1- A pílula. Lucas, aos 17 anos, era o alvo perfeito. Magro, baixinho e com uma timidez que parecia um convite para certos tipos de gente. Ou, pra ser exato, pra uma pessoa: Fernando. Pro resto do colégio, Lucas era um zero à esquerda. Nem enchia o saco dele; simplesmente, ele não existia. Não chamavam ele pra grupos, não pediam os cadernos dele, o nome dele raramente era dito. Era um fantasma pro resto da escola. Mas pra Fernando, Lucas era o passatempo favorito. Naquele dia, o confronto foi no corredor, logo depois do sinal. "Bom dia, perdedor," disse Fernando, parando na frente dele com um sorrisão. O grupinho dele riu ao redor, formando um coro. Lucas tentou desviar, mas Fernando colocou o braço firme contra os armários, bloqueando o caminho. "Já vai com tanta pressa? A gente precisa conversar, fracote." O bafo dele cheirava a álcool. "Você me deve o dever de Química. E capricha, hein, não quero que esse seu cérebro patético me faça passar vergonha." Lucas, com o olhar fixo no chão, concordou em silêncio e tirou o caderno. As mãos tremiam um pouco. Não era medo físico, mas a raiva impotente de saber que não conseguia reagir, que não conseguia mudar aquela dinâmica. A aula de Educação Física foi só a continuação da humilhação. O professor Gilberto, um cara forte e obeso, mandou dar voltas na pista. "Os três últimos vão limpar o depósito!" gritou. Fernando, ao passar correndo do lado dele, não perdeu a chance. "Não se apressa, patético," sussurrou com desprezo. "Já sabemos que esse vai ser seu lugar." Lucas correu com toda a força, mas o corpo não aguentou. Não conseguiu cumprir as voltas, ofegante e com o rosto vermelho, sentindo o olhar do professor Gilberto que o examinava de cima a baixo com um tom de desaprovação. "Aaaah, nem conseguiu cumprir as voltas! Por isso que só você vai limpar o depósito. Você é patético mesmo!" Ao sair da escola, com o O eco dos insultos ainda ressoando nos seus ouvidos, Lucas caminhou pra casa de cabeça baixa. A raiva fervia por dentro, mas não tinha pra onde ir. E então ele a viu. Alondra. Ela estava do outro lado da rua, rindo com uma amiga. O sol refletia no cabelo dela, e a risada dela era o som mais puro que Lucas tinha ouvido o dia inteiro. Por um momento, os "perdedor", "fracote" e "patético" sumiram. Só existia ela. Aquele instante roubado, aquela olhada no sorriso dela, foi o único e pequeno tesouro do dia dele. A alegria durou pouco. Quando ele cruzou a porta de casa, o silêncio o recebeu como um soco. A casa estava vazia e escura, como quase sempre. Os pais dele, presos nos turnos intermináveis de trabalho, eram pouco mais que presenças passageiras. Desde que a irmã mais velha foi pra faculdade, a casa tinha perdido o último resto de calor. O quarto dela, agora sempre fechado, era um lembrete de tudo que já não estava mais ali. Lucas era o único na casa — um espaço que parecia ao mesmo tempo enorme e sufocante. A vida dele era isso: ser o saco de pancadas do Fernando, ser invisível pra todo mundo e voltar todo dia pra uma casa vazia. Naquela noite, na solidão do quarto dele, o desespero venceu. Ele ligou o computador e passou horas navegando sem rumo, procurando alguma solução pra miséria dele. Percorreu fóruns, leu conselhos inúteis, anúncios vazios. Bem quando ele ia desistir, alguma coisa chamou a atenção dele. Numa página pouco conhecida, apareceu um anúncio estranho que dizia: "Cansado de ser pisoteado? Força e confiança num comprimido. Envio discreto." Era loucura. Um golpe, com certeza. Mas ele olhou o reflexo dele no monitor: um fracote, um perdedor, um patético. Qualquer coisa, qualquer risco, era melhor do que continuar sendo aquilo. Com um nó na garganta, Lucas clicou em "Comprar". *Uns dias depois* A rotina cinza de Lucas foi interrompida por um pacotinho retangular na entrada da casa dele. Não tinha remetente claro, só o nome dele. nome e endereço. O coração dele bateu forte contra as costelas. Só podia ser uma coisa. Com a adrenalina bombando, ele levou rapidamente para o quarto, fechou a porta e abriu com mãos trêmulas. Dentro, tinha um pote de