagem tinha escorrido.
Saímos pra fora. A mudança brusca do ar-condicionado estéril pro ar úmido da cidade fez Celeste ofegar… os ombros dela se erguendo instintivamente, dedos se agitando em direção à garganta como se a umidade pudesse sufocá-la. A luz do sol bateu no chapéu de palha dela no ângulo perfeito, projetando sombras rendadas no rosto que mudavam como peças de quebra-cabeça a cada passo. Um caminhão de entrega passou rugindo, soltando fumaça de diesel grossa o bastante pra sentir o gosto. Ela torceu o nariz (um reflexo inesperadamente fofo) e eu me peguei sorrindo.
- Também não é de Melbourne! - observei enquanto Celeste agitava uma mão. Na frente do rosto dela, a fumaça de diesel ainda grudada no ar úmido.
Ela me lançou um olhar (meio exasperado, meio divertido) e eu notei como a luz do sol pegava as sardas espalhadas pelo nariz dela.
• Londres. — ela admitiu, desviando de uma rachadura na calçada manchada de chiclete com a precisão cuidadosa de alguém acostumado a navegar ruas da cidade com sapatos nada práticos.
A tira da sandália dela prendeu de leve no concreto irregular, fazendo ela cambalear... bem na hora que minha mão saiu instintivamente, os dedos roçando a seda quente do cotovelo dela. Ela não se afastou.• A transferência do Reginald foi... repentina. — As palavras saíram cortantes, como se ela tivesse ensaiado na frente do espelho.
A cobertura do café ondulou na brisa úmida como uma bandeira cansada, o tecido listrado projetando sombras de zebra no rosto da Celeste enquanto a gente se aproximava. Ela hesitou na porta... só o suficiente pra eu perceber como os dedos dela apertavam a alça da bolsa de novo... antes de entrar com a graça cuidadosa de quem entra num confessionário. O cheiro de manteiga dourada e espresso nos envolveu na hora, se misturando com o leve cítrico que ainda grudava na pele dela. O estômago da Celeste roncou de novo.
Lá dentro, a barista (Lena, mangas tatuadas, sempre cantarolando) levantou uma sobrancelha pra mim.
o De novo você? Duplo, com espuma extra?O olhar dela desviou pra Celeste, depois voltou pra mim, os lábios se curvando num sorriso sabido que fez meu pescoço ficar de repente apertado.
Eu assenti em resposta.
- Um croissant de caramelo, e?... - Olhei pra Celeste, que estudava o menu no quadro negro com a intensidade de alguém decifrando hieróglifos.
Os lábios dela se moviam em silêncio enquanto lia, a ponta da língua aparecendo pra umedecer o lábio inferior… um gesto distraído que mandou um arrepio inesperado por mim.
• Earl Grey, por favor! Com limão, se der! - pediu Celeste suavemente, os dedos traçando a borda do pires vazio como se mapeasse constelações.
Lena sorriu com sarcasmo.
o Bebedora de chá! Corajosa nesse bairro! - Enxugou as mãos no avental, olhos escuros alternando entre Celeste e eu com deboche escancarado. - Não recebemos muitos do seu tipo depois do meio-dia!
A gente ocupou o canto. Celeste sentou na beirada, o vestido caindo como creme derramado. A mesa balançou; o joelho dela bateu no meu. Ela se afastou bruscamente.
• Desculpa!...
- Piso antigo! - respondi, enfiando um guardanapo debaixo da perna curta.
O arranjo funcionou. Celeste soltou o ar: um suspiro pequeno e trêmulo que fez os ombros dela caírem uns centímetros. Ela afrouxou os dedos da alça da bolsa, deixando marcas em forma de meia-lua no couro.
Lena entregou nossos pedidos com um floreio debochado: o Earl Grey da Celeste numa xícara de porcelana delicada, meu espresso na caneca de cappuccino lascada. O vapor se enroscou nos dedos de Celeste enquanto ela segurava a xícara, as unhas delicadas batendo um ritmo silencioso contra a cerâmica. O aroma do chá se misturou com as bordas caramelizadas do croissant entre nós, gostoso e embriagador. Ela soltou uma lasca, camadas douradas se desmanchando entre os dedos, e fechou os olhos na primeira mordida. Uma única migalha se Grudou na curva do lábio inferior dela, brilhando.
