3. Tem Buraco Mais Fundo Que Outro.Ficamos mais de três horas naquele café batendo papo naquela tardinha que virou noite. Cristina me contou de outro cara com quem ela ficou por um tempo, depois do Martín, o eletricista. Não ficou muito tempo se vendo (na verdade, levando ele pra casa). Ela disse não mais que três meses, eu acreditei.
De novo era um cara mais novo que ela, me disse uns 28 anos. Chamava Esteban e trabalhava como repositor num supermercado grande que a Cristina às vezes ia. A gente pensa como é que se começa um relacionamento quando uma pessoa vai comprar geleia de pêssego e não acha. Como se passa disso a trepar por três meses. Cristina não me deu muitos detalhes.
O cara atraiu ela quando o viu uma vez que foram ao supermercado, e como já não se via com o eletricista há um tempo, tava coçando bastante o tesão. Puxaram conversa, uma coisa levou à outra e rolou. O que ela me disse foi que se sentiu não decepcionada com o cara, mas meio que a quentura passou rápido. Não tinha sido, ela disse, como o que teve com o Martín, o eletricista, que até a última vez que se viram Cristina curtiu. Não. Parece que desse cara o brilho foi embora rápido. Talvez por isso, ela pensava, não duraram muito.
Depois disso a gente começou a falar de outras coisas, também pessoais dela, que não vêm ao caso e não acrescentam muito a essa história, então não vou contar. Não têm muito a ver. Aí terminou nosso encontro.
A Cristina fez bem essa conversa e ter conseguido contar, se confessar, se quiser, com alguém de confiança. No final, notei ela mais relaxada, mais leve. Como se tivesse tirado o peso que carregava. Claro que não a julguei, e isso foi o certo a fazer: não tínhamos nos encontrado pra eu julgar o que ela fez, nem ela tava procurando isso. Ela só precisava ser ouvida e eu fui o que tinha que ser. O amigo que a ama e a ouviu. Só isso.
A gente se despediu. Ela disse que tinha mais coisas pra contei, eu ri e falei pra ela que pra uma noite e uns cafés dava pra mim. Que com tudo que ela tinha me contado já bastava na minha cabeça, mas que não tava julgando ela. A única coisa que fiz foi lembrar ela mais uma vez da puta enrascada que ela tinha se metido, principalmente pensando no Emiliano e no casamento dele. O que ela fez (e ainda tava fazendo, segundo ela) não era sustentável de jeito nenhum e uma hora ia dar merda.
Depois disso, não vi nem soube mais dela por mais de um mês. Ela não apareceu num encontro de amigos que a gente fez, falou que não dava, que tinha outro compromisso. Também perdeu o contato mais ou menos diário que a gente tinha no nosso grupo do WhatsApp. Não era estranho por si só; não é que a gente tava falando o tempo todo, todos os dias. Às vezes alguém sumia por uns dias, mas a ausência da Cristina, sabendo o que eu já sabia, me chamou a atenção.
Uns quarenta e cinco dias depois daquele encontro no café, liguei pra ela pra ver como tava. Ela atendeu de boa, achei ela normal, como sempre. Falou que tava muito ocupada com coisas do trabalho. Perguntei discretamente sobre o outro assunto e ela riu. Disse que tava de boa com aquilo. Que ia me contar quando a gente se visse. Falei de marcar outro café, se ela quisesse, ou o que ela preferisse, se precisasse conversar e desabafar. Ela disse que sim, que ia me avisar.
E ficou por isso. Cristina sumiu de novo por mais um mês, mais ou menos. Postou umas bobagens no WhatsApp e nada mais. Aí esperei um tempo razoável e liguei de novo, já tinham passado mais de três meses desde nossa conversa no café. Falei de nos vermos de novo e ela topou.
Dessa vez, falei pra ela não encher o saco de eu ir pra onde ela morava, que ela viesse pro meu lado e a gente fosse jantar num restaurantezinho da minha área. Que eu pagava. Ela topou de boa e a gente marcou pra uma sexta.