plástico opaco, liso e sem etiqueta. Não tinha nome, nem instruções, nem logotipo. Nada. Ao ver o pote, uma leve lembrança o assaltou: na foto do anúncio, os comprimidos vinham num pote com um logo de um raio. Isso era... diferente. Mas a emoção e o desespero abafaram aquela vozinha de alarme. "Talvez seja a apresentação genérica", ele mentiu pra si mesmo. Abriu o pote. Dentro tinha uma porrada de pílulas brancas e rosa. Sem pensar duas vezes, tomou uma com um gole d'água de uma garrafa que tinha na mesa de cabeceira. No começo, não sentiu nada. Um minuto. Dois. Uma onda de decepção começou a crescer no estômago dele. Tinha sido um golpe, afinal. E aí, bateu. Uma dor surda e ardente nasceu na boca do estômago, como se ele tivesse engolido uma colherada de lava. Lucas ofegou, levando as mãos pra barriga. O calor se espalhou rápido, um fogo líquido correndo pelas veias, queimando ele por dentro. Os ouvidos zuniam, a visão ficou turva com pontos brancos. Ele gritou, mas o som morreu na garganta. O mundo girou violentamente e a escuridão o engoliu. Caiu de costas na cama, desmaiado. Não soube quanto tempo passou. Minutos, talvez. Voltou a si com um suspiro, a mente afundada numa confusão densa. O corpo ainda tava quente, como se tivesse febre, mas a dor insuportável tinha sumido. No lugar, ele notou um peso estranho, uma densidade nos membros que não era dele. A roupa, um moletom folgado e uma calça jeans, apertava de um jeito desconfortável. Puxava nos ombros, comprimia o peito... O peito. Com um movimento desajeitado, Lucas olhou pra baixo. E viu duas curvas pronunciadas, macias e firmes, que enchiam e esticavam o tecido da moletom até formar duas protuberâncias enormes que não estavam ali antes. O pânico, frio e absoluto, o eletrocutou. Ele pulou da cama de uma vez, e a nova distribuição do peso o fez cambalear. Correu até o espelho grudado na porta, seus passos estranhamente diferentes. A imagem que refletiu nele o deixou paralisado. Ele não era mais Lucas. A pessoa no reflexo era uma mulher. Jovem, talvez da mesma idade que ele, mas com uma beleza de cair o cu da calça. Tinha o mesmo tom de pele e a cor dos olhos, mas agora eles pareciam maiores e mais expressivos. O cabelo preto era o mesmo, mas mais comprido e brilhoso, caindo sobre os ombros. E o corpo... o corpo dele era uma versão exagerada e voluptuosa da feminilidade. Uns peitos generosos e durinhos erguiam o moletom. O quadril tinha alargado, arredondando numa bunda enorme que esticava o tecido da calça jeans, e as coxas, agora grossas e fortes, se roçavam quando ele andava. "Q-que...?" foi a única coisa que conseguiu balbuciar com uma voz que não reconheceu, um tom mais suave e melodioso que o dele. A mente dele, anestesiada pelo choque, só conseguiu se agarrar a uma ideia: o comprimido. Virou e, com a falta de jeito de habitar um corpo novo, se jogou no computador. Ligou o monitor e procurou feito louco no histórico, achando a página do anúncio. "Cansado de ser pisoteado? Força e confiança em um comprimido." A foto mostrava um pote profissional com cápsulas vermelhas e azuis. Embaixo, uma descrição falava de "aumento de massa muscular" e "testosterona sintética". Nada. Não falava nada sobre... isso. Lucas olhou pro pote anônimo e branco que estava em cima da cama. Depois, olhou de novo pro reflexo de mulher no espelho. Ele não tinha recebido os comprimidos da força. Tinha tomado algo completamente diferente. Algo que tinha transformado ele nela. Andar em círculos pelo quarto não acalmou os nervos; só deixou mais evidente a realidade do corpo novo dele. A cada passo, um balanço involuntário e ondulante sacudia a peitos, um movimento alheio e hipnótico que sentia em cada fibra do seu ser. Foi então, ao passar na frente do espelho de novo, que notou os detalhes que o pânico inicial tinha escondido: as costuras da sua calça jeans, bem nas coxas e na bunda, estavam esticadas no limite, com fios brancos aparecendo. Já o seu moletom tinha virado uma peça justa que marcava cada curva, sufocando ele. Não dava pra ficar assim. Precisava de roupa que não o