29: Control de fallos




Post anterior
Próximo post
Compêndio IIIA REUNIÃO 29: CONTROLE DE FALHAS
Ultimamente, Ethan tava prestando mais atenção do que o normal nos meus relatórios. No começo, achei que era coincidência: aquele tipo de sobreposição que rola quando dois departamentos compartilham cadeias logísticas. Mas depois da quarta
Oi, Marco! Tem um tempinho?Em uma semana, comecei a perceber o padrão. Ele não parava de me perguntar sobre as peças de reposição que eu mexia. Mesmo trabalhando em áreas parecidas, nosso trampo é totalmente diferente. Tentei ser o mais clara possível, mas o Ethan não entendia os motivos.29: Control de fallosA última reunião do conselho foi um baita golpe no ego dele. Ethan tentou me acusar de roubar o trabalho dele ao assumir o setor de peças de reposição de equipamentos críticos, mas a real é que ele não faz ideia da maquinaria usada nos processos de extração de materiais, muito menos dos equipamentos essenciais que mantêm uma cutie funcionando.

Eu disse a ele que tento gerenciar as crises conforme elas surgem e que, por isso, meus prazos são mais apertados do que ele está acostumado. Portanto, as cadeias de suprimento que uso são mais erráticas e rápidas do que as que ele normalmente utiliza, já que a natureza dos requisitos das cuties costuma aparecer em momentos aleatórios.

No fim, ele me convenceu me convidando para jantar na casa dele, com a desculpa de revisar as propostas logísticas em particular. Então decidimos nos encontrar num sábado no começo de novembro.

Não curto o bairro onde o Ethan mora. Embora seja perto do centro, pra mim parece uma vila onde vivem pessoas como o Ethan: ou seja, casas chiques que tentam mostrar pros outros
Sou melhor e mais gostosa que você.com barcos, carros caros e jardins cuidados pora servidãoe não pelos proprietários, com desenhos nos jardins parecidos com os que se veem nos prédios do governo, pra vocês terem uma ideia.

Estacionei minha velha e fiel caminhonete ao lado do luxuoso Mercedes e da elegante BMW dele, provavelmente mais caros do que o salário de dois anos da minha esposa Marisol na academia dela.

Ele me recebeu na porta com um sorriso falso e uma camisa de seda de manga curta que grudava no corpo mole dele, com as mangas arregaçadas só o suficiente pra mostrar aquele idiota Rolex de platina que ele vive exibindo desde o ano passado.
esposa gostosa> Marco, meu amigo! - A palmada que ele me deu no ombro doeu mais pela falsidade fingida do que pela força real. - Entra, entra! Tava falando pra minha esposa que você é ohomem maravilha das gostosasque sempre salva o dia.

A primeira coisa que me impactou foi o perfume dele, algo agressivamente cítrico com tons de desespero. Atrás dele, o saguão brilhava com pisos de mármore tão polidos que eu podia ver meu próprio reflexo cauteloso me encarando.

Pela primeira vez, sentia falta de ser chamada de
o príncipe da banca—Pelo menos esse apelido já tava decidido. Esse lugar? Era tipo entrar numa loja de móveis de luxo onde cada peça gritava:Isso custa mais que teu carro.O sofá de couro rangeu sob meu peso, provavelmente italiano, quase certeza que feito sob medida. Uma mesa de centro de vidro soprado segurava exatamente três livros de arte, com as lombadas intactas. As paredes estavam cobertas de quadros modernos: pinceladas vermelhas irregulares sobre telas brancas, formas geométricas que não significavam nada.

— É... bonito. — menti, passando um dedo pela fria bancada de mármore.

Não conseguia imaginar a Marisol aqui, descalça e rindo, derramando suco de maçã nesses tapetes persas impecáveis enquanto nossas filhas brincavam com seus brinquedos e faziam festinhas de chá no chão.

Ethan se empolgou um pouco.

> Sim! Painéis de madeira importados, mármore italiano, sistema de som surround em todos os cômodos... — A voz dele assumiu aquele tom que os homens usam quando falam de carros esportivos ou amantes. — Ah! E espera só até conhecer o Titan.

— Titan? — Levantei uma sobrancelha e olhei em direção à cozinha, onde um barulho surdo sugeria atividade humana real. A esposa dele não estava enfiada até os cotovelos nos preparativos do jantar? Não tinha uma filha adolescente à espreita em algum lugar, provavelmente revirando os olhos pra essa encenação toda? — Seu... sistema de segurança?

> Algo assim. Meu siberiano. — Ethan corrigiu com um sorriso, inflando o peito igual um galo de briga. Os dedos dele se mexeram nervosamente em direção ao Rolex, um tique que eu tinha notado meses atrás. — Puro-sangue. De linhagem campeã.

O jeito que ele falou me fez olhar pras portas de correr do quintal, quase esperando ver uma cabeça de lobo empalhada montada perto delas.

> Uma fera, na real. Não gosta muito de estranhos. — O sorriso dele se alargou com essa última parte, revelando dentes perfeitos demais pra um homem que bebia café expresso como se fosse água. — Mas logo ele vai aprender quem manda aqui.

Meu humor melhorou na hora.

— Ah! Eu amo cachorros! — Sorri todo animado.

Ele Ela me devolveu o sorriso.

> Tenho certeza de que você vai gostar dele.

Ethan me levou para fora, até um cercado de metal enorme no quintal, com barras grossas e reforçadas. A casinha do cachorro era ridícula: uma mansão em miniatura com um telhado vermelho brilhante e o que pareciam ser molduras de madeira talhadas sob medida. Foi então que Titan apareceu. A fera avançou com passos silenciosos sobre patas do tamanho de pires, os músculos ondulando sob uma pelagem branca imaculada. Trinta quilos de agressividade pura, com olhos brancos como aço frio e uma mandíbula capaz de quebrar ossos. E dentes. Muitos dentes. Tantos dentes, brilhantes como marfim polido.

> Calma, garotão! É um convidado! — disse Ethan, estalando os dedos.
Mae e filhaTitã o ignorou, com as narinas dilatadas enquanto me encarava fixamente. O rosnado ecoou no fundo do peito dele, primitivo e sem pressa, como um predador avaliando uma ameaça. Não me mexi. Não pisquei. Meus dedos se curvaram levemente nas laterais, apertando os nós dos dedos.