Quando a gente se encontrou naquela noite, achei ela bem. Sentamos, conversamos, pedimos a comida. Tudo normal. Perguntei por que Tinha sumido esses meses, já quase três. No começo não queria me contar, mas como sempre, tive que convencer ela. Finalmente, depois do almoço, ela se soltou e a gente conversou mais de boa sobre o assunto.
“Olha, Murcie… a real é que, além de toda a correria do consultório e tal, tive uns problemas com… bom, com aquilo outro. Você sabe. Por isso fiquei sumida”, ela me disse.
“Aquilo outro da parte do Emiliano? Descobriu tudo?”, perguntei.
Ela negou, “Não, ele ainda não sabe. Acredita? Dois anos nessa e ele nem percebe. Inacreditável”, falou, mas percebi que ela tava pouco se fodendo se o marido descobrisse naquela altura. Ou que, se ele descobrisse e tudo explodisse, também cairia bem. Esse tipo de atitude.
“O que rolou com aquilo outro?”
“Uff… teria que te contar a história desde o começo”, ela riu.
“Então fala, porra. O que a gente tem pra fazer? Nada. Tô te ouvindo.”
Ela sorriu de leve, “Ah, tá… vou ver como resumir pra você… não sei até onde você sabe, até onde te contei.”
“Você tinha me falado do eletricista e do cara do supermercado.”
Ela riu, “Uh… lá atrás. Bom, então. Depois daquele cara do super, que não durou muito, devo ter ficado uns três ou quatro meses sem fazer nada.”
“Fala sério.”
“Não, juro”, ela disse, “Quando acabou com o Esteban, falei pra mim mesma: ‘pronto, já matei a vontade, já era. Já fiz isso.’ Aquela parada ter acabado tão rápido talvez fosse um sinal. E na real, naquela época, também não tava afim. Como se já tivesse saciado a vontade, sabe.”
“Ok. Mas…?”, eu ri. Ela também.
“Mas é… não aguentei muito tempo também”, ela fez uma caretinha com os lábios, “Já no segundo mês ou algo assim de ‘não fazer nada’, a vontade voltou. Mesmo assim segurei, hein? Mais dois meses.”
“Uh, parabéns, gostosa. Quatro meses inteiros sem chifrar seu marido. Funcionária do mês”, eu ri.
“Cala a boca, babaca…”, ela riu.
“Então você voltou à ativa?”
“E… sim”, ela disse, “Umas quatro semanas e meia depois do Esteban, conheci um cara. Através da Laura, uma vez que eu…” Convidou pra casa onde se reunia com os amigos. Lembra da Laura?"
"Sim, aquela amarga. Lembro, tava naquele aniversário que você fez na sua casa", falei, lembrando da amiga ranzinza.
"Não é amarga. É divina, a Laura. Você é que não se dá bem com ninguém", ela riu.
"Beleza, então esse cara novo?"
Cristina suspirou, "Ufa… no começo até que foi bom, mas aos poucos foi virando um baita problema. Na real, o problema ainda me persegue até hoje…"
"É? O que aconteceu?"
Cristina deu um gole no café e começou, "Ele se chama Juan. O amigo da Laura. Conheci ele na reunião dela. A gente conversou, rolou uma química. Trocamos os números."
"Sabia que você era casada?", perguntei.
"Sabia. E não ligou. Ele também era casado."
"Puta que pariu, o clube do adultério…", comentei.
"Não seja mau."
"Não tô sendo mau! Mas, burra… como vocês tão no fogo!", eu ri.
"E é, sei lá…", deu de ombros, "O negócio é que a gente marcou de se ver outro dia. Não sei o que ele disse pra esposa, não perguntei. Mas a gente se viu de novo. De novo, rolou uma química da porra naquela noite."
"Como ele é?"
"É só uns anos mais novo que eu. É programador num estúdio que faz coisas pro exterior. Ele se dá bem. Alto, magro, carinha bonita… conhecendo ele melhor, percebi que ele tinha um gênio meio bosta, mas comigo sempre foi super de boa."
"Tá"
"Na cama também, muito bom", ela riu meio triste, "Bom, naquela noite do segundo encontro, o Emiliano tava em casa, senão eu teria chamado ele pra vir. Enfim, a gente acabou num hotel. Não a noite toda, mas a gente tirou um turno. Foi gostoso."