estrangulasse. A lembrança do quarto da irmã veio como uma tábua de salvação. Com cuidado, abriu a porta do próprio quarto e deu uma olhada no corredor. O silêncio da casa era profundo. Os pais ainda não tinham voltado. Respirou aliviado e se esgueirou até a porta fechada da irmã. Ao abri-la, o ar parado e meio empoeirado o recebeu. Tava tudo impecável, tipo um museu de uma vida que tinha pausado. A cama tava arrumada, os bichinhos de pelúcia organizados no travesseiro. Se sentiu um intruso, mas não tinha escolha. Sentou na beira da cama, tentando lembrar da risada da irmã, da presença dela, mas a mente dele tava nublada demais pelo caos do momento. Quando levantou os olhos, se deparou com ele: um espelho de corpo inteiro na porta do guarda-roupa. Ali estava ela, a estranha, encarando ele fixamente. Um nó se formou na garganta dele. Sabia o que tinha que fazer, mas a ideia apavorava ele. Nunca tinha visto o corpo nu de uma mulher, e a primeira vez... ia ser o meu. A ironia era tão absurda que quase quis rir. Com os olhos fechados, igual criança em filme de terror, começou a se despir. Primeiro o moletom, que deixou à mostra os ombros e a realidade pesada do peito dele. Depois, com dedos atrapalhados, desabotoou a calça jeans e tirou junto com a cueca, sentindo o ar frio em peles que nunca tinham ficado expostas. Finalmente, ficou completamente pelado na frente do espelho, com as pálpebras ainda seladas pelo medo. Respirou fundo e abriu os olhos. A realidade foi um baque. Ali não não restava nenhum vestígio de Lucas. Era uma mulher, por completo. A ausência do seu pau foi o detalhe que tornou tudo irrevogavelmente real. No lugar, estava a paisagem suave e estranha de uma buceta. Seus quadris, largos e generosos, emolduravam uma cintura que parecia fina por contraste. E seus peitos... eram duas montanhas firmes e pesadas que prendiam seu olhar. Ela girou devagar, com desejo. Sua bunda era redonda, grande e proeminente, uma curva poderosa que nunca imaginara possuir. A curiosidade, um impulso mais forte que a vergonha, venceu. Hesitante, levantou uma mão e colocou a palma sobre uma das nádegas. Era macia, incrivelmente macia, e com uma firmeza elástica que a fascinava. Deslizou a mão até os peitos, sentindo o peso. Eram grandes, pesados, e a pele era como seda. Quando seus dedos roçaram acidentalmente o mamilo, uma descarga elétrica, aguda e profunda, percorreu seu corpo até o baixo-ventre. Foi uma excitação completamente nova, uma corrente quente e molhada que não se parecia em nada com o que sentira como homem. Queria mais. Queria explorar aquela sensação, segui-la até sua origem. Mas o medo a paralisou. Como é que as mulheres fazem? Não fazia ideia. A confusão foi maior que o desejo. Precisava se cobrir. Abriu a gaveta da cômoda onde sua irmã guardava as roupas íntimas. Uma onda de vergonha a invadiu ao remexer entre as calcinhas e os sutiãs. Eram íntimos, pessoais. Mas não havia alternativa. Escolheu uma calcinha simples. Ao vesti-la, o tecido se ajustou aos seus novos quadris de um jeito estranho, mas não desagradável; era uma sensação nova, que delineava sua nova forma. Depois, pegou um sutiã. Era um objeto complexo e cheio de mistério. Virou-o nas mãos, tentando decifrar sua mecânica. Vestiu-o como pôde, tentando acomodar seus peitos grandes nas taças, mas elas pareciam insuficientes. Virou-se para tentar fechá-lo nas costas, mas seus movimentos eram Desajeitados, seus dedos não obedeciam. Depois de várias tentativas frustradas, ofegante, ele desistiu. O sutiã simplesmente não fechava. Tirou-o e deixou cair na cama. "Essa coisa... deve ser de outro tamanho", murmurou para si mesmo, se convencendo de que o problema era a roupa da irmã, não o volume avassalador dos seus novos peitos. Ainda sem entender a função real do sutiã, decidiu que por enquanto podia passar sem ele. Vestiu uma camiseta folgada da irmã que, no corpo dele, ficava justa, e uma calça que, embora apertada, era mil vezes melhor que a roupa rasgada. Pela primeira vez desde a transformação, ele não estava desconfortável. E aquela simples