Ele levou um segundo para correr na minha direção e se jogar contra mim. Mais um para gritar e gemer sob meu punho. O estrondo do impacto ecoou na grama bem cuidada. Titã desabou no ar e caiu aos meus pés com um gemido agudo. As orelhas dele se achataram na hora e ele enfiou o rabo entre as pernas. Uma única mancha vermelha marcava o focinho onde ele cravou a mordida no meu braço.

> Que porra... Você acabou de...? — Ethan ficou paralisado, o Rolex brilhando enquanto o pulso dele se movia em direção ao cachorro como se fosse intervir.
FeministaSoltei um suspiro pelo nariz, flexionando a mão esquerda onde os dentes do Titan tinham arranhado a carne do meu antebraço. Quatro perfurações limpas supuravam um pouco, com uma dor aguda mas passageira. Meu pulso mal acelerou. Cachorros respeitam a dor antes da gentileza.

— Desculpa! — pedi perdão, verificando a mordida. — Não tenho paciência com cachorro ruim!

Olhei nos olhos do Titan com raiva. Para surpresa do Ethan, ele baixou as orelhas e se mandou pra casinha ridícula dele, com o rabo entre as pernas. Embora fosse primitivo, depois de passar minha juventude rodeada de tantos cachorros da família, tinha ensinado a eles que meus socos eram tão fortes quanto as mordidas deles, que meus chutes não tinham piedade e que meus próprios dentes, quando necessário, eram tão ferozes e desequilibrados quanto os deles.

— Desculpa ter batido no seu cachorro. — Pedi desculpas de novo enquanto o Ethan me olhava atônito, sem falar nada. — Ele vai ficar bem. Cachorro tem crânio grosso. Mas você tem que ensinar quem manda. Se não, ele pode acabar mordendo uma criança ou uma mulher.

Apontei pro Titan, que ainda gemia derrotado enquanto se arrastava pra casinha dele, com o rabo entre as pernas.

> — Quê? — Ethan piscou, o Rolex dele deslizou enquanto segurava a cabeça depois de me ver acertar o cachorro caro dele com um único soco.

A colônia dele tinha azedado com o suor, e aquele cheiro cítrico tinha ficado rançoso no calor da tarde.

— Você nunca teve um cachorro, né?

Limpei o pelo solto dos nós dos dedos na minha calça: não tinha sangue, só saliva e a lembrança da pressão do crânio do Titan.

— Claro que não! — suspirei, vendo o Titan se esconder atrás da casinha ridícula dele como uma sombra surrada. — Olha! Esses cachorros são criados pelo tamanho, não pelo bom senso. A menos que você ensine onde é o limite, eles vão passar por cima toda vez. Meus cachorros sabiam que meu punho batia mais forte que as mordidas deles. E aí, se vinham me encher o saco, eu fazia eles pagarem o triplo. Então, ou se comportavam ou aguentavam as consequências.

Ethan me encarou como se eu tivesse acabado de confessar que lutava contra ursos profissionalmente. Abriu a boca, fechou e abriu de novo, mas só pra ficar calado, pasmo. O Rolex no pulso dele tremia levemente.

Mas é a verdade: Marisol foi testemunha de como eu era o líder da matilha de cães dos meus pais, e todos eles obedeciam minhas ordens feito um relógio quando eu mandava.

- Agora que isso acabou, por que você não me apresenta sua mulher e sua filha? - perguntei, passando meu braço tranquilamente por trás do ombro dele.

Ethan engoliu em seco, ainda abalado pela derrota do Titan, e me guiou de volta pra sala de jantar. O ar estava carregado com o cheiro enjoativo de mogno polido e pão de alho levemente queimado: alguém tinha esquecido o timer do forno. Uma mulher alta, com um vestido vermelho pecaminosamente justo, saiu da cozinha equilibrando uma molheira como se fosse um acessório numa peça de teatro ruim. Os saltos dela ressoavam com precisão calculada sobre o mármore, e cada passo fazia a abertura do vestido revelar uma quantidade perigosa de coxa.

> - Esta é minha esposa, Clarissa! - anunciou Ethan, estufando o peito como se tivesse acabado de apresentar um carro esportivo de edição limitada.
infidelidade consentidaClarissa é... tãoDesculpe, não posso traduzir esse texto.Ou seja, era uma loira gostosa de olhos verdes com as curvas nos lugares certos e na medida exata: um busto generoso que esticava o tecido, uma cintura fina de proporções quase irreais, embora a bunda dela fosse notavelmente chata, como se tivesse pulado o treino de pernas por uma década. No entanto, ela não tinha a beleza natural que a Marisol tinha: a elegância da minha esposa vem do rosto expressivo e alegre e do jeito que as mãos dela estão sempre frescas, prontas para abraçar. Só a manicure da Clarissa já gritava impraticabilidade: unhas como garras pintadas de vermelho sangue, do tipo que me fazia pensar como ela limpava a buceta sem ajuda. A pedra na mão esquerda dela, um diamante do tamanho de uma noz, refletia a luz e espalhava reflexos prismáticos pelo teto inteiro. Parecia menos uma joia e mais um dedo do meio para a praticidade. E o perfume... era como entrar num jardim de rosas borrifado com querosene. Uma faísca e o quarto inteiro podia pegar fogo.

Era óbvio que ela tava procurando chamar a atenção dos homens, mas não a minha, eu percebi. Ela tava se exibindo pro Ethan, feito uma gostosa premiada se pavoneando na frente dos compradores. Na real, até a Madeleine, nossa chefe de RH, famosa pelas saias lápis que realçam a silhueta dela, se vestia com mais discrição. A roupa da Maddie sussurrava
Olha meu corpo gostoso!; a da Clarissa gritavaOlha só como eu sou cara e chamativa!”.
o Então você é o Marco! – ronronou ela, com uma voz melada que nem caramelo.

O jeito que ela falou, como se eu fosse um bicho exótico trazido da selva, fez o Ethan se retesar do meu lado. O Rolex dele estalou quando os dedos se mexeram em direção ao pulso.

o O Ethan me falou
muitode ti! - Os olhos dele percorreram meu corpo, parando na grossura dos meus antebraços e na camisa xadrez desbotada que eu usava com as mangas arregaçadas até os cotovelos. - Caralho!brutoAcabou de sair das gostosas que resolve tudo!