"Até aí não vejo o problema", falei.
"Não, até aí tudo bem", ela concordou, "Aqueles primeiros meses. Quando eu conseguia dar um jeito do Emiliano não estar, ele vinha pra cá e a gente se esfregava gostoso."
"Ahã. Te parabenizo", fiz cara de cu.
Ela riu, "Não tô me gabando! É a verdade! Quer que eu conte ou não?"
"Sim, sim, fala…
Cristina sorriu, “Eu adorava transar com ele. Não fazia nada de estranho, era de boa, mas comia bem. Eu gostava pra caralho. Sabe… dar prazer pra ele. E ele me dar também.”
“E aí você voltou pros velhos hábitos”, falei.
“É. Me senti bem de novo. Descobri que essa história de abstinência não é pra mim. Ou pelo menos, não é mais.”
“Mas o que você curte, o que te excita? O perigo de estar fazendo isso? A parada do adultério?”, perguntei.
Ela pensou um pouco, “Pode ser. Mas é isso e mais um monte. Claro que isso tá sempre ali. Dá uma pitada de perigo que é uma delícia. Mas pra mim é mais que isso, muito mais.”
“Tipo o quê?”
“Bom, te falei da outra vez. É como… como se eu me sentisse uma *slut*. Uma piranha, sabe. Saber que eu tô com uns caras assim, que é só pra transar. Me sentir desejada pra caralho. Amo isso.”, ela riu.
“Bom, tem mulher que curte essa parada de se sentir piranha. Na intimidade, mesmo que não fale em voz alta. Tem de tudo. Você com certeza é dessas”, falei.
“Murcie, eu definitivamente sou dessas. E pensar que descobri isso tão tarde na vida”, ela riu, “Não é só a parada do adultério, chifre e tal. É o que te falei… se sentir desejada. Um cara precisar aliviar a vontade comigo. Que me use… não sei se é essa a palavra, não sei… mas, é, sei lá, que me use um pouco. Eu curto pra caralho. Não é uma perversão.”, ela me olhou.
“Nunca falei que era”, respondi.
“Não tô em nada estranho. Digo, perversões sexuais e tal”, ela esclareceu.
Dei de ombros, “E eu tô pouco me fodendo se você tivesse nessa. O que excita um é o que excita e pronto.”
“Claro. Você entende.”, ela sorriu pra mim.
“Beleza, e o que mais com esse cara?”, perguntei.
Vi que a cara dela mudou um pouco, “Olha, no começo foi muito bom, mas depois foi desmoronando tudo. A gente ficou se vendo por uns meses, quase seis, até que eu terminei.”
“Porra, foi você quem cortou a parada?”, perguntei meio surpreso.
Cristina concordou, “É, já não dava mais.” “Por que será que eu fiz isso…”
“Mas o que que tava rolando?”
“Olha, nas duas primeiras vezes que a gente transou, foi super bom. Na terceira, ele já começou a se preocupar e ficar chato, e eu não queria… e…”
Eu cortei ela: “Para, Cris… não tem nada de errado no que ele fez.”
“Não tô dizendo que era errado, mas não era o que eu queria e procurava”, ela respondeu.
“Você queria assim, na cara e na coragem?”, eu ri um pouco.
“Claro. Era uma das coisas que mais me excitava em ficar com caras assim”, ela disse, “Não é que eu não curtia quando ele colocava camisinha, mas eu sempre sabia, tinha na cabeça, que podia estar curtindo muito mais…”
“De novo, eu tô do lado do cara”, falei honestamente, “É justo ele ter usado.”
Cristina franziu a testa pra mim, “É, ‘justo’ entre aspas. Não tô dizendo que não. Mas não era o que eu procurava.”
“O que você procurava?”
“Procurava… sentir os caras sem aquilo”, ela me disse.
Eu olhei pra ela, “Tipo… cê tá me dizendo, sem falar, que tava querendo engravidar de algum.”
Ela me encarou por um tempão até que finalmente falou baixinho, “... sim e não?”
“Não, burra, não tem ‘sim e não’ nisso. Ou engravida ou não. Ou cê tá atrás disso ou não”, rebati.