sensação era um luxo estranho e aterrorizante. Lucas se sentiu menos exposto. O tecido, macio e feminino, se ajustava às suas curvas sem apertar. Ficou parado na frente do espelho, estudando a estranha que o encarava fixamente. Mulheres com um corpo assim... sempre chamam atenção, pensou, e uma curiosidade aguda, misturada com um pouco de culpa, começou a brotar dentro dele. Ele, que era um zero à esquerda, alguém invisível. Como seria, mesmo que por um momento, ser o centro das atenções em vez do alvo do desprezo? Sabia que não era certo, que aquilo era loucura, mas a necessidade de experimentar algo, qualquer coisa, que não fosse a sua vida de sempre, era mais forte. — Só vai ser um passeio — disse em voz baixa, como se precisasse se convencer —. Só para sentir o vento. Nada mais. Enquanto procurava um tênis no quarto da irmã, encontrou um par de tênis esportivos. Ao se sentar na cama para calçá-los, parou por um momento. Seus pés... pareciam diferentes. Mais finos, com tornozelos mais delicados e um formato que achou... bonitinho. Era um detalhe absurdo em meio ao caos, mas ele notou. Amarrou os cadarços, levantou-se e se olhou de novo no espelho. A camiseta, sem a contenção de um sutiã, grudava no peito, delineando sem pudor o volume e a forma dos novos seios. Forma dos peitos dela. Se sentiu instantaneamente vulnerável. Procurou algo pra se cobrir e achou uma jaqueta jeans pendurada no armário. Ao vesti-la, o tecido duro deu uma armadura pra ela. A silhueta dela ainda era voluptuosa, mas já não se sentia tão exposta. Respirou um pouco mais aliviada.
Com o coração batendo forte no peito — nesse peito novo e enorme —, ele abriu a porta de casa e saiu na rua. Os olhos examinando a vizinhança, nervoso, esperando que a qualquer momento alguém o descobrisse. Enquanto isso, Fernando caminhava com passo decidido em direção à casa de Lucas. Era o dia do trabalho de Física, e o "nerd" tinha a obrigação de entregá-lo. Ele virou a esquina, e bem quando a fachada da casa entrou no seu campo de visão, a porta se abriu. E ela saiu. Fernando parou no meio do caminho, como se tivesse batido numa parede de vidro. Era uma mulher com um corpo... espetacular. Uma calça jeans que abraçava um quadril generoso e uma bunda que era impossível ignorar, e uma jaqueta que não conseguia esconder a fartura dos peitos. O cabelo era curto, um estilo que dava um ar moderno e ousado. O cérebro dele se recusou a processar a cena. O que uma gostosa daquelas estava fazendo saindo da casa do perdedor do Lucas? O impacto foi tão grande que, por instinto, ele deu um passo pra trás e se escondeu atrás da esquina, pressionando as costas contra a parede. Do seu esconderijo, ele a observou. Viu ela olhar em volta com uma cautela que pra ele pareceu timidez. A mente dele começou a ferver de perguntas. Quem é? É parente? Uma prima? Uma amiga? Impossível! Lucas não tem amigos, muito menos amigas que parecem ter saído de um filme. Lucas, na sua pele nova, não viu ninguém. Respirou aliviado e, com uma determinação trêmula, começou a andar em direção ao shopping, tentando controlar o novo balanço do quadril. Fernando esperou uns segundos e depois espiou com cuidado, pronto pra segui-la, pra descobrir mais. Mas a rua estava vazia. A mulher tinha sumido. Frustrado, ele olhou pra casa de Lucas. A porta estava fechada. O mistério tinha acabado de ficar pessoal. Algo muito estranho estava rolando, e ele tava decidido a descobrir o quê. O ar da tarde era fresco, mas a pele de Lucas ardia por baixo da jaqueta de jeans. Cada passo que dava pelo bairro enchia ele de uma ansiedade cortante. Ia olhando pro chão, rezando pra nenhum vizinho notar, quando uma voz o tirou do devaneio. —Com licença, mocinha —disse um cara de uns trinta anos, com um sorriso que queria ser simpático mas que Lucas achou cheio de segundas intenções—. Tá perdida? Nunca te vi por aqui antes. Era o vizinho do 42, com quem Lucas já tinha esbarrado tirando o lixo, sem trocar mais que um leve aceno. Mas agora, aquele homem o olhava de cima a baixo, com uma curiosidade que o fez se sentir nu. —Não, não