Tomei meu café, vendo a Celeste perseguir a migalha com a língua: rápida, rosada e precisa como a de uma puta.
— Melhor? — perguntei, escondendo um sorriso atrás da xícara.
Ela assentiu, lambendo a migalha.
• Valeu. Por... — O gesto dela abrangeu o café, a pausa, o que a vergonha a fazia calar:não me deixar na mão.- Então me diz, como você percebeu que ficou de fora? - perguntei enquanto tomava meu café.
Celeste soltou um pequeno gemido antes de comer outra migalha de croissant, os dedos pairando perto dos lábios como se estivessem pegando palavras antes que pudessem escapar.
• Você vai pensar que sou uma tonta completa! - me avisou com seu delicioso sotaque, os dedos traçando a borda da xícara de chá como se tentasse lembrar o momento exato em que tudo deu errado. - Tinha planejado visitar o Flagstaff Gardens esta manhã… passeio longo, ar fresco… Quando percebi que tudo que tinha na minha bolsa era a minha maquiagem!
Ela disse de um jeito autocrítico e cheio de cor, não consegui evitar rir: aquela risada profunda e inesperada que faz doer as costelas de um jeito gostoso.• Exato! Caminhei do hotel até o parque e nem percebi que tinha esquecido minha carteira com identidade e cartões de crédito. Pra piorar, deixei meu celular carregando bem do lado. Como você chama isso? — perguntou com um sorriso, os dedos tirando migalhas imaginárias do vestido de seda.
Eu ri de novo, mas aí me toquei...
• Espera! Então você andou daí até aqui? — perguntei, impressionado.
Nosso escritório corporativo ficava perto do Royal Park, então a caminhada dela tinha sido de pelo menos uns quilômetros. Celeste assentiu, os olhos castanhos arregalados e as bochechas coradas enquanto bebia o chá: rápido demais, pelo jeito que os olhos dela se abriram com o calor.
• Bom, o Reggie me mostrou onde ficava o escritório no mapa, e quando percebi que estava completamente na mão, lá fora feito uma puta de rua, pensei que bem que podia vir andando até aqui. — respondeu com um suspiro, girando os ombros de um jeito que fez a seda sussurrar contra a pele dela. — Sinceramente, esperava conhecer Melbourne, mas minhas pernas agora tão dizendo: Não, valeu!
O ventilador de teto do café rangeu preguiçosamente, empurrando ar quente pelas têmporas suadas de Celeste. Lá fora, um bonde chiou nos trilhos: um gemido metálico que fez ela estremecer. Ela esfregou a panturrilha através da seda do vestido, fazendo careta.
• Seus pés devem estar um massacre! — exclamei, olhando as sandálias de tiras dela.
A fivela esquerda tinha roçado o peito do pé dela até deixar em carne viva; um tom avermelhado de irritação brotava debaixo da tira fina.
Celeste mexeu os dedos debaixo da mesa com uma careta, o movimento mandando uma pequena avalanche de migalhas de croissant desabando no chão de azulejo.
• Usei elas em festas nos... Jardins de Chelsea. — confessou, girando o tornozelo com cuidado. O movimento fez a área irritada sob a tira brilhar levemente sob a luz do teto do café. — Mas os quilômetros de asfalto são... diferentes.
Lena largou um copo d'água ao lado do chá de Celeste. A condensação escorria pelos lados como gotas em corrida. Celeste bebeu metade de um gole, a garganta trabalhando em sorvos rápidos que faziam os delicados buracos sob sua mandíbula se tensionarem visivelmente. Uma única gota escapou do canto dos lábios, traçando um caminho lento pelo pescoço antes de sumir sob o decote do vestido.
— Você andou todo esse caminho debaixo do sol! — observei, vendo a garganta de Celeste enquanto ela esvaziava o resto da água. — Desidratada, faminta... não é à toa que parecia um fantasma no saguão.
A risada de Celeste foi metade envergonhada, metade aliviada. Ela puxou a manga aquecida pelo sol.
— Acho que devo ter sido um belo espetáculo. Vestido branco, chapéu grande... bem “Perdido na Tradução- Mais pra “Feriado em Roma”. — retruquei. — Mas com menos passeios de Vespa.
O sorriso dela suavizou com nosso conhecimento cinematográfico mútuo. Ela rasgou outro pedaço de croissant, dessa vez mergulhando no chá. As camadas amanteigadas se dissolveram nas bordas.