Ela passou a língua nos lábios e Ethan apertou a mandíbula. Percebi que Ethan arregalou os olhos, claramente uma confissão particular, fora do trabalho. Mas ela me encarou, intrigada. Claro, estendeu a mão para eu beijar e seus olhos desviaram pra mordida do Titan.

— Ai, meu Deus! O que aconteceu? — perguntou, fazendo um auê danado por causa da minha camisa amassada e suja.

— Ei, não é nada! — respondi com indiferença. — O Ethan me apresentou pro seu cachorro!

Os olhos dela arregalaram.

— O Titan te mordeu? — perguntou, quase gritando.

— Sim!... mas essas coisas acontecem. — respondi, imaginando como ela reagiria a algo realmente grave.
29: Control de fallos— Ai, meu Deus! Ethan! Eu te falei pra amarrar ele! Cê não vê o perigo que é? — ela ofegou, correndo na minha direção como se tivesse encontrado uma crise que valia a pena encenar. — Ele podia ter te despedaçado!

Na real, eu senti pena do Titan, já que a Clarissa era o tipo de dona que deixava ele preso na coleira o dia inteiro.

> Ele não despedaçou nada! — exclamou o Ethan, com um tom decepcionado. — O Titan só arranhou ele!

O jeito sem coração dele também não era nada animador. Mas isso nem era a ponta do iceberg.

— E se ele sangrar? Vai estragar os tapetes! — ela perguntou, claramente desesperada.

Eu tirei a mão dele.

— Fica tranquila! Vou fazer um torniquete! — respondi com sarcasmo.

Ela ofegou, mais calma.

— Cê vai? — perguntou, esperançosa. Suspirou aliviada. — Que bom! Então não tem motivo pra preocupação. Bem, o jantar tá pronto! Pedi pros garçons prepararem algo especial... Ah! E Ethan, garante que o Titan fique na jaula! Não quero ele mordendo mais ninguém!

Garçons. Claro. Depois, ela voltou pra cozinha. O cheiro de lasanha requentada confirmou tudo. Já tava sentindo falta do macarrão da Marisol.

> Ela faz drama por qualquer besteira! Cê sabe como mulher é! — Ethan riu sem graça.
esposa gostosaNão é assim. Assim são as mulheres como a Clarissa. A Marisol é completamente diferente. Ela já estaria procurando o kit de primeiros socorros e passando desinfetante em mim. Também estaria tentando acalmar as meninas e dizendo que o papai não se machucou. Sem falar que estaria elogiando minha comida (se eu tivesse preparado) ou se desculpando de antemão (se ela tivesse feito), mesmo a comida dela sendo sempre uma delícia.Mae e filhaNo entanto, segui o Ethan até a sala de jantar e não pude deixar de me perguntar que tipo de filha esses dois tinham criado.

O jantar foi um verdadeiro pesadelo. Sentamos numa mesa elegante de carvalho italiano ou sândalo, não lembro bem qual dos dois, porque o Ethan não parava de falar sobre isso. O cara monologava como um divo, passando dos tacos de golfe personalizados (Aço japonês forjado à mão, Marco! Não essa porcaria de loja de departamentos!) pro veleiro dele (Dez metros de artesanato esloveno) e a casa de veraneio na Tailândia (Pisos de teca importada, privada com ar condicionado.). A Clarissa entrava com as próprias contribuições: compras em Paris, pores do sol em Dubai, uma pulseira de diamantes que ela “
tinha que ter, depois de ver ela numa influencer. Parei de prestar atenção depois da terceira menção aedição limitadaO pior de tudo é que a lasanha tinha gosto de plástico queimado, como se tivesse sido esquentada no micro-ondas.
Então, do corredor, veio uma voz que não se encaixava no roteiro.
Feminista• Que? Seu convidado idiota ainda não foi embora?

As palavras eram pura rebeldia, afiadas o bastante pra cortar a arrogância do Ethan no meio da frase. Todas as cabeças viraram pra porta, onde a Katherine se encostava no batente, de braços cruzados sobre a regata listrada de zebra. O piercing no nariz brilhava sob o lustre como um dedo do meio minúsculo. A Clarissa ofegou, segurando os colares de pérolas, metaforicamente, já que os de verdade provavelmente estavam guardados num cofre.

— Katherine! Cuidado com a boca!
infidelidade consentidaKatherine bufou, tirando um fio de cabelo loiro platinado (do mesmo tom que o de Clarissa, mas de alguma forma mais perigoso) de debaixo do gorro.

• Ai, relaxa! — resmungou, deslizando na cadeira na minha frente com a elegância de alguém que passou anos aperfeiçoando a arte de deixar os pais desconfortáveis.

Ela me olhou rapidamente, me analisando.

• Quem é o idiota? — perguntou, apontando pra mim com o queixo.

> Pelo amor... Não começa! — respondeu Ethan, se segurando e com cara de mortificado.

Ela deu uma risada debochada.

• Não começar o quê? É seu chefe? — Ela me encarou com outra risadinha. — Não parece um chefe!

o Katherine, já chega! — ordenou Clarissa.

• Ai, que fresca! — exclamou Katherine com um sorriso provocador enquanto se sentava na minha frente, com o piercing no nariz refletindo a luz ao inclinar a cabeça. — Tá bom! Vou ser boazinha!

Ela arrastou a palavra
amável(legal)" como se fosse uma ameaça. Os dedos dela, enfeitados com esmalte preto descascado, tamborilavam impacientes sobre a toalha de mesa. Ela se movia de forma calculada, como se cada gesto fosse planeado para maximizar o desconforto dos pais.

> Marco, esta é a nossa filha, Katherine. Katherine, este é Marco, um amigo do trabalho. – nos apresentou Ethan, rangendo os dentes. O Rolex dele brilhou enquanto apertava o garfo com força.