tô perdida —conseguiu dizer Lucas, forçando a voz pra soar mais suave—. Tudo bem. —Pô, com essa carinha e esse corpinho gostoso, não pode ser que você ande sozinha por aqui —insistiu o vizinho, se aproximando um pouco—. Quer que eu te acompanhe? Podemos tomar um café lá em casa, é perto. Lucas sentiu o pânico fechar sua garganta. Não sabia como reagir. Como Lucas, teria passado despercebido; como mulher, era o centro de um tipo de atenção que não sabia lidar. —Preciso ir… Tô atrasada —gaguejou, e sem esperar resposta, saiu correndo. Foi uma decisão instintiva, mas ruim. Ao correr, sentiu pela primeira vez o incômodo e doloroso balanço dos peitos. Cada pulo era um tranco desconfortável que puxava o torso, uma sensação tão nova quanto desagradável. Diminuiu o ritmo, ofegante, e só parou quando virou a esquina e se certificou de que o vizinho não o seguia. Uns minutos depois, chegou ao shopping. Ao entrar, os olhares se grudaram nele como imãs. Sussurros, sorrisos cúmplices entre grupos de amigos, homens que disfarçadamente o seguiam com a vista. No começo, se sentiu estranho, como se estivesse no olho de um furacão de atenção a que não estava acostumado. Mas, pra sua própria surpresa, notou que uma parte dele… curtia aquilo. Depois de anos sendo invisível, se sentir desejado era algo que gostou. Continuou andando, tentando agir com naturalidade, se perguntando o que deveria fazer agora que era mulher. Mas então, algo mudou. Um calor repentino começou a se espalhar pelo corpo, subindo do ventre até o rosto. As pernas fraquejaram e um formigamento insistente, quase elétrico, nasceu na sua entreperna. A sensação era avassaladora, desconhecida e… molhada. Não conseguia se concentrar em mais nada. Com as bochechas ardendo e a respiração ofegante, procurou um banheiro. Ao ver o símbolo feminino na porta, hesitou por um segundo. *Agora sou uma mulher*, repetiu para si mesma, e entrou. Felizmente, estava quase vazio. Se trancou em um cubículo, fechou o trinco com dedos trêmulos e se sentou. Ao baixar as calças, notou que a calcinha estava levemente molhada. O calor e o formigamento aumentavam, se tornando quase insuportáveis. Nervosa, deslizou a mão e se tocou por cima do tecido. Foi um contato leve, mas a descarga de prazer que a percorreu foi instantânea e tão intensa que quase a fez gemer. Por alguns segundos, o formigamento cedeu, substituído por uma calma deliciosa. Aí entendeu: seu corpo estava pedindo algo, e aquele simples toque tinha dado a resposta. Mas como se fazia? Não fazia ideia. A anatomia feminina era um mistério para ela. A frustração se misturou com a urgência física. Então, teve uma ideia. Levantou-se rapidamente, subiu as calças e saiu do banheiro de cabeça baixa, decidida. Precisava voltar para casa. Lá, na privacidade do seu quarto, com o computador como única guia, tentaria decifrar os segredos desse corpo que agora lhe pertencia. O caminho de volta para casa foi uma luta constante entre a vontade de correr e a necessidade de passar despercebida. Lucas andava com a respiração ofegante, sentindo que cada olhar casual de um transeunte era um interrogatório silencioso. A umidade na sua roupa íntima era um lembrete constante do que acabara de experimentar, um segredo molhada e envergonhada, com medo que todo mundo pudesse ver. Ao chegar em casa, parou na frente da porta, o coração batendo forte. Olhou para os dois lados da rua, se certificando de que não tinha testemunha. O vizinho, felizmente, não estava. Com um movimento rápido, abriu a porta e entrou, fechando na mesma hora. Lá dentro, se apoiou na madeira, ofegante. A familiaridade da casa a envolveu, mas já não parecia a mesma coisa. Tudo parecia menor, mais opressivo. Sem perder tempo, correu pro quarto, fechou a porta e girou a chave com um clique definitivo. Só então, na segurança do seu espaço, deixou o tremor tomar conta. Se jogou na cadeira na frente do computador, ligando ele com as mãos ainda tremendo. Não pensou duas vezes. Na barra de busca, escreveu o que o corpo dela tava pedindo aos berros. Enquanto a tela carregava, tirou