“Uffff…”, ela reclamou, “Bom, talvez sim. Mas o que eu tô dizendo é que não era só isso, o fato de engravidar. Eu queria também… sei lá. A sensação mais gostosa, o contato mais natural, o perigo, tudo isso. Se eu engravidasse era um bônus.”
Eu olhei pra ela, “Cê percebe que é toda doida, né?”, ri pra suavizar o que tava falando, que era verdade.
Ela também sorriu, “Sim, Murcie, mas ufff… cada louca com sua mania, né?”
“Porque é super certo o cara querer se cuidar, ainda mais sabendo que ele era casado também”, falei, “É o mais lógico.”
Cristina concordou, “Sim, na verdade era o que ele me dizia. Que por isso que colocava, não por outro motivo. Tava muito noiado com essa parada. Mas enfim, essa foi a primeira. A primeira de muitas coisas que começaram a me foder e estragar tudo.”
“O que mais aconteceu?”, perguntei.
“Nada. De tudo. Cada vez que a gente se via ele ficava mais chato.”
“Em que sentido?”
“No sentido que começava com que me queria, que me amava, que queria que eu largasse o Emiliano e ele largasse a mulher dele… o cara se apaixonou feio. E eu ficava com um pé atrás com tudo isso.”
“Entendo…”, concordei.
“Murcie, eu só queria transar. Nada mais. Não tava atrás de me apaixonar por ninguém, um novo projeto de vida… nada.. Mas parece que eu flechei ele ou algo assim. O cara ficava bem mal quando eu dizia que não queria saber disso.”
“Ele queria muito mais, você não…”
“Exato”, ela disse, “Mas se Passou do ponto... ficou obcecado. Me enchia de mensagem o dia inteiro, pra saber o que eu tava fazendo, com quem eu tava, se eu queria encontrar com ele, que ele queria me ver... toda essa história."
"Complicado. Bom, digo, complicado no sentido de que não era compatível com o que você queria", falei, "Talvez se você também tivesse procurando isso, teria sido legal, se o cara te agradasse."
"É, pode ser...", ela respondeu, "No fim, passaram meses, sabe, a gente se via, sexo, tudo certo. Mas sempre tinha esse assunto e o comportamento dele. Cada vez pior. Até que um dia eu falei que já era, que não queria saber de mais nada. Que tudo bem, foi bom, valeu, mas até aí eu ia."
"E como ele lidou com isso?", perguntei.
Cristina deu um gole no refrigerante que ainda tinha e me olhou, "Que nem um bosta, Murcie. Ficou pior."
"Pior como?"
"Tipo, começou a me stalkear pra valer. Por telefone e pessoalmente. Às vezes aparecia no consultório e, por sorte, como a Lilita é quem atende a porta, sempre falava que eu não tava. Nunca teve coragem de vir tocar a campainha em casa, ainda bem, mas me seguia. Um horror.", ela disse.
"Ufa, chato pra caralho."
"É...", suspirou triste, "Na verdade, ainda tô com esse problema. Agora deu uma aliviada, graças a Deus, mas ainda me manda mensagem de vez em quando, que quer me ver, essas coisas."
"E por que você não bloqueia ele?", perguntei.
"Porque, sinceramente, tenho medo de que, se eu bloquear, ele piore e apareça em casa, ou fique plantado no consultório até eu aparecer, ou sei lá o que ele é capaz de fazer", ela disse.
"Tá certo, mas essa situação não é sustentável."
"E não é. Por isso que falei que tava com problemas."
"Você não pode ficar lidando com isso o tempo todo", falei.
"Não, eu sei que não. Mas..."
Vi que ela ficou em silêncio e olhou pra fora, pra rua, pela janela.
"Mas o quê?", perguntei. Nada. Continuava calada. "Ei... nena...", chamei a atenção dela.
Ela me olhou e disse baixinho, "Aconteceram coisas desde então, Murcie."
"Não me assusta", falei, "Que coisas?"
Foi aí que quando ela sorriu docemente pra mim, "Não, fica tranquilo. Coisas boas. Coisas lindas. Conheci outra pessoa."
"Outra pessoa? Quem?"