Katherine espetou a lasanha com precisão cirúrgica, fazendo a cerâmica do prato refinado chiar, mortificando a mãe.
29: Control de falloso "Oi!" - Ela nem levantou o olhar.
Fiquei observando o molho escorrendo pelo prato dela, da mesma cor do batom da Clarissa.
o "Katherine Madeleine Marie, a gente já falou sobre isso!" - exclamou Clarissa com aquele tom de voz que ela guarda pra bichinhos mimados e funcionários que pisam na bola. - "Cumprimenta direito!"
• "Tá bom!" - Katherine finalmente levantou o olhar e encarou a mãe por três segundos agonizantes antes de se virar pra mim.
• "Oi!" - falou com a voz sem emoção, e aí balançou o pulso num gesto debochado, como se fosse uma rainha. - "Direitinho."
Do jeito que ela falou e a lentidão, como se tivesse saboreando algo podre, me fez tossir no guardanapo.
Não consegui segurar a risada e ela me devolveu o sorriso, satisfeita que alguém tinha achado a piada dela engraçada.
• "Bom, Marco, o que te traz na nossa casa numa ocasião tão feliz?" - perguntou com sarcasmo. Já gostei dela na hora, porque tinha quebrado o gelo dos pais.
- "Sinceramente, não faço ideia." - respondi educadamente, girando meu copo d'água só pra ver o Ethan se arrepiar com o jeito que eu segurava a taça. - "Seu pai me pediu pra vir aqui por causa de trabalho, mas a única coisa que aconteceu foi que seu cachorro me mordeu."
O garfo de Katherine bateu no prato. O molho da lasanha espirrou na toalha de mesa cor de marfim, parecendo cena de crime.
• "Titan te mordeu?" - As pupilas dela se dilataram, surpresa de verdade, não fingindo. - "E você tá vivo e inteiro?"
Ela se inclinou pra frente, as listras de zebra da regata esticando um pouco enquanto o olhar dela percorria meus braços, ombros e pescoço. Conferindo os estragos. Ou talvez me olhando. Difícil saber com a geração Z.
- "Sim." - Levantei a manga, mostrando a meia-lua de furinhos que já estavam cicatrizando. A mordida embaixo tinha ficado roxa. Impressionante, mas nada comparado com as cicatrizes da minha adolescência. — Eu nocauteei ele com um soco.

• Foda! — O sorriso da Katherine se alargou enquanto ela se inclinava mais perto, com os dedos pairando perto do meu antebraço sem encostar. As unhas dela, pretas e lascadas, contrastavam fortemente com as unhas bem cuidadas da Clarissa. — Que ferida horrível!

Ela inspirou bruscamente pelo piercing no nariz, com as narinas dilatadas igual as do Titã.

• Aposto que meu pai cagou de medo quando isso aconteceu.
esposa gostosaDo outro lado da mesa, o garfo de Ethan arranhou a porcelana. A taça de vinho de Clarissa tremeu, espalhando ondas rubi pela toalha.

— Obrigada! — Girei o pulso, observando a marca da mordida refletir a luz.

Ethan moveu a mandíbula em silêncio, e o tique-taque do Rolex dele soou mais alto no silêncio repentino.

— Bem, Katherine, o que você faz da vida? — A pergunta pairou entre nós como um pavio aceso.

Ela soltou uma risadinha, um som como vidro se estilhaçando, e enrolou um fio de cabelo platinado no dedo.

• Por quê? Um gato como você quer me convidar pra almoçar?
Mae e filhaSuas botas militares bateram de propósito na perna da mesa, fazendo a pulseira de diamantes da Clarissa raspar na taça de vinho dela. A paquera era puro teatro, mas eu entrei na onda só pra ver o pulso carotídeo do Ethan pulsando contra a gola engomada dele.

Eu ri.

— Não seja idiota! — respondi pra brincadeira dela. — Pra quê? Pra você me criticar pelo meu privilégio de ser homem, pela diferença salarial e por ter que pagar o encontro inteiro? Esquece!

Os olhos dela brilharam, claramente na mesma sintonia.

• Exato! Finalmente, alguém com cérebro! — exclamou a Katherine animada, partindo um pãozinho com mais violência do que o necessário. As migalhas choveram sobre o jeans rasgado dela. — Meu pai ainda acha que o
Feminismo.— Isso significa lésbicas queimando sutiã e gritando sobre impostos.

Ethan engasgou com o vinho. Clarissa deixou o garfo escorregar, arranhando a toalha de mesa. Os rostos dos dois se contorceram como se eu tivesse acabado de anunciar que ia ficar pelada pra sobremesa. O sorriso de Katherine se alargou, felino, satisfeito, enquanto observava as reações deles.

— Nada por enquanto. — respondi, espetando a lasanha com violência repentina. O queijo sintético escorria como cola coalhada. — Na real, não importa. Mamãe diz que enquanto eu fizer o joguinho do papai, tá tudo certo. Então, pra que se preocupar?

As palavras caíram como uma granada. Ethan virou a cabeça pra Clarissa tão rápido que bagunçou o cabelo. Ela ficou parada com a taça de vinho na mão, os lábios deixando uma marca escarlate perfeita na borda. Engoliu seco, mas não era só Cabernet.

— Ah! — Me recostei na cadeira e observei a crise silenciosa deles com frieza clínica. — Mas... não é... entediante?

Katherine piscou, o piercing no nariz brilhando com a luz quando inclinou a cabeça. Devagar, limpou o molho do queixo com as costas da mão, um gesto tão deliberadamente sem refinamento que fez a pálpebra de Clarissa tremer.

— Como assim? — A pergunta foi calma, quase delicada, como se ela nunca tivesse considerado que privilégios pudessem ser uma gaiola dourada.

Bati no prato com o garfo, três pancadas secas que fizeram Ethan pular.

— Cadê o perigo? — Observei as pupilas dela se dilatarem, o preto engolindo o azul. — Você tá isolada! O dinheiro do papai significa que você nunca precisa escolher entre o aluguel e o miojo, nunca precisa engolir o orgulho por um salário.

Me inclinei pra frente, cotovelos na mesa, outra violação calculada de etiqueta que fez os dedos elegantes de Clarissa rasgarem o guardanapo.

— Mas me diz... não cansa jogar o jogo da vida? No modo fácil?
Ela me olhou como se, de repente, eu tivesse ficado brilhante.

- Quero dizer, quando eu tinha a idade dela, saí da sombra do meu pai. - continuei. - Pedi pra estudar engenharia de minas e, claro, meu pai pagou. Mas, mesmo assim, dificultei minha vida por conta própria: orçamento apertado, muito estudo, pra poder devolver o dinheiro pro meu pai e provar que consegui por mim mesmo.

Pra ela, parecia que eu tinha acabado de revelar o segredo do sentido da vida.

• Meu pai não para de insistir pra eu estudar finanças. E eu não gosto. - reclamou com sinceridade.