a calça com movimentos atrapalhados. A calcinha, molhada e grudenta, enroscou no tornozelo e ficou pendurada num dos pés. Levantou a camisa, soltando os peitos, que agora pendiam pesados e sensíveis. Selecionou o primeiro vídeo que apareceu. Uma mulher qualquer, segura de si, se mostrava na tela. Lucas, com os olhos fixos nela, abriu as pernas e imitou cada movimento, cada carícia. No começo foi sem jeito, mecânico, mas logo o prazer tomou conta, guiando os dedos, ditando o ritmo. Era uma sensação avassaladora, um tsunami de sensações que varreu ela por completo. Quando a mulher no vídeo levou as mãos pros peitos, Lucas fez o mesmo. O contato com os mamilos mandou uma nova onda de eletricidade direto pro centro, intensificando o prazer até um ponto que ela achou que não ia aguentar. Não queria que acabasse nunca. Era uma libertação, uma exploração, uma conquista. E então, veio. Um orgasmo que sacudiu ela até os ossos, mais longo, mais profundo e mais forte que qualquer coisa que tivesse experimentado antes. Um grito abafado escapou dos seus lábios enquanto seu corpo se arqueava, se entregando completamente à onda. Quando terminou, ficou estirado na cadeira, exausto, coberto de um suor frio e uma paz profunda. O formigamento tinha desaparecido, substituído por um peso gostoso nos seus membros. As pálpebras pesavam, a respiração ficava mais lenta. Sem querer, sem planejar, o cansaço venceu e ele apagou ali mesmo. *Horas depois* Acordou assustado. O quarto estava escuro. Apalpou o peito, liso e familiar. Tocou entre as pernas, encontrando a familiaridade confortável do próprio corpo. Por um breve instante, achou que tudo tinha sido um sonho vívido, uma fuga da imaginação. Mas então, o olhar caiu no chão. Ali, numa pilha bagunçada, estavam a calça da irmã e a calcinha. A realidade bateu com toda a força. Tinha sido real. Com um suspiro trêmulo, pegou a roupa e escondeu no fundo do armário. Depois, pegou o pote de comprimidos na escrivaninha. Segurou na palma da mão, sentindo o peso. "Isso... isso pode viciar", murmurou pra si mesmo, assustado com a intensidade do que viveu, com o quanto tinha adorado ser mulher. Com determinação, guardou o pote na gaveta do criado-mudo, decidido a nunca mais tocar nele. No dia seguinte, na escola, tentava mergulhar na normalidade, no seu papel de fantasma. Tava no corredor, tirando um livro do armário, quando de repente um braço pesado caiu nos seus ombros, envolvendo ele numa falsa camaradagem que o fez congelar. Era o Fernando. — Ei, Lucas — disse o valentão, com uma voz que tentava ser amigável mas que destilava uma intenção que gelou o sangue de Lucas—. A gente precisa conversar. E o mundo de Lucas, que por um breve momento tinha sido tão vasto e cheio de sensações, encolheu de novo ao tamanho da sombra do seu algoz.
Com o coração batendo forte no peito — nesse peito novo e enorme —, ele abriu a porta de casa e saiu na rua. Os olhos examinando a vizinhança, nervoso, esperando que a qualquer momento alguém o descobrisse. Enquanto isso, Fernando caminhava com passo decidido em direção à casa de Lucas. Era o dia do trabalho de Física, e o "nerd" tinha a obrigação de entregá-lo. Ele virou a esquina, e bem quando a fachada da casa entrou no seu campo de visão, a porta se abriu. E ela saiu. Fernando parou no meio do caminho, como se tivesse batido numa parede de vidro. Era uma mulher com um corpo... espetacular. Uma calça jeans que abraçava um quadril generoso e uma bunda que era impossível ignorar, e uma jaqueta que não conseguia esconder a fartura dos peitos. O cabelo era curto, um estilo que dava um ar moderno e ousado. O cérebro dele se recusou a processar a cena. O que uma gostosa daquelas estava fazendo saindo da casa do perdedor do Lucas? O impacto foi tão grande que, por instinto, ele deu um passo pra trás e se escondeu atrás da esquina, pressionando as costas contra a parede. Do seu esconderijo, ele a observou. Viu ela olhar em volta com uma cautela que pra ele pareceu timidez. A mente dele começou a ferver de perguntas. Quem é? É parente? Uma prima? Uma amiga? Impossível! Lucas