• Você é gentil! — admitiu por fim. — Os colegas do Reggie geralmente só... me toleram.
Agitei o resto do meu café. Os grãos grudaram na porcelana.
— Por quê?
Celeste hesitou. Uma sirene uivou perto do café... duas ruas adiante, sumindo rápido. Ela observou ela ir embora, os dedos apertando a xícara até os nós dos dedos empalidecerem contra a porcelana.
• Sou... incidental! – confessou por fim, traçando um anel molhado deixado por sua xícara de chá.As palavras saíram calmas, quase clínicas… como se tivesse ensaiado elas em espelhos de banheiro de hotel.
• A ‘convidada’ do executivo. A maioria da equipe dele acha que sou só enfeite.
O olhar de Celeste desviou pro relógio em cima do balcão. Os ombros dela ficaram tensos.
• Você tá atrasado! – exclamou de repente, os dedos apontando pro relógio como se ele tivesse ofendido ela pessoalmente.
Olhei pro meu relógio. Quatro minutos passados das duas.
- A Edith tá fora. E eu tenho meu próprio horário.
Celeste mordeu o lábio.
• Mas...
Os dedos dela torceram o guardanapo numa espiral apertada, o papel rasgando um pouco com a pressão. A luz do teto do café pegava as partículas douradas nos olhos castanhos dela enquanto eles pulavam entre meu rosto e a porta, calculando, incerta.
- Celeste! – Esperei até nossos olhos se encontrarem, vendo como a luz fraca do café capturava as partículas douradas nos olhos castanhos dela como tesouros enterrados. – Você tá presa fora do quarto do hotel! Sem celular! Sem carteira! Sem documento!
Os dedos dela apertaram a xícara de chá… um gesto reflexo que fez a aliança de casamento brilhar fraco sob a luz do teto.
- Mesmo que eu te levasse pra cima agora… – continuei suave. – O Reginald tá em reuniões seguidas.
As unhas dela bateram na xícara com impaciência, a porcelana frágil tilintando como um alarmezinho a cada toque inquieto enquanto ela se preocupava comigo.
• Não posso simplesmente...
- Na verdade, tô me perguntando por que você não voltou pro hotel. – interrompi. Meus dedos bateram na borda da minha xícara de café, deixando marcas de dedo fracas no esmalte. – Podia ter esperado o Reginald lá. O pessoal talvez te ajudasse...
Celeste me olhou com uma expressão entre desafio e derrota, os dedos torcendo o guardanapo em espirais mais apertadas.
• É, bem, me imagina sentada no saguão o dia inteiro esperando o Reginald como uma vagabunda perdida. – As palavras saíram rápido, o sotaque dela engrossando com a frustração. Depois, ela baixou o olhar envergonhada, o chapéu de punheta jogando uma sombra que escondeu o rosto dela por um momento. — Além disso...
Ficou em silêncio por quase vinte segundos.— Sim? — perguntei, esperando o resto.
Celeste respirou fundo, enchendo-se de coragem como uma mergulhadora prestes a se jogar em águas geladas. O barulho do café (xícaras tilintando, o zumbido desafinado da Lena) pareceu sumir quando ela se inclinou pra frente, o vestido de seda roçando o vinil do banco.
• É bem difícil explicar que o código de seis dígitos da porta do quarto é o aniversário do meu marido... — Os dedos dela pairaram perto da garganta, traçando o colar ausente que talvez ela tivesse usado. As pintinhas douradas nos olhos castanhos se apagaram enquanto os cílios baixavam. — ...E depois admitir que não lembro a data.
A confissão escapou como uma moeda de prata, rolando entre nós com um tilintar silencioso e condenatório.
O silêncio entre nós ficou pesado: aquele tipo de pausa onde você ouve os cubos de gelo quebrando no copo de alguém. Mexi meu café distraidamente, vendo os restos grudarem na porcelana. O aniversário da minha esposa é o mesmo que nosso aniversário de casamento. Nunca esqueci, sempre conferi três vezes. A ironia tinha um gosto amargo na minha língua.