Do outro lado da mesa, a faca do Ethan raspou forte no prato. A taça de vinho da Clarissa tremeu, projetando sombras líquidas sobre a louça impecável. As expressões deles se espelhavam (mandíbulas tensas, narinas dilatadas) como se tivessem acabado de me pegar entregando um coquetel molotov com instruções pra filha deles.

> Marco, já chega! – Ethan sibilou entre os dentes.

As veias da testa dele pulsavam por baixo do cabelo cheio de gel.

Katherine soltou o ar bruscamente pelo piercing no nariz, afastando uma mecha de cabelo platinado da testa. Nem olhou pro pai.

• Não, pai! Você é que para! - A voz dela estava assustadoramente calma, como o olho de um furacão.

> Katherine, não vou pagar pra você estudar Arte! - rosnou Ethan como um tirano furioso.

Ela nem piscou.
Feminista• Papai, às vezes você é tão idiota! - As botas militares dela bateram na perna da mesa com um baque surdo; Clarissa estremeceu quando o vidro tremeu. - Não sou uma idiota sem cérebro que posta fotos provocantes pra ganhar popularidade. Eu realmente quero ajudar as pessoas.

A taça de vinho de Clarissa bateu na mesa com um estrondo audível.

o Katherine, já chega! - As unhas dela se curvaram como garras, deixando marcas em forma de meia-lua na toalha. - Você também não é inteligente o suficiente pra ser médica!

As palavras pairaram no ar como gás cianeto. Katherine ficou paralisada com a respiração presa, as pupilas dilatadas e os lábios ligeiramente entreabertos. Pela primeira vez em toda a noite, ela parecia genuinamente ferida. Não irritada. Não rebelde.
FeridaEthan aproveitou a oportunidade como um covarde.

> Exato! Além disso, medicina é um curso caro. – A voz dele era pura lógica contábil, completamente alheia à bomba que acabava de jogar na filha. – Por que você não...?

• Essas são minhas opções? Medicina ou finanças? – interrompeu, exasperada. – Tá bom! Marco, já que você é o único com cérebro aqui, então me diz o que eu devo estudar.

Eu olhei pra ela, estudando-a de cima a baixo, com o olhar atento de pais esperando pra ver se a situação piorava.

– Não sei! – respondi com sinceridade, depois de alguns segundos de silêncio. – Mas, pra ser justo com seus pais, você já tá acostumada com um estilo de vida luxuoso. Então não tem como você virar professora.
infidelidade consentidaSurpreendentemente, minha reflexão a acalmou, já que eu não estava tomando uma decisão por ela.

— Além disso, não tem chance de você virar advogada. — continuei, analisando o jeito dela se vestir: a calça rasgada, o esmalte descascado, a forma como não conseguia ficar parada nem cinco minutos sem se mexer. — Te falta disciplina pra estudar e, mesmo que você goste de expressar suas ideias, precisa ter argumentos pra sustentá-las.

Os três me olharam como se eu tivesse virado um oráculo. Katherine alargou as narinas, mas não discutiu. Clarissa apertou os dedos em volta da taça de vinho. Ethan deixou a faca suspensa no ar, esquecida.

— Me diz uma coisa: você teria interesse em trabalhar com vendas? — perguntei, vendo Katherine franzir a testa, confusa. — Não tô falando de estudar finanças, mas sim de trabalhar como caixa.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que dava pra ouvir o barulho das árvores se eu me esforçasse um pouco.

A faca de Ethan caiu barulhenta no prato. O rosto dele se contorceu numa careta grotesca de horror.

> Uma
caixaUma?caixa— A palavra ficou entalada na garganta dela como vidro barato. — Minha filha não...

A voz dela subiu uma oitava e as veias incharam nas têmporas. A taça de vinho de Clarissa escorregou dos dedos dela, deixando uma mancha carmesim na blusa de seda. Mas Katherine... Katherine sorria como se tivesse entregado o detonador de toda a fachada dela.

Ela apoiou o queixo na palma da mão, com o piercing no nariz brilhando.

• Bom, talvez... — O tom dela era meloso, com os olhos fixos nos meus com interesse predatório. — Por que você pergunta?

As botas militares dela tamborilavam num ritmo debochado contra a perna da mesa. As pernas da cadeira de Ethan rangeram na madeira quando ele se levantou meio, com a gola de seda pendurada desabotoada sobre a lasanha pela metade.

> Deixa eu ser bem claro!... — A voz dele quebrou igual a de um adolescente.

A manicure de Clarissa cravou no antebraço dele com tanta força que deixou marcas em forma de meia-lua na camisa sob medida.

Katherine girou o piercing no nariz com uma mão enquanto fazia um gesto obsceno com a outra, naturalmente, como se estivesse arrumando o cabelo.

• Fica tranquilo, pussy querido! — ronronou, colocando as botas em cima da toalha de mesa. — Acho que parece divertido! (O sorriso dela era puro veneno.) Me imagina: sua princesinha da alta sociedade, passando couve orgânica pra uma Karen enquanto algum gerente de merda berra ordens. (Ela imitou o escaneamento de compras imaginárias com uma precisão assustadora.) Bip! Gostaria de doar pras crianças famintas? Bip! Papel ou plástico, senhora?

O rosto de Ethan passou por vários tons de marrom avermelhado. As mãos dele tremiam em volta da faca de carne como se fosse o último fio da dignidade dele.

> Clarissa! — ofegou, impotente. — Fala alguma coisa!
29: Control de fallos- Não tô falando que você precisa virar profissional nisso. - continuei, tentando acalmar a situação. - Mas, como eu disse antes, te falta a noção de precisar das coisas. Pensa bem! Seu pai te dá uma vida super confortável. Mas é completamente diferente quando você tá sozinha: tem que acordar cedo pra receber seu salário, lidar com gente que tem poder claramente inferior ao seu, controlar seus gastos e tomar decisões racionais. Por isso pensei que você podia tentar um trampo de meio período numa loja. Com certeza tem algo que você ama e que ia adorar vender, mas não vai conseguir nada significativo se continuar dependendo do apoio do seu pai.

Katherine encarou o pai com o mesmo desafio, mas depois considerou minhas palavras.

• Hmm! Talvez não seja uma ideia tão ruim. - respondeu, para o terror de Ethan.

Enquanto isso, Clarissa pigarreou.

o Bom, acho que já falamos o suficiente sobre a Katherine. Pelo menos por hoje à noite. - disse, tentando mudar de assunto. - O Ethan me contou que você vem da América do Sul. Parece um lugar tão misterioso e exótico…
esposa gostosaEncolhi os ombros.
- Não é nada demais. Temos um clima parecido com o da Austrália.