não tem amigos, muito menos amigas que parecem ter saído de um filme. Lucas, na sua pele nova, não viu ninguém. Respirou aliviado e, com uma determinação trêmula, começou a andar em direção ao shopping, tentando controlar o novo balanço do quadril. Fernando esperou uns segundos e depois espiou com cuidado, pronto pra segui-la, pra descobrir mais. Mas a rua estava vazia. A mulher tinha sumido. Frustrado, ele olhou pra casa de Lucas. A porta estava fechada. O mistério tinha acabado de ficar pessoal. Algo muito estranho estava rolando, e ele tava decidido a descobrir o quê. O ar da tarde era fresco, mas a pele de Lucas ardia por baixo da jaqueta de jeans. Cada passo que dava pelo bairro enchia ele de uma ansiedade cortante. Ia olhando pro chão, rezando pra nenhum vizinho notar, quando uma voz o tirou do devaneio. —Com licença, mocinha —disse um cara de uns trinta anos, com um sorriso que queria ser simpático mas que Lucas achou cheio de segundas intenções—. Tá perdida? Nunca te vi por aqui antes. Era o vizinho do 42, com quem Lucas já tinha esbarrado tirando o lixo, sem trocar mais que um leve aceno. Mas agora, aquele homem o olhava de cima a baixo, com uma curiosidade que o fez se sentir nu. —Não, não tô perdida —conseguiu dizer Lucas, forçando a voz pra soar mais suave—. Tudo bem. —Pô, com essa carinha e esse corpinho gostoso, não pode ser que você ande sozinha por aqui —insistiu o vizinho, se aproximando um pouco—. Quer que eu te acompanhe? Podemos tomar um café lá em casa, é perto. Lucas sentiu o pânico fechar sua garganta. Não sabia como reagir. Como Lucas, teria passado despercebido; como mulher, era o centro de um tipo de atenção que não sabia lidar. —Preciso ir… Tô atrasada —gaguejou, e sem esperar resposta, saiu correndo. Foi uma decisão instintiva, mas ruim. Ao correr, sentiu pela primeira vez o incômodo e doloroso balanço dos peitos. Cada pulo era um tranco desconfortável que puxava o torso, uma sensação tão nova quanto desagradável. Diminuiu o ritmo, ofegante, e só parou quando virou a esquina e se certificou de que o vizinho não o seguia. Uns minutos depois, chegou ao shopping. Ao entrar, os olhares se grudaram nele como imãs. Sussurros, sorrisos cúmplices entre grupos de amigos, homens que disfarçadamente o seguiam com a vista. No começo, se sentiu estranho, como se estivesse no olho de um furacão de atenção a que não estava acostumado. Mas, pra sua própria surpresa, notou que uma parte dele… curtia aquilo. Depois de anos sendo invisível, se sentir desejado era algo que gostou. Continuou andando, tentando agir com naturalidade, se perguntando o que deveria fazer agora que era mulher. Mas então, algo mudou. Um calor repentino começou a se espalhar pelo corpo, subindo do ventre até o rosto. As pernas fraquejaram e um formigamento insistente, quase elétrico, nasceu na sua entreperna. A sensação era avassaladora, desconhecida e… molhada. Não conseguia se concentrar em mais nada. Com as bochechas ardendo e a respiração ofegante, procurou um banheiro. Ao ver o símbolo feminino na porta, hesitou por um segundo. *Agora sou uma mulher*, repetiu para si mesma, e entrou. Felizmente, estava quase vazio. Se trancou em um cubículo, fechou o trinco com dedos trêmulos e se sentou. Ao baixar as calças, notou que a calcinha estava levemente molhada. O calor e o formigamento aumentavam, se tornando quase insuportáveis. Nervosa, deslizou a mão e se tocou por cima do tecido. Foi um contato leve, mas a descarga de prazer que a percorreu foi instantânea e tão intensa que quase a fez gemer. Por alguns segundos, o formigamento cedeu, substituído por uma calma deliciosa. Aí entendeu: seu corpo estava pedindo algo, e aquele simples toque tinha dado a resposta. Mas como se fazia? Não fazia ideia. A anatomia feminina era um mistério para ela. A frustração se misturou com a urgência física. Então, teve uma ideia. Levantou-se rapidamente, subiu as calças e saiu do banheiro de cabeça baixa, decidida. Precisava voltar para casa. Lá, na privacidade do seu quarto, com o computador como única guia, tentaria decifrar os