"Não importa quem. Mas já faz cinco meses que a gente tá se vendo.", ela continuava sorrindo. Aquele sorrisinho eu já conhecia.
Era o sorrisinho de uma mulher apaixonada.
De novo era um cara mais novo que ela, me disse uns 28 anos. Chamava Esteban e trabalhava como repositor num supermercado grande que a Cristina às vezes ia. A gente pensa como é que se começa um relacionamento quando uma pessoa vai comprar geleia de pêssego e não acha. Como se passa disso a trepar por três meses. Cristina não me deu muitos detalhes.
O cara atraiu ela quando o viu uma vez que foram ao supermercado, e como já não se via com o eletricista há um tempo, tava coçando bastante o tesão. Puxaram conversa, uma coisa levou à outra e rolou. O que ela me disse foi que se sentiu não decepcionada com o cara, mas meio que a quentura passou rápido. Não tinha sido, ela disse, como o que teve com o Martín, o eletricista, que até a última vez que se viram Cristina curtiu. Não. Parece que desse cara o brilho foi embora rápido. Talvez por isso, ela pensava, não duraram muito.
Depois disso a gente começou a falar de outras coisas, também pessoais dela, que não vêm ao caso e não acrescentam muito a essa história, então não vou contar. Não têm muito a ver. Aí terminou nosso encontro.
A Cristina fez bem essa conversa e ter conseguido contar, se confessar, se quiser, com alguém de confiança. No final, notei ela mais relaxada, mais leve. Como se tivesse tirado o peso que carregava. Claro que não a julguei, e isso foi o certo a fazer: não tínhamos nos encontrado pra eu julgar o que ela fez, nem ela tava procurando isso. Ela só precisava ser ouvida e eu fui o que tinha que ser. O amigo que a ama e a ouviu. Só isso.
A gente se despediu. Ela disse que tinha mais coisas pra contei, eu ri e falei pra ela que pra uma noite e uns cafés dava pra mim. Que com tudo que ela tinha me contado já bastava na minha cabeça, mas que não tava julgando ela. A única coisa que fiz foi lembrar ela mais uma vez da puta enrascada que ela tinha se metido, principalmente pensando no Emiliano e no casamento dele. O que ela fez (e ainda tava fazendo, segundo ela) não era sustentável de jeito nenhum e uma hora ia dar merda.
Depois disso, não vi nem soube mais dela por mais de um mês. Ela não apareceu num encontro de amigos que a gente fez, falou que não dava, que tinha outro compromisso. Também perdeu o contato mais ou menos diário que a gente tinha no nosso grupo do WhatsApp. Não era estranho por si só; não é que a gente tava falando o tempo todo, todos os dias. Às vezes alguém sumia por uns dias, mas a ausência da Cristina, sabendo o que eu já sabia, me chamou a atenção.
Uns quarenta e cinco dias depois daquele encontro no café, liguei pra ela pra ver como tava. Ela atendeu de boa, achei ela normal, como sempre. Falou que tava muito ocupada com coisas do trabalho. Perguntei discretamente sobre o outro assunto e ela riu. Disse que tava de boa com aquilo. Que ia me contar quando a gente se visse. Falei de marcar outro café, se ela quisesse, ou o que ela preferisse, se precisasse conversar e desabafar. Ela disse que sim, que ia me avisar.
E ficou por isso. Cristina sumiu de novo por mais um mês, mais ou menos. Postou umas bobagens no WhatsApp e nada mais. Aí esperei um tempo razoável e liguei de novo, já tinham passado mais de três meses desde nossa conversa no café. Falei de nos vermos de novo e ela topou.
Dessa vez, falei pra ela não encher o saco de eu ir pra onde ela morava, que ela viesse pro meu lado e a gente fosse jantar num restaurantezinho da minha área. Que eu pagava. Ela topou de boa e a gente marcou pra uma sexta.
Quando a gente se encontrou naquela noite, achei ela bem. Sentamos, conversamos, pedimos a comida. Tudo normal. Perguntei por que Tinha sumido esses meses, já quase três. No começo não queria me contar, mas como sempre, tive que convencer ela. Finalmente, depois do almoço, ela se soltou e a gente conversou mais de boa sobre o assunto.