Celeste e eu continuamos conversando, com ela reclamando na maior parte do tempo da solidão dela em Melbourne. Como era de se esperar, já que o Reginald mantém uma agenda frenética, não sobra tempo pra ela explorar a cidade, e agora que finalmente está livre, acaba presa fora do hotel, sem telefone, cartão-chave ou dinheiro nenhum, transformando meu convite pra um café numa das experiências mais agradáveis de toda a viagem dela.Mas enquanto ela falava, minha mente continuava trabalhando: como é que eu consigo o aniversário do Reginald? As soluções óbvias (redes sociais, registros públicos) eram inúteis. Reginald me parecia do tipo que mantém a pegada digital dele mais trancada que cofre de banco. Aí caiu a ficha: o diretório interno da empresa. O perfil de cada funcionário incluía o aniversário pra fins de RH, completo com aqueles lembretes automáticos insuportáveis que entupiam sua caixa de entrada todo mês.
— Espera aí!... Quantos anos o Reginald tem? — A pergunta saiu mais cortante do que eu pretendia.
A surpresa da minha pergunta fez a Lena olhar da máquina de espresso, com a sobrancelha levantada, interrompendo o lamento da Celeste sobre o clima imprevisível de Melbourne.
Celeste piscou, confusa.
— Meu marido?
— Sim! Quantos anos ele tem? — insisti, meus dedos apertando a xícara de café como se a resposta estivesse gravada na porcelana.
Expliquei sobre o diretório interno: como o perfil de cada funcionário incluía o aniversário pra fins de RH. Celeste (e a Lena) me olharam pasmas, as expressões idênticas (lábios levemente separados, sobrancelhas erguidas). Os dedos da Celeste voaram pro peito dela, a seda do vestido farfalhando suavemente.
Felizmente, a Celeste lembrava da idade dele. Chamei a Lena... os braços tatuados dela se cruzando enquanto se apoiava na nossa mesa com um entretenimento nada disfarçado. Ela deslizou a conta virada pra baixo na minha direção, a sobrancelha se erguendo ao ver minhas bochechas coradas. Celeste.Piscadinha especialincluído.
O recibo veio dobrado em volta de uma bala de menta (o jeito clássico da Lena), mas dessa vez, escondido dentro, estava o número dela rabiscado. Guardei no bolso sem comentários, embora os cílios da Celeste tenham baixado como se ela tivesse visto. A porta do café tilintou na nossa saída, a campainha soando estranhamente final enquanto eu levava a Celeste de volta pro hotel dela.Acontece que a Celeste estava hospedada no Hyatt de Melbourne, um lugar que eu e minha esposa Marisol conhecíamos muito bem. As portas giratórias do Hyatt prenderam o vestido da Celeste por um segundo angustiante (a seda enganchando na borda de latão) antes do mecanismo avançar bruscamente, nos jogando no saguão climatizado com ela tropeçando em cima de mim. O ombro dela pressionou quente através da manga da minha camisa, o aroma cítrico dela se intensificando com a adrenalina. Os pisos de mármore ecoaram nossos passos em ritmo desigual; as sandálias dela batiam erraticamente como código Morse enquanto meus sapatos caíam na marcha firme de sempre.
A recepcionista (vinte e poucos anos, com um crachá que diziaSophie) ergueu os olhos do monitor com o sorriso ensaiado de alguém pago pra fingir interesse.
❤️ Bem-vindos ao Hyatt! - O olhar dele varreu a seda amassada da Celeste e minha gravata frouxa antes de se fixar numa neutralidade profissional. - Em que posso ajudar?
Os dedos da Celeste cravaram no meu antebraço, as unhas marcando meias-luas no tecido da minha manga.
• Eu... meu cartão de acesso...
O sussurro dela mal dava pra ouvir por cima do jazz ambiente no saguão, mas o nervosismo nele era inconfundível... daquele que faz o pessoal do hotel alcançar os botões de pânico escondidos.
Expliquei a situação com mais calma. A recepcionista ouviu e nos olhou incrédula. Mas ajudou ver o vestido chique da Celeste e meu terno executivo da empresa. Ela nos levou até o quarto da Celeste. Nós dois cruzamos os dedos mentalmente enquanto ela digitava o código. Quando a porta abriu, soltamos um suspiro de alívio. A Celeste até encheu os olhos de lágrimas. Agradeci e dei uma gorjeta pra recepcionista, e a Celeste me pediu pra entrar.Celeste encontrou a carteira, o cartão-chave e o celular, tudo arrumadinho em cima de uma mesa. Tristemente, a última mensagem do Reginald era desanimadora:Ficando até tarde de novo. Jantar sem mim.
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