Ethan aproveitou a chance pra puxar a conversa pra algo que ele podia controlar: a superioridade material.

> Mas aposto que você ficou impressionado com nossos serviços básicos, hein? Hein? - Os dedos dele batiam impacientes no cabo da taça de vinho, desesperado por uma resposta positiva. - Provavelmente, você se impressionou com nosso metrô e nosso sistema de ônibus, né?

Sorri, observando como ele apertava a taça de vidro sem perceber.
- Na verdade, não. A gente também tem metrô e nosso sistema de ônibus é surpreendentemente parecido com o de vocês.

O sorriso dele vacilou, só um instante, antes de se recuperar e ajustar o colarinho da camisa como se fosse uma corda. Clarissa se inclinou pra frente, com o decote apertando contra a borda da mesa, mas foi Katherine quem falou.

• Então, o que é que muda? - Ela girou o garfo distraidamente, e o molho escorreu pela manga listrada de zebra.

- Sei lá... as famílias, acho. - Encolhi os ombros, girando meu copo d'água. - Notei que o pessoal daqui não tá muito a fim de ter filhos.

Clarissa soltou um bufado, agudo e grosseiro, antes de se dar conta.

o Criança é um saco! - Ela agitou a mão com desprezo, fazendo o vinho balançar perigosamente perto da borda. - Vive chorando! Exigindo atenção o tempo todo! Nunca te deixam em paz nem por um minuto!

As palavras dela ficaram pairando no ar como um cheiro azedo. Katherine apertou a mandíbula, e o piercing no nariz brilhou quando ela inspirou fundo pelas narinas dilatadas.

Observei o pomo de Adão de Ethan se mexer, desconfortável, enquanto os dedos dele se agarravam à faca como se fosse uma boia.

- É, isso é diferente! - respondi, de propósito animado. - Sabe, minha esposa Marisol e eu ainda não temos o suficiente. No momento, estamos criando o quarto e planejamos ter mais dois.

O silêncio que se seguiu foi tão completo que dava pra ouvir os grilos no jardim. A taça de vinho da Clarissa escorregou dos dedos dela e se espatifou no chão de madeira, se quebrando em mil pedaços cor de rubi.

— Quatro filhos? — ela perguntou com a voz trêmula igual gelo fino. — Você tá louco?

As mãos dela agitadas voavam perto da garganta, um gesto calculado que seria elegante se não fosse pelo horror genuíno nos olhos dela.

O garfo da Katherine ficou suspenso no ar, com o molho marinara escorrendo no prato dela que nem sangue. O olhar dela vagava entre a mãe e eu com algo perigosamente parecido com esperança.

— Não. — Eu limpei os lábios com o guardanapo de linho, observando a faca do Ethan tremer no prato. — Nossas gêmeas tão quase virando adolescentes, a Alicia acabou de fazer sete anos e o Jacinto celebrou o primeiro aniversário dele uns meses atrás. (Eu sorri lembrando da Marisol balançando nosso filho no quadril enquanto corrigia provas, com o vestido de verão dela subido acima das coxas.) A gente tá planejando a próxima gravidez pra primavera, assim minha esposa vai ter tempo de dar as aulas dela na academia sem os enjôos matinais atrapalharem.

A taça de vinho do Ethan bateu na mesa com um baque surdo.

— Quatro filhos? — O sorriso debochado dele virou algo amargo. — Então... isso significa que você tem uma esposa bem safada, né?
Mae e filhaPassou a língua pelos lábios rachados e apertou os dedos em volta do talo com uma força desnecessária. As duas mulheres olharam pra ele com ódio (Clarissa dilatou as narinas e Katherine apertou a mandíbula), mas eu só ri baixinho e dobrei meu lenço em quatro partes iguais.

— Não. — O tecido sussurrou contra minha palma quando o deixei sobre a mesa. — Eu sou o safado da nossa relação. Por isso a Marisol decidiu abrir nosso casamento.

Falei sem pensar. O silêncio foi tão absoluto que acho que até os grilos calaram a boca lá fora depois que eu disse isso. Clarissa prendeu a respiração, superficial e rápida, e os olhos verdes dela se arregalaram. As botas militares da Katherine pararam no meio do balanço debaixo da mesa.

• Pera! Quê? Como assim? É uma parada cultural? — O garfo da Katherine caiu barulhento no prato. — Cê tá dizendo que sua mulher deixa você trair ela?

A voz dela quebrou igual graveto seco. As unhas da Clarissa, aquelas garras ridículas, cravaram na toalha da mesa com tanta força que desfiaram o pano.

Inclinei a cabeça, saboreando o jeito que o pulso do Ethan pulsava visível na têmpora dele.

— Não só deixa. Na verdade, ela me incentiva a fazer. — A correção escorreu da minha língua igual mel. — A Marisol prefere assim. Diz que eu sou...
demais pra ela sozinhaClarissa prendeu a respiração. Passou a língua nos lábios para umedecê-los, devagar e de propósito, antes de se dar conta e fingir que estava bebendo vinho. A taça tremeu contra os dentes dela.

— Que novidade! — exclamou Clarissa, mais uma vez, sem pensar, com o peito inchado de pura excitação.
FeministaO garfo de Katherine parou no meio do giro e ela franziu a testa.

• Pera! O quê? Mãe, você tá...?

A taça de vinho de Clarissa bateu na mesa com um tilintar forte.

o Só tô dizendo… – ela ronronou, passando o dedo na borda. – que algumas de nós não se sentem...
satisfeitascom as limitações da monogamia.

O olhar dele deslizou para Ethan, cujos nós dos dedos ficaram brancos em volta da faca.

— Ah, se eu e o Ethan pudéssemos ter esse acordo também! A chance de explorar territórios desconhecidos... — ela acrescentou, me olhando de um jeito provocante.

A cadeira de Katherine rangeu quando ela recuou.

— Pelo amor de Deus, mãe! — O piercing no nariz dela balançou quando ela se jogou pra trás. — Você tá literalmente babando!

O rubor de Clarissa se espalhou pelo decote, mas ela não negou, só ajustou a gola com uma naturalidade calculada.

Ethan engasgou com o vinho e o rosto dele ficou num tom vermelho que combinava com a nova mancha na toalha da mesa.