“Olha, Murcie… a real é que, além de toda a correria do consultório e tal, tive uns problemas com… bom, com aquilo outro. Você sabe. Por isso fiquei sumida”, ela me disse.
“Aquilo outro da parte do Emiliano? Descobriu tudo?”, perguntei.
Ela negou, “Não, ele ainda não sabe. Acredita? Dois anos nessa e ele nem percebe. Inacreditável”, falou, mas percebi que ela tava pouco se fodendo se o marido descobrisse naquela altura. Ou que, se ele descobrisse e tudo explodisse, também cairia bem. Esse tipo de atitude.
“O que rolou com aquilo outro?”
“Uff… teria que te contar a história desde o começo”, ela riu.
“Então fala, porra. O que a gente tem pra fazer? Nada. Tô te ouvindo.”
Ela sorriu de leve, “Ah, tá… vou ver como resumir pra você… não sei até onde você sabe, até onde te contei.”
“Você tinha me falado do eletricista e do cara do supermercado.”
Ela riu, “Uh… lá atrás. Bom, então. Depois daquele cara do super, que não durou muito, devo ter ficado uns três ou quatro meses sem fazer nada.”
“Fala sério.”
“Não, juro”, ela disse, “Quando acabou com o Esteban, falei pra mim mesma: ‘pronto, já matei a vontade, já era. Já fiz isso.’ Aquela parada ter acabado tão rápido talvez fosse um sinal. E na real, naquela época, também não tava afim. Como se já tivesse saciado a vontade, sabe.”
“Ok. Mas…?”, eu ri. Ela também.
“Mas é… não aguentei muito tempo também”, ela fez uma caretinha com os lábios, “Já no segundo mês ou algo assim de ‘não fazer nada’, a vontade voltou. Mesmo assim segurei, hein? Mais dois meses.”
“Uh, parabéns, gostosa. Quatro meses inteiros sem chifrar seu marido. Funcionária do mês”, eu ri.
“Cala a boca, babaca…”, ela riu.
“Então você voltou à ativa?”
“E… sim”, ela disse, “Umas quatro semanas e meia depois do Esteban, conheci um cara. Através da Laura, uma vez que eu…” Convidou pra casa onde se reunia com os amigos. Lembra da Laura?"
"Sim, aquela amarga. Lembro, tava naquele aniversário que você fez na sua casa", falei, lembrando da amiga ranzinza.
"Não é amarga. É divina, a Laura. Você é que não se dá bem com ninguém", ela riu.
"Beleza, então esse cara novo?"
Cristina suspirou, "Ufa… no começo até que foi bom, mas aos poucos foi virando um baita problema. Na real, o problema ainda me persegue até hoje…"
"É? O que aconteceu?"
Cristina deu um gole no café e começou, "Ele se chama Juan. O amigo da Laura. Conheci ele na reunião dela. A gente conversou, rolou uma química. Trocamos os números."
"Sabia que você era casada?", perguntei.
"Sabia. E não ligou. Ele também era casado."
"Puta que pariu, o clube do adultério…", comentei.
"Não seja mau."
"Não tô sendo mau! Mas, burra… como vocês tão no fogo!", eu ri.
"E é, sei lá…", deu de ombros, "O negócio é que a gente marcou de se ver outro dia. Não sei o que ele disse pra esposa, não perguntei. Mas a gente se viu de novo. De novo, rolou uma química da porra naquela noite."
"Como ele é?"
"É só uns anos mais novo que eu. É programador num estúdio que faz coisas pro exterior. Ele se dá bem. Alto, magro, carinha bonita… conhecendo ele melhor, percebi que ele tinha um gênio meio bosta, mas comigo sempre foi super de boa."
"Tá"
"Na cama também, muito bom", ela riu meio triste, "Bom, naquela noite do segundo encontro, o Emiliano tava em casa, senão eu teria chamado ele pra vir. Enfim, a gente acabou num hotel. Não a noite toda, mas a gente tirou um turno. Foi gostoso."
"Até aí não vejo o problema", falei.
"Não, até aí tudo bem", ela concordou, "Aqueles primeiros meses. Quando eu conseguia dar um jeito do Emiliano não estar, ele vinha pra cá e a gente se esfregava gostoso."