segredos desse corpo que agora lhe pertencia. O caminho de volta para casa foi uma luta constante entre a vontade de correr e a necessidade de passar despercebida. Lucas andava com a respiração ofegante, sentindo que cada olhar casual de um transeunte era um interrogatório silencioso. A umidade na sua roupa íntima era um lembrete constante do que acabara de experimentar, um segredo molhada e envergonhada, com medo que todo mundo pudesse ver. Ao chegar em casa, parou na frente da porta, o coração batendo forte. Olhou para os dois lados da rua, se certificando de que não tinha testemunha. O vizinho, felizmente, não estava. Com um movimento rápido, abriu a porta e entrou, fechando na mesma hora. Lá dentro, se apoiou na madeira, ofegante. A familiaridade da casa a envolveu, mas já não parecia a mesma coisa. Tudo parecia menor, mais opressivo. Sem perder tempo, correu pro quarto, fechou a porta e girou a chave com um clique definitivo. Só então, na segurança do seu espaço, deixou o tremor tomar conta. Se jogou na cadeira na frente do computador, ligando ele com as mãos ainda tremendo. Não pensou duas vezes. Na barra de busca, escreveu o que o corpo dela tava pedindo aos berros. Enquanto a tela carregava, tirou a calça com movimentos atrapalhados. A calcinha, molhada e grudenta, enroscou no tornozelo e ficou pendurada num dos pés. Levantou a camisa, soltando os peitos, que agora pendiam pesados e sensíveis. Selecionou o primeiro vídeo que apareceu. Uma mulher qualquer, segura de si, se mostrava na tela. Lucas, com os olhos fixos nela, abriu as pernas e imitou cada movimento, cada carícia. No começo foi sem jeito, mecânico, mas logo o prazer tomou conta, guiando os dedos, ditando o ritmo. Era uma sensação avassaladora, um tsunami de sensações que varreu ela por completo. Quando a mulher no vídeo levou as mãos pros peitos, Lucas fez o mesmo. O contato com os mamilos mandou uma nova onda de eletricidade direto pro centro, intensificando o prazer até um ponto que ela achou que não ia aguentar. Não queria que acabasse nunca. Era uma libertação, uma exploração, uma conquista. E então, veio. Um orgasmo que sacudiu ela até os ossos, mais longo, mais profundo e mais forte que qualquer coisa que tivesse experimentado antes. Um grito abafado escapou dos seus lábios enquanto seu corpo se arqueava, se entregando completamente à onda. Quando terminou, ficou estirado na cadeira, exausto, coberto de um suor frio e uma paz profunda. O formigamento tinha desaparecido, substituído por um peso gostoso nos seus membros. As pálpebras pesavam, a respiração ficava mais lenta. Sem querer, sem planejar, o cansaço venceu e ele apagou ali mesmo. *Horas depois* Acordou assustado. O quarto estava escuro. Apalpou o peito, liso e familiar. Tocou entre as pernas, encontrando a familiaridade confortável do próprio corpo. Por um breve instante, achou que tudo tinha sido um sonho vívido, uma fuga da imaginação. Mas então, o olhar caiu no chão. Ali, numa pilha bagunçada, estavam a calça da irmã e a calcinha. A realidade bateu com toda a força. Tinha sido real. Com um suspiro trêmulo, pegou a roupa e escondeu no fundo do armário. Depois, pegou o pote de comprimidos na escrivaninha. Segurou na palma da mão, sentindo o peso. "Isso... isso pode viciar", murmurou pra si mesmo, assustado com a intensidade do que viveu, com o quanto tinha adorado ser mulher. Com determinação, guardou o pote na gaveta do criado-mudo, decidido a nunca mais tocar nele. No dia seguinte, na escola, tentava mergulhar na normalidade, no seu papel de fantasma. Tava no corredor, tirando um livro do armário, quando de repente um braço pesado caiu nos seus ombros, envolvendo ele numa falsa camaradagem que o fez congelar. Era o Fernando. — Ei, Lucas — disse o valentão, com uma voz que tentava ser amigável mas que destilava uma intenção que gelou o sangue de Lucas—. A gente precisa conversar. E o mundo de Lucas, que por um breve momento tinha sido tão vasto e cheio de sensações, encolheu de novo ao tamanho da sombra do seu algoz.
1 comentários - O comprimido que mudou tudo (capítulo 1)