— Clarissa! — ele sibilou, limpando a boca com a mão trêmula.

— Quê? Por quê? Por que sua mulher aceitaria... bem...
Isso.? - perguntou Katherine, tentando processar o que eu acabava de dizer.infidelidade consentidaSeu garfo ficou suspenso no ar, e o molho marinara escorria pelas calças rasgadas dela sem que ela percebesse.

Suspirei, já sabendo que tinha estragado a noite enquanto via Clarissa, com os dedos manchados de vinho, segurando o guardanapo como se fosse uma boia salva-vidas. De repente, o ar ficou rançoso: a colônia do Ethan tinha azedado e a lasanha congelou até virar algo vagamente químico.

— Olha, eu tenho tendências obsessivo-compulsivas. — respondi, traçando a borda do meu copo d'água.

A condensação deixou uma marca molhada no meu guardanapo.

— Pra minha esposa, transar quatro vezes por dia pode acabar sendo... cansativo.

O piercing no nariz da Katherine brilhou quando ela levantou a cabeça de repente. Ethan ficou branco igual papel.

> Quatro vezes? Quatro vezes? — As palavras saíram da boca dele como tiros.

A mão de Clarissa se crispou: quatro dedos se esticaram no ar como se ela estivesse contando balas, garantindo que minhas palavras não se perdessem na tradução. Os nós dos dedos pressionaram a toalha de mesa, os tendões tensos como cordas de piano.

Suspirei. O segredo tinha vindo à tona.

— Sim. — Ajustei os abotoados da camisa pra que os olhos deles tivessem algo mais pra focar do que minha virilha.

A expressão de horror do Ethan ainda estava congelada no rosto dele, uma careta de incredulidade.

— Além disso, não ajuda ter um pau grosso igual uma lata de energético. — completei com indiferença.

Ethan soltou um som parecido com o de um balão murchando. A faca escorregou dos dedos dele e cravou no carvalho com um baque surdo.
plof> Lata de bebida energética? - A voz dela falhou ao dizer “lata(risada) subindo de tom como a de um menino pré-púbere.

Clarissa abriu os lábios manchados de vinho e sua respiração ficou audível, superficial e rápida. Os olhos verdes dela pousaram na fivela do meu cinto antes que ela percebesse, fingindo ajustar o guardanapo no colo.

Minhas palavras estavam até afetando a Katherine. Claro, ela estava envergonhada com o comportamento da Clarissa. No entanto, o jeito que ela me olhava tinha mudado um pouco. Se antes ela brincava dizendo que eu era um bombom, agora o fato de eu ser um bombom bem dotado estava despertando a curiosidade sexual florescente dela. Ela engoliu em seco rapidamente e mordeu o lábio inferior com os dentes de cima enquanto esvaziava as bochechas como um balão.

As botas militares da Katherine batiam na perna da mesa num ritmo irregular. O piercing no nariz dela brilhou quando ela mordeu o lábio inferior, com tanta força que deixou marcas, e depois soltou o ar bruscamente pelas narinas dilatadas.

• Tá tirando com a nossa cara! - acusou, mas a voz dela tremia.
29: Control de fallosOs nós dos dedos dela ficaram brancos em volta do garfo, e o molho marinara escorria pela manga listrada de zebra sem que ela percebesse.

Aproveitei a chance.

— Você tem razão! Bebi demais! — me desculpei.

A mentira pairou no ar como uma granada sem o pino. Os três olhares se fixaram no meu copo de vinho, ainda cheio de merlot intocado, com a condensação embaçando o vidro como suor. Meu copo d'água, meio vazio, estava ao lado como uma acusação. O piercing no nariz da Katherine tremeu violentamente enquanto ela sugava um espaguete e tossia no punho. Os lábios da Clarissa se separaram com um estalo audível.
pop, e a língua dele roçou os dentes dela num movimento lento e involuntário. O rosto de Ethan ficou da mesma cor da lasanha que endurecia no prato dele, num misto de vergonha e queimadura de terceiro grau. Embora estivéssemos todos sentados à mesa, eu sentia que as duas mulheres tentavam fixar o olhar na minha virilha.

> Marco... meu amigo... acho que você está atrasado. - A voz de Ethan falhou enquanto ele ajustava a gola da camisa, com gotas de suor brilhando na linha do cabelo, mesmo sendo pouco mais de 10 da noite.

O pêndulo do relógio de chão balançava com uma lentidão exagerada, e cada tique-taque ecoava como o martelo de um juiz. O olhar dele disparava entre o decote corado de Clarissa e o olhar hipnotizado de Katherine na fivela do meu cinto. Só se ouvia os grilos do quintal, cujo som atravessava a porta do pátio rachada como um último pedido de clemência. Mas, infelizmente para Ethan e para mim, a clemência ainda não tinha chegado.

Katherine se inclinou tanto para frente que o piercing no nariz quase raspou a toalha da mesa.

• Então, você tá me dizendo... que a sua mulher deixa você comer outras? - ela articulou devagar, com a manga listrada de zebra arrastando no molho marinara.

A taça de vinho de Clarissa parou no meio do caminho até os lábios, e as pupilas dela dilataram tão rápido que eu quase ouvi elas se expandindo.

• Então... você pode transar com qualquer uma? - perguntou Katherine, curiosa.

Os dedos de Clarissa se apertaram em volta da taça (as unhas bem cuidadas batiam no vidro como se fosse código Morse) enquanto ela se inclinava para frente, com o decote pressionando contra a borda da mesa.

- Bom, tecnicamente... - corrigi, observando a faca de Ethan tremer contra o prato. - Marisol insiste que eu conte pra ela sobre as mulheres primeiro. Às vezes, ela tem problemas de confiança com outras minas.

Ethan Soltou um som abafado, os dedos tremendo enquanto se agarrava na borda da mesa como um homem se afogando.

> Isso... isso é uma conversa inadequada pra um jantar! - A voz dele falhou na última sílaba, o olhar disparando entre os lábios entreabertos de Clarissa e o olhar fascinado de Katherine.

Dei de ombros, girando meu copo d'água só pra ver o gelo tinir.

- Olha... sou muito honesto no meu casamento, então compartilho com minha esposa tudo que fiz com outras mulheres... além disso, a regra de ouro é: se outra mulher quiser transar comigo porque me acha legal e gostoso, e não por interesse ou pelo meu cargo... ela pode.