"Ahã. Te parabenizo", fiz cara de cu.
Ela riu, "Não tô me gabando! É a verdade! Quer que eu conte ou não?"
"Sim, sim, fala…
Cristina sorriu, “Eu adorava transar com ele. Não fazia nada de estranho, era de boa, mas comia bem. Eu gostava pra caralho. Sabe… dar prazer pra ele. E ele me dar também.” “E aí você voltou pros velhos hábitos”, falei.
“É. Me senti bem de novo. Descobri que essa história de abstinência não é pra mim. Ou pelo menos, não é mais.”
“Mas o que você curte, o que te excita? O perigo de estar fazendo isso? A parada do adultério?”, perguntei.
Ela pensou um pouco, “Pode ser. Mas é isso e mais um monte. Claro que isso tá sempre ali. Dá uma pitada de perigo que é uma delícia. Mas pra mim é mais que isso, muito mais.”
“Tipo o quê?”
“Bom, te falei da outra vez. É como… como se eu me sentisse uma *slut*. Uma piranha, sabe. Saber que eu tô com uns caras assim, que é só pra transar. Me sentir desejada pra caralho. Amo isso.”, ela riu.
“Bom, tem mulher que curte essa parada de se sentir piranha. Na intimidade, mesmo que não fale em voz alta. Tem de tudo. Você com certeza é dessas”, falei.
“Murcie, eu definitivamente sou dessas. E pensar que descobri isso tão tarde na vida”, ela riu, “Não é só a parada do adultério, chifre e tal. É o que te falei… se sentir desejada. Um cara precisar aliviar a vontade comigo. Que me use… não sei se é essa a palavra, não sei… mas, é, sei lá, que me use um pouco. Eu curto pra caralho. Não é uma perversão.”, ela me olhou.
“Nunca falei que era”, respondi.
“Não tô em nada estranho. Digo, perversões sexuais e tal”, ela esclareceu.
Dei de ombros, “E eu tô pouco me fodendo se você tivesse nessa. O que excita um é o que excita e pronto.”
“Claro. Você entende.”, ela sorriu pra mim.
“Beleza, e o que mais com esse cara?”, perguntei.
Vi que a cara dela mudou um pouco, “Olha, no começo foi muito bom, mas depois foi desmoronando tudo. A gente ficou se vendo por uns meses, quase seis, até que eu terminei.”
“Porra, foi você quem cortou a parada?”, perguntei meio surpreso.
Cristina concordou, “É, já não dava mais.” “Por que será que eu fiz isso…”
“Mas o que que tava rolando?”
“Olha, nas duas primeiras vezes que a gente transou, foi super bom. Na terceira, ele já começou a se preocupar e ficar chato, e eu não queria… e…”
Eu cortei ela: “Para, Cris… não tem nada de errado no que ele fez.”
“Não tô dizendo que era errado, mas não era o que eu queria e procurava”, ela respondeu.
“Você queria assim, na cara e na coragem?”, eu ri um pouco.
“Claro. Era uma das coisas que mais me excitava em ficar com caras assim”, ela disse, “Não é que eu não curtia quando ele colocava camisinha, mas eu sempre sabia, tinha na cabeça, que podia estar curtindo muito mais…”
“De novo, eu tô do lado do cara”, falei honestamente, “É justo ele ter usado.” Cristina franziu a testa pra mim, “É, ‘justo’ entre aspas. Não tô dizendo que não. Mas não era o que eu procurava.”
“O que você procurava?”
“Procurava… sentir os caras sem aquilo”, ela me disse.
Eu olhei pra ela, “Tipo… cê tá me dizendo, sem falar, que tava querendo engravidar de algum.”
Ela me encarou por um tempão até que finalmente falou baixinho, “... sim e não?”
“Não, burra, não tem ‘sim e não’ nisso. Ou engravida ou não. Ou cê tá atrás disso ou não”, rebati.
“Uffff…”, ela reclamou, “Bom, talvez sim. Mas o que eu tô dizendo é que não era só isso, o fato de engravidar. Eu queria também… sei lá. A sensação mais gostosa, o contato mais natural, o perigo, tudo isso. Se eu engravidasse era um bônus.”