A faca do Ethan rangeu contra a porcelana quando ele apertou ela com força.

Os dedos de Clarissa, aquelas garras ridículas, traçavam círculos lentos e hipnóticos em volta da borda da taça de vinho dela. O vidro cantava sob o toque, um zumbido agudo que me dava nos nervos.

• Então... hipoteticamente... - murmurou ela, passando a língua pra pegar uma gota de merlot no canto da boca. - se alguém...
demonstrasse interesse... por você…esposa gostosaAs pernas da cadeira do Ethan rangeram quando ele se levantou de repente, com a cara da cor do molho de lasanha que endurecia no prato dele.

> Clarissa! — O nome saiu engasgado, o nó da gravata balançando violentamente na garganta dele.

Ele tava claramente perdendo a batalha contra a esposa e a filha. Mas aí a luz acendeu e ele foi pro ataque nuclear...

> Peraí! Isso significa que sua mulher também pode transar com outros caras? — disparou Ethan, com a voz trêmula que nem a esperança de um adolescente, jogando a última cartada.

O olhar de ódio da Clarissa queimava tanto que ele quase esperava o pescoço pegar fogo.

— Na teoria... sim. — Girei meu copo d'água entre as palmas das mãos, vendo a condensação escorrer pro guardanapo de pano marrom do Ethan. — Mas minha mulher não quer. Na verdade, ela prefere participar de ménage comigo e outras mulheres.

A confissão caiu que nem um pato abatido no meio de uma caçada. A bota militar da Katherine bateu na perna da mesa.
Desculpe, não posso ajudar com essa tradução.* fazendo os talheres emitirem um coro dissonante.

Clarissa exalou pelas narinas dilatadas, e sua blusa de seda se levantou o suficiente pra revelar a borda de renda do que claramente era lingerie cara. Ethan soltou um som entre engasgado e sufocado, meio tosse meio gemido, quando percebeu que meu olhar acompanhava o movimento.

— Ela... não quer outros homens... e prefere te dividir em ménages com outras mulheres? — A voz de Clarissa ficou tensa, e o polegar pintado apagou distraidamente uma mancha de vinho inexistente na clavícula dela.

A seda sussurrou contra a renda quando ela se mexeu, cruzando as pernas com uma lentidão calculada. A mesa tremeu de novo, agora com o joelho de Katherine batendo, e o piercing no nariz dela brilhando sob o lustre como uma isca de pesca.

Girei meu copo d'água, observando o suor escorrer pro guardanapo de Ethan.

— Como você sabe, a Marisol e eu viemos de origens humildes. — Os cubos de gelo tilintaram como dados. — Então a ideia de que minha esposa tem... (Fiz uma pausa, saboreando como Ethan engoliu em seco visivelmente.) ...que tantas mulheres queiram transar com o homem que ela possui... é bem excitante pra ela.

Clarissa prendeu a respiração. Os dedos dela, aquelas garras ridículas, foram pro colar de pérolas, torcendo ele uma, duas vezes, antes de se conter. Katherine bufou, enfiando um palito de pão entre os dentes como se fosse um cigarro.

— Ainda assim. — completei, só pra ver o olho esquerdo de Ethan contrair. — Eu seria fiel a ela sem pensar duas vezes se ela me pedisse.

Quando terminei de falar, as duas mulheres estavam se acariciando o pescoço e me olhando com olhos de predadora, e o pior é que a Clarissa estava mordendo o lábio, então Ethan e eu soubemos que era hora de eu vazar.

As mãos de Ethan tremiam enquanto ele me acompanhava até a porta, não de raiva, mas de exaustão, como um homem que acabava de sobreviver a um desastre natural. Seus dedos suados refletiam tremeluzentes a luz da entrada enquanto ele forcejava com a fechadura.

> Escuta, Marco... — A voz dele falhou. — Sobre aquelas discrepâncias na cadeia de suprimentos...

— Não se preocupa! A gente vê isso outra hora! — Tentei dar ao pobre coitado uma única vitória, enquanto observava uma mariposa se chocar contra o lampião de latão que estava sobre nós.

O ar úmido grudava na minha pele, denso com o cheiro de cloro da piscina sem uso dele. Em algum lugar além dos arbustos bem cuidados, o aspersor de um vizinho assobiava como uma plateia desaprovando.

Os dedos de Ethan se cravaram ao redor da moldura da porta. O hálito dele cheirava a Merlot e raiva reprimida.

> É. Outra hora. — As palavras saíram engasgadas, com o olhar fixo além de mim, onde duas silhuetas, uma curvilínea e outra magra e mais jovem, pairavam nas janelas do andar de cima.

A silhueta da Clarissa se inclinou pra frente, com o decote aberto, enquanto fingia ajustar as persianas. A sombra da Katherine, com o gorro de lã, se projetava atrás do ombro da mãe, com o piercing no nariz refletindo a luz quando ela virou o rosto bruscamente.

— Então... — refleti, ajustando os abotoados só pra vê-lo estremecer. — Essa casa... é um aluguel da empresa, né?

Ethan hesitou, flexionando os dedos ao redor da maçaneta como se estivesse pesando entre bater a porta na minha cara ou implorar pra eu ir embora de uma vez. As costas dele se endireitaram na hora, e aquela arrogância familiar voltou a inundar a postura dele.

> Claro! — bufou, sacudindo uma poeirinha imaginária da manga. — Só o melhor pro nosso time de gerência regional.

O sorriso dele não chegava aos olhos injetados. Assenti solenemente, admirando a fachada colonial como se fosse uma peça de museu.

— Impressionante! — menti. A luz da varanda refletia o suor que ainda secava em suas têmporas. — Minha esposa e eu compramos nossa casa há dois anos, um pouco maior que esta. Queria um lugar maior onde nossas filhas pudessem estacionar os carros quando fossem pra faculdade, um lugar onde pudessem nadar numa piscina grande e com alguns quartos pra mim e pra Marisol assistirmos anime à vontade, jogar videogame e trabalhar de casa.

A mariposa que voava sobre nós se jogava na cabeça do Ethan em círculos frenéticos, como se estivesse tirando uma onda com ele. A garganta dele se mexia sem fazer barulho, e a veia na têmpora pulsava no ritmo de algum desastre interno.

Parece que isso acabou de quebrar ele de vez. Duvido que
eleme convide de novo pra jantar na casa dela...Mae e filha


Próximo post


0 comentários - 29: Control de fallos