Eu olhei pra ela, “Cê percebe que é toda doida, né?”, ri pra suavizar o que tava falando, que era verdade.
Ela também sorriu, “Sim, Murcie, mas ufff… cada louca com sua mania, né?”
“Porque é super certo o cara querer se cuidar, ainda mais sabendo que ele era casado também”, falei, “É o mais lógico.”
Cristina concordou, “Sim, na verdade era o que ele me dizia. Que por isso que colocava, não por outro motivo. Tava muito noiado com essa parada. Mas enfim, essa foi a primeira. A primeira de muitas coisas que começaram a me foder e estragar tudo.”
“O que mais aconteceu?”, perguntei.
“Nada. De tudo. Cada vez que a gente se via ele ficava mais chato.”
“Em que sentido?”
“No sentido que começava com que me queria, que me amava, que queria que eu largasse o Emiliano e ele largasse a mulher dele… o cara se apaixonou feio. E eu ficava com um pé atrás com tudo isso.”
“Entendo…”, concordei.
“Murcie, eu só queria transar. Nada mais. Não tava atrás de me apaixonar por ninguém, um novo projeto de vida… nada.. Mas parece que eu flechei ele ou algo assim. O cara ficava bem mal quando eu dizia que não queria saber disso.”
“Ele queria muito mais, você não…”
“Exato”, ela disse, “Mas se Passou do ponto... ficou obcecado. Me enchia de mensagem o dia inteiro, pra saber o que eu tava fazendo, com quem eu tava, se eu queria encontrar com ele, que ele queria me ver... toda essa história."
"Complicado. Bom, digo, complicado no sentido de que não era compatível com o que você queria", falei, "Talvez se você também tivesse procurando isso, teria sido legal, se o cara te agradasse."
"É, pode ser...", ela respondeu, "No fim, passaram meses, sabe, a gente se via, sexo, tudo certo. Mas sempre tinha esse assunto e o comportamento dele. Cada vez pior. Até que um dia eu falei que já era, que não queria saber de mais nada. Que tudo bem, foi bom, valeu, mas até aí eu ia."
"E como ele lidou com isso?", perguntei.
Cristina deu um gole no refrigerante que ainda tinha e me olhou, "Que nem um bosta, Murcie. Ficou pior."
"Pior como?"
"Tipo, começou a me stalkear pra valer. Por telefone e pessoalmente. Às vezes aparecia no consultório e, por sorte, como a Lilita é quem atende a porta, sempre falava que eu não tava. Nunca teve coragem de vir tocar a campainha em casa, ainda bem, mas me seguia. Um horror.", ela disse.
"Ufa, chato pra caralho."
"É...", suspirou triste, "Na verdade, ainda tô com esse problema. Agora deu uma aliviada, graças a Deus, mas ainda me manda mensagem de vez em quando, que quer me ver, essas coisas."
"E por que você não bloqueia ele?", perguntei.
"Porque, sinceramente, tenho medo de que, se eu bloquear, ele piore e apareça em casa, ou fique plantado no consultório até eu aparecer, ou sei lá o que ele é capaz de fazer", ela disse.
"Tá certo, mas essa situação não é sustentável."
"E não é. Por isso que falei que tava com problemas."
"Você não pode ficar lidando com isso o tempo todo", falei.
"Não, eu sei que não. Mas..."
Vi que ela ficou em silêncio e olhou pra fora, pra rua, pela janela.
"Mas o quê?", perguntei. Nada. Continuava calada. "Ei... nena...", chamei a atenção dela.
Ela me olhou e disse baixinho, "Aconteceram coisas desde então, Murcie."
"Não me assusta", falei, "Que coisas?"
Foi aí que quando ela sorriu docemente pra mim, "Não, fica tranquilo. Coisas boas. Coisas lindas. Conheci outra pessoa."
"Outra pessoa? Quem?"
"Não importa quem. Mas já faz cinco meses que a gente tá se vendo.", ela continuava sorrindo. Aquele sorrisinho eu já conhecia.
Era o sorrisinho de uma mulher apaixonada.
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